sábado, 28 de julho de 2018


28 DE JULHO DE 2018
J.J. CAMARGO

ÉTICA PRÊMIO E CASTIGO

Dois vídeos circularam pela rede nas últimas semanas, e o contraste é tão ostensivo que ficou impossível não comentar, especialmente neste momento em que a autoestima dos brasileiros anda ao rés do chão e só não se espatifa porque, apesar de tudo e do trocadilho, todos reconhecem que só a minoria é patife.

Em 2003, em um jogo entre a Dinamarca e o Irã, um atleta iraniano, quase no final do segundo tempo, confundiu um apito da torcida com o do juiz e segurou a bola com as mãos, dentro da área. Apesar dos protestos, o juiz não teve outra alternativa senão marcar o pênalti para a Dinamarca, que a esta altura estava perdendo a partida por 1 a 0.

Com a torcida vibrando diante da perspectiva do empate, justo quando tudo parecia perdido, o jogador Morten Hieghorst, responsável pela cobrança após consultar o treinador da Dinamarca, Olsen, caminhou lentamente e, com um leve toque, mandou a bola para a linha de fundo. A Dinamarca perdeu por 1 a 0, mas ganhou o mundo como um modelo ético que, 15 anos depois, ainda emociona. A arquibancada aplaudindo freneticamente depois que entendeu o que ocorrera ajuda a explicar por que este pequeno grande país se orgulha de ter o menor índice de corrupção no mundo.

Era uma tarde ensolarada e, ao fundo, se identificava a Praça do Comércio, um dos pontos turísticos mais famosos de Lisboa. De repente, a câmera de vídeo passou a acompanhar um cidadão que, com sua barriguinha fora de controle, bermuda e camiseta branca pouco recomendável para o sobrepeso e um ar de turista descomprometido, caminhava tranquilamente e, depois, acelerou o passo na tentativa vã de se livrar do cinegrafista inconveniente.

Todos os brasileiros honestos, que não têm condições de se refestelar amiúde no generoso verão português, se sentiram representados quando o repórter improvisado iniciou um rosário de impropérios, dirigidos com fúria crescente a quem, feito surdo por total conveniência, tentava seguir seu passeio, definitivamente arruinado por um tipo indiscreto que brandia acusações graves, inclusive a de ter emigrado para Portugal porque o Brasil se tornara insuportável por culpa, veja só, daquele venerando senhor que, por alguma razão, tem tido dificuldade de circular no seu país de origem onde se alojam multidões de implicantes.

Nascerá um dia em que a sociedade culturalmente mais diferenciada não tolerará a prepotência boçal dos que não conseguiram ser respeitados nem por seus pares e, ao invés de se comportarem como símbolos da Justiça que representam, parecem se orgulhar da repulsa que provocam no povo humilde que deviam proteger. Quando este dia chegar, que a arquibancada se prepare para aplaudir, porque os vendilhões serão todos chutados para a linha de fundo. E não haverá segunda instância para socorrê-los.

J.J. CAMARGO

28 DE JULHO DE 2018
ARTIGO

CONFIAR NA MENTIRA


Amaldade maior da vida é aquela que surge da ignorância posta a serviço do engano. Ou quando engano e ignorância disputam carreira entre si para ver quem faz mais vítimas. O resultado único é, sempre, a coroação da mentira como verdade incontestável.

Foi o que ocorreu em Pelotas, onde um laboratório (ou dito como tal) simulou centenas ou milhares de exames de mama para detecção de câncer. Não se trata de uma dessas falcatruas que povoam o cotidiano, em que "os mais espertos" enganam a quem tenha a virtude da boa-fé, mas de um crime atroz planejado pela cobiça. Nele, todas as formas de horror se somam e põem em jogo a saúde humana feminina. O câncer é enfermidade assustadora, exige atenção redobrada e - no caso das mulheres - pode incidir também nos seios, que são parte da beleza corporal.

Não se trata de um pequeno equívoco fortuito, em que (nestes tempos de frio úmido) confundamos resfriado com gripe, resolvendo o problema com chá de guaco e repouso. O crime é brutal, estendeu-se durante anos e é impossível saber quando começou ou, até, quando terminará. Mesmo que "o laboratório" deixe de funcionar, como vamos identificar, hoje, de um a um, os falsos exames de tempos atrás?

Mais ainda: como saber se o horror se limita a Pelotas e a um único laboratório, ou se foi copiado noutros lugares?

A sociedade de consumo especializou-se em adulterar o que puder, em busca de lucro fácil. Do amor à gasolina, das palavras aos falsos atos, adultera-se tudo. Lembram-se do leite envenenado com soda cáustica e outras pestilências? Alguns envenenadores mudaram a marca da empresa e seguem aí.

Onde está a responsabilidade humana e empresarial? Terá desaparecido o velho orgulho dos pequenos ou grandes empresários de apresentar o melhor, sem mistificações?

Ou já confiamos na mentira?

Porto Alegre recebeu do imperador Pedro II o título de "mui leal e valerosa" por ter sido fiel à monarquia que a Revolução Farroupilha tentou derrubar. Agora, os vereadores decidiram gastar um dinheirinho montando uma "ópera-rock" baseada no belo texto em que o poeta Luiz Coronel (junto com o pintor Danúbio Gonçalves) homenageou os revolucionários. Esqueceu-se a Câmara Municipal, porém, de revogar o monárquico lema da capital rio-grandense?

Assim, no lema, permanecemos leais à monarquia que Bento Gonçalves e os revolucionários de 1835 chamavam de absolutista e perniciosa. Simulamos uma história e confiamos na mentira que fere a própria História.

Jornalista e escritor- FLÁVIO TAVARES

28 DE JULHO DE 2018
POLÍTICA +

NA FREEWAY, RETRATOS DA INCOMPETÊNCIA


Os problemas da freeway, que passou de melhor do Estado a rodovia esburacada em 23 dias, fornecem uma série de retratos da incompetência do governo federal e lançam dúvidas sobre a capacidade da ANTT para gerenciar a licitação do polo que será concedido à iniciativa privada, com leilão marcado para 1º de novembro. Um governo que foi surpreendido pelo fim de um contrato cuja data de vencimento era conhecida 20 anos antes não tem defesa.

Não é preciso ser uma pessoa de grandes luzes para saber que uma licitação não se faz do dia para a noite. O governo de Michel Temer começou um ano e dois meses antes do vencimento do contrato com a Concepa. Como Temer e vários dos seus ministros já estavam no governo e conheciam a situação, poderiam ter agido antes para impedir o caos que se instalou agora.

A discussão sobre nova concessão começou torta. Como até o ministro dos Transportes à época, Maurício Quintela Lessa, chamava de "Concepão" o futuro polo formado por freeway, BR-101 (Torres-Osório), BR-448 (Sapucaia-Porto Alegre) e a BR-386 (Canoas-Carazinho), surgiu a suspeita de que o edital em construção fosse um jogo de cartas marcadas para que a empresa vencesse a concorrência.

Com o edital travado, a concessão da Concepa foi renovada por um ano, com redução da tarifa porque seria apenas de conservação. Os usuários aplaudiram porque aprovavam a qualidade do serviço prestado, mas a alegria durou pouco.

Agora, os técnicos do Tribunal de Contas da União concluíram que, mesmo com o corte de 50%, houve superfaturamento e que a empresa lucrou R$ 72 milhões além do previsto em um ano. Esse número adiciona novos elementos no caldeirão de confusões cujo resultado é o prejuízo para o usuário, com a deterioração do asfalto, a falta de socorro mecânico e a transferência do atendimento médico para as prefeituras.

