Escritora argentina
"O terror que me interessa fazer está relacionado com o social"
A escritora argentina Mariana Enríquez, 52 anos, se notabilizou por sua produção relacionada ao terror. Neste ano, dois títulos dela chegaram ao Brasil pela Editora Intrínseca. Alguém Caminha Sobre o Seu Túmulo, obra de não ficção, traz ensaios sobre cemitérios ao redor do mundo. Já Um Lugar Ensolarado Para Gente Sombria é uma coletânea de contos de terror que flertam com o realismo.
William Mansque
Em Um Lugar Ensolarado Para Gente Sombria, os personagens (humanos ou fantasmas) convivem com problemas muito concretos como pobreza, violência, desigualdade, medo e exclusão. O terror funciona para você como uma forma de falar daquilo que uma sociedade prefere não olhar?
Esses contos em particular são de gênero ou terror, mas o que uso é um material realista. O gênero como tal deve ser traduzido da mesma maneira que qualquer outro. Suponhamos o policial. Se pensar no romance policial nórdico, é um modelo que não podemos transferir como escritores para a América Latina porque seria absurdo.
Sei que é terrível o que vou dizer, mas nós estamos acostumados a chacinas, a crimes políticos, ao crime do narcotráfico e a muita violência institucional. Esse modelo tão analítico e psicológico do crime não funciona para nós. O nosso crime é necessariamente político. Com o terror é um pouco igual. O terror sempre, de alguma maneira, falou dos medos da sociedade onde o escritor estava. No meu caso, me interessa o terror relacionado com as fobias de uma sociedade.
E aqueles que são pessoais?
Também. Em Um Lugar Ensolarado Para Gente Sombria, tem um conto de body horror (terror corporal) sobre uma mulher que faz uma operação ginecológica (Metamorfose). Se certas questões relacionadas ao corpo da mulher e ao envelhecimento da mulher não nos dessem tanto medo ou repúdio, se não fossem naturais como deveriam ser, esse medo de envelhecer seria talvez mais pessoal, não somente algo social.
Então, o terror é o meu gênero. E o terror que me interessa fazer está relacionado com o social, com o real e com um diálogo com os medos que temos como sociedade. Se quisesse escrever realismo, eu o faria. Mas quero escrever no gênero, e o material para isso como escritora latino-americana, com os traumas da sociedade e a minha maneira de perceber a realidade, é este.
No conto Metamorfose, a protagonista começa a olhar para o seu corpo de outra maneira porque também muda a forma como o mundo a enxerga. Quanto da identidade, especialmente para as mulheres, é determinada pelo olhar dos outros?
Muito. É uma fraqueza terrível. Todas as mulheres passam por isso. Quanto mais rápido pudermos falar sinceramente a respeito, melhor. O que acontece com a mulher na menopausa e para além disso? Pensando nos nossos corpos no capitalismo, somos as mulheres que mais podem comprar cosméticos, tratamentos e roupas.
Só que quase nada de roupas ou de cosméticos são feitos para nós. Parece uma futilidade, mas é uma questão muito reveladora, pois te aponta o que você não é o tempo todo. Quanto mais velha eu fico, mais vontade tenho de me ver melhor. Não importa se isso é uma insegurança ou uma futilidade social, é um fato. Existe uma ideia totalmente perversa de envelhecer com elegância, como se isso fosse algo que se pudesse se fazer no meio de hormônios, doenças, depressão, de montões de coisas.
Em Alguém Caminha Sobre o Seu Túmulo, você visita tumbas que revelam tragédias de povos originários e presos políticos. Você sente que os cemitérios funcionam como o arquivo de postergados e esquecidos pela história oficial?
Os cemitérios funcionam como um arquivo histórico material, mas acho que os esquecidos e os marginalizados da sociedade, de alguma maneira, também ocupam o lugar de esquecidos e marginalizados nos cemitérios.
O túmulo do empresário e latifundiário José Menéndez (localizado no histórico Cemitério Municipal Sara Braun, em Punta Arenas), responsável por muitas chacinas na Patagônia, é um castelo. Há protestos, em muitas ocasiões, militantes entram e jogam tinta vermelha e tal, mas é um jazigo que simboliza um lembrete: uma família que ainda é poderosa.
Nos cemitérios, as classes sociais e as condições de centralidade se mantêm. Inclusive, em qualquer cemitério grande, vemos na entrada os majestosos túmulos aristocráticos e, depois, isso se reduz. De alguma maneira, sim, é um arquivo e é uma reprodução quase da ordem.
Voltando ao Um Lugar Ensolarado para Gente Sombria. No conto Meus Mortos Tristes, que inspirou uma minissérie da Netflix, há uma tensão entre vizinhos que exigem segurança, mas, ao mesmo tempo, há a violência que eles mesmos estão dispostos a aplicar. Havia interesse em mostrar como uma sociedade pode se transformar naquilo que diz combater?
Acho que um dos grandes temas (do conto) é como nos relacionamos. O tema da segurança urbana é muito complexo. Muito mais do que quando escrevi aquele conto, pois ali se cruzam muitíssimas narrativas. O medo do outro, do pobre e do diferente. Enxergá-lo sempre como um criminoso por sua cor, por sua origem, etc.
A ideia de que é sempre uma ameaça. E nesse âmbito, digamos, especialmente as classes médias se tornam muito conservadoras e se aproximam de atitudes fascistas. Só que, ao mesmo tempo, essas classes médias também estão sendo corroídas pela falta de trabalho, pela brutalidade do neoliberalismo que já não lhes permite uma sensação de segurança. Rapidamente, passam a ver insegurança em toda parte.
Há casos que é legítimo o medo de muita gente. Produz-se ali um momento muito tenso em que se enfrentam o ideológico, o narrativo e o político, onde os vulneráveis sempre ficam como alvo de acusações. Às vezes a gente sente que as pessoas se esquecem de que temos que viver todos juntos.
Quanto da Mariana escritora nasceu da cultura da música e do fanatismo?
Estudei jornalismo porque queria ser jornalista de rock. Eu lia muito jornalismo de rock naquela época, e era o que queria fazer: entrevistar bandas, fazer parte daquele mundo. Foi nessa fase que escrevi meu primeiro livro nos anos 1990, que é Bajar Es Lo Peor. Com o tempo, a literatura foi superando em muito o jornalismo. Esse lado obsessivo e fanático (com música) é muito importante na minha vida. É uma fonte de inspiração, é onde me sinto mais confortável. Gosto tanto quanto a literatura.
O fenômeno do ídolo e da obsessão do fã são elementos que aparecem na minha escrita porque me interessa e vejo um certo paganismo ali. É uma coisa que se cruza um pouco com a minha ideia do sobrenatural, ou seja, vejo essa devoção como uma nova forma do panteão contemporâneo.

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