sábado, 27 de setembro de 2014


28 de setembro de 2014 | N° 17936
MARTHA MEDEIROS

Diga-me o que vestes

Lembro-me de uma matéria interessante que li anos atrás na revista Elle: convidaram uma estudante e uma executiva para passar 24 horas com a roupa uma da outra. Explico: a estudante, que costumava se vestir de uma maneira sexy e irreverente, teve de se vestir com o que encontrou no closet da executiva, e esta, por sua vez, teve de abandonar seu estilo sóbrio e conservador para escolher peças no closet da estudante. Resultado: viraram outra mulher por um dia.

A estudante, que adorava decote, barriga de fora e sandália de salto alto, colocou pela primeira vez um terno escuro com camisa para dentro da calça e sapato fechado. A executiva, habituada aos tailleurs bem-comportados, encarou uma saia acima do joelho, top de alcinhas, sandália gladiadora e gargantilha com crucifixo. Conclusão delas: não dá para mudar nosso jeito de ser simplesmente trocando de roupa.

Em termos, em termos. As próprias protagonistas da reportagem adotaram uma postura completamente diferente na hora de se deixar fotografar e, mesmo que tenham sido orientadas pela produtora de moda, a verdade é que a roupa conduz nossa atitude, sim.

A estudante, uma clone de Miley Cyrus sempre de mãos na cintura e ar provocante, cruzou os braços docemente quando colocou o terno. A executiva, que costumava ficar encolhida em seu trajes pastéis, jogou os cabelos para trás e encarou as lentes com um olhar sedutor, digno de quem se veste para matar. Lógico que a roupa pode despertar novas facetas de nossa personalidade.

Dormir com um pijamão apeluciado e dormir com uma lingerie de renda vermelha: tanto faz? Você de legging e tênis pela manhã, de jeans e jaqueta de couro à tarde, e à noite com um vestido justo decotado nas costas. Sim, é a mesma mulher, mas são três estados de espírito diferentes.

A roupa, subliminarmente, autoriza um determinado tipo de comportamento. Os homens se sentem mais confiantes quando estão de gravata, até seu jeito de caminhar se transforma. Já as mulheres sentem-se mais joviais quando estão de camiseta e mais sensuais quando estão de preto. Coloque um longo Versace numa freira e ela subitamente esquecerá da oração da Ave-Maria, empacará em “o Senhor é convosco” e, dali em diante se pegará, cantarolando algo da Beyoncé.


Cada pessoa deve vestir-se de acordo com o que é, e não com o que que gostaria de aparentar, mas não é pecado experimentar um personagem fora do habitual: desejar ser menos tímida, ou mais séria, ou um pouco excêntrica. É uma transformação que deve vir de dentro, mas o visual ajuda. Um botão a mais aberto na camisa pode operar milagres numa alma introvertida.

28 de setembro de 2014 | N° 17936
ANTONIO PRATA

O agudo e a crônica

Quando eu comecei a escrever crônicas, quinze anos atrás, prometi a mim mesmo que iria revolver somente a terra do meu canteiro, resistindo à tentação de arrastar o meu modesto arado por latifúndios pedregosos como a política, a economia, a crise no Oriente Médio. (Como diz o mestre Humberto Werneck, crônica é conversa sentado no meio-fio, não discurso sobre um caixotinho). 

Todo domingo, porém, questiono minha promessa: o mundo é vil, o país é injusto, há muitas causas importantes sem voz e muitos calhordas com megafones – devo seguir falando da minha infância, de um amigo que reencontrei, dos primeiros passos da minha filha?

Às vezes, em bate-papos com leitores, me perguntam por que eu raramente escrevo sobre o assunto da semana. Digo que a chance de eu ter alguma coisa relevante a dizer sobre o assunto da semana é pequena, ainda mais concorrendo com jornalistas e especialistas que estão debruçados sobre a questão. Serei mais profundo ou divertido, terei, enfim, mais chance de dizer algo verdadeiro (mesmo que pequeno, mas verdadeiro, e é isso que importa) se mirar no que eu conheço: a minha infância, o amigo que reencontrei, os primeiros passos da minha filha.

Também costumam perguntar, nesses bate-papos, se por falar sempre de si mesmo o cronista não seria um autocentrado e, portanto, um alienado. Acho o contrário: o cronista procura nele mesmo (ou melhor, numa ficção de si mesmo) os assuntos que possam tocar os outros. Todo mundo teve infância, todo mundo tem amigos que a vida afastou, mesmo quem não é pai ou mãe sabe o que é uma criança. Se ao falar do meu umbigo eu não cutucar o seu, a relação umbilical da literatura não se estabeleceu: pode escrever pro Painel do Leitor.

Esses questionamentos crônicos me voltam mais agudos nestas eleições. Na quinta retrasada, dia 18, um PM matou um ambulante com um tiro na cabeça. Nesta segunda, o PM foi solto. Não houve manifestações nem indignação por parte da população e Geraldo “quem não reagiu tá vivo” Alckmin, o chefe da PM, deve ser reeleito no primeiro turno. (Sobre o silêncio de São Paulo diante do assassinato, ler Flávio Moura em: http://migre.me/lRQpJ). Naquela mesma quinta, 18, no presídio de Pedrinhas, Maranhão, foi assassinado o décimo sétimo preso, só este ano. Ano passado, foram 60; alguns deles, decapitados diante das câmeras de celulares.

Os senhores feudais que dominam o Maranhão e gerenciam Pedrinhas são da base de apoio da Dilma, que acusa Marina de ser uma proposta insensata por não contar com o apoio de senhores feudais como os que dominam o Maranhão e gerenciam Pedrinhas. Marina, contudo, não é nada insensata: a paladina da nova política apoia quem, em SP? Alckmin.


Devo seguir falando da minha infância, de um amigo que reencontrei, dos primeiros passos da minha filha? Às vezes, acredito que sim: que a crônica existe para iluminar uns rincõezinhos assombreados do cotidiano, pra abrir nossos olhos para a graça que passa despercebida, pelas esquinas – e que isso também é um ato político. Outras vezes, porém, me vejo como um nobre gordo, na França, em 1788, comendo codornas enquanto o povo morre de fome, de bala ou é decapitado do lado de fora e nos calabouços do castelo.

28 de setembro de 2014 | N° 17936
FABRÍCIO CARPINEJAR

Fossa Nova

Nunca se comenta, nunca se discute, mas uma das principais modas é a da fossa. Fossa Nova que João Gilberto não sonhou em cantar.

Nenhum estilista providenciou um desfile sobre os deprimidos do amor, mas são as roupas que mais saem e as mais usadas.

Nenhuma Fashion Week abordou o assunto, mas não há vivalma que não tenha experimentado a eterna tendência.

As roupas da fossa são simples. Escuras, velhas e desbotadas. Aderem ao inverno total, apesar do sol brilhando lá fora. Não trazem cores quentes e ávidas do contato. Não provocam a atenção do verão e da primavera. Expressam cores resmungos, cores sombrias, avessas às gargalhadas e absolutamente discretas.

