domingo, 20 de setembro de 2026

19 de Setembro de 2026
COMPORTAMENTO - COMPORTAMENTO

Rotina de acordo com o ciclo menstrual

O "cycle syncing" viralizou nas redes sociais, mas especialistas alertam para evidências científicas sólidas

Uma tendência vem ganhando força nas redes sociais: mulheres recomendando a organização de vida de acordo com as fases do ciclo menstrual. A ideia de "não planejar o mês como um homem" é uma das bases do cycle syncing (sincronização do ciclo), prática que promete maior produtividade e bem-estar a partir de adaptações no dia a dia - desde o trabalho até o treino físico - conforme as etapas do ciclo menstrual.

A tendência tem adeptas em várias partes do mundo. No TikTok, por exemplo, são mais de 112 milhões de publicações fazendo menção à hashtag #cyclesyncing. A prática parte da premissa biológica de que as alterações hormonais ao longo do ciclo podem influenciar diferentes aspectos da vida. No entanto, de acordo com a ginecologista Maria Celeste Osório Wender, existe pouca evidência científica sobre cycle syncing, o que impossibilita a indicação profissional desta técnica.

A especialista também ressalta que as variações entre ciclos não são percebidas da mesma forma por todas as mulheres. Além disso, a mesma paciente pode apresentar flutuações entre ciclos, dificultando regras fixas.

Segundo Maria Celeste, estudos mostram que o tempo médio de diferença nas atividades entre as fases do ciclo é de apenas 12 minutos por dia, um impacto que pode ser influenciado por outros fatores como estresse, falta de sono e cuidado com os filhos.

Pesquisas indicam que a fase lútea tardia, nos dias que antecedem a menstruação, é a que mais aparece associada a maior cansaço e menor disposição, enquanto a fase folicular próxima à ovulação pode coincidir com maior disposição física. Também há sinais de pequenas variações na força e na capacidade aeróbica ao longo do ciclo.

No entanto, os efeitos variam de acordo com cada pessoa - e podem alternar em diferentes ciclos da mesma paciente -, o que impede a formulação de uma rotina padrão de como trabalhar ou qual exercício fazer em cada fase do ciclo menstrual, como é propagado pelo cycle syncing.

- Essas recomendações populares funcionam como sugestões úteis para algumas mulheres que percebem um padrão cíclico claro, mas não devem ser prescritas universalmente - ressalta a ginecologista. 

Fases do ciclo menstrual

Para pessoas que menstruam e que não usam contraceptivos hormonais, o ciclo envolve as etapas folicular, lútea e de ovulação, que podem variar em duração e efeitos em cada pessoa.

Fase folicular inicial (menstruação): começa com o sangramento menstrual, provocado pela queda de estrogênio e progesterona. A queda estimula a produção do hormônio folículo-estimulante (FSH), que estimula o crescimento de novos folículos nos ovários para o próximo ciclo

Fase folicular tardia: nesta etapa, um folículo se torna dominante e passa a secretar estrogênio. O pico deste hormônio prepara o corpo para a ovulação

Ovulação: é o momento da liberação do óvulo maduro, acompanhado por picos dos hormônios estradiol, LH e FSH

Fase lútea: após a ovulação, o que restou do folículo se transforma no chamado "corpo lúteo", que passa a produzir progesterona e um novo pico de estrogênio

Fase lútea tardia (pré-menstrual): caso não ocorra fecundação, o corpo lúteo regride e os níveis de estrogênio e progesterona caem, o que vai desencadear a menstruação e o novo ciclo

Autoconhecimento ou mais uma cobrança?

Para Cibele Cheron, professora de Ciência Política na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), é preciso cautela para que esse método não se torne uma cobrança adicional na rotina das mulheres.

Existe um risco real de que o autocuidado vire uma quarta jornada. A mulher já trabalha fora, trabalha em casa, cuida de todo mundo, e agora precisa gerenciar o próprio ciclo como uma planilha de metas. Se o resultado da prática é a mulher extraindo mais de si mesma para caber no mesmo calendário, houve intensificação do trabalho - analisa a professora.

Ela também ressalta que a possibilidade de adaptar a rotina não está disponível para todas as mulheres. Uma profissional com autonomia sobre os próprios horários, por exemplo, pode reorganizar compromissos de acordo com sintomas. Já quem trabalha em uma rotina rígida, com horários e tarefas determinados por terceiros, dificilmente terá a mesma liberdade.

Por isso, para Cibele, a discussão sobre o ciclo também deve servir para questionar as próprias condições de trabalho, em vez de buscar mais eficiência dentro delas.

Funciona?

Acompanhar o próprio ciclo pode ser útil para identificar padrões individuais e desenvolver autoconhecimento. O que não tem respaldo científico é transformar essas observações em um protocolo universal, determinando como se deve trabalhar, comer, treinar ou socializar em cada fase do ciclo.

A recomendação, portanto, é a individualização para evitar frustração com resultados ou sobrecarga. O ideal é observar o que acontece com o próprio corpo e não seguir uma tabela pronta encontrada nas redes sociais.

Segundo a cientista política Cibele Cheron, a ideia também pode inspirar discussões sobre a organização da sociedade e o lugar da mulher nela.

- O calendário que organiza escolas, empresas e órgãos públicos foi construído para um corpo universal, suposto sem variação interna, sem gestação e sem interrupção. A formulação mais precisa da sociedade seria: todo mundo planeja o tempo a partir do corpo, das crianças, do sono, da saúde. O que existe é uma hierarquia sobre quais corpos podem aparecer no planejamento coletivo, e o corpo que menstrua está entre os que foram obrigados ao silêncio e à invisibilidade - afirma.

Monitoramento saudável

Quem deseja acompanhar o próprio ciclo menstrual para identificar padrões individuais e desenvolver autoconhecimento, sem se prender em regras fixas, a ginecologista Maria Celeste recomenda acompanhar o ciclo por pelo menos dois ou três meses antes de tirar conclusões. Nesse período, anotar informações como humor, energia, dor, sono e data da menstruação. A partir desses registros, identificar padrões e fazer pequenas adaptações na rotina, conforme indicação médica.

A especialista ressalta, porém, que sintomas intensos ou incapacitantes não devem ser considerados parte normal do ciclo: cólicas fortes, alterações acentuadas de humor, sangramento anormal ou sintomas que prejudicam a qualidade de vida devem ser avaliados por um profissional de saúde. 

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