Como não quis aceitar uma nova redução, a Concepa entregou a rodovia no dia 4 de julho. Nada garante que o novo contrato será de fato assinado em janeiro, já com o próximo governo empossado. Em licitações desse porte, é comum o perdedor entrar com recursos que atrasam a homologação do resultado.

Convidada para a reunião-almoço da Federasul, a candidata da Rede ao Planalto, Marina Silva, brincou com a falta de tempo na propaganda de rádio e TV:

- Tenho quatro segundos em cada bloco. Vou dizer Marina de manhã e Silva à noite. Geraldo Alckmin tem 10 minutos.

A brincadeira embutia uma queixa contra a forma como são divididos o tempo da propaganda e os recursos do fundo eleitoral, com vantagem para os partidos que reúnem maior número de deputados federais. A Rede tem apenas dois e, por isso, terá somente R$ 10 milhões do fundo público para dividir entre todos os seus candidatos.

Marina disse que não se conforma quando perguntam como vai governar sem maioria:

- O que pergunto é por que a Dilma não conseguiu e o Temer não consegue governar com 300 deputados. Quero fazer uma aliança com os 200 milhões de brasileiros e não com partidos.

Para montar o governo, em caso de eleição, Marina disse que convocaria "os melhores".

- Vou aposentar aqueles que estão fazendo gol contra e chamar para o campo os que estão no banco de reservas, como o senador Pedro Simon.

Amigo e conselheiro, Simon dividiu a mesa com ela e com a presidente da Federasul, Simone Leite. DESAFIANDO A ESCASSEZ

ROSANE DE OLIVEIRA

sexta-feira, 27 de julho de 2018


O Quatrilho vira ópera com sessões neste fim de semana no Theatro 

Clássico da literatura gaúcha, O Quatrilho vira ópera 

São Pedro GILBERTO PERIN/DIVULGAÇÃO/JC Cristiano Vieira 

Um clássico recente da literatura gaúcha, que já passou pelos cinemas nos anos 1990, chega agora aos teatros em forma de ópera. O Quatrilho, do compositor Vagner Cunha, estreia neste sábado no palco do Theatro São Pedro, às 21h. Haverá mais duas sessões no domingo, às 18h e às 21h. Os ingressos custam entre R$ 60,00 e R$ 130,00, à venda pelo site teatrosaopedro.com.br e na bilheteria do local. A ópera tem libreto de José Clemente Pozenato, autor da obra original O Quatrilho. 

Com direção de Luís Artur Nunes, o evento tem ainda regência do maestro Antonio Borges-Cunha. Esse time estrelado fornece uma ideia da superprodução que será vista no São Pedro a partir deste sábado. Em dois atos, a ópera tem recitativos em português e árias, duetos e coros cantados em italiano. O enredo retrata a realidade dos imigrantes italianos no início do século XX, deixando claro o poder da mulher nas decisões de família e também de negócios. O título faz analogia ao jogo do quatrilho, jogo de cartas onde os parceiros se trocam ao longo da partida. 

Com o tempo, a esposa de um passa a se interessar pelo marido da outra, sendo correspondida. Os dois amantes decidem fugir e recomeçar outra vida, deixando para trás seus parceiros, que viverão uma experiência dramática e constrangedora, mas nem por isto desprovida de amor. Nos papéis principais estão as sopranos Carla Maffioletti, como Teresa, e Maíra Lautert, como Pierina, além do tenor Flávio Leite no papel de Ângelo e do barítono Daniel Germano interpretando Mássimo. Também estarão em cena a contralto Luciane Bottona, no papel de Tia Gema, o barítono Ricardo Barpp como Cósimo e o baixo Pedro Spohr como Rocco. Segundo Cunha, a ideia surgiu há um ano e, quando foi até a Serra pedir autorização de Pozenato para adaptar o texto, veio a surpresa: o escritor adorou a iniciativa e se propôs a redigir o libreto. 

"Em cerca de três semanas chegou o material, que não tem mais do que 32 páginas. São, basicamente, diálogos e árias", avisa. O compositor salienta que O Quatrilho permite múltiplos recortes para montar uma ópera: seja pela ótica do padre, por exemplo, ou de outros personagens. "Clocamos um limite no elenco e no recorte, então optamos pela história afetiva do quarteto principal. Há, ainda, três pessoas no elenco de apoio", relata Cunha. A produção promete encantar, também, visualmente. Os elementos cênicos foram produzidos integralmente no Estado. 

Assinados pela porto-alegrense Malu Rocha, os figurinos surgiram a partir de fotografias de famílias italianas que viveram e trabalharam na área rural do Rio Grande do Sul durante a imigração. A montagem tem cerca de 30 peças criadas em cores frias e terrosas, retratando as personalidades dos protagonistas da trama. Já o gaúcho Rodrigo Lopes é o responsável pela criação e concepção do cenário. Para remeter à época, o cenógrafo criou um lambrequim - adorno arquitetônico de madeira recortada muito utilizado nas casas dos imigrantes italianos. 

O acessório de 14 metros de largura ocupará toda a extensão dos palcos onde a ópera será encenada e estará acompanhado de alguns objetos originais que vão compor as cenas, como um barril e um fogão à lenha garimpados em antiquários. Além da Capital, O Quatrilho seguirá um roteiro por outras cidades. Em agosto, a ópera continuará em cartaz passando por sete palcos do Rio Grande do Sul: Recanto Maestro (dia 3, no Auditório da Antonio Meneghetti Faculdade); Bagé (dia 9, no Museu Dom Diogo de Souza); 

Pelotas (dia 10, no Theatro Guarany); Passo Fundo (dia 12, no Teatro Notre Dame); Bento Gonçalves (dia 15, no Anfiteatro Ivo Antonio da Rold); Caxias do Sul (dia 18, no Teatro Murialdo) e Novo Hamburgo (dia 19, no Teatro Feevale). Os ingressos estão à venda pelo site blueticket.com.br (menos para Novo Hamburgo, apenas no endereço uhuu.com) e nos locais das apresentações. - 

Jornal do Comércio (https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/cultura/2018/07/639948-classico-da-literatura-gaucha-o-quatrilho-vira-opera.html)


Hélio Nascimento 
Cinema Edição impressa de 27/07/2018. Alterada em 27/07 às 01h00min 

O rosto e a alma 

O centenário de Ingmar Bergman tem originado homenagens que um criador de tal porte merece. Não se trata, apenas, do maior cineasta sueco, nem do nome mais expressivo do cinema europeu. Para muitos - entre eles, vários cineastas -, Bergman é o maior dos criadores cinematográficos, aquele que soube desvendar enigmas e expor segredos que antes eram privilégio de outras atividades voltadas à compreensão da alma humana. Um criador como Stanley Kubrick, conforme registra Michael Benson no seu livro sobre a realização de 2001: Uma odisseia no espaço, nunca escondeu sua admiração pela obra do realizador de Juventude. 

Em uma das cenas daquela obra-prima, Kubrick faz com que um de seus astronautas jogue xadrez com o computador que dirige a nave. É uma recriação do encontro do cavaleiro medieval com a morte em O sétimo selo, uma forma encontrada por Kubrick, ele próprio um enxadrista, de fazer uma referência ao mestre. Woody Allen, por sua vez, não se limitou a citações e chegou mesmo a se referir a Bergman, em mais de uma oportunidade, como alguém colocado muito acima de todos os outros diretores de cinema. 

