sábado, 3 de janeiro de 2015


04 de janeiro de 2015 | N° 18032
ANTONIO PRATA

2014: noves fora, sete

Logo depois da tragédia foi aquele Deus nos acuda. Parecia que ia cair o presidente da CBF, a presidente da república, iam cancelar o Domingão do Faustão, mudar o carnaval pra agosto e transferir a capital brasileira pra Buenos Aires (ou Berlim?). Nos últimos meses, contudo, o choque foi passando e deixamos de tocar no assunto, mas tenho certeza de que lá longe, num futuro distante, quando olharmos pra trás e nos perguntarmos “E em 2014, hein?

Que que aconteceu, mesmo?”, não lembraremos da Dilma nem do Aécio, do início da abertura em Cuba ou da pá de cal no Orkut, do pouso da sonda Rosetta ou da ascensão do pau de selfie: engoliremos em seco e diremos, ainda aflitos diante da recordação; “ah, foi o ano do 7 X 1”.

Naquela terça terçã, 08 de julho, havia no Mineirão cinquenta e oito mil cento e quarenta e um torcedores – e esse um era eu. Quando saí do estádio – perplexo, atordoado –, meu telefone começou a tocar. Eram amigos, primos, tios, meu pai. Perguntavam como tinha sido a experiência, in loco, mas queriam mesmo era conferir, desconfio, se eu estava vivo. A coisa tinha sido tão absurda que não seria fora de lugar se um daqueles chutes da Alemanha, em vez de fazer o oitavo gol, houvesse me acertado a testa.

Absurdo: essa talvez seja a melhor palavra pra descrever o que se passou naquela tarde. Quando, aos 29 minutos do primeiro tempo, Khedira recebeu livre próximo à marca do pênalti e chutou no canto direito do gol brasileiro, marcando o quinto tento teutão, eu senti uma aflição profunda e não inteiramente desconhecida. Fechei os olhos, folheei mentalmente meu caderninho de angústias e descobri o que era: uma bad trip de ácido. Você sabe que está embarcando numa viagem ruim, sabe que vai piorar e sabe que não há nada que possa fazer para alterar o destino. Resta render-se aos entulhos mais fedidos do seu subconsciente e esperar que passe o efeito.

Num estádio, no entanto, não há a alternativa da rendição. Afinal, ali, cada torcedor tem a ilusão delirante de ser capaz de mudar o destino do jogo. Tudo bem, em casa você também acha que pode influenciar no resultado passando do Sportv pra ESPN e da ESPN pra Band e da Band pra Globo e da Globo pro rádio AM, trocando de cueca ou comendo amendoins com a mão esquerda, mas todo ser racional sabe que a mandinga funciona bem melhor de corpo presente do que via cabo ou satélite. E se trocássemos de lugar? E se cantássemos o hino, de novo? (Ou Aquarela do Brasil?) E se vaiássemos?

Durante os 60 lodosos minutos que se seguiram ao quinto gol, cada torcedor fez o que achou necessário, criando uma cacofonia bisonha. O Mineirão parecia um gigantesco formigueiro mijado. O equilíbrio só se restabeleceu nos últimos minutos: a torcida brasileira vaiava em uníssono, enquanto a torcida alemã cantava, a plenos pulmões: “Brasil! Brasil! Brasil!” – e tenho certeza de que eles não estavam sendo irônicos, estavam era com pena, tentando dar uma força.


Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete – e um nosso, no finalzinho, como a azeitona no dry martini (deles). Absurdo.

04 de janeiro de 2015 | N° 18032
LUÍS AUGUSTO FISCHER

Preto ou branco

Novo ano, novos governos, mas sob a sombra de um velho vício no debate público brasileiro – continuar a pensar no mundo como tendo uma divisão nítida, preto e branco, nós e eles. Ano passado, com a eleição, todo mundo viu como e quanto ficamos reféns de uma visão simples, muitas vezes simplória, de oposição pura e simples entre duas posições.

O formato do segundo turno exacerba essa percepção, e tudo ficou ainda mais quente porque estavam em confronto candidatos dos dois partidos que, no fim das contas, são os únicos, depois da redemocratização, que têm programa e se viabilizaram eleitoralmente (outros há com apenas uma das duas características – sem programa mas viáveis, com programa mas inviáveis).

A situação me lembrou bastante o tempo da minha adolescência, anos 1970, quando também havia basicamente duas posições – contra a ditadura e a favor dela. Foi uma das facilidades da experiência de minha geração, ter inimigo nítido, que dava asco mas contribuía com sua visibilidade para a nossa organização mental e afetiva. Quem concordava era nosso inimigo, e logo depois ficou também claro que quem calava estava consentindo, ao passo que nós outros fomos para a rua, ajudamos a fundar partidos, quando pouco boicotamos algum ato oficial, deixamos o cabelo crescer para além dos padrões anteriores, deixamos desbotar as calças.

Tive a sorte congênita de apreciar a ironia e o humor, que encontravam no Pasquim expressão superior – Ivan Lessa acima de todos. Depois vieram Machado de Assis e Nelson Rodrigues. Isso me livrou da ortodoxia para sempre. Bem sei que há momentos-limite em que só há duas posições, e então ou se é isso ou se é aquilo, sem meios-termos. Mas quase sempre há, deve haver, mais de duas possibilidades, sobretudo no reino do pensamento, da reflexão, do comentário, seja ele no bar, no churrasco com os amigos ou na profissão.

Para a criação artística, a existência de apenas dois polos é mortal. A boa arte, pode-se ver ao longo dos tempos, é sempre aquela que escapa das trampas ideológicas, muitas vezes apesar ou além da consciência dos criadores, que até podem ser partidários disso ou daquilo. Arte a serviço do que quer que seja é uma chatice abominável.

Em nossos dias, continuam acesas as diferenças, por motivos antigos, mas também por novos, como a existência da internet e das ditas redes sociais. Isso mudou o modo pelo qual as pessoas, eu ia dizer comuns, vá então “comuns” em aspas, se relacionam com a opinião até há pouco exclusiva – políticos, figuras da imprensa, o padre, o professor, o jogador de futebol.

