terça-feira, 4 de agosto de 2015



04 de agosto de 2015 | N° 18247
ARTIGOS - MARCOS TROYJO*

A AUTOSSABOTAGEM BRASILEIRA


“OBrasil sai dessa? ” “Como termina essa crise?” O paí deixou o céu da euforia rumo ao inferno do desalento.

A história mundial das tragédias endógenas mostra, no entanto, que o Brasil não está sozinho dentre os que sofreram por fracassos autoinfligidos.

Na Argentina, há um século, o vilão da prosperidade corroída é o nacional-populismo.

Na Itália e na Alemanha nos anos 1920-30, o totalitarismo não resultou de um vírus externo “plantado”, mas da adesão de povo e elite a abjetos sistemas de poder.

Quando, em 1940-41, o Japão militarista enxergou em possessões francesas, britânicas e holandesas desprotegidas no Pacífico “oportunidade dourada” para seu expansionismo, poucos japoneses levantaram-se em oposição.

Na China, a Revolução Cultural paralisou o país por uma década (1966-76). Estratagema de demônios estrangeiros? Não, das profundezas da mente de Mao. A atual propulsão brasileira ao inferno alimenta-se de cinco combustíveis.

O primeiro: má gestão macroeconômica que coloca o país às portas de perder o grau de investimento.

O segundo: miopia na estratégia de inserção internacional. Não trabalhamos para ingressar nas redes globais de valor. Num ranking de 150 países compilado a partir do percentual do PIB representado por exportações, estamos à frente apenas de Afeganistão, Burundi, Sudão, República Centro-Africana e Kiribati.

O terceiro: hipertrofia da economia política Estado- capitalista. O quarto: propinodutos nas estatais e consequências paralisantes para a atividade econômica da guerra à cleptocracia. O quinto: o pronunciado e lamentável déficit de liderança pública.

Contudo, no caos brasileiro não há o mais perigoso dos alinhamentos. Nações só descem realmente ao inferno quando elites complacentes operam no vácuo da falência múltipla de instituições. No Brasil, nem toda a elite é parasitária do poder de ocasião. E muitas instituições, da imprensa ao Judiciário, encontram-se em pleno vigor.

Sartre dizia que o inferno são os outros. O Brasil não pode argumentar o mesmo. Suas agruras são majoritariamente fruto dos próprios pecados. O Brasil tem de pôr fim à autossabotagem.

*Professor da Universidade Columbia, onde dirige o BricLab


04 de agosto de 2015 | N° 18247
ARTIGO - MARCELO RECH*

UM NOVO ALVO DA LAVA-JATO

Para o bem da democracia, é alvissareira a inclusão na Operação Lava-Jato de um site que, segundo a Polícia Federal, teria recebido recursos desviados da Petrobras em troca de apoio ao governo. A extensão da Lava-Jato a uma parte do mundo digital que sobrevive nas sombras do Estado é salutar também para a liberdade de expressão, porque uma imprensa livre pressupõe que jornalistas e veículos de comunicação não se subordinem a motivações que não ousam dizer seu nome.

Desde o início do governo Lula, houve uma proliferação de sites e blogs que, às custas dos cofres públicos ou de organismos paraestatais, se especializaram em detratar desafetos do PT. Tais sites guardam algumas características em comum: são bancados no todo ou em grande parte por dinheiro público, atacam veí- culos e outros jornalistas e clamam para que as verbas oficiais sejam usadas para boicotar meios de comunicação com linha independente ou crítica ao governo, exatamente aqueles a quem querem “regular”.

A visão de que o poder público tem direito de abrir o caixa para beneficiar aliados e perseguir os demais está na origem da mentalidade na qual viceja o germe da corrupção e que desembocou em escândalos como o mensalão e o petrolão. Por esse raciocínio torto, o dinheiro dos contribuintes pertence ao governo e aos partidos que o compõem, e não ao Estado, que deveria ser sempre isento e técnico na aplicação de seus recursos. No caso da imprensa, lembre-se, o uso técnico de verbas oficiais exige audiências transparentes e que sejam auditadas ou aferidas de forma independente.

Nos últimos anos, José Dirceu foi um apóstolo da ideia de que o PT precisava estimular uma imprensa que lhe fosse fiel. O ex-ministro tentou, sem sucesso, criar um jornal que centralizasse a filosofia geral que deveria imperar nos meios vinculados ao PT. O que ele conseguiu foi espalhar por uma rede de sites e blogueiros o teor de seus escritos no Blog do Dirceu e montar uma linha de defesa do partido – no que tem todo o direito e liberdade, contanto que não use o nosso imposto para sustentar seus propósitos.

Ao colocar na mira da Lava-Jato sites que subsistem com verbas oficiais, os investigadores poderão dar sensível contribuição para uma faxina no universo da mídia chapa-branca que drena prefeituras, governos e estatais Brasil afora. Financiadores da prática anacrônica de comprar aduladores e se blindar de críticas, alguns administradores deverão pensar agora duas vezes no uso político de verbas de publicidade. No Rio Grande do Sul, por exemplo, o Tribunal de Contas do Estado começa a olhar para o tema e há possibilidade de que distorções em sites locais venham em breve à tona.

*Jornalista do Grupo RBS marcelo.rech@gruporbs.com.br


04 de agosto de 2015 | N° 18247 
DAVID COIMBRA

O mais triste dos homens


Histórias felizes são histórias banais. Se toda a sua vida for azul e cor-de-rosa, se tudo sempre der certo para você, não há dúvida de que você terá uma existência bem-aventurada, mas também não há dúvida de que ela será sem graça.

Por exemplo: Tibério. Esse homem tinha tudo para viver uma vida insignificante e feliz. Tornou-se infeliz, e é por isso que pessoas escrevem sobre ele ainda hoje, mesmo que tenha deixado de respirar há 2 mil anos.

Tibério foi o homem mais poderoso do seu tempo. Foi o segundo imperador de Roma, senhor de quase todo o mundo conhecido na época pelo Ocidente. Antes disso, foi o que queria ser: um marido que amava profundamente sua esposa e era em igual medida amado por ela. Melhor ainda: Vipsânia, esse o nome da esposa, estava grávida. Eles formariam uma família.

Porém, ah, porém, o imperador Augusto tinha outros planos para ele. O imperador queria torná-lo seu sucessor e, para isso, era importante que Tibério se casasse com sua filha, Júlia.

O projeto seria perfeito se não fosse por um detalhe: Tibério não queria se casar com Júlia e não queria ser imperador. Queria, apenas, viver sua vidinha com Vipsânia, criar seus filhos, beber seu vinho, comer seu prato preferido, que era tripas de pomba com mel, e ser esquecido pelo mundo. Mas essa não era uma opção para um romano daquela época. Augusto mandou, e Tibério teve de se divorciar de Vipsânia. Quando ela foi informada de que seria obrigada a se separar do amado, ficou tão chocada, que abortou.

Tibério, segundo o historiador Plínio “o Velho”, transformou-se, então, em “tristissimus hominum”, ou “o mais triste dos homens”. Ele jamais esqueceu a esposa. Um dia, vendo-a nas ruas de Roma, seguiu-a chorando, para comoção dos transeuntes.

Sua nova esposa, Júlia, nada fez para aplacar essa dor. Ao contrário: Júlia o desprezava e o traía sistematicamente. A dor de amor causou uma terrível metamorfose em Tibério: ele se tornou um monstro.