Vestidos? Jamais. Necas da sensualidade de pernas e tornozelos à mostra.

Blazers e casacos? Impossível. Às favas a sobriedade e a harmonia do conjunto masculino.

As calças pedem bolsos destinados ao lenço de papel, à aliança solteira e ao celular no silencioso. Pode ser de um abrigo surrado ou daquela calça jeans pronta para o sacrifício final.

As mulheres preferem as pantufas e os moletons com mais bolsos ainda.

Os homens optam pelo figurino de pintor de paredes: camiseta básica e manchada.

Os hábitos alimentares influenciam os modelos. As mulheres mergulham em potes de sorvete e desmancham barras de chocolate. Os homens recorrem ao álcool e à pizza como antidepressivos. Quem pede pizza durante três dias na semana é certo que vem penando por uma separação. Toda tele-entrega já identifica o cliente.

Estarão disfarçados de mendigo, interessados na praticidade: colocar e esquecer. Suas vestimentas formam um estranho macacão.

Não querem responder perguntas, odeiam cumprimentos educados como “tudo bem?” ou “o que fez no final de semana?”. Não desejam interagir. Querem passar despercebidos dentro da própria casa mesmo quando não tem ninguém.

São darks pelas olheiras. São grunges pela sobreposição. São punks pelos cabelos desalinhados e duros.

É uma mistura de épocas e de restos de coleções. Seus adeptos representam brechós andando, brechós-centopeias.

O que diferencia o deprimido é a falta de capricho no detalhe. Ele dispensa acessórios.

Se a mulher passeia pelo bairro desprovida de penteado é sócia do desastre.

Se o homem anda pela rua calçando um sapato sem meia está submerso na dor de corno e de cotovelo.

Se a mulher caminha sem maquiagem, brincos e colar está enfrentando um divórcio.

Se o homem percorre seu caminho ao trabalho desfalcado de cinto está vivendo sua decadência sentimental.


Vestir a dor tampouco exige medidas. As peças sobram ou apertam a cintura e não se reclama. Dois números acima, dois números abaixo, tanto faz, o desconforto não incomoda. A proposta é não se gostar mesmo.

28 de setembro de 2014 | N° 17936
PAULO SANT’ANA>

Filosofando...

Vamos filosofar um pouco? Então, vamos.

Ninguém pediu para nascer, foi no mínimo um desígnio de nosso pai e nossa mãe.

Pois bem, depois de termos nascido, é muito provável que para muitos de nós a vida não seja boa. E para estes, então, é negado o direito ao suicídio, tanto que há religiões, como a católica, em que o suicida é rejeitado até nos sacramentos.

E daí? Não pediu para nascer e é amaldiçoado se comete suicídio. Esse comportamento religioso nos dá a entender que a gente é obrigado a viver. Nasce-se sem ter querido e se está impedido de pôr fim à vida.

Em compensação, há os felizes, os que amam a vida e dariam tudo para pedir mais vidas ao Criador.

Por sinal, há esses que amam a vida e suplicam para não morrer e há os que não gostam de viver e, impedidos de se suicidarem pela lei religiosa ou sem coragem de fazê-lo, continuam a sofrer.

De tudo isso me sobra um ensinamento: temos de viver, sejamos felizes ou infelizes. Fomos convocados à vida e temos de desempenhá-la. É o meu caso, como disse esses dias, a vida me foi sofrida por um lado e risonha por outro. Cumpro, portanto, vivê-la.

Imagino que, antes de nascermos, somos chamados a um tribunal na presença do Criador e nos é dado o direito de opção: queremos ou não queremos viver?

Acredito que somos chamados a correr o risco: seremos felizes ou infelizes.

E aí é que está a coisa: penso que todos escolhemos correr o risco de viver, tão maravilhosa é a experiência da vida.

E daí, então, que estamos aqui, só passamos a viver porque isso foi uma escolha nossa.

Tem de ser assim. Que não tenhamos escolhido viver me parece injusto.

Alguém tem de viver. Não é a todos consentido que estejam num Nirvana, o Nada.

E eu vou assim fugindo do meu Nirvana. Tenho me saído bem, nem meus sofrimentos têm sido tão atrozes que não possa suportá-los, nem meus prazeres tão intensos que possa eu ter-me fartado deles.

Isso, em suma, é a vida.


E eu vou vivendo-a...

28 de setembro de 2014 | N° 17936
CÓDIGO DAVID | David Coimbra

Marilyn e as ostras

Dá-me certa ansiedade não pagar nada para a escola do B. É tudo de graça, e a escola é ótima. Fico me sentindo culpado. Fico achando que tem alguma coisa errada. A sensação é de que, se eu não der um bom dinheiro, eles não vão fazer um bom trabalho.

Lá estudou o Kennedy, imagina, e ele também não pagava nada.

Estou me exibindo muito com isso de o Kennedy ter estudado no mesmo lugar em que o meu filho estuda.

Fim de semana passado, o Potter e a Marcella estiveram aqui. Saímos a flanar por Boston. Paramos para almoçar no Union Oyster Bar, o mais antigo restaurante em funcionamento dos Estados Unidos, aberto desde os albores do século 19. O Kennedy ia lá para comer ostras frescas, e sentava-se sempre na mesma mesa, a 18. E não é que, por total coincidência, nos colocaram exatamente na mesa dele!?! Olhei para o B e disse:

– Guri, isso é um presságio! Tu vais ser presidente. Ou vais pegar uma Marilyn Monroe.

Prefiro a Marilyn. Já estou vendo-a, no aniversário dele, vindo a ondular como a serpente do paraíso, suas sinuosidades mal contidas dentro do vestido coladinho e faiscante. Estou vendo seu sorriso de marfim se abrindo diante do microfone e ela cantando em meio a gemidos e sussurros:

– Happy birthday... to you... Happy birthday... to you... Happy birthday, mister Bernardou...

Ah, o orgulho de um pai.

COMO FUNCIONAM AS ESCOLAS

As escolas públicas são excelentes por aqui. São mantidas por uma espécie de IPTU e melhoradas por doações da comunidade. Não são doações de ricos, não. São ações comunitárias, promovidas por empresas, entidades ou pessoas físicas. Duas semanas atrás, um supermercado, o Whole Foods, destinou 5% da renda do dia para as escolas locais. Todos da vizinhança foram comprar lá, eu inclusive.

O aluno não escolhe onde vai estudar. Quem escolhe é a, digamos, secretaria de educação, que coloca o aluno na escola mais próxima da sua casa. Então, lá na escola do B estudou o Kennedy e estudam os filhos do zelador do prédio em que moro, um sujeito retaco e sorridente egresso de El Salvador. Estudam também israelitas, árabes, coreanos, japoneses, italianos, etíopes, e todos fazem aula de inglês como reforço. De graça. E de graça ganham material escolar: cadernos, régua, canetas, lápis de cor...

