sexta-feira, 4 de abril de 2014


04 de abril de 2014 | N° 17753
PAULO SANT’ANA

As chances

Ninguém é culpado por ter nascido. Sendo assim, pergunto a cada um de meus leitores e leitoras: foi melhor você ter nascido?

Se de uma parte foi bom que tivéssemos nascido, por outra não foi bom.

Os momentos felizes que tivemos justificam nossa existência. Mas e as dificuldades ou desgraças por que passamos não nos levam à conclusão de que seria melhor que não tivéssemos nascido?

De qualquer sorte, é positiva a aventura da vida.

Foi melhor termos nascido homens ou mulheres? Ou, tendo sido homem, invejamos as mulheres e vice-versa?

De minha parte, eu queria ter nascido e nunca ter deixado de ser criança. Ou seja, eu nunca queria ter tido responsabilidade. E nunca teria perdido a inocência e a pureza.

Você queria ter nascido branco ou ter nascido negro?

Você queria ter nascido inculto ou sábio?

Eu, por exemplo, queria ter nascido burro, com isso sofreria menos.

Não tendo nascido burro, no entanto, isso me trouxe enormes dificuldades por ter solvido enigmas que me fariam feliz se eu os desconhecesse caso não os tivesse decifrado.

Se eu fosse burro, me irritaria menos com a burrice alheia.

Só que, às vezes, desconfio de que sou burro, tanto que me casei duas vezes. Ou seja, tive a oportunidade de ser feliz quando me casei pela primeira vez e podia ter ficado solteiro me separando. Mas não. Separei-me de uma mulher para casar-me com outra, existe maior burrice que a burrice dupla?

Se eu fosse negro, outro exemplo, teria maior chance de não ser racista. Em compensação poderia ser discriminado por racismo.

Se eu fosse homossexual, não teria filhos e isso me diminuiria as despesas e ao mesmo tempo me despreocuparia com as obrigações com a prole.

Se eu fosse covarde, isso me livraria das estultices da valentia.

Se eu fosse protestante, não teria o trabalho de ter de venerar os santos.

Se eu fosse ciclista, teria maiores chances de ser atropelado.

Se eu fosse pedestre, é certo que também seria atropelado, embora não tivesse de gastar com emplacamento, habilitação para motorista, gasolina.

Se eu fosse insensível, não amaria, o que seria uma vantagem por não ter ciúme nem sofrer jamais a dor terrível de perder um dia a mulher amada.

Se eu não fosse humano e fosse um animal, será que compreenderia melhor os homens? O certo é que compreenderia melhor os próprios animais.


Se eu fosse colorado, não teria tido a ventura suprema de ser gremista.

04 de abril de 2014 | N° 17753
DAVID COIMBRA

Eu tenho direito

Li que a presidente Dilma quer rigor de pedra nas punições de crimes cometidos contra a mulher. Isso motivado por aquela pesquisa que fez o país estremecer de santa indignação: a maioria dos brasileiros (e das brasileiras) acha que a mulher merece sofrer abuso sexual se estiver usando roupas provocantes.

Dilma está certa no específico. Só no específico. Porque essa forma dos brasileiros de ver a mulher não é a forma dos brasileiros de ver a mulher; é a forma dos brasileiros de ver a vida.

O brasileiro acredita que tem direito de bolinar uma mulher de minissaia porque ele tem uma consciência altamente desenvolvida e maleável a respeito dos seus direitos. Ele foi treinado para isso. “Lute por seus direitos”, dizem para o brasileiro todos os dias. Ensinaram ao brasileiro que, lutando por seus direitos, ele se tornará um cidadão. Então, o brasileiro é um tigre para defender os SEUS direitos, mas em nenhum momento passa-lhe pela cabeça de que existe uma remota, uma ínfima possibilidade de que ele também tenha deveres.

O grevista tem direito a fazer piquete, o ciclista tem direito a mais espaço no trânsito, o empresário tem direito a uma política fiscal justa, o desempregado tem direito a uma vida melhor. Todos eles têm razão. Tendo razão, eles estendem seus direitos até esbarrar nos direitos dos outros. O piqueteiro espanca o fura-greve, o ciclista fecha a avenida, o empresário sonega imposto, o desempregado assalta e vende droga.

Que diferença existe entre todos esses, e muitos mais, para o homem que tem direito a uma vida sexual ativa e estende seu direito para atacar uma mulher que ele deseja, mas não possui?

O brasileiro é o povo do direito estendido e do dever nenhum.

Eu quero uma vida melhor, eu quero um salário maior, eu quero pagar menos impostos, eu quero andar de bicicleta, eu quero aquela mulher. Querer é poder. Lute pelo seu sonho. Lute por seus direitos. Seja feliz!

Os pais dos brasileirinhos repetem sempre: “Eu quero que meu filho seja feliz. O importante é que ele seja feliz”. Kant não concordaria. Kant dizia que o importante não é ser feliz, é merecer a felicidade. Na falta de um Kant tropical, como o brasileiro vai compreender que a extensão dos seus direitos até o rompimento com seus deveres é, em si, um mal? Dilma deu a resposta: com punição. Não punição severa, não punição inclemente, não punição vingativa, nem mesmo punição intolerante: punição justa.

Se você está na Inglaterra ou nos Estados Unidos e disser algo ofensivo a uma mulher de minissaia, ela chamará um policial e o policial poderá até prendê-lo. Se você resistir, o policial o derrubará no chão, pisará em seu pescoço, o algemará com as mãos às costas e o levará preso. Na cadeia, você será tratado talvez com dureza e certamente de acordo com a lei.

Aqui, o policial iria para o YouTube. “Fuck polícia”, alguém picharia na parede da delegacia. Aqui, um black bloc cospe no policial. Mas, aqui, se o policial levar black bloc infrator para a cadeia, pode acontecer com ele o que aconteceu com Amarildo. Ele pode ser seviciado, ser espancado e nem voltar para casa.


