sábado, 27 de dezembro de 2014


28 de dezembro de 2014 | N° 18026
MOISÉS MENDES

O homem do ano

O homem do ano é Francisco. Não só porque enfrenta a burocracia da Cúria Romana, que tenta fragilizá-lo, mas porque provoca seus inimigos com ironia. O Papa disse, ao enumerar as 15 doenças da alta cúpula da Igreja, que falta humor aos pregadores do catolicismo, e não só aos poderosos da Santa Sé.

O religioso, disse Francisco, referindo-se aos servidores em geral, padres, bispos, cardeais, “deve ser uma pessoa amável, serena e entusiasta, uma pessoa alegre que transmite alegria”. Francisco não quer saber de rabugentos.

A Igreja é mal-humorada. Ficou pior com João Paulo II, o papa anticomunista, brutalizado pela Guerra Fria. Simpático, terno, viajante, mas conservador demais, previsível, repetitivo em suas pregações.

Seu sucessor, o cardeal Joseph Ratzinger, o burocrata da Cúria que virou papa, tentou convencer a todos que era um intelectual da Igreja. Bento XVI seria um pensador à espera da chance para brilhar como guardião dos dogmas do Vaticano. Era um pregador quase medieval, com um sorriso pela metade e zero de comunicação e humor.

E aí veio Jorge Mario Bergoglio. O argentino disse, na primeira entrevista, que os cardeais que o elegeram foram buscá-lo “no fim do mundo”. Imagine um brasileiro eleito papa dizendo que o Brasil é o fim do mundo.

Há uma sucessão de tiradas de humor nas falas do Papa. Ele distensiona a relação com os fiéis e desarma os que estão prontos para agir como seus algozes dentro da Cúria. Francisco os enfrenta quase com deboche.

Um dia, ao defender que todos têm direito a terra, teto e trabalho, afirmou: “Se eu falo disso, o Papa é um comunista”. No ano passado, quando veio ao Brasil, brincou com nossos exageros: “Vocês querem tudo. Vocês já têm um Deus brasileiro, queriam um papa brasileiro também?”.

Neste ano, pediu que seus liderados abandonem a obsessão de pregar contra os gays, numa Igreja constrangida pela ação dos pedófilos. Francisco disse: “A Igreja deve ser uma casa aberta a todos, e não uma pequena capela focada em doutrina, ortodoxia e em uma agenda limitada de ensinamentos morais”.

Queria ver o Papa inspirando líderes em geral que exercem o poder pelo comando, com ortodoxia, hierarquias, organogramas. Você, aí na repartição ou na firma, sabe que ainda é assim, que a retórica mudancista muitas vezes protege inseguros com o próprio discurso da mudança.

O papa reformista nos instiga sobre ideais e relações que deveriam ser menos dogmáticas e ainda se lastreiam em princípios que Ratzinger tentava preservar como guardião do atraso. Há muita pregação, fora das igrejas, em lugares que até o diabo se nega a frequentar.

Num mundo em que a sisudez perde espaço (e em que os que se levam a sério demais extraviam a capacidade de passar mensagens), o Papa manda recados com a inteligência e o humor que nos socorrem em meio a tanta besteira dita com o disfarce da sobriedade.


A mediocridade odeia o humor. Os reacionários têm mil motivos para odiar o Papa. Eu acredito mais em Francisco do que em Obama. Até porque o argentino me diverte muito mais.

28 de dezembro de 2014 | N° 18026
L. F. VERISSIMO

Modelos

Não existe gente que tem medo de palhaço? Pois eu tenho medo de modelos. Sou provavelmente o único homem no mundo que, se um dia ficasse frente a frente com a Gisele Bündchen, sairia correndo. Não sei qual é a origem dessa fobia. Não me lembro de ter sido assustado por uma modelo, quando criança. Nenhuma modelo me fez mal, ainda. Mas elas simplesmente me apavoram. É aquele ar que elas têm.

É isso. Aquele ar de superioridade, de desprezo. Eu sei que não é comigo, que elas desprezam toda a humanidade. Mas fico apavorado assim mesmo. Uma vez assisti a um desfile de modas e, depois da passagem da primeira modelo, comecei a suar frio. Ela tinha me olhado nos olhos.

Olhado como se fosse cuspir na minha cabeça. E as outras fizeram a mesma coisa. Juro. Pedi a quem me acompanhava: “Me tirem daqui!”. Não entenderam. Perguntaram o que havia. Respondi que estava cansado de ser menosprezado daquele jeito. O desfile era contra mim! Acabei me asilando no banheiro dos homens, onde eu sabia que elas não entrariam.

Procurei ajuda psiquiátrica para o meu problema. O doutor se surpreendeu: Mas elas são tão bonitas! – É por isso, doutor. São bonitas demais. Altas demais. Tudo nelas é um exagero, uma provocação. Uma espécie de prepotência.

– Todo homem sonha em possuir uma modelo. – Meus sonhos com modelos sempre terminam da mesma maneira: eu sendo pisoteado por várias, com saltos altos. – Vou lhe receitar um calmante...

– Calmante, para minar minhas defesas, doutor? E se elas me atacarem? – O que faz você pensar que as modelos vão querer atacar você?

– E eu sei? É por isso que estou aqui!

Pouca gente sabe que, antes de entrarem na passarela, as modelos chupam um limão, para desfilar com a correta expressão de desprezo, beirando o nojo, pelos seus inferiores, começando por mim. Nunca sorriem. Alimentam-se de pequenos passarinhos, pois não têm um sistema gastrointestinal como o nosso. Só mudam de dieta na lua cheia, quando comem um homem inteiro. Aquela maneira de caminhar cruzando as pernas que só modelos têm é uma amostra do que são capazes.


Eu sei, eu sei. Meu pavor de modelos é uma fobia irracional como qualquer outra. O que não quer dizer que não seja justificado. A ameaça só existe na minha imaginação e tenho tentado vencer meu medo. Mas não tem sido fácil. Por exemplo: acabo de saber que neste exato momento está havendo um simpósio internacional de modelos, em Milão, e que o tema do simpósio é o meu pênis!

WALCYR CARRASCO
23/12/2014 09h00
 
Dezembro perigoso

O que você prometeu a si mesmo? Emagrecer? Eu consegui, mas sou um caso raro

Noite dessas, um amigo me ligou. Estava confuso, irritado, nervoso: – Amanhã vou pedir demissão.