Há outros realizadores que pensam da mesma maneira, alguns deles presentes e dando seu depoimento em Bergman - 100 anos, documentário realizado por Jane Magnusson e no qual, além da utilização de trechos de vários de seus filmes, também conta com registros que realçam aspectos de sua vida pessoal e com a tentativa de realçar os temas principais de sua filmografia. 

Nos documentários destinados a realçar a importância de um artista, quase sempre o panegírico se impõe e uma certa reverência se faz presente em quase toda a narrativa. Não é o caso do trabalho de Magnusson, que expõe o criador sem esconder aspectos negativos de sua personalidade. A criação da obra de arte não deriva apenas de operações regidas pela racionalidade. 

A riqueza do processo está justamente nesse amálgama entre o que é produto do equilíbrio e o que tem sua origem em tumultos emocionais não devidamente elaborados e conhecidos pelo criador. Assim, o documentário não esconde a simpatia do jovem Bergman pelo nazismo, quando estudou na Alemanha dos anos 1930. O futuro autor de O ovo da serpente não se limitou a amar manifestações culturais de um país que ainda era, na época, a nação que mais admiração despertava entre artistas ligados ao cinema, graças a nomes como Murnau e Lang, sem esquecer o Wiene de O gabinete do doutor Caligari. 

E não esconde também o temperamento irascível e a humilhação imposta a um jovem encenador, que havia ousado alterar a montagem teatral de uma peça de Molière. Isso pode surpreender aos que pensam que a grandeza de uma obra de arte deva sempre ser associada a um comportamento equilibrado e generoso. Habilmente, o trabalho de Magnusson procura mostrar que a grandeza de Bergman se estrutura sobre uma base formada pelas mais diversas formas de a criatura humana expor sua revolta diante das imposições do mundo organizado, simbolizado pela figura paterna e pelas mais diversas formas de ação repressiva. 

Na sequência final de A flauta mágica, obra notável da qual a diretora só utiliza alguns fragmentos que registram momentos da filmagem, Sarastro, o sábio e figura dominadora e disciplinadora, encara rapidamente o instrumento mágico, que lhe permitiria, certamente, impedir o casamento da filha, mas é impedido pelas leis que ele próprio representa. 

É a vitória da racionalidade e a proibição do incesto. É o triunfo da civilização, o ponto final de um conflito que Bergman já havia abordado em Sorrisos de uma noite de amor, provavelmente a maior das altas comédias, e ao qual voltaria em Sarabanda, o opus derradeiro. Se fosse possível resumir obra tão vasta, é em Gritos e sussurros que encontraríamos os elementos necessários, num relato em que a Pietà é ornada com a música de Bach e no qual a harmonia almejada é colocada no plano de encerramento. E é impossível omitir ou esquecer a concretização de um desejo, expresso no mais belo primeiro plano da história do cinema, quando, em Morangos silvestres, o velho professor contempla uma cena da infância. A plena realização configurada num rosto humano. A alma encontrando a harmonia. - 

Jornal do Comércio (https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/colunas/cinema/2018/07/639665-o-rosto-e-a-alma.html)


Pessoas com deficiência 


Lendo este título aí em cima você pode estar pensando que vou escrever sobre todas as pessoas do planeta nestes breves três mil e seiscentos e quarenta caracteres. Tirando alguns seres como o Cristiano Ronaldo; Kolinda, a presidente da Croácia; Fernanda Montenegro, a Gisele Bündchen e mais uma meia dúzia de três ou quatro, todo mundo tem alguma deficienciazinha, mesmo que escondida pelas roupas, pela cara de paisagem, pelos silêncios ou pelos múltiplos biombos e máscaras que usamos no cotidiano para mostrar que somos eficientes e normais.

De perto ninguém é normal ou sem deficiências. Meu querido amigo Gilberto Herschdorfer, ex-publicitário, advogado, ex-presidente e atual Conselheiro de Cultura do Estado do RS e outras multiplicidades me sugeriu escrever sobre pessoas com deficiência. Sugerir não é bem a palavra. Ele docemente me pautou , me ofereceu subsídios e claro que resolvi concordar, que não sou totalmente bobo e o tema merece.

Outro querido amigo, Antônio Carlos Cortes, advogado, jornalista, cronista e também com conselheiro do Conselho Estadual de Cultura, do qual já foi presidente, me mandou notícia sobre o absurdo de um aluno cadeirante da Ufrgs ter de lutar pelo direito a colar grau no palco do Salão de Atos da universidade. Parece que a coisa se resolveu e o ocorrido serve como símbolo. Depois de texto aprovado pela ONU devemos nos referir a deficientes como pessoas com deficiência, pois deficiência não se porta, não é um objeto, a pessoa tem uma deficiência, faz parte dela.

Temos um Estatuto da Pessoa com Deficiência, de 2006, que, em especial, no seu artigo 81, fala de acesso dos deficientes a teatros, cinemas, auditórios, estádios, ginásios de esportes, casas de espetáculos e conferências e similares. Muito já foi feito quanto ao tema em construções novas e antigas, em estacionamentos, no transporte público, nas calçadas e vias, mas é claro que muito há por fazer. Bom lembrar que no Brasil, segundo o IBGE, em 2010, tínhamos 45,6 milhões de pessoas com alguma deficiência, ou seja, 23,9% da população de 190,7 milhões da época.

No Rio Grande do Sul, segundo o IBGE, em 2010 tínhamos 2,5 milhões de pessoas com alguma deficiência, o equivalente a 23,8% da população de 10,7 milhões de habitantes da época. A legislação brasileira sobre deficientes é razoável, mas o cumprimento, como acontece com muitas de nossas leis, ainda passa por problemas e as normas da ABNT esperam cumprimento, especialmente no que diz respeito a spaços públicos, acesso à informação e acolhimento.

O Conselho Estadual de Cultura, através de sua Resolução nº 001/2014, dá orientações sobre a matéria, quanto a análise de projetos que buscam apoio pela Lei de Incentivo à Cultura. Enfim, somos iguais e diferentes. A natureza nos fez assim. Nem todos devem ser iguais, nem todos diferentes. O direito e as leis devem apontar o bom convívio e as formas de respeito às igualdades e diferenças.

a propósito... 

Muito além do respeito aos direitos das pessoas com deficiência, cujos números mencionados são eloquentes, é preciso não deixar de levar em conta que as possibilidades de mobilidade e acesso delas em vias e locais públicos, especialmente, é importante para o desenvolvimento social, político e econômico.

Pessoas com deficiência pagam impostos, utilizam bares, restaurantes, hotéis, compram entradas para teatro, cinema e podem e devem participar ativamente do mundo do trabalho, se lhe forem dadas as condições necessárias. É bom lembrar, como foi dito lá no início, que de perto ninguém é normal ou sem deficiências. É bom lembrar que mesmo as flores têm formatos e perfumes diversos e que a natureza é diversa e merecedora de respeito.

Ah, dia 21/09 é o Dia Nacional da Luta da Pessoa com Deficiência. -

Jornal do Comércio (https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/colunas/livros/2018/07/640184-familia-amor-e-imortalidade.html)



Família, amor e imortalidade 


Detalhe da capa do livro REPRODUÇÃO/JC Os imortalistas (Harper Collins, 336 páginas, R$ 39,90, tradução de Santiago Nazarian) é o segundo romance da norte-americana Chloe Benjamin, autora de Anatomy of dreams, vencedor do prêmio Edna Ferber de ficção. Nascida em São Francisco, Chloe já teve seu trabalho traduzido para trinta línguas. Narrativa elegante, engenhosa e plena de histórias de família, amor, liberdade e escolhas, mostra reflexões sobre como devemos passar o tempo, por vezes muito breve, que temos neste mundo. A história se inicia em 1969, no lower east side de Manhattan, quando os quatro irmãos da família Gold, então crianças de 13, 11, nove e sete anos, procuram uma vidente.