A lei. O Estado tem que fazer cumprir a lei. E tem que agir estritamente dentro da lei. Um Estado atento, vigilante, mas justo. Um Estado que protege os direitos e faz cumprir os deveres. Simples de entender. Mas, como se vê, complicado de fazer.

quinta-feira, 3 de abril de 2014


03 de abril de 2014 | N° 17752
EDITORIAIS

Enredado nas leis

Os justos apelos surgidos depois da tragédia da boate Kiss, para que a legislação anti-incêndio fosse mais clara e rigorosa, levaram a um impasse. A Assembleia Legislativa aprovou uma lei de fato mais efetiva, em relação às normas vigentes, mas os avanços também provocaram retrocessos quando da sua execução.

Há conflitos entre as leis municipais e a sancionada para todo o Estado, agravados por interpretações desencontradas e, é claro, muita burocracia. Leis que deveriam contribuir para a prevenção e a reparação de danos acabam se transformando num emaranhado de regras. Um dos entraves mais visíveis e com efeito imediato é o que atrasa a liberação de processos. Calcula-se que só em Porto Alegre mais de 2 mil demandas estavam represadas até a última segunda-feira, quando surgiu uma solução negociada.

A tragédia da boate Kiss desencadeou iniciativas corretivas na legislação em todo o país. As autoridades gaúchas, de prefeitos a vereadores, deputados e ocupantes de cargos executivos estaduais, aliaram-se a especialistas e ao Corpo de Bombeiros para que as falhas constatadas fossem corrigidas. O setor público demonstrou agilidade para oferecer respostas. As normas tiveram, como enfatizam os envolvidos na sua elaboração, a preocupação com as medidas preventivas. Mas, a partir da execução, surgiram os atritos, muitos dos quais decorrentes inclusive da falta de regulamentação.

Há, em especial entre as empresas da construção civil, natural apreensão com os prejuí-zos que as divergências vêm causando. Ressalte-se, no entanto, que não só a indústria do setor imobiliário, mas praticamente todas as atividades são de alguma forma tumultuadas pelas desavenças. Todos os que se dedicaram com afinco à formulação da nova lei devem agora contar com a colaboração de quem está com a atribuição de fazer com que seja cumprida. Desqualificar o que foi feito, em consequên-cia dos desacertos, certamente é a pior saída.



03 de abril de 2014 | N° 17752
FÁBIO PRIKLADNICKI

Enganei o Facebook

Há um conhecido ditado entre especialistas em privacidade e segurança na internet: se você não está pagando por um serviço é porque você é o produto. Em troca do uso de redes sociais, caixas de e-mail e máquinas de procura, aceitamos ter nossas informações pessoais comercializadas para quem estiver disposto a pagar por isso, como agências de marketing, ou estiver disposto a obter à força, como órgãos de inteligência de governos.

Uma das impressionantes informações vazadas por Edward Snow- den, ex-prestador de serviços da Agência Nacional de Segurança, é que o famigerado serviço secreto norte-americano obteve acesso direto aos servidores das grandes corporações de tecnologia (o que foi negado pela NSA).

Hoje, precisamos não apenas preservar nossos dados das outras pessoas, mas também das próprias empresas que nos oferecem serviços supostamente gratuitos. Em uma modesta tentativa de enganar o Facebook, troquei minha data de nascimento e meu gênero nas informações requeridas no perfil (e visíveis apenas aos técnicos da rede social). Tornei-me, aos olhos do Facebook, uma respeitável senhora de 44 anos.

Imediatamente passei a ser exposto a anúncios que alguém supôs que fossem do meu interesse. Sua cozinha sempre linda!, Pazes com a balança, Pílula de dieta exclusiva, Quer vender sua lava-roupas?, Casaquinhos charmosos, Celular velho nunca mais! e até Trabalhe no McDonald’s.

Percebi que estava sendo amador. Então, baixei uma extensão para o navegador que bloqueia anúncios. Mas é apenas o começo.

Se você não está paranoico com tudo o que está acontecendo é porque provavelmente não está muito bem informado. Tenho compartilhado essas ideias entre amigos e já ouvi argumentos despreocupados como: “Não tenho nada a esconder”. Mas a privacidade não é uma questão de ter ou não algo a esconder. Depois das revelações de Edward Snowden, está claro que não podemos delegar a segurança de nossas informações a empresas com políticas de privacidade obscuras e que mudam a toda hora – o que constitui boa parte dos serviços que você usa.


Não quero parecer demasiadamente apocalíptico, mas, cá entre nós, está na hora de migrar para sites que se comprometam conosco e de aprender a criptografar nossas comunicações. Afinal, eles estão por toda parte.

03 de abril de 2014 | N° 17752
PAULO SANT’ANA

A cesariana de Torres

Esse caso ocorrido em Torres é muito elucidativo, uma mulher foi obrigada pela Justiça a se submeter a uma cesariana, mas ela insistia, junto com seu marido, em que queria ganhar o nascituro pelo parto normal.

A mulher protestou que tinha sido sequestrada e foi levada pelo oficial de Justiça, acompanhado de seis policiais militares, para submeter-se à cesariana.

Fiquei sabendo então pelo promotor que, quando está ameaçada a vida da parturiente ou do feto se for feito parto natural, a Justiça pode mandar proceder à cesariana contra a vontade da mãe.

E aplaudi a atitude judicial. Em nome da preservação da vida, realizou-se um parto coercitivo.

Fiquei também sabendo que à parturiente cabe escolher se vai ter parto normal ou será por cesariana, ela é dona de vontade preponderante sobre o método.

Mas, se o parto normal – ou a cesariana – apresenta risco de vida ao nascituro, a Justiça pode determinar o parto alternativo.

Interessante isto: pela lei penal brasileira, toda pessoa é dona de sua vida e do seu corpo. Por exemplo, a lei penal não pune quem tenta o suicídio.

Só que no caso de Torres havia um componente interessante: a decisão da parturiente de se submeter somente a parto natural afetava risco à vida do feto, a Justiça tinha então o direito de proteger a vida do nascituro e determinou a opção favorável à sobrevivência da vida do bebê.

E usou da força, da coerção, para obrigar a mulher a submeter-se a uma cesariana.

Felizmente, após a cesariana, tanto a mãe quanto o bebê passam bem.