Quis saber por quê. Ele me contou que está há anos no emprego, é o braço direito do chefe e, mesmo assim, não teve nenhuma promoção nem aumento nos últimos anos. – É hora de sair.

Argumentei. Há uma regra imbatível no que se refere a trabalho. Melhor procurar novo emprego já tendo um do que sem nada. O desempregado entra no mercado com muitos pontos a menos. Depois de um tempo sem achar nada, bate um desespero, ele acaba aceitando algo pior do que já tinha. É uma regra de ouro: se estiver insatisfeito com seu emprego, não peça demissão. Procure outro escondido. E bem escondido. Pega muito mal se seu chefe descobrir que você está em fuga.

Durante a conversa, tive uma luz que o convenceu a mudar de atitude.

– É a síndrome de dezembro – eu disse. Dezembro é o mês em que a gente faz uma avaliação do ano, da vida.

Pois é. Parece ser um mês alegre. Há festas, carinhas sorridentes de Papai Noel. Na virada do ano, um clima de euforia, todos queremos estourar um champanhe na praia, brindar a uma nova vida. Vem a esperança: com a virada do ano, uma nova etapa da vida. Só que não é assim. A vida é contínua, formada por elos de escolhas e acontecimentos que se encadeiam. A gente grita:

– Agora será um ano realmente novo!

E tomamos decisões arriscadas. Casamentos se desfazem porque, de repente, o homem não consegue explicar à namorada que tem de passar o Réveillon com a mulher. E como explicar, se ele já convenceu a outra que seu casamento é uma farsa, que não faz mais sexo com a oficial há anos, que está pronto para separar? A namorada quer uma prova de amor. Prova das boas é passar o Réveillon juntos. O sujeito se contorce. Escolhe. Nem sempre toma a decisão que tomaria a longo prazo.

Pior. No trabalho, qualquer resolução de dezembro ficará adiada até depois do Carnaval. Alguém acha emprego entre Ano-Novo e Carnaval? Este país, lamentavelmente, para. Ficamos em estado de suspensão.

Isso torna dezembro duplamente perigoso. É fácil decidir e desistir. Mas a retomada, a reconstrução... fica para depois! (A não ser que sua proposta seja montar uma oficina de fantasias carnavalescas e, mesmo assim, multidões trabalham nisso há meses!)

Não sou pessimista, mas nunca me assusto quando ouço dizer que em datas festivas há mais suicídios. Dezembro é justamente onde a gente descobre que as decisões do Ano-Novo passado rolaram ladeira abaixo. O que você prometeu a si mesmo? Emagrecer? (Vitória, eu consegui. Mas sou um caso raro. A barriga de meus amigos continua cada vez maior.)

Prometeu que encontraria um novo amor e, agora, descobriu que ele fugiu com sua melhor amiga? Prometeu comprar casa própria e não sabe como pagar as parcelas intermediárias durante a construção? Enfim, é agora que você avalia as promessas feitas com a melhor das intenções no fim de ano passado. E descobre que foram palavras escritas na areia, a maioria das vezes.

Vem uma frustração que nem te conto. Dói fundo. Não há nada a fazer a respeito, porque decisões férreas de Ano-Novo são o resultado das avaliações de dezembro. Mas é preciso conviver com a realidade. Não há muito dinheiro para os presentes, a viagem não vai rolar. Conheço um casal que ia todo ano para Punta del Leste. Neste ano, até tem amigos dispostos a oferecer hospedagem, mas não há dinheiro para as passagens. Sofrem.

Não quero dizer que o ano tenha sido ruim para todo mundo, por favor! Mesmo que você tenha uma vida radiosa, feliz, em dezembro corre o risco de olhar a parte pior da história. A gente é assim: o que acontece de bom, anotamos em preto e branco; de ruim, gritamos aos olhos e ao mundo como se fosse escrito em neon.

Em dezembro, lembro o que não consegui. E o projeto de estudar hebraico bíblico? (Sempre tive vontade.) O livro ainda vive embaixo do travesseiro? A vontade de ver mais os amigos? Intensificar as relações? Meu blog, eu não ia fazer um blog?


O duro é que não adianta tomar nenhuma iniciativa agora. Vem Natal, depois Réveillon. Por melhor que seja o novo plano de vida, a gente adia. Até regime. Quem começa regime no Natal? Fica a sensação de frustração, do que a gente queria fazer e não fez. E que não pode começar imediatamente. Dezembro é perigoso. É o mês em que a gente festeja, enquanto chora pela vida.

27 de dezembro de 2014 | N° 18025
NÍLSON SOUZA

SELFIE NA MANJEDOURA

Scliar diria que este é um daqueles nomes que condicionam destinos. O homem chama-se Merison Pinheiro e pintou um quadro de Natal sintonizado com os tempos atuais. No desenho, exposto num supermercado de Ponta Grossa, no Paraná, vê-se a família sagrada do cristianismo num momento impensável para os tempos pretéritos em que a história teria ocorrido. José empunha um celular, abraça Maria e registra a cena familiar, com o menino Jesus ao fundo em seu berço rústico, forrado com capim seco.

A selfie na manjedoura foi criada pelo artista com nome de árvore, que queria apenas dar um toque de humor à cena clássica – o que conseguiu com leveza e bom gosto. Mas o quadro que atrai olhares e arranca sorrisos também permite uma constatação filosófica: nunca mais teremos mitos construídos por narrativas orais ou escritas dissociadas da imagem.

Antes que os religiosos mais radicais se manifestem, vou lembrando que mito não significa mentira nem verdade. É apenas uma história baseada na tradição ou nas lendas, que tenta explicar fenômenos naturais ou fatos de difícil comprovação. Isso, evidentemente, antes da tecnologia de captura de imagens. Tomé, o apóstolo cético, jamais teria duvidado se um de seus companheiros tivesse fotografado ou filmado a primeira aparição de Cristo ressuscitado.

Imagens impressionam. Os grandes mitos da História só alcançaram as massas depois que os pintores da Idade Média e do Renascimento começaram a documentá-los. Mas as reproduções nem sempre retratam a verdade. Dom Pedro II, contam os historiadores, casou-se com Teresa Cristina por procuração, conhecendo apenas um retrato retocado da princesa italiana – que em nada conferia com a realidade da futura imperatriz brasileira.

