quarta-feira, 16 de maio de 2018


16 DE MAIO DE 2018
ARTIGO

BAIXAR IMPOSTOS PARA O BRASIL CRESCER!



Só quem pode tirar os 13,7 milhões de desempregados dessa situação degradante é o setor privado. Porém, hoje, a iniciativa privada e os próprios cidadãos estão sufocados por uma das maiores cargas tributárias do mundo. Empresas que pagam impostos em excesso não têm lucro. Com isso, não crescem e não contratam novos colaboradores. Já os impostos cobrados pelo "bem dos trabalhadores" em nada os beneficiam.

Se um funcionário tem um salário de R$ 2 mil, a empresa acaba pagando R$ 4 mil com os encargos sociais. Qualquer trabalhador preferiria receber diretamente R$ 4 mil e fazer o que quisesse com esse valor, incluindo pagar um plano de saúde decente e um plano de aposentadoria privado, do que ficar com apenas R$ 2 mil no bolso e cedendo outros R$ 2 mil para o governo oferecer os vergonhosos serviços de saúde do SUS e uma aposentadoria cujo valor ofende a dignidade humana.

Os percentuais de impostos precisam, urgentemente, diminuir. Só com menos impostos as empresas poderão progredir, crescer e gerar mais empregos. Só empresas privadas lucrativas podem pagar melhor seus funcionários e ainda pagar mais impostos para o governo, mesmo se o percentual cobrado for mais baixo. Esse fato é realidade nos Estados Unidos, que crescem aceleradamente e gerando mais empregos, graças ao presidente Trump, que baixou, significativamente, os impostos de empresas e cidadãos.

Com isso, as empresas privadas americanas estão voltando a crescer, pois, pagando menor percentual de impostos, sobra mais dinheiro para investimentos, para inovações e para contratar novos funcionários. E, de sobra, a receita do governo está aumentando, apesar de os percentuais cobrados serem menores do que antes! O governo apenas apostou que empresas que crescem retornam aos cofres do governo valores maiores do que quando estão estagnadas. E que, cobrando menos impostos do cidadão comum, ele terá sobras no seu orçamento e vai consumir mais. É o ciclo positivo da economia, o contrário do que temos hoje no Brasil.

Por isso, prego que os governos baixem os impostos imediatamente. Mas essa mudança só vai acontecer no exato instante em que tivermos no poder não mais governantes, mas sim estadistas, que pensem no bem do povo muito mais do que pensam no caixa dos seus governos falidos.

Empresário daniel@tevah.com.br- DANIEL TEVAH

16 DE MAIO DE 2018
+ ECONOMIA

MERCADO PÚBLICO SERÁ PRIVADO


A prefeitura de Porto Alegre dá um passo para dar gestão privada a um símbolo da cidade. Apresenta hoje edital para o Procedimento de Manifestação de Interesse (PMI), instrumento que permite à iniciativa privada elaborar estudos técnicos e de viabilidade econômica para parcerias público-privada (PPP). O objetivo final é passar a gestão do Mercado Público, a um mês e meio de completar cinco anos do incêndio que atingiu a estrutura, para a iniciativa privada.

- Todo o projeto que implica mudança na gestão de ativo público precisa passar por uma estruturação, ou modelagem da forma de gestão - detalha o secretário de Planejamento e Gestão da prefeitura, Bruno Vanuzzi.

Conforme o secretário, a prefeitura poderia optar por definir a modelagem internamente ou contratar uma consultoria para isso, mas avaliou que o PMI abriria um "espaço mais democrático" para o meio empresarial, incluídos os atuais permissionários, para definir o modelo da concessão.

- O PMI permite diálogo transparente e igualitário, que gera oportunidades para vários agentes do processo econômico, garante que não haja assimetria de informação. Foi nesse sentido que optamos por esse processo, que é mais inclusivo, vai abrir um brainstorm (expressão em inglês para tempestade de ideias). A gestão privada de um mercado público pode ter vários ganhos de eficiência - afirmou Vanuzzi.

Nas contas da prefeitura, todo o processo do PMI deve consumir cem dias: uma ou duas semanas para selecionar propostas, para excluir as que não tenham qualificação e publicar o rol dos autorizados, 30 dias para interessados apresentarem requerimentos e mais 60 dias de estudos.

marta.sfredo@zerohora.com.br gauchazh.com/martasfredo 3218-4701- MARTA SFREDO


16 DE MAIO DE 2018
NÍLSON SOUZA

Celularite

Nem Alvin Toffler, nem outros futuristas da tecnologia previram que, um dia - no último domingo, para sermos mais precisos -, o goleiro do Atlético Paranaense levaria o seu celular para dentro de campo e ficaria mexendo no aparelho até o momento em que a bola começasse a rolar, num jogo pelo principal campeonato do país pentacampeão do esporte mais popular do planeta. Depois, como vimos, ele colocou o smartphone ao lado da trave e passou a prestar atenção na disputa, mas não conseguiu impedir a derrota de sua equipe. Até fez boas defesas, embora tenha dado um passe de cabeça para o adversário no gol decisivo. Por imperícia, reconheça-se. Não foi culpa do celular.

A insólita atitude do goleiro ganhou repercussão porque nada escapa às dezenas de câmeras que acompanham o futebol profissional. Até acho que ele merecia mesmo o destaque que teve, mas por outra razão: como é que aquele cara consegue digitar de luvas grossas se eu, até quando uso o indicador, troco letras e levo rasteiras do corretor ortográfico? Ok, imperícia também. No dia seguinte, o clube explicou que se tratava de uma pegadinha publicitária, para conscientizar as pessoas sobre o uso do celular no trânsito. Deve ser para o carro-maca, que é o único a circular nos gramados.

De qualquer maneira, o goleiro que entrou em campo com o celular evidencia um fenômeno destes tempos digitais, que é a nossa extrema dependência do brinquedinho de comunicação instantânea. O telefone móvel tornou-se um verdadeiro vício comportamental deste início de século. Pesquisa recente da empresa VitalSmarts Brasil, especializada em comportamento corporativo, mostra que 93% dos entrevistados mexem no celular enquanto dirigem, 67% o utilizam na hora das refeições, 35% na igreja e 25% na escola.

E nem é preciso recorrer a pesquisas para constatar, a qualquer hora do dia e da noite, pessoas hipnotizadas pela telinha luminosa em todos os lugares, nas paradas de ônibus, no transporte coletivo, no trabalho, na rua e, principalmente, em casa - mesmo quando a família está reunida. Encontros pessoais e de trabalho viraram monólogos silenciosos, nos quais os participantes ficam o tempo todo consultando e digitando em seus aparelhos. 

Nem é preciso olhar pelas frestas dos vidros escuros dos automóveis para se saber por que alguns (ou muitos) motoristas demoram a avançar depois que o sinal abre. Quem já não viu ciclistas, motociclistas, skatistas e outros istas com o celular na mão, sem parar ou reduzir a velocidade de seus veículos? Com frequência cada vez maior, ocorrem acidentes envolvendo também pedestres distraídos por seus celulares.

Há, porém, outro efeito da submissão à tecnologia que ainda não foi suficientemente mensurado: os danos às interações pessoais. Exagerando um pouco, ninguém mais conversa com ninguém. Estamos substituindo a afetividade do olho no olho pela comunicação virtual, destituída de calor e emoção. Por justiça a Toffler, vale lembrar que ele alertou, no seu O Choque do Futuro, que o excesso de mudanças em pouco tempo poderia causar desorientação e se transformar na doença do amanhã.

nilsonlsouza31@gmail.com - NÍLSON SOUZA


15 DE MAIO DE 2018
CARLOS GERBASE

POLÍTICA DE DUAS CARAS


Quanto mais nos aproximamos das eleições, mais aumenta a angústia sobre em quem devemos votar. Daqui a pouco, os marqueteiros começam a colocar na rua suas estratégias de convencimento. Sugiro a todo eleitor que dê uma olhada no clássico livro Vende-se Política, de Laurence Reese, que desvenda os subterrâneos da propaganda eleitoral dos Estados Unidos e na Europa. 