A criança chega às oito da manhã e sai às duas e meia da tarde. Se os pais quiserem, o aluno continua até as seis e meia em diversas atividades de suporte, como aula de matemática, de literatura, de artes ou de esportes. E não paga um único dólar a mais por isso. O que você paga são três dólares por dia pela alimentação. Se não tiver condições de dar essas três doletas, manda uma carta para a escola, e eles fornecem alimentação gratuita e assistência médica gratuita também.

Os Estados Unidos são o maior país socialista do mundo.

A E I O U

A língua tem ritmo. Às vezes, passo por uma obra (tem muito brasileiro na construção civil americana) e reconheço o português do brasileiro pelo ritmo, não pelo sentido do que está sendo dito. Porque nem entendi o que as pessoas estão falando, não ouvi uma única palavra, só identifiquei o balanço do som e por isso sei que ali há brasileiros conversando.

O português falado por brasileiros é suave. Ao contrário do alemão, por exemplo, que é áspero. O espanhol da Espanha é agressivo. O italiano é dramaticamente cômico. Ou comicamente dramático. E o americano canta.

– Good mooooorniiiiing... – é a saudação das manhãs que faz a guarda de trânsito que fica controlando a rua atrás da escola do B. Gosto disso, de uma guarda de trânsito me cumprimentando com tanta alegria. Mas não é só ela. Depois de deixar o B, saio caminhando pela rua e cruzo com americanos portando enormes copos de papel cheios de café. Basta fazer contato visual com um deles para ouvir:

– Good moooooorniiing...

Esforço-me para devolver um good morning à altura.

Agora, o que eles gostam mesmo de dizer é oh my God. Para tudo eles dizem oh my God. Dizem de um jeito completamente cantado, com breque. Assim:

– Ó! Mai! Góóód...

Conheço uma americana que é de Connecticut, a Michelle. Ela fala Cãnéricãt. Acho lindo. Queria um dia sair por aí falando Cãnéricãt.

Mas, cá entre nós, é muito estranha a forma como eles falam, não é? Sobretudo as vogais.

O “A” é “Ei”.

O “E” é “I”.

O “I” é “Ai”.

O “O” é “Ou”.

E o “U” é “Iu”.

Por que isso??? Por que não falam certinho A, E, I, O, U?


Gostam de complicar, esses americanos.

28 de setembro de 2014 | N° 17936
L.F.VERISSIMO

O mau sentido

“Liberal” é uma palavra traiçoeira. É o adjetivo com que os conservadores americanos xingam a esquerda, ou o que julgam ser a esquerda, no seu país, mas no resto do mundo é o oposto de conservador. A confusão é antiga. Em inglês “liberal” já quis dizer licencioso, ou libertino. Shakespeare descreve alguém como sendo um “liberal villaine”, um vilão liberal, querendo dizer que é um canalha completo. Em todo o mundo, mesmo onde se fala inglês, “neoliberalismo” significa uma nova versão do liberalismo econômico do século 19.

Mas o liberalismo de então se opunha ao mercantilismo e ao poder da elite agrária e do conservadorismo e tinha um sentido progressista. Na sua versão atual, se opõe ao dirigismo do Estado e ao controle da empresa livre e, na sua aversão a qualquer ideia distributivista ou solidarista que atrapalhe os negócios, recupera o sentido shakespeariano da palavra. Mas, para aumentar ainda mais a confusão, muitos dos neoconservadores americanos de hoje têm esse nome porque no passado foram “liberais” progressistas, alguns até trotskistas.

O único regime econômico viável para um neoliberal seria o liberal no mau sentido, na opinião de um liberal no outro sentido. Com o suposto ocaso das ideologias e o fracasso do socialismo real e do capitalismo de Estado, não haveria mais alternativas para a moral do mercado dominar as nossas vidas.

Democracia formal não garante democracia econômica, como o Brasil não nos cansa de ensinar, nem a liberdade de lucrar sem controle ou remorso é a primeira condição para uma democracia funcionar, como insistem os neoliberais. Fala-se no fim das utopias, mas sobreviveu o utopismo mais irracional de todos, segundo o qual pela ganância e o egoísmo exaltados se pode chegar a qualquer ideia de comunidade e justiça.

O neoliberalismo só acredita na sua doutrina porque a mantém apesar de todas as evidências de que também não deu certo, e nos trouxe para esta crise, em que um sistema financeiro hipertrofiado e desregulado ameaça arrastar todo o mundo para o precipício.

LEITURAS

Na Renascença ninguém disse “Oba, estamos na Renascença!”. Vivemos para a frente, mas entendemos para trás e só sabemos o que nos aconteceu “lendo” o passado. E às vezes lendo errado. A gente fala nos loucos anos 20 quando várias liberdades novas começaram a ser experimentadas no rescaldo da I Guerra Mundial e esquece que foi a era que gerou o fascismo e outras formas liberticidas. O espírito da Era do Jazz foi um espírito totalitário: prevaleceram não os passos do Charleston, mas os passos de ganso. Os plácidos e sem graça anos 50 não foram tão aborrecidos assim. Foram os anos do existencialismo, de revoluções na arte e na literatura, do nascimento do rockenrol...


Nos fabulosos anos 60 e 70, enquanto as drogas, o sexo e a comunhão dos jovens pela paz e contra tudo o que era velho tomavam as ruas, o conservadorismo se entrincheirava no poder (Nixon nos Estados Unidos, os generais aqui, Margareth Thatcher e Ronald Reagan já no horizonte) e começava sua própria revolução careta. Quando fizerem a leitura da época atual, qual será a conclusão errada? Que o mundo se tornou mesmo uma aldeia global unida pela técnica ou que se dividiu ainda mais entre ricos e pobres e entre inteligência artificial e fundamentalismos, misticismo e outras formas de atraso? E no Brasil: o que é mesmo que está nos acontecendo?

27 de setembro de 2014 | N° 17935
NÍLSON SOUZA

UMA MENINA CHAMADA CONSCIÊNCIA

Ela completará 50 anos na próxima segunda-feira, mas será sempre menina – e será também eterna, creio, pois vem resistindo ao tempo e ao desencanto de seu criador. Falo de Mafalda, a genial personagem do cartunista argentino Quino, uma garotinha de seis anos que reúne lucidez, inteligência, ironia, humanismo e faz o leitor pensar e sorrir amarelo em apenas quatro quadrinhos. Mafalda é tudo de bom.

Conheci-a na década de 1970, quando visitei a Argentina pela primeira vez, em viagem de trabalho. Na época, o escriba aqui passava a sanduíches para poupar os trocados da diária. Mas o encontro com Mafalda abalou a minha poupança: deixei tudo na banca de jornal em troca de uma coleção de 10 revistas que aumentaram o peso da minha bagagem na volta. Mas valeu a pena. Ainda me lembro de pérolas da Guerra Fria, como a tirinha em que a professora de matemática anunciava para os alunos:

– Hoje vamos estudar o pentágono.

