sábado, 2 de março de 2019



02 DE MARÇO DE 2019
ARTIGO

O país do DEPOIS

REFLEXÕES PROVOCADAS PELA SUCESSÃO DE TRAGÉDIAS NÃO NATURAIS NO BRASIL

Pela memória do jornalista Ricardo Boechat, morto em 11/2/2019

Tragédia natural: diz-se do evento que causa grandes danos (humanos, patrimoniais, ambientais) e cuja origem está ligada a fenômenos naturais. Terremotos, tsunamis, furacões ou tempestades se encaixam nesta descrição. Brumadinho, não. O evento não decorreu de nenhum desfeito da natureza à população e aos trabalhadores da mineradora: a barragem não era natural; os dejetos, embora minerais, também não o eram, pois lá não foram depositados naturalmente. E o rompimento sabidamente não se deu por terremoto, o que poderia ser o único motivo pelo qual o acidente pudesse, talvez, ser considerado natural.

Fato é que o país está acostumado a sediar - e, posteriormente, acompanhar suas coberturas midiáticas - catástrofes não naturais de grandes proporções. Estas, por definição, decorrem de ações ou inações do próprio ser humano.

Negligência, incompetência, imperícia, desonestidade e ganância são algumas das nuances vergonhosas de nossa condição humana que as causam. Temos então a primeira conclusão: catástrofes não naturais são catástrofes evitáveis - o que não quer dizer facilmente evitáveis.

Mas por que será que aqui ocorrem em tão grande número? O meu palpite mais forte: somos o país do depois. As pessoas, os governos, as empresas e a mídia só resolvem tomar atitudes depois que a merda aconteceu. Depois de Mariana, foram semanas e meses de "medidas urgentes" mirando outras barragens (as aspas são para, de fato, dar-lhes tom pejorativo, já que sempre tomadas a posteriori). Após terem sobrado do Museu Nacional apenas as paredes externas, choveram críticas sobre o descaso dos governos com o patrimônio histórico e cultural brasileiro. Precisou um prédio abandonado do centro de São Paulo, invadido e habitado por pessoas vulneráveis, pegar fogo, desabar por inteiro e deixar sete vítimas para que sociedade e a prefeitura acordassem para os possíveis riscos de tais invasões e habitações irregulares. E, sabemos, foi apenas depois da Kiss que assistimos a prefeituras e corpos de bombeiros cassando (quase indiscriminadamente) alvarás de bares e casas noturnas.

Coloquemos mais o dedo na ferida de nossa memória coletiva ao relembrar o Bateau Mouche. No último Réveillon, completaram-se 30 anos daquela trágica noite em que 55 morreram após o naufrágio de um barco cujo destino não poderia ser outro senão o fundo da Baía de Guanabara. O excelente documentário Arquivo N - Os 30 Anos do Naufrágio do Bateau Mouche explica muito bem a sucessão de ações e omissões humanas. Certamente houve medidas práticas, implementadas nos dias e semanas que se seguiram, com o intuito de que casos similares não se repetissem. Depois, como em Brumadinho.

Ser o país do depois não é uma conclusão, mas uma constatação. A lição que dela decorre é bastante óbvia, embora pareça que uma quantidade incrível de agentes da sociedade (os mesmos citados anteriormente) a desconheça ou a esqueça frequentemente. Se somos o país do depois é porque somos o país da negligência, da falta de atitudes preventivas. Soa ridiculamente óbvio? Vamos explorar um pouco mais o assunto para ver se o é tanto assim?

O aprendizado de bebês e crianças se dá principalmente através da tentativa e erro. Se por acaso um pai nunca ensinar a uma criança que fogo machuca, ela vai acabar aprendendo isso, mais cedo ou mais tarde. Na pele, literalmente. O approach brasileiro no gerenciamento de riscos costuma ser assim, infantil: só tomamos providências após já termos errado. Tínhamos, entretanto, plena capacidade para facilmente concluir, a priori do erro, que tomar providências era imperativo. Afinal, estamos no século 21: o conhecimento e tecnologias são vastos e disponíveis. Ou seja, não precisaríamos aprender errando.

Assim, depois do caso Kiss, buscou-se melhorar a segurança de casas noturnas, afinal são de fato estabelecimentos de muito risco (alta densidade de pessoas, som alto, luminosidade baixa, peculiaridade dos espaços físicos...). Mas e hospitais, também não têm especificidades que o tornam estruturas sensíveis? Ali temos produtos químicos inflamáveis, pessoas com extrema dificuldade de locomoção, edificações grandes, labirínticas e desconhecidas para boa parte dos indivíduos que lá dentro estão. Não é difícil de se imaginar o risco de perdas humanas que um incêndio de grandes proporções poderia gerar - sem falar nos danos potenciais de segunda ordem à comunidade, com o fechamento posterior, mesmo que temporário, da instituição.

