
19 de Outubro de 2026
INFORME ESPECIAL Rodrigo Lopes
O mal-estar europeu
De novo, a banlieue francesa ruge. Em francês, banlieue significa periferia, subúrbio. São territórios que concentram tensões, como o desemprego, a discriminação racial, a relação entre jovens e policiais e as dificuldades de integração social. Não raro, os protestos começam com a morte de estudantes durante abordagens policiais. O estopim costuma fazer aflorar feridas relacionadas à imigração, à identidade nacional, à desigualdade e à integração.
As manifestações na França, que se estendem à Espanha, à Bélgica e à Itália, têm diferentes origens e atingem governos de distintas orientações políticas: o de Emmanuel Macron (centro), na França; o de Bart De Wever (direita), na Bélgica; o de Giorgia Meloni (direita), na Itália; e o de Pedro Sánchez (esquerda), na Espanha.
O contrato social europeu está sob pressão. Durante décadas, a Europa Ocidental erigiu sua estabilidade sobre a promessa de crescimento econômico, serviços públicos de qualidade, proteção social e perspectiva de melhoria de vida. Essa promessa, claramente, não está sendo cumprida - ou, ao menos, não para determinados grupos sociais. O resultado é a perda do poder de compra, a insegurança em relação ao futuro, a desconfiança das elites políticas, os conflitos sobre quem deve pagar pelas mudanças e a crise de representação.
A expectativa em relação ao futuro afeta principalmente os jovens, e por isso vemos tantos deles nas ruas europeias. Mais perigoso: qualquer um dos fatores mencionados acima, da perda do poder de compra às divergências sobre quem deve pagar pelas mudanças, é instrumentalizado tanto pela extrema direita quanto pela extrema esquerda. Em resumo, pelas forças anti-establishment.
Em época de eleições, é pior. A França, por exemplo, realizará o pleito presidencial em 2027. No plano interno, atuam forças como os Coletes Amarelos, a extrema esquerda da França Insubmissa (La France Insoumise), liderada por Jean-Luc Mélenchon, com capacidade real de chegar ao segundo turno, e a ultradireita do Reagrupamento Nacional (Rassemblement National), de Marine Le Pen, que mais uma vez beliscará o poder.
No plano externo, Donald Trump atua como quem joga gasolina na fogueira, incendiando ainda mais o ambiente político ao culpabilizar os imigrantes. Ao presidente americano interessa a expansão da ideologia anti-establishment e o enfraquecimento de uma Europa já amedrontada e em processo de militarização. O continente enfrenta pressões simultâneas, como a necessidade de ampliar os investimentos em defesa, em razão do enfraquecimento do guarda-chuva de proteção dos EUA e da ameaça russa, e os custos associados à insegurança energética. Como financiar a defesa e a transição energética e equilibrar as contas públicas sem comprometer moradia, educação e proteção social?
Resumi um pouco o fenômeno francês, mas a análise vale para a Espanha, a Bélgica e a Itália. Existe diferença entre uma população que enfrenta dificuldades econômicas e outra que passa a acreditar que seus filhos terão uma vida pior do que a de seus pais. Os europeus estão na segunda categoria. Esse sentimento provoca fissuras nas bases da legitimidade das democracias. Se não for agora, logo ali à frente. _
apoio ao hip hop
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou um apoio no valor de R$ 6,4 milhões para a Associação da Cultura Hip Hop de Esteio (ACHE), no Rio Grande do Sul, entidade que idealizou e gere o Museu da Cultura Hip Hop RS, em Porto Alegre. O aporte será executado entre 2026 e 2030. O espaço funcionará como plataforma para atividades de preservação de acervos, pesquisa, educação, produção cultural e difusão de conhecimento, servindo como ponto de articulação de iniciativas com alcance local, nacional e internacional.
Manual para sobreviver a esta semana
Porto Alegre, sexta-feira, 12h40min, esquina da Osvaldo Aranha com a Ramiro Barcelos: apoiadores de um candidato à Presidência, em meio a um bandeiraço, xingam um militante de outro postulante ao Planalto, depois que passa fazendo gestos de apoio ao seu escolhido. Há uma pequena perseguição, até que alguém mais sensato obriga os demais a recuar.
Mesma cidade, mesmo dia. Muda o horário e o bairro: 21h15min, no bairro Jardim Botânico. Tão logo um dos candidatos começa a responder às perguntas da sabatina da TV Globo, têm início os panelaços nas janelas.
O mesmo havia ocorrido na noite anterior, durante a entrevista do outro candidato. O barulho passa a ser produzido no interior do condomínio. Alguém, no grupo do WhatsApp, pede respeito ao horário de silêncio. Outro xinga. Um terceiro avisa: "Depois da eleição, a gente conversa".
Haja estômago para resistir até lá. Na eleição do "menos pior" (54% dos eleitores rejeitam Flávio Bolsonaro, e 53% rejeitam Lula, segundo a pesquisa Quaest), a convivência civilizada entrou em recesso.
Como manual de sobrevivência para a última semana até o segundo turno, vale lembrar:
1) Manifestações políticas, mesmo que contrárias às convicções de cada um, representam o pleno exercício da liberdade de expressão. Aliás, o Brasil lutou anos para poder fazer isso. No atual nível de insanidade, passou-se a medir a centimetragem da bandeira para o lado de fora da janela do prédio e os decibéis dos panelaços. Prints da convenção do condomínio e do artigo 5º da Constituição são utilizados como armas. A favor dos próprios interesses, claro.
2) Liberdade de expressão não significa liberdade para intimidar. É legítimo defender um candidato, vestir sua camiseta, carregar sua bandeira ou criticar o adversário. Perseguir alguém na rua, ameaçar um vizinho ou tentar impedir uma manifestação pacífica pode ser crime.
3) Não transforme o grupo da família em comitê. A tia que compartilha um "bom dia" com imagens de flores não precisa receber, como resposta, um vídeo de 12 minutos explicando por que o Brasil supostamente "acabará" na segunda-feira. Há vida depois da eleição. E haverá Natal, com os mesmos parentes à mesa.
4) Redobre a atenção com informações falsas. A inteligência artificial, que teve participação discreta no primeiro turno, ganhou espaço na reta final. Antes de compartilhar uma mensagem, procure confirmar se é verdadeira. Na dúvida, não encaminhe.
5) Se chegarem até você informações comprovadamente falsas, ameaças ou propaganda eleitoral irregular, denuncie à Justiça Eleitoral.
6) Poupem as crianças. Elas não precisam ser convocadas para as trincheiras ideológicas dos adultos. Tampouco precisam aprender que o vizinho é uma pessoa desprezível porque vota em outro candidato.
7) Prepare-se para o resultado. Seu candidato pode ganhar ou perder. Nenhuma das possibilidades autoriza perseguir quem fez outra escolha. A democracia não exige que todos saiam satisfeitos, mas que todos aceitem as regras do jogo.
Por fim, a coluna deseja uma boa semana a todos nós. Serenidade, por favor.
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