Desdobramento lateral: agora que todo mundo toma a palavra, o prezado leitor viu que não há mais ironias contra a precariedade de expressão dos boleiros? Antes era uma pegação de pé impressionante, preconceituosa até. Os jogadores de futebol hoje vêm de trajetórias sociais menos marginais, ou então dão um jeito de decorar a fala característica do mundo da bola, aquela algaravia interminável, quase sempre mera espuma, sem consequência ou permanência.


O Rio Grande do Sul está acostumado, há mais de três séculos, a pensar e agir de modo polarizado, também no futebol. E não parece que essa experiência toda nos livre deste mal tão logo.

04 de janeiro de 2015 | N° 18032
MARTHA MEDEIROS

Pensar nunca funcionou

O músico uruguaio Socio compôs uma balada linda que se chama Fan de Faith no More e que escuto com frequência, apesar de uma parte da letra me intrigar. Lá pelo meio da canção ele diz pensar nunca funcionou, e a cada vez que ouço esse verso, penso: não, Socio, não é bem assim.

Logo me ocorrem várias experiências que vivi que só foram compreendidas através do pensamento, e todas as boas conversas que tive com amigos e que resultaram em mudanças de pensamento, e tudo o que escrevi movida pelos meus pensamentos, e todas as noites em que perdi o sono por causa dos meus pensamentos, e todos os filósofos que formataram e deram sentido aos meus pensamentos, e todas as consultas ao psicanalista em que meus pensamentos foram cirurgicamente dissecados, e todas as discussões que brotaram porque meus pensamentos não combinavam com os dos outros, e todas as escolhas que fiz só depois que o meu pensamento autorizou, sem falar na superioridade que o ser humano se outorga por ter o privilégio de pensar e os bichos não.

Com que topete vem alguém dizer que pensar nunca funcionou? A maior prova de que pensar funciona é que depois de muito pensar nesse verso acabei chegando à conclusão de que ele revela uma verdade, só que foi mal transmitida.

Pensar demais nunca funcionou. Faltou o advérbio de intensidade.

Pensar, a gente pensa mesmo que não queira. Estamos condenados à atividade cerebral, cada um fazendo bom uso ou mau uso dos neurônios que têm. Não é a isso que Socio se refere na música, imagino. Ele se refere a pensar demais. O demais ficou subentendido, é o que deduzo.

Pensar demais é uma insanidade, o que explica o fato de nós, mulheres, sermos todas meio dementes. Pensar demais é um autoboicote, pois depois que se atravessa a fronteira do pensamento controlado e se entra no território do pensamento obsessivo a cabeça da criatura começa a fundir e a soltar fumacinha, até a explosão final.

Pensando demais, a gente ultrapassa a sensatez e vai dar numa zona de turbulência que faz alguns parafusos se soltarem da fuselagem. A coerência desaparece e a fantasia assume o manche. Deveria haver uma sinalização de alerta quando a gente começa a pensar demais: desastre a 100 metros, desastre a 50 metros, desastre na próxima curva – pare!

Pensar demais é desperdiçar um tempo em que você poderia estar amando demais, se divertindo demais e levando a vida a sério de menos. É uma corrida em que sempre se passa voando pelo ponto de chegada, perdendo o rumo. É não ter freio para evitar o descarrilamento de ideias que nunca serão recolhidas, ficarão largadas na pista, sem dono. Pensar demais é uma estrada sem limite de velocidade, um convite ao desatino.


É o que penso. Moderadamente, como é recomendável.

04 de janeiro de 2015 | N° 18032
MARTHA MEDEIROS

Pensar nunca funcionou

O músico uruguaio Socio compôs uma balada linda que se chama Fan de Faith no More e que escuto com frequência, apesar de uma parte da letra me intrigar. Lá pelo meio da canção ele diz pensar nunca funcionou, e a cada vez que ouço esse verso, penso: não, Socio, não é bem assim.

Logo me ocorrem várias experiências que vivi que só foram compreendidas através do pensamento, e todas as boas conversas que tive com amigos e que resultaram em mudanças de pensamento, e tudo o que escrevi movida pelos meus pensamentos, e todas as noites em que perdi o sono por causa dos meus pensamentos, e todos os filósofos que formataram e deram sentido aos meus pensamentos, e todas as consultas ao psicanalista em que meus pensamentos foram cirurgicamente dissecados, e todas as discussões que brotaram porque meus pensamentos não combinavam com os dos outros, e todas as escolhas que fiz só depois que o meu pensamento autorizou, sem falar na superioridade que o ser humano se outorga por ter o privilégio de pensar e os bichos não.

Com que topete vem alguém dizer que pensar nunca funcionou? A maior prova de que pensar funciona é que depois de muito pensar nesse verso acabei chegando à conclusão de que ele revela uma verdade, só que foi mal transmitida.

Pensar demais nunca funcionou. Faltou o advérbio de intensidade.

Pensar, a gente pensa mesmo que não queira. Estamos condenados à atividade cerebral, cada um fazendo bom uso ou mau uso dos neurônios que têm. Não é a isso que Socio se refere na música, imagino. Ele se refere a pensar demais. O demais ficou subentendido, é o que deduzo.

Pensar demais é uma insanidade, o que explica o fato de nós, mulheres, sermos todas meio dementes. Pensar demais é um autoboicote, pois depois que se atravessa a fronteira do pensamento controlado e se entra no território do pensamento obsessivo a cabeça da criatura começa a fundir e a soltar fumacinha, até a explosão final.

Pensando demais, a gente ultrapassa a sensatez e vai dar numa zona de turbulência que faz alguns parafusos se soltarem da fuselagem. A coerência desaparece e a fantasia assume o manche. Deveria haver uma sinalização de alerta quando a gente começa a pensar demais: desastre a 100 metros, desastre a 50 metros, desastre na próxima curva – pare!

Pensar demais é desperdiçar um tempo em que você poderia estar amando demais, se divertindo demais e levando a vida a sério de menos. É uma corrida em que sempre se passa voando pelo ponto de chegada, perdendo o rumo. É não ter freio para evitar o descarrilamento de ideias que nunca serão recolhidas, ficarão largadas na pista, sem dono. Pensar demais é uma estrada sem limite de velocidade, um convite ao desatino.


