quarta-feira, 4 de junho de 2014


FILIPE COUTINHO DE BRASÍLIA
04/06/2014  12h31 - Atualizado às 14h47

BB, Caixa e outros órgãos gastam R$ 9 mi em ingressos da Copa para VIPs

Um grupo de milionários, empresários e parceiros "estratégicos" vai assistir os jogos da Copa do Mundo sem pagar nada, com ingressos pagos por bancos e outros órgãos públicos ou de economia mista.

No total, a Folha mapeou compras de R$ 9,1 milhões em ingressos. As compras foram acertadas com a operadora da Fifa desde 2012 —bem antes da liberação deste último e concorrido lote de ingressos.

A maior fatia, R$ 5 milhões, foi paga pelo Banco do Brasil, empresa de economia mista que tem o governo federal como o principal acionista. O BB não revela quantos ingressos comprou, nem para quais jogos.

Os ingressos serão distribuídos a clientes escolhidos a dedo pelo banco. A prioridade do BB é o segmento "ultra high", para clientes com investimentos acima dos R$ 50 milhões. Representantes de grandes empresas também foram agraciados pelo banco.

A Caixa Econômica, por outro lado, abriu os cofres para agradar seu público interno. No total, serão 480 ingressos, para 14 partidas, a R$ 1,8 milhão. A campanha "Bateu é Gol", destinada aos donos das lotéricas, distribuiu 320 ingressos, a R$ 1,5 milhão.

O resto foi para a campanha de incentivo "Vai Brasil", destinados aos empregados do banco. O melhor jogo pago pela Caixa é da fase de quartas de final. Em Brasília, o BRB, banco cujo acionista majoritário é o governo do Distrito Federal, gastou R$ 1,2 milhão em 30 ingressos para clientes para cada um dos sete jogos na capital.

Na arena de Recife, uma empresa do governo de Pernambuco garantiu com a Fifa um camarote para os cinco jogos que acontecerão no local. A compra foi feita pela administração do Porto de Suape, que selecionará executivos de empresas "estratégicas" para irem aos jogos e, também, visitarem o complexo.

O camarote tem 18 lugares —dois representantes do porto vão ciceronear os empresários. A ideia é, a cada jogo, mudar o grupo de convidados. A ação custará R$ 745 mil.

No Rio, o Brasil Resseguros comprou R$ 411 mil, para jogos na capital fluminense. A compra foi feita em março. Em outubro, foi finalizado o processo de privatização da estatal —entre os principais acionistas está o Banco do Brasil.

A Folha questionou esses órgãos se entre os recebedores de ingressos havia políticos. Banco do Brasil, BRB, Caixa e o Porto de Suape negaram. O Brasil Resseguros informou que os ingressos irão para "clientes selecionados em função de parcerias negociais".

Editoria de Arte/Folhapress    

RECOMENDAÇÃO

Nos últimos meses, promotorias de diversos Estados recomendaram aos governos locais que não usem dinheiro público para comprar ingressos. Em Brasília, por exemplo, a promotoria do DF afirma que a compra pode se enquadrar em "irregularidade e desvio de finalidade na despesa pública, pois o gasto não almeja o atendimento do interesse público".

O Ministério Público do DF avalia se o caso do BRB, por ser um banco, se enquadra na recomendação. O banco respondeu aos questionamentos da promotoria, que analisa a documentação. O governo de Pernambuco também recebeu recomendação similar.

Em 2013, apesar de questionado pelo MP do DF, foram adquiridos ingressos e camarotes no valor de quase R$ 3 milhões por outra estatal do governo distrital. A compra foi parar na Justiça.

OUTRO LADO

Os bancos públicos e órgãos que compraram ingressos para a Copa do Mundo defendem a prática. Segundo o Banco do Brasil, estratégia semelhante é adotada pelos concorrentes de mercado. "O Banco do Brasil adquiriu ingressos para convidar os melhores clientes do segmento de alta renda e representantes de grandes empresas, como parte de sua estratégia de marketing".

A justificativa do BRB vai na mesma linha do Banco do Brasil. O banco disse ainda que a compra foi feita antes da recomendação do Ministério Público.

"O BRB esclarece que se trata de uma ação estratégica de negócio e mercadológica, comum no segmento de varejo bancário, e que visa a consolidação da marca na cidade, perante seus clientes e a população", disse.

A Caixa, por sua vez, disse que a compra serviu como incentivo para os funcionários e donos de lotéricas que bateram metas. A administração do Porto de Suape disse que o complexo serve como "âncora" para investimentos em Pernambuco.

"O camarote é exclusivo para que representantes de Suape recepcionem executivos de empresas consideradas estratégicas para Pernambuco, para o adensamento e/ou estímulo de cadeias produtivas".


A administração de Suape esclarece, ainda, que a compra foi feita antes da recomendação do Ministério Público, dentro da legislação, e que tem receita própria, sem depender de repasses do governo. O Brasil Resseguros informou que a "aquisição de ingressos para competições esportivas é uma das ações de relacionamento voltada, exclusivamente, para clientes selecionados em função de parcerias negociais.

04 de junho de 2014 | N° 17818
MARTHA MEDEIROS

Não pode

Nunca tinha feito uma ressonância magnética. Primeira vez. Retirei os brincos, a roupa e coloquei um daqueles uniformes azuis de doente. Sentei no banco do corredor, de frente para uma parede, e fiquei ali uns 20 minutos esperando ser chamada. Tudo prometia ser lento, até meus pensamentos se arrastavam. Quando já estava quase pegando no sono (era noite), escutei meu nome e entrei na sala. Outra dimensão. Outro ritmo. Tudo veloz. Ouvi do médico: “Deita.

Levanta as pernas no três: um, dois, três. Tá aqui os fones de ouvido por causa do barulho. Tá aqui a campainha se precisar falar comigo. Não te mexe. Não pode. Não pode”. Levou um segundo e meio para me dizer tudo isso, emendando uma frase na outra como se fosse um cantor de rap. E lá me fui cápsula adentro. Só lembrava da parte do “não pode”.

