terça-feira, 18 de agosto de 2026

 

Para restabelecer a confiança

Merece registro a constatação do subcomandante-geral da Brigada Militar, Jorge Dirceu Abreu Silva Filho, na semana passada, da redução de incidentes envolvendo pessoas em surto, policiais e profissionais da saúde após a criação de novo protocolo para o atendimento de situações do gênero, em março. A adoção de um procedimento unificado pelas secretarias de Segurança Pública e da Saúde foi prometida ainda no ano passado pelo governo gaúcho, após dois casos que tiveram desfecho fatal. 

O episódio mais marcante foi a morte de Herick Vargas, 29 anos, que fazia tratamento psiquiátrico e teve uma recaída com o uso de drogas. Após a família pedir a ajuda da BM para contê-lo, na zona norte da Capital, o rapaz foi baleado por um dos policiais.

A principal correção, como admitiu o subcomandante-geral da BM, foi reconhecer que, em primeiro lugar, essas ocorrências são de ordem de saúde, e não criminais. Na grande maioria das vezes, são famílias desesperadas que buscam auxílio para emergências psiquiátricas, não raro agravadas pelo consumo de entorpecentes. Ainda assim, são situações que, pelo comportamento eventualmente violento da pessoa em crise de saúde mental, com o risco potencial de outras pessoas acabarem feridas, pedem o auxílio da Brigada Militar, atuando em conjunto com as equipes do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).

A vinda a público do coronel Jorge Dirceu Abreu Silva Filho para explicar o protocolo adotado há cinco meses e comentar as primeiras impressões sobre os resultados também é importante para restabelecer a plena confiança de quem porventura necessite acionar o serviço 190 em busca de ajuda para um caso semelhante. O pedido de socorro é exatamente com o objetivo de evitar que algo mais grave ocorra. Os casos que tiveram a morte das pessoas em surto como desenlace, pelo contrário, alimentaram o receio de tragédia.

O novo procedimento começa pelo recebimento dos chamados telefônicos pelos atendentes do 190 e do Samu, para compreenderem de forma detalhada a situação em curso. Busca-se saber, por exemplo, se a pessoa está armada e fez uso de drogas. As equipes da BM e do Samu se encontram em um local próximo e então se dirigem juntas ao local da ocorrência. O treinamento sobre formas de atuar e mesmo de contenção, voltado para uma abordagem mais humanizada, contou inclusive com a participação de profissionais do Hospital Psiquiátrico São Pedro. As próprias famílias são orientadas sobre como proceder e se proteger.

Os resultados, conforme pontuou o subcomandante-geral da Brigada Militar, demonstram também redução de riscos à integridade física dos próprios policiais e dos atendentes do Samu. Antes, as áreas da Segurança e da Saúde tinham metodologias distintas, sem a devida integração. 

O protocolo criado e adotado pelo Estado, ao que parece, é inédito no país e, por isso, já começa a despertar interesse de outras unidades da federação. É digna de nota ainda a postura institucional de admitir que a falta de orientação e coordenação produziu desenlaces fatais que poderiam ter sido evitados e, uma vez reconhecidas as falhas, tratar de saná-las. 

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