É o que penso. Moderadamente, como é recomendável.

04 de janeiro de 2015 | N° 18032
LUÍS AUGUSTO FISCHER

Preto ou branco

Novo ano, novos governos, mas sob a sombra de um velho vício no debate público brasileiro – continuar a pensar no mundo como tendo uma divisão nítida, preto e branco, nós e eles. Ano passado, com a eleição, todo mundo viu como e quanto ficamos reféns de uma visão simples, muitas vezes simplória, de oposição pura e simples entre duas posições.

O formato do segundo turno exacerba essa percepção, e tudo ficou ainda mais quente porque estavam em confronto candidatos dos dois partidos que, no fim das contas, são os únicos, depois da redemocratização, que têm programa e se viabilizaram eleitoralmente (outros há com apenas uma das duas características – sem programa mas viáveis, com programa mas inviáveis).

A situação me lembrou bastante o tempo da minha adolescência, anos 1970, quando também havia basicamente duas posições – contra a ditadura e a favor dela. Foi uma das facilidades da experiência de minha geração, ter inimigo nítido, que dava asco mas contribuía com sua visibilidade para a nossa organização mental e afetiva. Quem concordava era nosso inimigo, e logo depois ficou também claro que quem calava estava consentindo, ao passo que nós outros fomos para a rua, ajudamos a fundar partidos, quando pouco boicotamos algum ato oficial, deixamos o cabelo crescer para além dos padrões anteriores, deixamos desbotar as calças.

Tive a sorte congênita de apreciar a ironia e o humor, que encontravam no Pasquim expressão superior – Ivan Lessa acima de todos. Depois vieram Machado de Assis e Nelson Rodrigues. Isso me livrou da ortodoxia para sempre. Bem sei que há momentos-limite em que só há duas posições, e então ou se é isso ou se é aquilo, sem meios-termos. Mas quase sempre há, deve haver, mais de duas possibilidades, sobretudo no reino do pensamento, da reflexão, do comentário, seja ele no bar, no churrasco com os amigos ou na profissão.

Para a criação artística, a existência de apenas dois polos é mortal. A boa arte, pode-se ver ao longo dos tempos, é sempre aquela que escapa das trampas ideológicas, muitas vezes apesar ou além da consciência dos criadores, que até podem ser partidários disso ou daquilo. Arte a serviço do que quer que seja é uma chatice abominável.

Em nossos dias, continuam acesas as diferenças, por motivos antigos, mas também por novos, como a existência da internet e das ditas redes sociais. Isso mudou o modo pelo qual as pessoas, eu ia dizer comuns, vá então “comuns” em aspas, se relacionam com a opinião até há pouco exclusiva – políticos, figuras da imprensa, o padre, o professor, o jogador de futebol.

Desdobramento lateral: agora que todo mundo toma a palavra, o prezado leitor viu que não há mais ironias contra a precariedade de expressão dos boleiros? Antes era uma pegação de pé impressionante, preconceituosa até. Os jogadores de futebol hoje vêm de trajetórias sociais menos marginais, ou então dão um jeito de decorar a fala característica do mundo da bola, aquela algaravia interminável, quase sempre mera espuma, sem consequência ou permanência.


O Rio Grande do Sul está acostumado, há mais de três séculos, a pensar e agir de modo polarizado, também no futebol. E não parece que essa experiência toda nos livre deste mal tão logo.

04 de janeiro de 2015 | N° 18032
ANTONIO PRATA

2014: noves fora, sete

Logo depois da tragédia foi aquele Deus nos acuda. Parecia que ia cair o presidente da CBF, a presidente da república, iam cancelar o Domingão do Faustão, mudar o carnaval pra agosto e transferir a capital brasileira pra Buenos Aires (ou Berlim?). Nos últimos meses, contudo, o choque foi passando e deixamos de tocar no assunto, mas tenho certeza de que lá longe, num futuro distante, quando olharmos pra trás e nos perguntarmos “E em 2014, hein?

Que que aconteceu, mesmo?”, não lembraremos da Dilma nem do Aécio, do início da abertura em Cuba ou da pá de cal no Orkut, do pouso da sonda Rosetta ou da ascensão do pau de selfie: engoliremos em seco e diremos, ainda aflitos diante da recordação; “ah, foi o ano do 7 X 1”.

Naquela terça terçã, 08 de julho, havia no Mineirão cinquenta e oito mil cento e quarenta e um torcedores – e esse um era eu. Quando saí do estádio – perplexo, atordoado –, meu telefone começou a tocar. Eram amigos, primos, tios, meu pai. Perguntavam como tinha sido a experiência, in loco, mas queriam mesmo era conferir, desconfio, se eu estava vivo. A coisa tinha sido tão absurda que não seria fora de lugar se um daqueles chutes da Alemanha, em vez de fazer o oitavo gol, houvesse me acertado a testa.

Absurdo: essa talvez seja a melhor palavra pra descrever o que se passou naquela tarde. Quando, aos 29 minutos do primeiro tempo, Khedira recebeu livre próximo à marca do pênalti e chutou no canto direito do gol brasileiro, marcando o quinto tento teutão, eu senti uma aflição profunda e não inteiramente desconhecida. Fechei os olhos, folheei mentalmente meu caderninho de angústias e descobri o que era: uma bad trip de ácido. Você sabe que está embarcando numa viagem ruim, sabe que vai piorar e sabe que não há nada que possa fazer para alterar o destino. Resta render-se aos entulhos mais fedidos do seu subconsciente e esperar que passe o efeito.

Num estádio, no entanto, não há a alternativa da rendição. Afinal, ali, cada torcedor tem a ilusão delirante de ser capaz de mudar o destino do jogo. Tudo bem, em casa você também acha que pode influenciar no resultado passando do Sportv pra ESPN e da ESPN pra Band e da Band pra Globo e da Globo pro rádio AM, trocando de cueca ou comendo amendoins com a mão esquerda, mas todo ser racional sabe que a mandinga funciona bem melhor de corpo presente do que via cabo ou satélite. E se trocássemos de lugar? E se cantássemos o hino, de novo? (Ou Aquarela do Brasil?) E se vaiássemos?