E será que nossos estádios e pontes têm recebido a devida atenção preventiva? Ou precisaremos uma tragédia para entendermos que a força da gravidade existe e pode ser bastante impiedosa com quem a desafia? Brumadinho não teria ocorrido não fosse ela.

A cidade de São Paulo por exemplo, recentemente precisou ver um vão de um viaduto na Marginal Pinheiros ceder para se dar conta de que algumas de suas pontes e alguns de viadutos representam sério risco à vida de seus usuários. Pergunto-me se as outras prefeituras das grandes cidades do país e os órgãos estaduais e federais se mexeram ou apenas pensaram que "é um problema de São Paulo".

A limitação de visão do brasileiro é realmente impressionante! O acidente no CT do Flamengo gerou questionamentos sobre como estão as condições nos outros alojamentos na cidade do Rio (quiçá no Brasil), bem como a utilização de espuma de poliuretano em divisórias internas de contêineres de aluguel. Tais questionamentos precisam ser feitos? Claro. Mas ar-condicionado escolhe apenas alojamento de categorias de base de times de futebol do Rio de Janeiro para gerar curtos-circuitos e explodir? Arquitetos, engenheiros ou designers de interiores escolhem apenas contêineres de aluguel para prescrever divisórias com espuma de poliuretano?

Será que é tão, mas tão difícil fazer os diversos agentes da sociedade entenderem que risco se estima pela multiplicação da (1) probabilidade estimada de um evento ocorrer pelo (2) dano potencial - humano, material ou natural - que este evento poderá gerar? É uma definição/equação simplíssima, com duas variáveis. Porém extremamente poderosa.

Há muitos contextos em que incêndios podem gerar danos potenciais enormes. Assim, se se pretende de fato agir preventivamente daqui para adiante, assistir autoridades focando-se apenas em alojamentos de times de futebol de uma cidade - porque recém tivemos um evento em contexto similar - é gozar da capacidade crítica que um cérebro humano nos possibilita.

Moral da história: ser o país do depois significa, obrigatoriamente, não ser o país do antes. E não ser o país do antes significa que a nossa sociedade não dá bola para riscos relevantes os quais ela nunca vivenciou: somos incapazes de utilizar nossos cérebros para identificarmos a priori riscos potenciais controláveis e agirmos proativamente sobre eles.

O PAÍS DO ESQUECIMENTO

Mas o Brasil não é só o país do depois. É também o país do esquecimento - e aqui serei tão curto quanto é a memória da nossa sociedade. Passados os dias ou semanas de comoção nacional, a poeira baixa. As providências são tomadas enxergando apenas o que está em um passado próximo. Quando o fio do tempo vai passando por nós e aquela catástrofe maior já está lá longe, esquecemos. E, por conclusão lógica, se os agentes assim esquecem o que se passou, esquecidas também são as famosas "medidas" tomadas no pós-evento.

Interessante que esta falta de memória inclusive invalida a característica infantil (tentativa e erro) de nosso approach para gerenciamento de riscos. Afinal, a criança que se queima com fogo porque nunca a alertaram provavelmente nunca esquecerá, por toda sua vida, que fogo queima. Na Kiss, a fumaça e o fogo mataram 242. Será que as providências tomadas à época ainda estão sendo praticadas, fiscalizadas, melhoradas? Ou os agentes que de alguma forma têm responsabilidade sobre a segurança de casas noturnas (empresários, arquitetos, trabalhadores, frequentadores, órgãos fiscalizadores) esqueceram que fogo e fumaça em danceteria matam (e muito)?

THOMAS KEISERMAN

02 DE MARÇO DE 2019
FRANCISCO MARSHALL

OS IGNORANTES


No exótico reino de Lisarb, terra fadada à inversão dos fatos, ocorreu, em tempos hoje chamados de Ova Era, a mais terrível das catástrofes: a revolta dos ignorantes, que tomaram o poder. Terremotos e tsunamis parecem aurora com arco-íris, quando se vê o que fazem ignorantes com caneta e carimbo. Macacos tomaram a direção do ônibus, estavam em maioria, com poder legítimo, tinham alianças, megafones e forças de repressão. Balbuciavam escassas sentenças, refrões meio dementes e argumentos torpes, faziam mil trapalhadas e grosserias, e tripudiavam dos demais, enquanto jogavam enciclopédias pela janela e apedrejavam artistas, cientistas e professores. Como isso pôde acontecer, perguntavam-se os acuados sobreviventes. Afinal, quem eram os ignorantes, o que os produziu e como se livrar deste flagelo?

