terça-feira, 13 de outubro de 2026

13 de Outubro de 2026
EM FOCO - 
Caroline Souza

EM FOCO

Onda de vitórias da direita impulsionou salto de eleitas na AL, enquanto lideranças já consolidadas da esquerda mantiveram presença em Brasília. Rejeição ao campo adversário ganhou protagonismo na disputa e acirra divergências entre as vitoriosas no pleito, avalia cientista política

Novos contornos da presença feminina gaúcha nos legislativos estadual e federal

A representação política das mulheres no Rio Grande do Sul ganhará novos contornos após as eleições de 2026. Na Assembleia Legislativa, o número de deputadas saltou de 11 para 16, crescimento de 45% impulsionado principalmente por legendas de direita, que ocuparão 12 dessas 16 cadeiras a partir de 2027. Na Câmara dos Deputados, o movimento foi distinto: a bancada feminina gaúcha encolheu de seis para cinco integrantes, com quatro parlamentares de esquerda e uma de centro-direita.

Cientistas políticas ouvidas por Zero Hora apontam que o resultado na Assembleia está ligado à onda de vitórias da direita no Estado e no país, enquanto, na Câmara, a composição foi puxada por lideranças consolidadas. O cenário reflete os efeitos acumulados de políticas eleitorais de incentivo à participação feminina.

A diferença entre os dois legislativos aparece nas trajetórias das eleitas. Das 16 estaduais, 11 assumem uma cadeira na Casa pela primeira vez. Seis trazem experiência em câmaras municipais: Comandante Nádia (PL), Natasha Ferreira (PT) e Karen Santos (PSOL), em Porto Alegre; Bruna Molz (Podemos) e Nicole Weber Covatti (PP), em Santa Cruz do Sul; e Daiane Mello (PL), em Caxias do Sul. Outras duas vêm do Executivo: Delegada Ana Tarouco (PSD), ex-prefeita de Sant?Ana do Livramento, e Vanice de Matos (PL), ex-prefeita de Porto Vera Cruz.

As estreantes em cargos eletivos são três: Adri Cherini (PL), Ronize Damassini (PP) e Ali Klemt (PL). As restantes já integravam a Assembleia: Luciana Genro (PSOL), Kelly Moraes (PL), Delegada Nadine (PSD), Sofia Cavedon (PT) e Adriana Lara (PL).

Na Câmara, as cinco eleitas já exerciam mandato e foram reeleitas: Fernanda Melchionna (PSOL), Maria do Rosário (PT), Any Ortiz (PP), Daiana Santos (PCdoB) e Denise Pessôa (PT).

Aumento à direita

O PL concentra a maior parte das eleitas para a Assembleia, com sete cadeiras. PSD, PP, PSOL e PT elegeram duas cada, e o Podemos, uma. Na avaliação de Rosana Soares Campos, doutora em Ciência Política e professora da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), o crescimento da presença feminina na direita reflete uma estratégia de aproximação com agendas historicamente associadas à esquerda:

- Ao perceberem que as mulheres são maioria do eleitorado e que é preciso conquistar esses votos, viram a importância de ter rostos que dialoguem de forma próxima com o público feminino.

A conexão entre as campanhas de Luciano Zucco ao governo estadual e de Flávio Bolsonaro à Presidência ajudou a unificar o discurso voltado às mulheres. Na esquerda, segundo Rosana, houve atuação fragmentada.

- As urnas mostram um eleitorado conservador que busca primeiro respostas pragmáticas para a vida material - destaca.

Figura central nesse processo é Adri Cherini, presidente do PL Mulher no RS e deputada estadual mais votada do pleito, com 129.492 votos.

- Quando se integra a mulher à base do partido, o interesse pela política muda. Esse foi o diferencial - resume. _

Regras de inclusão e potencial das candidatas expandiram participação

A ampliação da presença de mulheres na Assembleia também está relacionada às regras criadas para estimular a participação feminina, que passaram a produzir efeitos nas urnas, avalia Cibele Cheron, doutora em Ciência Política e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

A legislação exige que partidos ou federações preencham pelo menos 30% das candidaturas com cada sexo, além de destinar o mesmo percentual do Fundo Eleitoral e do tempo de propaganda gratuita. Segundo a cientista política, a combinação dessas medidas com a escolha de candidatas com potencial competitivo ajudou a tornar mais efetiva a participação feminina nas eleições.

Na esfera federal, a manutenção da bancada feminina da esquerda apoia-se em lideranças com capital eleitoral consolidado. Já a direita concentrou apostas em grandes puxadores de voto masculinos, afirma Cibele.

Fernanda Melchionna (PSOL) foi reeleita para o terceiro mandato com 280.262 votos, alta de 40% em relação a 2022. Para ela, o resultado corrobora a força de candidaturas progressistas de expressão nacional, como Erika Hilton (SP) - a mais votada da história para a Câmara, com mais de 1,5 milhão de votos.

Diferenças ideológicas

O desempenho mais modesto das mulheres de esquerda na disputa pela Assembleia escancara um desafio do campo. Para Cibele, o voto tem sido guiado pela rejeição ao adversário:

- A cada eleição, percebemos que não é apenas a preferência que se cristaliza, mas a rejeição ao campo oposto, constituindo-se como um elemento identitário.

Adri Cherini (PL) reforça que sua atuação girará em torno da proteção às mulheres a partir de uma ótica conservadora e familiar.

- Trazemos um papel diferente para a mulher na política: o da mulher conservadora, com amorosidade, delicadeza e valores familiares. Vou lutar por políticas de proteção às mulheres e também às pessoas idosas - afirma.

Já Fernanda Melchionna (PSOL) defende uma agenda ampla de direitos:

- Não basta ser mulher, é preciso defendê-las. Combater o feminicídio, lutar pelos direitos das professoras e pelo fim da escala de seis dias de trabalho que interfere diretamente na vida das mulheres. Temos uma atuação estruturada, da economia à segurança - conclui.

Na Câmara dos Deputados, a bancada feminina passará de 90 para 109 mulheres a partir de 1º de fevereiro de 2027. Elas representarão cerca de 21% das 513 cadeiras da Casa. Segundo levantamento de Zero Hora, entre as 109 deputadas, 62 estão em partidos classificados como de direita ou centro-direita, enquanto 47 pertencem a siglas de esquerda. 

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