Depois da morte de Augusto, Tibério assumiu o trono, mudou-se para Capri e fez do seu palácio um antro de perversão. Escolhia meninos e meninas mal ingressados na adolescência para promover orgias tão criativas, que, se as descrevesse agora, você enrubesceria e interromperia a leitura. Até nenês de colo eram arrancados dos pais para satisfazer o apetite cada vez mais doentio do imperador. Sua paranoia crescia em idêntica proporção à voracidade sexual. 

Tibério passou a ver conspiradores por toda parte. Todos os dias alguém era acusado de traição. Famílias inteiras eram condenadas, homens, mulheres e crianças. Eram mortos por estrangulamento ou atirados de cima dos famosos Degraus Gemonianos. Quando chegavam ao solo, com os ossos quebrados, tinham seus membros dilacerados pela população sedenta de sangue. Roma virou uma República assassina. Quando Tibério morreu, a população, aliviada, gritava: “Tibério ao Tibre!”.

A vida de Tibério devia ter passado em branco para a posteridade. Ele devia ter sido desconhecido e feliz. O poder fez dele famoso e infame. No Brasil de hoje, 20 séculos depois, nós sabemos: para alguns homens, nada corrói mais o caráter do que o poder.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015



03 de agosto de 2015 | N° 18246 
DAVID COIMBRA

O pior dia da história do Rio Grande


Hoje é o pior dia da história do Rio Grande do Sul. Hoje, 3 de agosto de 2015, é um dia tristemente histórico.

Líderes de policiais civis e militares avisaram que as ruas das cidades do Rio Grande são perigosas para os cidadãos. O conselho dos responsáveis pela segurança pública é o atestado do fracasso da nossa sociedade: que todos fiquem trancados em casa, que se defendam como puderem, porque o Estado não o fará. Mulheres podem ser estupradas à luz do dia, o comércio pode ser saqueado, assassinatos podem ser cometidos. Não haverá repressão nem vigilância. Vale tudo, nesta terra sem lei.

Pobres de nós, gaúchos. Nós, que éramos tão altivos.

E o governador, o homem escolhido pelo povo para zelar pelo Estado, o que é feito dele? Sartori, simplesmente, sumiu. Anunciou o parcelamento dos salários dos funcionários, viu que as estruturas do Estado começavam a desmoronar e viajou para o Paraná.

Governador! Por favor, governador! Numa hora dessas, o senhor deveria estar negociando com os funcionários, deveria estar conversando com a sociedade, acalmando as pessoas, explicando a situação, tentando, pelo menos, demonstrar alguma preocupação com o que está acontecendo! 

Um governador de um Estado não é só um administrador; é um líder. Ele tem a legitimidade do voto. Com essa legitimidade, são dele o poder e a obrigação de buscar soluções. E, se não houver solução, pelo menos de fazer com que as pessoas compreendam por que não há. Não se omita, governador!

Mas o governador se omite. O governador, ao que parece, não se importa.

Enquanto isso, o ex-governador Tarso Genro usa as redes sociais para fazer ironias sobre a fraqueza do seu sucessor e jogar a culpa pelo que está acontecendo... na RBS!

A RBS é a culpada, ex-governador Tarso Genro? A RBS? Será que o senhor não tem nenhuma parcela de responsabilidade nisso tudo? O senhor governou o Rio Grande por quatro anos. Será que o Estado que o senhor deixou estava em perfeita ordem, e agora Sartori só tem de fazer o que está fazendo por sadismo? É nisso que o senhor quer que acreditemos, governador?

É muita desfaçatez! Se o Estado vinha mal, depois de Tarso piorou. Tarso legou o problema a Sartori, e Sartori não sabe como resolvê-lo.

O quanto há de irresponsabilidade e o quanto há de incompetência, isso nós, gaúchos, haveremos de um dia descobrir. Nós, que éramos tão altivos. Pobres de nós.


03 de agosto de 2015 | N° 18246
EDITORIAL

DESCONFIANÇA NA POLÍTICA


A crise de representatividade registrada hoje no país é uma ameaça preocupante para a democracia, que precisa ser enfrentada pelos próprios políticos.

A queda acentuada no índice de confiança dos brasileiros nas instituições políticas, confirmada agora por pesquisa de opinião pública recém divulgada, não chega a surpreender, levando-se em conta a sucessão de episódios negativos dos últimos meses. Ainda assim, o resultado deveria merecer uma reação imediata por parte de parlamentares, governantes e líderes partidários. 

Realizada a cada mês de julho pelo Ibope em cidades de todas as regiões do país, a pesquisa denominada Índice de Confiança Social demonstra um desgaste profundo na credibilidade do governo, de parlamentares e de partidos, sob todos os aspectos preocupantes para uma democracia.

Diferentemente do que ocorreu no início do primeiro semestre de 2013, quando as manifestações de rua fizeram desabar a crença nas instituições de maneira geral, desta vez o recuo concentrou-se nas de âmbito político. No período de 12 meses até agora, a confiança na presidente da República caiu pela metade, levando-a a ocupar a penúltima posição no ranking, junto com o Congresso Nacional, que também perdeu prestígio. 

O último posto da lista, que engloba 18 instituições e quatro grupos sociais, continuou com os partidos, que também registraram queda. E até mesmo os prefeitos, muitos dos quais voltarão a pedir voto no próximo ano, estão com a confiabilidade em baixa.

A crise de representatividade registrada hoje no país é uma ameaça preocupante para a democracia, que precisa ser enfrentada pelos próprios políticos. Eleitores, como os entrevistados no levantamento do Ibope, elegem seus representantes legislativos e gestores públicos na expectativa de que ponham em prática os discursos de campanha. 

O que se constata cada vez mais, porém, é que, depois de eleitos, na maioria das vezes em campanhas bancadas com dinheiro duvidoso, muitos deles passam a defender seus próprios interesses e o de apadrinhados. E só retornam ao convívio direto com o eleitorado na hora de disputar nova eleição.

A sociedade tem feito a sua parte, cobrando mais ética e mais compromisso com as demandas dos cidadãos. Muitas instituições, com a credibilidade inalterada ou até em alta na pesquisa, se empenham em cumprir o seu papel no combate à corrupção. Falta os políticos fazerem a sua parte, fortalecendo os partidos e reforçando seus compromissos, de forma permanente, com as demandas da sociedade.


03 de agosto de 2015 | N° 18246 
CÍNTIA MOSCOVICH

DO QUE É FEITO UM HOMEM


Fim de tarde no armazém de especialidades culinárias da Padre Chagas, no Moinhos de Vento. Como as duas vagas de estacionamento na calçada estavam ocupadas, encostei o carro junto ao meio-fio. Entrei, peguei uma cestinha e fiquei atenta, porque o rapaz que cuida da entrada do armazém chama os clientes quando é preciso manobrar.

Nem bem tinha pedido cem gramas de salaminho fatiado, quando me avisaram que era hora de manobrar e estacionar na vaga de direito.

Já na rua, vi que atrás do meu carro estava uma BMW preta, motorista ao volante. Fui uns três metros para a frente liberando a passagem e já ia dar ré para entrar na vaga da calçada, quando vi pelo retrovisor que o carrão embicou e estacionou no meu lugar. Desceu, na maior cara-dura, um senhor de seus 70 e poucos anos e que, diante do meu protesto, disse para eu estacionar naquele espacinho ali – apontava o lugar destinado a clientes em cadeira de rodas.

Claro que não estacionei ali coisa nenhuma e fiquei observando o dono de um carro que custa, por baixo, R$ 150 mil. Ele era a imagem do asseio: calça de abrigo e moletom cinza, cabelo grisalho e ralo, óculos escuros, celular e carteira na mão. Dele se poderia dizer que trabalhou a vida inteira como médico (ou advogado ou engenheiro), sempre foi bom marido, bom pai, bom avô, além de fazer doações eventuais para os necessitados e ser, por isto, muito estimado. 

