domingo, 2 de dezembro de 2012


ELIO GASPARI

O dilema da gerentona Dilma Rousseff

A doutora não combate a corrupção, apenas apaga incêndios, suas faxinas são mequetrefes

Seria bom se fosse possível dizer que o governo da doutora Dilma tem tolerância zero com malfeitos. Há uma distância oceânica entre sua administração e a de Nosso Guia, mas tolerância zero é conversa fiada. Na segunda metade do mandato seu desafio será mostrar a diferença entre suas atitudes reativas e uma verdadeira política moralizadora do governo e da nação petista.

Ou o PT acaba com seus esquemas ou esses esquemas acabam com o PT, produzindo uma sucessão presidencial demarcada pelo debate da corrupção. Essa poderá ser a derradeira e benfazeja contribuição dos companheiros à política nacional. Quem pensa que o moralismo produzirá um novo Fernando Collor, engana-se. Produzirá um Joaquim Barbosa, sem conexões com a plutocracia ou acordos com usineiros.

No caso das Bolsas Consultoria do ministro Fernando Pimentel (R$ 2 milhões ao longo de dois anos), o Planalto blindou-o e alterou a composição da Comissão de Ética Pública da Presidência, que viria a arquivar o caso com argumentos constrangedores.

A quadrilha dos irmãos Vieira, que tinha um pé na sala da chefe do escritório da Presidência em São Paulo, mostra que o Planalto protegeu os malfeitores atropelando os mecanismos de defesa do Estado.

O baiano Paulo Vieira, ex-diretor da Agência Nacional de Águas, filiou-se ao PT de São Paulo em 2003, no primeiro ano de governo de Lula. No ano seguinte tentou ser vereador em Gavião Peixoto, mas não se elegeu. Em 2005 foi nomeado assessor especial de controle interno do Ministério da Educação.

Em 2009 seu nome foi enviado ao Senado para ocupar uma vaga na diretoria da Agência Nacional de Águas. Foi rejeitado. A boa norma determinava que a indicação fosse esquecida. O Planalto empurrou-o goela abaixo.

A essa época Vieira já traficava interesses milionários do ex-senador Gilberto Miranda com o auditor Cyonil Borges, do TCU. Entrara também na rede de Rose Noronha. O nome da companheira aparecera numa lista de servidores que usavam cartões corporativos. Sua despesa, banal, fora de R$ 2.100, mas os comissários blindaram sua ida ao Congresso. Preferiram xeretar as despesas de Ruth Cardoso, para depois pedirem desculpas.

Paulo Vieira tratava dos interesses das ilhas do ex-senador Gilberto Miranda, operando nas agências reguladoras e monitorando a boa vontade de burocratas, oferecendo-lhes "mel na chupeta". Na operação de Vieira estava José Weber Holanda, o segundo homem da Advocacia-Geral da União. Ele estiveram no INSS, deixando seis procedimentos administrativos no seu rastro. Em 2008 a Controladoria-Geral da União estranhara a acumulação patrimonial do doutor e pedira a quebra do seu sigilo bancário. A Justiça Federal de Brasília negou o pedido e o processo está parado.

Em 2011, no governo da doutora Dilma, Weber ganhou o baronato da AGU. Estranha situação, pois nessa época um advogado da instituição cuidava do prosseguimento de um processo contra ele, travado por um mandado de segurança.

Em todos os episódios os mecanismos de defesa do Estado foram esterilizados pela ação dos comissários. Até onde essa proteção deu-lhes uma sensação de onipotência e invulnerabilidade, só eles poderão dizer. Tomara que digam.

Não é esse o caso do ex-senador Gilberto Miranda. Ele ganhou a cadeira nos anos 90, com a mágica da suplência. Sua biografia tem abundantes referências à generosidade com que ajuda os amigos e ofende a Viúva. Seus Learjets eram uma espécie de taxi aéreo para notáveis de Brasília. Seu palacete francês no Jardim Europa valia US$ 4 milhões. Colecionou três Rolls Royces. Tinha interesses na Zona Franca de Manaus e nas obras físicas para a rede de radares na Amazônia. Isso para não falar nas grandes aduanas do país. Referia-se ao presidente José Sarney como "Sassá" e teve um irmão no gabinete de Collor. Conhece as costuras dos bolsos da política brasileira.

Lendo-se os grampos da Operação Porto Seguro vê-se quão perto do comissariado Gilberto Miranda operava. Houve tempo em que ele dizia que "sou muito rico, não preciso de dinheiro". Pelo visto, precisou e descobriu companheiros que também precisavam.

LULA FASHION SHOW

A quimioterapia parece ter levado a barba de Lula, pelo menos por um tempo. Já a cor de seus cabelos e do bigode estão com jeito de trato de salão. Nosso Guia ficou parecido com sargento de filme mexicano.

PASSEATA DE CLASSE

A passeata dos royalties realizada no Rio de Janeiro inovou a técnica de manifestações populares. Nela havia um cercadinho VIP para os manifestantes ilustres. Era demarcado por um cordão e protegido por seguranças.

Os convidados VIPs diferenciavam-se da patuleia, pois recebiam pulseirinhas verdes. Nesse ritmo, a próxima passeata terá três classes: primeira, executiva e turista.

ADAUTO DE VOLTA

Foram muitas as fantasias vendidas pelos advogados de defesa aos seus clientes do mensalão. A maior delas foi o uso da teoria do caixa dois como blindagem. O truque transformou-se em mortalha.

Há uma nova: na fase dos recursos, novos ministros abrandariam as penas de alguns réus.

Quem acredita nisso deve pensar melhor.

Como ficariam os doutores se baixasse no plenário o espírito de Adauto Lúcio Cardoso e três ministros jogassem a toga, abandonando o tribunal? Em 1971, quando o STF legitimou a censura à imprensa, Adauto despiu a capa e foi-se embora. Puro palpite: o que fariam Joaquim Barbosa, Celso de Mello e Gilmar Mendes?

