segunda-feira, 19 de outubro de 2026


19 de Outubro de 2026
CLAUDIA LAITANO

Mudança de regime

Com mais de 300 mil cópias vendidas apenas na primeira semana, um livro de quase 500 páginas sobre o governo Trump 2 tornou-se um dos maiores fenômenos editoriais deste ano nos Estados Unidos. Lançado em junho, Regime Change: Inside the Imperial Presidency of Donald Trump (Mudança de Regime: Por Dentro da Presidência Imperial de Donald Trump) foi escrito por Maggie Haberman e Jonathan Swan, dois jornalistas do The New York Times que tiveram acesso a fontes do círculo mais íntimo do presidente.

Espantoso até para quem não se espanta com mais nada, o livro narra os bastidores do interminável primeiro ano do segundo mandato. Não, não há nada tão rocambolesco quanto a noitada descrita pela revista Piauí na reportagem "Os Vestígios da Noite", que reconstitui a festinha pré-Carnaval que Daniel Vorcaro ofereceu ao ministro Kassio Nunes Marques em 2025, mas não faltam momentos igualmente pornográficos no sentido da exposição sem filtros da miséria moral alheia.

O título do livro guarda um duplo sentido. A expressão "regime change" é usada tradicionalmente para descrever a derrubada de um governo estrangeiro. Os autores subvertem o termo para sugerir que, desde a volta de Trump à Casa Branca, a verdadeira mudança de regime está acontecendo dentro dos Estados Unidos. 

A nova administração desmantelou de tal forma as amarras institucionais, argumentam os jornalistas, os freios democráticos do Congresso e a autonomia de órgãos como o Departamento de Justiça e as agências de inteligência que o sistema de governo se tornou irreconhecível. A democracia da qual os estadunidenses se orgulhavam tanto teria dado lugar a uma estrutura que orbita em torno dos caprichos de um único homem. Um sujeito narcisista, vingativo, inconsequente e que faz questão de viver cercado de lambe-botas.

Quem assistiu ao episódio Pátria Submissa da indispensável série jornalística Revelando (disponível no YouTube desde 16 de outubro) ou viu alguma bandeira com listras e estrelas tremulando nas passeatas de apoio a Flávio Bolsonaro sabe que existe apenas um candidato se voluntariando para o posto de vassalo de Donald Trump no Brasil. 

Não sou eu quem está dizendo. Nem mesmo o Wagner Moura, que apresenta o episódio. Quem diz é o general da reserva Carlos Alberto dos Santos Cruz, ex-ministro de Jair Bolsonaro. Segundo o general, o único jeito de os Estados Unidos sequestrarem a soberania do Brasil (e de quebra nossas maiores riquezas) é conquistar "apoio incondicional" dentro do governo.

Mas ainda dá tempo de evitar. A democracia teria dado lugar a uma estrutura que orbita em torno de um único homem

CLAUDIA LAITANO

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