quinta-feira, 16 de julho de 2026

16 de Julho de 2026
OPINIÃO - Douglas Martello

A Grande Porto Alegre no centro do debate

Presidente da Associação dos Municípios da Região Metropolitana de Porto Alegre (Granpal) e prefeito de Alvorada

Pela primeira vez em seus 41 anos de história, a Associação dos Municípios da Grande Porto Alegre (Granpal) reuniu pré-candidatos ao governo do Rio Grande do Sul e ao Senado Federal para discutir as pautas de interesse da Região Metropolitana. Foram dois debates realizados no Instituto Caldeira, com presença expressiva de lideranças políticas, autoridades e imprensa. Duas tardes ricas em propostas e ideias para a região mais populosa do Estado e uma das maiores do país.

Os números explicam por que essa conversa precisava acontecer. A Grande Porto Alegre soma hoje mais de 3,8 milhões de habitantes em 27 municípios e responde por 40% do PIB gaúcho. É a região que concentra a maior parte do comércio, da indústria e dos serviços do Rio Grande do Sul. Quem gerir o Estado a partir de 2027 vai governar, na prática, o cotidiano dessa população. Daí a importância de que o próximo governador e os dois senadores eleitos assumam compromissos claros com a região.

O manifesto que a entidade entregou aos pré-candidatos nas duas ocasiões reúne as principais angústias dos prefeitos, e cada uma delas tem endereço na vida do morador. O sistema de proteção contra cheias, prioridade absoluta depois de tudo o que a região viveu em 2024, decide se uma família dorme tranquila quando a chuva se intensifica. A integração do transporte metropolitano define quanto tempo o trabalhador que cruza municípios todos os dias passa dentro do ônibus, longe de casa. E a aplicação de pelo menos 12% do orçamento em saúde se traduz em fila menor no posto e atendimento mais ágil no hospital.

O que aperta o sapato dos prefeitos é o mesmo problema que bate à porta do cidadão. Ao colocar a questão metropolitana no centro da campanha, a Granpal cumpriu seu papel. As luzes, desta vez, se voltaram para as nossas cidades. Os pré-candidatos ouviram, apresentaram propostas e assumiram posições públicas. Cabe agora aos prefeitos e a cada eleitor da região fiscalizar e cobrar que os compromissos de hoje virem ação de quem for eleito. 

Pirataria de sementes: um risco adicional para a agricultura
Catharina Pires - Diretora de Biotecnologia e Germoplasma da CropLife Brasil

As enchentes de 2024, maior catástrofe climática da história recente do Rio Grande do Sul (RS), destruíram 110,3 mil hectares de soja e impactaram mais de 48 mil produtores de grãos, reduzindo a safra em 2,71 milhões de toneladas, cerca de 12,2% da produção estimada para o Estado, segundo dados do Ipea e governo local. Os gaúchos conhecem bem o peso de uma safra perdida.

Por isso, riscos evitáveis precisam ser eliminados, e a pirataria de sementes é um deles. No Brasil, cerca de 11% do mercado de sementes de soja é de origem ilegal, com prejuízos de R$ 10 bilhões ao ano, segundo estudo da Consultoria Céleres/CropLife Brasil. No RS, o índice chega a 28% da área plantada, quase o triplo da média nacional. O quadro é ainda mais preocupante porque o Estado enfrenta estiagens, excesso hídrico, doenças e variações de temperatura.

A semente é o ponto de partida da produtividade agrícola. Na soja, ela carrega o potencial genético da planta e anos de pesquisa e desenvolvimento, testes em campo, controle de qualidade, rastreabilidade e tecnologia. O uso de insumos ilícitos não oferece nenhuma dessas garantias e compromete a produtividade, a segurança fitossanitária, a inovação e a sustentabilidade da agricultura.

A pirataria adiciona risco a um sistema pressionado por clima, custos, crédito, seguro rural, logística e volatilidade de preços. Produzido à margem da lei, o material não tem garantia fisiológica, nem documento fiscal. Também não remunera a cadeia de produção de sementes, desestimulando investimentos em P&D, melhoramento genético e biotecnologia. Na lavoura, compromete o desenvolvimento, reduz o vigor e aumenta a exposição a pragas e plantas daninhas.

Combater a pirataria de sementes é defender a propriedade intelectual, proteger a eficiência produtiva, a renda do agricultor, a sanidade da lavoura e a capacidade do Brasil de continuar inovando em agricultura tropical. No RS, onde o campo já enfrenta grandes desafios, proteger a legalidade é também defender a recuperação, a competitividade e o futuro do agro gaúcho. _

Direto da Redação
Tulio Milman - O voto grisalho

Existe uma força política crescendo no Rio Grande do Sul sem fazer barulho. Está em toda parte, aumenta de eleição para eleição e já representa mais de um quinto do eleitorado gaúcho: são as pessoas com mais de 60 anos.

Durante muito tempo, esse segmento foi tratado pelo poder público como destinatário de favores. Um banco na praça, uma fila preferencial, uma homenagem no mês de outubro. É pouco. E é também uma forma disfarçada de paternalismo e de preconceito. Pessoas maduras não precisam de condescendência. Precisam de cidades nas quais consigam viver com autonomia.

O Rio Grande do Sul chegou ao ponto de inflexão demográfica. A projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indica que, em 2026, começou a queda no crescimento populacional do Estado. Ao mesmo tempo, a população envelhece. Essa combinação mudará quase tudo, mas um dos impactos mais visíveis estará na mobilidade urbana.

Será preciso rever o tempo dos semáforos, os locais de travessia, os degraus, o acesso aos ônibus, a altura das plataformas e a distância entre os pontos de transporte. E, sobretudo, será preciso enfrentar o escândalo das calçadas de Porto Alegre. Muitas delas são um atentado cotidiano contra idosos, pessoas com deficiência e qualquer cidadão com dificuldade de locomoção. Buracos, desníveis, pedras soltas e obstáculos transformam uma caminhada simples numa prova de risco.

Essas mudanças podem ser feitas por inteligência, planejamento e respeito. Ou serão impostas pela pressão política. Quando os gaúchos com mais de 60 anos perceberem que não formam um grupo frágil, mas uma potência eleitoral, a relação com prefeitos, governadores, presidentes, deputados e senadores mudará.

Quem entender isso antes poderá melhorar as cidades e será reconhecido por isso. Quem continuar tratando envelhecimento como assunto de assistência social, e não de infraestrutura, autonomia e cidadania, pagará nas urnas. O voto grisalho ainda fala baixo. O futuro já começou a cobrar. Mas já tem força para varrer muita gente do mapa. 

OPINIÃO

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