quarta-feira, 15 de julho de 2026


15 de Julho de 2026
MÁRIO CORSO

Metamorfose

Gregor Samsa acordou e deu-se conta que era um dia especial. Seu corpo já não era o mesmo. Olha-se no espelho e contempla maravilhado a transformação. Agora está mais completo, tem seis patas para se apoiar no chão. Sente mais estabilidade. Sente firmeza para subir pelas paredes.

A suprema felicidade é saber que tem asas. Embaixo de um estojo, que também serve de exoesqueleto, saem duas asas transparentes e funcionais. Voar torna-se uma possibilidade.

Agora possui duas magníficas antenas exploratórias, muito melhores que seu antigo tato. Seus olhos compostos enxergam tudo de outra perspectiva. Descobre como seu olfato era primitivo, tosco. Uma nova dimensão se abre, tudo exala cheiros, apenas ele não sentia.

Seu apetite mudou. Ele, que sempre foi chato para comer, agora tudo lhe parece apetitoso, surge uma volúpia por qualquer migalha. Respirando por espiráculos, nota a gambiarra do aparelho respiratório humano, servem-se do mesmo duto que usam para alimentação.

Sente a satisfação de pertencer a uma raça cascuda quase indestrutível. Que venha o apocalipse nuclear, estou preparado, pensou com satisfação.

Gregor não quer nem saber quem envernizou as baratas. Sabe que está pleno com a carapaça lustrosa da cor de conhaque. O único senão de sua potência é não se sentir à vontade na claridade e ter uma certa paranoia com chinelos.

Desse ângulo, Gregor se dá conta da aparência repugnante dos humanos: eles são como um macaco, que um demônio sádico barbeou o corpo e amputou a cauda. Sua cor é um de um branco mortiço, rosado, sem pelos. É como se viessem sem revestimento.

Como enxerga pela fresta por debaixo da porta, vê o pé da sua irmã Grete que pede para entrar. Os pés humanos são uma massa de carne disforme, com protuberâncias na frente, como salsichas mal cortadas.

Mais batidas na porta. É Grete que segue forçando entrar. Gregor sente pena por ela estar presa naquele corpo molengo e desajeitado. Mas ele está tomado pelo horror de conviver com seres nojentos. Sente arrepios só de pensar em tocar neles.

Sem mais dúvida, ele sobe pela fresta da janela, abre as asas e ganha o quintal, depois o mundo. Não olha para trás, família é coisa de vertebrado. _

MÁRIO CORSO

Nenhum comentário:

Postar um comentário