quinta-feira, 16 de julho de 2026

16 de Julho de 2026
ROGER LERINA

Argentinidade

É como se fosse um sonho perturbador: ando pelas ruas cercado de bandeiras da Argentina nas janelas das casas, vitrinas das lojas, para-brisas dos carros; todos os aparelhos de televisão exibem entrevistas com jogadores da seleção enquanto comentaristas papagueiam seus prognósticos; como o Grande Irmão de 1984, Lionel Messi me vigia em qualquer lugar estampando anúncios em que comemora um gol ou vende algum produto. "Cerrado", informa na porta do café a plaquinha com o craque sorrindo e segurando um cartão de crédito. Em Buenos Aires por estes dias, a argentinidade é quase tóxica.

Estou em uma das cidades que mais amo por conta de um encontro familiar para comemorar o aniversário da minha sobrinha, nascida e criada na Argentina. Calhou de a celebração coincidir com o Mundial e, mais notável ainda, com o avanço heroico de La Albiceleste no campeonato. Como era de se esperar, a capital portenha está tomada pelo espírito da disputa futebolística e pelas vitórias que estão embalando o time rumo à final. 

Escrevo no dia do jogo da Argentina contra a Inglaterra, que vai definir o adversário da Espanha na final e que carrega, para além da rivalidade esportiva, as cicatrizes históricas, políticas e sociais deixadas pela Guerra das Malvinas em 1982, quando mais de 600 argentinos morreram defendendo as ilhas que os britânicos chamam de Falklands. (Vou assistir à partida em um bar. Aguardem a coluna da semana que vem para saber se sobrevivi.)

Penso como estariam Porto Alegre e outras grandes cidades brasileiras hoje se a nossa seleção não tivesse naufragado. Certamente também estaríamos tomados pelo sentimento de triunfo - creio, porém, que essa manifestação seria diferente daquela dos argentinos. Cada povo tem uma forma própria de expressar seu amor pátrio, e mesmo no seio das nações as identidades são várias e não raro antagônicas entre si. 

O argentino é um tipo culto, cosmopolita e europeizado como Jorge Luis Borges, mas também é um sujeito do campo, ligado à terra e aferrado às tradições, qual tantos personagens dos contos do grande escritor; pode ir de Buenos Aires a Paris em um pulo como Horacio Oliveira em O Jogo da Amarelinha, romance de Julio Cortázar, ou permanecer afundado na miséria latino-americana como o pequeno Juanito Laguna dos quadros do pintor Antonio Berni.

Mas é melhor interromper essas divagações por aqui: Messi já está me olhando com aquela cara feia que fez para o atacante holandês logo após a partida das quartas de final da Copa no Qatar, em 2022, dizendo "¿Qué mirás, bobo? ¡Andá pa? allá!". _

roger.lerina@gmail.com

ROGER LERINA

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