Pensei que, além de caminhar no Parcão uma hora por dia, sabia comer com talheres de peixe. Imaginei, mais do que tudo, que o homem tinha noções de boas maneiras e até um senso mínimo de justiça – e que falava dessas coisas em tom professoral para seus filhos e netos.

Ao longo da vida, no entanto, deve ter sonegado impostos, mentido para levar vantagem, bancado o coitadinho e se aproveitado da boa fé alheia, embora dessas coisas ninguém mais próximo ficasse sabendo. Muitos menos ficaram sabendo, e nunca suspeitarão, que ele é capaz de roubar a vaga de estacionamento de uma mulher e de desconsiderar o espaço destinado a deficientes físicos – e que essa vocação para se achar com mais direito que os outros é sua capacidade mais essencial. Uma BMW e estacionamento pequeno: temos então a demonstração de que material um homem é feito.


03 de agosto de 2015 | N° 18246 
MOISÉS MENDES

LARANJA


Se eu decidisse fazer o que o Romário fez na semana passada, viveria dentro de um avião. Sábado retrasado, a revista Veja disse que Romário tinha o equivalente a R$ 7,5 milhões na Suíça. No dia seguinte, o senador pegou um avião e se tocou para Genebra, como quem decide ir a Espumoso.

Foi e descobriu, pelo que disse lá mesmo, pelo Twitter, que não há nada para ele no banco BSI, ao contrário do que Veja havia informado. Declarou-se frustrado e carimbou a cópia de um extrato mostrado pela revista – e que seria da conta dele – com a palavra falso.

Veja diz que não é bem assim. Insiste que Romário tem o dinheiro em seu nome e que o caso é investigado pelo Ministério Público. O problema todo é que Romário não teria declarado o dinheiro ao Fisco, o que configura delito.

Pois eu disse que viveria dentro de um avião, se fosse levar a sério esse tipo de informação, porque recebo todos os dias um aviso em e-mail de que há dinheiro farto à minha espera em algum lugar. Você, claro, também já recebeu.

São notícias sobre a morte de um milionário, ou de um homem só, ou de uma viúva que deixou uma dinheirama em Damasco para quem se dispuser a pegá-la. Já recebi comunicados de que posso ter acesso a dólares abandonados por investidores mortos em Kayseri, na Turquia, em Feyzabad, no Afeganistão, e em Cherkasy, na Ucrânia.

Tenho dinheiro disponível em todos os continentes. Respondi a um desses e-mails e pedi orientação. Um ucraniano separatista recomendou que eu entrasse em contato com Ibah Biktop Yushjaruynyw, diretor de captação de capitais suspeitos do United Continental Bank of Ukraine.

Obtive a resposta de Ibah de que deveria depositar US$ 150 mil, como sinal, para desbloquear o dinheiro. Tentei descobrir quem, afinal, era o dono original da conta e de quanto seria a fortuna. Me disseram que seriam US$ 97 milhões, que pertenciam ao russo Pyotr Bharuysko.

Quando estava levantando o sinal com um grupo de amigos, fui informado por Ibah Yushjaruynyw de que o dono do dinheiro reaparecera. A operação estava abortada. Bharuysko não era russo, mas um (laranja em ucraniano, como aparece no título deste texto) brasileiro, que estava recambiando o dinheiro para a sua terra, depois de um acordo de delação premiada.

Como se vê, eu e o Romário nos demos mal, por enquanto. Tenho aqui comigo outro e-mail com uma conta desativada em nome do investidor Nyesztor Cervyerok, do Cazaquistão, num banco sírio. Vou conferir. Não custa nada.


03 de agosto de 2015 | N° 18246 
L. F. VERISSIMO

A ideia


O diplomata francês Jean Monnet é creditado com a “invenção” do Mercado Comum Europeu, depois da II Guerra Mundial. Mas teve um predecessor famoso: Napoleão Bonaparte, que em 1812, às vésperas de invadir a Rússia com seus 600 mil homens, cheio de planos para o futuro depois de dominar os russos e expandir seu império até a Ásia, revelou que sonhava com uma Europa unida, com leis e um sistema judiciário comuns, os mesmos pesos e medidas – e a mesma moeda. A capital desses Estados Unidos da Europa bonapartistas seria, claro, Paris. 

A invasão da Rússia não foi como Napoleão esperava e suas tropas foram derrotadas, como se sabe, pelo General Inverno, o mesmo que, anos mais tarde, ajudaria a deter o exército de Hitler. O fracasso de 1812 foi o começo da derrocada do império napoleônico, que se completou com o exílio do imperador, e o fim de todos os seus planos, em 1815.

A Europa sonhada por Napoleão seria a primeira experiência de uma união continental depois da queda do império romano. Fora os romanos – cujo “império” foi uma coleção de províncias submissas, nada como um Estado múltiplo –, o que Napoleão imaginava não tinha precedentes. 

Era uma ideia sem base e sem modelo. Já a ideia de um Estado europeu proposto por Monnet e os outros arquitetos do Mercado Comum surgiu numa Europa cujas elites, em grande parte, se pareciam e compartilhavam a mesma cultura e os mesmos hábitos. Tinham até, em comum, o francês, a língua da diplomacia e, como sabe qualquer leitor dos russos de Tolstoi a Nabokov, a língua que os aristocratas falavam para não serem entendidos pelos servos.

Para também facilitar o sucesso da nova união, houve a II Grande Guerra e suas consequências. A guerra foi um exemplo do que precisaria ser evitado no futuro e a reconstrução da Europa depois dos estragos da guerra um exemplo da necessidade de um esforço conjunto que superasse fronteiras nacionais. 

O Plano Marshall, que ajudou na reconstrução da Europa, pode não ter sido uma pura amostra de altruísmo americano – seu objetivo maior foi assegurar para os Estados Unidos, que saíram da guerra como a maior potência industrial do mundo, um mercado europeu para a sua produção – mas também foi um exemplo inspirador de cooperação transnacional.

Mas nem Napoleão Bonaparte nem Monnet e os outros visionários poderiam imaginar que suas ideias seriam sequestradas pelo capital financeiro e a sonhada comunidade europeia acabasse numa desunião entre credores e devedores, um império de paróquias defendendo seus respectivos banqueiros, com a capital, claro, em Berlim. A ideia não era essa.

sábado, 1 de agosto de 2015



02 de agosto de 2015 | N° 18245 
MARTHA MEDEIROS

O primeiro beijo


Se antes as vozes eram graves, suavizam. Se antes havia cerimônia, ela se desfaz assim que os lábios se desgrudam.

Para quem tem Woody Allen como ícone, é imperdível o documentário sobre sua vida e obra. Não sei se ainda está em cartaz quando fui ao cinema, havia menos de 10 pessoas na plateia, não é exatamente um blockbuster. 

Durante o apanhado que o filme faz da carreira deste cineasta singular, aparece uma cena de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa que considero genial: o cara convida a personagem de Dianne Keaton para ir ao cinema e depois, ao saírem caminhando pela calçada, em meio ao papo, ele estanca de repente e diz a ela: Que tal se a gente se beijasse de uma vez para terminar com essa tensão e irmos comer alguma coisa?. Ela concorda, ele a beija por dois segundos e então voltam a caminhar e a dar prosseguimento à conversa do ponto onde haviam parado. Simples assim.