ÓDIO A FUX

O comissariado petista conformou-se com a posição de Joaquim Barbosa no processo do mensalão. Absorveu os votos de Carlos Ayres Britto e não quer confusão com Cármen Lúcia e Rosa Weber.

Em relação ao ministro Luiz Fux o sentimento é outro: ódio, em busca de vingança.

A CONTA

Em 2003, quando Nosso Guia resolveu ocupar um gabinete da sede do Banco do Brasil, na avenida Paulista, companheiros da burocracia da instituição defenderam a legalidade do presente. Um banco que tem ações na Bolsa não deveria ceder instalações ao governo.

Felipão enganou-se quando disse que quem trabalha no Banco do Brasil não sofre pressões. Sem pressão ninguém entrega um gabinete na esquina da Paulista com a rua Augusta. Nem nomeia o ex-marido da chefe do escritório da Presidência para um lugar de conselheiro da Brasilprev (com diploma falso).

BOCA RICA

A entrada dos planos de saúde americanos no Brasil cria uma questão interessante. Nos Estados Unidos, o atendimento da rede pública para casos de emergência, idosos e desvalidos é regulado por uma legislação complexa, altamente burocratizada.

Lá não existe a possibilidade de uma empresa vender um plano por US$ 50 (R$ 100), oferecendo uma cobertura que sua rede não tem condições de prover, pressupondo que a vítima será atendida na rede pública. No Brasil abundam os planos que se consideram ressegurados com a ida de seus clientes para o SUS, deixando a conta para a Viúva, pois as operadores, beneficiadas pela sonolência da Agência Nacional de Saúde Suplementar, escapam do ressarcimento.

Isso cria um paraíso para os empresários. Se o SUS melhora, o negócio deles prospera a custo zero.

Também explica um incompreensível interesse de magnatas de planos com nomeações para o STF e o STJ, pois a encrenca de ressarcimento será resolvida lá.

JOSÉ SIMÃO

Ueba! A Madonna é vintage!

Agora a manchete é assim: "Madonna toma overdose de mingau e se atira de camisola na piscina"

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Madonna no Brasil! De novo? Eu amo a Madonna. Mas celebridade não pode vir muito pro Brasil que já começam a implicar: lá vem a chata da Madonna!

É verdade! Na terceira vez que ela veio pro Brasil, um carioca falou: "Essa Madonna já tá enchendo o saco!". Daqui a pouco vão dizer que ela tem celulite, joanete e mau hálito. E acho que tem mesmo! Rarará!

E aquelas despeitadas: "O que é aquela velha de 50 anos com aquela guitarra?". Pois eu troco duas de 25 por uma Madonna de 50! Ela pode ter ruga, mas não tem um grama de gordura no corpo!

E eu fui comprar uma camiseta da Madonna em Bancoc e o vendedor me disse: "Tá lá na seção vintage". E eu, como sou vintage, comprei!

E como me disse aquela biba: "Eu tenho saudade de quando a Madonna era puta". Madonna não dá mais escândalo. Escândalo cansa! Já deu o suficiente! Não tem mais escândalos no mundo do rock. Agora a manchete é assim: " Madonna toma overdose de mingau e se atira de camisola na piscina do Fasano". Rarará!

E a Madonna avacalhou com o Natal. O ex-namorado dela, o Jesus, ficou mais famoso que o original. E ela disse que namorava com o Jesus porque na cama ele era um capeta. Rarará! E detesto comparações da Madonna com a Lady Gaga! Porque a Madonna praticamente revolucionou o comportamento de uma geração!

Momentos bombásticos da semana: Dilma veta o VetaDilma! Tudo agora é VetaDilma! Belmonte! VetaDilma! Royalties! VetaDilma! Vai começar "Salve Jorge"! VetaDilma! Grupo É o Tchan promete voltar em 2013! VetaDilma. E sabe o que a Dilma devia vetar? Crocs verde-limão! Rarará!

E definição de royalties: royalties é tudo aquilo que a China não paga! Definição de pré-sal: primeiro vem o oceano, depois vem a camada de sal, depois o pré-sal. E aí vem o Palmeiras. Rarará! É mole? É mole mas sobe!

E a charge do Frank revela o diálogo em Brasília: "E você, o que vai fazer nesse verão?". "Ah, eu vou pegar um semi-aberto". A onda nesse verão é o semi-aberto! Supremo dita que esse verão será o verão do semi-aberto! De dia você pega uma praia e de noite vê o sol nascer quadrado! O verão do sol quadrado!

E com o Felipão, a Seleção vai pra segunda divisão! Adorei o Trio Dentadura: Marin, Felipão e Parreira. É O NOVO! Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

simao@uol.com.br

FERRIERA GULLAR

A herança maldita

A coisa mudou: quem for pego com a boca na botija será defenestrado sem choro nem vela

Não pertenço a nenhum partido político nem tenho compromisso com nenhum deles, quer apoiem ou se oponham ao governo. Por isso, quando opino acerca de fatos políticos e critico ações de decisões governamentais, faço-o na condição de cidadão que, há muitos anos, observa e reflete sobre a vida política nacional.

Nessas condições, seria quase impossível calar-me diante do que tem ocorrido no Brasil nestes últimos anos, como é o caso do mensalão, que se tornou um episódio dominante no cenário nacional. Tanto mais depois do julgamento do Supremo Tribunal Federal, que não deixou dúvidas quanto ao comprometimento dos processados nele envolvidos.

Esse julgamento, como nenhum outro, foi feito às claras, transmitido na íntegra pela televisão, sem nada esconder. Resultado: José Dirceu, José Genoino, Delúbio Soares e quase todos os demais foram condenados a penas cuja dosimetria os ministros discutiram acaloradamente. Não obstante, o PT e os sentenciados, sem qualquer pudor, passaram a afirmar que foram injustiçados por um julgamento político, e não jurídico. E decidiram promover uma campanha nacional para denunciar essa injustiça.

