sábado, 12 de setembro de 2026

12 de Setembro de 2026
EM FOCO

EM FOCO

André Mendonça retira sigilo de relatórios. Inquérito apura suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção no financiamento do filme Dark Horse. Eduardo Bolsonaro é apontado como gestor de recursos nos Estados Unidos

Flávio Bolsonaro é investigado no caso Master

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a abertura de um inquérito policial para apurar a participação do senador e candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em supostos crimes no financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia de seu pai, o ex- presidente Jair Bolsonaro.

Flávio foi incluído em 22 de julho na investigação que apura o repasse para custear a produção do filme de R$ 62 milhões pelo banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, mas isso só veio a público na manhã de sexta-feira. A investigação apura suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Flávio rechaça qualquer irregularidade na captação dos recursos (confira ao lado).

O ex-deputado Eduardo Bolsonaro também é alvo da investigação. Ele é apontado como possível beneficiário de parte do dinheiro. Eduardo foi citado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por orientar a gestão dos recursos do filme nos Estados Unidos. O inquérito foi aberto a pedido da Polícia Federal (PF) e recebeu o aval da PGR.

A existência de inquérito tendo Flávio como alvo direto veio à tona após Mendonça levantar o sigilo, na noite de quinta-feira, de procedimentos de investigação derivados da Operação Compliance Zero, que apura a corrupção de agentes públicos e fraudes financeiras bilionárias supostamente praticadas por Vorcaro e seu grupo.

Após a autorização para a abertura da investigação de Flávio ter sidoo tornada pública, o teor do inquérito também foi liberado, assim como outras apurações envolvendo o Master (veja na página 6). Mendonça tirou o segredo de Justiça dos documentos a pedido do presidente do STF, ministro Edson Fachin, que na noite de quinta-feira requereu a publicidade da investigação do Master, "ressalvado apenas o que diga respeito a diligências cujo sigilo seja imprescindível à realização da medida".

Veio a público também, por exemplo, relatório enviado ao Supremo apontando suspeitas envolvendo o ministro Dias Toffoli e um fundo que recebeu R$ 35 milhões ligados a Vorcaro (leia mais na página 6). Além disso, os relatórios indicam que Vorcaro soube antecipadamente da operação e apontam que dois ex-servidores do Banco Central (BC) teriam atuado como consultores do empresário mediante pagamento (leia mais na página 7).

Em áudios revelados pelo Intercept Brasil, Flávio pediu R$ 134 milhões a Vorcaro para custear o projeto da produção do filme Dark Horse. Desse total, mais de R$ 60 milhões foram pagos, segundo a PF.

No Supremo, correm duas investigações distintas sobre o financiamento do filme: uma sobre o custeio da obra com emendas parlamentares, que tramita no gabinete de Flávio Dino, e outra que acompanha os desdobramentos do caso Master, sob a alçada de Mendonça. É nessa segunda investigação que está inserida a apuração que atinge Flávio.

Segundo a PF, Flávio teria se encontrado com Vorcaro em agosto do ano passado, pouco mais de duas semanas antes de o senador cobrar o empresário sobre os pagamentos previstos para a produção do longa sobre Jair Bolsonaro. Conforme a PF, dados extraídos do celular de Vorcaro mostram que o banqueiro enviou a Flávio uma mensagem com um horário para um "provável encontro presencial entre ambos". Na sequência, o senador respondeu: "A caminho".

Recentemente, Mendonça homologou a delação premiada de Antonio Carlos Freixo Júnior. O empresário é dono da Entre Investimentos e Participações, que, segundo a investigação, foi usada para repasses de dinheiro entre Vorcaro e a produção do filme. Segundo o jornal O Globo, Freixo Júnior confirmou à PGR ter feito, a pedido de Vorcaro, sete transferências para o fundo Havengate que somaram US$ 12,3 milhões, cerca de R$ 62 milhões.

Os investigadores apuram o destino final desses recursos e se o dinheiro serviu para cobrir despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Documento da Procuradoria destacou mensagens enviadas por Eduardo a Thiago Miranda, que seria o contato entre o ex-deputado federal e Vorcaro.

"O ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para os EUA é tranquilo. Se a empresa brasileira a enviar aos EUA não tiver aquele grande orçamento que mencionamos como exemplo, será problemático, vai ser necessário fazer as remessas aos poucos e isto tardaria cerca de seis meses, calculamos", escreveu Eduardo.