Para alguns candidatos, seguir os conselhos dos especialistas em marketing tornou-se algo tão natural que, se perguntados sobre qual a sua opinião sobre determinado assunto, eles são capazes de dizer: "Vou checar algumas pesquisas e depois te respondo." Pra ganhar tempo, logo telefonam para seus marqueteiros de estimação, que já terão a melhor resposta, ou seja, aquela que agrada a mais eleitores.

De certo modo essa procura da resposta mais eficiente já é coisa do passado. Sabemos agora que, pela sofisticada manipulação de um banco de dados gigantesco (a exemplo do que foi roubado pela Cambridge Analytica, a serviço de Trump), um candidato pode enviar opiniões opostas sobre um mesmo tema para eleitores cuidadosamente selecionados. 

Não se trata mais de seguir a maioria e encontrar a opinião mais eficiente, e sim de adaptar-se, de forma vergonhosa, a qualquer opinião. As palavras de alguns políticos - como a História mostra claramente - não passam de balelas para conseguir votos. Uma das palavras mais utilizadas por Hitler era paz. No entanto, em tempos idos os discursos, mesmo que artificiais ou mentirosos, apontavam para um certo perfil ideológico, uma "cara" de candidato. Isso acabou. Estamos na era da política de duas caras.

Aparentemente, a vantagem é dos candidatos de centro, que de manhã avançam um pouco para a esquerda e à tarde caminham malandramente para a direita. As aparências enganam. Trump tinha uma típica "cara" de direita - a favor do armamento, contra a proteção ambiental e a seguridade social -, mas conseguiu construir uma outra "cara", mais moderada, mais "democrata", através de uma eficiente (e, ao que tudo indica, criminosa) estratégia de comunicação digital. Cabe ao eleitor consciente arrancar esse tipo de máscara e ver a verdadeira "cara" do político. Mesmo que ela seja horrorosa.

CARLOS GERBASE



15 DE MAIO DE 2018
DAVID COIMBRA

Salvem Gerald!

Querem matar a girafa Gerald. Estou preocupado com isso. Por vários motivos - um deles é que conheço pessoalmente a girafa Gerald, se é que alguém pode conhecer "em pessoa" um bicho.

Nosso encontro, meu e da girafa, deu-se em 2010, durante a Copa da África do Sul. Fui visitar um parque de animais selvagens nas proximidades de Joanesburgo e me disseram que poderia alimentar uma girafa, se quisesse. Bem, nunca na vida havia pensado em alimentar girafas, mas, já que estava lá, por que não? Então, deram-me um saco de papel cheio de comida de girafa e me orientaram:

- Pega um punhado e levanta a mão bem alto, para ela vir comer.

Foi o que fiz, e aquela imensa girafa avançou ondulando em minha direção, deixando-me levemente apreensivo. Mas ela foi bastante pacífica, apenas abaixou seu longo pescoço, abriu a boca e de lá projetou uma língua azul do tamanho de um braço de homem e, com aquela língua, SCHLEP!, capturou a comida que lhe oferecia. Minha mão ficou toda melecada de saliva de girafa. Não foi muito agradável, mas assim é o mundo animal.

Agora, na semana passada, fiquei sabendo da seguinte notícia: uma equipe de cinema estava filmando naquele mesmo parque de animais selvagens de Joanesburgo. Curiosa com o movimento, uma girafa chamada Gerald se aproximou para ver o que estava acontecendo. O cineasta aproveitou para tomar alguns closes do corpo e dos pés de Gerald. Foi aí que a girafa se irritou e deu uma pescoçada no homem, que voou longe, quebrou a cabeça e morreu.

Pois desconfio que Gerald seja a mesma girafa que me deu uma lambida em 2010. Vi algumas fotos dele nas reportagens sobre a morte do cineasta e penso ter reconhecido um certo olhar de gratidão que ele me lançou no passado.

A questão é que as autoridades de Joanesburgo pretendem executar Gerald, cumprindo uma regra internacional que manda matar bichos que mataram homens. O dono do parque, no entanto, recusa-se a seguir essa regra. Diz ele que Gerald não fez nada de errado, com o que concordo totalmente.

Quem é que inventou essa lei? Com que lógica? É uma vendeta? Outro dia, vi o filme de um indiano que caiu no espaço onde moram os tigres em um zoológico. Um imenso tigre veio do fundo da jaula e deteve-se diante do indiano, que ficou ajoelhado, com as mãos cobrindo a cabeça, falando sem parar, acho que rezando. As pessoas que assistiam à cena gritavam, desesperadas, tentando espantar o tigre. Que não se deixou abalar. Permaneceu alguns segundos em dúvida, cheirando o homem, ouvindo a gritaria, olhando para um lado e outro, até que tomou a decisão: deu uma dentada no cangote do indiano, arrastou-o para a jaula e o comeu. Li que esse tigre havia sido morto por isso.

Foi, obviamente, uma injustiça. O tigre não teve culpa nenhuma. Ele não pediu para estar no zoológico e, afinal de contas, ele é um tigre. Tigres comem suas presas, mesmo que sejam seres humanos.

Defensores da execução alegam que tigres, depois de comerem uma pessoa, vão querer comer outras, o que me parece tremenda presunção: pessoas se acham muito gostosas. Mas, tudo bem, vamos admitir que carne humana seja uma delícia irresistível. Certo. Só que a girafa não comeu ninguém!

Sou, portanto, pela inocência da girafa. Gerald livre!

Mas comecei a falar do meu velho conhecido Gerald para chegar a outro assunto. Porém, o espaço acabou. Chegarei lá amanhã.

DAVID COIMBRA

15 DE MAIO DE 2018
OPINIÃO DA RBS

A TENTAÇÃO DA IRRELEVÂNCIA


O apequenamento das funções dos deputados estaduais deseduca o eleitor sobre o papel e a responsabilidade do Poder Legislativo

ao mostrar que quase dois terços dos projetos aprovados por deputados gaúchos e sancionados pelo governador desde fevereiro de 2015 são de baixa relevância, uma reportagem publicada por Zero Hora nesta segunda-feira deixa evidente que falta assunto ou disposição na Assembleia para enfrentar os enormes problemas que afligem o Rio Grande do Sul. O diretor de Documentação do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), Antônio Queiroz, observou na reportagem que tais projetos, por dispensáveis e desimportantes, não geram custos. "Pela nossa classificação, consideramos relevantes os projetos que influenciam a vida das pessoas, em geral para melhor", descreveu Queiroz.

O custo de produzir projetos desimportantes, porém, não deve ser descartado de antemão. Há uma estrutura de pessoal e recursos públicos que trabalha para dar apoio a deputados em seus projetos irrelevantes. Tempo e dinheiro escassos são usados para acompanhar o trâmite de tais projetos, que vão desde a criação de datas festivas de interesse remotíssimo a instituições de prêmios e reconhecimento de símbolos.

É certo que os deputados que apresentam projetos com restrito público interessado na homenagem acreditam estar cumprindo sua função de representar a vontade de alguns de seus eleitores. Não estão de todo errados, pois a agenda de irrelevâncias não iria para a frente se não encontrasse eco em nichos do eleitorado. Mas, no fundo, o apequenamento de suas funções com projetos dispensáveis deseduca o eleitor sobre o papel e a responsabilidade de um Poder Legislativo.

Vivêssemos no Rio Grande do Sul um cenário de fartura econômica e isento de grandes problemas, ainda assim a Assembleia deveria focar prioritariamente em desenhar o futuro do Estado em um ambiente mundial de incertezas e desafios. No entanto, é demais esperar uma visão estratégica do Legislativo quando nem sequer os gigantescos desafios do presente são tratados à exaustão.