Mas eu tenho uma tese revolucionária sobre essa questão: a de que a Justiça pode mandar fazer a cesariana no caso de que o parto normal ameace a vida da parturiente e não a do feto.

Eu considero que o Estado tem o dever de evitar o suicídio de uma pessoa. Mais ainda: tem o dever de evitar que uma gestante morra num parto natural se ela insistir em parto natural mesmo sabendo que sua vida ficará assim ameaçada.

Minha tese é ousada: ela implica dizer que o Estado tem o dever de evitar que uma pessoa cometa o suicídio, mesmo ela sendo dona de sua própria vida.

Minha tese quer dizer o seguinte: qualquer pessoa pode tentar o suicídio e não será punida, mas o Estado tem o dever de preservar as vidas de todas as pessoas, até mesmo as vidas dos potencialmente suicidas.


Minha tese poderia ser veementemente debatida num congresso sobre Direito Penal e tenho certeza de que eu seria vencedor nessa discussão.

03 de abril de 2014 | N° 17752
L. F. VERISSIMO

Frente a frente

Eu sou um oficial do Exército brasileiro. Estou numa sala de interrogatório, cumprindo minha função, a de obter informações do inimigo. Por qualquer meio. Fui designado para fazer isso pelos meus superiores e sou um bom soldado. O inimigo a minha frente é um ser indefinido. Humano não é. É um subversivo, um desalmado, uma coisa abjeta. Ele e os outros animais como ele querem que o Brasil também seja uma coisa abjeta.

Se ele não estivesse aqui, estaria na rua, matando e conspirando, construindo a coisa abjeta. Mas está aqui. Frente a frente comigo. Tem a informação que eu quero e não tem como fugir de mim. Minha função é arrancar a informação dele por qualquer meio, para que o Brasil se livre deles. Para que a coisa abjeta não se crie.

Ele é um ser sub-humano, mas um ser sub-humano falante. E vai falar. Por qualquer meio, vai me dizer o que eu quero saber. Tenho toda a autoridade de que preciso para estar aqui, frente a frente com ele. Sou autorizado por cima, pelos meus comandantes até o mais graduado, por baixo pelo meu próprio asco, e pela História. Posso fazer o que quiser com o animal. É isto, enquanto salvo a pátria também estou exercendo a minha liberdade ao extremo. Não há limite para o que estou autorizado a fazer para arrancar dele a informação de que preciso, de que o Brasil precisa para que eles não vençam. Posso até matá-lo, está previsto.

Por descuido ou por intenção, não importa. Depois, é só cuidar para que ele nunca seja identificado, quebrando sua arcada dentária e cortando seus dedos. Meu poder sobre ele, sobre a sua vida e sua morte e a integridade final do seu cadáver, é absoluto. Total. E ali está ele, um ser reduzido à dor e ao medo, um bicho assustado. Talvez já tenha se borrado. Meu poder se estende até o movimento dos seus intestinos!

Se ele fosse um ser humano e não uma coisa abjeta, também teria uma noção filosófica do momento que estamos vivendo, ele e eu. Este sentimento de liberdade completa – a minha, do meu poder total sobre ele; a dele, da definição do seu destino nas minhas mãos – seria de ambos, perante a História. Diante da posteridade.


A posteridade... É, tem isto. Se a História não nos der razão, a posteridade vai nos pedir explicações. Vai querer que eu tenha remorso. Vai insistir que eu tenha remorso. Vai até me perdoar se eu tiver remorso. Mas se eu sou um sádico que deve explicações, se o que me move não é o horror à coisa abjeta que ameaça a pátria, então toda a cadeia de comando que começa lá em cima e termina no pau de arara é sádica e deve explicações. E deles não se ouve um pio de remorso. Eu? Estou apenas cumprindo ordens.

quarta-feira, 2 de abril de 2014


02 de abril de 2014 | N° 17751
MARTHA MEDEIROS

“Pedindo”

Estava caminhando pelo corredor do supermercado quando reparei na roupa da mulher à minha frente: ela estava de calça legging e um top de lycra. Naturalmente, dali iria para a academia de ginástica, ou havia acabado de voltar de uma. Como vou muito cedo ao súper, é comum eu encontrar várias mulheres em trajes esportivos, todos ajustados ao corpo por causa do material com que são confeccionados.

Foi então que me dei conta de que eu estava vestida do mesmo modo, já que em seguida teria aula de pilates. Contei: éramos algo em torno de sete mulheres no súper de manhã, de idades diversas, todas correndo risco de serem atacadas sexualmente assim que saíssemos de lá. Afinal, estávamos “pedindo”.

Corta para a saída do colégio da minha filha. O sinal bateu. Pelo portão, saem duas, três, nove adolescentes. Quase todas de short e blusa de alcinhas, aproveitando os últimos dias de calor pós-verão. Algumas iriam a pé para casa, outras de ônibus, circulando pelas ruas com pernas e barrigas de fora. Naturalmente, “pedindo”.

Acreditamos que as pessoas “pedem” para sofrer consequências. O menino que detesta futebol está pedindo para ser alvo de piadas homofóbicas, o ciclista que pedala numa rua movimentada está pedindo para ser atropelado, o turista que deixa seus pertences na areia enquanto mergulha no mar está pedindo para ser roubado. É um vício de linguagem que divide a culpa da violência entre todos – ninguém é vítima absoluta. Algo na linha “perdoa-me por me traíres”. Se você foi sacana comigo, é porque mereci.

Há uma grande diferença entre a contribuição que dou ao que acontece comigo – claro que isso existe – e o que é maldosamente confundido com contribuição a fim de atenuar a penitência do agressor. O resultado da pesquisa do Ipea que revelou que boa parte da população acredita que o modo de vestir de uma mulher justifica o estupro, é chocante e indefensável. Um homem que se prevalece desse argumento (“ela estava pedindo”), além de criminoso, é um covarde.

Da mesma forma, o fato de estarmos alarmados com os índices crescentes de corrupção e de a sociedade estar se organizando em manifestações contra o governo não significa que estejamos “pedindo” a volta da ditadura. Violentar a democracia também seria um estupro.