Minha respiração ficou mais profunda. Não te mexe. Não pode. Respirar podia? Percebi meu peito subindo e descendo, arfando conforme eu inspirava e expirava. Deveria trancar a respiração? Havia um som constante nos arredores, parecia o de uma máquina de lavar roupa em funcionamento. E ali, dentro da cápsula, acontecia uma rave, batidão eletrônico, deu a maior vontade de dançar.

Não pode. Não pode. Não pode.

Claro que, não podendo nada, deu também uma coceira no queixo. Eu precisava tossir. Uma mecha do cabelo me incomodava junto ao pescoço. Quase funguei. Tive duas contrações involuntárias nas pernas. O corpo inteiro dava ordens para eu subverter a situação: vai, mulher, te mexe, coça, tosse, funga. E eu ali, múmia obediente, embalsamada, petrificada, ansiosa por movimento.

Basta a gente ouvir um “não pode” para o desejo acordar.

O proibido é uma tentação, sempre foi, desde Adão e Eva. Avisem-me que “não pode” e terei vontade de pular o portão que protege um jardim privado, de entrar na sala destinada apenas aos funcionários, de estacionar na vaga para idosos, de sentar à mesa reservada para quem ainda não chegou ao restaurante, de fumar dentro do avião – e eu nem fumo.

Mas impunidade não é para qualquer um. Cidadãos honestos que pulam muros, entram em salas privativas, estacionam onde não devem, sentam no lugar destinado a outros e fumam no banheiro da aeronave certamente serão multados, advertidos, humilhados. Só se mantém inalcançável o transgressor profissional, aquele que assalta alguém, rouba um carro – esse ninguém pega.

Então, eu, bem educada e temente às ordens que me dão, não me mexo. Faço apenas aquilo que pode, aquilo que resultará num diagnóstico certeiro, sem chance de equívoco: é uma mulher que dá para se confiar.

Que vasculhem meu esqueleto à vontade, não há ressonância que revele os pequenos crimes que nunca cometi.



04 de junho de 2014 | N° 17818
FÁBIO PRIKLADNICKI

VOCÊ É ANTISSEMITA?

Passou meio despercebida, no Brasil, uma pesquisa mundial sem precedentes sobre o antissemitismo, divulgada em maio pela Anti-Defamation League, uma instituição judaica norte-americana.

Depois de 53 mil entrevistas com cidadãos de 102 países, em 96 línguas, os pesquisadores estimaram que 26% das pessoas têm atitudes antissemitas. Ou seja: uma em cada quatro. Equivale a um universo de 1,1 bilhão de indivíduos.

Como os pesquisadores julgaram quem tem atitudes antissemitas e quem não tem? Apresentaram aos entrevistados 11 afirmações com estereótipos (“Judeus são responsáveis pela maioria das guerras no mundo”, “Judeus têm controle demais sobre os assuntos globais” etc.). Quem concordou com pelo menos seis das 11 afirmações entrou para o índice.

Os lugares mais hostis aos judeus são Cisjordânia e Faixa de Gaza (93%), Iraque (92%), Iêmen (88%), Argélia (87%) e Líbia (87%). Os países mais amigáveis são Laos (0,2%), Filipinas (3%), Suécia (4%), Holanda (5%) e Vietnã (6%). Nos Estados Unidos, o índice é de 9%. O Brasil está em 81º lugar, com 16% de antissemitas, assim como Cingapura, Islândia, Nigéria e Uganda.

É um número baixo se comparado à maioria dos outros países, mas ainda considerável. São 22 milhões de pessoas. Um bom índice seria 0%. O estereótipo judaico mais aceito entre os brasileiros, com 57% de concordância, é: “Os judeus ainda falam demais sobre o que aconteceu com eles no Holocausto”.

E por que ainda se fala tanto na tragédia que dizimou 6 milhões? A resposta está na pesquisa: duas em cada três pessoas nunca ouviram falar do Holocausto ou não acreditam no relato histórico.

Quanto mais os entrevistados superestimam o número de judeus no mundo, mais tendem a ter atitudes antissemitas: 48% acham que correspondem a mais de 1% da população mundial. Na verdade, os judeus são apenas 0,19%.


Mas o número que mais me chamou a atenção foi que 70% dos que têm atitudes antissemitas nunca conheceram um judeu. Os seres humanos são estranhos.

04 de junho de 2014 | N° 17818
PAULO SANT’ANA

Um sono sereno

Ainda existe, é claro, o Laboratório do Sono em Porto Alegre. Por ele, o cliente passa uma noite dormindo lá e seu sono é monitorado para verificar se há anormalidades durante seu transcurso.

Da minha parte, de uns tempos para cá, noto que me acordo de quatro a cinco vezes por noite. Suponho que me acordo porque a vontade de fazer xixi soa o alarma e eu me levanto e vou até o banheiro.

O problema é que, quando eu era moço, me deitava às 22h e me acordava às 7h, sem interrupção, ou seja, não me acordava uma só vez durante meu percurso letárgico.

O diabetes, doença que eu não tinha quando era moço, deve influir nessas diversas vezes em que me acordo.

Será que, se eu não beber líquidos até as 17h, continuarei me acordando sem necessidade de fazer xixi?

Outra coisa que me intriga são meus sonhos. Não sei se têm a ver com a posição em que durmo.

Noto por exemplo há muitos anos que não tenho pesadelos. Para mim, o pesadelo consiste em que se sonha algo aterrador, o que nos acorda.

Não tenho tido esse percalço, meus sonhos têm sido digamos assim, normais. Ou será que não tenho pesadelos agora porque a vontade de fazer xixi tornou meus espaços letárgicos com menores durações?

São interrogações que me faço e que certamente seriam todas respondidas pelo Laboratório do Sono.

Nem de longe esse meu problema é mais grave do que o maior de todos os problemas do sono: a insônia.

Tenho pena das pessoas que sofrem de insônia, ainda mais daquelas que sempre sofreram de insônia.

A insônia deve ter sido atenuada pelo surgimento de potentes soníferos na indústria farmacêutica.

Eu, por exemplo, quando tinha insônia, ingeria um comprimido chamado de Dormonid, que assegurava no mínimo seis horas de sono sem interrupção.

Até tenho receio de usá-lo atualmente, porque não sei se ele me acordaria quando eu tivesse vontade de fazer xixi. Qualquer dia vou fazer a experiência.