De muitos anos para cá, a Assembleia não lidera iniciativas capazes de arrancar o Rio Grande do Sul de seu estado de torpor. Ao contrário, boa parte dos legisladores prefere não dar quórum a votações e, assim, impedir até a discussão de reformas fundamentais que poderiam começar a espanar a letargia que tomou conta das finanças públicas e, via de consequência, do ânimo dos gaúchos. Como se vê pelo fato de 158 leis irrelevantes ou curiosas terem sido aprovadas por 48 deputados nos últimos três anos, é bem mais cômodo instituir um dia qualquer para homenagear alguma categoria esquecida do que discutir e votar mudanças estruturais tão necessárias ao Rio Grande do Sul.

15 DE MAIO DE 2018
+ ECONOMIA

BANRISUL MELHORA, MAS NÃO AGRADA


Ao anunciar lucro de R$ 244 milhões no primeiro trimestre, 89,8% acima do obtido em igual período de 2018, o Banrisul repetiu enredo recente no mercado financeiro. Mesmo melhorando indicadores nessa base de comparação, as ações do banco estadual caíram 4,8% ontem, com a avaliação de que o resultado teria vindo abaixo do esperado.

O Banrisul teve ligeira alta na margem financeira (de 8,31% para 8,37%) e menor provisão para liquidação de créditos de recuperação duvidosa - problema que afeta todos os bancos. Na semana passada, algo semelhante ocorrera com o Itaú, que também entregou resultados melhores, mas enfrentou queda nas ações, embora em menor proporção.

- O balanço veio muito mais robusto e consistente, mas o mercado, misteriosamente, nos penalizou - constatou Julio Brunet, diretor de relações com investidores do Banrisul.

Conforme o diretor, a queda nas ações de ontem não tem relação com a polêmica em torno das operações de venda de papéis, alvo de apuração na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Na área técnica do banco, a avaliação é de que a expectativa do volume de tributação do banco era menor do que a efetiva. A tese é de que a diferença se deve à aplicação de regras válidas a partir de 2019 sobre despesas que serão aproveitadas como dedutíveis só no próximo ano. A inadimplência, outro fantasma, encolheu de 5% para 3,43%.

Como os bancos não repassaram toda a redução no juro básico, havia a expectativa de que essa diferença, chamada de spread no setor, impulsionasse os ganhos. Ajudou, mas não pareceu ser suficiente. Conforme o Banrisul, à medida que empréstimos vencerem, haverá "troca de spread por aumento de crédito". Em bom português, margens mais altas dariam lugar a volume.

integrantes da Frente Parlamentar em Defesa do Banrisul estiveram ontem na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). informaram ter "protocolado" documentos sobre a venda de ações. A CvM não confirmou. nem desmentiu.

marta.sfredo@zerohora.com.br gauchazh.com/martasfredo 3218-4701 - MARTA SFREDO

segunda-feira, 14 de maio de 2018


14 DE MAIO DE 2018
DAVID COIMBRA

Um Grêmio para a História



Fábio Koff foi aplaudido durante um minuto inteiro por gremistas e colorados, antes do Gre-Nal de sábado. Foi lindo, foi emocionante, foi grandioso, mas Fábio Koff não estava lá. Sempre que essas homenagens acontecem, fico pensando: por que não fizeram isso enquanto a pessoa vivia?

Claro que os familiares e os amigos de Koff se consolaram e se rejubilaram com aquela consagração póstuma, mas, ainda assim, foi póstuma. É que as pessoas têm dificuldade em elogiar os vivos. Os vivos ocupam espaço, e os maiores problemas da humanidade ocorrem devido à disputa por espaço.

Pensando nisso, nessa justa, porém tardia, homenagem a Koff, decidi que, sim, Renato merece mesmo uma estátua na Arena. Pelo que já fez e pelo que tem feito.

Esse time do Grêmio é especial. Os pósteros falarão dele daqui a 50 anos. Com todos os titulares e descansado, bate-se de igual para igual com qualquer adversário do planeta. Se for reforçado em algumas posições, se tornará invencível nas Américas, do Alasca à Terra do Fogo, e, como as hordas de Gengis Khan, fará a Europa tremer de pavor.

Não escrevo isso apesar do empate no Gre-Nal. Escrevo isso por causa do empate no Gre-Nal.

Repare: na sexta-feira, eu disse, no Sala de Redação: "O Gre-Nal vai acabar em empate". Acertei o resultado. Mas me surpreendi com a partida. Porque nunca tinha visto tamanha diferença entre duas equipes da Dupla como vi neste jogo, nunca, nunca, nem nos clássicos em que houve goleada, nem quando o Inter tinha a elegância de Falcão, a eficiência de Valdomiro e a imposição de Figueroa, nem quando o Grêmio de Felipão trovejava sobre os adversários com o poder da tempestade.

O Grêmio jogou. O Inter tentou evitar que o jogo acontecesse. E, olhe, o Inter estava certo. Não foi algo vergonhoso, como muitos estão achando. Não foi atitude de "time pequeno", como disse o Renato. Foi uma imposição da realidade. Não fosse assim, o Inter seria goleado. Levaria um gol e os outros viriam de enfiada. Aí, sim, hoje estaria espadanando no opróbrio.

Pela primeira vez, nos mais de 200 Gre-Nais a que assisti, a possibilidade de goleada não era um acidente da partida, era um fato: se o Inter se abrisse, seria desventrado como um peixe do Mercado Público. A estratégia colorada, portanto, foi correta. O Inter fez o que devia ter feito, e alcançou seu objetivo.

Essa irretorquível e inédita superioridade foi construída com o trabalho de muitos, mas não seria possível sem o trabalho de um: Renato Portaluppi.

Com sua já conhecida capacidade de liderança mais concentração e dedicação surpreendentes para um pândego assumido, Renato conseguiu montar um time em que os jogadores sempre sabem o que têm de fazer, como fazer e quando fazer.

Isso é treino.

É trabalho.

Você quer identificar um trabalho bem feito, seja do marceneiro, seja do encanador, seja do médico, seja do treinador de futebol? Preste atenção ao detalhe. A comissura da boca da Gioconda. A dobra do manto da Pietà. A frase de Capote, que era resistente e flexível como uma rede de pescar. O detalhe. O gênio mora no detalhe. O Grêmio de Renato cuida de cada detalhe. É um time genial.

DAVID COIMBRA

14 DE MAIO DE 2018
ARTIGO - RONALDO NOGUEIRA

MAIS DO MESMO


Presidente da Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público da Câmara dos Deputados

ronaldonogueira@camara.leg.br

Parte dos manuais políticos, de Maquiavel a Mazzarino, diz que a política é a arte da dissimulação. Ou seja: o político de sucesso seria aquele que diz uma coisa, mas faz outra. Nada mais antiquado!

Na era digital, das redes sociais e da democracia 2.0, a população está participando ativamente do processo político, o qual se tornou transparente pela democratização dos meios de informação. Por isso mesmo não será mais enganada por velhas estratégias. Nesse sentido foram as grandes jornadas de 2013, quando o povo saiu às ruas exigindo três atributos dos agentes políticos: probidade, eficiência e coerência.

Pois bem. É estupefato que tenho assistido ao verdadeiro contorcionismo argumentativo de pessoas que rechaçam a ideia de se realizar, simultaneamente às eleições de outubro, um plebiscito para viabilizar a venda de empresas estatais deficitárias, que sugam o povo gaúcho. De fato, contrariamente à ideologia de seus próprios partidos (que defendem as privatizações), vemos alguns afastarem a ideia da realização da consulta, pois avaliam que tal discussão traria benefícios eleitorais a adversários políticos.

