terça-feira, 28 de julho de 2026

28 de Julho de 2026
CARPINEJAR

O anonimato dos carros

Os automóveis são anônimos. Nas placas, consta apenas "Brasil", de modo genérico. Não mais indicam de qual cidade vêm os motoristas.

Antes, experimentávamos o prazer de adivinhar a história e a procedência de quem estava passando ao nosso lado nas avenidas.

Quando pequeno, eu me deslumbrava ao identificar a origem de cada veículo trafegando. Lia e tentava decifrar como havia chegado a Porto Alegre:

Bagé (RS)

Santa Maria (RS)

Caxias (RS)

Um engarrafamento consistia num encontro municipal, inclusive interestadual. Não deixava de ser um atlas automobilístico. Ao flagrar uma tabuleta do Rio de Janeiro, de São Paulo ou de Belo Horizonte, eu me punha a inspecionar os seus passageiros. Crescia a curiosidade pela distância percorrida: como pararam naquele ponto e momento? Moravam na capital gaúcha ou estavam de passagem?

Fantasiava como seria a vida dos turistas ou dos trabalhadores de outras regiões. Sequer cogitava que um dia eu seria um viajante. Ainda não tinha andado de avião. Meus limites geográficos se restringiam ao bairro, da casa à escola, com alguns raros passeios pelo centro.

Soube de localidades que nunca sonhei que existiam, pescando letreiros por baixo das latarias.

Municípios apresentavam nomes mágicos, que combinavam com os livros de ficção. Já registrava no meu passaporte imaginário, para poder procurar no futuro:

Bonito (MS)

Esperança (PB)

Feliz (RS)

Harmonia (RS)

Fartura (SP)

Encanto (RN)

Maravilha (AL)

Águas Mornas (SC)

Sorriso (MT)

Descanso (SC)

Bom Conselho (PE)

Fortuna (MA)

Espera Feliz (MG)

Na época, anos 1970 e 1980, nem usávamos o cinto de segurança. As crianças ficavam de pé nos bancos, observando tudo pelo vidro traseiro e acenando para os condutores.

A informação da cidade e do Estado começou a desaparecer com a adoção da placa Mercosul, implantada no país em setembro de 2018 e convertida em regra para novos emplacamentos e substituições a partir de 2020.

Sinto saudades do nosso trânsito babélico, dos cartões-postais em movimento, das biografias resumidas dos andarilhos. Os pais perdoavam erros, barbeiragens e deslizes nas rotas quando notavam que a pessoa não era daqui. Não buzinavam, mesmo que ela bloqueasse a sua frente sem pisca-alerta. Ofereciam um desconto por desconhecimento das nossas vias. Tratava-se de uma fidalguia e gentileza de anfitriões.

A nostalgia não é só minha. Tramita um projeto de lei (número 3214/2023) no Congresso que propõe o retorno obrigatório da cidade, do Estado e da bandeira da unidade federativa às placas veiculares. O texto foi ratificado pelo Senado e pela Comissão de Viação e Transportes da Câmara dos Deputados. Será encaminhado para a análise da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania e, posteriormente, precisará de votação no Plenário e sanção presidencial. Caso seja aprovada, a nova velha legislação passará a valer somente 12 meses após a promulgação.

Terei a minha infância de volta? 

CARPINEJAR

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