Mas o que não resta dúvida é que o sono é uma grande fonte de saúde. Acordar-se bem dormido dá-nos inclusive a sensação de que estamos bem alimentados.

Dizem os médicos que o período ideal de sono, por dia, é de oito horas.

Pois, pasmem, ultimamente, levando em conta as citadas interrupções de meu sono, ele tem-me durado de 10 a 11 horas, tenho dormido bem, portanto.


E como, neste aspecto, passam os meus leitores e leitoras?

04 de junho de 2014 | N° 17818
VERISSIMO NA COPA

VERISSIMO NA COPA MUDANDO DE ASSUNTO

Velha piada. Homem chega de viagem um dia antes do previsto e encontra a mulher na cama com outro homem. A mulher grita:

“O que você está fazendo em casa hoje? Era pra você só voltar amanhã!”

Homem: “E o que você está fazendo na cama com outro homem?”

Mulher: “NÃO MUDA DE ASSUNTO!”

Nada mais chato do que analisar piadas, mas esta comporta várias deduções e interpretações, algumas, inclusive, pertinentes ao momento que estamos vivendo, de expectativa nervosa pré-Copa. Ninguém sabe o que acontecerá no Mundial, dentro e fora do campo.

Para dizer a verdade, a dúvida já começa com a estreia do Brasil contra a Croácia. O que é a Croácia? O que joga a Croácia? São açougueiros e fiscais da receita que se reúnem nos fins de semana para beber cerveja e tentar jogar futebol ou jogam um futebol moderno, têm vários bons profissionais jogando em times do resto da Europa e podem surpreender?

A Croácia vai ser fácil ou vai ser um terror? Na piada, não mudar de assunto é essencial para evitar uma crise do casamento, talvez até um crime passional. A mulher flagrada tem razão, não mudar de assunto é melhor para todo o mundo. No nosso caso, não mudar de assunto é nem pensar que a estreia contra a Croácia possa ser algo diferente de um passeio de primavera.

Mudar de assunto seria, por exemplo, lembrar que nas Copas sempre aparece um time fantasma, no qual ninguém acredita e que espanta a todos. No México, em 86, este time foi o da Dinamarca. De repente, apareceu a Dinamarca jogando o futebol do futuro. Ganhando de cinco do seu primeiro adversário (não lembro quem eram os coitados) e impondo uma certeza: ali estava o provável campeão. Seus jogadores não eram humanos, eram robôs loiros.

E imbatíveis. No seu jogo seguinte, a Dinamarca perdeu para, sei lá, o Equador, ou coisa parecida. O mito durou três dias. Mas quem nos assegura que a Croácia não será o que a Dinamarca quase foi em 86? Melhor nem pensar nisso. Melhor não mudar de assunto.


O que acontecerá durante a Copa fora do campo também é uma incógnita. E incógnita, como se sabe, é uma coisa enrolada no chão que tanto pode ser uma corda quanto uma cobra. Só vai se descobrir na hora.

terça-feira, 3 de junho de 2014


Boa noite meu Anjo!!!

"Amizades sinceras
são como as melhores frutas:
além de deliciosas, nos fazem muito bem!"

Beijinhos






TÔ PASSANDO AQUI PRA 
TE DAR UM OI.! 
REPLETO DE CARINHO
RECHEADO COM MUITA FÉ
IMENSO COM AFETO
ESPLENDOROSO DE LUZ
FORTE COM ENERGIA
ENCHARCADO DE CORAGEM
EMBRULHADO DE ESPERANÇA
E CHEIO DE ALEGRIA...
AMIGOS SÃO PARA SEMPRE!!
BJUSSS

03 de junho de 2014 | N° 17817
LUÍS AUGUSTO FISCHER

CIDADE-ESPETÁCULO

Todos os defeitos da cidade parecem sair das sombras simultaneamente agora, com a Copa, para nos dar vergonha. E não só os defeitos, físicos ou imateriais, como também os limites.

Do lado físico, o aspecto geral de Porto Alegre tem muito de feiusco mesmo – basta atentar para a sujeira visual da fiação pelo ar, bloqueando a vista do céu e das fachadas, até que bacanas, ou para a epidemia das grades, que nosso susto manda colocar em todas as aberturas, por justificado medo, gerando como doloroso resultado a cara de improviso e incivilidade.

De lado imaterial, a dura constatação de que, por culpa municipal, estadual e federal, pública e privada, não diferimos nada da generalidade do Brasil, bem ao contrário do que gostamos de pensar, com orgulho e alguma arrogância. Aqui, como em todas as outras capitais que vão receber jogos da Copa, as obras goraram ou não saíram no prazo certo, o trânsito está uma porcaria há mais de ano em função de obras mal administradas, o pior improviso e o mais bagaceiro jeitinho estão sendo a salvação de última hora.

E há os limites: está claríssimo que temos instituições cheias de falhas, em educação e saúde, em segurança e transporte, no nível estrutural e no varejo cotidiano. Estamos vindo numa levada de pleno emprego e transferência de renda já com mais de 10 anos seguidos, e mesmo assim não chegamos lá.

Mas também não podemos perder a dimensão geral da coisa. O país melhorou muito, em quase todos os campos (salvo a segurança, pior que nunca), nas últimas décadas; só que o passivo social ainda não foi vencido, nem o será logo, mesmo porque isso depende do jogo internacional, do papel do país no mundo, num jogo de forças muito superior ao nosso voto e à nossa eventual militância.

A Copa se inscreve nisso. Megaeventos como ela são empreendimentos multimilionários, com seu tanto de mafiosos; para existirem, eles exigem de instâncias públicas como uma prefeitura que se comporte como uma produtora de espetáculos de massa, coisa para a qual ela não foi concebida. Há nisso um danoso atropelo, uma perversa reorientação, que é preciso avaliar criticamente.

Uma sugestão de leitura: Cidades Rebeldes – Passe Livre e as Manifestações que Tomaram as Ruas do Brasil, da Boitempo Editorial e Carta Maior. Seu tom geral é desanimador; mas não venceremos os problemas com sorrisos e adesão tola.

Luís Augusto Fischer escreve quinzenalmente no Segundo Caderno.