Má-fé. É ela que faz com que pessoas que não toleram a liberdade tentem reprimi-la usando a desculpa de estarem atendendo a “pedidos”. Liberdade ainda é uma palavra que assusta. Pessoas livres são consideradas irresponsáveis, por isso o impulso de enquadrá-las. Mas de responsabilidade os repressores entendem nada. Se entendessem, assumiriam os seus atos e pagariam integralmente por eles, em vez de tentarem repartir a conta da brutalidade com inocentes que estão apenas exercendo seu direito à cidadania.

02 de abril de 2014 | N° 17751
DIOGO OLIVIER

Descontaminação

O que é fundamental para o Grêmio hoje, em Medellín, diante do Nacional? Não se deixar contaminar pelo Gre-Nal. A foto de ZH, ontem, mostra um Barcos abatido no embarque. Compreensível, mas não pode ser assim no jogo. Luan precisa acreditar que será o que vinha sendo até o clássico da Arena, assim como Wendell. E não só os mais jovens.

Rhodolfo e Werley têm de limar da memória os três gols de cabeça do Gauchão (um do Brasil-Pel, dois de Rafael Moura). Até então, eles eram bastiões da defesa menos vazada da Libertadores. Enderson Moreira tem esquema e variações bem definidos, e com eles vai bem no grupo da morte. Mas hoje será decisivo ter a cabeça recuperada do inchaço dominical.

Tão importante como a vaga é mirar o primeiro lugar no grupo. A Libertadores se transforma nos mata-matas, e decidir em casa é quase tudo.

Concorrência vencida...

Saiu o nome da empresa que tocará a parte da prefeitura no piso do Beira-Rio. Empresas, no caso: é um consórcio, formado pela Procon Engenharia e a Coesul Pavimentação, Terraplanagem e Mineração.

O contrato será assinado hoje. As obras começam amanhã. As construtoras gaúchas venceram outro consórcio, desabilitado por oferecer preço maior do que R$ 8,8 milhões, preço base do edital.

...e ordem de acelerar

A determinação da Secretaria Municipal da Copa (Secopa) é acelerar onde serão erguidas as estruturas temporárias. As empreiteiras afirmam já ter condições de aprontar, entre 15 e 20 de abril, uma área capaz de atender um pedido expresso da Fifa: urgência na instalação de seus equipamentos de transmissão.

A promessa é entregar tudo até 22 de maio, data em que a entidade assume o Beira-Rio. A outra parte do piso, no valor de cerca de R$ 7 milhões, está sendo pavimentada pelo Inter por tratar-se de área privada.

Estacionamento

Uma área de 12 mil metros quadrados entre a praça dos fundos do Praia de Belas e o hotel Millenium servirá de estacionamento para a reinauguração do Beira-Rio.

O espaço, operado pela Moving Vinci Park, estará aberto no sábado, a partir das 12h, e no domingo, a partir das 8h. Capacidade: 600 automóveis. Preço, único: R$ 30.

Punição educativa

Sobre o episódio de racismo contra Paulão, repito o que venho dizendo. Não importa se é Esportivo, Grêmio, Inter, Corinthians ou Ararigboia. É preciso punição desportiva clara, além da esfera criminal. Do contrário, um, dois ou meia dúzia seguirão queimando o filme das instituições.

O dia que vier a pena sem medo, os milhares de torcedores do bem se unirão na patrulha aos racistas para evitar novas sanções ao time do coração. Tem outro jeito?

Cartas presidenciais


No dia 27 de março, Fábio Koff enviou correspondência ao presidente da CBF, Jose Maria Marin, oferecendo o Olímpico como campo oficial de treinamento das seleções na Copa. Em 31 de março, a resposta. “Após consulta à Fifa, proposta aprovada”. Nem menção à proposta de empréstimo feita pela CBF para o Grêmio concluir o CT, rechaçada por Koff.

02 de abril de 2014 | N° 17751
PAULO SANT’ANA

Maconha no bodoque

Um homem foi preso ontem pela manhã traficando maconha para dentro do Presídio Central por um estranho método: atirava o pacotinho de maconha por cima do muro com arremessos de estilingue.

Amarrava um pacotinho de maconha, usava o bodoque e o enviava por cima do muro do Presídio Central, certamente para um detento que o recebia lá dentro.

Quantos pacotinhos de maconha já terão sido enviados para a prisão por esse homem?

Vários pacotinhos de maconha formam, de repente, um quilo. E vários homens arremessando pacotinhos de maconha para dentro do presídio somam uma tonelada. Só para imaginar, calculo a soma eficiente desse estratagema. Uma tonelada de maconha pode ser enviada sobre o muro do presídio em menos de um ano, depende da frequência e habitualidade do método.

Agora mesmo, em São Paulo um drone mandou para dentro do pátio do Centro de Detenção Provisória de São José dos Campos 250g de maconha. A pequena aeronave despejou a maconha no quintal do presídio e foi embora. Um grupo de presos recolheu às pressas a encomenda, mas foram vistos por agentes penitenciários e a droga foi apreendida.

O leitor sabe o que é um drone? É um mini-helicóptero direcionado a um destino por controle remoto. Esses dias, houve aqui na RBS uma demonstração dessa aeronave espetacular.

Quantos drones já levaram que quantidade de maconha para esse presídio e outros tantos estabelecimentos prisionais em São Paulo e no país?

É impressionante a imaginação dos maconheiros prisionais para engendrar o tráfico de drogas.

Certa vez, Zero Hora noticiou que certos detentos do Presídio Central utilizavam de pombos-correio para transportar maconha e outras drogas para dentro da prisão.

É uma engenhosidade digna de admiração. Dura muitos meses o treinamento de pombos-correio.

As várias formas de driblar a lei e introduzir drogas no presídio transpõem os códigos de imaginação mais fértil.

Chego a pensar que fumar maconha ou consumir qualquer outra droga é muito mais fácil dentro do presídio do que aqui nas ruas.