A tecnologia digital permite manipulações ainda mais convincentes. Rugas são eliminadas, pessoas que não estavam na cena aparecem misteriosamente no retrato, indesejáveis podem ser apagados e até seres de outras épocas podem ser ressuscitados em imagens coloridas.


Depois do Photoshop, é mais sensato acreditar num mito do que numa fotografia.

27 de dezembro de 2014 | N° 18025
PALAVRA DE MÉDICO | J.J. CAMARGO

A VERDADEIRA GRATIDÃO É SILENCIOSA

Generosidade e gratidão só parecem plenas quando se bastam no silêncio. Seguindo a linha de Millôr, que desconfiava do idealista que enriquecera com seu ideal, arrisco-me a depreciar os beneméritos que exigem bandas e fogos de artifício para a cerimônia do reconhecimento por algum gesto ou doação que provocou em alguém a obrigação de agradecer.

A satisfação interior de fazer o bem sem visar vantagem adicional devia ser provedora da gratificação suficiente em si mesma.

De todos os profissionais, os médicos são os que mais convivem com os extremos da gratidão. Seja aquela ruidosa e exagerada diante de um resultado bom, mas previsível, seja o desmerecimento injusto quando não correspondem à expectativa da família, não importando o quanto se esforçaram, nem quão fantasiosa tenha sido a expectativa dos envolvidos.

O jovem médico, projeto de pediatra, cumpria seu segundo ano de treinamento no hospital universitário, onde eram atendidas dezenas de casos graves todos os dias. No fim de uma manhã, a rotina foi quebrada pelo anúncio aflito do porteiro que entrou no saguão com uma criança desfalecida nos braços, e gritou: “Ela parou de respirar”.

Imediatamente, acorreram todos e iniciaram-se as manobras clássicas de ressuscitação. A parada cardíaca, este vão estreito entre a vida e a morte, sempre provoca muita ansiedade e, quando o paciente é uma criança, é inevitável uma dose de desespero. Não há como saber se essa reação decorre da ameaça a uma vida inocente ou porque ela evoca nossos filhos ou netos.

No meio daquele rebuliço, o residente percebeu que uma mulher, em contida sofreguidão, assistia a tudo, apoiada numa coluna. Depois de uma hora de tentativas inúteis, sem que o coraçãozinho jamais voltasse a bater, o pelotão da emergência desistiu, e a criança foi dada como morta. O grupo médico dispersou, carregando a frustração da perda daquele bebê, mas a rotina frenética os engoliu para que não tivessem chance de remoer a impotência dolorosa.

No final da tarde, concluídas as 12 horas de plantão, nosso jovem atravessou o salão da emergência e saiu pelos fundos do hospital, por meio do pátio, onde as crianças maiores brincavam assistidas pelas voluntárias.

E então, percebeu que, recostada numa árvore, a mesma mulher o aguardava. Foi quando teve certeza que ela era a mãe da criança morta.

Sem que lhe ocorresse nada para dizer, ele a alcançou, colocou a mão no seu ombro e, abraçados, atravessaram o pátio em direção à rua e pararam na calçada.

Chegando lá, ela tomou a mão dele e beijou. Ele, meio sem jeito, e não sabendo o que dizer, tomou a mão dela e beijou de volta. Então, separaram-se. Ele foi para a esquerda em direção ao estacionamento, e ela, para a direita, rumo ao ponto do ônibus.

Não falaram nada, mas ninguém sentiu falta de palavras. Nunca um silêncio tinha sido tão eloquente.


J. J. Camargo é cirurgião torácico e diretor do Centro de Transplantes da Santa Casa de Porto Alegre jjcamargo.vida@gmail.com

27 de dezembro de 2014 | N° 18025
DAVID COIMBRA

Dilma é honesta

Jeferson é motorista de táxi em Porto Alegre. É um negro magro, dono de uma voz grave e limpa, que usa para contar histórias com impecável concordância verbal. Tomei o táxi dele para ir a uma festa, meses atrás – eu e Marcinha tínhamos a intenção de beber naquela noite. Chegando ao local, anotei seu telefone a fim de chamá-lo para voltar para casa. Tudo bem, tudo certo. Só que, na hora de pagar a corrida, eu só tinha uma nota grande, e ele estava sem troco. Ele não queria cobrar, mas não permiti. Dei o dinheiro e disse que o chamaria outro dia, para outra corrida. Só que acabei me mudando para os Estados Unidos e esqueci desse episódio.

Bem.

Agora, neste dezembro, passei alguns dias em Porto Alegre. Estava sem carro e precisava dar umas voltas. Liguei para empresas de teletáxi. Sem sucesso. Nem me atendiam. Aí lembrei do Jeferson, liguei para ele e, em poucos minutos, estava rodando pela cidade. Ocupei-o por algumas horas e, finalmente, no momento em que saquei o dinheiro do bolso para pagar, ele:

– Não mesmo. Hoje é de graça. – Como assim?

Não lembrava que havia lhe dado dinheiro a mais, meses antes. Ele, sim. Insisti em pagar algo, até porque a corrida devia ter saído mais cara do que a do passado. Não adiantou, ele não aceitou.

Saí do táxi pensando em algo que sempre me assombra: a sólida honestidade do povo brasileiro. Não estou sendo irônico. Pense: a impunidade grassa neste país. Além disso, a rigor, qualquer um pode fazer praticamente o que quiser, porque o aparato repressivo é ineficaz – você só encontra polícia na rua quando tem Copa. Há incentivo diário à desonestidade no Brasil. E, mesmo assim, a grande maioria da população é honesta. Vá a qualquer favela carioca, a qualquer vila pobre de Porto Alegre e você verá o mesmo: uma pequena parcela de bandidos vivendo em meio a pessoas trabalhadoras e cumpridoras de suas obrigações.

São essas pessoas que não podem ser perfiladas a certo tipo de gente que ora ocupa cargos no governo brasileiro. Mas, na sua defesa desesperada das denúncias de corrupção em que se refocila, o governo faz exatamente isso: alega que todos são iguais a ele. Foi esse o argumento durante toda a campanha eleitoral e, dias atrás, a presidente chegou a dizer, em seu discurso de diplomação, abre aspas:

“É preciso uma nova consciência, uma nova cultura fundada em valores éticos profundos. Ela tem de nascer dentro de cada lar, dentro de cada escola, dentro da alma de cada cidadão e ir ganhando, de forma absoluta, a esfera pública, as instituições e todos os núcleos de decisões”.