03 de junho de 2014 | N° 17817
FABRÍCIO CARPINEJAR

Gnomo em alto esporte

Logo no segundo encontro com a minha mulher, ela teve que enfrentar um grande teste: o modo como eu estava vestido.

Esperava Katy no bar do cinema. Meu figurino era uma calça amarela de coração, um blusão verde, um casaco de veludo ainda mais verde, sapato vermelhocombinando com os óculos. Em suma, um gnomo em alto esporte. Um arco-íris na curva da tempestade.

Não precisava levantar o braço para denunciar minha localização.

Ela, que se preocupava com o que colocar para me agradar, descobriu que deveria é se preocupar comigo. Vinha a ser, mesmo vestido, um atentado violento ao pudor.

Por generosidade do destino, não tive irmão gêmeo.

Andar comigo pelo shopping seria o equivalente a dar a mão para uma árvore de Natal. Os cadarços desamarrados serviam de tomada.

Ela confessou, um ano depois, que não ficou assustada.

– Eu me assusto com baratas. Contigo daquele jeito, fiquei apavorada.

Acho que rezou para não esbarrar com algum familiar e amigo pelas galerias e lojas. Suou frio, gaguejou, contornou o constrangimento com a elegância das meias palavras.

Foi muito amor e provação da parte dela. Não comentou nada, fingiu normalidade. Não teceu nenhum comentário irônico. Elogiou o que podia naquele momento, o meu perfume.

Hoje, aposentei as calças coloridas e extravagantes, as camisetas P brilhosas, os casacos estranhos. Fiz uma limpa nos cabides. Tirei a drag queen do meu armário. Separei as roupas para dar. Finalizei uma era de minha vida. Não desprezava quem fui, apenas não me atendia mais.

Nossa empregada Cléo recebeu a responsabilidade de levar as sacolas aos necessitados.

Qual minha surpresa quando ela volta no dia seguinte com todas as minhas peças. Nenhuma ganhou a simpatia de entidades beneficentes e brechós.

– Pode ainda interessar as escolas de samba –, Cléo buscou me consolar.

Terminei recusado pela campanha do agasalho. Devo ter sido o primeiro caso da história de Porto Alegre.


Não há caridade que justifique a cafonice.

03 de junho de 2014 | N° 17817
DAVID COIMBRA

DE SACO CHEIO

Se os ônibus vão ou não rodar durante a Copa, se o Brasil devia ou não ter construído estádios, se os black blocs vão ou não tocar fogo nas casas das mãezinhas deles, estou me lixando. Estou com saco cheio dessas discussões, se você quer saber. Façam o que quiserem, pensem o que quiserem, critiquem a mídia burguesa, o governo desonesto, a oposição oportunista, as avós de vocês; não estou nem aí. O que me interessa é o futebol e, se você não entende o que é o futebol, o jogo jogado, vá amolar outro. Não quero conversar com você.

Quero conversar com quem sabe, por exemplo, quem foi Marinho Chagas, que morreu no fim de semana. Marinho foi o maior lateral-esquerdo que vi jogar. Melhor do que Roberto Carlos. Talvez do mesmo nível de Junior. Antes de Marinho, os laterais se preocupavam quase que exclusivamente com tarefas defensivas. Carlos Alberto, o Capita, sabia atacar, fez até gol na Copa, mas sua primeira preocupação era a marcação, tanto que jogou inclusive de zagueiro. Everaldo, a estrela dourada da bandeira do Grêmio, foi só marcador na Copa de 70. Ele recebeu uma função tática e a cumpriu. Mas Everaldo tinha boa técnica; se quisesse, poderia funcionar como ala. Mas, não. Naquele tempo, lateral marcava ponta. Ponto.

Marinho mudou isso. Ele aparecia no ataque, surpreendia o adversário, era o cavalo de madeira no coração de Troia. Em 1976, Foguinho pediu a contratação de Marinho pelo Grêmio. Seu sonho era tirá-lo da lateral e engastá-lo no centro do gramado. Queria montar um meio-campo com Andrade, Tadeu Ricci e Marinho. Dizia que com esse meio-campo poderia enfrentar o do Inter de Falcão, Carpegiani e Escurinho. Poderia? Isso nunca descobriremos, mas, em 77, quando Tadeu enfim veio para o Grêmio, seus colegas eram Victor Hugo e Iúra, e o Grêmio bateu com autoridade o timaço do Inter.

Foguinho sabia muito. Para minha felicidade, tive diversas chances de conversar e aprender com ele. Ele conhecia as minudências do futebol, antevia o sucesso ou o fracasso de um jogador observando-o a caminhar pelo campo e não ficava perdendo tempo com essas xaropadas de hoje de FIFA e euros e o escambau. Aliás, dias atrás um filósofo francês deu uma palestra no Fronteiras do Pensamento e perguntou:

– Vocês acham que o Neymar tem que ganhar tanto e um professor tão pouco?

Agora me diga: como é que um sujeito que se denomina “filósofo” e recebe um belo cachê para atravessar o Atlântico e vir aqui deitar falação comete uma redução rasteira dessas? Nem merece que perca meu tempo escrevendo a respeito. Prefiro falar sobre o Cruyff. No domingo, o Zini publicou uma bela entrevista do Carpegiani acerca daquela partida em que o Carrossel de Cruyff amassou o Brasil em 1974. Carpegiani contou que dias atrás reviu de novo aquele jogo e de novo se entristeceu com a derrota. Acha que o Brasil não foi tão mal assim. Mas, no fim da entrevista, o Zini perguntou se o Brasil venceria, caso aquela partida fosse disputada de novo. Carpegiani ponderou:

– Com o Cruyff em campo?

O Zini disse que sim. Com o Cruyff em campo. E Carpegiani hesitou:

– Não sei se venceríamos...

Lindo. Carpegiani, naquele momento, rendeu preito a um dos deuses do futebol. Porque era lindo de ver Cruyff jogar, assim como era lindo ver os algozes do Carrossel, os alemães de Beckembauer. De Beckembauer se dizia que ele não sabia qual era a cor da grama, porque jogava sempre de cabeça levantada. Algo parecido do que se dizia de Didi, chamado de “Príncipe Etíope” por Nelson Rodrigues. Didi era elegante, era um aristocrata de chuteiras e sempre se orgulhou de com elas, com suas chuteiras, jamais ter pisado na bola.


