Meu medo das marquises
Quando chove e estou andando pelo centro de Porto Alegre, evito passar debaixo das marquises.
Prefiro enfrentar o aguaceiro de modo solitário com meu guarda-chuva no meio da calçada, sem o auxílio das pedras e dos refúgios das lojas. Prefiro me molhar.
É que conservo um trauma. Na verdade, um trauma coletivo. A capital gaúcha nunca mais voltou a ser a mesma depois daquela quinta-feira, daquele 6 de outubro de 1988.
O medo congelou a data, a ponto de transformá-la em uma referência temporal da nossa história: onde você estava? O que estava fazendo?
Eu tinha 15 anos, cursava o primeiro ano do Ensino Médio no Colégio de Aplicação, que na época ficava no Centro. Fui buscar material escolar na Livraria do Globo, no contraturno, pelas 16h30min.
De repente, caminhando pela Voluntários da Pátria, desviando-me da aglomeração dos terminais de lotação, escuto uma explosão e uma gritaria inominável.
A estrutura da marquise das Lojas Arapuã, na ladeira da Doutor Flores, veio abaixo enquanto o personagem-símbolo da rede, Arapinho, distribuía balas e chocolates para os clientes que circulavam por ali.
A queda da marquise, de 16 metros de comprimento e um de largura, matou nove pessoas, sendo duas crianças. Era a semana de véspera do Dia das Crianças. O boneco estava brincando com vários meninos e meninas, de famílias a passeio. Ele realizava um show para atrair os transeuntes.
O desabamento foi cruel e aconteceu em duas etapas; o resto do concreto cedeu justamente quando curiosos se detinham e pedestres socorriam os feridos, aumentando o contingente de horror e sangue.
Bombeiros levantavam as vítimas dos destroços. Ambulâncias e táxis saíam em disparada da rua estreita. O comércio inteiro fechou. O mundo parou por um instante.
Não sabíamos como agir. A incredulidade sequestrou nossa respiração. Uma multidão atrás do cordão de isolamento prendia o suspiro. Nem conseguíamos explicar o fato a quem chegava. Parecia obra de uma bomba, de terrorismo. Demoramos a captar que a marquise se encontrava condenada. Não havia como se defender do tombamento súbito de suas quatro toneladas.
Tanto que a tragédia mudou as regras de segurança urbana em Porto Alegre. Motivou a criação do Decreto nº 9.425/1989, que exige a apresentação periódica de laudos estruturais de marquises, fachadas e sacadas dos prédios da cidade.
O prefeito Alceu Collares declarou luto oficial por três dias, mas o luto jamais acabou. Continua em mim até hoje, como uma hesitação, um ressaibo, um pavor mudo.
A escritora amiga Carla Madeira, em seu novo livro Quando, trouxe à tona um termo da neuropsicologia: "engrama", que significa uma "cicatriz no sistema nervoso" ou uma "chaga da memória".
É uma vivência tão forte que permanece no corpo, atravessa os afetos e não se apaga com o tempo, migrando de geração a geração. Vira traço no seu DNA, informação genética.
Como esse fatídico 6 de outubro de 1988.

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