Isso certamente não ocorrerá, mesmo porque, no dia seguinte àquela manifestação do PT, um novo escândalo tomou conta do noticiário: a Polícia Federal acusou Rosemary Nóvoa de Noronha, chefe do escritório da Presidência da República em São Paulo, indiciada por corrupção ativa.

Rosemary foi nomeada para esse cargo pelo então presidente Lula e o acompanhava nas viagens que fazia. Bastante estranho, não? Antes, nos anos 1990, assessorava José Dirceu, que a apresentou a Lula.

No início do governo deste, em 2003, foi nomeada assessora especial do gabinete pessoal da Presidência da República, antes de ser alçada à direção do escritório presidencial em São Paulo.

A pedido de Lula, Dilma a manteve no cargo, e é nesse escritório que Lula e Dilma se encontram para acertar os ponteiros quando a situação política o exige.

Pois bem, naquela sexta-feira, a Polícia Federal prendeu seis pessoas e indiciou outras 12, acusadas de participar de um esquema que fraudava pareceres técnicos em agências reguladoras e órgãos federais. Entre os presos, estão os irmãos Paulo Rodrigues Vieira, diretor da Agência Nacional de Águas (ANA), Rubens Carlos Vieira, diretor de Infraestrutura Aeroportuária da Agência Nacional de Aviação (Anac) e Marcelo Rodrigues Vieira. Os irmãos Vieira foram indicados para aqueles cargos por Rosemary, que mantinha com eles estreita ligação no esquema de fraudes descoberto pela PF.

Além de Rosemary, foram indiciados 11 servidores, entre os quais o advogado-geral da União adjunto, José Weber Holanda, o segundo na Advocacia Geral da União (AGU), órgão diretamente ligado à Presidência da República.

Em face de tamanho escândalo, envolvendo ocupantes de importantes cargos de confiança do governo federal, a presidente Dilma Rousseff convocou uma reunião de emergência com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e as ministras Gleisi Hoffmann e Ideli Salvatti, para avaliar a situação. Disso resultou a exoneração imediata de Rosemary e o afastamento dos irmãos Vieira de seus cargos. Dada a estreita ligação de Lula com Rosemary, foi a ele comunicada a sua exoneração, antes que se efetuasse.

Desta vez, Dilma agiu mais rápido do que quando demitiu os ministros corruptos que Lula lhe deixara como herança maldita. Naquela ocasião, ela chegou a defender alguns dos acusados e só os demitiu quando a situação se tornou insustentável. Agora, porém, em face do desgaste sofrido com o julgamento do mensalão e a condenação de dirigentes petistas, a coisa mudou: quem for pego com a boca na botija será defenestrado, de imediato, sem choro nem vela.

A verdade é que mais uma vez Dilma foi surpreendida por "malfeitos" envolvendo pessoas de sua equipe vinculadas ao ex-presidente Lula, que teria se queixado ao saber do novo escândalo: "Fui apunhalado pelas costas", expressão semelhante à que pronunciou por ocasião da descoberta do mensalão, em 2005. Por isso, não se surpreendam se, amanhã, ele vier a afirmar que tudo isso não passou de uma farsa, inventada pela imprensa.

sábado, 1 de dezembro de 2012



02 de dezembro de 2012 | N° 17271
MARTHA MEDEIROS

O pensamento nas pernas

Sempre acreditei que, se eu quisesse transformar alguma coisa, teria antes que passar por uma racionalização profunda e, posteriormente, por uma compreensão dos fatos. Ou seja, primeiro, pensar bastante para, então, compreender.

Cumprindo essas duas etapas, atingiria a serenidade buscada, fosse nas questões amorosas, familiares, profissionais, existenciais. A compreensão, como num passe de mágica, soltaria os fios enovelados e só então eu poderia me modificar.

Acontece que pensar demais cansa. Afirmo com a experiência de uma maratonista cerebral: eu vivia sempre no módulo on, com o cérebro ligado na tomada, descansando só quando dormia, e ainda assim com um olho fechado e outro aberto. Se pensar conduzia à compreensão, bora pensar, para poder entender. Sem entender, acreditava que meu barco ficaria à deriva, noites e dias sob as intempéries, sem atracar em lugar algum.

Tanta coisa serve de cais: um casamento, uma promoção, uma cura, um projeto, uma bolada, um filho. Estamos sempre indo ao encontro de alguma coisa sensacional que ainda não sabemos o que é nem se iremos encontrar mesmo.

Pois, diante desse imenso ponto de interrogação que é o futuro de todos nós, reformulei minhas crenças: estou me dando o direito de não pensar tanto, de me cobrar menos ainda, e deixar para compreender depois. Desisti de atracar o barco e resolvi aproveitar a paisagem.

Primeiro mude, a compreensão virá depois. É mais ou menos o que a filosofia de Nietzche sugere. Ninguém muda apenas através do pensamento. A transformação meramente intelectual é uma presunção, não existe de fato. É preciso colocar o pensamento nas pernas e agir. O corpo é que nos leva para uma nova vida, e não a razão, diz o filósofo num texto chamado “A favor da crítica”.

Recentemente os integrantes do programa Saia Justa discutiram o que é drama e o que é tragédia, e chegaram à conclusão de que o drama te encarcera, enquanto a tragédia, por mais dolorosa que seja, te coloca em movimento: você sai dela diferente. Do drama você não sai: você fica remoendo, remoendo, remoendo. Excesso de racionalização engessa o sentimento e não te leva pra fora, pra frente.

De Nietzche a Saia Justa é um salto e tanto, reconheço, mas toda filosofia é bem-vinda, seja acadêmica ou de mesa de bar, de programa de tevê, de coluna de jornal. Estamos aqui para aquilo que os intelectuais rejeitam que se fale em público (mas falo baixinho: ser feliz). E a felicidade não é uma ilha paradisíaca onde nosso barco um dia atracará. A felicidade não é terra firme: ela é o próprio mar.

