Porto Alegre 254 anos: entre Angola e a Capital, a vida que Kanhanga construiu
Gabriel Margonar
Na semana em que Porto Alegre completa 254 anos, o Jornal do Comércio volta o olhar para quem ajuda a construir a cidade sem ter nascido nela. Vindos de outros países, estados e municípios, esses personagens encontraram na Capital um lugar de recomeço, trabalho, afeto e pertencimento. Ao contar suas trajetórias, a série também revela uma Porto Alegre múltipla, atravessada por encontros, contrastes e transformações vistas por quem aprendeu, aos poucos, a chamá-la de casa. No cenário econômico, até dezembro de 2025, 4.717 imigrantes ocupavam vagas formais de trabalho em Porto Alegre, ou seja, 9% do total de imigrantes empregados no Rio Grande do Sul. A Capital fica atrás apenas de Caxias do Sul, na Serra Gaúcha.
Quando deixou Angola, em 2005, Geraldino Canhanga do Carmo da Silva carregava um plano simples, embora exigente: estudar, se formar e voltar. A passagem por Porto Alegre, viabilizada por uma bolsa de estudos no Centro Universitário Metodista (IPA), parecia ter data para terminar. Tinha pouco mais de 20 anos e uma rota (intercontinental) traçada com clareza.
Duas décadas depois, aos 43, o retorno está longe de ser prioridade. A cidade que era destino provisório se transformou no lugar onde ele construiu quase toda a vida adulta. “Eu cheguei aqui com 20 para 21 anos. Hoje tenho 43. Então, praticamente me formei como homem aqui", conta.
O plano não foi abandonado - foi ampliado. Antes mesmo de sair de Angola, Kanhanga já estava ligado à cultura hip-hop. O curso de Administração era parte do caminho, mas não o único. Ao concluir a graduação, decidiu permanecer e investir no que, até então, era sonho. “Eu já vinha da cultura do rap e tinha o desejo de lançar um disco. Quando terminei a faculdade, decidi seguir isso aqui mesmo em Porto Alegre”, recorda.
A escolha abriu um percurso que extrapolou a música. Ao longo dos anos, ele passou a atuar como escritor, palestrante, mentor e produtor cultural. O nome artístico, Kanhanga, deixou de ser apenas assinatura para se tornar síntese de identidade - construída entre as referências de origem e as experiências vividas na Capital.
Hoje, é uma das vozes mais ativas na pauta migrante no Estado. Está à frente da Casa dos Imigrantes e Refugiados, espaço que acolhe pessoas de diferentes nacionalidades. O protagonismo, no entanto, não foi planejado. Surgiu de uma urgência concreta, escancarada durante a pandemia.
“Começaram a chegar muitos casos de imigrantes em situação de vulnerabilidade. Pessoas que tinham recém-chegado, não falavam a língua, não tinham trabalho, nem rede de apoio.” Diante da demanda crescente, ele e outros voluntários organizaram, em 2020, uma campanha que arrecadou cerca de R$ 11 mil para a compra de alimentos, itens de higiene e máscaras.
O que começou como resposta emergencial ganhou forma. Primeiro, dentro da Associação dos Angolanos. Depois, com a criação da Casa dos Imigrantes e Refugiados, que ampliou o atendimento para além de uma comunidade específica. “No início eram poucos casos, mas foi crescendo. A gente precisou estruturar para dar conta”, lembra.
Início restrito e inserção através do esporte
A trajetória, hoje consolidada, contrasta com um início marcado por limites. Nos primeiros anos, Porto Alegre se restringia quase inteiramente ao campus universitário. Ele chegou acompanhado de cerca de 15 angolanos e viveu por quatro anos em uma república, dividindo o espaço com estudantes de países como Moçambique, Haiti, Portugal e Timor-Leste.
Era uma convivência intensa - e, ao mesmo tempo, fechada. “A gente vivia praticamente dentro do campus. Tinha tudo ali. Quase não saíamos.” A cidade, naquele momento, era mais CEP do que experiência.
Já os primeiros estranhamentos vieram nos detalhes. O frio do inverno foi o impacto imediato. Depois, a linguagem. “Embora eu já falasse português, as gírias eram diferentes. Demorou um pouco para entender tudo.” Em uma Porto Alegre ainda menos diversa, a adaptação dependia, sobretudo, de iniciativa individual.
E, com o tempo, a cidade começou a fazer sentido fora da universidade. Nesse processo, o basquete teve papel central. Foi ele que levou Kanhanga até a Redenção - espaço que se tornaria ponto de encontro, convivência e pertencimento. “Eu passava horas ali, principalmente no verão. O esporte ajudou muito na minha inserção.”
