terça-feira, 7 de abril de 2026

Projeto da CMPC em Barra do Ribeiro mobiliza empresários e políticos gaúchos

Projeto Natureza é considerado o maior investimento privado da história do Rio Grande do Sul, com previsão de R$ 27 bilhões de aporte

Projeto Natureza é considerado o maior investimento privado da história do Rio Grande do Sul, com previsão de R$ 27 bilhões de aporte

CMPC/Divulgação/JC
Gabriel Margonar
Gabriel MargonarO projeto bilionário da CMPC no Rio Grande do Sul deixou de ser apenas um processo técnico de licenciamento ambiental para se transformar em um dos principais pontos de tensão política e econômica do Estado em 2026. Em meio ao impasse, o tema passou a mobilizar empresários, governo, órgãos de controle e até pré-candidatos ao Palácio Piratini – todos preocupados com o futuro de um investimento estimado em R$ 27 bilhões.
controvérsia gira em torno do chamado Projeto Natureza, cuja licença é conduzida pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) e questionada pelo Ministério Público Federal (MPF). O órgão recomendou no início de março a suspensão do processo até que sejam ampliadas as consultas a comunidades indígenas potencialmente afetadas, ponto que, desde então, passou a travar o andamento da análise.
No entanto, enquanto o debate técnico avança lentamente, a reação fora dos gabinetes ganhou velocidadeO empresariado gaúcho, em especial, decidiu entrar de vez no tema: mais de 40 entidades já assinaram o manifesto "O RS merece crescer", defendendo o avanço do projeto. Além disso, um grupo ainda maior - reunindo 65 organizações no movimento Porto Alegre+ - divulgou um manifesto na semana passada elevando o tom ao falar em “profunda preocupação” com o risco de interrupção do licenciamento.
A avaliação, compartilhada por diferentes setores, é de que o impasse extrapola o caso específico da CMPC e passa a afetar a percepção do Estado como destino de investimentos. "Eventuais atrasos afastam investidores e impedem a geração de empregos e renda", diz o manifesto.
Representando o movimento, o presidente do Sinduscon-RS, Claudio Teitelbaum, resume o receio: "Quando um processo desse nível é questionado nessa fase, aumenta o receio do investidor". Segundo ele, o grupo não busca pressionar decisões, mas cobrar previsibilidade. "O que pedimos é celeridade, para que a empresa tenha clareza sobre os riscos."
A mobilização ganhou musculatura também em outras frentes. A Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) aderiu ao abaixo-assinado e passou a tratar o empreendimento como um dos mais relevantes em curso no Estado. Já a Federação das Empresas de Logística e Transporte de Cargas no Rio Grande do Sul (Fetransul) destacou, em manifestação, o impacto direto sobre cadeias produtivas, apontando efeitos na movimentação de cargas, na criação de rotas logísticas e na competitividade do Rio Grande do Sul.
No discurso empresarial, dois conceitos se repetem: segurança jurídica e previsibilidade. "Projetos dessa magnitude representam dinamização econômica em diversas regiões", afirma a federação do transporte, ao mesmo tempo em que ressalta a necessidade de respeito aos marcos ambientais.
Do outro lado, o Ministério Público Federal sustenta que as exigências são parte do rito normal de grandes empreendimentos. O procurador-chefe no Estado, Felipe Muller, classificou na última semana, durante o Tá na Mesa, da Federasul, como “corriqueira” a necessidade de ampliar a consulta a comunidades indígenas.
“Para todas as empresas de grande impacto, que de alguma forma vão atingir alguma comunidade indígena, a gente faz esse tipo de exigência”, afirmou. Segundo ele, ainda, o MPF realizou ao menos 16 reuniões com a empresa ao longo do processo e segue aberto ao diálogo - “o que não significa atender aos pedidos”.
ponto central do impasse está justamente na metodologia dessas consultas. Ao menos oito aldeias do povo Mbyá Guarani estão na área de influência direta do empreendimento, e o MPF defende que estudos técnicos não substituem a consulta formal prevista na Convenção 169 da OIT.
Entre esses dois polos - o econômico e o jurídico - o governo do Estado tenta equilibrar o discurso. Após reunião com a Funai, em Brasília, também na semana passada, a secretária estadual do Meio Ambiente, Marjorie Kauffmann, afirmou ao Jornal do Comércio que o Executivo saiu “confiante” e que o processo segue baseado em critérios técnicos. “O desenvolvimento e a sustentabilidade não são opostos, precisam avançar juntos”, disse.

Entrada de pré-candidatos ao governo do Estado no debate

O vice-governador Gabriel Souza (MDB), que irá disputar o Piratini em 2026, publicou vídeo nas redes sociais, nesta segunda-feira (6), afirmando que o Rio Grande do Sul “não pode perder” o investimento e criticando o que chamou de “questionamentos que geram incertezas”. Segundo ele, o Estado precisa se consolidar como ambiente estável para quem quer empreender.
Na mesma linha, o deputado federal Luciano Zucco (PL), também pré-candidato, articulou um abaixo-assinado ainda no final de março e apresentou moção de repúdio ao cenário de incerteza. Em manifestação nas redes sociais, classificou a possibilidade de perda do projeto como um “crime contra o desenvolvimento econômico”.
O processo, enquanto isso, segue travado em uma etapa decisiva. Hoje, o avanço do licenciamento depende diretamente da manifestação da Funai sobre a metodologia a ser adotada. A Fepam tem prazo até 20 de abril para responder ao MPF, enquanto a fundação federal deve se posicionar até 3 de maio.
Considerado o maior investimento privado da história do Estado, o Projeto Natureza inclui uma fábrica de celulose em Barra do Ribeiro, um terminal portuário em Rio Grande, um centro de pesquisa em Guaíba e a ampliação da base florestal. O aporte da CMPC equivale a cerca de 30% de todos os investimentos realizados no Rio Grande do Sul em 2025, segundo o Anuário de Investimentos do Jornal do Comércio.
A empresa chilena afirma que cumpre todas as exigências legais e mantém disposição para o diálogo. Em nota, a CMPC reforçou que o projeto prevê a geração de milhares de empregos e investimentos em infraestrutura, além de ações de preservação ambiental.
Por outro lado, ambientalistas apontam riscos proporcionais à escala, especialmente em relação ao uso intensivo da água do Guaíba e o lançamento de efluentes no lago. Para discutir isto, uma audiência popular na Câmara dos Vereadores de Porto Alegre será realizada nesta terça-feira (7), a partir das 18h.

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