EM FOCO
Taxação extra de 25% imposta pelo governo dos Estados Unidos a produtos brasileiros foi definida na semana passada. Impacto abrange cerca de 18% das exportações nacionais e metade dos embarques do RS para o mercado norte-americano
Tarifaço dos EUA contra o Brasil entra em vigor
Pedro Garcia
Sem avanços nas negociações diplomáticas, o novo tarifaço dos Estados Unidos contra produtos brasileiros entrou em vigor à 1h01min de hoje, no horário de Brasília. A sobretaxa de 25% deve atingir cerca de 18% das exportações nacionais e quase a metade dos embarques do Rio Grande do Sul para o mercado norte-americano.
Com a nova taxação, confirmada na última quinta-feira pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), a tarifa efetiva média sobre todas as exportações do Brasil para os EUA vai subir de 11,7% para 18,2%, segundo a Global Trade Alert, plataforma independente de monitoramento de políticas comerciais. Com isso, o país passará a ser o segundo mais tarifado pelos EUA, atrás apenas da China, cuja tarifa média chega a 27%. Até então, o Brasil estava na 13ª posição.
O tarifaço vai impactar quase metade das exportações do Rio Grande do Sul (48,2%) para os EUA, segundo cálculo da Federação das Indústrias do Estado (Fiergs). O país é o segundo principal destino dos embarques do RS. Embora o governo norte-americano tenha divulgado uma ampla lista de exceções, somente 2% do total exportado pelo Rio Grande do Sul aos EUA foi incluído, com destaque para alguns itens de couro e pescado.
Enquanto isso, setores relevantes para a economia gaúcha permanecem afetados, como máquinas e equipamentos, equipamentos elétricos, calçados, móveis, tabaco, produtos metalúrgicos e diversos bens manufaturados.
A nova sobretaxa se somará às tarifas aplicadas com base na Seção 232 da Lei de Expansão Comercial de 1962, sobre produtos como aço, alumínio e seus derivados, e que atingem 36,9% dos embarques do Estado. No total, de acordo com a Fiergs, 85,1% das exportações do Rio Grande do Sul aos Estados Unidos estão sob impacto de taxação extra.
Esse cenário, conforme a entidade, mantém um elevado nível de restrição ao comércio bilateral, reduzindo a competitividade da indústria gaúcha no mercado norte-americano.
- A tarifa de 25% coloca o Brasil entre os países com maior custo de acesso ao mercado norte-americano, atrás apenas da China, ampliando nossa desvantagem frente aos principais concorrentes internacionais - afirma Claudio Bier, presidente da Fiergs.
Lista de 4 mil itens
A sobretaxa de 25% vai afetar importantes setores exportadores do país, como madeira, máquinas e equipamentos elétricos, móveis, produtos cerâmicos, calçados e açúcar. Ao todo, a lista de produtos sujeitos à nova tarifa tem cerca de 4 mil itens.
O governo federal estima que 18% das exportações brasileiras para os EUA serão afetadas, o equivalente a US$ 7,4 bilhões. A sobretaxa agrava um cenário que já vinha pressionando as exportações nacionais.
De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), desde 2025 as exportações brasileiras para o mercado norte-americano diminuíram 13%, o equivalente a US$ 2,6 bilhões. A retração foi influenciada pela redução de 8,7% nas vendas de bens industriais.
- Os efeitos do aumento de tarifas dos Estados Unidos estão sendo cada vez mais sentidos pela indústria brasileira: 20 dos 27 Estados reduziram suas exportações ao mercado norte-americano no primeiro semestre - avalia Ricardo Alban, presidente da CNI
Apesar do impacto, alguns dos principais produtos de exportação do Brasil estão na lista de exceções, que tem cerca de 2,2 mil itens.
Entre eles estão produtos bovinos, café e especiarias, aeronaves civis e peças, suco de laranja, frutas e nozes, minérios e combustíveis e produtos químicos e farmacêuticos. _
Quais são os argumentos dos EUA?
O tarifaço é baseado em uma investigação conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) no âmbito da Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, para analisar supostas práticas comerciais desleais por parte do Brasil.
Ao final da apuração, o órgão recomendou a imposição de uma tarifa geral de 25% sobre diversos produtos brasileiros.
Dentre as práticas apontadas no relatório do USTR que prejudicariam a economia norte-americana, estão barreiras digitais (decisões do Judiciário brasileiro que impactaram big techs americanas e alegações de favorecimento estatal ao sistema Pix), mercado de etanol (dificuldades de acesso de produtores dos EUA ao mercado brasileiro) e fatores ambientais e governança (falhas na fiscalização do desmatamento ilegal e problemas no combate à corrupção).
O governo brasileiro vai retaliar?
O vice-presidente Geraldo Alckmin descartou ontem à noite o uso imediato da Lei da Reciprocidade pelo governo federal. "Olho por olho pode acontecer dos dois ficarem cegos", disse Alckmin, ao destacar que essa lei serve de instrumento de defesa, mas deve ser usada com cautela.
Em encontro com Alckmin e o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, representantes do setor de máquinas e equipamentos se posicionaram contra o uso da reciprocidade em razão de risco de agravamento de cenário.
Quais as medidas para aliviar o impacto?
Na última sexta-feira, o Ministério da Fazenda solicitou ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) a liberação de R$ 7,25 bilhões ao Tesouro para socorrer empresas afetadas. A ideia é oferecer novas linhas de crédito com juros subsidiados, reforçando o Fundo de Garantia à Exportação (FGE).
Outras medidas, como ajustes no Plano Brasil Soberano para ampliar a elegibilidade das empresas, abertura de novos mercados para exportações e ações para reduzir o chamado Custo Brasil também estão no radar do Planalto.
Há risco de nova taxação em breve?
Há a possibilidade de uma nova taxação contra o Brasil que pode ser confirmada ainda esta semana.
Em entrevista ontem à CNBC, o chefe do USTR, Jamieson Greer, afirmou que o governo norte-americano anunciará "em breve" decisão sobre tarifas relacionadas ao uso de trabalho forçado nas cadeias de produção.
De acordo com Greer, 60 países devem ser atingidos pela medida. O Brasil está na lista e pode ser taxado em 12,5%, conforme recomendação do relatório preliminar publicado pelo USTR no dia 3 de junho.

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