Se a cena parece boba, não é. É mais um acerto do olhar afiadíssimo do diretor para os detalhes que fazem das relações humanas o que elas são: um universo repleto de peculiaridades. O que pode ser mais potente do que um primeiro beijo? Pense. Vocês dois estão ali conversando, ou bebendo, ou dançando, ou fazendo qualquer outra coisa prosaica. Já há um clima no ar, mas ninguém confirma, pode ser apenas um delírio de uma das partes. Nada parece estar acontecendo, mas se estiver acontecendo de fato, só passará a valer a partir do primeiro beijo. Antes dele, era uma coisa. Depois dele, well...

O primeiro beijo transfigura a ação. Se antes as vozes eram graves, suavizam. Se antes havia cerimônia, ela se desfaz assim que os lábios se desgrudam. Se antes eram apenas bons amigos, agora se instalou a indefinição. O primeiro beijo remete a uma nova fase, a um novo feitio de relacionamento – ou acaba tudo, porque tem isso também: pode ser uma decepção e a fantasia terminar ali mesmo. Mas é raro: o primeiro beijo dificilmente age como finalizador. O mais comum é o primeiro beijo ser inaugural.

O primeiro beijo acaba com a tensão e traz de volta à cena essa mesma palavra, só que com o “n” a menos. O primeiro beijo traz a promessa de um segundo beijo, um terceiro, um quarto – principalmente um quarto.

O primeiro beijo faz valer a escova no salão, a depilação em dia, o Trident mascado momentos antes.

O primeiro beijo, se for muito ruim, ao menos aconteceu. Fim de estresse. Ninguém espera mais nada e a noite não foi totalmente perdida, ao menos ficaram esclarecidas as possibilidades (ou impossibilidades) de futuro.

Mas se for muito bom, pode levar você às nuvens ou até mesmo a lugares mais arriscados, como a um altar.

Em tempos de pegação em que não existe amanhã, pode parecer que escrevi esse texto sob efeito de um alucinógeno, mas quem acredita que o romantismo ainda sobrevive, mesmo respirando por aparelhos, vai entender. E lembrar.


02 de agosto de 2015 | N° 18245 
CARPINEJAR

Ratoeira do relacionamento


Se você dedicar seu mundo inteiro a uma pessoa, a entrega poderá ser vista como submissão. Você que está mergulhado no amor não percebe. Para você, é somente amor. Não representa obediência, escravidão, bajulação.

Não mede esforços para agradar sua companhia, para atendê-la, para fazê-la feliz.

É capaz de se endividar em segredo para corresponder suas expectativas. É capaz de omitir suas vontades para privilegiar os desejos dela. É capaz de não respirar alto dentro de casa para não atrapalhar.

Ela sabe que você é todo dela – eis o problema que também deveria ser a solução (afinal, ser todo de alguém é a premissa do amor).

Mas o alimento é a isca do veneno e você foi fisgado pela ratoeira do relacionamento: emparedado, encurralado, dependente, viciado, sem anticorpos, sem imunidade, sem defesa, preso em sua idealização.

Já se declarou ao extremo, eliminou qualquer incerteza de seu coração, assinou o atestado de óbito da solteirice. Sua doação não impõe mais desafio, não exige a reconquista de outra parte.

Está soterrado pela própria generosidade. De tanto dar, banalizou seu valor. Sua existência ficou barata. É um precatório a perder de vista.

Diante da exposição absoluta dos sentimentos, não é de duvidar que ela esnobe suas ações, conte que você come nas mãos dela, menospreze suas inúmeras gentilezas e deboche de suas constantes delicadezas.

Tornou-se inofensivo e previsível. Assumiu o risco de ser idiota e ingênuo, fragilizado em suas conexões com os amigos e familiares, absolutamente constrangidos com sua mendicância afetiva.

Atravessa um dilema sem saída. Ela jamais entenderá o peso de suas decisões, pois não mostrou seu sacrifício dia a dia, quis fingir uma naturalidade dos presentes, mimou e escondeu o trabalho por detrás de cada gesto, apresentou uma facilidade que não existia. 

Assim como pode tentar efetuar uma reprise de suas realizações dentro do namoro, apresentar os investimentos feitos, justificar sua abnegação, só que será inútil, não há estorno da espontaneidade, ela dirá que você está jogando na cara o que ofereceu de estorno da espontaneidade, ela dirá que você está jogando na cara o que ofereceu de graça, que vem cobrando os juros de sua falsa bondade.

Esta é a parada mais dura do romance, não vejo conserto da situação.

Ou está numa relação em que os dois entregam tudo ou tudo o que entrega será sempre nada.



02 de agosto de 2015 | N° 18245 
LUÍS AUGUSTO FISCHER

Às Altas Autoridades

Num sensacional monólogo de (e por) Alberto Muñoz que o Em Cena trouxe a Porto Alegre uns anos atrás, havia um bordão engraçado que falava nas “altas autoridades”. Quando as mencionava, o ator fazia um gesto de reverência que ao mesmo tempo só podia ser entendido com discreta ironia. (Na pronúncia brasileira, ainda tem um eco engraçado.)

Eu queria que este texto fosse lido pelas altas autoridades, de todas as esferas ligadas ao tema do Cais Mauá. Mas sem ironia. O prefeito Fortunati, o governador Sartori, sei lá quantos e quais secretários e ministros, assim como vereadores e deputados. Sei que minha bola não é para tanto, mas eu queria ser lido, ao menos desta vez, por todos eles.

Ei, altas autoridades, escutem aqui o meu pedido: vejam esse material que está em tinyurl.com/omfx6ak. Olhem com os olhos do cidadão comum que vocês uma vez foram e talvez voltem a ser. Vejam e pensem. Vejam e sintam.

Sim, claro, o leitor que não tem qualquer cargo nem vontade de estar num deles também deve gastar 15 ou 20 minutos para esse material. De que se trata?

Trata-se de um projeto alternativo para o Cais Mauá, aquele que está em vias de ser repassado para um grupo construir uma torre de escritórios e sei lá mais o que, ao preço de destruir alguns dos clássicos armazéns e de manter o lamentável muro, eternizando uma concepção que, pelo que consegui ver, apenas afundará o que está já submergindo, que é a relação das pessoas, os cidadãos da planície, como eu e o prezado leitor, mas também a relação das altas autoridades, com o Guaíba.

Veja lá, meu caro prefeito, prezado governador, vejam lá, deputados, vereadores, secretários, empreiteiros. Aquilo ali é uma riqueza paisagística e humana que não pode ser desperdiçada, nem deve ser privatizada, nem deve ser submetida a essa praga que é a lógica do automóvel. Aquilo ali é para ser vivido por todo mundo.

Vou usar outro argumento: um projeto como o que está no link vai dar orgulho a nós todos. Fortunati, desculpa a intimidade e a segunda pessoa do singular, mas olha ali: a gente vai deixar para filhos, netos, bisnetos, para os visitantes do Interior e do Exterior, para nós todos, um legado de incalculável valor – valor que estão querendo calcular para fazer caber em planilhas elementares. Sartori, desculpa também a intimidade que não temos, mas olha lá e me diz: não seria uma beleza?

Em vez do muro, uma barreira móvel já testada e viável em muitos lugares. Em vez de um arranha-céu para poucos, uma vista aberta e espaços para atividades que a cidade já faz, deseja e necessita. Em vez de mais vagas para carros privados, um meio de transporte coletivo, limpo, silencioso, como a gente vê em toda parte, na Europa e no Sudeste asiático mas também em lugares improváveis do Novo Mundo, que se preocupam com a qualidade da cidade.