OPA! Espere aí, presidente! Fale pelo seu governo! A imensa maioria das pessoas que conheço é honesta! Na verdade, conheço pouquíssimas pessoas desonestas, e conheço proletários e empresários, descamisados e magnatas. Digo mais, presidente: acho que até a senhora é honesta e vários integrantes do seu partido também o são. Mas o seu governo e o seu partido não têm sido.


Existe corrupção no seu governo, e a senhora sabe disso. A mudança, portanto, não deve se dar a partir dos lares brasileiros para migrar em direção à esfera pública, como a senhora propôs. Não! Tem de começar aí por cima, por Brasília, pelo seu partido. Tem de sair das entranhas do governo federal. Roubaram antes? Decerto que sim. Mas vamos resolver os problemas que estamos enfrentando agora, e grande parte dos nossos problemas é a craca corrupta que se grudou no governo. No seu governo. Remova-a, presidente, e comece a mudança. Em nome do motorista Jeferson e de todas as mulheres e homens corretos deste país.

27 de dezembro de 2014 | N° 18025
CAROL BENSIMON

A felicidade são os outros

Você é feliz? Talvez nenhuma pergunta pareça tão difícil quanto essa. As pessoas em geral ficam confusas quando precisam respondê-la e, enquanto esboçam um sorriso constrangido (do tipo “como você ousa perguntar isso?”), estão mentalmente fazendo um balanço de seus altos e baixos em busca de uma resposta definitiva. O fato é que sempre parece difícil fazer com que tantas oscilações – essa coisa chamada vida – caiba em um mero sim ou não.

Ao mesmo tempo, diante da questão “o que você quer da vida?”, é muito provável que a maioria de nós responda com um retumbante “ser feliz”. Conclusão: estamos muito interessados em felicidade, mas ainda não sabemos exatamente o que ela é.

Claro que, enquanto beijamos o ser amado, nos sentimos realizados no trabalho ou compramos livros de autoajuda com grandes smiles na capa, alguém está em uma universidade fazendo testes com gêmeos univitelinos a fim de desvendar o segredo das pessoas felizes. A ciência nunca soube tanto quanto sabe hoje sobre felicidade, e uma boa amostra disso pode ser vista no documentário Happy, do norte-americano Roko Belic. Entre um tanto de informações, destaco uma: gostamos de viver rodeados de pessoas.

A Dinamarca é considerada um dos países mais felizes do mundo, e Belic nos leva até lá, mais especificamente para dentro de uma propriedade habitada por algumas dezenas de famílias de classe média. À primeira vista, pode não parecer muito diferente de um condomínio de casas ou de um edifício brasileiro, mas a comparação não dura mais do que alguns segundos: nesse modelo de coabitação dinamarquês, as pequenas unidades familiares formam de fato algo maior. Crianças de diferentes idades andam juntas, os adultos são amigos, as tarefas são compartilhadas e as refeições acontecem em um grande salão.

Se esse senso de comunidade contribui para que os níveis de felicidade da Dinamarca sejam altos, talvez seja o momento de perceber que o Brasil caminha na direção oposta. Não conhecemos sequer as pessoas que moram em nossa rua, e pedir uma xícara de farinha para um vizinho, devolvendo o favor em forma de bolo no dia seguinte, não passa de uma cena encontrada em filmes americanos (junto com abóboras decoradas e secretárias eletrônicas). Os espaços de convivência estão rareando — a praça, a feira, o armazém. Vivemos cada vez mais encerrados em nossas próprias casas, e a violência urbana não parece ser a única responsável por isso.


A prova? A “área comum” de nossos prédios recém construídos não leva ao convívio entre moradores, mas à segregação. Na sexta, você usa o salão de festas. No sábado, é a vez do 402. E nossa grande torcida cotidiana é sempre não por uma conversa amigável, mas pela solidão de um elevador completamente vazio.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

TATI BERNARDI

É Natal (e a culpa não é sua)

Você disse para a sua prima gorda 'come que é bom pacas', e a orca nunca mais parou, pois confiou em você

Natal, esse momento maravilhoso em que o seu coração está inundado em culpa católica e você olha pra sua família inteira achando que poderia resolver o problema de todos se não fosse uma péssima pessoa. Na teoria, Natal é pra comemorar o nascimento de Jesus mas, na prática, a gente acaba se achando Deus. Papai não teria refluxo estomacal se você tivesse mais tempo pra ele (e pra fazer feira pra ele e comida e lavar a louça).

Sua mãe não teria enxaqueca se você, em vez de ter um trabalho e uma vida, dedicasse pelo menos dez horas do seu dia em massagear seu crânio. Seu avô não teria caído na cozinha se você, em vez de morar em São Paulo em um apartamento bonitinho na zona oeste, morasse com ele naquela casinha no interior e o vigiasse 24 horas por dia. Sua família sofre APENAS porque você, egoísta e mal agradecido, resolveu deixá-los à sorte de suas próprias escolhas.

Além de dar amor (e uma graninha), não há nada que se possa fazer (eu sei, é frustrante) pra sua avó parar de falar em dor e doença. Isso nos "bons dias", porque na maior parte do tempo ela gosta mesmo é de proferir o mantra "por que não morro logo? Seria MELHOR pra todos". Mas, ao ouvir isso, você (seu coração católico piorado pela noite do Natal) logo pensa ser o culpado. Aquele dia que você dormiu no sofá e ela queria conversar. Foi você!

Titia intensificou o racismo, mas a culpa é sua. Se você fosse um reacinha tapado, nem repararia quando ela disse "Precisa ver que beleza Santos: só carrão e uma gente bonita' andando no calçadão!". Você é que vê maldade na maldade dela. A sua prima gorda e invejosa... adivinhe! Culpa sua! Você olha o lordo adiposo que ela tem na lombar e seu peito pesa em dor: aos seis anos você a viciou em Alpino.

Foi você! Você disse "come que é bom pacas" e a orca nunca mais parou, porque confiou em você. Agora ela se odeia e odeia todo mundo e odeia especialmente você mas, no fundo, embaixo da lasanha com bacalhau e risoto com carne que ela mandou pra dentro, ela é uma boa pessoa. A vaca é você.

