sábado, 3 de outubro de 2026

03 de Outubro de 2026
OPINIÃO RBS

É hora de o povo falar nas urnas

Os brasileiros vão às urnas neste domingo sob o impacto de uma crise institucional e moral aguda que atinge a política e acerta em cheio a cúpula do Judiciário, o que torna o momento mais inquietante. O poder que deveria ser garantidor do equilíbrio e fiador do cumprimento da lei passou a ser a principal fonte de instabilidade. 

Quando nada mais parecia surpreender, uma sequência de decisões monocráticas de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) corrompeu a tal ponto a configuração do debate entre os candidatos à Presidência da República que seria realizado na quinta-feira à noite pela Rede Globo que acabou por inviabilizar o confronto às vésperas do primeiro turno. Foi um desserviço à democracia.

A culpa por o eleitor ver frustradas as expectativas de assistir ao embate de ideias e comparar as propostas dos postulantes ao mais importante cargo do país, no entanto, também é dos dois principais candidatos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). Embora cada um de sua forma e em seu tempo, ambos fugiram do confronto. Lula oficializou a decisão um dia antes. 

Temia ser o alvo dos demais candidatos, de campos políticos opostos ao seu. Flávio desistiu a poucas horas do debate, tudo indica que pelo receio de ser fustigado por Renan Santos (Missão), incluído no encontro por uma decisão individual sem fundamento jurídico proferida pelo ministro do STF Gilmar Mendes.

A população já demonstrava cansaço da radicalização política. A sucessão de escândalos que envolvem altas figuras dos três poderes da República gera desencanto e revolta na base da sociedade. O episódio da quinta-feira, por certo, piora a sensação de mal-estar e de repulsa. Mas o desânimo não pode se transformar em abstenção e a raiva não deve ser convertida em voto guiado pela ojeriza. 

Neste momento, a responsabilidade do eleitor aumenta. É hora de uma profunda reflexão para escolhas cuidadosas e conscientes para cada um dos cargos em disputa - e de comparecer às seções eleitorais. O voto é o meio mais poderoso de expressão dos brasileiros.

A eleição para o Planalto tem ainda um aspecto de efeméride. Será a 10ª vez, após a redemocratização do país, que os brasileiros exercem o direito reconquistado de definir o presidente. Cabe ao próprio eleitor, como agente das transformações que espera para o país, valorizar o voto como instrumento de soberania popular e depositar nele a esperança de um futuro melhor.

A despeito de correções necessárias, a democracia brasileira é digna de orgulho. Em meio aos solavancos, as regras do jogo, ao cabo, se sobrepõem. No Executivo, o vencedor assume e governa. Os derrotados vão para a oposição. Reorganizam-se e se reapresentam como alternativa quatro anos depois. 

As eleições têm periodicidade regular, quando pode haver a continuidade ou a alternância de poder. Eis a beleza da democracia. Se um caminho traçado pelo eleitor não traz os resultados esperados, o novo pleito é a possibilidade de a maioria corrigir caminhos e de renovar seus representantes.

Nesse contexto, reforça-se a relevância das escolhas para o Congresso. São votos que pedem maior análise do eleitor devido ao desvirtuamento do papel do Legislativo na última década. A farra das emendas impositivas alterou a dinâmica política. Deputados e senadores ganharam mais peso na correlação de forças com o Executivo. Cabe ao eleitor buscar informações sobre os candidatos e analisá-las de maneira atenta, como forma de fazer escolhas lúcidas.

O voto para o Senado, pelas atribuições da Casa, adquire importância ainda maior em 2026. Neste domingo, cada eleitor poderá sufragar dois nomes. Senadores têm a prerrogativa de aprovar a indicação de ministros do STF e de impor punições previstas na Constituição em caso de condutas incompatíveis com o cargo . São tarefas que também exigem juízo e discernimento. 

O exame dos nomes designados pelo presidente da República precisa ser mais criterioso. A recuperação da confiança do STF passa pela despolitização dos membros da Corte. Eventuais penalizações de ministros não podem ter motivação ideológica. Devem ser baseadas em fatos e na lei.

A definição sobre quem estará no Palácio Piratini entre 2027 e 2030, pelo momento decisivo em que se encontra o Rio Grande do Sul, também requer exame apurado. Em um conjunto de oito reportagens publicadas nas últimas semanas, o Grupo RBS trouxe à discussão os grandes desafios do Estado e os possíveis caminhos para superá-los. 

Todo esse conteúdo de fôlego será reunido em um dossiê que, após a definição de todos os cargos em disputa, será entregue aos deputados estaduais e federais, aos senadores e ao governador ou à governadora eleitos pelos gaúchos. O propósito é contribuir para um plano de desenvolvimento do Estado que atravesse diferentes governos.

Este 4 de outubro é o momento de os brasileiros se expressarem, com a força invencível do voto, na defesa do fortalecimento da democracia. 

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