Durante os 60 lodosos minutos que se seguiram ao quinto gol, cada torcedor fez o que achou necessário, criando uma cacofonia bisonha. O Mineirão parecia um gigantesco formigueiro mijado. O equilíbrio só se restabeleceu nos últimos minutos: a torcida brasileira vaiava em uníssono, enquanto a torcida alemã cantava, a plenos pulmões: “Brasil! Brasil! Brasil!” – e tenho certeza de que eles não estavam sendo irônicos, estavam era com pena, tentando dar uma força.


Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete – e um nosso, no finalzinho, como a azeitona no dry martini (deles). Absurdo.

04 de janeiro de 2015 | N° 18032
PAULO SANT’ANA

O domínio da Terra

Sempre fui um atento leitor sobre tudo que se refere à II Guerra Mundial.

Isso encorajou-me a fazer nesta coluna um despretensioso ensaio sobre como foram possíveis o surgimento e a desenvoltura de Adolf Hitler nas rédeas alemãs.

A pergunta-chave desta questão é se Hitler, com sua índole belicista, se encorajou sozinho a arremessar a Alemanha contra o resto do mundo – ou a vocação tradicionalmente bélica alemã foi que fez surgir das entranhas da pátria nazista um movimento que pretendia conquistar o mundo pelas armas.

Ian Kershaw, sem dúvida o maior biógrafo de Hitler, em seu grosso volume de 1.077 páginas, que li por inteiro, tentou responder a essa pergunta.

Em vão. O que aquela monumental obra acabou por realizar foi semear ainda maiores dúvidas sobre essas indagações.

Muita gente não sabe que Hitler era austríaco. E o menino Adolf, filho de um funcionário público, acabou por sair da Áustria para tentar dominar o mundo, mas via Alemanha.

Como chegou até lá e o seu trágico fim o mundo inteiro o soube: suicidou-se com sua amante Eva Braun em Berlim, pondo fim assim à guerra mundial.

Mas o que me fascina e intriga na história de Hitler é se foi ele que levou a Alemanha à suprema loucura da guerra ou se foi o intrínseco genoma bélico alemão o fator decisivo para Hitler jogar a Alemanha no despenhadeiro.

Lendo a história de Hitler, quase posso afirmar que os dois fatores se combinaram: Hitler precisava de uma Alemanha industrial e bélica para desenvolver seu projeto e, por sua vez, a Alemanha tinha de ter um grande líder que a arremessasse para o sonho alemão de domínio mundial.

Foi assim que do ventre austríaco-alemão brotou o fruto podre de Hitler sem que ninguém jamais o tivesse abortado.

O fato é que sem dúvida nenhum outro homem como Hitler empreendeu tão vastamente a conquista da Terra, nem Átila, nem Gengis Khan, nem César.

Ele foi talvez o maior estrategista militar entre os terrenos. Teve o mesmo fim, talvez mais trágico, que seus antecessores na ambiciosa tarefa de conquistar a Terra com uma campanha, exceção talvez aos Estados Unidos, que dominam o planeta manejando uma simples moeda, o dólar.

MEUS LEITORES
Sobre “O céu de Punta”, publicada em 28/12/2014

Sr. Paulo Sant’Ana

Estou escrevendo esta crítica porque não concordo com o que o senhor falou de Punta del Este. Primeiro acho que as águas de Punta del Este não são nada geladas, e os turistas que mergulham lá mergulham porque gostam, eles não se importam se a água é quente, gelada ou morna. Acho que o senhor é um ignorante por ter falado que não há um negro ou negra em Punta del Este. Posso saber de onde o senhor tirou esse dado? Usualmente não leio suas críticas porque tenho 12 anos, mas, como a minha mãe ficou tão indignada, resolvi ler, e achei uma idiotice atrás da outra. Quando o senhor deixar de se trancar em um cassino e comer pêssegos doces verá que Punta del Este vai além das suas observações. Por último, sugiro-lhe visitar o Museu do Mar, que explica toda a história de Punta del Este.

RODRIGO NOCCHI GUERRA

Resposta:

Rodrigo, você tem apenas 12 anos, ainda tem muito que aprender, como eu aprendi. Mas está no rumo certo, discordando de mim. O maior negócio do mundo, atualmente, é discordar de mim.

O MELHOR DE MIM

(Pensamentos extraídos do meu arquivo de colunas:)

O tédio é irmão gêmeo da rotina. A tristeza é irmã gêmea da mesmice. Para sair deles e não se deixar arrastar para a depressão, na maioria das vezes é preciso a coragem de mudar.

A memória é que mantém o homem preso a sua vida .

É preciso provocar momentos felizes, cavoucar nas circunstâncias da gente.


A felicidade consiste na coletânea e recordação de grandes momentos, de instantes de rara alegria, de passagens de imorredouro encantamento.

04 de janeiro de 2015 | N° 18032
MOISÉS MENDES

O fim do mundo

Stephen Hawking é o personagem do filme A Teoria de Tudo, que estreia neste mês em Porto Alegre. Desde os 21 anos, o físico britânico convive com a doença degenerativa que o imobiliza. Hawking chegou aos 72 anos. Alguns médicos diziam que talvez não passasse dos 50.

Para se expressar, ele movimenta a bochecha e aciona um complexo sistema computadorizado que forma palavras. E assim Hawking circula, naquela cadeira de rodas superequipada, contrariando o que é dito sobre seu futuro.

É dele uma teoria sobre o provável fim do Universo. O mundo pode se evaporar, a qualquer momento, por causa do bóson de Higgs.

Você já ouviu falar das experiências para provar a existência da tal partícula de Deus e sabe que ela tem relação com o início da criação do Universo. Agora, Hawking nos diz que pode também vir a ter alguma culpa pelo seu fim. O Universo desapareceria num vácuo e se extinguiria como uma bolha de sabão.

O bom da teoria de Hawking é que pode não ser levada a sério, como ele mesmo não deve levar muito em conta as previsões sobre o seu próprio fim. E, se o bóson de Higgs é que acabará com o Universo, talvez isso aconteça antes do sumiço da Terra.

