quarta-feira, 19 de agosto de 2026

 

O alerta das recuperações judiciais

O pedido de recuperação judicial da Casas Bahia, uma das maiores e mais tradicionais varejistas do país, é apenas o mais recente exemplo a materializar as consequências nefastas na economia real do juro proibitivo que impera no Brasil. Ainda que a empresa enfrentasse problemas internos e as dificuldades e transformações que afetam todo o varejo, como a concorrência com o comércio eletrônico, a asfixia gerada pelo custo de capital foi fator decisivo para a busca pelo instrumento que permite a continuidade das operações, enquanto tenta reestruturar as dívidas. A Casas Bahia tem um passivo de R$ 17,3 bilhões. Anunciou ainda ter fechado quase 300 lojas e realizado 3 mil demissões.

A degradação do ambiente de negócios, com o juro sufocante como principal fator, tem legado números recordes de recuperações judiciais. Dados do Monitor RGF Bizdoc mostram que, ao final do primeiro semestre de 2026, o Brasil contabilizava 6.341 companhias nessa condição, alta de 6,2% ante o final do ano passado e de 21% em um intervalo de 12 meses. Comércio, indústria, agronegócio e construção são os segmentos mais afetados.

Inúmeras empresas conhecidas tiveram de recorrer ao instrumento que busca reorganizar os negócios sob o amparo do Judiciário. Entre elas estão Tok&Stok, Bombril, Coteminas, Grupo Unigel e Isdra. Há casos também de recuperação extrajudicial, situação do grupo Pão de Açúcar e da Raízen. No caso do agro, o quadro foi agravado pelo clima e pela queda dos preços das commodities.

O ciclo recente de corte a conta-gotas da Selic, de 15% ao ano em março para 14% no início deste mês, é insuficiente para reverter o processo de endividamento e de inadimplência crescente das pessoas físicas e jurídicas. O estrago na saúde financeira das famílias e das empresas já foi feito. É o resultado do esforço solitário do Banco Central (BC) para conter a inflação e a expectativa de pressão sobre preços, na contramão da incúria fiscal do governo federal, também seguida por parte significativa das administrações estaduais, diga-se de passagem.

Programas como o Desenrola são apenas paliativos, que ignoram a raiz da questão. Não haverá uma queda consistente do juro no país sem um ajuste fiscal robusto, que sinalize maior responsabilidade fiscal e ao menos a estabilização da dívida pública, hoje em trajetória explosiva. É preciso advertir que, em alguma medida, o cenário atual de gastança guarda semelhanças com o período pré-eleitoral de 2014, que levou à crise de 2015 e 2016. A despeito dos números bastante positivos até aqui do mercado de trabalho, a renda das famílias carcomida pelo juro e pela inflação diminui a margem para o consumo e o custo do capital elevado inibe investimentos produtivos, tornando a desaceleração da economia cada vez mais nítida. O El Niño e as incertezas sobre o conflito no Oriente Médio acrescentam pressão inflacionária no horizonte.

O crescimento do endividamento e da incapacidade de honrar compromissos, tanto de empresas como dos cidadãos, é sintoma eloquente de que a situação até aqui razoável da economia brasileira corre riscos sérios de uma reversão. O perigo à espreita, lamentavelmente, é negado ou tangenciado pelos principais candidatos ao Planalto. 


Nenhum comentário:

Postar um comentário