quarta-feira, 9 de setembro de 2026

09 de Setembro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

A antropofagia entre os poderes da República

O modernismo brasileiro transformou a antropofagia em metáfora: devorar o outro para absorvê-lo e produzir algo novo.

Quase um século depois do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, Brasília criou sua própria versão. Na capital federal, um poder já não se limita a fiscalizar o outro. Come.

A antropofagia começa dentro das próprias instituições. No Supremo Tribunal Federal (STF), ministros travam uma batalha pública, com Alexandre de Moraes pedindo a investigação de André Mendonça e Mendonça reagindo agora com o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência da corporação.

O que deveria ser um sistema de freios e contrapesos começa a assumir a forma de uma disputa em que cada movimento provoca outro ainda mais grave. A institucionalidade vai se liquefazendo e levando, de roldão, para o lamaçal, a República.

O presidente candidato Lula tentou permanecer alheio à guerra no Supremo, embora já sofresse seus efeitos na campanha eleitoral pela associação entre seu nome e o de Moraes. A decisão de Mendonça arrastou o Executivo diretamente para o conflito ao atingir Andrei, escolhido pelo presidente e subordinado ao Ministério da Justiça. A AGU prepara recurso contra o afastamento, enquanto a crise que começou dentro do Judiciário cruza, a passos rápidos, a Praça dos Três Poderes.

A antropofagia institucional avança, um órgão sobre o outro. O passo seguinte pode ser uma névoa, na qual já não se saiba onde termina a defesa legítima de uma prerrogativa e começa uma guerra de poder.

Também preocupa a resposta sugerida por assessores palacianos. Marco Aurélio de Carvalho, coordenador jurídico da campanha do presidente, defendeu a convocação do Conselho da República para enfrentar o que classificou como uma "crise institucional sem precedentes". O colegiado existe para aconselhar o presidente sobre temas de enorme gravidade, como intervenção federal, estado de defesa e de sítio. A simples associação, em meio a uma campanha eleitoral e a uma batalha aberta entre integrantes do Supremo, eleva ainda mais a temperatura. O reverso precisa ser acionado.

Caso de emergência

Crises institucionais graves devem ser tratadas como uma emergência de pronto-socorro: primeiro, é preciso impedir que a infecção se espalhe pelo organismo. Nesses casos, em geral, para preservar o corpo, é necessário afastar a parte comprometida até que se saiba exatamente o que aconteceu.

O Executivo acaba de perder, ainda que preventivamente, o seu diretor-geral da PF. Cabe ao Supremo fazer a sua parte, criando uma saída institucional capaz de interrompê-la.

Se Brasília continuar praticando sua antropofagia pública, chegará um momento em que não haverá vencedor. Todos cairão. Com os poderes devorados uns pelos outros, o que restará sobre a mesa do banquete de vaidades será a própria República. _

O humano em tempos de IA

Para reafirmar que o lado humano permanece insubstituível na relação ensino-aprendizagem, a 14ª edição do Inteligência Coletiva, que inicia hoje e vai até sábado, em Porto Alegre, debate o tema "O futuro da educação continua humano". O evento é gratuito para professores da rede pública e estudantes de licenciatura e magistério. Para as escolas privadas, o investimento varia de R$ 40 a R$ 98 por pessoa, conforme a modalidade escolhida.

O evento é idealizado pela Escola de Professores Inquietos, iniciativa do Colégio Farroupilha. Hoje, no Teatro CIEE, o médico e escritor J.J. Camargo palestra sobre a relação entre o técnico e o humano. O sábado será dedicado à apresentação dos relatos de práticas pedagógicas e experiências de pesquisa de professores de diferentes escolas selecionados por edital e de workshops com diferentes profissionais nas dependências do Colégio Farroupilha.

Entre os temas abordados estão saúde mental; aprendizagem inovadora; processos inclusivos; sustentabilidade e cidadania; e relações escolares e convivência. Inscrições no site gzh.digital/inteligênciacoletiva. _

Islândia no mapa dos Estados Unidos

Após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, publicar nas redes sociais um mapa fictício no qual mostrava a Islândia - além de México, Cuba e Groenlândia - coberta pela bandeira americana, indicando que o território faria parte dos EUA, o Ministério das Relações Exteriores islandês convocou, ontem, o embaixador americano, Billy Long, para conversas.

Desde as investidas de Donald Trump nos últimos anos para que os Estados Unidos adquiram a Groenlândia - território autônomo dinamarquês -, as relações entre os americanos, países europeus e aliados da Otan ficaram estremecidas. No mês passado, os eleitores islandeses rejeitaram a retomada das conversas para aderir à União Europeia. Durante a campanha para a votação, os planos de Trump para a Groenlândia integraram o debate político no país.

Alguns defensores da retomada das negociações citaram a preocupação com a confiabilidade dos Estados Unidos como motivo para considerar uma aproximação maior com a União Europeia.

A publicação de Trump também coincidiu com uma nova demonstração de apoio europeu à Groenlândia. Horas antes, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou um pacote de 200 milhões de euros (cerca de R$ 1,2 bilhão, na cotação atual) para o território autônomo dinamarquês. _

Honoris Causa a Conceição Evaristo

A linguista e escritora brasileira Conceição Evaristo será agraciada com o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Apesar de a data da cerimônia de outorga ainda não ter sido definida oficialmente, a entrega do título, segundo a reitoria, está prevista para meados de dezembro.

A proposta que deu origem à homenagem partiu do Coletivo de Estudantes Negros da Pedagogia, do Coletivo UFRGS Negra e do Movimento Negro Unificado, sendo encaminhada pela Faculdade de Educação (Faced) ao Conselho Universitário (Consun).

Segundo a universidade, a honraria reconhece a trajetória de Conceição Evaristo e a contribuição de sua produção literária e intelectual para a literatura brasileira, a educação e o enfrentamento do racismo. A justificativa apresentada ao Consun destaca também a presença e a influência do pensamento da escritora na produção acadêmica da UFRGS.

- É muito importante esse reconhecimento, pois ela, além de escritora, é uma linguista muito relevante. Alguns conceitos que ela introduz, além, obviamente, da questão do racismo e da linguagem, envolvem a escrevivência, ou seja, essa escrita que traz de onde tu vens e o que tu representas. É mais do que um pensamento de ação afirmativa, é incorporar à criação de conhecimento quando trazemos pessoas com outras culturas e vivências para dentro da universidade. É a transformação da universidade, e a entrega desse título é o reconhecimento dessa transformação - comentou a reitora Márcia Barbosa à coluna.

Nascida em uma favela de Belo Horizonte, Conceição Evaristo é filha de uma lavadeira e, desde os 8 anos de idade, vivenciou o trabalho doméstico nas casas das elites mineiras. Atuou como professora primária no Rio de Janeiro e, posteriormente, graduou-se em Letras. Tem o mestrado em Literatura Brasileira e o doutorado em Literatura Comparada.

É autora, entre outras obras, de Ponciá Vicêncio (2003), Becos da Memória (2006), Olhos d?Água (2014) e Canção para Ninar Menino Grande (2018). 

INFORME ESPECIAL

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