15 de Julho de 2026
OPINIÃO - Hugo Muller - Presidente do Instituto de Estudos Empresariais (IEE)
250 anos de liberdade
Um dos acontecimentos mais marcantes da história moderna, os 250 anos da Independência dos Estados Unidos foram celebrados em 4 de julho. Mais do que a emancipação de uma nação, aquele movimento consolidou ideias que moldariam os séculos seguintes: a liberdade individual, o livre mercado e a convicção de que o governo deriva sua legitimidade do povo e de seus direitos inalienáveis.
A Revolução Americana estabeleceu princípios e institucionalizou a democracia liberal. Sob sua influência, o mundo, globalizado e livre, viveu uma expansão sem precedentes. A pobreza extrema caiu drasticamente, bilhões de pessoas melhoraram suas condições de vida e a liberdade avançou em grande parte do planeta.
Mas esses princípios continuam guiando o mundo? Nos últimos anos, assistimos ao fortalecimento de movimentos que passaram a questionar valores centrais da civilização ocidental. Em nome de diferentes causas, virtudes fundamentais do mundo livre passaram a ser enfrentadas de dentro. Ao mesmo tempo, governos que surgiram para servir ao povo ganharam proporções muito maiores do que as concebidas pelos pais fundadores.
Como ensinava Newton, toda ação provoca uma reação. Potencializada pelo aumento das disputas geopolíticas e da pressão sobre controle migratório, ela veio na forma da ascensão de movimentos nacionalistas e do enfraquecimento da globalização em busca de maior autonomia estratégica. O resultado foi a volta do protecionismo e um mundo cada vez mais fragmentado.
Não precisamos escolher entre esses extremos. O desafio é preservar os princípios que produziram os maiores avanços da história: sociedades abertas, instituições sólidas, liberdade econômica e respeito aos direitos fundamentais. A democracia liberal nunca prometeu perfeição, mas criou as condições para que pessoas livres construíssem inovação e prosperidade.
A melhor homenagem aos 250 anos da Revolução Americana não está em celebrar seu passado, mas em defender, no presente, os valores que fizeram da liberdade o maior instrumento de transformação da história humana.
Depois da água, a escolha
Denise Dora - Advogada de direitos humanos, ativista feminista e conselheira diretora da Themis - Gênero, Justiça e Direitos Humanos
Há momentos em que uma cidade deixa de ser apenas um território e passa a representar uma pergunta para o seu tempo. Porto Alegre tornou-se um desses lugares. A enchente de 2024 colocou a capital gaúcha no centro da maior catástrofe climática da história do Brasil e evidenciou algo que o debate internacional já reconhece: a crise climática é, também, uma crise de direitos humanos.
Como advogada de direitos humanos e organizadora da 1ª Semana de Ação Climática de Porto Alegre, acompanho discussões em diferentes países sobre os caminhos para enfrentar esse desafio. A pergunta já não é se precisaremos transformar nossos modelos de desenvolvimento, mas como faremos isso e quem participará dessa transformação. A resposta define o sentido da transição justa.
Os eventos extremos revelam as desigualdades que estruturam nossas sociedades. Expõem quem está mais protegido e quem permanece mais vulnerável, quem tem condições de reconstruir a vida e quem depende da capacidade coletiva de garantir direitos. Adaptar cidades, fortalecer instituições e reduzir emissões são objetivos inseparáveis da construção de sociedades mais democráticas.
É nesse contexto que a 1ª Semana de Ação Climática de Porto Alegre, iniciativa que reúne dezenas de atividades voltadas ao enfrentamento da crise climática, ganha relevância. Além de reunir governos, universidades, empresas, movimentos sociais e comunidades, afirma que a reconstrução também é um exercício de imaginação política. Uma cidade que enfrentou uma tragédia dessa dimensão pode contribuir para o debate global não apenas pelo que sofreu, mas pelo que é capaz de construir.
Porto Alegre não escolheu ocupar esse lugar, mas pode escolher o legado que deixará. Transformar a experiência da perda em compromisso público, cooperação e justiça talvez seja a contribuição mais importante que a cidade possa oferecer ao Brasil e ao mundo.
Direto da Redação - Antonio Carlos Macedo
Retrocesso contra as mulheres
Durante séculos, as mulheres precisaram pedir licença para existir na vida pública. O direito de votar, que hoje parece um princípio elementar da democracia, foi conquistado à custa de muita luta. A Nova Zelândia abriu o caminho em 1893. Os Estados Unidos só garantiram o voto feminino em 1920. No Reino Unido, as sufragistas enfrentaram décadas de resistência até conquistar a prerrogativa de forma plena em 1928. No Brasil, a Constituição de 1934 consolidou a participação política das mulheres, ainda de forma facultativa. A obrigatoriedade exigida dos homens só chegaria em 1965.
Em todos os casos, foi uma vitória arrancada daqueles que insistiam em tratar metade da população como incapaz de pensar, decidir ou participar dos rumos da própria vida. Por isso, causa espanto perceber que, em pleno século 21, surgem movimentos defendendo justamente o contrário.
Nos Estados Unidos, grupos de extrema direita ligados ao nacionalismo cristão e à chamada machosfera passaram a defender a criação do chamado "voto por lar". Na prática, cada família teria apenas um voto, exercido pelo marido. No Brasil, poucos ainda defendem abertamente a revogação do direito, mas aumentam os ataques à forma de exercê-lo. Casadas seriam apenas extensões da vontade do marido. Solteiras votariam movidas pela emoção, sem a racionalidade atribuída aos homens.
É uma tentativa de desqualificar a participação feminina sem assumir explicitamente o desejo de limitá-la. O mais preocupante é que esse discurso encontra apoio até entre mulheres, embalado por uma visão romantizada de um passado em que seu papel era ficar em casa, cuidando do bem-estar do marido e da educação dos filhos. A história mostra que nenhum direito é irreversível. Basta lembrar o Afeganistão, onde o Talibã suprimiu os direitos políticos femininos pela força.
Nas democracias ocidentais, o caminho é mais sofisticado. O ataque não vem por decretos nem por armas, mas por discursos, algoritmos e campanhas digitais que procuram transformar antigos preconceitos em ideias aceitáveis e necessárias. Assim, é preciso reafirmar que o voto feminino não é concessão, nem favor, muito menos privilégio. É um direito fundamental e inegociável. Foi-se o tempo em que metade da população era obrigada a permanecer em casa e calada. _

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