A mulher lê a sorte, conta o que vai acontecer com as pessoas, se a vida vai ser boa ou ruim e diz exatamente quando elas vão morrer. São contadas as cinco décadas das vidas dos Gold, a saga familiar que mostra como as revelações da vidente influenciaram as escolhas, a forma como viveram e, eventualmente, o modo como morrem. Simon, o menino de ouro, escapa para a Costa Oeste, procurando por amor na São Francisco dos anos 1980. A sonhadora Klara se torna uma ilusionista em Las Vegas, obcecada em misturar realidade e fantasia.

Daniel luta para se manter seguro como um médico do exército após o fatídico 11 de Setembro quando houve o atentato às Torres Gêmeas. Varya, amante dos livros, se dedica a pesquisas sobre longevidade, nas quais ela testa os limites entre ciência e imortalidade. Se você soubesse a data de sua morte, como seria a sua vida? Depois das revelações da vidente, nas vidas dos irmãos Gold, nada será capaz de acalmar seus corações. Na brilhante história de amor familiar, a linha tênue entre o destino e a escolha, mostra a realidade e a ilusão, este mundo e o outro.

Escolhemos os caminhos? Somos conduzidos? Força familiar, toques de suspense, drama, misticismo e fatos históricos da sociedade contemporânea como cenários estão na obra, que por seu valor tornou-se best-seller instantâneo, permanecendo três meses na lista de mais vendidos do The New York Times. Acima de tudo a envolvente narrativa é uma prova emocionante do enorme poder da literatura, da essência da fé e da força absolutamente implacável dos laços familiares.

lançamentos

Deus - Uma história humana (Zahar, 246 páginas), de Reza Aslan, professor iraniano formado em Harvard e na Universidade da Califórnia, autor do best-seller Zelota: a vida e a época de Jesus de Nazaré, mostra uma história concisa e fascinante do nosso entendimento de Deus. A ideia, a necessidade e as origens de Deus ao longo dos tempos estão na obra, com novas luzes sobre fé e religião.

Era uma vez a literatura e outros ensaios clássicos (4ª edição, 248 p.), Linguagem, poder e ensino da língua (6ª edição,166 p. ) e O romance de 30 (4ª edição, 14 p.), do consagrado professor, jornalista e escritor José Hildebrando Dacanal, fazem parte da Série Básica da Editora BesouroBox , que apresenta temas relevantes em obras publicadas com cuidados editoriais e gráficos excelentes, assinados por Marco e Maitê Cena. Simões Lopes Neto - A invenção, o mito e a mentira - Uma abordagem estruturalista (Editora Movimento,144 páginas), segunda edição da obra de Ana Maria Filipouski, Luiz Artur Nunes, Maria da Glória Bordini e Regina Zilberman, confirma a importância de Simões como narrador, documenta amplamente sua habilidade artesanal e fornece indicações preciosas aos interessados sobre as modernas técnicas de abordagem.

Jornal do Comércio (https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/colunas/livros/2018/07/640184-familia-amor-e-imortalidade.html)

quinta-feira, 26 de julho de 2018


26 DE JULHO DE 2018
ARTIGO


Hoje uma parte da produção artística sobrevive do mercado, mas infelizmente essa condição não se estende a todo o campo da cultura. Isto torna necessário o investimento permanente na memória cultural, na preservação de acervos materiais e imateriais, em museus e centros culturais, em novos talentos, em experiências artísticas de vanguarda, em programas de ensino das artes e, especialmente, na transmissão do legado cultural aos carentes. A sociedade precisa de símbolos culturais e do encanto e inteligência da arte.

Quando e onde o mercado não consegue viabilizar a arte, a sociedade o faz, por meio do Estado, com normas que garantam impessoalidade, lisura e qualidade. É por meio de políticas culturais que se dá o fomento à cultura em uma República democrática. Debatem-se assuntos e critérios, atuam conselhos curatoriais com autoridade e legitimidade, há ampla cooperação interinstitucional, desenvolvem-se leis, programas institucionais e editais corretos, com cronogramas, boa divulgação e muito controle na realização, por meio de instituições culturais.

O abandono dessas regras nos expõe a retrocesso cultural e político, e à degradação das relações entre Estado e cultura. Faz- nos temer que o recuo nos leve ao tempo dos coronéis, em que o poder é usado em favor dos compadres e qualquer cafonice pode ser imposta à sociedade, com recursos públicos. Poupar a cultura dos abusos do Estado é também defender a República, pauta sempre urgente.

Como ponto de partida, tratava-se de um recurso não utilizado pela douta Câmara de Vereadores, que deveria retornar ao Executivo Municipal, deixando assim de ter uma contribuição cultural. O desconhecimento dessa premissa deixa sem munição os contestantes ao projeto. Talvez por fatos similares tenha nascido a expressão "coisa de cabo da esquadra".

Alguns repórteres foram ao encontro de artistas já em busca de vibrantes libelos contra esse desperdício de verbas, que poderia ter recebido melhor destinação. Aqui, me volto a Vianna Moog, o autor gaúcho: "Na vida, sempre que optamos por uma alternativa levamos o peso das alternativas abandonadas". E Nelson Rodrigues, quando lhe perguntaram o que era mais importante: um teatro ou um hospital? Nelson, emergindo de seu robusto alarme verbal respondeu: "Um teatro e um hospital".

Em defesa de meu texto A Revolução Farroupilha, em nove edições sucessivas, com primorosa arte de Danúbio Gonçalves, devo dizer que se trata da única obra sobre o tema em forma de poema, à moda do Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles, como apontou o professor Sergius, ou Auto do Frade, de João Cabral de Melo Neto. E devo concluir batendo o martelo: "Se chegarmos ao Acampamento Farroupilha, nos festejos desta data máxima da identidade gaúcha, perceberemos um triunfante predomínio da emoção sobre o conhecimento histórico dos fatos e das razões que nutrem esta insurreição que nos fez Estado independente em 1836".

Numa linguagem contemporânea, didática e encantatória, a ópera-rock merece aplauso de pé, mesmo antes de levada ao palco. Um cálice de razão, de bom senso, antes do espetáculo cairia bem a esses contestadores vazios.

26 DE JULHO DE 2018
+ ECONOMIA

OTIMISMO APÓS TEMOR



Depois de recentes vendavais, o tempo ficou mais tranquilo no mercado financeiro. Ontem, a bolsa de valores de São Paulo fechou em alta de 1,34%, a 80.218 pontos, o maior nível desde 23 de maio. Ao final da sessão, o dólar teve queda de 1,09%, cotado a R$ 3,70, o menor patamar desde 25 de maio.

Os resultados refletem movimentações no radar externo. Após reunião com o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, Donald Trump afirmou que os Estados Unidos e a União Europeia trabalharão para zerar tarifas. A leitura de investidores é de que a declaração ajuda a frear possíveis efeitos de uma guerra comercial.

Na terça-feira, a China havia confirmado ações de estímulo à economia local, como redução de impostos. Na ocasião, o anúncio também repercutiu de maneira positiva no mercado financeiro.