Fortunati, Sartori, altas autoridades em geral: não se deixem prender pela lógica imediata das planilhas de custos e pela conversa catastrofista de que os entes públicos têm que sair fora da gestão e da iniciativa na vida das cidades. A chance dourada que vocês têm não é pequena: entrar para a história como os gestores que souberam pensar o coletivo, a cidade para todos, a paisagem e o patrimônio cultural como bens de todos.

E fiquem desde já convidados para um mate, por minha conta, na beira do Guaíba, onde uma vez os índios tomaram banho, pescaram e pensaram na vida; onde depois os lusos – famílias ou desgarrados, pais de família ou bandidos, militares e civis – ancoraram; onde africanos e descendentes escravizados desceram para sofrer o horror da servidão e onde suaram para embarcar e desembarcar cargas; por onde passaram imigrantes alemães e italianos nossos maiores, a caminho das colônias que fizeram prosperar, e onde alguns desembarcaram para fazer a vida na capital; onde Porto Alegre se fez o que é e o que virá a ser.

Bem ali, altas autoridades, a gente pode construir uma novidade para agora e depois: um lugar recriado segundo o que há de mais interessante em matéria de urbanismo como um bem coletivo.

Conto com vocês?



02 de agosto de 2015 | N° 18245 
ANTONIO PRATA

Sua vez


Eu vinha voando, era como aquele banquete no final do Asterix, só que no jardim da minha avó, eu vinha planando devagarinho em direção ao javali e já estava quase dando uma dentada no glorioso pernil quando uma dedada nas costelas me fisga de volta ao mundo dos vivos: “Sua vez, sua vez, vai lá que ele tá chorando faz tempo”.

Leva a eternidade de uns dois segundos pra eu entender que não sou um gaulês vitorioso, não sei voar, não há banquete nem javali, são quatro e doze da manhã, metade das cervejas de horas atrás ainda circula no meu sangue, em forma de álcool, a outra metade já se emplasta em meus neurônios, em forma de ressaca, meu filho chora no quarto ao lado e cabe a mim tomar uma atitude.

Eis a minha atitude, tão honrosa quanto permite a situação: “Eu fui à uma!”. Do outro lado da cama, porém, vem a resposta incontornável: “Eu fui às três”. Sou eu, não resta dúvida, quem terá que deixar esta cama quentinha e sair tropeçando pela noite escura. Caso precise fazer uma mamadeira, gelarei os pés nos antárticos azulejos da cozinha. Caso precise trocar a fralda, acabarei com cocô nas mãos, nos braços e há chances nada remotas de levar um jato de xixi, no meio da testa. Tais vislumbres não me parecem ruins: eles doem.

Diante desta dor, deste frio, deste sono que vem de algum lugar entre as trevas antediluvianas e as cervejas pós-jantar, não sou mais uma pessoa boa, um pai esforçado, um filho da revolução cultural dos anos 60 que acredita em direitos iguais para homens e mulheres, sou um monstro cujo único objetivo é seguir dormindo – um Cíclope cujo olho solitário só enxerga o travesseiro.

Penso que se eu simplesmente não for, se eu virar pro lado e dormir, alguma hora, depois de pedir o divórcio, minha mulher terá de ir, mas não me parece uma boa estratégia, o divórcio. Penso em dizer “Não vou porque eu trabalho o dia inteiro pra sustentar essa família!”, mas a minha mulher também trabalha o dia inteiro pra sustentar essa família. Penso, então, em tomar coragem e agir como um homem: dizer que tô indo comprar cigarros na esquina e nunca mais voltar, mas é inútil, pois para ir comprar cigarros na esquina e nunca mais voltar eu teria que abrir mão de tudo o que me é mais precioso; esta cama, agora.

Entorpecido pelo coquetel de sono, álcool e choro de bebê, penso, nostálgico, em Bogart, em Tony Soprano, em Don Draper. Duvido que tenham trocado uma fralda, sequer. Invejo os colonizadores europeus. O exército de Gengis Khan. Os romanos e os gauleses. Homens num mundo de homens, por homens, para homens. Um mundo em que a fumaça vinha dos assados ou dos vilarejos incendiados, não dos sutiãs queimados em prol da – por quê?! Por quê?! – igualdade.

Maldito iluminismo! Maldita Inés de la Cruz! Maldita Casa de Bonecas! Maldito século 20! Maldita psicanálise! Maldita Simone de Beauvoir! Malditos filmes europeus! Maldita Virginia Woolf! Malditos hippies! Maldita Yoko! Maldita Leila Diniz! Maldito parto humanizado! Malditas peladonas de protesto! Malditas lésbicas da novela! Malditos vibradores! Malditos! Malditas!

“Vai! É a sua vez!” – e eu vou, praguejando contra a injustiça de um mundo justo, tropeçando pela noite escura.



02 de agosto de 2015 | N° 18245 
MOISÉS MENDES

Olha o Datena aí, gente


Espalhou-se como contágio o sentimento de vitimização entre os eleitores que se queixam da corrupção nas hostes do PT. Repetem que o partido da moralidade corrompeu todo mundo, dos empreiteiros a um vice-almirante, e traiu os que nele acreditaram. O consolo é que os crédulos se sentem automaticamente anistiados da ideia ingênua de que enfim um partido faria política limpa.

O PT teria traído os puros. É uma imagem autoindulgente e confortadora de quem se sente enganado, inclusive a direita. Com o PT corrompido, os grandes partidos igualaram-se.

Estamos todos liberados para transferir nossas melhores expectativas a quem nos oferecer de novo, mesmo que como farsa, a ideia da pureza perdida – ou podemos almejar que um impuro, mesmo um de antigamente, segure as demandas da classe média que o PT esnobou.

Eduardo Cunha, como velha novidade, já absorveu parte desses anseios. Os que apostaram nele – porque põem em dúvida a capacidade de um tucano vencer um petista na quinta disputa seguida desde o início do lulismo – podem esquecê-lo.

Cunha está seriamente avariado. Tentar consertá- lo sai mais caro do que pegar um antipetista genérico promissor. E ele já existe. Vamos acompanhar os movimentos de José Luiz Datena. O apresentador de TV quer ser prefeito de São Paulo pelo PP. Se conseguir, vai voar alto.

Datena disse em entrevista à Kelly Mattos e ao Luciano Potter, no Timeline Gaúcha, ser contra a roubalheira e a bandidagem, os políticos antigos, as ciclovias, os radares que multam, a redução da velocidade em São Paulo e tudo isso que está aí.

Teme-se que a Lava-Jato faça aqui o que aconteceu na Itália. O novo para eles, pós-devassa nas máfias, foi a ética do Berlusconi. Para nós, pode ser o moralismo antibandidagem do Datena.

Anote algumas frases dele no Timeline: água e óleo não se misturam; até pouco tempo, os caras achavam que a Terra era plana; falcatrua e dinheiro sujo eu não aceito; um partido é um meio de se levar uma candidatura.

A melhor frase é a última. Aí estaria o novo. Datena não é algo esdrúxulo – assim como Collor, em quem alguns conhecidos seus votaram em 1989, de esdrúxulo não tinha nada.

Um partido, às vezes, é o jeito de se levar adiante uma candidatura? A política fica nos devendo uma nova chance de acreditar nos limpos e nos puros.

David Coimbra escreveu na sexta-feira que eu gosto do governo do PT e me pôs na mesma turma do Luis Fernando Verissimo e do Jorge Furtado. Pois saiba, meu amigo David, que gosto dessa turma. Mas só gostei de um governo, o de Jânio Quadros, porque minha madrinha Zina dizia ser o melhor.