A bola que rola. A chuteira que chuta. A grama verde. A rede. O gol. É lindo isso. Fiquem com seus escândalos. Eu fico com o futebol.

03 de junho de 2014 | N° 17817
L.F.VERISSIMO

VERISSIMO NA COPA O CR

Existem fenômenos inexplicados na física quântica. Se uma partícula subatômica é repartida e vai cada parte para um lado, o que acontecer com uma parte acontece para a outra. Ou seja, é como se você cutucasse o Chico Caruso no Rio e o Paulo Caruso sentisse em São Paulo. Outro fenômeno estranho é o seguinte: os átomos se comportam de uma maneira se são observados e de outra se não são observados.

O olhar do observador interfere na movimentação do átomo. Trazendo o mistério para um nível mais, digamos, rasteiro: o Chico Buarque contou que nunca viu o Cristiano Ronaldo jogar bem. Claro, não existe uma relação direta de causa e efeito, o olhar do Chico determinando a atuação do Cristiano Ronaldo. É coincidência.

Estão aí as estatísticas do melhor jogador de futebol do mundo da atualidade para provar que sua reputação não é mentirosa. É um goleador, é um líder, é mesmo muito bom. O Chico apenas o viu em dias ruins, como todo o mundo tem. Quantas vezes não vimos o Neymar desaparecer em campo?

Quantas vezes o próprio Chico não pegou o violão e não saiu nada, nem uma modinha? Mas me dei conta de que eu também nunca vi o Cristiano Ronaldo jogar bem, ou jogar de acordo com sua fama. Na única vez que o vi jogar ao vivo foi na Copa do Mundo de 2010, na África do Sul, e foi num dos seus piores momentos.

Na última vez em que o vi jogar pela TV, há dias, quando o Real Madrid ficou com a Liga dos Campeões que o Atlético de Madrid já estava botando na mala, sua comemoração aloucada foi inversamente proporcional à sua má atuação no jogo. Mas o Chico e eu apenas não tivemos sorte, ainda. Pelo menos não será a nossa experiência que confirmará a física quântica.


Gosto do CR, até das suas poses. Gostei de ler a seu respeito, que ele relutou a sair da Ilha da Madeira, onde nasceu, e trocar família e amigos de infância por uma possível carreira no futebol português. Não é verdade que ele já era tão convencido quando saiu da Madeira que prometeu voltar de Portugal a pé, pois caminharia sobre a água. E gostei de saber o doce nome do time em que ele jogava, como garoto: Andorinha. Vamos ver o que fará nesta Copa o moço do Andorinha.

segunda-feira, 2 de junho de 2014



As greves vermelhas

O que fazer com os motoristas de ônibus que instalaram o caos e deixaram milhões à deriva?

RUTH DE AQUINO
23/05/2014 20h44 - Atualizado em 23/05/2014 20h46

O governo Dilma não é o primeiro nem será o último “governo dos trabalhadores” a ser desafiado com violência e ódio pelos próprios trabalhadores. Nada como uma semana depois da outra para rever, na real, o ânimo de uma população que não é a “crescente classe média”. Tampouco é o black bloc universitário que curte grifes ou o rebelde sem causa. Nem o aposentado, que sofre em casa mesmo.

Os grevistas e manifestantes que ameaçam parar o país e levar o inferno a todos nós – incluindo Dilma, Lula,  Gilberto Carvalho e companhia – são, quem diria, os “companheiros”. Sim, porque o Brasil foi assumido há 12 anos não por um metalúrgico, mas por um líder sindicalista combativo, de imenso carisma.

Os companheiros deveriam estar nas ruas em alegres passeatas com a bandeira do Brasil, em pré-torcida pela Seleção. Mas não. As bandeiras são vermelhas, mas a estrela desbotou. Diante da selvageria das recentes paralisações e passeatas, fica claro que a turba ali não está a fim de “ordem e progresso”.

 Quer aumentos salariais acima da inflação, que reponham as perdas. “Se não parar no ano da Copa, quando vamos conseguir aumento?”, gritou para as câmeras um motorista de ônibus.

Carvalho chamou os grevistas de sabotadores. Haddad chamou a turma de “guerrilha”. O que fazer com os motoristas e cobradores de ônibus que instalaram o caos em São Paulo e deixaram milhões ao relento e à deriva? Como lidar com esses guerrilheiros urbanos? Multa? Prisão? O que acontecerá com os companheiros que rejeitaram a negociação do sindicato, furaram pneus dos ônibus, tiraram as chaves, bloquearam as avenidas, retiraram passageiros de todas as idades de dentro de ônibus, como se fossem sequestradores comuns? Colocaram a cidade de São Paulo de joelhos.

E Lula? Como ele disse achar “uma babaquice” a preocupação de ter metrô até a porta dos estádios, porque brasileiro “vai a pé, descalço, de bicicleta, de jumento, de qualquer coisa”, o que deve ter pensado quando milhares de mulheres e homens sofridos precisaram caminhar para o trabalho e de volta para casa? Lula chegou a dizer a blogueiros que a Copa será o momento de o país “mostrar sua cara”. “Esconder pobre está fora de cogitação”, afirmou. Aguardo a reação oficial à onda de greves de trabalhadores ingratos que antes aplaudiam Dilma.

O coordenador dos sem-teto, Guilherme Boulos, afirma: “Queremos trazer a Copa para os trabalhadores. Empresários e a Fifa tiveram seu pedaço do bolo. O trabalhador agora quer sua fatia”. E ameaça um “junho vermelho” se tentarem remover as famílias que invadiram o terreno da construtora Viver, na Zona Leste de São Paulo: “Se a opção da construtora e dos governos for tratar a questão como um caso de polícia e buscar garantir posse, haverá resistência. Se querem produzir uma Copa com sangue, essa é a oportunidade que eles têm”. “Eles” quem?