Vamos cuidando da nossa vidinha, do jeito que dá, sem preocupações com a sobrevivência do ambiente que nos sustenta, porque o bóson fará o serviço completo.

Não entendo nada do bóson, por mais que me esforce. Não tenho referências que me instrumentalizem a refletir sobre a partícula de Deus. Mas entendo quase tudo do que diz o economista Gesner Oliveira, especialista em recursos hídricos.

Gesner foi presidente da Sabesp, a companhia de água de São Paulo, e conhece o que acontece na região metropolitana. Li uma entrevista dele na Folha de S. Paulo. O que ele diz, para qualquer um compreender, é:

– Os hábitos brasileiros em relação à água ainda são carnavalescos.

Gasta-se água porque a água cai do céu. Em São Paulo, mesmo que não caia, continuam gastando e raspando represas para ressuscitar seus volumes mortos.

O Brasil desperdiça 37% da água tratada. Lava-se carro com água tratada. Lava-se calçada. Novas Cantareiras não aguentariam tanto desperdício. No início do segundo semestre de 2014, quando a seca piorou, a prefeitura de São Paulo constatou que a redução média no consumo era de 16%.

Nos bairros ricos, da área chamada genericamente de Jardins, o consumo caiu 7% no primeiro semestre (e esta região já consumia 39% mais do que o resto da cidade). Nos bairros pobres, a economia chegou a 20%.

Quem mais consome e mais poderia reduzir desperdício, menos economizou. Quem usa água para beber e para banhar-se sensibilizou-se com os apelos da prefeitura.

Para Gesner, os que não poupam água não se deram conta de que “acabou o mundo da fantasia”. Alguns ainda continuam achando, não só em São Paulo, mas em toda parte, inclusive aí em Dom Pedrito, em Erechim e nas cidades às margens do Rio dos Sinos, que água é um recurso sem fim.


Não entender o bóson de Higgs como ameaça real é exercer o direito à ignorância. Poluir rios e desperdiçar água tratada, depois do muito que se falou no assunto nos últimos 20 anos – e depois da seca bíblica em São Paulo –, é bem mais do que pensar só nos próprios jardins.

04 de janeiro de 2015 | N° 18032
L. F. VERISSIMO

Recenseamento

No samba do Assis Valente Recenseamento, o “agente recenseador” vai ao morro e esmiúça a vida da cantora. Quando vê a sua mão sem aliança, encara para a criança que dorme no chão e pergunta se o seu moreno é decente, do batente ou da folia. Um agente recenseador moderno esmiúça a vida dos cidadãos até um certo ponto, e é inimaginável que se meta em pormenores como o do samba. Não lhe interessa se o moreno da cidadã é decente, do batente ou da folia. Na minha opinião, talvez devesse voltar a interessar. Olha aí, IBGE.

– Notei que a senhora não usa aliança... – Não sou casada. – E essa criança?

– Tenho um moreno. – E ele é decente? – Como assim?

– É do batente ou da folia? – Precisa responder isso?

– É obrigatório. Olha aqui os espaços no questionário: “Batente” ou “Folia”. Preciso preencher um.

– Então bota aí “Batente”, mas não muito.

Entende, IBGE? “Batente” ou “Folia” representaria mais do que apenas estar empregado ou preferir a gandaia. Ser do “Batente” significaria ser um cidadão honesto, trabalhador, bom provedor da família. Em suma, decente. Já a categoria “Folia” englobaria todas as maneiras possíveis de ser o oposto de “Batente”. Folia, no caso, não seria sinônimo só de festa, de Carnaval o ano inteiro. Incluiria corrupção, pequenas e grandes falcatruas, mau caráter em geral...

Claro, “Batente” e “Folia” não seriam categorias estanques. Um cidadão pode ser do “Batente” mas estar desempregado. Ou pode estar empregado, trazendo dinheiro pra casa, ajudando a cidadã a criar as crianças, mas sendo, disfarçadamente, da “Folia” também. E muitos recenseados que se declaram decentes podem estar mentindo. Mas acho que, mesmo imperfeito, um recenseamento bisbilhoteiro como o do samba nos daria uma boa ideia do caráter da maioria do povo brasileiro. Os do “Batente” superariam os da “Folia”, longe.


Na letra do Assis Valente, a cantora diz: “Fiquei pensando e comecei a descrever tudo, tudo de valor que o meu Brasil me deu. Um céu azul, um Pão de Açúcar sem farelo, um pano verde e amarelo, tudo isso é meu. Tem feriado que pra mim vale fortuna, a Retirada da Laguna vale um cabedal. Tem Pernambuco, tem São Paulo, tem Bahia, um conjunto de harmonia que não tem rival”. Mas o samba também diz que na casa da cidadã e seu moreno “tem um pandeiro, tem cuíca e tamborim, tem reco-reco, cavaquinho e um violão”. Quer dizer, folia no bom sentido.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015


02 de janeiro de 2015 | N° 18030
ARTIGOS ZH

CARTA A JOSÉ IVO SARTORI

Prezado governador,

Há informações vitais sobre a educação no Rio Grande do Sul que são de seu interesse. O Departamento de Pesquisa do Instituto Alfa e Beto analisou os dados do Enem de 2013, que o Inep acaba de divulgar, e concluiu que o Ensino Médio é o exterminador do futuro dos jovens, se continuar a ser conduzido no formato em que está. Cabe ao senhor reverter esse quadro.

Os resultados da prova objetiva mostram que, no plano nacional, a média foi de 513 pontos, sendo 554 nas redes privadas e 479 nas redes estaduais.

No Rio Grande do Sul, esses resultados foram de 494 pontos para as escolas da rede estadual e 565 pontos para as da rede privada. O Estado ficou no honroso 2º lugar dentre as redes estaduais, mas, apesar do feito, os resultados são medíocres e a diferença entre as duas redes, gigantesca.

No Brasil, apenas 1,8% dos alunos das escolas estaduais atingiram mais de 600 pontos; esse índice foi de 42% para as escolas privadas, o que significa que são os seus alunos que ingressam nas melhores universidades.

