quarta-feira, 19 de agosto de 2026

19 de Agosto de 2026 
CARPINEJAR

O Inter não é como os outros

Como colorado, conto com um prodígio de indícios para me desesperar. Faltam 15 rodadas. Nas sete partidas recentes do Brasileirão, o Inter totalizou três pontos. Foram quatro derrotas e três empates. A última vitória aconteceu em maio. Trata-se de uma campanha de menos de 15% de aproveitamento durante o período. Se continuar assim, a queda será líquida, certa, antecipada.

Cansei de ouvir que a equipe cansa e não há banco. Desse modo, num recuo miserável com suplentes suspeitos, desperdiçamos pontuação.

É o óbvio ululante de Nelson Rodrigues. Minha mãe costumava me falar: "você não é como os outros". Eu replico a lição materna aqui: o Inter não é como os outros. Que se quebre a régua das estatísticas.

Somos mesmo estranhos, improváveis. Quem diria que um plantel de uma capital no Sul do país seria campeão mundial diante do galáctico Barcelona de Ronaldinho Gaúcho, há vinte anos?

Ninguém. Somos do contra. Existe em nós uma raça imprevisível, uma garra inaudita, uma vontade insana de contrariar as expectativas, de negar as evidências.

Não se desiste no meio do combate. Ainda desfrutamos de boas chances de escapar do rebaixamento, com possibilidade de chegar a uma semifinal na Copa do Brasil no Gre-Nal da década.

Não podemos permitir que nosso emocional fique à mercê da zica, do inacreditável, da maldição. Não podemos parar de remar, de mirar o horizonte. Não podemos sucumbir à maré das adversidades. Não podemos nos resignar à escassez de recursos e esperar a tampa do caixão ser fechada.

Se estamos de pé, não estamos mortos. Que paremos de atrair o Z4, como se fosse uma fatalidade incontornável, como se fosse um castigo.

Nosso psicológico se encontra esmigalhado de tanto lembrar o jejum dos títulos, a valsa tocando, os gols perdidos, o revés nos acréscimos. Parece uma conspiração, um decreto divino nos impondo restrições. Porém, não é verdade: tudo se mostra felizmente em aberto.

O que vale é o agora. Estamos na Série A, precisamos agir como Série A e precisamos de arquibancadas cheias de Série A. Esqueçamos o Remo, foquemos no Atlético Mineiro.

Não serão apenas três pontos, mas sal grosso na nossa mentalidade agourenta. Temos que ganhar. Temos que ajeitar a casa no próximo sábado. Corresponderá ao marco de virada para não olhar mais para trás. Não dá para pensar diferente ou em algum eufemismo.

Em véspera de decisão, não é mais o momento de trocar de treinador ou de propor qualquer mudança sensível.

Resta oferecer o apoio incondicional. Dar as costas para as superstições e seguir em frente. Unir o grupo e converter a flauta em fúria. Deixar que os adversários nos menosprezem, que os comentaristas preguem nossa extinção, e somar as vaias para usá-las a nosso favor.

No fim de 2025, todos já nos colocavam como rebaixados, reféns de três resultados paralelos. Não caímos. No enfrentamento com o Corinthians, todos já nos botavam como eliminados. E nos classificamos.

Desde quando confiamos em profecias a nosso respeito? Somos azarões, não azarados. No ano passado, eu escrevi que a minha única alegria na infância era o Inter, a rara trégua do bullying. O escudo colorado me concedia a oportunidade de ser aceito. O Inter vencia por mim, enquanto a vida me derrotava. Hoje meu clube está mal, e estou bem: então vou carregá-lo, pois ele me segurou quando eu não dispunha de nenhum motivo para resistir.

Eu sofro porque me importo. Mas sei que há horas para criticar a família e horas para defender a família.

Meu amor pelo Inter sempre será maior do que ter razão.

Eu não me entrego. E você, colorado? 

CARPINEJAR

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