Há vários tipos de ignorantes. O mais singelo nem merece este nome quando designa quem não tem o conhecimento, mas respeita e ambiciona o saber. Neste tipo, há os que pouco ou nada sabem e os que querem tudo saber, e precisam sempre aprender muito; somos todos ignorantes em vários assuntos. Há, também, o que foi privado de condições de desenvolvimento e foi, assim, conduzido para uma penosa vala de exclusão cultural e social. Afora estes, há ignorantes com pedigree, que odeiam o conhecimento, e foram estes que produziram a inversão da ordem em Lisarb e em reinos vizinhos. Viu-se que uma frota de milicianos ignaros, com ganas, é capaz de chinelear uma nação diante de uma obra de arte, sem saber o que dá o Di, sem ligar para o beabá.

A complexidade da Era do Conhecimento assusta a muitos; acuados, cedem a opções temerárias, contra o que creem ser a causa de sua angústia, formas da modernidade. Cansam de explicações que não compreendem, de novidades desafiadoras, da diferença cultural e de alteridades, desconfiam da ciência, da educação e da democracia, e buscam refúgio sob as duas asas da pior ave de rapina, a religião e o patriotismo; a ave de rapina chama-se tradição, e devora o futuro nas entranhas do presente. Filme antigo: a modernidade, sem ser culpada, induz a refluxo e recuo histórico.

Em Lisarb, rompeu-se o tênue fio vital de todas as sociedades, que conecta ignorância e conhecimento. Parte da culpa vinha dos que detinham o saber, que não souberam se antecipar à sublevação ignara, e parte maior na forma suicida com que aquele reino construiu classes dominantes sem qualidade de elite cultural; no apogeu da revolta ignara, a oligarquia de Lisarb preferiu assumir-se como ignorante e tentar desfrutar de uma atrevida liderança de brutos sobre incautos, contra educados.

A democracia vive da relação produtiva entre ignorância e saber, promove disputa e aperfeiçoamento, requer partilha ecológica do conhecimento e da autoria. Enquanto rugiam os broncos em Lisarb, democratas tratavam de reconstruir o fio da vida, em jardins onde também os ignaros poderiam elevar-se e libertar-se de sua horrível condição. Aos poucos, voltariam a grafar o nome da nação no correto sentido, sem fraude patriótica, com todas as cores e amores de um belo Brasil.

FRANCISCO MARSHALL


02 DE MARÇO DE 2019
DRAUZIO

SUPLEMENTOS NUTRICIONAIS E CÂNCER

Pessoas que têm ou tiveram câncer costumam fazer uso de suplementos nutricionais. As razões são variadas: prescrição médica, indicações de parentes e amigos, esperança de melhora dos sintomas, da qualidade de vida e das chances de cura.

Os suplementos mais comuns costumam conter o abecedário de vitaminas, sais minerais, aminoácidos e extratos de plantas. Inquéritos internacionais mostraram que o consumo é mais frequente em mulheres com câncer de mama, e mais raro nos portadores de câncer de próstata.

Infelizmente, os estudos prospectivos e randomizados de acordo com critérios científicos rígidos sugerem que nenhum suplemento nutricional melhora o prognóstico ou a sobrevida nos casos de câncer. Pelo contrário, alguns deles levantaram a suspeita de que os suplementos aumentariam a mortalidade provocada pela doença.

Em 2006, uma avaliação conjunta de vários estudos (metanálise) mostrou que a suplementação com antioxidantes ou vitamina A, não foi capaz de reduzir a mortalidade associada a diversos tipos de câncer.

No Estado de Washington, o acompanhamento durante 10 anos de uma coorte formada por 77 mil pessoas, revelou que a suplementação com multivitaminas, vitamina C ou E não reduziu o número de mortes pela doença.

Em dois grandes estudos observacionais, o uso de diversos suplementos nutricionais ou multivitaminas em mulheres com câncer de mama em fase inicial não diminuiu o número de recidivas nem a mortalidade por disseminação da doença ou outras causas. Achados semelhantes foram relatados com a administração de multivitaminas nos casos de câncer de cólon em estágio inicial.

Um estudo com pacientes operados de câncer de cólon mostrou que a reposição de betacaroteno faz aumentar o número de adenomas intestinais (lesões benignas que podem se transformar em malignas) naqueles que fumam, consomem álcool ou ambos.

Num estudo prospectivo e randomizado, 540 pacientes com tumores malignos localizados na cabeça e no pescoço tratados com radioterapia, foram divididos em dois grupos: o primeiro recebeu 400 UI/dia de vitamina E; o segundo, somente placebo. Surpreendentemente, o grupo da vitamina E apresentou mais mortes por câncer e por outras causas.

