É minha tia!
Sou filho de um promotor de justiça e de uma defensora pública. Tenho dois irmãos promotores e um juiz. Mas quando encontro algum advogado, ele me pergunta logo de cara: - Você é parente da Cléa Carpi da Rocha? - É a minha tia - digo com ênfase -, irmã da minha mãe.
Ela é uma unanimidade no mundo jurídico: a primeira mulher a presidir a seccional da OAB do Rio Grande do Sul (OAB/RS), em 1989; a única mulher a ter recebido a Medalha Rui Barbosa, a mais prestigiada honraria concedida pelo Conselho Federal da OAB; uma das lideranças gaúchas do movimento histórico pela redemocratização do Brasil, Diretas Já, no combate à censura na ditadura militar.
Orientou governadores. Moldou o caráter de gerações de bacharéis. Atuou por duas décadas como conselheira federal da OAB. Com a covid-19, atravessou uma semana internada no CTI do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre (RS), entre a vida e a morte.
Sobreviveu ao coronavírus milagrosamente pela sua tenacidade, quando já parecia impossível se reabilitar, no ápice da epidemia que resultou em 700 mil óbitos no país. Ela soma muitas dores e lutos, mas não se distancia do sorriso e da voz firme. Perdeu um filho pequeno devido a um tumor na cabeça, no maior pesar da nossa família.
Sofreu horrores, mas não quer que ninguém sofra como ela. Luta para que ninguém sofra como ela.
Nunca parou de trabalhar, desde os 18 anos, desde que assumiu a maioridade. Natural de Guaporé (RS), conduziu o Centro Acadêmico André da Rocha da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 1959 e foi vice-presidente da União Estadual de Estudantes, dando início a uma trajetória voltada aos direitos humanos e às causas femininas.
Seu apartamento no alto da avenida Independência se tornou nosso quartel-general para ver a cidade e os problemas de cima. Aos 89 anos, ainda viaja pelo Interior para eventos, ainda discursa, ainda fica de pé durante longas cerimônias. Ela jamais se aposentou. Jamais cansou. Jamais se entregou ao tempo. Jamais cobrou por aquilo que ensinou.
Se ela superou a maldita gripe, tão devastadora que na época o ar não vinha, agora enfrenta uma nova guerra: descobriu um câncer. É exatamente no mesmo local - pulmão direito - e do mesmo tipo - adenocarcinoma - que vem afligindo o Papa Leão XIV, submetido a cirurgia na terça-feira, em Roma.
Em quatro sessões, com intervalos de 21 dias, Cléa passará pela maratona da quimioterapia. Adotou a discrição como de costume. Não fez escarcéu. Não houve drama. Não se sentou em nenhum momento na cadeira do fatalismo.
Não existe como sentir pena dela, pois todo o espaço é ocupado pelo orgulho. E ela responde às mensagens. E ela atende o telefone. E ela se mantém bem-humorada e calma. Como se o destino soubesse sempre menos do que ela.
Eu falo que vou orar por ela. Ela agradece: "Os afetos iluminam as batalhas". Ela me conforta antes que eu possa confortá-la, antecipando-se a qualquer iniciativa, com seu olhar carismático que faisca esperança.
Minha tia entende tudo de política, mas é do amor pela justiça que ela nasceu.

Nenhum comentário:
Postar um comentário