Passamos uma vida perseguindo a felicidade, sem reparar que ela está justamente na perseguição. O pensamento nas pernas. O movimento. A ação. Não há muito a compreender além disso.


02 de dezembro de 2012 | N° 17271QUASE PERFEITO |
Fabrício Carpinejar

“Conheci a amante de meu namorado”

“Olá Fabrício! Acabei meu namoro ontem. Vivi quase dois anos com uma pessoa que hoje não tenho mais certeza de quem era de fato. Descobri uma traição. Mantive contato com a outra garota, que confirmou tudo. Descreveu detalhes que me fizeram ter certeza de que meu namorado (que mora comigo) aproveitava as tardes vagas para vê-la.

Viajava 100 km unicamente para encontrá-la. Ele nega. Quero acreditar nele, só que as evidências são esfregadas na minha cara. Desde ontem tento me convencer de que faço muito drama por coisa pequena, mas aí me lembro que essa não foi a primeira vez. Então talvez seja menos drama, e mais verdade. Beijo Manoela”

Querida Manoela,

Você cometeu o erro clássico: encontrar-se com a amante dele. Não há maior humilhação. Deveria ter evitado. Deseja se reconciliar, mas vai fracassar. Não há como voltar a acreditar em seu namorado.

É comum o fim do relacionamento depois de conversa séria com a outra mulher.

Recebeu detalhes que vão fixar a cena da infidelidade a todo instante. Conheceu o rosto dela, o tipo físico, os hábitos, começará a fazer comparações, a reconstituir as desculpas furadas, a desconfiar daquilo que viveu de bom. Verá a triste e inconsolável queda do império amoroso. Não sabe quem ele foi, e pior: não sabe quem vocês foram juntos.

Toda a mentira contamina as demais verdades.

A dor, acrescida da paranoia, torna-se imbatível. Descobrir a traição é difícil, mas com versão esmiuçada das escapadelas atinge o nível extremo de tortura. Com o roteiro nas mãos, os olhos reprisam automaticamente o filme. Não tem como parar o projetor.

Enquanto não identificava cenários e personagens, restava a tênue possibilidade de seguir em frente e tentar de novo. Agora é impossível se enganar, dispõe de atas do romance, atolada em mágoas reais e curiosidades sórdidas. Como justificar 100 km do namorado por sexo? É mesmo para se sentir ultrajada.

Só que não caia na lorota da amante. Ela não é mais uma vítima da canalhice dele, disputando o papel de enganada com você. Não mergulhe no corporativismo do sofrimento. Ela possuía a exata consciência de suas ações e dos danos do envolvimento duplo. Aproximou-se com o claro objetivo de ferrar sua relação. Como talvez seu namorado deu um fim para a história paralela, cumpriu a chantagem de contar tudo. Criou aquele apocalipse: se não ficarei com ele, ninguém ficará.

Não seja ingênua. Ela veio jogar duro. Não realiza caridade ou procura alertá-la dos perigos da desonra.

Como último ato, explique para seu ex-namorado a diferença entre honestidade e desespero. Ele pode confundir os dois.


02 de dezembro de 2012 | N° 17271
PAULO SANT’ANA

Despedida da casa

Este domingo é um dia que pode se tornar alegre, mas em essência é muito triste: é o dia dos violões em funeral, o dia do último jogo da história do Olímpico.

Eu conheço a torcida do Grêmio. Toda ela irá chorar à tardinha. A torcida tricolor vai derramar lágrimas de saudade antecipada do Olímpico:

Saudosa maloca, Maloca querida,

Oi didonde nóis passemo

Dias feliz de nossa vida.

Passarão diante dos nossos olhos no estádio os fantasmas da nossa felicidade.

A cena de Ortunho com a cabeça enfaixada com o rubro do seu sangue colorindo a garrafada que ele recebeu da arquibancada.

A cena de Everaldo, naquele jogo noturno, dando um soco no rosto do árbitro Faville Neto, derrubando-o em nocaute ao chão e tendo sido suspenso por um ano do futebol.

A cena que jamais sairá da nosso memória: Renato Portaluppi, quase na bandeira do escanteio, vendo que não tinha possibilidade de erguer aquela bola no gramado ensopado acima daquela muralha de jogadores do Peñarol, deu uma cavadinha na pelota e mandou um balão para dentro da área. César, o centroavante, botou de cabeça para dentro do gol, sagrando o Grêmio pela primeira vez Campeão da América.

Nunca vamos esquecer daquela cena, foi a maior vibração da torcida na história deste estádio sepulto.

Um dos momentos mais inesquecíveis do Estádio Olímpico foi aquele em que o Grêmio enfrentava o Santos, e Pelé e Coutinho, inacreditavelmente, vieram tabelando, de cabeça, do círculo central até a área pequena do Grêmio. Os gremistas se renderam e aplaudiram aquela jogada fantástica.

O voo espetacular de André Catimba depois de fazer o gol da vitória no Gre-Nal decisivo de 1977.

Olímpico do Oberdan, do Paulo Lumumba, do Jardel. Olímpico do Mazaropi, do Juarez, do Gessi, do Mílton, do Eurico, do grande e insuperável Airton Ferreira da Silva, o incrível zagueiro que nunca fez sequer uma falta. Olímpico do Alcindo e de João Severiano.

Eu pretenderia, na tarde deste domingo, fazer minha última volta olímpica no estádio, tantas eu já fiz, em companhia de meu filho Jorge Antônio, com 42 anos, e meu neto Luca, com oito anos, significando as três gerações que frequentaram o estádio.

É um estádio tão amado, que o ex-presidente que o concluiu, Hélio Dourado, recusa-se a pôr os pés na Arena, achando que assim trairia o Olímpico.

Saudosa maloca! O domingo vai ser dia de muitos e derramados prantos.


