sábado, 25 de julho de 2026

25 de Julho de 2026
CARPINEJAR

O sagrado resto

Adorava quando meus pais voltavam da feira com aquelas redinhas coloridas que acondicionavam limões, laranjas, melões, tangerinas, batatas. Recolhia teias para confeccionar a fantasia de Homem-Aranha.

Com restos de pano, minha irmã costurava um enxoval para suas bonecas. Com sacos de Pastelina, estourávamos bolhas de ar, assustando os que se mostravam distraídos. Com os papéis das balas, assoviávamos longe.

Com o embrulho do pão, criávamos rabiolas para pipas. Preparávamos telefone sem fio com copos de iogurte. Simulávamos a montaria de cavalo com cabos de vassoura.

Construíamos pontes em maquetes com palitos de picolé. Dobrávamos jornais velhos para formar chapéus e cantar: "Marcha soldado, cabeça de papel".

Empregávamos latas de Nescau como casinhas no jogo de taco. Rolos de papel higiênico viravam binóculos ou lunetas. Tampinhas de garrafa originavam peças de dama. Espigas de milho secas se transformavam em pequenos espantalhos.

Lençóis esgarçados, presos entre cadeiras, erguiam cabanas no meio da sala. Pregadores de roupa assumiam olhos e boca. Carretéis de linha cumpriam a função de rodas em carrinhos improvisados. Caixinhas de remédio e de pasta de dente constituíam prédios e arranha-céus nas cidades em miniatura.

Embalagens de ovos se convertiam em paletas de tinta nas aulas de artes. Os trastes, os refugos da civilização, os materiais abandonados nos davam conforto e ideias.

Quem da minha geração não patenteou uma televisão com caixa de papelão? Recortava-se nela uma janela, como se fosse a tela, que logo ganhava uma folha de papel celofane (azul, vermelho, amarelo ou verde). Entre dois rolinhos, passava uma tira de figuras destacadas de revistas. Bastava girá-los pelas laterais para dar a impressão de um filme ou noticiário. Intimávamos a família a acompanhar a programação caseira, em sessão particular com venda de ingressos.

A engenharia das inutilidades, a fábrica do faz de conta, alcançava ainda mais visibilidade com o programa de Daniel Azulay, que permaneceu à frente da TV Criança e da Turma do Lambe-Lambe. Ele nos ensinava a desenhar, a observar a simetria por trás do traço, a realizar trabalhos manuais com argila, a elaborar origamis perfeitos, a descobrir diversão com sucata.

Produzíamos pioneira reciclagem com a nossa poderosa imaginação. A criatividade começava quando a serventia do objeto terminava. Os adultos nos concediam, sem perceber, farta matéria-prima de graça.

Só entendi o quanto fui feliz - inventando a minha felicidade, e não a recebendo pronta - ao ler Manoel de Barros: "As coisas jogadas fora têm grande importância".

Assim não joguei fora a minha infância. 

CARPINEJAR

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