Esse homem que foi preso ontem pela manhã arremessando bodocaços para dentro do pátio do Presídio Central será o único que se especializou nessa prática? Certamente não, por isso é que se torna espantoso para a opinião pública que se consuma tanta droga na prisão, um local que tinha de ser severamente vigiado.

Que nada! Não há o que a inteligência humana não invente para burlar a lei.


Já se disse que a prisão humana pode prender o corpo do preso, mas não consegue vigiar ou blindar a sua inteligência.

02 de abril de 2014 | N° 17751
DAVID COIMBRA

“O Inter chega melhor ao Gre-Nal 401”

Semana passada, às vésperas do Gre-Nal 400, a Editoria de Esportes de ZH pediu para que os colunistas do jornal respondessem à seguinte pergunta:

“Quem chega melhor para o clássico?”

Todos responderam, não sem antes fazer criteriosas considerações, que o Grêmio chegava melhor. Hoje, depois da vitória do Inter por 2 a 1, se me perguntassem: “Quem chegou melhor para o clássico?” Pois hoje, depois de saber o resultado do jogo, depois de ter visto a partida com atenção, hoje eu responderia: “O Grêmio”.

Por uma razão muito simples: o Grêmio chegou melhor para o clássico. Enderson Moreira havia errado pouco e a equipe fora testada contra adversários mais fortes do que os enfrentados pelo Inter.

Certo. Do clássico, o Inter saiu melhor. Venceu. No próximo, o 401, espero que a Editoria de Esportes me pergunte novamente: “Quem chegará melhor para o clássico?” Antecipo o que responderei, com toda a convicção: “O Inter chegará melhor para o clássico 401”.

Acredito que meus colegas colunistas responderão o mesmo. Acredito que todos dirão que o Inter está com o campeonato quase ganho, devido à vantagem amealhada na Arena. Isso significa que o Grêmio estará mais motivado, que nossas opiniões serão usadas no vestiário e que farão os jogadores do Grêmio superar as dificuldades e passar por cima do favoritismo colorado e conquistar o campeonato?


Não. Não significa nada disso. Significa apenas o seguinte: “O Inter chegará melhor para o clássico 401 no próximo dia 13”.

terça-feira, 1 de abril de 2014


01 de abril de 2014 | N° 17750
DAVID COIMBRA

Existem protozoários malditos, existem bactérias sórdidas e vírus assassinos. Existem balantidioses, giardíases, leishmanioses tegumentares e linfogranulonas. Existem coqueluches, difterias e tracomas. Existem moscas tsé tsé que causam a doença do sono, baratas rastejantes, ratazanas de esgoto, infinitos mosquitos e também bandidos à espreita debaixo de semáforos e nas portas dos bancos.

Existem pessoas que derramam cal no leite, pais que espancam menininhos, tios que abusam de sobrinhas, mães que fogem com o personal trainer e irmãos que roubam irmãos. Existem também diarreias, apneias, gonorreias e, para ficar na rima, Coreias como a do Norte, com pequenos ditadores que obrigam todos os homens a usar o mesmo corte de cabelo que ele usa, oh, que vida tão igual deve ser essa que se vive na Coreia do Norte.

Existe tudo isso, e o que o ser humano faz a respeito?

Tenta encontrar um sentido.

Essa é a reação do ser humano diante do Mal. A busca de um sentido. É comovente. As coisas ruins acontecem, e as pessoas se debatem para achar a lógica consoladora, para ver ali um merecimento ou uma culpa. E quando nem isso é possível, quando nem toda a razão explica o infortúnio, elas se conformam com o transcendental, com os Desígnios Insondáveis do Criador, com o Destino.

É muito humano isso, e muito belo. Mas nem sempre é real. Às vezes, as coisas ruins acontecem... simplesmente porque acontecem. E mesmo os seus erros, que eventualmente geram consequências nefastas e fazem-no se arrepender, nem os seus erros têm sempre serventia. Quer dizer: você pode não aprender nada com seus erros, pode até desaprender com as consequências deles e, o pior, em alguns casos, mesmo que você aprenda e evolua, mesmo que isso ocorra, não valeu a pena. O melhor seria não ter aprendido nada e não ter errado.

Mas não se desespere. Às vezes o Mal tem um sentido, às vezes o erro tem compensação. Às vezes você pode até antecipar e, assim, evitar o Mal, se ele for causado por um erro. Basta que você seja atento. Basta que você veja os sinais. E não estou me referindo a nenhum sinal sobrenatural, estou me referindo aos avisos emitidos por sua própria inteligência. Ou que deveriam ser emitidos por sua própria inteligência, quando você comete um erro.

Para trazer a conversa aqui para o rés do chão, que é onde nós estamos, vou usar o Gre-Nal como ilustração. No meio da semana, o Grêmio fez um jogo de erros contra o Brasil. Que foram os seguintes: perdeu o ímpeto depois de marcar o segundo gol e, ao perder o ímpeto, perdeu o controle do jogo; finalmente, sofreu um gol de cabeça, com o centroavante livre de marcação quase na pequena área. No Gre-Nal, o Grêmio repetiu os erros: arrefeceu depois de fazer um gol, mudou de comportamento e de ambição; e levou dois gols de cabeça com o centroavante livre de marcação quase na pequena área. O Grêmio foi punido porque seu técnico não viu os sinais.


Abel os viu. Em meio ao jogo, colocou Alan Patrick no time. Agora, já disse que vai mantê-lo. Abel aprendeu. Teve a humildade de aprender e mudar. Essa, aliás, é a maior qualidade de Abel: a humildade em reconhecer suas falhas. Mais fácil de lutar contra o Mal. Quando é possível lutar contra o Mal.

01 de abril de 2014 | N° 17750
LUIZ PAULO VASCONCELLOS

O deus do teatro

As festividades que deram início ao teatro na Grécia Antiga eram realizadas em honra a Dionisos, o deus do vinho, o espírito selvagem do contraste, da contradição, da bem-aventurança e do horror.

Dionisos era filho de Zeus com uma mortal, Sêmele. Levada pelo ciúme, Hera, a esposa de Zeus, sugere a Sêmele que peça ao deus que se mostre a ela em todo seu esplendor. Embora relutante, Zeus, para satisfazê-la, concorda em aparecer na forma divina e, quando o faz, Sêmele é imediatamente consumida pelas chamas provocadas pela intensidade da luz. O feto, porém, que estava no seu útero, é protegido por uma rede de folhas de parreira surgidas do solo no momento mesmo do aborto. Zeus, reconhecendo o caráter milagroso do acontecimento, recolhe o feto e o deposita na barriga de sua perna, onde, então, é gerado. Assim, Dionisos torna-se o único ser com um duplo nascimento – da mãe e do pai.

Para fugir da ira de Hera, a esposa de Zeus, Dionisos é criado longe da Grécia, em algum lugar da Ásia. E, para que não fosse reconhecido, fazem-no usar roupas femininas.

Quando cresce, Dionisos descobre a uva e aprende a fazer o vinho. Bebendo sem moderação, fica “doente”, mas amanhece curado, o que permite que o vinho seja novamente tomado e novamente a doença se manifeste, mas é novamente curado e assim indefinidamente, através dos séculos, aliás, até hoje.

Dionisos e seu séquito vagam pelo Egito, pela Síria e pela Índia até voltarem para a Grécia, quando então são introduzidos os rituais dionisíacos, também chamados de bacanais, festas em que o povo é tomado por um delírio místico, obviamente à custa de algum vinho, percorrendo os campos dançando e cantando, origem do que hoje chamamos de Carnaval. As procissões de Dionisos eram tumultuadas, e nas festas havia representações com máscaras, o que deu origem à tragédia e à comédia gregas.

No plano humano, consta que tudo começou ali pelo século 600 a.C., quando Tespis, o líder de um coro rural, saltou sobre o banco – saltimbanco, lembram-se do termo? – e referiu-se ao deus que celebravam, não na terceira pessoa, como era o costume, mas na primeira pessoa – “Eu sou o deus tal e fiz isso e aquilo...” – e o coro respondeu estabelecendo-se, assim, o diálogo, elemento fundamental para a narrativa dramática.


Teatro é isso! Contraste, conflito, confronto, festa, máscara, delírio, raciocínio, opinião, dúvida e certeza. Salve o 27 de março.

01 de abril de 2014 | N° 17750
PAULO SANT’ANA

Golpe manjado

Só faltava esta: tentaram manter preso, entre nós, um homem acusado de ser o assassino por uma testemunha que disse em primeiro lugar que era testemunha ocular, mas se negou a dar seu nome.

Felizmente, o juiz que decidiu sobre a sorte do acusado mandou soltá-lo imediatamente.

Então, que fique bem claro para sempre que a chamada testemunha ocular não pode ficar no anonimato.

Compreende-se que uma testemunha queira ficar anônima: ela teme por sua vida se vier a dar seu nome para um testemunho que vai incriminar um bandido. Essa testemunha tem fundadas razões e temores para não assinar seu nome num depoimento: teme que o acusado por ela venha vingar-se por isso.

Só que, sem assinar, sem dar seu nome a um depoimento, este não vale absolutamente nada.

Imaginem, por hipótese, uma testemunha chegar diante de um juiz e declarar o seguinte: “Excelência, eu vi com os meus olhos que foi Fulano que matou Sicrano. No entanto, não posso dar a Vossa Excelência o meu nome. O meu nome é meu, pessoalíssimo, não lhe fornecerei. O assassino o senhor já conhece porque eu estou lhe dando o nome, vi-o com meus olhos matando a vítima, mas a mim o senhor não conhece e eu não vou lhe dar o meu nome”.

Em suma, palavra de quem não se identifica perante a autoridade não é testemunho, é informação. Quem não assina o que afirma não é testemunha, é informante.

Por isso é que o juiz mandou acertadamente soltar o acusado.

Mudando abruptamente para o futebol, é manjadíssimo o golpe que dão alguns treinadores para enganar jogadores enganáveis.

Eles pegam recortes de jornal em que cronistas afirmam antes de um jogo que seu time vai perder de goleada e mostram para os jogadores serem ofendidos em sua honra profissional.

Muitas vezes, os cronistas nem afirmam isso, mas eles bradam com o jornal em punho inventando que aquilo foi escrito.

Os jogadores limitados e néscios caem no golpe e entram em campo para jogar não contra o time adversário, mas contra o cronista que escreveu que eles seriam goleados.

É manjado o golpe, mas há quem ainda caia nele.

Treinador que não sabe como treinar seu time para jogar bem vale-se desse expediente para lograr seus jogadores.


E jogador que não sabe ou não pode jogar bem é enganado nesses golpe e dá tudo no dia do jogo, só de ódio do cronista.

01 de abril de 2014 | N° 17750
FABRÍCIO CARPINEJAR

Meu amor

Todo mundo repara ou lembra quando empenhou a primeira vez eu te amo numa relação.

Qual o momento exatamente. O dia, a hora, os minutos. Após o sexo, embevecido. Ou no cinema escorregando as palavras num beijo. Ou antes de um aceno ao trabalho.

Aquele eu te amo que rodopiou na garganta até ganhar a forma da boca. Aquele eu te amo que fora ensaiado em diversos momentos de alegria, e recuou por vergonha.

Quando ele vem, é um balbucio: estranho, inseguro, desajeitado como um pedido de desculpa.

Sim, o primeiro “eu te amo” é um pedido de desculpa:

– Desculpa, eu te amo.

– Desculpa, eu me ferrei.

– Desculpa, não quis, só que aconteceu.

O primeiro eu te amo é uma série vitoriosa de fracassos. Fracasso da amizade (não consigo ser mais seu amigo). Fracasso da independência (não consigo mais viver longe de você). Fracasso da mentira (não consigo mais mentir para você).

A declaração aparece tímida. Temos que sempre repetir – este é o constrangimento. O primeiro eu te amo nunca é ouvido. E ainda enfrentaremos a pergunta desconfiada de nossa companhia: “O que você disse?”.

Ai, como é sufocante. Muitos mentem e, já acovardados, não insistem. Expor o eu te amo parte de uma tontura, repetir é embriaguez.

O primeiro eu te amo surge com voz de adolescente, aquele timbre indefinido, arenoso: metade infância, metade adulto. Soprado, sussurrado, comovido.

É um caminho sem volta. Um desabafo que se consome em decisão e que se impõe como destino. Depois não tem como alegar que errou, que se confundiu, não há retratação possível, seu advogado não poderá construir nenhuma versão convincente para desfazer o mal-entendido.

Mas o primeiro eu te amo, ainda que represente uma estreia da vida a dois, é discreto diante de outro movimento dos lábios que costuma passar despercebido.

Quando chamamos o nosso par de “Meu Amor”. Quando personificamos o Amor.

Quando ele deixa de ser um nome, alguém, para ser o nosso próprio sentimento.

Quando abandonamos seu registro, seu batismo, para tratá-lo como se fosse a nossa emoção encarnada.

Não tem como consertar, a projeção virou realidade. É quando realmente confiamos nossa individualidade.

É amor para cá, é amor para lá, é amor para acordar, é amor para dormir, é amor para pedir qualquer coisa, é amor no e-mail, no telefone, nos cartões. É amor amor amor infinito, dobrado, multiplicado, incansável.


Está feito o estrago. Se nos despedirmos, se nos separarmos, não estaremos nos afastando de uma pessoa, e sim do Amor.

01 de abril de 2014 | N° 17750
SOBROU PARA A CERVEJA

Tributo na bebida aumenta para ajudar na conta de luz

Indústria terá de definir quanto do reajuste vai repassar para o consumidor

A partir de hoje haverá aumento da tributação que incide sobre cerveja, água, isotônicos e refrigerantes, confirmou ontem o Ministério da Fazenda. O reajuste ajudará a aumentar a arrecadação para cobrir parte dos gastos extras com a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), que está sendo usada para bancar a redução das tarifas de energia anunciada pela presidente Dilma Rousseff no ano passado e o uso maior das usinas termelétricas.

O Tesouro já incluiu na programação orçamentária de 2014 um custo adicional de R$ 4 bilhões. A elevação da tributação já estava programada desde 2012, mas havia uma expectativa de que o governo adiasse mais uma vez a mudança por conta da pressão de alta da inflação nesse início do ano, das eleições presidenciais e da Copa do Mundo.

Ficará a critério da indústria dosar o impacto desse aumento para o consumidor. As fábricas podem decidir manter o preço congelado e absorver o aumento dos tributos para não perder vendas. O mais provável, segundo especialistas, é que o aumento seja repassado ao consumidor. O economista-chefe do Banco Safra, Carlos Kawall, por exemplo, estima impacto de 0,05 a 0,10 ponto percentual na inflação decorrente do reajuste de bebidas.

Arrecadação deverá chegar a R$ 200 milhões até dezembro

Secretário-executivo adjunto do Ministério da Fazenda, Dyogo Oliveira informou que a expectativa de arrecadação é de R$ 200 milhões até o final do ano. O aumento estimado da carga tributária é de 1,5%.

Segundo Oliveira, o governo federal vai continuar monitorando os preços cobrados pelo setor. Essa avaliação será determinante para a definição se haverá novas mudanças na tributação ainda neste ano. Negociações serão feitas a partir de agora com os fabricantes. Há preocupação no mercado financeiro com o risco da chamada inflação da Copa, uma alta dos preços durante os jogos de futebol que seja mantida depois. No início de 2013, o setor de bebidas promoveu reajustes elevados.

A tributação é complexa, baseada em uma fórmula que leva em consideração uma pesquisa de preços de varejo para cada tipo de produto e embalagem, multiplicada por um redutor e uma alíquota do imposto. Dessa fórmula, é definido um valor em reais que incide sobre o produto tributado.

A mudança que passa a incidir sobre as bebidas a partir de hoje vale apenas para os valores dos redutores. A tributação da maioria dos produtos terá aumento de menos de um centavo de real, segundo Oliveira.


Já as negociações que serão feitas com o setor definirão uma mudança nos preços que são considerados na fórmula da tributação. Essa é uma alteração que poderá acarretar maior arrecadação e aumento da carga.

01 de abril de 2014 | N° 17750
ARTIGOS - Marcelo Sgarbossa*

Engodo padrão Fifa

Em 2014, Porto Alegre vai sediar cinco jogos da Copa. Para dar conta do recado, a prefeitura transformou a cidade num canteiro de obras, ampliando os congestionamentos e atrapalhando a vida de toda a população. Muita propaganda foi feita garantindo que tudo estaria pronto até o início do Mundial. Na verdade, o discurso oficial caiu por terra, assim como as árvores derrubadas na orla do Guaíba.

Da falta de dinheiro, não dá para reclamar. Nunca tantos recursos federais foram liberados para projetos de mobilidade urbana. No entanto, as escolhas da atual administração partem de um pressuposto equivocado quanto ao modelo de cidade de que precisamos para Porto Alegre.

As grandes obras com o carimbo da Copa levantaram suspeitas de sobrepreço no Tribunal de Contas. Denúncias de superfaturamento surgiram em 2011, na campanha de divulgação do Mundial nos ônibus da Carris. Sem licitação, os adesivos nos coletivos custaram quase o triplo do valor de mercado.

O secretário Urbano Schmitt afirma sempre que o prefeito José Fortunati (PDT) teve “ousadia” para investir em “14 grandes obras sonhadas há meio século”. Então, o moderno agora é investir em projetos da década de 1960, alinhados ao modelo rodoviarista de cidade? Que progresso é esse que privilegia o automóvel individual?

Em Seul (Coreia do Sul), Boston, Nova York (EUA) e outros tantos locais, autopistas e viadutos foram demolidos para dar lugar a cidades mais humanas, privilegiando as pessoas, o transporte coletivo e não motorizado. No Rio de Janeiro e em São Paulo já se discute isso também. Por que Porto Alegre resolveu andar na contramão do conceito moderno de planejamento urbano? Qual seria o impacto na mobilidade se fossem tirados do papel os quase 400 quilômetros de ciclovias previstos no Plano Cicloviário?

Existem outras ações inteligentes e baratas mais eficazes para enfrentar os gargalos do trânsito. Por exemplo, flexibilizar as jornadas de trabalho, diluindo os deslocamentos ao longo do dia, e criar faixas exclusivas para ônibus em horários de pico, como vem fazendo a capital paulista.

Só que, entre as “grandes obras” da prefeitura de Porto Alegre, apenas uma privilegia o transporte coletivo: os chamados BRTs. Mas aqui o projeto não prevê vias de ultrapassagem nos corredores. Desta forma, os “ônibus rápidos” ficarão trancados atrás de outros coletivos. Na Porto Alegre da contramão, a população terá que engolir mais um engodo padrão Fifa.

*VEREADOR EM PORTO ALEGRE (PT)


segunda-feira, 31 de março de 2014


31 de março de 2014 | N° 17749
LETÍCIA WIERZCHOWSKI

Pensamento engarrafado

Eu morei há 12 anos no Rio de Janeiro e lembro que circular pela cidade era fácil naquele tempo. Claro, havia alguns lugares-problema, os entroncamentos complicados, as avenidas vitais, os horários de pico – determinadas ruas e horários que uma pessoa de bom senso, podendo, deveria evitar.

Hoje, o Rio de Janeiro é uma cidade que não anda, é o grande paradoxo da vida moderna. A cidade dividiu-se em duas, e o caminho que liga essas duas partes – o elevado do Joá e o túnel Zuzu Angel – é um sofrimento que redime qualquer pecador.

O trânsito de Porto Alegre não é moleza, você pode mofar dentro do carro um bom tempo, ainda mais com as obras que paralisam a cidade, mas nada se compara ao Rio de Janeiro hoje. E existe cidade mais exuberante neste mundo? O Rio de Janeiro é como uma belíssima mulher com mau hálito – linda, tão linda, todos comentam a sua estonteante beleza, mas beijar a digníssima na boca todos os dias é que são elas.

Dias desses, um amigo publicou uma foto ótima no Instagram: no meio do trânsito absolutamente congestionado em São Conrado, na boca do túnel, estava o carrão do Roberto Carlos (era um desses conversíveis, um Mercedes creio eu, branco e estalando de novo, e ali, escarrapachado no banco de couro alvíssimo, o Rei aguardava, como qualquer mortal, que o trânsito finalmente fluísse e ele pudesse chegar na sua casa na Urca). Meu amigo (que, aliás, é gaúcho) deve ter se divertido bastante, e pelo menos arranjou ocupação enquanto esperava a sua vez de cruzar o Zuzu Angel.

Cada um se vira como pode, mas a Lucélia Santos, flagrada num ônibus na zona sul carioca, foi motivo de deboche nas redes sociais. E lá vem o paradoxo outra vez: desde quando usar transporte coletivo é um mico? O que está acontecendo conosco, o que pensamos de útil enquanto parados no congestionamento horas e horas do nosso dia?


Alguma coisa tem que mudar, e urgentemente. Esperar que a mudança venha do poder público, nem o mais tolo dos brasileiros espera. O carro, hoje em dia, tem que ser eletivo. Se todos quiserem fazer tudo de carro, ninguém fará mais nada. Afinal, gastar horas por dia parado no trânsito não inspira ninguém, nem mesmo o Roberto Carlos, basta ver a sua recente produção musical.

31 de março de 2014 | N° 17749
PAULO SANT’ANA

Vitória merecida

Merecidíssima vitória do Internacional. Em primeiro lugar, porque o time gremista acadelou-se completamente no segundo tempo.

E, em segundo lugar, porque assistimos ontem a uma grande decepção pelo lado do Grêmio: o treinador Enderson Moreira saiu do jogo como um dos grandes responsáveis pela debacle do segundo tempo, assistiu como uma múmia ao Internacional dominar toda a etapa final sem mover uma palha durante quase meia hora.

Ora, isso depõe contra qualquer treinador.

A tragédia gremista foi pior do que se nota: no segundo Gre-Nal, que será daqui a dias, se o Grêmio vencer o jogo no Beira-Rio ou nos cafundós do judas, que ninguém sabe onde vai ser, incrivelmente, repito, se o Grêmio ganhar por 1 a 0 o segundo Gre-Nal, o Inter será declarado campeão pelo regulamento vigorante.

Tanto depõe severamente contra o treinador do Grêmio ontem a derrota ultrajante (foi uma virada colorada dentro da Arena), que Abel Braga mudou seu time completamente, tanto tática quanto animicamente, no segundo tempo, sem nenhuma atitude ou instrução do treinador gremista.

Sem dúvida, Enderson Moreira saiu ontem da Arena mais derrotado do que o próprio Grêmio. O técnico tricolor foi decepcionante.

A má atuação do técnico gremista ontem joga dúvidas até sobre a classificação do Grêmio em seu grupo na Libertadores.

Aparentemente, é uma barbada para o Grêmio classificar-se. Mas com este treinador gremista tudo pode acontecer.

A administração do futebol gaúcho terá de mudar num ponto. É deplorável que ontem tenha havido cerca de 20 mil lugares vagos na Arena, quando esse vazio podia ser preenchido num piscar de olhos se fosse permitido à torcida colorada preencher essa lamentável lacuna.

Os dirigentes estão perdendo dinheiro, e o pior: os torcedores estão sendo proibidos de ver os jogos por uma absurda decisão dos dirigentes, que se submetem a uma cifra de torcedores visitantes que é imposta arbitrariamente pela Brigada Militar.

Ora, se a Brigada Militar acha que não podem duas torcidas numerosas frequentar o mesmo jogo, em face de que alega a força pública problemas de enfrentamento entre as duas massas, esse não é um problema da BM: os dirigentes têm de abrir os estádios mesmo para duas torcidas grandes e a Brigada tem o dever de administrar essa realidade.

É um absurdo que se negue presença maciça de torcedores num jogo porque a Brigada não aconselha isso.

Isso é matar o futebol.


E não podem os dirigentes matar o futebol por causa das idiossincrasias do policiamento.