02 de dezembro de 2012 | N° 17271O
CÓDIGO DAVID | DAVID COIMBRA

O PAPAI NOEL E OS BICOS

No coração galopante da cidade, na Praça 15, tem a casinha do Papai Noel. O Papai Noel fica sentado sob a porta de entrada, esperando as crianças atrás da sua pança. Ao lado dele há duas grandes urnas de acrílico. Uma com cartas endereçadas, exatamente, ao Papai Noel, o que é uma contradição.

Afinal, o Bom Velhinho está ali, em barba e osso, pode ouvir pessoalmente as reinvindicações das crianças. Por que fazê-las também por carta? Vai ver é a necessidade cartorial que o brasileiro tem de documentar tudo, de deixar o passado imortalizado em papel. Sei lá. Seja.

O que me interessou mesmo foi a outra urna. A dos bicos. Ou chupetas, como você preferir. Havia uns cem bicos na urna. Fiquei olhando para eles. Imaginei as criancinhas que, diante do Papai Noel e suas promessas de mimos no Natal que se avizinha, puxavam o bico de entre os dentes e o abandonavam para sempre. O menininho de mão com a mãe, fitando seu bico na urna pela última vez. Pela última vez...

Foi comovente. Dentro daquela urna estavam cem símbolos da dor da vida humana neste Vale de Lágrimas. Cem símbolos de renúncia, de passagem de fase, do prazer abdicado em nome do amadurecimento.

Cem menininhos e menininhas deixaram lá seus bicos e, com eles, um pedaço da primeira infância. Por que, meu Deus? Por quê?

A renúncia

O meu guri está passando exatamente por esse drama. Tem cinco anos de idade e ainda chupa bico. Já devia tê-lo largado, ele sabe disso, todos dizem isso para ele. Mas ele não consegue. Foi o que me disse dia desses, sentado no colchão da sua cama, os pés balançando:

– Acho que não vou conseguir largar o bico, papai...

E suspirou.

Suspirei também. E depois falei:

– Já larguei vários bicos nessa vida, meu filho – novo suspiro. – É duro, é dolorido, mas a gente acaba largando...

Dia da decisão

A chegada do Natal está deixando meu filho aflito. Ele ouviu dizer que Papai Noel reivindica bicos em troca de presentes, e agora passa os dias especulando:

– Acho que ele não vai ter tempo para pedir meu bico, não é, papai? Ele tem muitas crianças para atender, tem que sair correndo com aquelas renas...

– E se eu desse meu bico para o Coelhinho da Páscoa? Acho que o Coelhinho também gosta de pegar bicos...

– Mas, afinal, o que é que o Papai Noel faz com todos esses bicos lá no Polo Norte?

– É. Acho que não vou conseguir mesmo. Melhor deixar o meu trenzinho com o Papai Noel...

Cachoeira do Sul

Não foi no Rio o melhor Carnaval da minha vida, e olha que já passei Carnaval no Rio em meio a todo o telecoteco-borogodó, e até saí atrás da Império Serrano na Sapucaí naquele ano do bumbum-paticumbum-prugurundum. Nem foi em Floripa, e isso que já estive na Praia Brava, no Bar do Pirata, trinchando torpedinhos de siri. Nem em qualquer fio paradisíaco da franja do Atlântico. Nada disso. Os melhores carnavais da minha vida os desfrutei em Cachoeira do Sul.

Cachoeira do Sul, imagine

Cachoeira está engastada bem no centro do Rio Grande do Sul. Talvez por isso tenha um pouco de cada palmo do Estado. Às vezes, Cachoeira mostra a franqueza ingênua da Fronteira Oeste. O meu amigo Meia (de “Zé Colmeia”) parece um fronteiriço, embora viva a vida inteira em Cachoeira. Lembro que o Meia dizia:

– Escrever eu escrevo, o que não sei é acolherar as letras.

Não é uma frase da Fronteira?

Já o meu amigo Sérgio Lüdtke, que foi quem me levou para Cachoeira, o Sérgio é o típico descendente de alemão – destemido comedor de embutidos, sedento bebedor de chopes, tão ordeiro quanto festeiro, qualidades germânicas que não são excludentes. O apartamento que o Sérgio dividia com outros três cachoeirenses aqui na Praia de Belas era um lugar sempre... movimentado. Uma noite, saímos para a esbórnia e o irmão do Sérgio, o Café (de “Carlos Fernando”) desapareceu.

Voltamos para o apartamento e ele não estava lá. Quando acordamos, estava. Dormia no carpete da sala com um pé de sapato de mulher sobre o peito. Era um sapato bonito, um escarpim, de salto alto e fino. Um único pé. O que fazia no peito do Café, ele nunca soube explicar.

O certo é que o Café, como o Sérgio e todos os demais cachoeirenses, exceto um, todos adoravam uma festa. Assim, o Carnaval de Cachoeira era incomparável. Nós tínhamos um bloco, o Ala-la-ô, que nunca foi campeão, suponho que por causa da energia despendida no chamado “esquento”.

Quando chegava a hora da apresentação nos clubes, estávamos, por assim dizer, dispersos. Perdemos troféus, mas as lembranças guardamos. Nossas lembranças são os nossos títulos.


OTIMO SABADO PRA NÒS

Pessoas são mais importantes que coisas. 
Já vivi momentos em que uma
organização falou mais alto que uma amizade. 
É preciso estar alerta para
não cairmos nesse erro. Vidas, relacionamento sincero, amizade,
diálogo, são tesouros! 
 Precisamos valorizar os parentes, os amigos, os
colegas de trabalho, os irmãos da igreja... 
Todos devem ter um valor
especial em nosso coração. 
Não deixe que nenhuma barreira atrapalhe
momentos especiais com alguém que precisa de sua atenção! 
Valorize cada
pessoa que passa em seu caminho...


Pr. Edilson Ramos


De onde vem essa luzes....


AMOR DA MINHA VIDA!

