terça-feira, 24 de março de 2026

 Porto Alegre 254 anos: entre Angola e a Capital, a vida que Kanhanga construiu

Usina do Gasômetro é o lugar preferido do imigrante angolano em Porto Alegre

Usina do Gasômetro é o lugar preferido do imigrante angolano em Porto Alegre

EVANDRO OLIVEIRA/JC
Gabriel Margonar
Gabriel Margonar
Na semana em que Porto Alegre completa 254 anos, o Jornal do Comércio volta o olhar para quem ajuda a construir a cidade sem ter nascido nela. Vindos de outros países, estados e municípios, esses personagens encontraram na Capital um lugar de recomeço, trabalho, afeto e pertencimento. Ao contar suas trajetórias, a série também revela uma Porto Alegre múltipla, atravessada por encontros, contrastes e transformações vistas por quem aprendeu, aos poucos, a chamá-la de casa. No cenário econômico, até dezembro de 2025, 4.717 imigrantes ocupavam vagas formais de trabalho em Porto Alegre, ou seja, 9% do total de imigrantes empregados no Rio Grande do Sul. A Capital fica atrás apenas de Caxias do Sul, na Serra Gaúcha.
Quando deixou Angola, em 2005, Geraldino Canhanga do Carmo da Silva carregava um plano simples, embora exigente: estudar, se formar e voltar. A passagem por Porto Alegre, viabilizada por uma bolsa de estudos no Centro Universitário Metodista (IPA), parecia ter data para terminar. Tinha pouco mais de 20 anos e uma rota (intercontinental) traçada com clareza.
Duas décadas depois, aos 43, o retorno está longe de ser prioridade. A cidade que era destino provisório se transformou no lugar onde ele construiu quase toda a vida adulta. “Eu cheguei aqui com 20 para 21 anos. Hoje tenho 43. Então, praticamente me formei como homem aqui", conta.
plano não foi abandonado - foi ampliado. Antes mesmo de sair de Angola, Kanhanga já estava ligado à cultura hip-hop. O curso de Administração era parte do caminho, mas não o único. Ao concluir a graduação, decidiu permanecer e investir no que, até então, era sonho. “Eu já vinha da cultura do rap e tinha o desejo de lançar um disco. Quando terminei a faculdade, decidi seguir isso aqui mesmo em Porto Alegre”, recorda.
escolha abriu um percurso que extrapolou a música. Ao longo dos anos, ele passou a atuar como escritor, palestrante, mentor e produtor cultural. O nome artístico, Kanhanga, deixou de ser apenas assinatura para se tornar síntese de identidade - construída entre as referências de origem e as experiências vividas na Capital.
Hoje, é uma das vozes mais ativas na pauta migrante no Estado. Está à frente da Casa dos Imigrantes e Refugiados, espaço que acolhe pessoas de diferentes nacionalidades. O protagonismo, no entanto, não foi planejado. Surgiu de uma urgência concreta, escancarada durante a pandemia.
“Começaram a chegar muitos casos de imigrantes em situação de vulnerabilidade. Pessoas que tinham recém-chegado, não falavam a língua, não tinham trabalho, nem rede de apoio.” Diante da demanda crescente, ele e outros voluntários organizaram, em 2020, uma campanha que arrecadou cerca de R$ 11 mil para a compra de alimentos, itens de higiene e máscaras.
O que começou como resposta emergencial ganhou forma. Primeiro, dentro da Associação dos Angolanos. Depois, com a criação da Casa dos Imigrantes e Refugiados, que ampliou o atendimento para além de uma comunidade específica. “No início eram poucos casos, mas foi crescendo. A gente precisou estruturar para dar conta”, lembra.

Início restrito e inserção através do esporte

trajetória, hoje consolidada, contrasta com um início marcado por limites. Nos primeiros anos, Porto Alegre se restringia quase inteiramente ao campus universitário. Ele chegou acompanhado de cerca de 15 angolanos e viveu por quatro anos em uma república, dividindo o espaço com estudantes de países como Moçambique, Haiti, Portugal e Timor-Leste.
Era uma convivência intensa - e, ao mesmo tempo, fechada. “A gente vivia praticamente dentro do campus. Tinha tudo ali. Quase não saíamos.” A cidade, naquele momento, era mais CEP do que experiência.
Já os primeiros estranhamentos vieram nos detalhes. O frio do inverno foi o impacto imediato. Depois, a linguagem. “Embora eu já falasse português, as gírias eram diferentes. Demorou um pouco para entender tudo.” Em uma Porto Alegre ainda menos diversa, a adaptação dependia, sobretudo, de iniciativa individual.
E, com o tempo, a cidade começou a fazer sentido fora da universidade. Nesse processo, o basquete teve papel central. Foi ele que levou Kanhanga até a Redenção - espaço que se tornaria ponto de encontro, convivência e pertencimento. “Eu passava horas ali, principalmente no verão. O esporte ajudou muito na minha inserção.”
Vieram, depois, os eventos culturais, o contato com outros artistas, a experiência de morar no Centro, na rua Riachuelo. A partir daí, Porto Alegre deixou de ser fragmento e passou a ser território. “Cada bairro parece uma cidade diferente. Isso sempre me chamou atenção.”
Por fim, a adaptação ainda passou por hábitos cotidianos. Em Angola, o peixe era presença constante. Em Porto Alegre, o churrasco ganhou espaço. “Hoje eu gosto muito de carne. Acabei me adaptando, virou meu prato preferido”.