- Os impactos de uma guerra comercial entre China e EUA seriam negativos, com a contração do comércio internacional - afirma o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil, José Augusto de Castro.

Para o analista Valter Bianchi Filho, sócio-diretor da Fundamenta Investimentos, a economia chinesa fortalecida tende a beneficiar parceiros como o Brasil. No Estado, os asiáticos são responsáveis por investimentos em áreas como a de energia.

- A China vem passando por processo de desaceleração de seu crescimento, o que é normal. É uma grande compradora de commodities brasileiras. Então, o país indo bem é uma boa notícia para nossas exportações - sublinha Bianchi Filho.

No cenário nacional, investidores seguem atentos aos desdobramentos da corrida eleitoral e depositam simpatia em candidatos pró-reformas. Balanços de empresas com números positivos também aumentam a confiança.

Ao avaliar o horizonte para o mercado financeiro, Bianchi Filho ressalta a existência de incertezas. As dúvidas são provocadas, principalmente, pelas eleições. Ou seja, o tempo pode fechar até outubro.

- Tudo dependerá da agenda eleitoral - pontua o analista.

O índice de saúde financeira do gaúcho evoluiu quase quatro vezes acima da média nacional no primeiro semestre, conforme o aplicativo GuiaBolso. O RS encerrou o período com elevação de 3,7% frente ao mesmo intervalo de 2017. No país, a alta foi de 1%.

A padaria Sweez, de Caxias do Sul, quer colocar fermento nos negócios. Para isso, acaba de tirar do forno parceria com o Hard Rock Cafe de Gramado, aberto ao público neste mês. O acordo prevê que a empresa caxiense forneça os pães para os lanches da marca americana.

Sócio-proprietário da Sweez, o argentino Ariel Lettieri, que vive no Estado desde 2015, projeta que o contrato poderá fazer com que o faturamento da padaria cresça 25% neste ano. Em 2017, a alta foi de 20%, conforme o empresário.

- Muitas padarias usam farinhas com componentes químicos que tornam a fermentação mais rápida. Nosso conceito é artesanal. Nenhuma das nossas receitas entra no forno antes de 24 horas de fermentação - afirma Lettieri.

SAIU DO FORNO

LEONARDO VIECELI

26 DE JULHO DE 2018
POLÍTICA +

POR QUE É TÃO DIFÍCIL ENCONTRAR UM VICE


Desde 1989, nunca se chegou tão perto do início da campanha eleitoral com os principais candidatos a presidente sem um vice definido. Dado o histórico do Brasil, em que os vices acabam tendo protagonismo maior do que em outros países, a demora na definição dos candidatos, combinada com a falta de critério na escolha, amplia a desconfiança do eleitor no processo.

Até agora, só Guilherme Boulos (PSOL) e João Amoêdo (Novo), que concorrem sem aliança e estão na ponta de baixo das pesquisas, definiram seus vices. A convenção do PSOL homologou a líder indígena Sônia Guajajara como vice de Boulos. Amoêdo terá o professor Christian Lohbauer como parceiro.

A demora na consolidação das alianças explica o atraso na composição das chapas. Com a liderança nas pesquisas, o PT, que insiste na candidatura do ex-presidente Lula, apesar da condenação em segunda instância, não escolheu o vice nem definiu o critério. A vaga seria naturalmente de um aliado, mas, os possíveis parceiros não acreditam que o registro de Lula seja homologado.

Jair Bolsonaro (PSL), que assume a liderança quando o nome de Lula é excluído, está entre um ex-astronauta e um príncipe sem trono, depois da recusa do senador Magno Malta (PR), do carão do PRP, que não autorizou a candidatura do general Augusto Heleno, e do desencanto de seus seguidores com a sinceridade da advogada Janaína Paschoal. Autora do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff, Janaína pediu tempo para pensar no convite, mas, enquanto pensava, caiu em desgraça com bolsonaristas, por ter condenado o "pensamento único" na convenção do PSL. O casamento ficou inviável porque ela tem posições opostas às de Bolsonaro em relação a temas como cotas raciais e redução da maioridade penal.

Os mais cotados para a vaga de vice do capitão do PSL são o ex-astronauta Marcos Pontes e o príncipe virtual Luiz Philippe de Orléans e Bragança, herdeiro da monarquia que acabou em 1889. Pontes tem um problema no passado: já foi filiado ao PSB e os seguidores de Bolsonaro têm alergia a qualquer coisa parecida com socialismo.

Geraldo Alckmin (PSDB) guardou a vaga de vice para o centrão. Achou que tinha encontrado o par perfeito quando o PR indicou o empresário (e milionário) Josué Gomes da Silva, filho do ex-vice-presidente José Alencar. O problema é que o PR não combinou com o noivo e Josué mandou dizer que não está interessado na vaga.

Como o centrão é o que se poderia chamar de um saco de gatos, o vice pode sair de qualquer um dos vários partidos que hoje anunciarão a aliança com Alckmin. O mais cotado é o ex-ministro da Educação Mendonça Filho (DEM), que leva o carimbo de ex-integrante do governo Michel Temer. Outro ex-ministro de Temer, Ricardo Barros (PP), da Saúde, mandou dizer que, se for convidado, aceitará.

Ciro Gomes (PDT), Marina Silva (Rede) e Henrique Meirelles (MDB) também não conseguiram encontrar seu par.

Em roteiro pelas regiões Nordeste e Norte, a pré-candidata do PC do B ao Planalto, Manuela D?Ávila, contestou a interpretação da coluna de que, na distribuição dos recursos do fundo eleitoral, o partido expôs desprezo por sua candidatura.

O jornalista Guilherme Gomes, assessor de Manuela, disse que ela considera natural a prioridade à reeleição do governador do Maranhão, Flávio Dino, e à eleição de deputados federais, e que isso não exclui o apoio a outras campanhas majoritárias.

- O PC do B está mobilizado e dando a estrutura necessária para as atividades - garantiu Gomes.

Ontem, Manuela falou para empresários na Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte. Na foto, o presidente da Fiern, Amaro Sales de Araújo.

O presidente do PC do B no Rio Grande do Sul, Adalberto Frasson, reforçou a queixa da candidata. Disse que não pode concordar com a interpretação de que o partido está deixando Manuela em segundo plano.

Embora a candidata não tenha sido citada na resolução, Frasson lembra que "em nenhum momento é dito que o fundo é exclusivo para o governo do Maranhão". PANOS QUENTES

ROSANE DE OLIVEIRA

26 DE JULHO DE 2018
L.F.VERÍSSIMO

A quarta pergunta


Numa matéria recente para a revista New Yorker, Alex Ross começa escrevendo que nenhuma editora perderá dinheiro se publicar livros sobre Lincoln, Hitler ou cachorros. Uma segunda linha de sucesso certo seria livros sobre golfe, nazismo e gatos. O fascínio com Hitler continua depois da sua morte (ou sua fuga para a América do Sul), em 1945. Todos os anos, são lançados milhares de livros sobre o "Führer", sua vida, sua ascensão, sua queda, seu fim. Muitos dos livros são especulações sobre o que motivava secretamente Hitler, outros são revisionistas, e alguns destes até o absolvem.

Hitler cresceu lendo os livros de Karl May sobre o Oeste bravio americano. Era grande admirador da mitologia da fronteira americana que May - apesar de nunca ter saído da Alemanha - retratava nos seus livros, mas admirava mais os pioneiros genocidas do que os índios massacrados. Chegou a citar a América como exemplo do "lebensraum", que reclamava para a Alemanha no Leste Europeu. Na sua "Bíblia", Mein Kampf, elogia os Estados Unidos como um Estado que progredia no sentido de um conceito invejável de cidadania pela exclusão de raças inferiores, começando pelas de pele vermelha.