SEQUESTROU MEUS SONHOS ME FEZ TUA REFÉM.
NÃO VIVO MAIS SEM VOCÊ OS ENCANTOS DO SABER.
ACONCHEGO DO TEU ABRAÇO CRIOU UM LAÇO. . .
ME FAZ REVIVER NA ALEGRIA E NA TRISTEZA É VOCÊ.

VOU VOAR AO TEU ENCONTRO AMOR IGUAL NUNCA
MAIS ENCONTRAREI É A LUZ DO MEU VIVER.
PRECISO DE VOCÊ À CADA AMANHECER!

__SOL HOLME__


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Quando a manha chegou...


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Está um lindo dia


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Manhã de sol...


BOM FIM DE SEMANA !



BOM FIM DE SEMANA !


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Paisagem de inverno...


RUTH DE AQUINO

Rosemary, Rose, Rosa

Quando Rosemary saiu das sombras de seu chefe direto, Lula, e ficou mais famosa do que vilã de novela, ao ser demitida por Dilma, a fofoca correu o Brasil: “Sabia que ela era amante de Lula?”. Um amigo me dizia saber de fonte segura e insuspeita, do Palácio. Outro comentava apenas que era óbvio: “Eles viajavam juntos para todo lado, ela era uma secretária com superpoderes e com passaporte diplomático”.

O assunto começou a me dar asco. Creio que muitas mulheres já se viram em situação parecida. Foi promovida? É porque deu para o chefe. Viajaram juntos, foram para o mesmo hotel? É claro que transaram.

Inicialmente, nenhuma reportagem deixou claro que os dois teriam uma relação amorosa ou sexual.

Mas todos os eufemismos foram usados. Rose é “amiga íntima” de Lula. Dona Marisa Letícia “não gosta de Rose”. Rose chama Lula de “tio”. Lula chama Rose de “Rosa”. Pedidos de Rosa para ajeitar a vida da filha e do ex-marido eram como ordens. Rose “rodou o mundo” com Lula. A Polícia Federal “gravou 122 ligações pessoais entre Rose e Lula”.

Não me interessa saber se o PR – sigla usada por Rosemary para tratar do então presidente em e-mails – e sua ex-chefe de gabinete em São Paulo trocavam carinhos. Se havia um caso consensual entre dois adultos, isso interessa apenas à ex-primeira-dama. A julgar pela ausência de Dona Marisa em evento do Calendário Pirelli, no Rio de Janeiro, onde Lula se aboletou sobre o decote de Sophia Loren, ele não escapará da CPI doméstica.

O importante para todos nós é que Rosemary, falastrona, não só pedia favores pessoais em nome de Lula. Para obter o que queria, ela se identificava como sua “namorada”. Se for verdade, e ela usou o sexo ou o amor como trampolim para defender interesses privados, isso é imoral, ilegal, irregular.

Mulheres assim prestam um desserviço à categoria. E Lula, até que ponto ele permitiu que sua intimidade contaminasse suas decisões como líder político? Não é imoral apaixonar-se. Mas um presidente não pode misturar vida privada e pública, sob pena de, nas suas próprias palavras, “ser apunhalado pelas costas”. Dilma não gostou.

Até que ponto Lula deixou sua intimidade contaminar o Poder e, agora, acuar o governo Dilma? 
 
A imprensa sempre protegeu a vida particular de Fernando Henrique Cardoso e nunca fuçou suas aventuras ou romances extraconjugais. Era tabu falar de filhos de FHC fora do casamento, por ser um assunto estritamente privado. O adultério do senador Renan Calheiros só veio à tona porque havia uma empreiteira no meio do amorzinho com Mônica Veloso, a mineira que escancarou na Playboy os bens materiais de Renan.

Esquecendo o lado picante – já que Rose não é nenhuma Mônica Veloso e nem com plástica seria convidada a posar nua –, os maiores estragos morais vêm do abominável “pequeno poder” de nossa República. Instalado por um governo queprometia ética, ética, ética.

As revelações diárias da Operação Porto Seguro, da Polícia Federal, sobre as tramoias dos personagens envolvidos com o escritório da Presidência da República em São Paulo chocam, de certa maneira, até mais que o mensalão, um escândalo da alta política.

A Porto Seguro mostra a teia da baixa política. Um dos fios podres é a desmoralização de agências reguladoras. Com a indicação de Rose e a cumplicidade do senador “incomum” José Sarney, o Congresso aprovou raposas para regular os galinheiros. Foi o caso de Paulo Vieira, cuja incompetência técnica para dirigir a Agência Nacional de Águas (ANA) tinha sido atestada por especialistas.

Paulo chamou alguém do mesmo sangue, Rubens, para dirigir a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Os irmãos Vieira são acusados de coordenar um esquema de pareceres irregulares que favorecem amigos, senadores e parentes. Diplomas falsos, avaliações de faculdades no MEC, cargos apadrinhados em autarquias do governo, construções de portos e mansões particulares em ilhas de cabras e bagres.

Violando regras e procedimentos. Rose e Paulo, amigos há dez anos, planejavam abrir um curso de inglês em São José dos Campos, Red Balloon (ou Balão Vermelho). É uma história muito brega, se não fosse perigosa.

Lula agora precisa explicar direitinho quem o apunhalou. Nunca antes na história um presidente foi tão traído. Duvido que fale antes da viagem de duas semanas que fará, a partir desta sexta-feira, para Paris, Berlim, Doha e Barcelona.

Há outra pergunta que não sai da minha cabeça. Qual foi o motivo da demissão fulminante de Rose?

1) um ato de coragem e retidão de Dilma por não compactuar com a corrupção?

2) um ato de irritação com uma personagem de cujo caráter Dilma suspeitava havia anos, tendo alertado Lula em vão?

3) uma manobra para evitar que Rose deponha no Congresso (governistas se opõem a sua convocação alegando que ela já foi demitida)?

Se a afobada Rose diz que não fez nada “imoral, ilegal ou irregular”, vamos dar a ela a chance de se defender. Não?  