Mudar a gestão das escolas públicas fará enorme diferença. Há algo intrinsecamente ineficiente no modo de operar dessas escolas. O Ensino Médio aí ministrado não apenas é de baixa qualidade, mas é mais ineficiente. Essa mistura explosiva contribui para aumentar a desigualdade social e retirar da juventude a perspectiva de um futuro melhor. No país, apenas 50% dos que começam o Ensino Médio chegam ao final do ciclo. No seu Estado, os números não são muito diferentes.

Se a experiência dos países desenvolvidos nos servir, a resposta é simples. É preciso melhorar o Ensino Fundamental, o ponto de partida. É vital diversificar o Ensino Médio, oferecendo cursos diferentes, de caráter profissionalizante e em escolas separadas, com essa vocação. Disso, resultarão diferentes tipos de exame, e não apenas um único Enem.

Cabe ao seu governo trazer esperança para os jovens do Rio Grande do Sul e ampliar suas chances no mercado de trabalho. O futuro está em suas mãos, governador.


Presidente do Instituto Alfa e Beto - JOÃO BATISTA ARAUJO E OLIVEIRA

02 de janeiro de 2015 | N° 18030
ARTIGOS ZH

A ESPERANÇA COMO ENERGIA PROATIVA

Vivemos em um momento curioso da história brasileira. Sentimos o perigo de andar na rua, a falta de suporte a nossa saúde pública, sentimos também o peso da corrupção, a influência do baixo PIB brasileiro... Enfim, não há quem não conheça ou até saiba discorrer horas sobre nossas mazelas. Por outro lado, sentimentos como o da esperança parecem estar com mais perigo de extinção do que o mico-leão-dourado.

Não quero falar de esperança somente por estarmos iniciando um novo ano. Não é no sentido religioso ou do que sempre espera, em que a mesma encontra sua maior importância.

Quero expressar minha vontade de que o ato de ter esperança venha a tomar nossas vidas como uma energia para as melhorias. Somente conseguimos fazer algo melhor, seja para nós mesmos ou para os outros, se acreditarmos nisso como sendo possível. Povos que prosperam, pessoas que se desenvolvem, momentos bons, sempre acontecem porque queremos que assim seja. Evidentemente que estes mesmos exemplos de povos, pessoas e momentos também podem dar “errado” mesmo com a esperança de dar certo, mas a única certeza que temos é que, sem a esperança, sequer começamos a dar chance para o sucesso acontecer.

Hoje, no Brasil, estamos convivendo com naturalidade com as más notícias. Achamos normal um escândalo atrás do outro. Resignamo-nos por índices baixos nos mais variados indicadores de prosperidade. Seguidas vezes, pensamos que não existe solução possível.

Quando deixamos a esperança capitanear nossas ações, o passado não conta mais, pois é para o futuro que estamos trabalhando. Quando olhamos para o futuro é que desejamos somente coisas boas (ou você já viu alguém sonhando com dias piores). Gostaria de propor a mudança da frase “a esperança é a última que morre” para algo mais proveitoso: a esperança tem de ser a primeira a nascer.

Foi com a esperança de que o homem conseguisse voar que foi inventado o avião. Foi com a esperança de lhe tornar uma pessoa mais feliz que seus pais lhe deram educação. É com a esperança de um Brasil melhor que devemos acordar todo dia.

Vai aí a minha dica: tenha esperança, compartilhe esperança, viva com esperança, pois assim as ações para nossos desejos terão um local mais fértil para prosperar.

Esta é a minha esperança.


Arquiteto e empresário da construção civil - DANIEL TOMBINI KASPRZAK

02 de janeiro de 2015 | N° 18030
PRÓXIMO PRATO | LUIZ AMÉRICO CAMARGO*

UM EXCELENTE 2015

FOI UMA SURPRESA. Mas 2015 revelou-se um ano e tanto, em especial na gastronomia. Basta lembrar como estavam os ânimos no já distante dezembro de 2014. Diante de perspectivas pouco animadoras da economia, de uma atitude arredia dos consumidores e de uma postura desconfiada dos empreendedores, a temporada se encerra de forma brilhante.

Vamos relembrar. A primeira boa notícia foi em relação ao vinho. A produção nacional foi corajosamente desonerada, os impostos sobre os bons rótulos importados caíram à metade e, num pacto inédito, importadoras e restaurantes reduziram drasticamente seus preços. Que alegria ver que o consumo médio no país saiu dos imutáveis 2 litros/ano por cabeça para quase 10 litros/ano.

Na alimentação doméstica, foi ótimo constatar como o arroz com feijão, as moquecas, o barreado, o arroz carreteiro e outras especialidades sobrepujaram lasanhas e empanados industriais. Nos restaurantes, a guinada foi mais notável: muita comida fresca, barata e mais comensais do nunca. Para tanto, a redução geral de preços foi essencial. O aumento da diversidade de opções, idem: de quitutes de rua e food trucks a tradições de etnias menos conhecidas, de bares gastronômicos a novas casas de alta gastronomia.

Sem falar na valorização crescente da nossa culinária no plano mundial. Até poucos anos, os estrangeiros só conheciam um ou outro chef nacional. Hoje, são mais de 30 estabelecimentos brilhando em guias e listas internacionais. O brasileiro está mais orgulhoso em cozinhar e em comer.

2016 promete, vocês não acham?

PS: Daqui a 12 meses, lembre-se do exercício de futurologia acima. Veja se o colunista delirou ou se alguma coisa, para felicidade geral, concretizou-se.


*Crítico gastronômico e autor do livro Pão Nosso

02 de janeiro de 2015 | N° 18030
MOISÉS MENDES

Capilé

Estava cruzando por uma esquina da Redação, na semana passada, quando ouvi alguém lançar a pergunta a quem estivesse na volta: por onde anda o Capilé?

Continuei andando, e a pergunta ficou por ali, juntando-se a outras que se dependuram como bicho-preguiça no teto, nas TVs, nas frestas do ar-condicionado, nas testas dos repórteres. Num fim de ano, uma Redação é o lugar das perguntas dependuradas, algumas há décadas.