E Mafalda, com seu senso de justiça saindo pelos poros do dedo levantado:

– E amanhã o Kremlin?

Quino parou de desenhar Mafalda em 1973, mas a garota e sua turminha já tinham ganhado vida própria e conquistado o mundo. Impossível não simpatizar com aquelas crianças que interpretavam tão bem sentimentos universais:

Mafalda, questionadora dos políticos e dos poderosos, crítica das injustiças e inimiga da sopa; Filipe, angustiado com as obrigações escolares; Manolo, obcecado por negócios e pelos lucros do armazém do pai; Susanita, fútil, egoísta e invejosa; Miguelito, ingênuo e hesitante; Libertad, pequena e corajosa como a liberdade; Guile, o irmãozinho da heroína, concentrado no seu aprendizado de mundo, e mais os adultos, sempre entre o espanto e a perplexidade.


Na semana passada, reencontrei Mafalda numa livraria de Porto Alegre em álbuns de capa grossa. Não tive dúvida: levei a menina chamada consciência para passar o seu aniversário lá em casa.

27 de setembro de 2014 | N° 17935
PAULO SANT’ANA

Os burros e nós

Eu fumo muito. No entanto, nunca tomo café. Acho isso muito estranho, porque tanto o café quanto o cigarro são estimulantes.

Mas, se são iguais assim, por que não me atrai o café?

Acho que já descobri a causa: se já tenho o cigarro como estimulante, por que precisaria do café?

Um estimulante só já basta.

Vamos agora à comparação entre o burro e o inteligente.

Entremos num bar e notemos as parcerias que se formam nas mesas.

Se você vê na mesa nº 1 duas pessoas e na mesa nº 2 uma pessoa sozinha, pode apostar que as duas pessoas sentadas juntas são burras e a sentada sozinha é inteligente. Quase sempre essa conta dá certo.

O inteligente senta sozinho porque a solidão lhe basta. Enquanto que o burro é quase sempre gregário – para o burro, a solidão é insuportável.

Já se numa mesa se dá que encontraram-se um burro e um inteligente, a conversa se torna intolerável se durar mais de dois minutos.

E, se encontraram-se na mesa dois inteligentes, é certo que vai crescer sem limite a despesa no bar. Eles nunca vão se fartar um do outro, podem ficar conversando por horas a fio. O bar vai virar em seguida restaurante.

Vem daí outra vantagem em ser burro: a despesa do burro é muito menor no restaurante.

Eu sinto medo dos burros. Eles sempre me levam à exasperação.

Já os inteligentes me fascinam, eles me ajudam a me exercitar mentalmente.

Já o burro, mentalmente, quando me encontro com ele, tenho uma recaída: enquanto permaneço com ele, minha inteligência se atrofia e eu passo a ficar no nível dele.


Por isso é que se diz que certos colégios são melhores do que outros. Não são os colégios, são os alunos.

27 de setembro de 2014 | N° 17935
CLÁUDIA LAITANO

Eles por elas

1.Uma jovem aluna da Universidade Columbia, em Nova York, percorre todos os dias os 600 metros que separam o dormitório estudantil onde ela mora do Departamento de Artes Visuais, onde estuda, carregando um enorme colchão azul. Ela não pode pedir ajuda, mas aceita se alguém se oferecer para ajudá-la a carregar seu fardo. Inspirada por uma canção dos Beatles, Carry the Weight, Emma Sulkowicz transformou um drama pessoal em uma espécie de projeto artístico que é também um protesto e um alerta.

Enquanto o estudante que a atacou sexualmente 1397059140 a ela e a mais duas outras alunas 1397059140 permanecer impune, ou até se formar, Emma pretende continuar carregando seu colchão azul pelo campus de uma das mais prestigiadas universidades americanas.

2.Do outro lado do mundo, um grupo chamado YesNoMaybe produziu um vídeo nos moldes da série Vai fazer o quê?, do Fantástico. Dentro de uma van branca estacionada em uma rua movimentada de Nova Délhi, uma atriz grita e pede ajuda, como se estivesse sendo estuprada. A maioria dos passantes segue adiante sem preocupar-se em ajudar ou chamar a polícia. Apenas dois homens tentam fazer alguma coisa 1397059140 um deles um velho que bate na van com sua bengala. O vídeo faz parte de uma campanha para diminuir a apatia diante da cultura do estupro coletivo na Índia.

3.Há dois anos, no agreste paraibano, um homem resolveu brindar o irmão com um presente macabro: um estupro coletivo de mulheres. Disfarçados de assaltantes, os amigos invadiram a festa de aniversário e estupraram cinco convidadas. Duas reconheceram os estupradores e foram mortas. Ontem, depois de 17 horas de julgamento, o mentor do estupro coletivo, que ficou conhecido internacionalmente como 1396984945a barbárie de Queimadas1396986481, foi condenado a 106 anos de prisão.

4.Na semana passada, a atriz Emma Watson lançou na ONU o movimento HeForShe, convidando os homens a se engajarem na luta pela igualdade de direitos e oportunidades dos gêneros e contra a violência. Em um discurso comovente, a atriz lembrou que a igualdade favorece a ambos os sexos e que homens têm o direito de negar estereótipos tanto quanto as mulheres 1397059140 pois a vida já é difícil o suficiente sem que cada um tenha que fingir ser o que não é.

O combate à violência sexual e à violência doméstica, a luta pela legalização do aborto e pelos mesmos salários e todas as outras grandes causas feministas são causas de direitos humanos e deveriam ser abraçadas igualmente por homens e mulheres.


A maioria dos homens aprende, ainda na adolescência, a perceber a diferença entre um sim, um não e um talvez. O que o discurso de Emma Watson pede é que esses homens bacanas, que têm irmãs, namoradas, mães, amantes, ficantes, amigas de infância, coloquem-se ao lado de todas as outras mulheres, as que são namoradas, mães, irmãs e amigas de outros homens, agindo com coragem, energia e determinação diante de situações de injustiça ou violência. Homens, precisamos de vocês – tanto quanto vocês precisam de nós.

Sarney, o maior cabo eleitoral de Marina

Marina celebrou o ataque dele. Ninguém sabe a cara da nova política – e todos conhecem a velha

RUTH DE AQUINO
19/09/2014 21h02

Não será o retrato do Brasil atual que elegerá Dilma, Marina ou Aécio. Cada candidato extrairá da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) os números que melhor sustentam seus discursos.

Não será o beijo de Chico Buarque na mão de Dilma que a reelegerá. Não será o beijo de Gilberto Gil na testa de Marina que elegerá aquela que passou fome na infância e se desgarrou do PT. Não será o apaixonado apoio das socialites que elegerá o tucano Aécio.