Feita a crônica mais cínica (se não fosse o esconderijo iluminado do humor --e o antidepressivo e a terapia-- talvez eu estivesse agora nua e sangrando no chão da sua sala querendo lhe culpar por tudo) vamos a um parágrafo mais fofolete.

Lolita, meu amor, minha primeira cachorrinha. Ela chegou pra "me curar de uma desilusão amorosa" e ao longo de 11 anos e meio me transformou numa pessoa mais doce e paciente com toda a espécie viva do planeta. Lolitinha morreu há três dias, mas não sem antes (sorry, vem aqui um momento piegas e eu estou chorando) promover um verdadeiro milagre natalino: eu consegui dar ininterrupto e verdadeiro amor, por 72 horas mágicas, para a senhora minha mãe. Mamy é o tipo de pessoa que espera ansiosa e saudosa pela minha presença, mas nunca sabe direito o que fazer com ela.

E pra acabar com essa angústia de me amar tanto e de precisar tanto do meu amor, ela solta uns "você é testuda" ou, o pior, "você não tá nem aí pra nada" (justo eu que estou aí até demais pra tudo o tempo todo e de um tamanho maior do que aguento e, vai ver por isso, tanta fisioterapia).


Mas, por 72 horas (que acabaram agora: ela fechou o tempo sem explicação e foi embora como se eu tivesse feito alguma besteira-- e eu sempre caio, achando que fiz mesmo) eu consegui abraçar, presentear, cuidar e alegrar mamãe sem que ela deixasse claro, com suas sobrancelhas eternamente desagradadas, que tudo é em vão e que eu sou uma incompetente na arte de amá-la. Ontem mamy sorriu e disse "obrigada" e eu ouvi fogos. Obrigada, Lolita.
MARCOS TROYJO

Iludindo-se com Cuba

O argumento de que Cuba é economicamente um 'must' não pode ser levado a sério; o potencial é irrisório

Nos últimos 12 anos, o Brasil apostou numa América Latina de "duas velocidades". Colocou fichas na coalizão de regimes mais à esquerda. Privilegiamos o eixo "socialista-bolivariano", baseado na onipresença do Estado na vida econômica e numa xenofobia seletiva centrada nos EUA. Venezuela, Bolívia, Equador e de alguma forma a Argentina integram esse grupo.

Com a normalização de relações com seu grande vizinho, Cuba, epicentro histórico de tal agrupamento, voltará a ter em Washington, não Brasília ou Caracas, sua referência geoeconômica.

Da perspectiva diplomática, iniciativas apoiadas pelo Brasil na cooperação hemisférica sem a participação dos EUA, como Unasul e a Celac, perdem força.

Há outra América Latina em movimento. A Aliança do Pacífico (México, Chile, Colômbia e Peru) não é um bloco em si, mas plataforma para interação com outras áreas, até o Mercosul. Negociam parcerias que envolvem também EUA, Japão e outros países da Ásia-Pacífico.

Nessa formação da América Latina de duas velocidades, o Brasil é uma espécie de Hamlet --aprisionado no dilema do "ser ou não ser".

Do lado do "ser", o empresariado industrial, historicamente refratário à liberalização comercial, está mudando. A CNI já se disse aberta a acordos com os EUA.

Do outro, o "não ser", alguns acham que o Brasil deve evitar tratativas hemisféricas em que os EUA estejam presentes. Partidários desse "não ser" estão ávidos por demonstrar que nossa inserção internacional da última década não é um retumbante fracasso.

Próceres da política externa recente fazem ver que nos generosos gestos a Havana havia embutida "visão estratégica". Com perspectivas que agora se abrem para Cuba, o Brasil "sairia na frente".

A economia não é --e tampouco deve ser-- único vetor da diplomacia. O tema da solidariedade, por exemplo, é muito importante. No entanto, o argumento de que Cuba é economicamente um "must" não pode ser levado a sério.

O potencial de cooperação econômica com Cuba é irrisório. Seu PIB é de US$ 65 bilhões. O comércio Cuba-Brasil é de US$ 600 milhões. Apenas em 2013 os brasileiros gastaram em Miami US$ 1,6 bilhão.

Cuba não é a fonte de investimentos de que o Brasil tanto precisa. Não há parceria de escala relevante para nossas dimensões.

O porto de Mariel, suposto "golaço" de nossa política externa, não é um investimento. Obras ali empreendidas por companhias brasileiras financiaram-se pelo governo brasileiro. Trata-se de apoio à exportação de serviços. Não será o Brasil ou qualquer empresa brasileira que operará Mariel, mas uma companhia de Cingapura.


Não há facilidade no futuro do porto apenas por que empresas brasileiras ajudaram a construí-lo. O aeroporto de Miami também contou com participação de construtoras brasileiras --nem por isso abrem-se oportunidades especiais para o Brasil. Para a vertente latino-americana de nossa aposta terceiro-mundista, a nova Cuba não é uma "bola dentro", mas uma "bola nas costas".
EDUARDO GIANNETTI

Futuro penhorado

O desejo incita à ação; a percepção do tempo incita o conflito entre desejos. Desfrutar o momento ou cuidar do amanhã? São perguntas das quais não se escapa. Mesmo que deixemos de fazê-las elas serão respondidas por nossas ações.

O que vale para o indivíduo vale também para as escolhas coletivas. O embate entre os apelos do presente e o futuro sonhado é um traço inalienável da condição humana. No conto "O Empréstimo", Machado de Assis retrata os percalços de um homem com "a vocação da riqueza, mas sem a vocação do trabalho". A resultante desses impulsos discrepantes era uma só: dívidas.

O Brasil parece abrigar condição semelhante. Temos a vocação do crescimento, mas sem a vocação da poupança. E a resultante dessa inconsistência, quando não é inflação (como na mobilização de poupança forçada de JK) ou crise do balanço de pagamentos (como no abuso da poupança externa sob Geisel), tem sido uma só: juros cronicamente elevados.

A poupança no Brasil, por motivos históricos e culturais, sempre foi pequena diante das nossas aspirações de crescimento, mas nos últimos anos encolheu ainda mais. A poupança doméstica está hoje em 13% do PIB --menor valor da série histórica. Somada à poupança externa de 3,7% do PIB (equivalente ao nosso deficit em conta corrente), ela financia um investimento em capital fixo inferior a 17% do PIB.