Sob argumentos pitorescos, que vão desde um suposto número excessivo de operações a serem realizadas na urna eletrônica até uma hipotética inoportunidade pela mistura de assuntos, as desculpas para a não realização do plebiscito são diversas. Tais argumentos são falsos e mascaram uma concepção antiquada de política, em que o futuro das novas gerações é alienado por interesses eleitoreiros. Afinal, existe momento mais oportuno para se debater as privatizações do que em uma eleição?

Novo na política é não dissimular. Novo na política é ser coerente. Novo na política é enfrentar os problemas como eles são. Novo na política é não deixar para depois o que se pode fazer agora. Novo na política é modernizar o Brasil e o Rio Grande, realizando as reformas estruturais de que tanto precisamos, como fizemos com a modernização das leis trabalhistas.

O Rio Grande do Sul e o Brasil não podem esperar. É preciso continuar avançando no processo de reformas! Mais do que novas caras, precisamos de novas práticas. O resto é mais do mesmo.

14 DE MAIO DE 2018
OPINIÃO DA RBS

TRANSPARÊNCIA NAS COLIGAÇÕES


No momento em que se começa a definir as alianças eleitorais no Brasil, surge a oportunidade de mudar a lógica até hoje vigente nas coligações entre partidos. Em vez do loteamento de cargos e de fatias do orçamento, o país se beneficiaria se as siglas unissem esforços para concretizar projetos baseados em ideias convergentes.

Cabe não apenas aos políticos, mas também aos eleitores, observar a natureza dos acordos que estão sendo costurados para outubro. Em geral, as reais intenções se escondem por trás de discursos vagos e genéricos quando, no fundo, as aproximações entre as siglas estão alicerçadas apenas na perspectiva do poder, e não em como exercê-lo. O país precisa de iniciativas claras e viáveis para gerar renda, emprego, segurança, educação e saúde.

A consistência dos projetos de governo é que garante, em democracias mais antigas e consolidadas, apoio popular e parlamentar. Infelizmente, no Brasil, uma das principais moedas de troca na construção de uma aliança é a soma no tempo da propaganda de televisão, o que transforma siglas inexpressivas em fiéis de balança, gerando um balcão de negócios escusos com o qual o país não está mais disposto a conviver.

Numa democracia como a brasileira, formar maiorias de sustentação no Executivo e no Legislativo é condição imprescindível para governar. Nas últimas gestões, o apoio no Congresso, vê-se agora como desdobramento da Operação Lava-Jato e do mensalão, foi comprado na base do toma lá dá cá. É agora, quando se negociam as coligações, que essa praga deve ser combatida.

É normal a divisão de poder entre partidos, mas ela deve ser a consequência de consensos, e não a sua causa. É salutar e necessário que siglas com visões diferentes consigam se agrupar ao redor de pontos comuns a defender em uma campanha eleitoral. Encontrar ideias e projetos que beneficiem o país é sinal de maturidade democrática, especialmente neste momento da vida nacional, quando a radicalização e a polarização ganham espaço no debate público.

Como raras vezes em sua história, o Brasil precisa de uma agenda mínima a ser construída e apoiada por todos. O aprofundamento das reformas, o crescimento econômico e a modernização do Estado não podem mais esperar. Por isso, é fundamental que as articulações já adiantadas para as eleições de outubro não percam de vista que o Brasil de verdade está fora dos gabinetes acarpetados de Brasília. Na política, a transparência não deveria ser uma concessão, mas uma condição.

OPINIÃO DA RBS

14 DE MAIO DE 2018
L. F. VERISSIMO

Angústia


Uma das tantas teorias sobre o começo da civilização é a da angústia do pênis exposto. Quando os primeiros hominídeos desceram das árvores e foram viver na savana, uma das consequências de andarem eretos e terem que se espichar para pegar as frutas foi que seus órgãos sexuais ficaram expostos ao escrutínio. 

Antes de darem às fêmeas, ou aos mulherídeos, a chance de organizarem uma sociedade de acordo com o que viam e determinarem que os mais bem aparelhados teriam o poder - o que inviabilizaria qualquer tipo de hierarquia baseada na inteligência e, principalmente, na antiguidade, além de decretar o fim da linhagem dos pintos pequenos, que nunca se reproduziriam -, os machos tomaram providências, começando a tapar suas vergonhas, coisa que nenhum outro animal tinha feito antes. A civilização, portanto, começou pelas calças. Ou o que quer que usassem nas savanas para tapar o sexo.

Tudo o que veio depois - a linguagem, o fogo, a roda, a escrita, a agricultura, a indústria, a ciência, as nações, as guerras, todas as afirmações masculinas que independem do tamanho do pinto - foi, de um jeito ou de outro, uma extensão das primeiras calças. Um disfarce, um estratagema do macho para roubar da fêmea o seu papel natural na evolução da espécie ao escolher o reprodutor que lhe servia pelas suas credenciais mais evidentes e não pelas suas poses e seus poemas. Toda a nossa cultura misógina vem do pavor de que a mulher retome seu poder pré-histórico e, não sendo nem prostituta, nem nossa santa mãe, queira tirar nossas calças.

A misoginia é um traço forte da tradição judaico-cristã. Nos espantamos com sua prevalência no mundo islâmico mas ela também subsiste, mal camuflada, nos costumes e nas artes do Ocidente, onde a mulher predadora é um terror constante. E o que são a supervalorização da virgindade e a estigmatização civil do adultério, como constam na lei brasileira, senão uma tentativa de garantir que a mulher só descubra o tamanho do pênis do marido quando não pode fazer mais nada a respeito? Continuaríamos vivendo a angústia das savanas.

Independentemente das teorias, a virgindade é um tema para muitas divagações. Ninguém, que eu saiba, ainda examinou a fundo, sem trocadilho, todas as implicações do hímen, inclusive filosóficas. Já vi o hímen - que, salvo grossa desinformação anatômica, não tem qualquer outra função biológica a não ser a de lacre - descrito como a prova de que o Universo é moralista. E, levando-se em conta a dor do defloramento e mais as agruras da ovulação e do parto em comparação com a vida sexual fácil e impune do homem, também é misógino. Mas, em comparação com o que a mulher, historicamente, sofreu num mundo dominado por homens e seus terrores, o que ela sofre com a natureza é pinto. Com trocadilho.

L. F. VERISSIMO

sábado, 12 de maio de 2018



12 DE MAIO DE 2018
LYA LUFT

A quem chamaremos "mãe"?

Nunca fui de me lamentar muito, nem de prolongar velórios pelo tempo afora: os amigos e amados que se foram estão vivos em mim. A primeira dor, grave ou mesmo dilacerante, vai cedendo aos chamados da vida, entre os quais os afetos, um pouco de força de vontade, a memória e a crença numa outra existência (talvez transformada) ajudam.

Certa vez, assisti à entrevista de um militar graduado, quando se iniciaram as providências para maior segurança no Rio, ele em traje civil, sossegado. Quando se falou em juventude, a jornalista perguntou se ele tinha filhos. Um segundo de hesitação, olhar mais sério, e a resposta simples: "Eu tenho dois filhos. Um já está no plano espiritual. Mas tenho dois, sim".

No meu momento muito difícil, aquilo me tocou. Não sou, nem sei se ele era, espírita praticante, apenas acredito, desde menina, que algo da energia, ou da consciência, da luz, do brilho de cada um, há de continuar. Visão consoladora? Sem dúvida, por isso eu a cultivo.

Não vou hoje falar na morte, mas em minha mãe, Wally. Tivemos uma relação de altos e baixos, de ótima a chata, nada grave, mas as naturais briguinhas de mãe e filha. Eu não era prendada, não me interessava minimamente por casa, cozinha, arrumações, atividades então ditas femininas, era péssima nos esportes (ela boa jogadora de tênis). Como já escrevi exaustivamente, eu queria sossego para sonhar, e ler, e tinhas grandes dificuldades com autoridade. Minha devotada mãe não conseguiu corrigir nada disso. Assim eu estava sempre fora do esquadro das filhas de suas irmãs, primas e amigas, o que numa cidade pequena tem muito valor.