Será que Boulos se refere aos companheiros Lula e Dilma, que prometeram tudo pelo social e resgataram tantos milhões de brasileiros da extrema pobreza? É prudente o PT parar de culpar a “imprensa conservadora”, o “mau humor” e a “nuvem negra”. É melhor começar a ouvir os movimentos sociais. Que divórcio litigioso é esse entre o PT e trabalhadores? Nem os programas de televisão nem os marqueteiros conseguem provar a essas categorias todas – médicos, professores, motoristas – que o PT está do lado do povo?

Ninguém de bom-senso pode ser a favor das cenas vistas em São Paulo nos últimos dias. Sou a favor do direito de greve – um direito garantido pela Constituição e pela democracia. Não é crime uma categoria tirar proveito de um momento estratégico para fazer reivindicações trabalhistas justas.

Por que controladores aéreos franceses param no verão europeu? O mesmo se pode dizer dos trens e metrôs em Londres. Por que se interrompe a coleta de lixo quando o calor é maior na Europa? O objetivo de uma categoria insatisfeita é provocar o maior estrago possível para aumentar o poder de barganha. Mas, até para convocar um movimento trabalhista legítimo, é preciso um mínimo de civilidade para angariar apoio. O que vimos foi ignorância, crueldade e bandidagem.

O pano de fundo das greves vermelhas pré-Copa chega a ser irônico, num país governado pelo PT há 12 anos. As bandeiras são: “Moradia digna. Educação digna. Saúde digna. Transporte digno”. Ouvi isso da boca de uma manifestante dos sem-teto em São Paulo.

Qualquer estrangeiro que chegue desavisado ao Brasil e depare com multidões de manifestantes exigindo esses quatro direitos básicos de cidadania, todos associados à palavra “dignidade”, pode perguntar. “O que aconteceu? É a direita que governa agora o país?” Não, é Dilma, com Lula.

Dá medo? Ou esperança?

FELIZ SEMAMA MEU ANJO!

Beijos Ternos!


Estava aqui pensando em

Algo especial pra você, mas

Não encontrei nada à sua altura


MAS LHE DIGO, 
QUE TE GOSTO MUITÃO!


.

.

LINDA SEMANA PRA VOCÊ

LINDA SEGUNDA-FEIRA ANJO!





OLÁ


A amizade é uma grande conquista,
e mesmo que estejamos perto ou longe,
presente ou não,
a simples manifestação de carinho


e atenção mesmo que seja
através de recadinhos,
já trazem grandes energias positivas
em nossa vida.

Obrigado pelo teu carinho♥♥







02 de junho de 2014 | N° 17816
EDITORIAL ZH

CLIMA DE COPA

O que deve prevalecer, a partir de agora, é o desejo da maioria de acolher os visitantes e torcer pelo êxito do evento, que é de todos, não pertence a governos.

OBrasil cumpre nos próximos dias mais uma etapa do processo irreversível de preparativos finais para a Copa, num ambiente que aos poucos substitui o cenário de contestação pelo clima de festa. Foi assim em todos os países que sediaram o evento nas últimas décadas, quando reações previsíveis de contrariedade acabam por se submeter ao desejo da maioria. E a maioria, também aqui, torce para que os brasileiros desfrutem de um evento que não interessa apenas aos que vão aos estádios, aos que têm afinidade com o futebol ou que, diretamente e indiretamente, desfrutarão de seus benefícios.

A Copa deixou, há muito tempo, de ser um acontecimento medido apenas por seus resultados concretos e palpáveis. O maior evento do planeta deve ser visto também pela sua inquestionável capacidade de congraçamento, e essa é a percepção que deve predominar a partir de agora. O sentimento de integração será fortalecido, a partir da semana que vem, quando se intensifica a chegada das delegações e dos torcedores que formam o batalhão precursor dos países participantes.

O percurso desde a escolha do país para sediar o Mundial, em 2007, foi acidentado. Falhamos na adoção de providências básicas, no planejamento de obras, na escolha equivocada de prioridades e ao superestimar o tamanho de estádios que, depois do Mundial, terão pouca ou nenhuma utilidade. O setor público também cometeu falhas na falta de transparência dos gastos públicos e na precária divulgação do legado que a população terá com os investimentos, especialmente em mobilidade urbana.

O balanço geral é positivo, apesar da insistência com que os críticos da Copa repetem questionamentos, da continuidade das manifestações públicas nas grandes cidades e de declarações inoportunas, como as feitas pelo ex-jogador Ronaldo Nazário. Membro do Comitê Organizador Local do torneio, Nazário não só criticou os atrasos nas obras como afirmou, em entrevista, ao abordar os protestos de rua, que os policiais devem “baixar o cacete” nos vândalos. Um ídolo do futebol, o maior goleador de todas as Copas, não deveria, pelos excessos do que diz, equiparar sua linguagem aos atos que condena. A população sabe que manifestações ordeiras e vandalismo não são a mesma coisa.

A Copa será, sim, o que os brasileiros desejam que seja, e a aspiração majoritária é pelo sucesso do evento. O Brasil não tem nenhum exemplo anterior de acontecimento com essa dimensão. É uma chance única para o país que pretende conquistar, além do Hexa, o reconhecimento como nação capaz de mobilizar pes- soas, energias e recursos para o êxito de um certame com tal grandiosidade. A Copa tem as seleções como estrelas, é organizada pela Fifa e sustentada pelos que a viabilizam, é claro, também como negócio. Mas pertence a todos os que dela participam, e não a organizações ou governos.

EM RESUMO

Editorial defende que, sem prejuízo das manifestações democráticas, o país deve desfrutar do ambiente do Mundial.



02 de junho de 2014 | N° 17816
PAULO SANT’ANA

Salvem o Dias da Cruz!

Sinto pena, sinceramente, das pessoas que não gostam de futebol e terão de engolir em seguida 40 dias de noticiários e partidas da Copa do Mundo.

Ainda bem que parece que não vão mexer nas novelas, era só o que faltava...

Ponha-se no lugar das pessoas que nada têm a ver com o futebol, ser-lhes-á impingida durante mais de um mês uma quase exclusiva bateria de infindáveis jogos e de notícias maçantes (para elas) sobre a competição.

Ainda nem começou a Copa e já dominam os noticiários sobre ela. Quando se iniciar a Copa, então, quem não gosta de futebol não sei onde se meterá para fugir do inferno.

