sexta-feira, 20 de março de 2026

Brasil psicanalisado por Hélio Pellegrino

A burrice do demônio

A burrice do demônio

/Divulgação/JC
Jaime Cimenti
Uma vez estava assistindo uma palestra do Sérgio Paulo Rouanet e na hora das perguntas mandei um bilhetinho perguntando o que ele achava de termos um presidente da república psicanalista. Bem-humorado e inteligente ele disse que seria uma hipótese a pensar, diante de nossas atribulações federais. Lembrei disso agora antes de falar sobre o livro ‘A burrice do demônio’ (Editora Rocco, 304 p., R$ 89,90) do saudoso psicanalista, psiquiatra,  escritor, poeta e ativista político mineiro  ‘Hélio Pellegrino’, que fez parte do glorioso  grupo “Os quatro mineiros”, com Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Otto Lara Resende.
Fora de catálogo há quase 30 anos, Pellegrino nesta obra reuniu 59 artigos que foram publicados em jornais como ‘Folha de São Paulo’ e ‘Jornal do Brasil’, entre 1982 e 1988. Apesar do tempo, os textos de Hélio, que ouvia o Brasil falando em seu divã, estão tristemente atuais. A história de nosso presente insiste em  se repetir  como tragédia e  farsa,como disse o Karl Marx.
Temas como a necessidade da preservação da memória, busca pela verdade do tempo da ditadura, teologia da libertação, marxismo,  censura, tortura e outros como as esperanças na Nova República  estão nos textos literários e complexos de Pellegrino, que, profeticamente, escreveu: “No Congresso Constituinte, o Centrão resguarda – e salvaguarda – a adiposidade dos ricos, enquanto a Doutrina de Segurança Nacional continua impávida.” Os que Pellegrino via como “afirmação de força e esperança” atualmente são os donos do poder.
Lançamentos
Manazuru’ (Estação Liberdade, 240 p., R$ 76,00) romance psicológico  de Hiromi Kawakami, multipremiada escritora japonesa, traz Kei, mulher de meia idade que  mora em Tóquio com a filha e a mãe. Há anos carrega um trauma causado pelo sumiço inexplicável do marido.  Num momento de escape ela embarca num trem e acaba descendo por acaso em Manazuru, cidade costeira, onde muita coisa vai acontecer.
‘Mata adentro: Dominique Jardy – Natureza e Arte’ (Andrea Jakobsson Estudio, 216 p., R$ 200,00) texto de Lorelai Kury, fotografias de Jaime Acioli traz o trabalho da pintora muralista francesa radicada no Rio de Janeiro e internacionalmente conhecida por retratar animais e plantas com sensibilidade,talento e cores vivas. Lançamento 24 de março, 19h, Gobbi Novelle, Quintino Bocaiuva, 890.
Liderança que inspira resultados’ (Literare Books, 176 p., R$ 54,00) de Claiton Olog Fernandez,  experiente executivo, palestrante e ex-secretário municipal da Fazenda e da Administração, traz a arte de conectar mentes para alcançar propósitos em comum. Autoconhecimento, prática e transformação mostram que qualquer pessoa pode se tornar um líder.
E palavras
     É possível unir o Brasil?
Nas últimas décadas, nas eleições presidenciais,  em torno de um terço dos brasileiros votou na esquerda, outro terço na direita e aproximadamente um terço não foi votar, anulou o voto ou votou em branco. Sempre tivemos certa polarização, mas nos últimos anos ela se acirrou, em virtude principalmente do crescimento das comunicações nos  meios eletrônicos e do fato de planos  econômicos , sociais e políticos terem dado lugar a ataques pessoais, fake news, narrativas e outras coisas que atrasam a transformação desse país Brasil numa verdadeira nação. A maior parte dos brasileiros parece acreditar que a polarização vai seguir firme e forte, com todas as mazelas possíveis e imagináveis e com todos os danos que ela causa. Mas como nesse país até o passado é imprevisível, não dá para duvidar de nada.
     É possível unir o Brasil ? (Editora Planeta , 144 p., R$ 52,00) de Helder Maldonado , jornalista, escritor e fundador do canal Galãs Feios no YouTube e autor do livro ‘Amanhã vai ser pior’ sobre os primeiros anos do bolsonarismo no poder, trata, como ele diz no subtítulo, do sonho improvável de um Brasil sem treta no grupo da família. O livro tem prefácio de Deusdete Negarestani, pseudônimo do filósofo Anderson Cleiton Fernandes Leite, que colabora com o canal  Galãs Feios.
     Helder mergulha nas fraturas históricas e culturais de um país que, há muito, deixou de acreditar no mito do “brasileiro cordial”. Com linguagem altamente irônica e com lucidez escancarada  e debochada o autor desmonta a fantasia de uma nação alegre e harmoniosa , uma herança ideológica que vai de Gilberto Freyre à Rede Globo. Helder revela o que sempre sustentou o Brasil real: um projeto de dominação interna que transformou indígenas, negros, pobres e nordestinos nos próprios “inimigos nacionais”.      Do declínio do futebol como símbolo de unidade à fragmentação cultural da era digital, Maldonado mostra como a promessa de um “país de todos” se esfarela diante da desigualdade , do ressentimento e da nostalgia de um passado que nunca existiu. Tirando o deboche e o desalento, o autor apresenta também um gesto de afeto: o reconhecimento de que, mesmo entre ruínas, o Brasil ainda pulsa contraditório vibrante e impossível de resumir. É por aí mesmo.Gostar do Brasil  é mais fácil do que tentar entendê-lo. Como dizia o saudoso Tom Jobim, o Brasil não é para amadores.
     A obra mescla bem ensaio, crônica e sátira política e reflete com contundência sobre o que significa, hoje, ser brasileiro. Ao fim e ao cabo, o livro se perguntas se há algo capaz de nos unir além da própria desilusão.
     No prefácio Deusdete escreveu: “Quando Lula subiu a rampa em 2003 ao som de Villa-Lobos, confesso que me emocionei. Não pela derrota do fascismo ou pela teatralização do lema ‘Brasil: um país de todos’, mas pela civilização que a gente poderia ter sido e não foi – e que duvido que seremos”. 
   A propósito
Helder Maldonado nas páginas finais deste livro que  faz acreditar e desacreditar no Brasil, diz, com alguma esperança: “Sem uma resposta institucional organizada, em sintonia com a coletividade e a sociedade, não manteremos o Brasil sequer funcional, imagine unido.” É verdade. Nossas instituições precisam  ouvir as vozes das ruas e funcionarem devidamente, na forma da lei, exercendo poderes independentes e harmônicos,  legislando, executando e julgando, cada macaco no seu galho, como manda o livrinho, a Constituição Federal, lembram dela? E que Deus, Nossa Senhora Aparecida e todos os santos nos ajudem, que parece que estávamos melhor quando estávamos péssimos, como dizem os serenos italianos.
  (Jaime  Cimenti).

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