Mas em outras coisas era minha cúmplice, como em acalmar meu pai com meus maus boletins no então ginásio, com pequenos atrasos nas saídas com a turma (em geral, a meninada americana cujos pais trabalhavam nos escritórios das fábricas de cigarro) ou com o namoradinho de toda a adolescência.

A vida, as escolhas e os acasos vão separando a gente no convívio diário. Eu morava aqui, meus pais, lá, na minha encantadora cidade natal. Meus filhos adoravam feriados e férias na casa dos avós, que os tratavam como príncipes. Ela era otimista, alegre de natureza, muito controladora, o que me aborrecia mortalmente, mas sempre interessada na família. Lembro-me perfeitamente de seu passo enérgico no corredor, sua voz bonita, sua risada feliz, lembro-me de como enchia a sala de flores e - entre críticas porque eu lia demais, era gordinha demais e sonhava demais - me cobria de cuidados e afeto.

Mais tarde, eu já adulta com filhos crescidos, ela viúva cedo demais, começou a ser arrebatada pelo Alzheimer, que lhe corroía a memória, os hábitos, a sensatez, e precisava de constantes cuidadoras, mais tarde de uma clínica, a conselho dos médicos. Quando morreu, há muito não sabia quem éramos: me chamava de "senhora" e ficava tranquila quando eu entrava no seu registro, sem tentar corrigir, esclarecer, avivar a memória irremediavelmente perdida. Vivi, vivemos, cenas comoventes ou trágicas.

Ao entrar, tranquilamente, nessa morada de mistério que chamamos morte, há anos quase nada dela restava. Mas ainda sinto, dolorosamente no meio das memórias bonitas e divertidas que me fazem sorrir, muita falta daquela a quem eu podia chamar de "mãe". Porque isso nada substitui.

LYA LUFT


12 DE MAIO DE 2018
MARTHA MEDEIROS


Primeira vez outra vez

Ao saber que o Donna estava celebrando 25 anos, fiz as contas para saber quando comecei a fazer parte dessa história. Descobri que desde sempre, praticamente. Meu primeiro texto para o caderno foi publicado em 03/07/1994, ou seja, 24 anos atrás.

Lembro bem daquela época. Eu recém havia retornado de uma temporada em Santiago do Chile, país que estava custando a se abrir: ainda não havia aprovado a lei do divórcio e liberdade sexual continuava um tabu - Madonna, por exemplo, não havia sido autorizada a fazer show na capital chilena durante uma turnê sul-americana. 

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos iniciavam uma campanha para estimular a abstinência entre os jovens, um movimento que visava reduzir a gravidez precoce, a incidência de aids e, de quebra, enternecer o coração (juro, isso também constava da defesa da virgindade). Pois o Brasil, que de santo nunca teve nada, embarcou nessa maluquice também: foram feitas reportagens com algumas atrizes em início de carreira que revelavam a intenção de se manterem virgens até o casamento. 

Impressionada com tanto retrocesso, escrevi um texto sem ter onde publicá-lo, mas um amigo, o jornalista Dinho Eichenberg, o fez chegar às mãos de Xico Reis, então editor de Donna, e foi assim que fiz minha estreia, num cantinho de página, dando uma opinião pessoal que ninguém tinha pedido. Reproduzo este texto hoje, nesta data querida, resistindo à tentação de revisá-lo e reescrevê-lo, vício de todo colunista. Por coincidência, o título é bem parecido com o da minha crônica de domingo passado, o que demonstra que, para certas lutas, 24 anos não é nada.

POR QUE NÃO UMA

MODA UNISSEX?

Responda rápido: o que está na moda hoje? Se você respondeu que são as botinas pesadas e as minissaias em xadrez escocês, acertou em parte. Um olhar mais atento nas entrevistas que dão as atrizes globais vai fazer você reparar que o que está na moda mesmo é ser virgem. Isso mesmo, como se a virgindade fosse uma calça boca de sino, que vira símbolo de uma década, desaparece, volta de novo, simples assim.

Parece bobagem, mas o assunto é sério. Lizandra Souto, Isabel Fillardis e Camila Pitanga têm todo o direito de fazerem a opção sexual que acharem mais adequada, mas a mídia tem que ter cuidado na hora de divulgar esta opção como um modismo. E, o que é mais grave, como um modismo exclusivamente feminino.

Faz muito pouco tempo que a mulher conquistou o direito de ir para a cama com o homem com quem vai casar, e até mesmo com o homem com quem vai jantar, sem que isso barbarize a sociedade. Qualquer mulher inteligente quer fugir da cilada que é descobrir só na noite de núpcias que o namorado carinhoso fica violento quando está sem roupa. Não há conto de fadas que resista. E os homens sabem disso muito bem, tanto que preservam o hábito milenar de transar com quantas mulheres for preciso, até encontrar aquela com quem vão viver para sempre.

Já somos muitas, mas não são todas as mulheres que escolhem livremente a vida sexual que querem ter. Muitas ainda se reprimem, têm medo de serem castigadas pelos pais e de virar o assunto preferido dos vizinhos. Não é justo que, com tanto caminho pela frente, já se comece a andar pra trás.

Abram o olho, garotas! Está para nascer o dia em que veremos o Vitor Fasano, o Edson Celulari e o Maurício Mattar na telinha exaltando a maravilha que é se guardar para a lua de mel. Antes que isso aconteça, o cinto de castidade já vai estar nas passarelas de todo o país.

MARTHA MEDEIROS

12 DE MAIO DE 2018
CARPINEJAR


Não leve a esposa para a consulta médica

Não cometa o pecado de levar a sua esposa ao médico quando está doente. Não poderá mentir depois ou suavizar os sintomas.

Tudo bem quando você era menor e dependia da carona de sua mãe no momento em que ardia de febre e ela entrava pela porta sem ser convidada, sacolejando a bolsa e com o distinto policial adulto para tecer as observações mais constrangedoras do inquérito pessoal. Significava uma fase de sua vida, de evidente dependência, não havia como se defender da gentileza impositiva.

Mas agora, com a mulher, tem condições de ir sozinho. Basta não fazer drama. O problema é que o homem faz drama na primeira sequência de espirros, como se fosse morrer engasgado. E convida a família inteira para assistir a sua morte psicológica e transforma o carro numa ambulância da Samu.

Se cometer a loucura de admitir a companhia da esposa, não falará nada. A cada pergunta, ela responderá em seu lugar. Será a reedição cruel da infância. Verá uma sucessão gratuita de delações de suas prazerosas molecagens:

- Ele anda de pés descalços pela casa.

- Ele dorme com ar-condicionado em 18 graus.

- Ele não leva casaco de noite durante o sereno.

- Ele não protege a garganta.

- Ele vem se alimentando mal, não come salada.

Só caberá o gesto de baixar a cabeça e concordar. Acabará sendo uma ovelha tosada na frente do doutor.

Com o diagnóstico e atestado para dois dias, não terá condições de jogar futebol na noite seguinte com os amigos (a gloriosa pelada da semana!) ou viajar a trabalho em uma reunião importante. Raciocine que ferrou a sua programação, pois contará com forte oposição, fiscalização e patrulha para mudar os hábitos e permanecer de molho.

Se você foi ao médico para sair da cama, ficará agora preso nela por um bom tempo. A esposa vai se transmudar em enfermeira, e não será uma fantasia erótica, porém cruel, aparecendo com o copo da água e a pilha de remédios a cada 12 horas. Enfrentará a obrigação de tomar toda a cartela de comprimidos por seis dias - quando, sozinho, longe de testemunha, tudo já estaria resolvido em 24 horas. Verá uma perseguição com termômetro pelos corredores e será forçado a vestir aquele maldito pijama de flanela presenteado pela sogra, apenas desarquivado em urgências.