A vasta literatura sobre Hitler, escreve Ross, circula em torno de duas perguntas básicas que se repetem, uma biográfica e outra sociopolítica. Como foi possível um medíocre austríaco pintor de aquarelas chegar ao poder como Hitler chegou? Como foi possível uma sociedade civilizada, uma terra de artistas e filósofos, elegê-lo e apoiá-lo como fez? Há uma terceira pergunta. O ódio de Hitler e dos fascistas aos judeus era conhecido e aplaudido. O Holocausto foi uma etapa lógica do domínio fascista e da vontade de Hitler ou foi uma improvisação bárbara, um soluço de civilização?

E há uma quarta pergunta. Pode acontecer de novo? A reação aos imigrantes que chegam clandestinamente à Europa desafia qualquer escrúpulo democrático, e o neonazismo está em marcha em várias partes do mundo. Nos Estados Unidos a eleição do Trump era uma possibilidade risível, quem votaria numa piada para presidente? E um dia a nação acordou com o inimaginável na Casa Branca. E no Brasil, às vésperas de uma eleição presidencial, o inimaginável tem mais intenção de voto do que qualquer outro candidato.

L.F.VERÍSSIMO

quarta-feira, 25 de julho de 2018


25 DE JULHO DE 2018
DAVID COIMBRA

Maurício Saraiva vai pagar chopes


Um cara estável é o Maurício Saraiva. Ele fala com sujeito, verbo e complemento. Ele usa todos os plurais. Ele não faz coisa errada. Ele é capaz de querer apostar uma garrafa de água mineral sem gás. Acredita nisso? Um cara que chega para você e propõe:

- Aposto uma água mineral sem gás que?

Mas isso não aceito. Ah, não. No começo do Brasileirão, o Maurício Saraiva me veio com essa: ele apostava uma mineral sem gás que o Inter terminaria o campeonato nas imediações da Copa Sul-Americana. Respondi:

- Não aposto mineral sem gás, Maurício Saraiva, seu estável!

Então, apostamos um jantar ou 10 chopes, não lembro bem, mas me lembro do meu palpite: o Inter se classificaria para a Libertadores. Disse isso não por apenas querer contrariar o Maurício, mas porque via o Inter dotado, precisamente, deste predicado mauriciesco: a estabilidade. Odair começava a fazer tudo sempre igual em uma equipe que só tem uma competição a disputar. Lá estavam todos os ingredientes para funcionar. Está funcionando. O Inter se encaixou na terceira colocação, e já acho que é pouco. A estabilidade pode levar a um crescimento surpreendente. E a surpreendentes chopes pagos pelo Maurício Saraiva, o que é melhor.

Um surpreendente bem-amado

Agora mesmo estivemos na Rússia e nos surpreendemos: os russos gostam de Putin, apesar de ele ser um tipo de mezzo ditador e ostentar um sorriso que dá calafrios. Eu mesmo me empenhei em fazer essa investigação. Quando encontrava um russo que entendesse os rudimentos do inglês, indagava sobre o governo. A resposta quase sempre era de aprovação, e quase sempre embasada pelo mesmo motivo: Putin trouxe estabilidade ao país.
Está bem claro, para os russos, o que pode e o que não pode ser feito. Está bem claro que o que não pode ser feito será punido com rigor se for feito. O conhecimento dos limites traz segurança. E o sentimento de segurança, muitas vezes, é mais importante do que o de liberdade.

DAVID COIMBRA

25 DE JULHO DE 2018
DAVID COIMBRA

As delícias da monotonia


Sei bem do que nós precisamos, nós brasileiros. Precisamos de monotonia. O próximo presidente da República, o que espero dele não é a genialidade e nem mesmo a inteligência. Até prefiro que não seja muito criativo, para falar a verdade. Prefiro que ele não invente soluções ou prometa milagres. Nada de arroubos nem de grandiloquências, nada de falar grosso ou de bazófias, nada de dizer que ele é o salvador da pátria ou o defensor dos oprimidos.

Previsibilidade.

Nós precisamos, apenas, de um pouco de previsibilidade.

Estamos há muito tempo sobressaltados, pobres de nós. Faz cinco anos, pelo menos, que as pessoas terçam opiniões como se fossem floretes, no Brasil. Cinco anos de desabafos no Facebook, de rixas nos grupos de WhatsApp, de amizades rompidas. Durante esse período, o país esteve sempre na fronteira de algum grande acontecimento. Pior: várias vezes, essa fronteira foi atravessada. Houve muita excitação e muita ansiedade.

Agora chega.

Chega de manchetes explosivas, chega de notícias extraordinárias, chega de Plantão da Globo. Chega de pontos de exclamação! É chegada a hora das reticências? A hora da pasmaceira. Do remanso dos dias sempre iguais. Necessitamos de, no mínimo, quatro anos de platitude. De saber o que vai acontecer no fim do episódio. Spoiler! Nós queremos spoiler!

Neste momento, o Brasil não cresce, o Brasil não anda, o Brasil está parado justamente por sentir medo do imprevisível.

Será que o próximo presidente vai privatizar tudo? Ou vai estatizar tudo? O que está feito será desfeito? Ou o que foi desfeito será refeito?

Alguém que ouse investir, planejar ou construir em meio a tantas dúvidas não é corajoso; é temerário.

Por isso, o melhor candidato não é o da mudança. É o da mesmice. Porque não há como melhorar sem antes estabilizar.

DAVID COIMBRA

25 DE JULHO DE 2018
TECNOLOGIA

Quase 40% dos lares não têm internet


Mais de um terço (39%) dos domicílios brasileiros ainda não tem acesso à internet. Segundo a pesquisa TIC Domicílios 2017, divulgada ontem pelo Comitê Gestor da Internet (CGI.br), são cerca de 27 milhões de residências desconectadas, enquanto outras 42,1 milhões acessam a rede via banda larga ou dispositivos móveis.

O índice de residências sem acesso é ainda maior nas classes D e E: 70% estão afastados do mundo virtual. Na classe A, 99% dos domicílios têm alguma forma de acesso, na classe B, 93%, e na classe C, 69%.

Ao longo dos últimos quatro anos, o acesso à internet vem se expandindo especialmente através das redes móveis. No levantamento com dados de 2014, 43% dos domicílios não tinham nem computador nem acesso à internet. Na pesquisa atual, com informações colhidas em 2017, o índice caiu para 34%.

O preço das conexões de banda larga é um dos fatores que levam parte dos usuários a acessarem a internet somente a partir das redes móveis. A experiência, no entanto, é limitada, como destacou o gerente do Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação (Cetic.br), Alexandre Barbosa:

- Quando falamos de criação de conteúdo, seja um texto, uma planilha, o dispositivo móvel tem obstáculos. Esse crescimento exclusivo acontece em classes sociais menos favorecidas. Isso cria a longo prazo uma dificuldade de habilidades digitais que são fundamentais.

25 DE JULHO DE 2018
MEGA SENA ACUMULADA

Afinal, apostar sempre nas mesmas dezenas dá resultado?



