Direito à preguiça
Hoje, o Senado vota a PEC que pode reduzir a jornada de 44 para 40 horas semanais, com dois dias de descanso, jornada de 6x1 para 5x2. Como alguém acostumado a ajudar quem adoece por burnout (pessoas que não conseguem parar sem se culpar), torço pela redução. Quanto a mim, já faz três anos que eu faço a escala 4x3.
Poucas coisas são mais clichês do que a cena, ao final da vida, de alguém chegar à conclusão de que trabalhou demais e cuidou pouco de si e dos seus. O fato é que, nesse caso, o clichê é verdadeiro. É uma pena quando se leva uma vida inteira para concluir que o trabalho é um meio e não um fim.
O trabalho é uma condição inescapável. Quem não trabalha não alcança a visão real do que o mundo é. O problema não é o trabalho, e sim ele como único horizonte. Nosso tempo naturaliza uma vida alienada, focada na produtividade e no consumo. Muitos trabalham mais para comprar mais coisas que de fato não precisam.
Além disso, estudos mostram que a jornada excessiva tem retornos decrescentes. A curva entre horas e produção é um U invertido: no início, mais horas produzem mais; depois de certo ponto, o cansaço, os erros e a queda de foco fazem com que cada hora adicional produza menos, ou até atrapalhe.
Países com menores jornadas tendem a apresentar maior produtividade por hora trabalhada. O Brasil, com jornadas longas, ocupa as últimas posições em produtividade por hora. A jornada longa é preenchida com trabalho de baixo valor, pausas informais e enrolação para cumprir o relógio. A mesma entrega poderia ser feita em menos tempo, com foco e processos melhores.
Quanto à vida das pessoas, a mudança será enorme. Haverá mais tempo para os vínculos, para o lazer, para o cuidado de si, para novos estudos, para fazer esportes, para hobbies. Será uma rotina muito diferente para quem trabalha. Certamente o impacto na vida será muito mais significativo do que o impacto na produtividade e é isso que importa.
Fique de olho em quem votar pela continuação do 6x1. Serão os mesmos que, no futuro, vão querer empurrar a aposentadoria para os 70 anos. Os mesmos que diziam que o décimo terceiro salário destruiria a economia e repetem um refrão similar a cada conquista social. _

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