Por onde anda o moço que surgiu como profeta das mídias sociais? Capilé barbarizou a internet com o Mídia Ninja, na cobertura das manifestações do inverno de 2013. Os ninjas inquietaram o jornalismo. Eram colaborativos e captavam, sem filtros, as imagens e as falas das manifestações.

O guri do Mato Grosso, articulador do Fora do Eixo, cumpriu seu tempo como celebridade midiática e sumiu. O Mídia Ninja continua aí, no site, no Facebook. E bombando.

Depois daquela pergunta sobre o Capilé, fui espiar o Mídia Ninja. Tinha uma longa reportagem do jornal inglês The Guardian sobre a cidade chinesa de Yiwu.

Yiwu produz 60% de todas as bugigangas de Natal para o mundo. Pinheiros de plástico, luzinhas piscantes, Papais Noéis, bonequinhos, bolinhas, renas, trenós.

Yiwu é o lixo do comunismo confuciano a serviço do que existe de pior do capitalismo que obtém vantagens também com as misérias mais distantes. A cidade chinesa do Natal tem 600 fábricas. Os operários trabalham 12 horas por dia em porões.

Li a reportagem e pensei nas coisas que tenho em casa, além das bolinhas de Natal. Que utilidades não vieram da China? É difícil querer discriminar mercadorias chinesas e ficar, como produto genuinamente nacional, apenas com a bomba de chimarrão de mil furos dos Vargas do Alegrete.

Mas agora me incomodam os enfeites piscantes. Como associar Natal, mesmo com todo o consumismo, ao que se passa nas fábricas chinesas?

Falo disso porque me lembrei daquela pergunta sobre o Capilé. Todos os que lidam com informação precisam ser cutucados de vez em quando por um Capilé que nos tire da sesta.


Então, decidi agora que em 2015 quero ter menos produtos chineses e mais Capilés. Tivemos as redes sociais (vivam as redes), com as vozes da diversidade do Facebook, mas faltou um Capilé em 2014. Não dá para ficar sem um Capilé.

02 de janeiro de 2015 | N° 18030
OLHAR GLOBAL | Luiz Antônio Araujo

Aquela ponte em Selma

Habitantes da cidadezinha de Selma, no Alabama, receberão um afago do estúdio Paramount na sexta-feira. Responsável pela distribuição do filme de Ava DuVernay que leva o mesmo nome do lugarejo, o gigante de Hollywood propiciará uma sessão gratuita do longa para o público local. Selma, o filme, é inspirado nas marchas pelos direitos civis protagonizadas na cidade pelo reverendo Martin Luther King Jr., que completarão 50 anos em março.

Enfrentando a polícia, a Ku Klux Klan e racistas avulsos, King e seus companheiros abriram caminho para a promulgação da Lei dos Direitos Civis pelo presidente Lyndon B. Johnson.

Selma é a primeira produção hollywoodiana a apresentar Luther King como personagem principal – até mesmo seu antípoda, o radical Malcolm X, já merecera uma cinebiografia. Mas não foi o retrato de King, vivido por David Oyelowo, que rendeu as mais pesadas críticas a Selma, e sim o de Johnson. Especialistas deploram a apresentação do presidente como signatário relutante da lei que aboliu a segregação racial e responsável pela espionagem do FBI contra o reverendo.


Na cerimônia de posse de Barack Obama, em 2009, o militante dos direitos civis John Lewis disse que o novo presidente era “o que estava do outro lado daquela ponte em Selma”, referindo-se a um sangrento episódio de março de 1965. O filme antecipa as controvérsias que certamente terão lugar no aniversário de 50 anos das marchas.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015


PAULA CESARINO COSTA

Dá para pular 2015?

RIO DE JANEIRO - O ano que demorou a começar foi embora debaixo de alta temperatura e pressão. Era um ano cercado expectativas. No final, parecia que nunca ia acabar.

Houve a Copa do Mundo. O clima era de pessimismo quando se tratava da organização e de otimismo em relação à seleção brasileira. O fracasso limitou-se ao time em campo. Foi uma invasão de todas as línguas e cores, bonita e emocionante. A Copa em si teve bom futebol e muitos gols. Escancarou os erros brasileiros. A goleada de 7 a 1 imposta pela Alemanha obrigava à modernização de técnicos e dirigentes, mas o que se viu foi o retorno de Dunga.

Houve eleição. No ano seguinte às manifestações que pareciam ter oxigenado o país, acreditava-se na reafirmação da democracia e em renovação política. Mas a sétima eleição presidencial desde a redemocratização terminou com invocação da ditadura. E um deprimente novo ministério feito à base do velho loteamento.

Em 2014, estourou a investigação da Lava Jato. Depois de décadas de corrupção, poderosas empreiteiras devem ser punidas. O que sairá daí assusta e anima ao mesmo tempo.

A Petrobras, tida como orgulho nacional, revelou-se a casa da mãe joana, onde tudo pode desde que respeitadas certas regras de conchavo. Delações expuseram irregularidades comentadas há muito tempo à boca pequena. Paulo Francis tinha razão: as contas no exterior com dinheiro de corrupção não eram miragens. A gigantesca empresa saiu de 2014 menor do que entrou. Se a economia não foi bem, vai ficar muito pior.

A sensação térmica de 50 graus no Rio parece sinal do que se avizinha. O governador afia as tesouras para cortar investimentos, a política de segurança tropeça em velhos problemas, as tarifas de transporte viram o ano muito mais altas.

O ano que acabou de começar tem tudo para ser mais difícil do que o que passou. Não dá para pular 2015?


BERNARDO MELLO FRANCO

Feliz ano velho

BRASÍLIA - O que esperar de um governo novo que já nasce velho? A pergunta ronda toda reeleição, mas promete ser ainda mais implacável com Dilma Rousseff. A presidente começa hoje o segundo mandato em clima de ressaca, com a economia estagnada e sua base política enredada no escândalo da Petrobras. Nem os áulicos mais otimistas conseguem prever tempos melhores em 2015.

Há quatro anos, Dilma subiu a rampa do Planalto embalada por uma votação consagradora. O país crescia em ritmo chinês e fazia história ao escolher a primeira mulher para governá-lo. Agora a presidente não é mais novidade, e a vitória apertada nas urnas indica que seus créditos podem se esgotar rápido.