Participei da passeata da vitória do Jânio, carregando vassouras com meus irmãos na carroceria da picape Jeep do padrinho Pedro pelas ruas do Alegrete. Jânio renunciou em 1961, menos de um ano depois de eleito, e me enredou nas dúvidas dos meus oito anos: mas como, se era o melhor governo do mundo?

Minha madrinha, percebendo meu primeiro dilema político, disse um dia, resignada: foi-se, porque tudo que é muito bom acaba rápido. Por isso, sinto saudade do governo do homem que iria varrer a bandalheira.

Tudo no Brasil se repete, e a política vive dos crédulos. Agora, é o Datena que vem aí. Os mesmos que inventaram o Collor e tentaram inventar o Eduardo Cunha vão se divertir. Que situação, David. Até o antipetismo está em crise.

02 de agosto de 2015 | N° 18245 
L. F. VERISSIMO

A teoria do pinto

Uma das teorias sobre o começo da civilização é a teoria do pinto exposto. Quando os primeiros hominídeos desceram das árvores e foram viver na savana, uma das consequências de andarem eretos e terem que se espichar para pegar as frutas foi que seus orgãos sexuais ficaram expostos ao escrutínio das fêmeas. 

Estas poderiam organizar uma sociedade baseada na sua observação da novidade, dando o poder aos mais potentes, ou melhor aparelhados, o que inviabilizaria um tipo de hierarquia baseada na inteligência, na habilidade como caçador e provedor, na liderança, nos belos olhos ou em qualquer outra qualidade do macho. As fêmeas também escolheriam parceiros sexuais entre os visivelmente mais bem-dotados, o que decretaria o fim da linhagem dos pintos pequenos, que nunca se reproduziriam.

Para evitar que isso acontecesse, os machos tomaram providências, começando por tapar suas vergonhas. A civilização começou pelas calças, ou o que quer que pudesse ser usado como tapa-sexo nas savanas. E os machos trataram de desviar a atenção do tamanho do pinto, inventando a linguagem, o fogo, a roda, a escrita, a agricultura, a indústria, a ciência, as guerras e todas as afirmações masculinas que independem do tamanho do pinto. Tudo, de um jeito ou de outro, extensão da primeira calça.

Assim, a civilização começou como um disfarce, para roubar da fêmea o seu papel natural de guia da espécie, escolhendo o reprodutor que lhe serve pelo pinto e não por suas posses ou poemas. Toda a nossa cultura misógina vem do pavor de que a mulher retome seu poder pré-histórico e, não sendo nem prostituta nem nossa santa mãe, tire nossas calças.

A supervalorização da virgindade como havia até pouco tempo e a estigmatização civil do adultério como ainda consta da lei brasileira são tentativas de garantir quer a mulher só descubra o tamanho do pênis do marido quando não pode fazer mais nada a respeito.

A própria discriminação da mulher no mercado de trabalho é para lembrar as fêmeas do seu lugar subalterno na civilização dos homens. Lembrá-las de quem usa as calças.

Independentemente das teorias, a virgindade é um tema para muitas divagações. Ninguém, que eu saiba, ainda examinou a fundo, sem trocadilho, todas as implicações do hímen, inclusive filosóficas. Já vi o hímen – que, salvo grossa desinformação anatômica, não tem qualquer outra função biológica a não ser a de lacre – descrito como a prova de como o universo é moralista. 

Levando-se em conta a dor do defloramento e mais as agruras da ovulação e do parto em comparação com a vida sexual fácil e impune do homem – cujo único trabalho num parto é impregnar a mulher e depois ficar numa sala de espera da maternidade, lendo uma Caras antiga – a misoginia do mundo é evidente. Mas, em comparação com o que a mulher, historicamente, sofreu numa sociedade dominada por homens e seus terrores, o que ela sofre com a natureza é pinto. Com trocadilho.



RUTH DE AQUINO
31/07/2015 - 20h31 - Atualizado 31/07/2015 20h34

O mau pagador de promessas

Você precisa comprar a pauta-bomba de nosso governo: cortaremos na carne, na sua carne, morô?


Devo, não nego. Pagarei quando puder. E com a ajuda de vocês. Governadores, prefeitos, deputados, senadores. Mas apelo sobretudo a você. Você pai ou mãe de família, que perdeu seu poder de consumo, perdeu o emprego, perdeu salário e crédito, perdeu conforto e esperança, perdeu economias, perdeu sua lojinha, sua microempresa, seu apartamento, seu carro. Perdeu até as estribeiras, porque se sente intimidado por gangues das ruas e dos palácios.

Você precisa vestir minha camisa, que é a camisa do Brasil, agora em tamanho menor devido à dieta argentina. Você tem de acreditar, mesmo que o PT tenha provado ser um mau pagador de promessas. Eu e o Guido no ano passado pedalamos a mesma bicicleta, aquela de dois lugares, para atropelar todas as contas que atravessavam nosso caminho glorioso. Mesmo assim você precisa se sacrificar.

Você precisa nos ajudar a manter bem altos os lucros dos bancos, porque eles sempre se dão bem, já reparou? Com a ajuda de cortes, câmbio e juros, os grandes tiveram lucros históricos. Você precisa aceitar calado a redução do salário, você precisa cuidar de seu rombo particular. Porque o meu rombo no primeiro semestre foi inédito na história, um deficit de R$ 1,6 bilhão de janeiro a junho. Um rombão, tudo é aumentativo por aqui, mensalão, petrolão, eletrolão.

Você precisa reunir a família, assim como eu reuni os meus parentes próximos e distantes, os governadores dos Estados. Para explicar que a gastança e o desperdício têm de parar. E, claro, eles entenderam que, se eu for atingida, eles vão junto. Como se não bastasse o Brasil perder selo internacional de bom pagador, ganhará o selo de mau gastador.

Você precisa sobretudo comprar nossa “pauta-bomba”, que é a seguinte: cortaremos na carne, na sua carne, entendeu? Não falo de churrasco de fim de semana, esse já era. Falo de cortes mais nobres. Cortes de gastos públicos, que eu e o Levy prometemos. Vamos cortar no sal grosso: no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), na Saúde e na Educação. Morô? Não, esse verbo não, lembra o sobrenome daquele juiz que não larga o meu pé nem o de meus companheiros empreiteiros. Juiz posudo, metido a italiano da gema, com ternos bem cortados e essa obsessão de lavar tudo a jato, como se a água e meu governo fossem acabar amanhã.

Você sabe que tem gordura nos hospitais e nas escolas, não? Gordura no chão, nos corredores, nas salas de cirurgia e de aula. Ah, você deixa esses itens do orçamento doméstico para cortar por último? Você preserva ao máximo a saúde e a educação de sua família e prefere cortar primeiro os supérfluos? Entendi: é porque você valoriza a vida e o futuro deles e a oportunidade real de crescimento digno e sustentável.

Por isso a classe média não vai para a frente, cai no cheque especial, paga juros escorchantes no cartão de crédito. E a gente (nós e os intelectuais do PT) tem ojeriza a esse pessoal conservador, não afeito a riscos, enfim, uma classe média reacionária. Não é uma categoria politizada. Além de ser gigante, difícil de ser manobrada, a classe média cultua a ideologia do bem-estar da família. E ponto.

Você também sabe que a gente gosta de dar esmola aos pobres e de adular os ricos. É a tal governabilidade, uma receita infalível. Posar de mãe de miseráveis e se locupletar com os grandes projetos. Vimos agora que o nuclear entrou na dança premiada. Minha geladeira vive abarrotada de energéticos para aguentar o tranco de nossa House of Cards.

