Bolinhas pula-pula
Os pais criam obsessões com os filhos, e depois não sabem mais como parar. Pode ser com Kinder Ovo, figurinhas, bonecos de pelúcia, brindes do McDonald?s.
É uma coleção que surge de um agrado circunstancial e vira um vínculo permanente de afeto. Eu consumia parte do meu salário com bolinhas pula-pula para contentar os meus dois filhos.
Elas quicavam - cada uma de modo diferente - e saltavam para longe. Lembravam ginastas de roupas coloridas, com saltos ornamentais bem ousados. Chegavam ao telhado com um impulso forte.
Jogadas contra o chão, disparavam imprevisivelmente. Tanto que eu não permitia seu uso na rua, só em casa, para evitar que causassem acidentes, ou que fossem para o meio dos carros, ou que atingissem pessoas na calçada.
Minhas crianças gostavam do efeito, curiosas para descobrir o ponto mais alto que a bolinha alcançaria. Ela batia na parede, no teto, nas quinas das mesas.
Quanto menor e mais elástica, maior a impressão de que contava com vontade própria. Caçar o paradeiro de uma bolinha era a graça, pois ela desaparecia no fliperama dos móveis. As máquinas costumavam ficar na porta de padarias, lojas de conveniência, armazéns, supermercados, lanchonetes, farmácias.
Apresentavam uma vitrine abarrotada de bolinhas de borracha: lisas, transparentes, rajadas, multicoloridas, com desenhos geométricos, manchas e espirais. Algumas se assemelhavam a olhos, outras a bolas de vôlei, futebol, basquete.
Você enxergava todas e, naturalmente, queria uma específica. O problema é que não havia como escolher. Tudo dependia da sorte. Colocava-se a moeda na abertura e girava-se uma manopla metálica.
Ouvia-se o barulho seco das engrenagens e uma bolinha descia para a portinhola. Você enfiava a mão para retirar o presente aleatório. Os gastos começavam por esse impasse. Nunca vinha a bolinha desejada, cobiçada, naquele amor à primeira vista com um dos itens da redoma de vidro. E se repetia o processo para obtê-la.
Os pequenos namoravam logo a mais difícil, a mais vistosa, no topo do montinho, algo como uma circunferência marmorizada, que parecia conter uma galáxia por dentro, mas a geringonça disponibilizava a que estava no fundo, soterrada, anônima e secreta.
Minha niqueleira se esvaziava rapidamente. Eu jamais me detinha nos 50 centavos. Dediquei uma módica fortuna para a nossa vã insistência. Os irmãozinhos perdiam horas comparando as bolinhas, trocando, elegendo a preferida. Antes de dormir, guardavam os brinquedos num pote no quarto e sonhavam com peripécias dos seus planetas saltitantes.
Iniciei os meus filhos numa loteria infantil. Talvez sejam até hoje viciados no acaso, no suspense do incerto, na adrenalina do desconhecido, sem antever o prêmio, atentos para o que a vida oferece, gulosos por novidades.
No fim, quem colecionou a infância deles fui eu.

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