Para efeito de comparação, os emergentes de maior dinamismo investem somas que vão de 23% do PIB (Chile, Peru, Colombia) a 28% do PIB na Índia e 40% do PIB na China. Quando era nação emergente, no final do século 19, os EUA investiam 30% do PIB.

Por que o Brasil poupa e investe tão pouco? O cerne da resposta remete ao "crowding out fiscal". O Estado brasileiro (União, Estados e municípios) arrecada 36% do PIB em impostos, gasta 5% do PIB a mais do que arrecada (deficit nominal) e entrega apenas 2,5% do PIB (PAC "" Plano de Abuso da Credulidade incluído) em formação bruta de capital fixo.

A implicação disso é que a capacidade de investimento da nação --setores privado e público-- fica enormemente prejudicada pelo fato de que o Estado drena 41% do valor criado pelo trabalho dos brasileiros e transforma esses recursos não em capital capaz de multiplicar a renda futura, mas em gastos correntes.

E se alguém imagina que os programas sociais do governo explicam esse quadro é bom pensar de novo: o Bolsa Família representa 0,5% do PIB ou 1,2% do total do gasto público --menos que o Bolsa BNDES.

Em pleno bônus demográfico, quando deveríamos estar poupando e criando as bases da nossa prosperidade futura, o Brasil está penhorando o seu futuro.

EDUARDO GIANNETTI escreve às sextas-feiras nesta coluna.
Jaime Cimenti

Vinte anos da coluna Livros

Eu nem ia falar, mas o competente Guilherme Kolling, nosso simpático secretário de redação, deu a sugestão de registrarmos os 20 anos da coluna Livros e aí concordei, depois de pouquíssima hesitação. Obrigado, Guilherme. Obrigado, igualmente a Mércio Tumelero, ao nosso editor-chefe, Pedro Maciel, ao Roberto Brenol, ao saudoso Jefferson Barros, a Maria Wagner, a Mônica Kanitz e, especialmente, aos queridos e competentes Cristiano Vieira, nosso editor de cultura, e a Caroline da Silva, nossa editora-assistente, sempre prontos a dar um upgrade no colunista e na página. Com todos vocês e com os demais colegas e funcionários  do JC, compartilho essa alegria e essa conquista.

Desde a primeira coluna, de 30-12-1994, até agora, em 20 anos de publicação semanal ininterrupta, os princípios iniciais se mantiveram e, talvez por isso mesmo, a coluna se mantém viva, com o apoio e o carinho dos leitores, dos escritores e dos editores. Sempre se buscou um conteúdo plural, democrático, informativo, abrangendo novidades literárias do Brasil e do exterior, sem beneficiar A, B ou C. Sempre se pensou em registrar e prestigiar a produção local. Sempre conciliamos os nomes consagrados com os dos iniciantes.

Desde o início, procurei me inspirar nos jornalistas Paulo Fontoura Gastal, de saudosíssima memória, e Danilo Ucha, hipervivo e brilhando aqui no Jornal do Comércio.

Depois de duas décadas, o que posso fazer é agradecer a Deus pela oportunidade de me dirigir aos queridos leitores, dando sugestões de livros e publicando um texto semanal deste modesto cronista especializado em generalidades e especificidades. Se com alguma linha, algum dia, informei, diverti, melhorei e emocionei algum leitor, já me sinto recompensado por meu trabalho. Jornalismo é isso: informar, formar, comentar, opinar, interpretar, divertir, emocionar e dialogar com os amigos leitores, com  ideias democráticas, ética, imparcialidade, dedicação à sociedade  e clareza.

O mundo dos livros é infinito, um território de liberdade sem fronteiras, um universo ilimitado de palavras, imaginações e coisas concretas. A vida dos livros e das leituras é tão imprevisível quanto a vida das pessoas. Obrigado a vocês todos por transitarem comigo durante duas décadas por esses caminhos encantados, por estas estradas que se bifurcam. E vamos adiante, que 2015, o Papa Francisco, a Madre Teresa, o Brasil e o mundo   esperam que a gente se torne ainda melhores! Valeu! Obrigado pela companhia. Está sendo um privilégio ser lido por vocês. Pensem nisso, enquanto lhes digo: até a semana que vem.

Jaime Cimenti

Anos 1960 e 1970, cultura e repressão no Brasil, segundo Antonio Bivar

O  consagrado dramaturgo Antonio Bivar nasceu numa chácara aos pés da Serra da Cantareira, cercada pela Mata Atlântica, às onze e meia da noite do dia 25 de abril de 1939. Em Mundo adentro vida afora: autobiografia do berço aos trinta (L&PM Editores, 216 páginas, R$ 29,90), o autor  narra desde seu nascimento até os 30 anos, quando exilou-se em Londres. A aventura de um ano na capital britânica, diga-se de passagem, foi contada em Verdes vales do fim do mundo, obra também publicada pela L&PM.

A autobiografia do autor de clássicos do moderno teatro brasileiro como Cordélia Brasil, Abre a janela e deixa entrar o ar puro e o sol da manhã e O cão siamês ou Alzira Power, em 62 textos, trata da infância, da juventude e do período de jovem adulto de Bivar, mesclando acontecimentos pessoais com os fatos sociais, políticos e culturais do Brasil do período.

Bivar recebeu os principais prêmios da época, inclusive o Molière e o APCA. Sobre ele falou Fernanda Montenegro: “Antônio Bivar tem a qualidade de ser o detonador de um tipo de teatro contestador dos anos 1960. Criou entidades unissex, personagens distantes do realismo e que possibilitam um jogo fascinante.”

As décadas de 1960 e 1970, com seus tempos hippies de Flower Power, Guerra do Vietnã, contracultura, maio de 1968, revolução sexual e experiências psicodélicas estão marcadas no Brasil pela ditadura e aí surgiu um grupo de jovens que criou a Nova Dramaturgia, entre eles Bivar, para registrar os momentos de turbulência e efervescência.

Bivar bebeu nas mais diversas  fontes para escrever sua obra, mas duas grandes paixões se destacam: as revistas ilustradas da época, como O Cruzeiro, Revista da Semana e Revista do Globo, e o cinema dos grandes estúdios norte-americanos, com suas starlets e grandes produções. Bivar encantou-se com o teatro lendo Esperando Godot, de Samuel Beckett.


