domingo, 23 de agosto de 2026

Fábula cômica e perturbadora

o seculo dos imbecis

o seculo dos imbecis

EDITORA GLOBO/DIVULGAÇÃO/JC

Jaime Cimenti

Vivemos em meio a toneladas de informação e, ao mesmo tempo, envoltos em pouco conhecimento e sabedoria verdadeiros. Umberto Eco disse que as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis, que antes falavam bobagens e superficialidades apenas nas mesas dos bares, depois que a bebida tinha destravado suas línguas.


O século dos imbecis (Biblioteca Azul - Editora Globo, 344 pág, R$ 61,00), romance mais recente de Valter Hugo Mãe, premiado e consagrado escritor, artista plástico, apresentador de televisão e cantor angolano, construiu uma fábula tão divertida quanto inquietante sobre essas e outras questões essenciais do mundo contemporâneo.


No alto das montanhas de um local fictício, num tempo indefinido, num palacete vive Agilulfo, o excêntrico Marquês da Malandrinha, inicialmente solteiro e depois em companhia de sua companheira, a Marquesa. Com a prosa lírica e singular que o caracteriza, o autor, que já publicou vinte e cinco livros, mescla com habilidade realismo mágico, humor afiado e reflexão filosófica para contar que o Marquês, sempre que sobe mais as montanhas se torna mais lúcido e brilhante. Quando desce e se aproxima do vilarejo e do mar, Agilulfo emburrece.


O Marquês desperta paixões, ressentimentos e ambições. Ao seu redor vai se desenrolando uma trama de luxúria, inveja, vergonha, ganância, empatia, solidariedade e estupidez. Tudo demasiadamente humano. A narrativa ataca o passado dos detentores do poder, faz crítica ao fascínio coletivo pela ignorância, ao modo como a burrice virou espetáculo com plateia e reflete sobre pessimismo, Deus e os emigrantes, por exemplo.


Os personagens de nomes esquisitos como Paciasso, Martinbon, Omobon e Omobestia, são tipos que seguem por aí, entre nós, atualmente. A Marquesa apresenta contradições bem humanas e a Criada é a única que compartilha a verdadeira intimidade do casal, os silêncios, as fraquezas e os segredos da casa.

O autor mostra a decadência de uma elite sem futuro, descendente de ladrões e criminosos, que mataram, escravizaram e trouxeram ouro do Brasil, mas tudo com fina ironia, humor, hábil construção narrativa e linguagem requintada.

 

Nem vencidos, nem vencedores: utópicos

Nesses nossos tempos escalafobéticos e apocalípticos em que até os jovens, os artistas e os escritores adoram curtir uma distopia básica, falar em paz, união, utopia da boa e fim de polarizações deletérias pode parecer fora de moda, ultrapassado, inútil e dinossáurico. Sobre utopias, aliás, escreveu o passarinho imortal Mário Quintana: "Se as coisas são inatingíveis...ora! / Não há motivo para não querê-las/ Que tristes os caminhos, se não fora/ A mágica presença das estrelas."


Nosso mundo marcado por polarizações, com dezenas de guerras e milhares de conflitos e nosso Brasil atormentado pela polarização destruidora que nos assola há décadas não nos deixam espaço para muita esperança. Essas próximas eleições aí estão marcadas pelo medo, pela descrença e pelo dificílimo futuro político, financeiro, econômico e social que o próximo presidente, seja quem for, vai ter que encarar. Nas campanhas o papo repetido é de redução de gastos, desenvolvimento econômico, menos impostos, ênfase na segurança e na educação e tal. Nem adianta ligar o promessômetro, que a gente nem precisa ser vidente pra saber como será o amanhã. A gente já viu o filme.


Pois mesmo com esse planeta e esse país do que jeito que estão, temos que seguir adiante. É o que temos. O melhor caminho seria o de pensar em rumos onde não houvesse vencedores e nem vencidos após as eleições e caminhos para pacificar o globo. A inclusão de países, sociedades, grupos e pessoas numa ordem mundial mais pacífica e equilibrada seria evidentemente o melhor. O sonho é antigo, a utopia também, mas em alguns lugares como a Escandinávia, o Japão, a Austrália, Nova Zelândia e alguns outros países, há, na real, mais paz, segurança, equilíbrio social, político e econômico e o interesse coletivo está melhor cuidado, com ganhos para todos.


Pena que os "diálogos" entre os líderes das nações muitas vezes são piores do que as conversas nos banheiros dos botecos, sem querer ofender, claro, os simpáticos frequentadores dos pés-sujos, a maior parte trabalhadores, pessoas dignas de respeito e consideração, ao contrário de algumas figuras públicas que estão aí mostrando que o "sapiens" não é lá essas coisas e precisa dar um trato no lado humano e na ética.

O ser humano por vezes é demasiado humano e desde os tempos das cavernas fica cobiçando os diversos bens alheios e partindo para a briga, para tomar territórios, riquezas e para saciar a vaidade das vaidades, como nos ensinou o Rei Salomão no livro bíblico Eclesiastes, do Velho Testamento.

Como já disseram, o homem é o lobby do homem, o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente. A democracia segue como o regime menos pior e continua sendo uma construção eterna, apesar de alguns aí quererem enterrá-la para faturar mais em cima dos outros.


Esquerda e direita são conceitos e rótulos centenários que precisam de revisão e que não devem se prestar para detonar o bom interesse coletivo. Na história se sabe que se os coroados não se ligam, o povão perde a paciência e vai para cima.

 a propósito

É bom que os donos do poder, da grana, das mídias e dos campinhos espalhados pelo mundo pensem, ao menos de vez em quando ou pelo menos uma vez na vida, que caixão não tem gaveta, que no final do jogo de xadrez dos humanos os peões, as torres, os cavalos, os bispos, os reis e as rainhas vão todos para a mesma caixa. Enfim, se os "racionais" e "donos da linguagem" se tocarem, quem sabe a polarização se torne apenas uma degustação de Polar, inclusive e especialmente para os bipolares e multipolares que estão se multiplicando por aí. Paz, amor e humor para todos! Felizes, curiosos e bem-humorados são a nata da nata humana. (Jaime Cimenti)

 

lançamentos

a bíblia do burnout

a bíblia do burnout

CULTRIX/DIVULGAÇÃO/JC

A Bíblia do Burnout (Cultrix, 336 pág, R$ 59,00), de Rachel Philpotts, nutricionista inglesa especialista em saúde mental, traz uma abordagem natural com rigor científico para combater a fadiga e a sobrecarga emocional e receitas antiestresse práticas e funcionais para recuperar corpo e mente. A obra venceu o People's Book Prize e foi finalista do Business Book Awards.


Famílias empresárias brasileiras (FGV Editora, 168 pág, R$ 59), de Levindo O.C. Santos, doutor em administração pela FGV Eaesp e com quatro décadas de trabalho no mercado financeiro, traz memórias, reflexões e ensinamentos sobre legado, gestão e sucessão e narra casos empresariais de famílias do Grupo Votorantim, Grupo Colombo e G5 Partners, entre outros.


Você está aqui (Editora Intrínseca, 400 pág, R$ 76,00), de David Nicholls, escritor e roteirista de cinema e televisão, autor do best-seller Um dia, traz o encontro de Michael, destruído pela separação da esposa, com Marnie, abandonada pelo marido. No início foi difícil, mas depois virou história inspiradora de recomeços, primeiros encontros, segundas chances e voltar a estar no mundo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário