14 de Setembro de 2026
CARPINEJAR
Os áudios acelerados
Quando você perde alguém, o santuário imediato a revisitar não são as fotografias, mas os áudios e as conversas. Você sofre de imensa saudade da voz da pessoa. Do sotaque. Do calor do tom. Da pronúncia intensa, coloquial e afetiva. Do jeito de falar e respirar, de cortar as palavras, de pontuar as emoções, de chamar o seu nome.
A voz é a primeira que morre entre tantas mortes reunidas ao longo do pesar. Só que a pressa nos leva a sacrificar a vida enquanto ela é possível de ser repartida. E de ser resgatada.
Um amigo que enfrenta o luto do pai foi procurar sua troca de diálogos no WhatsApp e descobriu que não havia escutado a maior parte dos áudios. Ou porque corria, ou porque precisava cumprir os prazos no trabalho, ou porque simplesmente não valorizava aqueles depoimentos que vinham frescos e cheios de novidades no decorrer da rotina.
Ele se assustou com o quanto havia permitido que lembranças inéditas entrassem no vácuo, sem direito a uma resposta, um riso ou um comentário. Tinha sido avarento, assumindo uma relação parcial, uma receptividade pela metade, uma reciprocidade fraturada.
Nossos familiares são os que menos recebem retorno, postos na vala comum das mensagens não lidas. Números piscam em verde sem esperança.
Ter intimidade é, paradoxalmente, ser deixado para depois. Não há dinheiro, não há sucesso, não há poder, não há negócios por trás das letras e dos sons exigindo prioridade. A banalidade de você contar o seu dia e perguntar "o que tem feito?" sucumbe na hierarquia da agenda.
O descaso de meu amigo não era pensado. Talvez por ele achar que não se tratava de nenhuma urgência. Ou por considerar que o contato jamais cessaria, que seria infinito, facilitando o desperdício constante das notícias de uma alma. Ou por julgar que tudo se resumia a amenidades conhecidas.
Mal sabia que sentiria falta do básico. O básico, retirado de repente, passou a constituir o alicerce da sua alegria, da sua normalidade. Ele percebeu que não ouvia até o fim, deduzia o que o pai iria dizer ou acelerava a gravação em 1,5x ou 2x de velocidade, transformando a dicção num replicante metálico e anônimo. Não se dava por inteiro, já que não se mostrava minimamente atento ou interessado.
Agora que o pai partiu, o que o filho mais quer é responder. E não pode mais. Dói ver arquivos que não foram baixados. Sequer apertou o dedo sobre a mensagem enviada para que ela continuasse disponível. Nem isso realizou. Não houve uma vez para repetir outras.
O conteúdo não será mais decifrado. Um traço insolúvel. Uma pedra na tumba. Uma experiência brutalmente silenciada. Como uma carta escrita em vão. O pai parou seu tempo para o filho que nunca tinha tempo. E o tempo não volta.

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