01 de dezembro de 2012 | N° 17270
NILSON SOUZA

Atualização

A Família Brasil já pode respirar aliviada: Verissimo despertou do seu longo sono, que nos deixou a todos com a respiração suspensa por uma semana. Conversei esta semana com dona Lúcia, sua diligentíssima esposa e loquaz porta-voz de seus silêncios. Ela me disse que as primeiras palavras do nosso genial cronista foram:

– Onde foi que eu parei? Me atualiza.

Eis o homem! Por isso nos inspiramos tanto neste profissional das letras que se transformou em referência de lucidez e humanismo para o país. Até mesmo quem não concorda com suas ideias tem que admitir o seu talento inigualável para expressá-las.

Sua internação provocou tamanha corrente de solidariedade que as pessoas deixaram de lado suas convicções: ateus rezaram por ele, gremistas torceram por sua pronta recuperação, até a direita do espectro político voltou-se respeitosamente para a esquerda.

Não sei o que a Lúcia contou para ele, mas foi uma semaninha desconcertante essa em que o nosso cronista saiu do ar. Começa que o Rubens Paiva ressuscitou. No sentido figurado, evidentemente, mas um segredo escondido durante mais de 40 anos veio à tona de maneira folhetinesca, a partir do assassinato de um coronel que guardava em casa arquivos da ditadura. Verissimo terá dificuldade de acreditar nisso.

As notícias de esporte ocorridas nesse período não são menos intrigantes para o nosso cronista adormecido: Mano Menezes conseguiu levar a Seleção a um título sobre a Argentina e foi demitido no dia seguinte; Koff e Odone se reuniram como velhos amigos; Fernandão caiu antes do previsto e o Inter... Talvez seja bom nem contar para ele.

Na seção escândalos, não faltam novidades. O mensalão não terminou, mas foi interrompido para a festa de posse de Joaquim Barbosa, que teve 2 mil convidados e canções do Tim Maia. Não, o Tim Maia não ressuscitou.

Era o ministro Luiz Fux cantando e tocando guitarra. Em seguida, Cachoeira foi solto. E a Polícia Federal grampeou novas falcatruas de gente ligada ao governo. A personagem do momento é uma tal de Rosemary, que deu a volta ao mundo com Lula e foi demitida por Dilma. Ou por dona Marisa, sei lá, está tudo tão confuso.

Pensando bem, espero que a Lúcia não tenha contado tudo isso para o marido convalescente. No mínimo, correríamos o risco de que ele reagisse como aquele personagem célebre de Jô Soares, um general acidentado que acordou depois de seis anos de coma e ficou sabendo que seus companheiros de farda não estavam mais no poder.

Verissimo, bem-vindo ao país da piada pronta.


01 de dezembro de 2012 | N° 17270
PAULO SANT’ANA

Hora do elogio

Como ninguém me elogia, em represália vou passar a elogiar os outros.

Cumpro elogiar a colega Rosane de Oliveira, nossa cronista política de Zero Hora. Fiquei encantado com o texto que ela produziu anteontem sobre o julgamento do mensalão.

Sobre a pena atenuada que sofreu Roberto Jefferson, ex-deputado federal que denunciou o esquema criminoso, Rosane escreveu: “Dito assim, parece que Jefferson denunciou o esquema porque é um bom cidadão, um sujeito reto que não compactua com a falcatrua na política. Não é bem assim.

O chefão do PTB só botou a boca no trombone quando caiu o esquema de corrupção que o partido dele comandou nos Correios. Inconformado porque o PT não pagou os R$ 20 milhões que prometera ao PTB (os repasses ficaram em mais ou menos um quarto do valor combinado), Jefferson abriu as portas do inferno e deu a trilha para que a CPI dos Correios chegasse aos 40 indiciados.

É indiscutível que o ex-deputado, cassado na mesma leva de José Dirceu, prestou um serviço ao país ao denunciar o mensalão, mas isso não faz dele um herói. Seu partido recebeu do mesmo dinheiro sujo que outros aliados do governo Lula receberam. Cada um usou o dinheiro como quis, financiando campanhas ou melhorando a vida de seus dirigentes, mas são todos farinha do mesmo saco”.

Esplêndido resumo da colega Rosane de Oliveira sobre a origem do mais aparatoso escândalo da história da República.

Sinto orgulho de ser colega da Rosane de Oliveira, pela sua inteligência e pela qualidade de seu texto.

Vale elogiá-la.

Meu outro elogio é para o radialista Antônio Carlos Macedo, que está completando amanhã 10 anos na apresentação do programa Gaúcha Hoje, na Rádio Gaúcha.

Chega a ser espantoso o preparo dele na apresentação do programa. Vai recebendo os e-mails de ouvintes e as intervenções de seus colegas sobre as notícias ou opiniões dos fatos do dia e os aborda com extraordinário domínio sobre os fatos, o que demonstra que consome várias horas do dia para ilustrar-se sobre a atualidade.

Com boa voz radiofônica e conhecimento extraordinário sobre as nuanças da política, da administração pública e do futebol, tornou-se o mais completo analista de torrente radiofônica discursiva, mostrando-se preparado para improvisar a todo instante sobre os acontecimentos interessantes, às vezes repentinos, do noticiário do dia.

O Antônio Carlos Macedo leva o meu elogio mais profundo e sincero. Trata-se de um raro profissional da notícia e do comentário.

Porque não usufrui das luzes da televisão, a constância de sua boa atuação é muitas vezes injustamente não destacada, mas todos os dias as manhãs da Rádio Gaúcha são engalanadas pela proficiência da sua apresentação.

E quanto à carga pesada da sua opinião, na maioria das vezes ele está correto em suas observações, sendo raro que se equivo que nelas.

Ainda bem que há uma unanimidade entre seus superiores de que Macedo é um dos profissionais de jornalismo mais competentes que se conhecem em nosso meio.

Há que se reconhecer insistentemente o seu brilho.