Norma Bengell, Leila Diniz, Elis Regina, Danuza Leão, Antônio Houaiss, Millôr Fernandes e Antônio Fagundes, entre muitos outros personagens, estão retratados na obra, escrita com o distanciamento do tempo mas com o coração aberto. Enfim, um painel vibrante daqueles tempos, que marcaram a história e a cultura do Brasil.

26 de dezembro de 2014 | N° 18024
ARTIGO - CARLOS FERNANDO SOUTO*

MORAL DERRETIDA, ÉTICA INEXISTENTE

O presidente do TCU disse dias atrás que o escândalo da Petrobras é o maior caso de corrupção que já tramitou na história do Tribunal. Um procurador federal afirmou que não se está dando conta de defender a República dos, palavras dele, ratos que estão corroendo suas estruturas e que vamos ter um escândalo de corrupção ainda maior do que o da Petrobras. E será no BNDES.

Ministro do STF asseverou recentemente: “Como alguém, alguma pessoa jurídica que pega empréstimo nos bancos públicos a juros subsidiados (...) para promover emprego e desenvolvimento social da nação e, aí, parte disso vira aplicação em campanha eleitoral. (...) Não há ilegalidade se (o valor) estiver dentro dos 2% sobre o faturamento. Mas é um escândalo”. Uma empresa brasileira, cliente do BNDES, doou R$ 353 milhões na última eleição.

Ainda sobre a Petrobras, um gerente comprometeu-se, via acordo, a devolver US$ 100 milhões desviados. Uma outra gerente informou a diretoria da empresa, por vários anos, de que algo havia de errado. Pagamentos de R$ 58 milhões foram efetuados para serviços que nunca foram prestados. Custos de R$ 4 bilhões a serem pagos pela Petrobras viraram R$ 18 bilhões num passe de mágica. Erros de orçamentos em 15% eram corriqueiros. E assim vai. A despeito dos incontáveis avisos, rigorosamente nada foi feito para se corrigir.

A lista é maior, mas não há espaço. Mas precisa mais?

Como pode? Como pode ninguém, espontaneamente, se responsabilizar em nome do governo brasileiro e pedir desculpas à população? Como pode não haver uma única renúncia que seja de algum cargo de alto escalão da República? Em que país nos tornamos?

Não deveríamos ter apenas soluções jurídicas para esses ilimitados casos de corrupção, eufemisticamente denominados de malfeitos. Deveríamos, antes, ter repercussões espontâneas e individuais minimamente aceitáveis a partir de um padrão de ética rigoroso; que essa turma que tomou conta do público tivesse ao menos vergonha e medo – arrependimento talvez seja pedir demais – do que tem feito e das consequências geradas.

Mas não. O governo brasileiro, com seu silêncio ensurdecedor, assiste à moral derreter no que sobrou do Brasil. Afinal, onde foi parar o prazer pelas boas ações?


*Advogado - CARLOS FERNANDO SOUTO

26 de dezembro de 2014 | N° 18024
DAVID COIMBRA

A morte de Juraci

Minha amiga Juraci morreu assassinada na antevéspera de Natal. Foi esfaqueada diante da filha, no saguão do edifício em que morava, no centro de Porto Alegre. O assassino é o porteiro do prédio, com quem, minutos antes, ela travou uma discussão.

Juraci trabalhava como telefonista da Zero Hora havia já mais de 20 anos. Todos no jornal a conheciam e nutriam afeto por ela. Era uma pessoa doce. Doce. Dias atrás, Juraci me enviou uma mensagem tão carinhosa, que me marejou os olhos. Era uma pessoa doce.

Fiquei triste e furioso com a morte de Juraci. Triste por razões óbvias. Furioso porque esse é mais um covarde caso de violência fatal contra mulheres. Não vou desfiar aqui um rosário de contas feministas. Não que tenha algo contra o feminismo; não tenho. Contra as feministas, talvez. Em especial as neofeministas, que são umas chatolas. As neofeministas fariam um grande bem ao feminismo se não ficassem julgando as outras pessoas e se adotassem causas práticas. O caso do aborto, por exemplo.

O aborto é legalizado em vários Estados americanos, o que é uma tendência das sociedades modernas. Mas as neofeministas brasileiras não conseguem tratar a questão de forma adulta, como o problema de saúde que é. Elas preferem chocar ou levar a discussão para o pantanoso campo moral ou ético, tornando o debate menor do que poderia ser.

Outra: as pobres prostitutas brasileiras. É provável que em nenhum outro país do mundo o exercício da prostituição seja tão amplo e livre como no Brasil, mas isso é feito de maneira clandestina e hipócrita, e todos os dias prostitutas são exploradas, agredidas e, não raro, escravizadas.

Ou: por que ninguém se bate por creches públicas nos bairros pobres das cidades brasileiras? Por que ninguém lembra das mães que saem para trabalhar todas as manhãs e não têm com quem deixar os filhos pequenos?

Mas talvez o mais importante, e o que vem ao caso, é que é um erro terrível considerar mulheres e homens iguais. Um erro que é causa indireta de crimes como o que vitimou Juraci. Feministas, neofeministas, homens, todos deveriam compreender que o respeito às diferenças é o respeito à natureza humana. Homens são diferentes de mulheres. Homens são mais fortes fisicamente do que mulheres, e isso é importante. A História mostra que a força física tem papel definitivo nas relações humanas e nas relações entre as nações. O mais forte tende a oprimir.

Mulheres são mais fracas, velhos são mais fracos, crianças são mais fracas. Os mais fracos precisam de proteção. Não privilégios: proteção. A legislação teria de ser mais dura contra quem agride fisicamente mulheres, crianças e velhos.


A filha de Juraci, que também foi apunhalada pelo assassino, a filha de Juraci praticamente viu a mãe morrer em seus braços, na antevéspera do Natal de Porto Alegre. Que espécie de Natal teve essa menina? Que não haja mais Natais assim. Que a punição de homens que agridem fisicamente mulheres seja uma punição especialmente dura. Que sejam protegidas essas meninas, essas mulheres. Que tristeza, Juraci, minha amiga. Uma pessoa tão doce.

26 de dezembro de 2014 | N° 18024
MOISÉS MENDES

Venina

Tem muita gente à espera de um herói, para que possa lidar melhor com os traumas provocados pela máfia que saqueava a Petrobras. Mas será que a ex-gerente Venina Velosa cumpre essa missão?