Crescimento imobiliário, diversidade e cultura

Ao longo de 20 anos, o angolano acompanhou transformações visíveis e silenciosas. O crescimento imobiliário é uma delas. Mas nem sempre, observa, acompanhado por avanços equivalentes em outras áreas. “A gente vê muitos prédios sendo construídos. Mas nem sempre isso vem junto com o aumento de espaços educativos.”
Há, por outro lado, mudanças que ele identifica como conquistas. A diversidade é a principal. “Hoje há muito mais imigrantes e uma presença maior da população negra, inclusive nas universidades.” A transformação, para ele, também passa pela estética e pela ocupação de espaços. “Antes era raro ver cabelo afro com naturalidade. Hoje isso mudou.”
Essa leitura dialoga com a própria trajetória. Ao perceber o orgulho do gaúcho pela sua cultura - algo que o impactou logo nas primeiras semanas, ao conhecer o Acampamento Farroupilha - Kanhanga passou a olhar com mais atenção para as próprias origens.
“Aquilo me chamou muito a atenção. Um orgulho muito forte da própria cultura. Eu percebi que também precisava valorizar mais a minha identidade”, relembra. O nome Kanhanga ganhou, nesse processo, ainda mais peso.

Uma cidade imperfeita que virou lar

Porém, a cidade que acolheu também expôs contradições. Ao longo dos anos, ele enfrentou situações de racismo. “Já vivi isso, sim. Existe.” Não se alonga no tema, mas não o ignora: “Eu procuro focar nas pessoas boas, que também são muitas”, afirma.
Quando fala sobre serviços públicos, a análise é atravessada pela comparação com a realidade de origem. “Para quem vem de onde a gente veio, ter acesso à saúde, educação e serviços já é muito”. Ele cita a própria experiência: filhas nascidas em hospital público, atendimento em posto de saúde, acesso à escola. “Nunca tive dificuldade. O SUS, para mim, é um grande modelo.”
Porto Alegre também é, hoje, lugar de família. Duas de suas filhas nasceram na cidade, e os espaços ganharam novas camadas de significado. A Redenção deixou de ser apenas ponto de encontro e passou a ser cenário de rotina com as crianças. A Usina do Gasômetro se consolidou como marco afetivo e profissional. “Tenho uma história muito forte ali. Fiz eventos, apresentações, gravei clipes. É o meu lugar preferido na cidade”
Há ainda outros territórios de pertencimento. Comunidades onde vivem imigrantes, como no Sarandi, e o Quilombo da Família Silva, onde experimentou uma sensação mais profunda de acolhimento. “Foi um dos primeiros lugares onde me senti em casa.” Kanhanga também observa com carinho a área de inovação, principalmente através de espaços como o Tecnopuc e o Instituto Caldeira.
Torcedor do Grêmio, ele já teve uma relação mais próxima com o futebol. Durante alguns anos, produziu conteúdo no YouTube com o canal Kanhanga SportRap, dedicado a raps sobre jogadores. O canal, hoje sem atualizações, ainda reúne quase 500 mil seguidores.
Nos últimos anos, o foco se voltou aos livros e às palestras. Em Seja Incrível, seu primeiro livro, parte da própria trajetória para discutir desenvolvimento humano e protagonismo juvenil. “Eu falo de experiências pessoais, de perdas, de traumas, e das ferramentas que usei para superar.”
Sobre o futuro, ele não descarta voltar a Angola, mas entende que ainda não é o momento. “Eu sinto que estou começando a colher agora. Ainda tenho muita coisa para construir aqui”, finaliza.

Perfil:

Nome: Geraldino Canhanga do Carmo da Silva
Local de origem: Angola
Ano que chegou: 2005
Local preferido na cidade: Usina do Gasômetro
Comida preferida: churrasco
Cena cultural preferida: hip hop
Clube da Capital: Grêmio

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