Graças a Deus que lá também, no Congresso, acabou a mamata. E também a proteção que dávamos ao ex-PMDB comportado de Sarney. Agora o Congresso quer me derrubar, prefere o diretor da escola, aquele que parece uma esfinge e não diz nada, você sabe quem é, só espera mais um passo meu em falso. Bota falso nisso. Agosto começou e deveria ser menor. Vou arrumar umas viagens internacionais.

Já nos livramos da Catta Preta, a advogada de delatores que se mudará para Miami por medo. Você também tem medo, não? É a lógica de gangues que impera no país. Viu as cenas no Brás, em São Paulo, com cidadãos, muitos idosos, cercados e roubados por abutres? Você se sente ameaçado por taxas e impostos, por assaltantes, golpistas e policiais, por empresas de serviço, todo mundo tascando um pedacinho seu? Tente um pacto, como eu.

Esqueçam minhas pedaladas fiscais, me ajudem a aprovar minhas contas no TCU, não deixem que a Caixa e o Banco do Brasil cobrem de mim mais de R$ 1 bilhão em taxas dos programas sociais. Reclamem menos da inflação de hoje porque ela tende a piorar amanhã. Não critiquem inaugurações de clínicas sem médicos ou fechamento de escolas sem professores. Não somos um governo-bomba.


01 de agosto de 2015 | N° 18244 PALAVRA DE MÉDICO
J.J. CAMARGO

PÉROLAS PORTUGUESAS


As rusgas que os patrícios adoram fomentar na defesa da língua portuguesa


Passar uns dias em Lisboa é sempre uma maravilha. A cidade é linda, a mistura do novo e do decadente tem uma harmonia que comove, os resíduos da imponência histórica são impactantes, a culinária é original, o povo é afável e sempre se renova a promessa de voltar, não importa quantas vezes o ritual tenha se repetido.

Quando se está em companhia de outros brasileiros, é inevitável que se passe a limpo as últimas rusgas que os patrícios adoram fomentar na defesa intransigente da língua portuguesa, um embate ainda mais hilário se aliado à inabalável lógica lusitana.

Na noite de Lisboa, à espera do jantar, jorraram histórias maravilhosas:

O cirurgião paulista toma um táxi no aeroporto:

– Para onde vamos? – Vila Galé.

– Desculpe, mas aqui em Lisboa tem várias, qual o endereço?

– Não tenho o endereço.

– Como vou levar-te a um sítio se nem sabes onde é?

– Fica perto do Centro de Convenções.

– Nunca ouvi falar!

– O senhor não sabe onde é o Centro de Convenções em Lisboa? Não acredito!

– Nunca ouvi falar! – Bom, fica junto da ponte 25 de Abril!

– Bom, essa toca eu conheço, então vamos para lá. Pode ser que achemos!

Quando se aproximam, se vê o prédio enorme com letreiro gigante: Centro de Congressos de Lisboa.

– O senhor está vendo? Este é o Centro de Convenções que eu falei!

– Raios, o senhor tinha que ter falado Centro de Congressos, porque convenção, para nós, é um acordo que se pode fazer entre duas pessoas, e eu não saberia nunca do que estavas a falar. Pois!

Esposa de conferencista brasileiro acorda desconfortável com a altura excessiva do travesseiro. 1397124194O marido solícito liga para a mucama e pede a troca por um travesseiro mais baixo. Cinco minutos depois, a portuguesa está à porta com a encomenda. O marido recebe o travesseiro, agradece, e se prepara para fechar a porta, mas ela continua imóvel.

– Desculpe, alguma coisa errada?

– Não exatamente errada mas, para se completar a operação, o senhor deve me devolver o outro travesseiro porque, afinal, foi solicitada uma troca, pois não?

Final da sessão da manhã, congresso no topo de um edifício de 20 andares, saguão cheio, todos loucos para descer, e abre-se a porta do elevador gigante. O médico brasileiro, no piloto automático, pergunta:

– Desce? O velhinho ascensorista, irritado com a estupidez da questão, responde calmamente:

– Este elevador só não faz movimentos rotatórios e para os lados. Tanto sobe quanto desce e no momento estamos parados!

Uma pergunta que ficou: quanto tempo dura um passeio de 20 andares com o elevador cheio de gente se divertindo às custas de um infeliz distraído?

Voo da TAP, classe executiva, casal sofisticado, mulher loira e afetada. Aproxima-se o chefe dos comissários e pergunta:

– Boa noite. Gostariam de jantar?

A mulher põe os cílios postiços a vibrar e devolve a pergunta:

– Quais são as opções? E a lógica portuguesa, que estabelece uma coisa de cada vez, prevaleceu:

– Sim e não! Casal de brasileiros, em viagem de carro pela Europa, na era pré-GPS, se atrapalha num trevo na zona de Viseu e pergunta a um velhinho que passava:

– Por favor, meu senhor, esta estrada vai pra Espanha?

– Melhor que não vá, faria muita falta aqui!

Brasileiro, na classe executiva da TAP, acorda lá pelas 3h da madrugada com vontade de ir ao banheiro. Quando surpreende uma fila de quatro necessitados, resolve recorrer àquele banheiro que, em geral, existe entre as classes executiva e econômica. Quando se aproxima da zona presumida, percebe que vem um baixinho da área econômica, com aparente mesma intenção. É bruscamente interceptado pelo comissário, que o repreende:

– Econômica? Lá no fundo, lá no fundo!

O gajo, constrangido, se retira e, então, o comissário gentilmente orienta o brasileiro:

– Quanto ao senhor, isto aqui é um armário, não se trata de um banheiro, podes voltar pro seu lugar!

Há alguns anos, eu tinha sido convidado para uma conferência em Coimbra e fui apanhado por um grupo de cirurgiões no aeroporto de Lisboa para a viagem de carro. Na saída, passamos por uma placa que anunciava: Perdidos e Achados. Ignorando uma das melhores oportunidades de calar a boca, comentei:

– Engraçado, no Brasil, nós dizemos Achados e Perdidos.

E, então, o mico que podia ter sido evitado:

– Aqui estamos acostumados a perder antes de achar!

Bem feito.


01 de agosto de 2015 | N° 18244 
NÍLSON SOUZA

O PAÍS DAS ALICES


Tenho saudade da Alice, de sua meiguice, do seu jeito doce de invadir o nosso final de tarde na Redação. Alice é o anjo da Ângela, nossa ex-colega de ZH e agora professora de Jornalismo na ESPM. A menina está com oito anos. Quando nos visitava regularmente, aos sete, quase sempre era saudada por este escriba com um comentário lógico, embora pouco criativo:

– Chegou a moça do país das maravilhas!

Ela só sorria. Já devia ter ouvido trocentas vezes que seu nome evoca o livro célebre. Não sei se seus pais fizeram a escolha por causa da história do Chapeleiro Maluco ou em homenagem a alguma avó, mas provavelmente essa senhora ou alguma outra da família tenha sido batizada sob inspiração da obra do britânico Charles Lutwidge Dodgson, mais conhecido pelo pseudônimo Lewis Carroll. A publicação original, que virou filme, desenho animado e outros livros, está completando 150 anos por estes dias e recebendo merecida reverência em todo o mundo.