01 de dezembro de 2012 | N° 17270
CLÁUDIA LAITANO

O marinheiro e o camponês

Durante mais de 30 anos, meu pai trabalhou em uma grande loja de departamentos chamada Hermes Macedo. Se aquele prédio na esquina da Alberto Bins com a Coronel Vicente fosse um reino – e para mim era –, meu pai seria o soberano, e eu sua única princesa.

Loja de departamentos era aquele negócio com a ambição cosmogônica de contemplar todas as necessidades de consumo que um crediário é capaz de abarcar. Na HM, compravam-se calcinhas e geladeiras, bicicletas e relógios, pneus e anáguas, lanchas e todos os seus acessórios, sofás e passadores de cabelo. Como a família real morava em apartamento, a Hermes Macedo era meu parque, minha Disney, meu reino das águas claras.

Ali, eu podia pular em todos os sofás, testar todos os brinquedos e, mais radical de todas as aventuras, subir correndo a escada rolante no sentido contrário. Na Hermes Macedo, iniciei e encerrei minha carreira de modelo infantil cometendo um ousado strip-tease na passarela, sentei no colo do Papai Noel pela primeira e última vez – e chorei, acalentei todas as bonecas, pedalei todas as bicicletas sem nunca sair do lugar.

Tudo porque meu pai trabalhou quase a vida inteira em um único emprego – e para mim, na infância, era como se ele tivesse nascido ali e fosse morrer ali também. (Anos mais tarde, ele acabou morrendo no trabalho, mas não na HM, que já havia falido, mas no escritório onde se empregou para completar a modesta aposentadoria que se pagava aos soberanos das lojas de departamentos naquela época.)

Em um texto clássico sobre a arte de contar histórias, Walter Benjamin divide a habilidade de narrar em dois grandes arquétipos: o do marinheiro e o do camponês. O marinheiro viaja, enfrenta perigos, estende horizontes com o relato de suas aventuras. O camponês é o depositário da tradição, das narrativas que tornam um lugar único em relação a todos os outros. O marinheiro é espaço, o camponês é tempo.

Meu pai foi o camponês urbano que nunca saiu do mesmo lugar. Se tivesse sido um piloto da Varig, um capitão da Guarda Costeira, um mascate de tecidos, é provável que tivesse me ocorrido perguntar mais sobre as coisas que tinha visto, os personagens exóticos, as paisagens distantes.

Hoje me arrependo de não ter usado o tempo que tivemos juntos para perguntar mais sobre a cidade de onde ele nunca saiu, sobre as esquinas que conhecia desde sempre, sobre as pequenas e grandes intrigas daquele reino aparentemente indestrutível que se desfez antes mesmo de eu chegar à vida adulta.

Dizem que os garotos de hoje têm pavor da ideia de trabalhar a vida inteira no mesmo lugar e que a carreira estável não tem o apelo que tinha nos tempos do meu pai. E é verdade. Mas o fato é que a jornada aventurosa do marinheiro sempre foi mais sedutora do que a estabilidade, mesmo quando ser camponês parecia mais sensato.

Eu mesma, se tivessem me perguntado, talvez respondesse que preferiria visitar todas as capitais da Ásia a morar sempre na mesma cidade, fazendo a mesma coisa todos os dias e vendo as semanas virarem meses, e os meses se agruparem em anos.

Não foi bem o que aconteceu. Esta semana, comemorei inacreditáveis 25 anos lavrando metaforicamente o mesmo pedaço de terra, na mesma esquina da Erico com a Ipiranga onde comecei a trabalhar antes mesmo de decidir ser jornalista. Sou, como meu pai, uma camponesa.

O que marinheiros e camponeses acabam percebendo depois de algum tempo é que há sempre algo novo a se descobrir na paisagem de todos os dias, assim como algo que se repete naqueles lugares onde nunca estivemos antes.

A única aventura realmente inesgotável talvez seja aquela de poder fazer o que se gosta. Assim na terra como no mar.


01 de dezembro de 2012 | N° 17270
BICAMPEÕES DE OURO

Os gêmeos bons de cálculo

Estudantes do Colégio Militar de Porto Alegre, irmãos conquistaram novamente medalhas em olimpíada de matemática

É preciso menos de 10 minutos de conversa para perceber que os irmãos Bryan e Brendon Diniz Borck, 12 anos, não são adolescentes como a maioria. Os gêmeos idênticos se expressam com eloquência, não usam gírias e consideram sete uma nota baixa para figurar no boletim escolar.

Alunos do 7º ano do Colégio Militar de Porto Alegre, os meninos souberam ontem que haviam conquistado medalhas de ouro na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas de 2012, na qual levam ouro os 200 primeiros colocados em cada categoria. Bryan foi o primeiro lugar geral do país entre os alunos dos 6º e 7º anos do Ensino Fundamental, e Brendon, o 14º.

Ao todo, mais de 19 milhões de estudantes de 46.728 escolas de todo o país disputaram a Olimpíada deste ano. Bicampeões, os gêmeos também levaram ouro em 2011, o que lhes rendeu uma viagem ao Rio de Janeiro para receber as medalhas das mãos de Dilma Rousseff. O momento com a presidente, que deve se repetir no ano que vem, encheu de orgulho os pais, o técnico em informática Nadir Borck e a dona de casa Tatiane Diniz Borck.

– Eles estudam muito, gostam de ler, mas também adoram jogar videogame. São filhos maravilhosos, não preciso mandar eles fazerem nada. Estão sempre à frente da gente – orgulha-se a mãe.

Na sala de aula, ajuda aos colegas com dificuldades

Os professores do Colégio Militar também são só elogios para a dupla de alunos modelo. Do 6º para o 7º ano, Brendon foi escolhido o melhor da série e recebeu o título de comandante da turma. O segundo colocado foi o irmão, Bryan.

– Percebemos que eles não têm só interesse pelas notas. São afetivos e se preocupam em ajudar os colegas que precisam de reforço com os estudos – diz o tenente Gentil Bruscato, professor de física.

vanessa.beltrame@zerohora.com.br