Não são os programas de governo que decidirão tampouco, porque, até sexta-feira, nem Dilma nem Aécio haviam tido a coragem de expor suas propostas. Não serão os evangélicos, os católicos ou os ateus que elegerão o novo presidente. Não serão os gays. Nem os héteros. Não serão as mulheres pró ou contra o direito ao aborto. Não serão os ambientalistas ou os devastadores da floresta. Não serão os banqueiros – esses então, nunca! Mesmo que seus lucros tenham batido recordes nos 12 anos de PT, os banqueiros são os piores cabos eleitorais neste Brasil hoje estagnado e com algumas bombas-relógio armadas por Dilma.

Não serão, claro, os jornalistas que elegerão o próximo presidente, num país que continua com 13 milhões de analfabetos, além dos 30 milhões de analfabetos funcionais, com dificuldade para interpretar um texto. O PT e os militantes totalitários que acusam a imprensa de “fascismo” esquecem que Lula foi incensado pelos mesmos jornais que estão aí hoje, ao ser eleito em 2002. Havia, na imprensa, a rejeição da estratégia falaciosa do medo – a mesma que Dilma usa hoje contra sua maior adversária, Marina.

Lula encarnava uma imensa esperança de o Brasil se tornar mais ético, com uma “nova política”, ancorada na ética e na honestidade. A palavra ética desapareceu para sempre dos programas e das bandeiras do PT. É muito improvável que figure no programa de Dilma. Cara de pau tem limite.

O eleitor, com fé e razão, esperava com o PT um Brasil que investisse pesado em educação, saúde, transporte, segurança e infraestrutura. Um Brasil cujo governo não escondesse dólares na cueca, na bolsa, no banco do carro, na valise. Um Brasil em que a roubalheira não se tornasse institucionalizada, e os desvios de verba pública não se tornassem tão corriqueiros, enlameando até a Petrobras.

Um Brasil que valorizasse a meritocracia, em vez de criar uma casta de “sindicalistas aspones” milionários. Um Brasil que não transformasse corruptos em conselheiros do Poder. Que não criasse mais de 30 Ministérios e mais de 20 mil cargos comissionados na administração direta. Esperávamos um Brasil que não trocasse projeto de governo por projeto de poder, em que o fim justifica os meios.

Será que, como diz Dilma, se Marina for eleita, “banqueiros” farão desaparecer a comida da mesa dos brasileiros? Dilma apoiou a autonomia do Banco Central em 2010 e já percebeu que exagerou ao transformar Marina na “exterminadora do futuro”. Onde está a Comissão da Verdade?

Nesse vendaval de mentiras, só engolidas pelos desinformados ou de má-fé, apareceu, nas hostes do governo, o maior cabo eleitoral de Marina até agora: José Sarney. “Dona Marina, com essa cara de santinha, mas (não tem) ninguém mais radical, mais raivosa, mais com vontade de ódio do que ela. Quando ela fala em diálogo, o que ela chama de diálogo é converter você.” Sarney estava em São Luís, no palanque de Lobão Filho (PMDB), filho do ministro Edison Lobão, candidato ao governo do Maranhão com seu apoio e de sua filha Roseana.

Sarney foi chamado por Lula, em 1986, de “grileiro do Maranhão” e, em 1987, de “o maior ladrão da Nova República” – perto de Sarney, Maluf não passava de “um trombadinha”. Com Lula eleito, viraram irmãos de sangue, prontos a duelar um pelo outro. Sarney sobreviveu incólume a acusações de improbidade, em três mandatos do PT, com a bênção e o beija-mão de Lula e Dilma. Tornou-se o coronel da Casa Grande de Brasília, o “homem incomum”. Imagino como Marina comemorou a declaração de Sarney.

Ninguém sabe direito a cara da nova política, mas todo mundo conhece a cara da velha. O mínimo que se pede ao novo presidente é honestidade. Dilma deve implorar a Collor que não a defenda em público e não ataque Marina. É que pega mal. Já chega o Sarney.



27 de setembro de 2014 | N° 17935
ARTIGOS
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JUDICIÁRIO RS: IGUALDADE DE TRATAMENTO

A estrutura da carreira é nacional desde o advento da EC 45/2004, como já reconheceu o STF, intérprete último e com a palavra final em matéria constitucional. E, mais uma vez, em decisão proferida pelo ministro Luiz Fux no dia 25/09, na Ação Originária 1.946, foi reconhecido o direito de todos os magistrados do país receberem remuneração de forma igualitária.

E o comando judicial é expresso nesta ação, garantindo aos juízes estaduais – RS incluído – os mesmos direitos dos demais ramos do Judiciário (federal, do trabalho e militar). Note-se. Não se trata de agregação de efeito oriundo de algo reconhecido aos juízes federais. É direito próprio da magistratura estadual.

O Judiciário do RS, além de ser, como é público e notório, uma Justiça inovadora e de vanguarda no cenário nacional, tem desempenho de ponta, como comprova o recente relatório Justiça em Números, do CNJ, que analisa as atividades judiciárias de 2013. Como exemplo desse desempenho, destaque-se que é a Justiça com a menor taxa de congestionamento entre os tribunais de grande porte do Brasil (62%); está no segundo lugar nacional no índice de produtividade, com 2.154 processos baixados por magistrado.

Em termos de economicidade, a Justiça rio-grandense é, disparado, a mais eficiente e austera entre os tribunais de grande porte (SP, RJ, MG, PR e RS). Comparando a despesa total da Justiça em relação à despesa pública de cada um desses Estados, ficamos no percentual de 4,9%. Atrás somente de São Paulo, que está em 4,2%. Mas não se pode esquecer que São Paulo é a maior economia do país, representando 31,4% do PIB do Brasil, enquanto nós somos a quarta maior economia, com 6,4% do Produto Interno Bruto, conforme dados divulgados pelo IBGE no final de 2013.

Os dados falam por si só. Garantir remuneração igualitária para a magistratura gaúcha não é só um direito. É uma questão de justiça!

Ter um Judiciário de qualidade exige igualdade.


Juiz de Direito, presidente da Ajuris

sexta-feira, 26 de setembro de 2014


É PRIMAVEEEERAAAAAA!!!!

 Setembro no fim, é primaveeeraaa!!!! Te amo..., eterna voz do Tim Maia ao fundo. Vem outubro, melhor mês em Porto Alegre. Ah, tu gostas mais de abril? Tá bem, tá bem, vivente, não vamos discutir. Gaúchos não gostam de divergir, não é? Mas que cosa. Estamos unidos, respeitando as diversidades e as individualidades, em benefício do todo harmônico na direção do bem comum, com vistas aos altos interesses do Rio Grande, oigaletê porquera, tchê!

Mas que barrrrbaridaaaade! Sirvam nossas modelos de sanha, façanha e modelo para toda a terra! Viva o 20 de setembro! Liberdade não tem arreio! Domingão, dias de pernas para o ar, mas saio para caminhar. Aposentado não deve ficar só nos aposentos.

Penso no Parcão, nosso Rio de Janeiro-Moinhos, com seu lago Rodrigo de Freitas, sua passarela Goethe Aterro do Flamengo e suas árvores, tipo assim, Jardim Botânico Tom Jobim. Penso melhor, quero ir para o exterior. Domingo o Parcão é das bicicletas, das crianças, dos cachorros e dos que trabalham durante a semana. Não vou atrapalhar. Entro no portão do número 200 da rua 24 de Outubro.