E não ouse contrariá-la para não deflagar uma discussão de relacionamento e receber frases fatais sobre o seu comportamento inconsequente: "não vem pensando na gente e nos filhos", "não dá valor à saúde", "assim não viverá muito".

Você conferiu autoridade para a vigilância e não conta com margem de manobra para culpá-la, já que a esposa está cuidando gratuitamente, por puro amor.

Não transforme a gripe em quarentena. Pior que adoecer é perder a liberdade de fingir.

CARPINEJAR

12 DE MAIO DE 2018
PIANGERS

Um bom presente de Dia das Mães


Se você quer realmente dar um bom presente de Dia das Mães pra sua mãe, se quiser realmente agradá-la, em primeiro lugar, não compre presentes caros. Presentes não são apenas coisas compradas. Presente não é apenas almoço de Dia das Mães em restaurantes lotados, onde a família esperará horas para ser atendida. Presentes de Dia das Mães se espalha pelo ano todo.

Comece lavando a louça. Se você quer realmente dar um presente pra sua mãe, lave mais a louça. Seque e guarde. Comece a cozinhar pra ela. Ajude nas tarefas domésticas. Deixe-a escolher o que vão ver na televisão. Fique menos no celular. Se ainda mora com ela, faça o esforço de ajudar. Ouça o que ela pede com atenção. Respeite-a.

Se você não mora mais com a mãe, telefone mais vezes. Mande mensagens em momentos aleatórios dizendo que a ama. Diga com corações, com emoji agradecido. Que bom que você existe, mãe. Obrigado por tudo o que fez e faz por mim. Faça visitas surpresas durante a semana. Diga que a admira, fora de datas especiais.

Se você quer realmente dar um presente pra sua mãe, não fume. Você é a coisa mais importante pra sua mãe. É terrível pra ela vê-lo se destruir. Pare de fumar neste domingo e será o melhor presente de Dia das Mães. Pare de beber antes de dirigir. Diga a ela: "Nunca mais vou beber e dirigir. É um presente a você, mãe". Se alimente bem. Leve sempre um casaco nos dias frios. Cuide-se.

Se você quer realmente dar um presente de Dia das Mães pra sua mãe, seja feliz. Pare de trabalhar tanto, passe mais tempo com a família, cure o estresse fazendo nada. Vá mais a praia. Tenha filhos. Adote um cachorro. Medite. Passeie com ela de mãos dadas, dizendo o quanto a vida é boa. O quanto valeu a pena tudo o que ela fez por você, pra que você pudesse ser feliz. Tudo o que os pais dela fizeram, e os pais dos pais dela.

Se você realmente quer dar um bom presente pra sua mãe, faça isso. Esteja mais perto além das datas comemorativas. Espalhe os presentes durante o ano todo. Começando agora, neste domingo.

PIANGERS

12 DE MAIO DE 2018
CLÁUDIA LAITANO

GUARDIÃ DAS PRÉ-HISTÓRIAS



De tempos em tempos, meu aniversário coincide com o Dia das Mães - como neste 13 de maio. Sempre gostei dessa vizinhança no calendário, mas a data ganhou novos significados, como não poderia deixar de ser, depois que passei a ser duplamente homenageada em domingos como este.

Gosto de pensar que as duas comemorações são, de certa forma, complementares. Se nenhuma outra pessoa no mundo dá tanta importância ao seu aniversário quanto sua mãe, festejar a data é lembrar que a estrela principal daquele dia não era você - ou apenas você. Todos os aniversários são uma espécie de filial do Dia das Mães no resto do ano. O meu, neste domingo, é matriz e filial.

O aniversário marca a passagem do tempo, a mudança de idade, o amadurecimento, mas é também uma piscadela para a nossa infância. Seja reunindo os amigos mais próximos em uma mesa de bar, seja festejando em grande estilo com dezenas de convidados, estamos sempre tentando reviver aquela sensação infantil de que este dia é realmente especial, e o mundo (ou pelo menos o nosso mundinho) parou para celebrar nossa existência. ("No tempo em que festejavam o dia dos meus anos / Eu era feliz e ninguém estava morto. / Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos / E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer", resume o poema de Fernando Pessoa.)

No aniversário, ninguém se constrange em soprar velinhas, cantar, bater palmas - mesmo que o aniversariante esteja rodeado de netos. Pelo contrário. Quanto mais velho a gente fica, mais parecidos com festas infantis ficam os nossos aniversários. Como se esse dia do ano servisse exatamente para convidar de volta à mesa a criança que um dia fomos. Enquanto isso, o adulto dentro de nós fecha para balanço por 24 horas: tudo bem até aqui? O que poderia estar melhor no ano que vem? Um ano a mais, descontadas as ansiedades de cada etapa da vida, pode parecer apenas mais do mesmo. Ou ser tempo mais do que suficiente para que tudo vire de cabeça para baixo - o que pode ser um alívio ou um tormento.

Se no dia do meu aniversário ainda posso brincar de ser criança, no Dia das Mães sou irremediavelmente adulta. Durante boa parte da minha vida, esse dia teve um rosto, um cheiro, um calor. A palavra "mãe", dita de forma banal ou como um pedido de ajuda ou carinho, instaurava um campo de afeto que me envolvia e situava no tempo e no espaço - e no centro do universo (pelo menos na minha fantasia). Enquanto viveu, minha mãe foi o repouso e o conforto da parte de mim que nunca vai crescer.

Quando minha filha nasceu, a palavra "mãe" começou a apontar para fora e para frente. O vetor do tempo se inverteu. Agora sou eu a guardiã das pré-histórias de outra pessoa, e a palavra "mãe", dita por ela, vem acompanhada de expectativas, sonhos, aflições, perguntas. Enquanto uma parte de mim nunca esqueceu como é ser filha, a outra está sempre aprendendo a ser mãe.

CLÁUDIA LAITANO


12 DE MAIO DE 2018
PAULO GLEICH

Filhos ingratos

O desafio de um filho é conseguir frustrar sua mãe, pois deve a ela nada menos do que sua existência

Este domingo é aquele dia especial em que se demonstra toda gratidão e amor àquelas sem as quais nenhum de nós estaria aqui: as mães. Filhos pequenos entregarão cartões e presentes confeccionados para ela na escola, os já crescidos levarão um presente ou, ao menos, sua própria presença - e, dado o caso, os netos! - para um farto almoço ao redor da mesa familiar. Haverá risos, abraços, selfies, tudo emoldurado em palpitantes corações.

Fora do mundo da publicidade e de outras fantasias idílicas, porém, a coisa não é bem assim. As relações entre mães e filhos não são sempre um mar de rosas, sequer um padecimento no paraíso, como se dizia: às vezes, o padecimento é um inferno mesmo. Brigas, desavenças, queixas, desilusões são ingredientes próprios de qualquer relação afetiva, e não teria como ser diferente naquela onde primeiro se experimenta o amor.

Freud nunca disse que a culpa de nossas desgraças é da mãe, mas o que ele, sim, revelou é que levamos para sempre a marca dessa relação primordial cheia de tramas e conflitos. Diferente do que diz a Bíblia, é Eva, não Adão, quem tira um pedaço de seu próprio corpo para gerar uma nova vida. Essa origem tão carnal da vida humana é algo talvez impossível de elaborar totalmente, tanto para mães como para filhos: jamais haverá palavras suficientes para compreender totalmente essa experiência excessivamente real.

Uma queixa frequente entre as mães é a de ingratidão por parte dos filhos. É um sentimento mais ou menos presente e consciente, mas está lá, seja expressado explicitamente ou nas entrelinhas, habilidade na qual as mães são pós-doutoras. E elas não deixam de ter razão: os filhos são realmente uns ingratos, fadados a desapontá-las repetidamente, já desde muito pequenos.

