sábado, 12 de setembro de 2026

 

12 de Setembro de 2026
CARPINEJAR

O galo que mandava em casa

Eu encontrei, num brechó, aquele galo que já me anunciou muitos amanheceres. Um pequeno galo que cabia na palma da mão e determinava nossas roupas, se sairíamos de casaco, de guarda-chuva, de galochas.

Nem a minha mãe ou o meu pai mostravam tanta influência. Ele mudava de cor conforme a umidade do ar. Não media propriamente a temperatura, mas era como se fosse nosso meteorologista.

Ficava numa base arredondada, num poleiro particular, pronto para farejar os ventos.

Se o galo de verdade cantava quando a claridade do dia chegava, aquele detectava o minuano silenciosamente. Azul indicava clima seco; rosa nos orientava para o toró e para o frio. A percepção dessas alterações vinha de sais de cobalto em sua plumagem.

O galinho ocupou, durante longo tempo em nosso Pampa, o posto do pinguim em cima da geladeira. Uma superstição doméstica que virou decoração, ou uma decoração que se tornou crendice.

Poderíamos observar as nuvens tomando o céu, e somente acreditávamos no seu aspecto violeta. Poderíamos estar debaixo de um sol acachapante, mas somente confiávamos no seu perfil rosado.

No nosso terreiro, ele mandava.

Fazia parte de uma família de utensílios que modelavam o nosso comportamento no interior do Estado: a maçã de plástico no filtro de barro; a folhinha do calendário atada por uma chapinha metálica; o descanso do pano de prato na tampa de vidro do fogão; o bordado com miçangas nas pontas para espantar as moscas e cobrir a cesta de pão ou o bolo recém-tirado do forno; 

a passadeira de plástico transparente sobre a mesa, para não sujar a toalha bonita; a saboneteira com sabonetes cenográficos, perfumados, que ninguém tinha autorização para usar; o rolo de papel higiênico reserva escondido na bonequinha de crochê; o porta-fósforos preso à parede da cozinha; o porta-pente de tecido pendurado no banheiro, em que cada andar ou bolso trazia um pente de um tamanho diferente; 

a cortina de contas na porta, denunciando quem passava; o tijolo segurando a porta dos fundos para não fechar; o escorredor de louça com pratinho em pé; a garrafa térmica com café açucarado para a manhã inteira; o tapete da área de serviço feito de retalhos, que se enrodilhava numa leve pisada.

Somos vulneráveis para a nostalgia. Uma miniatura me devolveu os anos da minha formação. Ativou a memória involuntária. Num secreto estímulo sensorial, reconstituiu a minha casa da infância de maneira repentina.

Não revisitei apenas os objetos, mas os ruídos, os cheiros, as vozes, a sensação de transitar por um mundo extinto, como se houvesse uma ressurreição possível ao menino que fui.

Jamais é só um galo. Puxei uma pena e recebi toda a residência de volta. Metade construção, metade madeira; metade verão, metade inverno.

Ele deve ter também o poder de regular a temperatura do meu corpo. Aqueceu-me como nunca de frentes geladas da ausência. Ou de uma presença remota, sempre prestes a aparecer. _

CARPINEJAR

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