27 de Julho de 2026
CLAUDIA LAITANO
Espelho
Eu teria xingado muito na internet - se isso fosse uma possibilidade. Como alguém tinha conseguido transformar o livro perfeito em uma historinha boba e arrastada? Não, não sou eu odiando A Odisseia do Nolan, mas Claudinha, em março de 1977, reagindo ao primeiro episódio do Sítio do Picapau Amarelo na televisão. Eu tinha acabado de ler Os 12 trabalhos de Hércules e estava em estado de maravilhamento absoluto - com Monteiro Lobato, com a mitologia grega, com o livro perfeito.
E talvez houvesse nessa rejeição inicial o gérmen da percepção de que há sempre três histórias correndo em paralelo em qualquer adaptação: a que o autor escreveu, a que alguém recriou e a versão insuperável, que é aquela que rola na cabeça do leitor. (Outras crianças devem ter tido a mesma reação decepcionada porque algum tempo depois o primeiro roteirista foi demitido, a trama ficou mais ágil, e o Sítio virou o fenômeno que marcou a minha geração.)
A estreia de A Odisseia arrasou nas bilheterias, mas foi especialmente bem-sucedida como geradora de pitacos aleatórios entre leitores e não leitores. Dos fãs da Marvel aos professores de cultura clássica, da machosfera aos decolonialistas, de quem cita Homero no original a quem nem sabia que havia gregos dentro do cavalo.
Eu gostei e quero ver de novo. Mas o pitaco que eu queria dar aqui não é exatamente sobre o filme (você já deve ter lido o suficiente e ainda vai ler mais até o Oscar de 2027), mas sobre adaptações em geral. Porque não existem apenas as boas e as ruins, mas as que apostam em uma leitura original e as que vão na onda da trama episódica, sem muita preocupação em construir uma nova camada de significados.
Se você assistiu Troia (2004), de Wolfgang Petersen, conhece um ótimo exemplo de adaptação diet em inteligência e profundidade. Trata-se de uma leitura não apenas superficial de Homero, mas chocha em termos de ideias. Na minha classificação, essa é a típica adaptação falhada. Não porque deixou os deuses de lado ou porque Brad Pitt faz um Aquiles que é a cara do? Brad Pitt, mas porque não há élan vital na leitura de Petersen.
Você pode não ter gostado de A Odisseia porque é o melhor leitor de Homero desde a invenção do alfabeto grego ou porque acredita que uma superprodução hollywoodiana jamais teria "gravitas" suficiente para recriar um clássico, mas não pode negar que Christopher Nolan tem uma interpretação oportuna para oferecer.
Partindo de uma obra que há séculos vem provocando reflexões sobre diferentes épocas e circunstâncias, o cineasta britânico queria narrar não apenas a jornada de Ulysses, mas a trágica história de um povo grandioso que ergue e destrói coisas belas - e guarda o péssimo hábito de achar feio tudo que não é espelho. _ As que apostam em uma
leitura original e as que vão na onda da trama episódica

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