Em meio aos jardins e prédios do Dmae - que já foi chamado de “demais”- sem passaporte e sem precisar de euros, me sinto em Paris ou Versalhes, como desejo. Caminho, aproveito o sol, as flores, as plantas e os gramados. Esqueço do celular, do Face e de umas outras coisas e problemas. Por algum tempo, penso nas águas, só nas águas. Jovens sadios, uns sarados, fazem piquenique. Um toca violão, uns cantam.

Ao que parece, bebem com moderação e curtem, imoderadamente, a luz do inverno. Beleza. Uns jogam uma espécie de futevôlei, outros conversam mole. O domingo vai se despedindo sem pressa, feito um barco ao longe, no horizonte azul. Sento no banco antigo, concentro na Torre, depois fecho os olhos e imagino a Torre. Tiro-a da imaginação. Quando quase penso em nada, em estado de consciência pura, ouço passinhos.

Abro os olhos, vejo as sapatilhas com lantejoulas, o vestido branco curto, com bolinhas pretas, e o chapéu coco da Clarissa, a modelo chapliniana, que chega com dois fotógrafos. Ela sobe na base de um poste antigo, depois faz poses reclinada num banco. As câmeras registram o leite de sua pele, o mar de seus olhos claros mirando o futuro e os cabelos platinados reluzindo.

Na volta, mais uma Veja, na esquina. Na capa, os três patrióticos pretendentes a presidente. Aí já estou no Brasil, pensando na segunda, em quem votar, na falta de planos para nossa economia e nas velhas crônicas sobre a falta de assunto. Eram as melhores.


Jaime Cimenti
Jaime Cimenti

Escravatura, liberdade e ilusão no Novo Mundo

O império da necessidade - Escravatura, liberdade e ilusão no Novo Mundo (Editora Rocco, 400 páginas, R$ 49,50, tradução de Ana Deiró), do professor e escritor norte-americano Greg Grandin, mostra o complexo e surpreendente comércio transatlântico de escravos, que transportou mais de dez milhões de africanos para as Américas. Greg é professor do Departamento de História da Universidade de Nova Iorque e um dos maiores especialistas em história da América Central.

Certa manhã de 1805, navegando pelo Pacífico, o caçador de focas da Nova Inglaterra Amasa Delano cruzou com um navio espanhol em dificuldades. Ao subir na embarcação, encontrou 72 africanos, entre homens, mulheres e crianças, que pareciam ser escravos.

Só pareciam. Na verdade, eles tinham matado a maioria da tripulação e assumido o controle da embarcação. Essa história incrível, que serviu de inspiração para Benito Sereno, obra-prima do genial Herman Melville, é o ponto de partida que Greg utilizou para uma investigação ampla e profunda sobre escravidão e liberdade nas Américas. A liberdade almejada pelos comerciantes também era justamente a liberdade de comprar e vender africanos cativos como bens, abastecendo os mercados das Américas.

Na sua obra, Greg mostra como o notório encontro de Delano com o espanhol Benito Cerreño e os africanos Babo e Mori numa embarcação à deriva no Atlântico Sul expõe um fascinante conflito de civilizações, num contexto de febre de comércio de escravos. Bem como disse Melville sobre um mundo que estava em plena revolução: “buscando conquistar uma liberdade maior, o homem apenas amplia o império da necessidade”.  Enfim, apoiado em intensa e rigorosa pesquisa, Greg Grandin reconstrói minuciosamente um cotidiano que vai muito além dos estereótipos e do senso comum sobre a escravidão.


O livro também mostra uma geração de homens do mar que estavam informalmente colonizando as ilhas da América do Sul. Greg, autor do best-seller Fordlândia, já publicado no Brasil pela Editora Rocco, também escreveu The Last colonial massacre, Blood of Guatemala e Empire´s Workshop, além de colaborar regularmente com os jornais Los Angeles Times, The Nation, The New Statesman e The New York Times.

26 de setembro de 2014 | N° 17934
MOISÉS MENDES

Eu voto, tu votas, ele anula

Até os 30 anos, eu carregava 50 certezas absolutas. Venho perdendo, em média, uma por ano. Se minhas contas estiverem certas, não terei nenhuma certeza categórica por volta dos 80 anos e passarei então a viver na dúvida.

Hoje, uma das certezas que tenho é de que a democracia não conta com a submissão incondicional de pelo menos um quarto dos brasileiros habilitados a votar. Me baseio no número dos que não aparecem nas eleições, votam em branco ou anulam o voto.

No segundo turno da última eleição para a Presidência, esse pessoal chegou a 36,6 milhões de eleitores, ou 26,76% do total.

Você, que detesta este tipo de conversa, não desista da leitura, porque você pode ter o perfil desses 26,76% que não escolhem ninguém, porque se abstêm ou decidem que nenhum candidato merece mesmo seu voto. Neste ano, mantido o percentual, seriam 38 milhões de pessoas. É muita gente. São dois Rios Grandes do Sul e uma Bahia.

A abstenção é o dado mais instigante, considerando-se que votar é uma obrigação: 21,5% não participaram da eleição no segundo turno de 2010.

O que há com esse povo? Sabemos que a abstenção é provocada por chuvaradas, dificuldade de transporte, doença, falta de hábito (no caso dos jovens) ou dor de dente. Pode ser, mas não dá pra explicar tanta ausência apenas por imprevistos e fatores alheios à vontade do eleitor. Abster-se não é, como se pensa, só coisa de pobre ou de áreas rurais.

Quem vota em branco ou anula o voto também manda recados. Pode, claro, errar na hora de apertar botões ou estar alheio a tudo e apenas bater ponto. No mínimo, é indiferença aos apelos de uma eleição.

Se você tem 12 eleitores na família, contando casal, filhos e o entorno de sogra, sogro, cunhados e agregados, pelo índice citado acima, três podem estar fora da escolha direta no segundo turno das eleições. Mas estarão participando, indiretamente, com alguma forma de negação – ausência, voto em branco ou voto nulo.

Até agora, esses três podem estar negaceando. Um dia dizem que vão de Zé Maria, no outro se apegam ao Fidelix ou ao Eymael. Os três parentes podem pegar a freeway no dia das eleições ou aparecer na seção eleitoral só pra cravar branco ou nulo. E entrarão, então, na estatística dos 26,76%.

Digo isso porque não conheço ninguém que se enquadre nesse um quarto de eleitores que se ausentam ou refugam todos os candidatos. Já saí a perguntar na Redação: quem vai votar em branco ou anular? Quem vai pra praia nas eleições? Não acho ninguém. Faça o teste aí na firma.

Esse eleitor é esquivo, você raramente o localiza. É como achar algum conhecido que tenha passado pra Medicina na UFRGS.