Vieram, depois, os eventos culturais, o contato com outros artistas, a experiência de morar no Centro, na rua Riachuelo. A partir daí, Porto Alegre deixou de ser fragmento e passou a ser território. “Cada bairro parece uma cidade diferente. Isso sempre me chamou atenção.”
Por fim, a adaptação ainda passou por hábitos cotidianos. Em Angola, o peixe era presença constante. Em Porto Alegre, o churrasco ganhou espaço. “Hoje eu gosto muito de carne. Acabei me adaptando, virou meu prato preferido”.
Crescimento imobiliário, diversidade e cultura
Ao longo de 20 anos, o angolano acompanhou transformações visíveis e silenciosas. O crescimento imobiliário é uma delas. Mas nem sempre, observa, acompanhado por avanços equivalentes em outras áreas. “A gente vê muitos prédios sendo construídos. Mas nem sempre isso vem junto com o aumento de espaços educativos.”
Há, por outro lado, mudanças que ele identifica como conquistas. A diversidade é a principal. “Hoje há muito mais imigrantes e uma presença maior da população negra, inclusive nas universidades.” A transformação, para ele, também passa pela estética e pela ocupação de espaços. “Antes era raro ver cabelo afro com naturalidade. Hoje isso mudou.”
Essa leitura dialoga com a própria trajetória. Ao perceber o orgulho do gaúcho pela sua cultura - algo que o impactou logo nas primeiras semanas, ao conhecer o Acampamento Farroupilha - Kanhanga passou a olhar com mais atenção para as próprias origens.
“Aquilo me chamou muito a atenção. Um orgulho muito forte da própria cultura. Eu percebi que também precisava valorizar mais a minha identidade”, relembra. O nome Kanhanga ganhou, nesse processo, ainda mais peso.
Uma cidade imperfeita que virou lar
Porém, a cidade que acolheu também expôs contradições. Ao longo dos anos, ele enfrentou situações de racismo. “Já vivi isso, sim. Existe.” Não se alonga no tema, mas não o ignora: “Eu procuro focar nas pessoas boas, que também são muitas”, afirma.
Quando fala sobre serviços públicos, a análise é atravessada pela comparação com a realidade de origem. “Para quem vem de onde a gente veio, ter acesso à saúde, educação e serviços já é muito”. Ele cita a própria experiência: filhas nascidas em hospital público, atendimento em posto de saúde, acesso à escola. “Nunca tive dificuldade. O SUS, para mim, é um grande modelo.”
Porto Alegre também é, hoje, lugar de família. Duas de suas filhas nasceram na cidade, e os espaços ganharam novas camadas de significado. A Redenção deixou de ser apenas ponto de encontro e passou a ser cenário de rotina com as crianças. A Usina do Gasômetro se consolidou como marco afetivo e profissional. “Tenho uma história muito forte ali. Fiz eventos, apresentações, gravei clipes. É o meu lugar preferido na cidade”
Há ainda outros territórios de pertencimento. Comunidades onde vivem imigrantes, como no Sarandi, e o Quilombo da Família Silva, onde experimentou uma sensação mais profunda de acolhimento. “Foi um dos primeiros lugares onde me senti em casa.” Kanhanga também observa com carinho a área de inovação, principalmente através de espaços como o Tecnopuc e o Instituto Caldeira.
Torcedor do Grêmio, ele já teve uma relação mais próxima com o futebol. Durante alguns anos, produziu conteúdo no YouTube com o canal Kanhanga SportRap, dedicado a raps sobre jogadores. O canal, hoje sem atualizações, ainda reúne quase 500 mil seguidores.
Nos últimos anos, o foco se voltou aos livros e às palestras. Em Seja Incrível, seu primeiro livro, parte da própria trajetória para discutir desenvolvimento humano e protagonismo juvenil. “Eu falo de experiências pessoais, de perdas, de traumas, e das ferramentas que usei para superar.”
Sobre o futuro, ele não descarta voltar a Angola, mas entende que ainda não é o momento. “Eu sinto que estou começando a colher agora. Ainda tenho muita coisa para construir aqui”, finaliza.
Perfil:
Nome: Geraldino Canhanga do Carmo da Silva
Local de origem: Angola
Ano que chegou: 2005
Local preferido na cidade: Usina do Gasômetro
Comida preferida: churrasco
Cena cultural preferida: hip hop
Clube da Capital: Grêmio


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