O desafio de um filho é conseguir frustrar sua mãe, pois deve a ela nada menos do que sua existência e sobrevivência. Há as que facilitam essa tarefa por suportar melhor a frustração, lidando como podem com a dor do afastamento. Outras têm mais dificuldades e sempre encontram formas de mantê-lo por perto, seja demandando ostensivamente sua presença, seja com estratégias mais veladas - o que às vezes é ainda mais eficaz. A possibilidade de um filho crescer tem também íntima relação com a capacidade da mãe de deixar-se desiludir.

No melhor dos casos, um filho consegue ser ingrato e rompe com o sentimento de obrigação em corresponder totalmente ao amor materno, e assim parte para descobrir o que há para além do ninho. Não é uma tarefa fácil, sobretudo porque o colo materno às vezes chama de volta com mil cantos de sereia, despertando a nostalgia de tempos em que ela fazia tudo por ele. Mas também é difícil para a mãe deixar de ver em seu filho, mesmo adulto e com grandes conquistas, o pequeno ser que ela gerou e que dela dependeu inteiramente. Algumas chegam a confessá-lo sem pudor: "Para mim, será sempre meu bebê".

Mães que se queixam que seus filhos são ingratos deveriam, por isso, sentir-se muito orgulhosas: fizeram um bom trabalho. Puderam suportar, com mais ou menos dificuldade, que eles não permanecessem devotos a elas e, assim, pudessem deixá-las um pouco de lado para tornar-se adultos. São os filhos que não conseguem jamais ser ingratos os que deveriam ser lamentados: ficam pagando para sempre uma dívida interminável, cujo preço acaba sendo sua própria vida.

Paulo Gleich escreve a cada 15 dias neste espaço. Na próxima semana, leia a coluna de Abrão Slavutzky.

Jornalista e psicanalista, escreve quinzenalmente paulogleich@yahoo.com - PAULO GLEICH

12 DE MAIO DE 2018
DIA DAS MÃES

Mãe e filho formados juntos


Em meados de 2013, Rosane Reck­tenvald Grenzel, 45 anos, seguia de Boa Vista do Buricá para Horizontina, onde o filho do meio, Roberto Grenzel Filho, hoje com 24 anos, faria sua matrícula em Engenharia Mecânica. No caminho, o garoto expôs suas inquietações: não era o curso que ele realmente gostaria de abraçar. Contou à mãe o desejo de seguir para a Odontologia. Foi uma viagem breve, mas de revelações que mudariam a vida de ambos.

- No carro, naquele momento, eu contei a ele que era meu sonho fazer Odonto. Mas casei muito cedo, com 18 anos, tive minha primeira filha, Bárbara, com essa idade e, por conta disso, eu entendia que era algo impossível de se realizar. Era um sonho que deixei guardadinho - relembra Rosane.

Roberto Filho tinha receio de que o pai não aprovasse a mudança. A rota da viagem foi desviada para a fábrica de estofados da família, localizada em Três de Maio, também no noroeste do Estado. Lá, Rosane e o filho apresentaram a alteração de planos a Roberto Grenzel, que prontamente incentivou que a mulher embarcasse, ao lado do garoto, na empreitada pelo mesmo diploma. Começava a aventura de Rosane e Roberto Filho como mãe e filho e também como colegas na Faculdade Especializada na Área da Saúde do Rio Grande do Sul (Fasurgs), em Passo Fundo.

Depois da aprovação de ambos no vestibular, a dupla precisou aparar algumas arestas para que aquela caminhada conjunta não tivesse desgastes extras além da dedicação às aulas e aos trabalhos acadêmicos. Roberto Filho lembra que a ideia de estudar com a mãe não lhe agradou inicialmente:

- Eu queria viver a minha vida universitária como os outros colegas. Achei bem chato.

Rosane também se viu, aos 41 anos, tendo de reorganizar rotinas. Deixou a filha mais nova, Laura, à época com 13 anos, com o pai em Boa Vista do Buricá, passava a semana em Passo Fundo estudando e, aos finais de semana, voltava para casa para rever o marido, o pai, as duas filhas e os amigos.

- Foi uma experiência maravilhosa, mas, meu Deus, como foi sacrificante. Eu vivia com o coração partido de deixar minha filha, de ficar longe do meu marido, da fábrica. E as pessoas ainda me diziam que eu estava louca, que estava velha para isso, que não tinha por que inventar de estudar naquela altura da vida. Nossa, hoje me emociono ao falar disso tudo. Não me sentia velha e eu estava realizando um sonho - relembra Rosane, às lágrimas.

O primeiro semestre na faculdade foi de ajustes. Rosane e Roberto Filho perceberam que algum distanciamento seria salutar ao progresso de ambos no curso. Logo, a mãe deixou claro a professores e colegas que ali, na faculdade, ela era apenas a colega de Roberto Filho, não a mãe. Portanto, nada de queixas sobre o filho, já que não se fazia isso com os outros estudantes.

PIADINHAS NO INÍCIO, ADMIRAÇÃO DEPOIS

Nos primeiros meses de aula, enfrentaram alguns olhares curiosos e até piadinhas por estarem juntos em sala de aula. Muitos achavam que Rosane faria tudo pelo filho, inclusive os trabalhos e as provas. Com o tempo, ganharam acolhimento e admiração. Rosane tornou-se aluna exemplar, e Roberto Filho aprendeu a curtir a vida universitária sem entender a mãe como uma vigilante implacável.

- A gente brigava de vez em quando, mas logo entendíamos que precisávamos um do outro. Minha mãe não saía da frente dos livros, eu saía bastante - diverte-se o filho.

Rosane acabou ganhando o carinho dos jovens colegas - alguns, inevitavelmente, tratados quase como seus próprios filhos. Participava dos grupos de estudo (Roberto garante que ela fazia os melhores resumos das matérias) e das confraternizações. Se ensinou, também aprendeu.

- Como a gente se engana quando pensa que sabe mais do que os filhos só porque tem a experiência da vida. Minha cabeça se ampliou muito na convivência com os mais jovens. Passei inclusive a entender melhor meu filho e todo o mundo dele, onde talvez eu jamais chegaria se não estivesse junto nesse período. Tenho muita gratidão por esses jovens que conheci. Eu doava, mas recebia muito também - relembra Rosane à reportagem.

Em fevereiro, mãe e filho celebraram a formatura. Duas semanas antes da colação, Rosane machucou o pé e precisou receber o diploma de cadeira de rodas. Roberto Filho, claro, foi quem conduziu a formanda-colega- mãe ao cerimonial.

- Foi demais. Sei de todos os sacrifícios que ela teve para realizar esse sonho - orgulha-se o rapaz.

Mas a trajetória lado a lado de Rosane e seu guri não se encerrou com a graduação. Mãe e filho já trabalham para abrir um consultório em conjunto em Boa Vista do Buricá. Rosane também vislumbra uma especialização, interrompida em razão do problema no pé. Ela reconhece a principal lição dessa conquista:

- Não podemos, sendo mulheres e donas de casa, principalmente, deixar nossos sonhos morrerem dentro da gente. Não podemos.

Conselho de mãe.

12 DE MAIO DE 2018
DIA DAS MÃES

Passos inspiradores


Na casa de Lenita Ruschel, 80 anos, as filhas seguiram os passos da mãe sem qualquer chance de isso ser apenas uma força de expressão. Bailarina renomada em Porto Alegre, com mais de seis décadas de atuação e uma coleção de prêmios, Lenita viu suas três gurias também desenvolverem a paixão pela dança que a fisgou ainda criança. É verdade que a infância entre sapatilhas e pliês facilitou o encantamento por esse universo, mas Déborah, Helena e Sílvia tiveram liberdade para escolher seus rumos.

Trilharam suas próprias trajetórias, mas sem tirar os pés do tablado, e conduziram suas formações para o trabalho que desenvolvem nas escolas de balé - atualmente seis unidades - que a mãe fundara anos atrás.

- Foi algo que cresceu naturalmente na nossa vida - conta Helena.