Uma das mais belas iniciativas sociais que existem entre nós é o Instituto Espírita Dias da Cruz, que funciona na esquina das avenidas Azenha e Ipiranga.

O Dias da Cruz recebe diariamente 120 pessoas necessitadas, fornecendo-lhes pouso com lençóis e cobertas limpas, mais duas refeições, banho e roupas limpas.

Isso tudo, nos 365 dias do ano.

Uma obra majestosa. Porque ela atinge vitalmente os mais pobres, os mais miseráveis, os que mais necessitam de ajuda para dormir, vestir e se alimentar.

O Dias da Cruz, para levar à frente essa obra, vive somente de doações e de um programa do governo do Estado, que agora, por complicações, parece-me que burocráticas, não está permitindo mais a digitação de notas fiscais, o que está abalando a instituição.

A finalidade desta coluna é, pois, incentivar as doações dos leitores ao Dias da Cruz e ao mesmo tempo implorar ao governo do Estado que cesse essa encrenca burocrática, que está preocupando os dirigentes do asilo.

Não têm mais nada que fazer e vão complicar a vida das entidades que fazem o bem para a sociedade. Uma vergonha isso.

Às vezes, chego a pensar loucamente que funcionaríamos muito melhor sem governo. Entra o governo nesse negócio e já começam as aflições.

Do Dias da Cruz, me mandam dizer que essa última decisão do governo do Estado foi unilateral e injustificada.

Mudem isso, por favor, senhores governantes!


Governador Tarso Genro, peço-lhe atenciosamente que cuide pessoalmente dessa encrenca. A obra social do Dias da Cruz clama por isso!

02 de junho de 2014 | N° 17816
NÍLSON SOUZA

Direito ao esquecimento

Nós, os humanos, somos mesmo uma espécie contraditória. Fazemos tudo para aparecer, expomos nossas intimidades, conseguimos transformar a tecnologia na vitrine de nossas vaidades – e, agora, já estamos querendo ser esquecidos. O Tribunal Europeu decidiu recentemente que os cidadãos da comunidade têm o direito de retirar dados pessoais da internet. Por conta desta decisão, o Google já criou um formulário para que as pessoas possam solicitar o que está sendo chamado de direito ao esquecimento, uma espécie de queima de arquivo do nosso passado na rede.

Por que isso? Ora, porque muitas vezes as consultas nos buscadores desenterram coisas que as pessoas preferem não ver reveladas. Algumas com razão: quem cometeu um erro no passado e já pagou por ele merece recomeçar do zero. Mas os registros digitais são implacáveis. Basta lançar o nome do indivíduo e lá vem sua folha corrida. Só que o apagão também pode favorecer os fichas-sujas, que querem esconder suas falcatruas para poder repeti-las.

O debate não se resume a quem tem ou não culpa em cartório. A discussão é outra: numa sociedade democrática baseada na liberdade de expressão, pode-se apagar a verdade? Regimes autoritários é que tentam reescrever a história em seu próprio benefício. Além disso, quem decide? Será que cabe ao Google avaliar se o pedido de esquecimento é procedente?

De um ponto de vista moralista, o dilema parece fácil de ser equacionado. Não cometa erros e você nunca terá que se preocupar com os seus registros na internet. Mas não é tão simples assim. Qualquer usuário da rede, com ou sem consentimento, tem hoje a sua vida registrada para sempre. Veja-se este exemplo do mundo corporativo: algumas empresas, antes de contratar um funcionário, investigam o que ele posta no Facebook, suas preferências, seus hábitos, suas ideias.

Basta o sujeito ter feito um comentário comprometedor num momento de insensatez, e seu novo emprego já vai para o brejo. E aí não adianta apelar, como fez aquele ex-presidente da República que pediu à nação para esquecer o que ele escreveu.

Acho que esse Alzheimer digital não vai pegar. Mesmo que os buscadores desenvolvam mecanismos eficientes para deletar dados inconvenientes, muitos deles já escaparam do seu controle. Qualquer pessoa pode relançar na rede informações sobre terceiros que tenha arquivado ou pesquisado em outro lugar, até mesmo em registros analógicos.


Suspeito que, infelizmente, já mandamos a nossa privacidade para o espaço. E essa é uma viagem sem volta. Esquecimento? Esqueçam.

02 de junho de 2014 | N° 17816
L.F.VERISSIMO

MISTER GLAZER

Morreu o sr. Malcolm Glazer. Mister Glazer não estaria jogando na Copa. Mister Glazer nunca jogou futebol na vida. Era um homem de negócios, grandes negócios, mas isto também não é razão para ele estar sendo citado aqui, nestes preâmbulos da Copa, neste período de espera nervosa da Copa em que qualquer assunto é assunto. Mister Glazer é assunto porque ele era o dono do Manchester United.

Também era dono de um time de futebol americano, mas isso não era incomum, todos os times de futebol profissional nos Estados Unidos têm donos milionários, ou pelo menos pertencem a empresas. A novidade foi um americano tornar-se dono de um dos clubes mais tradicionais e populares da Inglaterra, onde, como no Brasil, os clubes são propriedade pública, não pertencem a ninguém – muito menos a um americano!

A torcida do Manchester não aceitou. Protestou, queimou mister Glazer em esfinge, ameaçou abandonar o time. No fim se acalmou. Muita gente ainda liga um certo declínio do futebol do Manchester United – que ultimamente não tem sido o que foi – à presença do americano. Mas a revolta amainou. Colaborou para isso o fato de mister Glazer ser apenas um dos primeiros de uma lista de donos estrangeiros – russos e árabes principalmente – de clubes europeus.

Ele foi um dos inauguradores da fase que vivemos agora, em que o poder, no futebol, passou do vínculo emocional do clube com a torcida e desta com o time, para patrocinadores e empresários. A gente fala mal do mercantilismo da Fifa, mas ela só está sendo moderna. Amadores, fora.

A força nova dos empresários de jogadores, especialmente, mudou o futebol. Para melhor, num certo sentido, porque alterou a relação profissional do jogador com o clube e aumentou seu poder de barganha. Para pior porque jogador virou mercadoria, e toda vez que transformamos gente em mercadoria nos desumanizamos mais um pouco.