Segundo a PGR, o ex-deputado teria coordenado o dinheiro para o filme do pai nos Estados Unidos, onde mora desde março do ano passado. "A autoridade policial levanta a hipótese de que Eduardo Bolsonaro orientou a gestão dos recursos em solo estrangeiro", diz o órgão. _

Candidato nega irregularidade e diz que repasses são "relação privada"

O senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) afirmou na sexta-feira que considera "positivo" o fim do sigilo do inquérito do Supremo Tribunal Federal (STF) que investiga o financiamento do filme Dark Horse.

Segundo Flávio, a abertura dos dados deve confirmar que não houve irregularidades na produção e que os pagamentos se tratam de uma "relação privada".

- Quero transparência em tudo, porque vou só confirmar o que eu sempre falei, que não tem justamente nada de errado com relação ao filme, diferente de relações de muita gente do atual governo que tentaram de alguma forma beneficiar o Banco Master - afirmou.

A declaração foi dada pelo presidenciável durante entrevista coletiva após visita a uma fábrica de motocicletas em Manaus.

O senador evitou responsabilizar o ministro André Mendonça pela decisão que autorizou a abertura de investigação sobre sua relação com o financiamento do filme Dark Horse.

Ele afirmou que o ministro "está certo" e que apenas cumpre seu papel de juiz.

- Eu queria muito que todos no Supremo fossem iguais ao André Mendonça, que não pesassem para lado nenhum, investigassem tudo, todo mundo com transparência - declarou, completando:

- Peço ao ministro André Mendonça, abra sigilo, sabe, tira o sigilo de tudo, mostra tudo para o povo.

"Nada a esconder"

Flávio afirmou que não tem "nada a esconder" e voltou a sustentar que o dinheiro recebido foi um patrocínio privado para a produção do filme.

- No filme do Bolsonaro, não tem um real, não tem nada pra Flávio, tem patrocínio pra um filme privado - insistiu o candidato.

Ele disse ter "muita tranquilidade" a respeito da investigação e que o caso será "sempre mais do mesmo". E classificou a apuração como uma tentativa de desestabilização de sua candidatura durante a eleição presidencial. 

Preferência pelas "suíças"

Rosane de Oliveira

A investigação sobre o escândalo do Master contém fartas referências a festas patrocinadas por Daniel Vorcaro para homens a quem ele pretendia agradar - ou corromper. A principal atração dessas festas, regadas a bebidas caras, eram as mulheres, jovens e bonitas, brasileiras e estrangeiras, para animar os convidados.

Com base nas mensagens encontradas no celular de Vorcaro, a revista Piauí reconstituiu a organização de uma dessas festas, no Halloween de 2023, em São Paulo. O responsável pelos convites era Fábio Faria, ex-ministro de Jair Bolsonaro, convertido em uma espécie de "personal cafetão" de Vorcaro.

A contratação das modelos ficou a cargo do promotor de eventos Tiago Polo. Pela troca de mensagens, sabe-se que eram 20 homens e 120 mulheres. "Só novinhas", recomendou Vorcaro a Polo, resumindo uma exigência para a seleção das contratadas.

De acordo com a troca de mensagens, entre os convidados estavam o então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, o atual, Davi Alcolumbre, o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, e um certo Wesley, que pelo contexto seria o empresário Wesley Batista.

Dois outros nomes são citados sem o sobrenome - Arthur e Alexandre, que, também pelo contexto da conversa com Fábio Faria, seriam Arthur Lira, ex-presidente da Câmara, e o ministro Alexandre de Moraes. Todos os que responderam aos questionamentos da Piauí juram que não foram à dita festa, realizada na casa noturna Madame Satã, no bairro Bela Vista.

Quando discutiam sobre os convites, Faria escreveu a Vorcaro: "Davi tá louco perguntando se as suíças vão vir. Se der vms trazer". Em resposta à presença das "suíças", Vorcaro respondeu: "Virão, sim". As contratadas e os convidados não podiam entrar com celular, para evitar a exposição.

A preferência pelas "suíças" tinha uma razão de ser: não falavam português e, portanto, não tinham como passar adiante o que os homens conversavam. 

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