Quanto mais o prêmio da Mega Sena acumula, mais apostadores ficam torcendo para que agora seja a sua vez. Hoje, a bolada em disputa é de R$ 72 milhões (as apostas podem ser feitas até as 19h). Quase todo mundo conhece um apostador supersticioso que insiste em jogar sempre os mesmos números. Para esses, há até uma modalidade específica: a Teimosinha, que permite concorrer com os mesmos números por até oito concursos. No entanto, a matemática não está ao lado desse tipo de jogador - aliás, não está do lado de ninguém.

Para os leigos: na Mega Sena, ganha quem acertar os seis números sorteados. É possível realizar a aposta mínima (R$ 3,50) ou escolher até 15 dezenas de números (as chances aumentam, assim como valor da aposta).

O grande banho de água fria: estatisticamente, há mais de 50 milhões resultados possíveis na Mega. E todos têm exatamente a mesma chance de aparecer.

- Você tem 60 números e, deles, vão ser sorteados aleatoriamente seis números. Então, qualquer combinação de seis números retirados desses 60 tem exatamente a mesma chance de qualquer outro. Não há número favorito para aparecer - diz Sebastião de Amorim, professor do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Não importa se o apostador escolhe sempre os mesmos números ou se muda a sequência a cada semana. Na prática, a Mega é como jogar cara ou coroa: a chance é igual e os resultados do passado não influenciam aqueles do futuro.

- Rola uma superstição: imagina jogar os mesmos números por um monte de tempo e de repente, ao trocar a sequência, você perde? Mas, do ponto de vista probabilístico, não muda nada manter a mesma sequência ou sempre mudar - afirma Guilherme Pumi, professor do Departamento de Estatística da UFRGS.

A única dica que ajuda é jogar mais vezes ou fazer um bolão (que aumenta as chances, mas diminui o lucro: se você apostar em um grupo de cem pessoas, vai levar 1% do prêmio). Se você quiser apostar sozinho no valor mínimo de R$ 3,50, para cobrir todas as probabilidades seria preciso desembolsar R$ 125,1 milhões - mais do que o prêmio acumulado desta semana.

Apesar de a chance ser a mesma ao jogar qualquer sequência de seis números, evite obviedades como 01, 02, 03, 04, 05 e 06, aconselha Amorim, da Unicamp.

- É um mau negócio, são combinações carimbadas, porque muitas pessoas fazem essas apostas. Você terá a mesma chance de ganhar, mas vai dividir o prêmio com muita gente - finaliza.

MARCEL HARTMANN

25 DE JULHO DE 2018
NÍLSON SOUZA

Congelados


Vem aí uma novela protagonizada por ressuscitados que não são zumbis de filme de terror nem outro tipo de assombração, mas, sim, a materialização ficcional do sonho humano da preservação do corpo e, quem sabe, da vida eterna. Pelo que li nas resenhas de pré-lançamento, a família de Dom Sabino (Edson Celulari), congelada em 1886 e requentada nos dias atuais, levará, acima de tudo, um choque de tecnologia - e dos seus efeitos nas relações interpessoais. 

O Tempo não Para, que estreia na Globo no próximo dia 31, promete diversão e reflexão sobre a extraordinária mudança comportamental pela qual todos estamos passando nas últimas décadas. Eu, pelo menos, me sinto como se fosse obrigado a descongelar todos os dias - e não estou falando deste inverno traiçoeiro que assola a nossa querência amada.

Basta olhar para o título da nova novela: onde vamos parar sem aquele acento no verbo parar? Certo, já assimilei a maioria das mudanças da última reforma ortográfica (que entrou em vigor em 2009, vejam só!), mas de vez em quando ainda me surpreendo com palavras que eu mesmo escrevo e que agridem antigas convicções gramaticais. Descongelar em outra época é isso, o que aprendemos e passamos a vida praticando perde o valor.

Outro dia, conversava com minha mulher (ao vivo, não por Whats) sobre a importância do fogão a lenha na convivência social das famílias de antigamente, que é como chamamos o tempo da nossa infância e adolescência. Era em torno da chapa aquecida que as pessoas se reuniam para o mate, para o café ou simplesmente para o bate-papo das horas de lazer. A cozinha era o centro da comunicação. Depois, o rádio e a televisão levaram as pessoas para a sala, mas aí as conversas já rareavam porque era preciso ouvir ou prestar atenção na novela. Por fim, o computador e os celulares acabaram de vez com a comunicação afetiva, com o olho no olho, com o toque no braço para garantir a atenção.

Hoje, por ironia, estamos congelados pela tecnologia. Com raras exceções, sequer fazemos uma ligação para um amigo no Dia do Amigo, oferecendo-lhe o calor e o carinho da nossa voz. Na maioria dos encontros e celebrações, o que se vê são pessoas sentadas à mesma mesa, mas hipnotizadas pelas telinhas de seus smartphones. As carinhas amarelas substituíram beijos e abraços.

É só uma constatação, não estou querendo que a família do Celulari volte para o iceberg. Os avanços tecnológicos chegaram para ficar, ou para serem substituídos por outras inovações. Não se trata de saudosismo, nem de defender o retorno do fogão a lenha para as nossas cozinhas urbanas e automatizadas. Só estou pensando - e convidando leitoras e leitores a refletir comigo - se não seria sensato e adequado administrar melhor a nossa rotina tecnológica, separando um tempinho para encontros pessoais, abraços ao vivo e conversas ao pé do ouvido, como se dizia antigamente.

Nem que seja apenas para comentar as cenas mais divertidas da próxima novela.

NÍLSON SOUZA

terça-feira, 24 de julho de 2018


24 DE JULHO DE 2018
CARPINEJAR

Difícil papel na família


O amor de madrasta e de padrasto é um amor elevado, um amor puramente desinteressado. Eles não têm o benefício da relação automática, do laço do sangue, precisam construir com o enteado uma amizade do zero, em que o conselho depende da doçura e da pontualidade para não agredir e não soar como censura.

Chegam como um atentado na vida da criança, novatos num espaço de segurança, previsibilidade e intimidade já estabelecido da família.

São corajosos, pois alimentam uma relação desprovida de garantia e estabilidade. Enfrentam os rótulos e o preconceito por ocupar, no imaginário da infância, o lugar natural da mãe ou do pai. Provam o seu valor e adquirem credibilidade pouco a pouco. Só a constância da lealdade é que consolidará a influência.

Demonstram, na prática, que não vieram substituir ninguém, mas somar amizades e pontos de vista. Surpreendem com uma ternura desobrigada, uma atenção gratuita, uma dedicação sem a recompensa de abraços e beijos fáceis.

Talvez não recebam cartãozinho no dia das mães e dos pais, talvez não sejam chamados para as festas da escola, talvez não estejam representados nos desenhos infantis, talvez tenham que superar a carência e entender que as vitórias são secretas e parciais.

Andam no trapézio das emoções, evitando sofrer a desqualificação em qualquer embate: "Você não é meu pai", "Você não é minha mãe".

Não podem despertar a inveja e a concorrência sendo bons demais, nem a preocupação sendo indiferentes. Não podem dar bronca no momento de raiva nem devem ser tolerantes em excesso na alegria.

É como se fossem estrangeiros na dinâmica das cobranças e deveres. Recorrem à tradução simultânea do marido ou da esposa, para repassar os seus ensinamentos.

Armados na paciência, amando a paciência, jamais invadem a privacidade, ficam na porta esperando um convite para entrar na sensibilidade dos pequenos.

Enquanto os pais são cachorros, abertos aos pulos e colos, a madrasta e o padrasto são gatos, vigiando de longe, estudando cada situação.

Não há papel mais difícil dentro de casa. Encarnam o equilíbrio. Medirão as palavras e o tamanho do silêncio. Vão se apaixonar por uma pessoa que possivelmente não será para sempre.