Assim como não tem nada a ver com esta Copa, mister Glazer não teve nada a ver com a revolução que ajudou a fazer meio sem querer. Ele não comprou uma história, uma paixão ou nada parecido, comprou uma grife. E, imagino, ganhou muito dinheiro.

domingo, 1 de junho de 2014


01 de junho de 2014 | N° 17815
TRANSPARÊNCIA ZH

APOIAMOS A COPA, SIM! MAS COM VISÃO CRÍTICA

Zero Hora apoia a realização da Copa do Mundo no Brasil desde outubro de 2007, quando a Fifa anunciou oficialmente a escolha do país como sede da competição. Antes mesmo de qualquer projeto editorial e publicitário, o jornal viu no fato uma grande oportunidade para o país e para o Estado, pois um Mundial de futebol dá visibilidade ao país-sede, atrai turistas, movimenta a economia e deixa um legado de modernização nas cidades que recebem os jogos. Com a aproximação do evento, o jornal e os demais veículos do Grupo RBS mantiveram suas visões editoriais independentes e implementaram seus planos de cobertura respaldados por patrocínios e vendas de publicidade no modelo de negócio que sustenta as empresas de mídia.

A Rádio Gaúcha é a única emissora do Estado com direitos de transmissão das partidas com equipes próprias porque desembolsou a quantia de R$ 1,2 milhão pelos direitos de transmissão da Copa das Confederações e da Copa do Mundo. Da mesma forma, a RBS TV transmitirá a Copa para o Rio Grande do Sul e Santa Catarina em decorrência de sua afiliação à Rede Globo, detentora dos direitos dessa e das Copas de 2018, na Rússia, e de 2022, no Catar. Isso não significa exclusividade. No Brasil, por exemplo, os jogos também serão transmitidos pelos canais SportTV, ESPN Brasil, Fox Sports e Rede Bandeirantes. 

O custo é elevado. No total, considerando-se os gastos com cobertura, pessoal, viagens, eventos e equipamentos, o Grupo RBS investirá cerca de R$ 40 milhões no Mundial.

O apoio institucional dos veículos da RBS não inibe seus comunicadores de se posicionar livremente em relação à Copa nem interfere na cobertura independente e crítica de seus jornalistas. Observe-se, por exemplo, a evolução do tratamento dispensado ao evento por ZH. Para o jornal, num primeiro momento, a Copa era uma oportunidade de os brasileiros absorverem e aplicarem conceitos de planejamento e realização de projetos de complexidade inédita e extrair benefícios duradouros para todo o país. Com o passar do tempo, porém, foi ficando claro que as metas, por incúria e ineficiência, não seriam cumpridas em quase nenhum campo, e o jornal passou a cobrar e a lamentar a perda dessas oportunidades.

Ao mesmo tempo em que, apesar das críticas, o jornal nunca deixou de acreditar nos benefícios da Copa, alguns de seus mais destacados colunistas se mostraram, desde o primeiro momento, contrários à realização do Mundial no Brasil. O mais notório dos opositores tem sido Paulo Sant’Ana, que já em 2007 não enxergava capacidade e necessidade de o país organizar um evento desta natureza e dimensão. 

Na época, dissonante da maioria da opinião pública, a oposição de alguns colunistas rendeu ataques a eles, que, como é praxe na empresa, sempre tiveram plena liberdade de manifestação. Este aparente paradoxo chegou a ser exposto por ZH em uma campanha publicitária que apresentava a discordância entre a opinião do jornal e a de seu mais conhecido colunista como exemplo de autonomia e pluralismo. Posteriormente, Sant’Ana optou por uma trégua nas críticas.

Desde o final da Copa na África do Sul, Zero Hora assumiu a visão de que deveria fazer uma grande cobertura do Mundial brasileiro. A cobertura não se apropriou de um tom ufanista, mas em seu início falhou em não dar mais visibilidade a moradores descontentes e a antecipar a ineficiência que levaria a atrasos e transtornos provocados pelas obras. Mesmo assim, o jornal deixou claro que não acompanharia burocraticamente o avanço das obras e inaugurou em 2011 o Copômetro, uma seção que, usando bolas murchas, meio vazias ou cheias, fiscaliza as promessas e o ritmo das obras.

Em outra ocasião, o jornal e o Grupo RBS se viram como parte do encaminhamento da solução para a reforma do Beira-Rio e da manutenção da Copa no Estado. Em um churrasco na sede da empresa, depois de meses de obras paradas no estádio, encontraram-se o ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, o prefeito José Fortunati e os presidentes de Inter e Grêmio. Ali ficou claro que a Copa em Porto Alegre estava por um fio e alguns convidados saíram do churrasco com ânimo renovado para negociar com a construtora Andrade Gutierrez o fechamento do acordo que finalmente daria sequência às obras do Beira-Rio.

Na cobertura jornalística, há duas grandes equipes do grupo atuando em paralelo. Uma é formada pelos jornais e rádios e suas extensões digitais, que se integram na chamada Liga dos Fanáticos. A outra é composta pela RBS TV, que se afilia à cobertura da Rede Globo, com espaços e características próprias. O time da Liga dos Fanáticos conta com cerca de 60 profissionais credenciados, um recorde (na África, foram 22).

Esta é a maior e mais dispendiosa cobertura já realizada pelos veí-culos da RBS, que se propuseram a surpreender o público com um conteúdo diferenciado e iniciativas inovadoras. A Rádio Gaúcha, por exemplo, terá equipes atuando ao vivo em todos os estádios em todas as partidas. A exclusividade na transmissão radiofônica, entretanto, gerou ataques de veículos concorrentes e um procurador federal chegou a entrar com uma ação questionando esta condição. A iniciativa foi prontamente arquivada pela própria Justiça Federal, que reconheceu o direito da emissora.

Agora, quando nos aproximamos do auge de anos de discussão e preparação, o jornal defende que já não faz sentido se debater o apoio ou não à Copa. Em seu lugar, deve entrar o compromisso de se promover o melhor evento possível, extraindo-se dele os melhores benefícios coletivos possíveis. Desde já, porém, o jornal assume um novo compromisso. Quando acabar a festa da Copa, ZH seguirá cobrando a conclusão das obras e a preservação do legado do Mundial.