Alguns se agarram a Venina como os desamparados de Gotham City se apegam ao Batman. Desde a entrevista ao Fantástico, ela mexe com todo tipo de sentimento.

Tem quem a considere desde já uma moça honesta, destemida. Outros acham que é apenas uma ressentida. Há os que torcem para que a casa desabe sobre todos, e Venina pode fazer esse trabalho. E tem os que apenas querem saber mais um pouco. Estou entre esses.
Não interessa se Venina é a Mulher Maravilha ou uma farsante. O que importa é saber se o que diz é verdade e tem importância. O delator Paulo Roberto Costa era o chefe dos saqueadores da Petrobras. Venina foi diretamente subordinada a ele de 2005 a 2009.

Foi afastada do cargo de gerente de Abastecimento quando lidava com os contratos das empreiteiras que construíam a Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. Caiu quando descobriram problemas de “não conformidade” nos aditivos dos contratos. Foi enviada para Cingapura (uma bela punição), com salário de R$ 69 mil.

Aditivo é o nome da manobra para superfaturamento de obras, com valores acrescidos sem muita dificuldade aos originais. Dizem que não há obra pública no Brasil sem aditivo. Mas é claro que você não leva a sério os que tentam convencê-lo de que isso começou agora. Podem apenas ter mudado a marca do aditivo e os gerentes. O sistema é antigo, as empreiteiras são as mesmas.

Venina aditivava contratos sob a supervisão de Costa. A presidente da Petrobras, Graça Foster, o alvo da moça, diz que em algum momento a gerente e Costa se desentenderam. Por quê? Que aditivo não teve o efeito esperado?

A questão em aberto é: ela advertiu mesmo Graça Foster do que vinha ocorrendo? Parece que sim. De um jeito torto, meio cifrado, há um alerta no e-mail de 2008, agora revelado.


Mas, quanto à heroína, vamos manter a paciência e esperar mais um pouco. Venina não é do mesmo barro de que foi feito o caseiro Francenildo, que em 2006 derrubou o ministro Palocci.

26 de dezembro de 2014 | N° 18024
MOISÉS MENDES

Venina

Tem muita gente à espera de um herói, para que possa lidar melhor com os traumas provocados pela máfia que saqueava a Petrobras. Mas será que a ex-gerente Venina Velosa cumpre essa missão?

Alguns se agarram a Venina como os desamparados de Gotham City se apegam ao Batman. Desde a entrevista ao Fantástico, ela mexe com todo tipo de sentimento.

Tem quem a considere desde já uma moça honesta, destemida. Outros acham que é apenas uma ressentida. Há os que torcem para que a casa desabe sobre todos, e Venina pode fazer esse trabalho. E tem os que apenas querem saber mais um pouco. Estou entre esses.
Não interessa se Venina é a Mulher Maravilha ou uma farsante. O que importa é saber se o que diz é verdade e tem importância. O delator Paulo Roberto Costa era o chefe dos saqueadores da Petrobras. Venina foi diretamente subordinada a ele de 2005 a 2009.

Foi afastada do cargo de gerente de Abastecimento quando lidava com os contratos das empreiteiras que construíam a Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. Caiu quando descobriram problemas de “não conformidade” nos aditivos dos contratos. Foi enviada para Cingapura (uma bela punição), com salário de R$ 69 mil.

Aditivo é o nome da manobra para superfaturamento de obras, com valores acrescidos sem muita dificuldade aos originais. Dizem que não há obra pública no Brasil sem aditivo. Mas é claro que você não leva a sério os que tentam convencê-lo de que isso começou agora. Podem apenas ter mudado a marca do aditivo e os gerentes. O sistema é antigo, as empreiteiras são as mesmas.

Venina aditivava contratos sob a supervisão de Costa. A presidente da Petrobras, Graça Foster, o alvo da moça, diz que em algum momento a gerente e Costa se desentenderam. Por quê? Que aditivo não teve o efeito esperado?

A questão em aberto é: ela advertiu mesmo Graça Foster do que vinha ocorrendo? Parece que sim. De um jeito torto, meio cifrado, há um alerta no e-mail de 2008, agora revelado.

Mas, quanto à heroína, vamos manter a paciência e esperar mais um pouco. Venina não é do mesmo barro de que foi feito o caseiro Francenildo, que em 2006 derrubou o ministro Palocci.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014


Tempo de alegrias
O Natal vai chegando e com ele
essa sensação de que o mundo
se transforma aos poucos.
Os projetos vão aparecendo,
as casas iluminam-se,
tornam-se coloridas e belas.
Dentro do coração a esperança
adormecida acorda devagarinho e toma forma,
alimentando assim o desejo de que
um milagre aconteça e traga os sonhos
perdidos ou a felicidade esperada.
As pessoas tornam-se mais dóceis e fala-se
em solidariedade.
E Jesus,
muitas vezes esquecido,
renasce.
Quem duvida do milagre do Natal
deveria abrir mais os olhos,
porque fazer um milagre
não é realizar grandes e extraordinários feitos,
mas devolver a esperança aos cansados,
a alegria à alma aflita e um
pouco de ternura a um
coração desesperado.
Quem divide um pedaço de pão
com um faminto,
agasalha alguém que sente
frio e traz um pouco de luz aos
que perderam o direito à luz do dia,
alimenta e veste o Mestre e habita
Seu coração.
Aí sim está o milagre de toda
a magia do Natal.
Sendo humanos,
tornamo-nos seres de luz capazes
de iluminar o mundo.
Pudesse essa magia perdurar o ano todo,
haveria mais flores nos campos e mais
sorrisos nos rostos;
haveria mais olhos brilhando e menos
doenças da alma.
E o mundo seria uma imensa família,
exatamente como Deus idealizou.
Pense nisso,
tenha um Feliz Natal e faça
Feliz o Natal de alguém!
TEXTO: Letícia Thompson
 



“Então é Natal...
E o que você fez?
O ano termina

E nasce outra vez!
Então é Natal!
A festa cristã
Do velho e do novo,

Do amor como um todo!
E então é Natal
Pro enfermo e pro são
Pro rico e pro pobre

Num só coração!
Então, bom Natal
Pro branco e pro negro,
Amarelo e vermelho,

Pra paz, afinal!...
Então, bom Natal!
E um Ano Novo também!
Que seja feliz quem

Souber o que é o Bem..."


Que o Papai Noel atenda a todos os seus pedidos - Amén