Ao discursar em sua segunda posse, em 1999, Fernando Henrique Cardoso afirmou que não havia sido eleito para ser o "gerente da crise". A ficção do real forte se desfez em apenas duas semanas, e o tucano foi perseguido pela impopularidade até entregar a faixa a Lula.

E Dilma, o que dirá hoje? Ressuscitará o "pacto contra a corrupção", depois de convidar o filho de Jader Barbalho para a Esplanada? Prometerá a reforma política, embora não tenha força nem para evitar que um desafeto assuma a presidência da Câmara? Acenará com a retomada do crescimento, enquanto sua equipe prepara novos cortes para fechar o rombo nas contas públicas?


O Ano-Novo virá repleto de armadilhas, do reajuste nas tarifas de ônibus, que pode reacender a chama dos protestos de rua, à denúncia dos políticos envolvidos no petrolão. Além de enfrentar as tormentas, a presidente terá que manter o apoio dos 51,6% que votaram nela. Para quem acreditou na promessa de "governo novo e ideias novas", nada poderia ser mais frustrante que o ministério que toma posse hoje. A decepção tende a se agravar quando a turma der razão à máxima do Barão de Itararé: "De onde menos se espera, daí é que não sai nada".

rogério gentile
01/01/2015  02h00

Indicação de ministro foi tramada na prisão

SÃO PAULO - O segundo mandato de Dilma começa hoje com um fato bastante inusitado, mesmo para um país que coleciona episódios surpreendentes como o Brasil. Após a posse, a presidente assinará a nomeação de um ministro cuja indicação foi tramada meses atrás, ainda na campanha, numa penitenciária.

Novo titular dos Transportes, pasta com um orçamento na casa dos R$ 20 bilhões, Antonio Carlos Rodrigues (PR-SP), o Carlinhos, chega ao cargo por vontade do mensaleiro Valdemar Costa Neto, o Boy, que até pouco tempo atrás dormia no Centro de Progressão Penitenciária de Brasília –em novembro, o ex-deputado ganhou o direito de cumprir em casa o resto de sua pena.

Descontente com a atuação de César Borges, então ministro, Valdemar pressionou a presidente, por meio de sua bancada na Câmara, a trocá-lo por Carlinhos ou pelo deputado Edson Giroto (PR-MS). Como Dilma recusou, ele articulou a divulgação de um manifesto público do partido pedindo o "Volta, Lula". O texto dizia que "o momento de crise reivindica (...) o brilho de Lula no comando da nação".

Dilma não apenas continuou a bater o pé como passou a chamar Borges publicamente de o "melhor ministro dos Transportes". O PR, então, começou a negociar o apoio à candidatura de Aécio. No dia 24 de junho, Carlinhos declarou que Borges não representava o partido, do qual é secretário-geral. Dilma capitulou e, no dia seguinte, demitiu "o melhor ministro", com o compromisso de nomear no segundo mandato o apadrinhado de Valdemar.


O novo ministro, que entrou na política pelo malufismo e se diz "temperamental" ("Não é fácil trabalhar comigo"), já defendeu o nepotismo ("Contrataria meus três filhos se eles não estivessem bem empregados"). Carlinhos costuma citar as lições que aprendeu com o avô: "Ele sempre dizia: 'A oportunidade é careca, a gente tem de agarrar com as duas mãos [senão escorrega]'". Dilma que se cuide.

kenneth maxwell
01/01/2015  02h00

A caixa de entrada de Dilma

Dilma Rousseff toma posse hoje em seu segundo mandato. O dia deveria ser de comemoração. Ser a primeira mulher eleita –duas vezes– para o mais alto cargo brasileiro é uma façanha notável.

Ela conseguiu grandes realizações em seus primeiros quatro anos, especialmente ao sustentar e ampliar os programas sociais e reduzir a pobreza. A vitória apertada que lhe deu o segundo mandato foi conquistada com base nessas realizações. As atenções vêm se concentrando na formação de seu novo governo, mas existem nuvens ameaçadoras se formando no horizonte.

A caixa de entrada da presidente Dilma está repleta de problemas urgentes, mas não está em seu poder controlar os principais desafios que enfrenta. Tampouco está em poder da classe política brasileira. Nem a presidente nem os demais políticos são capazes de acobertar as consequências dos escândalos de corrupção e propinas que batem à porta do governo, dos políticos e dos facilitadores com quem eles se relacionam.

Por que isso ocorre? Porque os escândalos de corrupção são bipartidários e internacionais em suas ramificações. A Polícia Federal vem investigando o cartel que, entre 1988 e 2008, superfaturou fraudulentamente a construção do Metrô de São Paulo. No período, o Estado foi governado por Mário Covas, José Serra e Geraldo Alckmin, todos do PSDB.

Os contratos em questão envolviam grandes empresas estrangeiras, entre elas a alemã Siemens, a francesa Alstom, Bombardier, do Canadá, e Mitsui, do Japão. O pagamento de comissões indevidas foi revelado quando a Siemens admitiu que o cartel havia imposto um sobrepreço de 20% ante o valor cobrado no mercado.

O escândalo da Petrobras é ainda maior em suas ramificações nacionais e internacionais. As propinas supostamente envolvem cerca de 50 políticos. Os promotores públicos brasileiros podem indiciar os envolvidos em breve.

Uma vez mais as dimensões internacionais do escândalo escapam ao sistema político e legal do Brasil. As ações da Petrobras no exterior, bem como as de seus diretores e dos políticos que supervisionam a empresa, estão também sujeitas a leis, regulamentos, processos por prejuízos fraudulentos e a leis estrangeiras de combate à corrupção.

E quanto a Dilma? Uma coisa que pode ser dita com certeza é que ela é notória pela atenção aos detalhes. Ela foi presidente do conselho da Petrobras por uma década. Foi ministra das Minas e Energia. Foi presidente da República nos quatro últimos anos.


Ou ela não sabia o que estava acontecendo sob sua responsabilidade, o que a torna incompetente, ou sabia –o que a torna culpada. É muito difícil extrair qualquer outra conclusão.