Mas o amor é para sempre quando o coração se mostra um duradouro ventre.

CARPINEJAR


24 DE JULHO DE 2018
SEU OLHAR

O show das lavandas


Recentemente, saímos do nosso inverno gaúcho para o quente e ensolarado sul da França. Visitamos as regiões de Côte du Rhône e Provence, em excursão organizada por uma amiga enóloga para visitar vinícolas onde se fazem alguns dos melhores vinhos do mundo. Percorremos as regiões de Beaujolais, Gigondas, Châteauneuf-du-Pape e imediações, com suas charmosas aldeias, chegando até Cassis, no Mediterrâneo.

Como bônus, visitamos as plantações de lavanda, em plena floração, no plateau de Valensole. Um espetáculo da natureza, modificada pelo homem, só comparável, talvez, aos campos de tulipas da Holanda. Flores a perder de vista, em fileiras, com montanhas ao fundo. Curiosamente, as flores quase não têm cheiro. O perfume só aparece após a destilação do óleo essencial, nos alambiques das diversas fábricas da região.

O tipo de lavanda cultivado na maior parte das plantações é o híbrido lavandin (Lavandula hybrida), resultado da polinização feita entre a lavanda dita verdadeira (Lavandula angustifolia) e a lavanda selvagem, por produzir uma quantidade maior de óleo essencial que a lavanda verdadeira, sendo que o óleo extraído desta última é mais fino e recebe a denominação de origem controlada (AOC, em francês) de Haute Provence. O óleo essencial de lavanda e de lavandin é usado na indústria de perfumaria e também aproveitado por suas propriedades medicinais.

Visitamos uma das fábricas, onde se pode acompanhar o processo de extração e a fabricação dos diversos e variados produtos.

A romântica Torre Eiffel, em Paris, serve de cenário para inúmeros casais apaixonados selarem votos de matrimônio ou fazerem pedidos de casamento. O monumento, projetado pelo engenheiro francês Gustave Eiffel, serviu como símbolo para a Exposição Universal de 1889 e levou dois anos para ser construído, totalmente em ferro. A torre tem 324 metros de altura e, até o ano de 1930, foi considerada a estrutura mais alta do mundo, quando perdeu o posto para o Chrysler Building.

Alexandre Diesel Bender e Deise Osório Figueiredo

Em março de 2016

Na rota do vinho da Alsácia está o charmoso vilarejo de Riquewihr, onde se anda por estreitas ruas de pedra admirando casas medievais e renascentistas, balcões e pátios floridos.

Maria Olivia Bandeira Martha

De Porto Alegre, em setembro de 2014

O Palácio de Versalhes, ou Le Château de Versailles, contempla belas paisagens de seus enormes jardins, relíquia monumental que revela sua beleza rica em detalhes tanto por dentro quanto por fora do palácio. Destaca-se, também, a Galeria dos Espelhos (Galerie des Glaces), com 17 arcos revestidos com espelhos que refletem as 17 janelas em formato de arco viradas para o jardim.

Larissa Delavedova

De Porto Alegre, em junho de 2016

O Tour do Mont Blanc é um espetacular trekking que percorre regiões alpinas de França, Suíça e Itália, circundando o maciço e brindando os caminhantes com paisagens bucólicas e impressionantes vistas de suas belíssimas montanhas. Partindo de Chamonix, podemos nos deslumbrar com os visuais do imponente Mont Blanc, com 4.810 metros de altitude.

Rosângela Loeblein

De Campo Bom,

em setembro de 2014

Uma vista imperdível e gratuita de Paris, do último andar das Galeries Lafayette.

Mariane Guimarães e Victoria Ketzer

De Porto Alegre, em março de 2017

JÚLIO E INÁ GONZÁLEZ

24 DE JULHO DE 2018
DAVID COIMBRA

Uma vitória de Porto Alegre

Era já noite quando cheguei à Ponta do Gasômetro para fazer um passeio de reconhecimento pela renovada orla do Guaíba, tão apropriadamente chamada de Orla Moacyr Scliar. Havia ainda muita gente por lá, caminhando de mão no bolso, conversando sem pressa, sorvendo mate. Uns dedilhavam o violão, outros andavam de bicicleta ou deslizavam de skate. Da calçada, minúsculos pontos de luz pareciam refletir as estrelas. As pessoas se agachavam para tocá-los, riam enquanto exploravam a novidade. Estavam felizes.

É tão simples. A cidade se realiza quando as pessoas estão na rua. Neste tempo de medo, a orla do Guaíba é uma vitória da civilidade, um suspiro de alívio de Porto Alegre.

Lembro quanta gritaria houve para impedir que esse projeto fosse realizado. O Rio Grande do Sul é o Estado da oposição. Você quer fazer sucesso entre os gaúchos, seja do contra. Ressalte os defeitos, reduza as qualidades. Diga que não vai dar certo. Até porque, com todos agindo desta forma, você terá razão: nada vai dar certo.

Mas talvez isso esteja mudando. Vejo as pessoas fartas de tanto debate, desviando das polêmicas como se elas fossem gatos pretos, respirando fundo quando alguém despeja numa roda um dogma político duro de pedra. Quem sabe estejamos saindo da adolescência. Quem sabe estejamos nos aproximando da maturidade. Quem sabe?

DAVID COIMBRA

24 DE JULHO DE 2018
DAVID COIMBRA

Pedro Ernesto, esse romântico, e o cemitério dos elefantes



O Pedro Ernesto Denardin é um romântico. Ele tem aquela voz de Jeová ditando os mandamentos a Moisés, ele parece durão como um Kannemann, ele canta músicas gaudérias e jura guardar, dentro do peito, um paralelepípedo em lugar do coração. Mas não é nada disso.

A verdade é que Pedro ama.

Ama Jussara, sua ilustríssima. Tanto que, meio para o final da Copa, ele a chamou ardorosamente à Rússia: queria com ela desfrutar uma segunda lua de mel. E Jussara foi, e se juntou a nós em Kazan, justamente em Kazan, o "cemitério dos elefantes", onde acharam sepultura o Brasil, a Alemanha e a Argentina.

Pois foi na véspera do jogo do Brasil com a Bélgica que o amoroso Pedro levou a doce Jussara para um jantar às margens do Volga, na orla de Kazan. Estavam tão felizes, os dois, gostaram tanto da experiência que, generosamente, nos ligaram:

- Venham para cá! - ordenou o Pedro. - É muito bom! Vocês não vão se arrepender.

Obedecemos. E foi talvez o melhor jantar das nossas noites russas. Era uma cantina italiana graciosa, que servia uma comida tão apetitosa como se estivéssemos na Toscana. Terminado o repasto, saímos caminhando pela orla, aproveitando o verão setentrional.

Posso dizer, sobre a orla do Volga, que é muito parecida com a do Guaíba. Com duas diferenças:

1. A do Guaíba é mais bonita.

2. A do Volga é melhor.

Por que isso?

Porque os russos deram asas ao capitalismo, e por lá o capitalismo voou. A orla de Kazan é repleta de bares alegres e lojas de excelência, além de restaurantes sofisticados, como aquele em que encontramos o feliz casal Denardin. As pessoas vão à orla do Volga e consomem e se divertem e movimentam a roda da economia e geram empregos e lucros e satisfação a toda a gente.

Quem diria? Os russos, esses velhos comunistas, não têm vergonha do dinheiro.

DAVID COIMBRA