O anulador ou branqueador de voto está misturado a anarquistas e fascistas convictos. Pode ser o desiludido com a democracia, o enfarado com escolhas erradas ou o que acha que ninguém presta.


Quem viaja para longe das urnas nas eleições, anula o voto ou vota em branco é alguém que perdeu certezas ou talvez tenha se livrado de uma grande dúvida.

26 de setembro de 2014 | N° 17934
DAVID COIMBRA

Eles nos protegem

Quando algum amigo geme de medo de que esse ou aquele candidato seja eleito presidente, ofereço sempre o mesmo consolo:

– Não te preocupa. O Congresso nos protege.

Porque, embora o Executivo tenha tantos poderes no Brasil, como tem, o Legislativo é a verdadeira coluna de sustento da democracia. O presidente, qualquer presidente, quase sempre é acossado por gana autoritária. Raros resistiriam à tentação de se tornar ditadores, se pudessem.

O Brasil teve um presidente democrata de raiz, Itamar Franco. Os outros... Os tucanos meteram o bico em locais infectos para dar mais quatro anos a Fernando Henrique, todos sabem, e os petistas volta e meia fazem uma tentativa bolivariana, com seus plebiscitos e conselhos vários.

Essa estratégia de plebiscitos e conselhos é a mais perigosa, porque tem aparência de abertura democrática, quando, na verdade, sua intenção é solapar o Legislativo e, assim, solapar a democracia representativa. O argumento dos governistas é insidioso: eles juram que esses conselhos dariam mais oportunidades de participação “ao povo”. Bastaria que “o povo” se dispusesse a integrar os conselhos para, desta forma, decidir os rumos da sua própria vida. Balela.

Os governistas sabem que “o povo” simplesmente não quer participar de conselho nenhum. Imagine você tendo de ir a uma plenária duas vezes por semana, ou a um seminário, ou a um debate, ou a um congresso de qualquer coisa. Que porre. Você tem mais o que fazer. Você tem o seu trabalho, os seus amigos, a sua família, o seu time, o seu cachorro, o seu sono.

É por isso que a democracia representativa é tão boa: você escolhe pessoas para representá-lo nessas atividades e para estudar questões pedregosas, como reformas legislativas. Elas estão lá para isso. Agora, se as coisas não estão indo bem, aí você tem de pressionar o seu representante, tem de protestar, tem de gritar. Mas só em casos extremos, obviamente, que você tem seus compromissos.

Conselhos do gênero seriam habitados por partidos orgânicos, como o PT, e seus agregados. Eles fazem política sistemática e profissionalmente. Eles vivem disso. Tanto que já estão infiltrados em sindicatos, associações de bairro, ONGs, igreja e universidades.

O Congresso nos protegeu (por enquanto) dos conselhos bolivarianos. Não nos protegeu da reeleição de Fernando Henrique, uma escusa mudança das regras do jogo em meio ao jogo, feita por meios mais escusos ainda.

O Judiciário também tenta sabotar o Legislativo. Veja essas novas teorias de atuação “ativa” do Judiciário, tão ativa que seus representantes não se contentam mais em agir quando provocados; eles provocam, eles são litigantes, eles faturam com as causas levantadas por eles mesmos, como fez a juíza de Livramento ao atrair para o conflito os pobrezinhos dos gaúchos tradicionalistas.

O argumento do novo Judiciário é que o Legislativo é muito lento para promover as “evoluções” da sociedade que ele, Judiciário, acha importantes. É claro: o Judiciário é uma classe só, a elite intelectual, inflada de convicções ideológicas sobre o que é certo ou errado; o Executivo é mais restrito ainda, é uma pessoa só, ansiosa para promover as mudanças que, em sua cabeça coroada, considera ideais. Já o Legislativo é legião, porque somos muitos.

No Legislativo, todo o Brasil está representado, ou quase todo. No Legislativo há os sem-terra e os ruralistas, há os jogadores de futebol e os médicos, há os militares da reserva e os guerrilheiros desarmados. O Legislativo, de fato, representa a nação. O Executivo e o Judiciário, não.

Para desespero da elite intelectual, que adeja com sua vasta sapiência por redações de jornal, tribunais e redes sociais, o Brasil também é formado por gente como os evangélicos, por exemplo, que, no Congresso, têm direito a voz e voto.


Você é a favor da legalização do aborto (eu sou), é a favor do casamento civil gay (sou também), é a favor da legalização da maconha (sou), é a favor da exigência do diploma de jornalista (contra)? Vote em um deputado que pense como você. Que defenda suas causas. Não precisa ser o mais inteligente, basta que ele concorde com o que você acha relevante. Eleger deputados que realmente nos representem é mais importante do que eleger o presidente ideal. Os deputados estão lá para nos proteger de presidentes, juízes e demais mulheres e homens sábios que querem dizer o que é bom para nós.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

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....SE NÃO EXISTISSE A MULHER....

SEM A MULHER
PRA QUE O ROMANTISMO DO POEMA?
SEM A MULHER
PRA QUE A DIVERSIDADE DE PERFUME?
SEM A MULHER
PRA QUE A PRODUÇÃO DE TINTURAS?
SEM A MULHER
PRA QUE TANTAS CORES?
SEM A MULHER
PRA QUE A ENGENHARIA DAS CONQUISTAS?
SEM A MULHER
PRA QUE TANTO AFINCO NAS PESQUISAS?
SEM A MULHER
PRA QUE A SEDE DE SABEDORIA?
SEM A MULHER
PRA QUE TRABALHAR NAS FANTASIAS?
SEM A MULHER
PRA QUE INVENTAR O LUXO?
SEM A MULHER
PRA QUE PRODUZIR TANTO CONFORTO?
SEM A MULHER
PRA QUE MANUSEAR TANTOS IDIOMAS?
SEM A MULHER
PRA QUE TANTAS PERGUNTAS?
SEM A MULHER
SE RESPOSTAS NÃO SERIAM NECESSÁRIAS?
SEM A MULHER
POR QUE E PRA QUEM EU ESCREVERIA?????
(Leamsi.smile)

MULHER O UNIVERSO TE HOMENAGEIA
POIS SEM TI TD SERIA SOMENTE CHATICE!!
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by Keyla
((Meu Carinho Há Tds))



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Devemos ser grato a Deus pelos pequenos detalhes.
Nos detalhes descobrimos o valor de uma realidade.
Olhar as miudezas da vida faz a diferença
((Padre Fábio de Melo)).

By Keyla
Beijinhos a todos, no ♥


25 de setembro de 2014 | N° 17933
EDITORIAL ZH

BENEFÍCIO INJUSTIFICADO

A autonomia do Judiciário não pode servir de pretexto para um evidente privilégio, com potencial para comprometer ainda mais as já combalidas finanças do Estado.

Por qualquer ângulo que se examine, é injustificável a pretensão dos magistrados estaduais de incluir nos próprios subsídios o benefício de R$ 4,3 mil concedido pelo ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal, aos magistrados federais que não dispõem de residência oficial em suas áreas de atuação.

