sexta-feira, 16 de outubro de 2026

16 de Outubro de 2026
CARPINEJAR

Tínhamos que lutar

Arco com uma fobia: ir ao teatro ou ao cinema sem lugar marcado. Fico ansioso para a abertura da porta. Sou capaz de despontar da multidão em corrida frenética para alcançar uma posição conveniente diante da tela ou palco. Temo que possa atropelar um idoso no meu caminho cegado pela pressa.

Minha esposa fala que sou desesperado, que preciso tratar disso na terapia. Realmente, eu viro um sujeito arisco, predatório, antissocial.

Prefiro escolher minha poltrona previamente, na compra do ingresso. Até porque gosto de permanecer próximo a Beatriz, segurando sua mão, sentindo sua respiração próxima, colocando meus braços sobre os ombros dela, dividindo o silêncio como se fosse um beijo.

Tudo na vida guarda um antecedente. Experimentei uma época analógica em que sentar na frente da televisão com a família resultava numa disputa secreta pelo melhor assento no sofá.

Digladiávamos pela plateia na própria residência. Parece patético hoje, mas acontecia todo final de semana. Ainda dependíamos da programação das emissoras. Tínhamos que lutar. Tínhamos que chegar com folga. Tínhamos que tomar banho suando. Tínhamos que nos plantar no local, sem banheiro, sem geladeira, sem nos levantar por nada do mundo, uma hora antes do filme.

Arfávamos pelo Supercine da Globo, que transmitia desde o terror de Poltergeist ao romântico musical Grease - Nos Tempos da Brilhantina, com produções que tinham saído de cartaz havia poucos anos.

Se você deixasse para aparecer em cima do laço, os quatro postos privilegiados do sofá estariam ocupados, restando-lhe a opção de se acomodar na lateral dura ou buscar uma cadeira de praia postiça no cenário, sem conforto nenhum.

Também perdia de participar do cobertor que aquecia os pés do camarote vip, e se tornava o último a receber as cumbucas de pipoca, pinhão ou salgadinhos. Talvez viessem vazias para devolver à pia da cozinha.

Nem relaxava: sofria para não ser esquecido, clamava por compaixão para que passassem a bandeja das comidinhas, nutria ciúme do cachorro no colo de alguém. Havia discussão e um deus me acuda no momento em que o excluído se aproveitava do intervalo comercial para assumir a vaga de um ausente que se dispunha, generosamente, a atender o telefone fixo tocando.

Julgava-se a atitude como um golpe baixo, uma rasteira na honra, uma afronta ao usucapião. A forma encontrada para frear oportunistas de plantão consistia em largar um travesseiro, ou uma tiara, ou um pulôver para assinalar o território. Já vi chinelo sobre a almofada.Muitas vezes, o irmão reconhecia o objeto, mas não reconhecia o direito.

Família de seis enfrentava o excesso de contingente. Não cabiam todos lado a lado.Quem diria que, naquele tempo, o que mais queríamos era estar juntinhos em casa nas noites de sábado? _

CARPINEJAR

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