Nenhuma esconde a inspiração materna e o orgulho de levar adiante um sonho que se tornou familiar. Mesmo ali, compartilhando o ambiente de trabalho, cada uma achou seu espaço individual.

Déborah, a filha mais velha, dedica-se ao repertório clássico e ao contemporâneo e se envolve na organização de eventos grandiosos, como o Natal Luz de Gramado. Helena voltou-se à dança clássica e à coreografia, é a especialista em Royal Ballet. Sílvia levou sua formação em Pedagogia para trabalhar com a criançada na escola e ainda cuida da parte administrativa. As três têm na figura de Lenita uma referência incontestável, ainda que não possam dizer que brigas não aconteçam.

- Ah, claro que tem umas briguinhas, mas isso é natural, né? - diverte-se Lenita.

Déborah credita à mãe os primeiros ensinamentos e o incentivo de persistir. Hoje, Lenita costuma dizer que são as filhas - e os netos - o grande estímulo para que, do alto de seus 80 anos, ainda mantenha uma rotina de trabalho e aprendizado.

- Ela diz que a incentivamos, mas é ela, todo dia aqui, que nos incentiva - diz Débora.

- É a minha musa, a minha diva - derrete-se a caçula Sílvia.

O peso do nome da mãe no cenário da dança do Rio Grande do Sul também não comprometeu decisões e reavaliações entre as três irmãs. Se por um lado tinham uma grande professora dentro de casa, elas são incessantes na busca por conhecimento, atualização e inovação. E, mesmo nesse ímpeto de trazer novidades, toparam com a figura vanguardista da mãe.

- O balé de adultos, que hoje é um sucesso na nossa escola, foi uma coisa que ela inventou 20, 30 anos atrás. Hoje, sou eu quem dá essas aulas inspirada nela - conta Helena.

- Ela foi a responsável por tudo... Por tudo de bom na minha vida - completa Déborah.

12 DE MAIO DE 2018
MARTA GLEICH

14 milhões de usuários


No dia 21 de setembro de 2017, há pouco mais de sete meses, lançamos a plataforma GaúchaZH. Enchemos a empresa de balões cor de laranja, em um dia de celebração nas redações e no núcleo digital, onde o site e aplicativos foram desenvolvidos. Mas havia, sim, aquele nervosismo da estreia. Tínhamos dois sites vencedores, o da Zero Hora e o da Rádio Gaúcha, por que inventar?

O problema é que os dois sites tinham público e conteúdos similares. Se você quisesse acessar uma notícia aqui do Estado, procurava onde? No site da Gaúcha ou no site da ZH? Reunimos forças e lançamos produtos digitais mais modernos, mais rápidos, mais funcionais, com o melhor conteúdo produzido por todos os jornalistas, colunistas e comunicadores da rádio e do jornal. Tudo num só lugar. Na teoria, parecia bom. Mas, e na prática, será que iria funcionar?

Poucos meses depois, podemos dizer que funcionou, e muito bem. Sabem quantos usuários alcançou em abril o GaúchaZH? 14 milhões. Um recorde absoluto. O número de sessões (vezes em que os usuários interagem com GaúchaZH) também foi recorde: cresceu 27,55% desde a estreia.

Obrigada, leitores, ouvintes, usuários, por números tão expressivos. Mas não pensem que o fato de o GaúchaZH ter dado muito certo vai nos fazer parar de inventar, não. Para seguir acompanhando e atendendo nosso público, estamos sempre lançando novidades. Acabamos de lançar mais uma, na última semana: o programa 11 Copas do Pedro, com Pedro Ernesto Denardin.

Se você ainda não conferiu, dê uma passadinha lá.

Diretora de Jornalismo Jornais e Rádios - MARTA GLEICH

sexta-feira, 11 de maio de 2018



Feliz Mãe do Brasil! 

Sim, claro, a gente sabe que amor de mãe só é menor, menos incondicional e eterno que o amor-próprio. Há quem diga que amor de mãe é o maior e incomparável. Uns dizem que o importante é o amor em si, que é maior do que as mães e filhos mortais. Acontece que se eu sou a mãe do Brasil e aí a coisa é ainda mais complicada. Ser a mãe da pátria amada, idolatrada, salve! Salve!, que é mãe gentil dos brasileiros, não é brinquedo não. Pois é, sou tipo vó dos brasileiros. 

Agradeço pelas flores, pelos cartões, pelos chocolates, mantinhas e meinhas de lã, camisolas de pelúcia, joias e bijuterias, DVDs e tudo mais, vocês são uns amores, filhos da pátria amada Brasil, que é minha filha querida. Tenho pensado neste rebento Brasil e por vezes me conformo refletindo que é melhor gostar dele do que tentar entendê-lo. O João Cabral de Melo Neto dizia que o parto do Brasil é demorado, mas a criança já nasceu ou será que não? Tom Jobim dizia que o Brasil não é para amadores. E eu, que sou a mãe do Brasil, o que posso dizer neste Dia das Mães? 

Que posso dizer neste momento de crise econômica, política, ética, de costumes e de outras crises? Que posso desejar nesse momento em que os filhos do Brasil fazem parte de uma família dividida, com vinte e poucos candidatos a presidente, trocentas divisões e brigas sem fim? Rezo pelo aparecimento de alguém ou de um grupo que consiga unir ao menos uma boa parte. Não está fácil. Quem sabe Nossa Senhora Aparecida tire de seu manto uma solução. Acima de tudo precisamos de uma reza bem forte, a maior de todas da História. 

Como mãe do Brasil eu claro que amo todos os meus filhos, de modo diferente, como todas as mães, mas amo a todos e espero que baixe um entendimento. Os brasileiros que eu quero são os cidadãos que pensem, ao menos um pouco, mais no interesse coletivo do que só nos interesses de sua tribo. Os filhos brasileiros do meu filho Brasil que eu desejo são as pessoas que respeitem a liberdade, a democracia, a honestidade e o que for melhor para o todo. Nem todos podem ter seus interesses atendidos tão rápido e tão completamente como querem. 

Precisamos conversar, nos unir e ver o que é possível. Não podemos nos dispersar, dizia o Tancredo Neves, que muita falta nos faz. Brigas e divisões são piores para todos e na real não são boas nem para os poucos que acham que se beneficiam do caos. Brigas e divisões muitas vezes interessam aos de fora, nesse mundinho globalizado em que o globo, desigual, é mais de uns que de outros. 

Como mãe do Brasil, tenho fé que nas eleições os filhos da pátria mãe gentil escolham bem, escolhendo os irmãos que corporifiquem melhor nossas virtudes. No Dia das Mães de 2019 espero encontrar uma família mais forte e unida, que deixe o coração da mãe mais leve e tranquilo. 

Uma família que consiga conviver com suas diferenças, dividindo melhor as expressões, as palavras, o trabalho e o pão e o sonho de construir uma verdadeira nação neste País de mais de oito milhões e meio de quilômetros quadrados. 

a propósito... 

A construção de uma sociedade e de um País toma tempo, diálogo, paciência, ética, valores e bons interesses coletivos. É obra pública, não é demais repetir. Cada um colocando seu tijolinho e seu esforço diário no edifício. 

Cada um pensando que com liberdade, democracia, transparência, honestidade, harmonia e desenvolvimento é possível melhorar o que está aí. Como dizia a linda canção do Ivan Lins: "Desesperar jamais, aprendemos muito nesses anos, afinal de contas, não tem cabimento, entregar o jogo no primeiro tempo". 

Eu, mãe do Brasil, conto com vocês e alguma coisa me diz que coração de mãe não se engana. Parem de brigar, meus filhos, que se não a mãe vai ter que tomar umas providências. É melhor vocês se comportarem, se não vão ficar de castigo. Viva a mãe e os filhos do Brasil! 

Jaime Cimenti 

Jornal do Comércio http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2018/05/colunas/livros/626156-tropicalia.html