A autonomia do Judiciário, uma garantia constitucional indispensável para o bom funcionamento da democracia, não pode servir de pretexto para um evidente privilégio, com potencial para se estender a outras categorias de servidores e, no caso do Rio Grande do Sul, comprometer ainda mais as já combalidas finanças do Estado.

Quando conquistaram o direito à remuneração por subsídios, em 2008, juízes, promotores e procuradores argumentaram que a nova forma de vencimentos, além de ser mais transparente, eliminaria de vez os chamados penduricalhos – denominação pejorativa para auxílios e benefícios extrassalariais. O artigo 39 da Constituição, em seu parágrafo 4º, veda o acúmulo de subsídio com verbas remuneratórias de outras espécies, caso do auxílio-moradia. Portanto, até mesmo a legalidade do benefício é questionável.

Mas o que mais fere o bom senso é a possibilidade de inclusão nos maiores salários de servidores públicos de um valor superior aos vencimentos pagos a várias categorias de servidores e à imensa maioria dos contribuintes, elevando ainda mais as disparidades já existentes.

Como bem lembrou o deputado Raul Pont em pronunciamento na Assembleia Legislativa nesta semana, o auxílio-moradia se constitui em acinte para uma sociedade que sequer consegue pagar o piso nacional aos seus professores.


É inquestionável que os magistrados exercem uma atividade essencial para a sociedade e merecem remuneração condigna. Isso não está em discussão. O que se questiona é o subterfúgio utilizado para um reajuste inoportuno, danoso para o Estado e incompreensível para os cidadãos que sustentam a máquina administrativa com os impostos. Diante de tamanho absurdo, o mínimo que se espera das lideranças políticas e do próprio Judiciário é uma negociação ponderada sobre o assunto, antes que essa aberração se concretize e gere ainda mais descrença dos cidadãos nas instituições públicas.

25 de setembro de 2014 | N° 17933
PAULO SANT’ANA

A surpresa

Estou com 75 anos de idade e me safei de dois cânceres nos últimos 18 meses, um na rinofaringe, outro no intestino grosso, ambos com procedência no tabagismo, é quase certo.

Sim, mas e minha vida como vai ser daqui por diante? Esta é a grande pergunta: o que será o amanhã? Como vai ser o meu destino?

É certo que já vivi bastante. Mas pretendo viver mais. Claro que desejo ser feliz, mas como terei garantia disso?

O surpreendente na vida é que não sabemos nunca o que será de nós, o que nos espera.

Esse é o dilema do ser humano, ele busca a felicidade, mas é possível que não a atinja.

Uns driblam essa incerteza consultando as cartomantes e as ciganas, embora não acreditem muito nelas.

Pensando bem, se soubéssemos como iria ser nosso destino, a vida perderia a graça. A graça da vida consiste em não sabermos o que nos espera.

Na verdade, agora que já sabemos o que foi a nossa vida até aqui, podemos avaliá-la.

No meu caso, esses 75 anos de existência tiveram desventuras e venturas.

Fui muitas vezes feliz e muitas vezes infeliz.

Agora mesmo, para avaliar a minha última experiência, sofri muito no hospital nos 15 dias em que convalesci. Sofri dores atrozes, os médicos tiveram de me aplicar, nesses 15 dias, cerca de 12 injeções de morfina, tal era a dor.

Mas, mesmo com esse sofrimento tormentoso, o balanço da minha vida é ótimo. Se eu pudesse escolher, pediria a Deus que me designasse a mesma vida que vivi, com os sofrimentos e com os prazeres.

Valeria a pena.

O emocionante é que não sabemos nunca o que será de nós: muitas vezes nos esforçamos para andar direito, para fazer tudo certo. De repente, topamos com a infelicidade.

A vida é uma novela, cheia de acontecimentos esperados e inesperados.

É, mas eu já disse que não teria graça a vida se soubéssemos antecipadamente o que iria nos acontecer.

E, apesar de não sabermos, é bom que não saibamos.

Porque essencialmente a maior felicidade é intrigar-nos com o que vai nos acontecer.


Com a surpresa, a grande delícia da vida.

25 de setembro de 2014 | N° 17933
L.F. VERISSIMO

O fim

Lembra do bug do milênio? Depois que o fim do mundo não aconteceu como previsto no começo dos anos 2000, o Apocalipse ficou desmoralizado. Mas pode ter havido apenas um erro nas datas da sua chegada. Das 940 quadras das profecias de Nostradamus, em apenas nove ele dá datas específicas, e é compreensível que tenha se enganado em alguma. Na quadra 72 da 10ª centúria das profecias de Nostradamus, está escrito que “no ano de 1999 e sete meses dos céus virá o grande rei do terror”.

O costureiro Paco Rabanne, um estudioso da obra de Nostradamus, deduziu que o dia do grande terror, quando o mundo começaria a acabar, seria 28 de julho de 1999. Inclusive, dizem que ele fez o que seria seu último desfile no dia 27 e pagou todo mundo com cheques pré-datados.

Segundo Paco, o fim iniciaria com a explosão de uma estação espacial abandonada pelos russos sobre Paris. Feitos alguns ajustes nas datas, a previsão mantém-se perfeitamente plausível.

O que viria depois da explosão, Nostradamus não esclareceu. Disse que o rei do terror faria ressuscitar uma grande potência do Oriente e dela viria um anticristo que reinaria no Ocidente. Exegetas das profecias interpretaram suas palavras como uma referência a hordas mongóis lideradas por um Gengis Khan redivivo. Hoje, a interpretação pode ser outra: a grande potência que ressuscita é a Rússia, e a grande ameaça que vem do Oriente é Putin, provavelmente a cavalo e sem camisa.

Como se sabe, junto com os discos de vinil e a Wanderléa, a Guerra Fria voltou. E a Rússia tem novos foguetes de longo alcance com múltiplas ogivas nucleares, capazes de destruir 17 Hiroshimas ao mesmo tempo, só um pouco menos do que os foguetes americanos. Paco Rabanne se precipitou. O fim pode estar próximo AGORA.


Quero aproveitar a oportunidade para dizer que foi um privilégio pertencer à Humanidade enquanto ela durou. E sei que falo pelos bilhões e bilhões de pessoas que frequentaram este planeta desde que éramos pré-hominídeos que não sabiam nem fazer fogo nem sexo de frente quando digo que foi bom. Fizemos muita bobagem, é verdade – guerras, filhos demais, carros com rabos de peixe, Brasília –, mas também fizemos coisas admiráveis.


Dois exemplos: a Catedral de Chartres e a Patricia Pillar. E nos divertimos, é ou não é? Parabéns à Terra, que nos acolheu sem fazer perguntas, nos deu a água e o oxigênio de que precisávamos para viver e ainda nos proporcionou grandes crepúsculos, sem falar no cheiro de capim molhado e no pudim de laranja. Obrigado, velha. Que venha o Apocalipse. Viva o Internacional.