A personagem central da narrativa enigmática é exatamente a menina Alice, curiosa, valente e voluntariosa, que desafia o desconhecido e alcança seus objetivos utilizando a integridade como arma. Por isso a heroína da história, que foi inspirada numa Alice real, gerou tantas outras Alices – como explica brilhantemente a psicanalista Diana Corso, em artigo que está sendo publicado na edição dominical deste jornal e que, na condição de editor, tive o privilégio de ler em primeira mão.

De onde se conclui que nem todas as Alices se chamam Alice. Muitas mulheres (todas, talvez) têm algo da menina corajosa e questionadora, que enfrenta obstáculos com determinação e não se cala diante do arbítrio. O país das Alices é o gênero feminino, encantador e misterioso.

Na última vez que esteve por aqui – já contei uma vez –, a nossa pequena Alice tocou violino para seus amigos adultos e deixou na sala onde trabalho os sons de sua música infantil e do seu riso puro.

Como não ter saudade? A professora Ângela está nos devendo essa visita.



01 de agosto de 2015 | N° 18244 
DAVID COIMBRA

O homem e o leão

“Do que come saiu o que se come. Do forte saiu a doçura.”


Foi esse o enigma proposto por Sansão aos convidados do seu casamento com uma filisteia, há pouco menos de 3.200 anos, quando não existia Facebook, não existia celular, não existia Netflix, não existia Maserati, mas já existia casamento.

Você, que conhece a história desse super-herói dos hebreus, sabe bem a que ele se referia: algum tempo antes de suas núpcias, Sansão caminhava pelo deserto quando foi atacado por um leão jovem. Como era dotado de força descomunal, Sansão matou a fera “como se fosse um cabrito”, segundo o livro dos Juízes.

Considero essa informação preciosa, porque não sei se teria força para matar um cabrito com as próprias mãos, o que talvez seja uma vergonha para quem é filho do velho Gaudêncio, que, no Alegrete, derrubava um touro a unha, tomando-o pelas guampas, e depois o mantinha imóvel no solo e amarrava suas patas como se ele fosse... bem... um cabrito.

De qualquer forma, o que interessa é que Sansão deixou o corpo do leão rojado na areia quente e foi se ocupar com seus afazeres. Semanas depois, ele passava de novo pelas imediações e decidiu ver o que era feito da carcaça do animal. “Mas eis que na boca do leão estava um enxame de abelhas com mel”, relata o livro. Sansão, então, colheu da colmeia uma fava de mel e saiu se lambuzando.

Sansão sentiu justo orgulho de sua façanha, até porque não foi ele quem pediu briga. O leão é que veio, ainda que a carne humana não seja a favorita dos grandes gatos, com raras exceções.

Ferozes exceções foram dois leões especialíssimos do fim do século 19. Consagraram-se como devoradores de gente militando em Tzavo, no Quênia, terra do pai do Obama. Eles eram chamados de Sombra e Escuridão. Há um bom filme de Hollywood a respeito. Sombra e Escuridão eram leões sem juba, enormes, com mais de três metros de comprimento. Vi fotos deles. Suas peles estão expostas num museu de Chicago e parecem menores do que os corpos que envolviam, porque encolheram com o tempo.

Os ingleses estavam construindo uma ferrovia no território dos dois leões, o que lhes propiciou fartura de caça. Sombra e Escuridão se viciaram no sabor adocicado da carne dos operários africanos. Durante nove meses, banquetearam-se com os corpos de mais de 140 homens. Atacavam de forma coordenada e inteligente. Quando a noite caía, eles rasgavam as lonas das barracas e arrastavam a vítima para seu covil. Os gritos dos homens sendo dilacerados gelavam os ossos dos demais trabalhadores, que chegaram a fazer uma greve, pedindo a interrupção das obras da ferrovia. Um caçador inglês, depois de muita lida, acabou matando os leões a tiros.

Nós, seres humanos, nós matamos. É coisa nossa. Posso compreender matanças defensivas, como a de Sansão no deserto da Filisteia ou do inglês na aridez do Quênia. A do dentista americano que assassinou e decepou o leão da reserva do Zimbábue, não. Essa foi uma matança por prazer.

A matança por prazer explica os empresários que deitam cal no leite das crianças, os médicos que receitam prótese a quem não precisa, os adulteradores dos remédios dos velhinhos, os bandidos que atiram para levar o par de tênis. Porque, se o homem mata por gosto, o que não fará por lucro?

Olhe para o dentista. Olhe para o leão. O leão viveu sentindo majestosa indiferença pelo homem, a quem permitia admirá-lo. O leão era magnífico apenas por ser, sem ter de provar nada, sem ter de ter nada. O homem, por invejar essa nobreza, arrancou-lhe a cabeça e a empalhou, para possuí-la. Que vergonha para a espécie. Que vergonha, Homo sapiens.



01 de agosto de 2015 | N° 18244 
CLÁUDIA LAITANO

Bonequinha azul


1) Nossos sonhos são produzidos por estruturas que lembram estúdios de cinema, onde personagens e preocupações reais do dia a dia são embaralhados, dando origem a histórias malucas que, mesmo parecendo não fazer qualquer sentido à primeira vista, contam muito sobre quem somos e sobre o que sentimos. 

2) Nossas memórias mais banais podem dar origem a registros permanentes que ajudam a moldar a forma como nos relacionamos com o mundo pelo resto de nossas vidas. 3) Quando nossas emoções estão sozinhas no comando, as consequências são imprevisíveis. 4) Lembranças podem mudar com o tempo. 5) O livre-arbítrio não é tão livre assim.

Tudo isso, e um pouco mais, está no roteiro da animação Divertida Mente – um dos melhores filmes do ano e uma das maiores trapaças cinematográficas dos últimos tempos. Não para os adultos, bem entendido, que em geral têm gostado do filme, mas para o seu suposto público-alvo, as crianças, que, não conseguindo alcançar todas as camadas de sentido que compõem a trama, têm dificuldade para entender por que, afinal, os pais saem tão empolgados do cinema (quando Minions é obviamente muuuito mais divertido).

O sucesso de Divertida Mente, e mesmo a ideia de que memórias, emoções e mecanismos do cérebro pudessem dar origem a um filme infantil, refletem a recente popularidade da neurociência junto ao público leigo. Lidando com questões com as quais os artistas e os filósofos vêm se defrontando há séculos – quem somos e por que somos do jeito que somos –, a ciência que estuda o sistema nervoso inter-relaciona disciplinas tão diversas quanto biologia, computação, química, física e psicologia, tentando decifrar um dos mais complexos sistemas sobre o qual o homem já se debruçou. 

Autores como o psicólogo e linguista Steven Pinker, o neurologista Oliver Sacks e os neurocientistas António Damásio e Sam Harris tornaram-se best-sellers escrevendo sobre o cérebro e suas insuspeitadas conexões com o tipo de sociedade que construímos e com a forma como interpretamos e reagimos à realidade.

Não por acaso, todo esse interesse pela neurociência coincide com a medicalização crescente de diferentes aspectos da experiência humana. Foram os avanços da ciência que tornaram possíveis remédios cada vez melhores e com menos efeitos colaterais, diminuindo o sofrimento de pessoas com problemas graves como depressão. Ao mesmo tempo, muitos cientistas têm se esforçado para demonstrar que nem tudo que é complexo ou causa sofrimento e ansiedade é necessariamente doença e precisa ser tratado com medicamentos. 

Muitas vezes, como o desfecho de Divertida Mente assinala com muita delicadeza, é preciso acolher a tristeza e deixá-la seguir seu curso – aceitando a bonequinha azul como parte daquilo que nos torna humanos e capazes, entre outras coisas, de perceber e reagir ao sofrimento alheio.