Um estudo sobre prevenção publicado recentemente (Select) mostrou que os homens designados para receber selênio ou vitamina E apresentaram incidência mais alta de diabetes e câncer de próstata, respectivamente.

Uma revisão recém-publicada avaliou o papel da vitamina D em pacientes com câncer. Em nenhum estudo houve redução da mortalidade.

Esses dados falam contra as condutas antiquadas de receitar aleatoriamente suplementos para pacientes com neoplasias malignas. Embora pessoas com deficiências específicas possam se beneficiar da suplementação, aqueles bem nutridos não colherão benefícios e podem ser prejudicados.

A orientação da Sociedade Americana de Oncologia Clínica é clara: "Antes que os suplementos sejam prescritos e administrados, deve ser feito todo o esforço para que os nutrientes necessários sejam obtidos por meio da alimentação".

DRAUZIO

02 DE MARÇO DE 2019
LEANDRO KARNAL

LIVROS E TERAPIA



Franz Kafka tinha algo como 21 anos quando, em uma carta para um amigo, definiu por que vale a pena ler. Era uma resposta. Seu colega dissera que ler era algo que deveria ser feito para nos deixar felizes. Kafka dizia o oposto, que devemos tender à leitura daquilo que nos fere, nos machuca: Se o livro que estamos lendo não nos acordar com um golpe na cabeça, para que estamos lendo? Precisamos de livros que nos afetem como uma tragédia, que nos entristeçam profundamente, como a morte de alguém que amamos mais que a nós mesmos, como um suicídio. Um livro deve ser o machado para o mar congelado dentro de nós. Essa é minha crença.

Meu sentimento não é tão trágico com o de Kakfa, mas quem sou eu perto do gênio... Humildemente, penso que livros ferem, curam, sossegam, inquietam, quebram o gelo dentro de nós, congelam a alma. Às vezes, esse efeito bipolar da leitura pode se dar em uma mesma obra. O fato inescrutável é que bons livros nos formam, nos transformam.

Essa regra é universal e por isso me dói pensar que somos um país com tão poucos leitores. O número deles cresceu, mas, em média, o brasileiro lê apenas 2,5 livros por ano (a maioria é de livros religiosos).

Estatísticas são escorregadias: dizer que lemos 2,5 livros em média por ano é omitir que 30% de nós nunca compraram um livro e que 25% dos que leram algo o fizeram por exigência da fé, da escola ou do trabalho. É uma pena. As soluções passam por melhorias na educação (dando maior capacidade de compreensão daquilo que se lê), acesso aos livros (bibliotecas públicas, doações, expansão das livrarias físicas e online). Essas são questões macroestruturais mais complexas. Mas há questões de hábito, que podem ser resolvidas mais facilmente, com a criação de um clube ou laboratório de leitura, por exemplo.

Meu amigo Dante Claramonte Gallian dava aulas de História da Medicina na Unifesp. Tratava de história da medicina e analisava grandes médicos do passado, como Galeno ou Harvey. Aquilo foi ficando estranho, não conseguia humanizar a medicina - que, em tese, deveria ser a quintessência do humano. Ele passou, então, a levar pequenos textos de autores antigos, medievais e modernos para que seus alunos lessem em primeira mão. A aula deu um salto A experiência cresceu e nasceu um laboratório de humanidades, que ganhou vida própria e se transformou no laboratório de leitura. Um clube de leitores. Ninguém precisa ler acompanhado. Nossos hábitos de ler são históricos e mudaram muito com o tempo, mas há séculos temos o costume de ler silenciosamente, como exercício introspectivo. Ler é solidão. Mas compartilhar a leitura é algo igualmente rico.

As experiências de ler como busca de conhecimento de si e do mundo, ler como terapia inclusive, viraram o livro A Literatura Como Remédio (editora Martin Claret). Dante desenvolve o uso de clássicos como forma de se reelaborar. O projeto hoje atinge empresas. Cada vez mais administradores percebem o valor de funcionários diferenciados pela leitura produtiva de clássicos.

Em chave distinta, Fernanda Sofio fez o texto Literacura - Psicanálise como Forma Literária (Editora Fap-Unifesp). Buscando a voz poderosa (e pouco conhecida, surpreendentemente) de Fabio Herrmann como guia, as ideias de Sofio buscam na sensibilidade da criação literária um caminho de compreensão. Minha leitura de Freud foi muito renovada pela capacidade de refazer seu caminho de ruptura (em detrimento do dogmático) a partir do que a Fernanda encontra na ficção, como na obra de Herrmann A Infância de Adão. Pelas mãos de Fernanda, li A Infância de Adão e, confesso, fiquei muito tempo tentando digerir todas as provocações do texto.

Em uma análise terapêutica, sofremos, rimos, superamos, perlaboramos, remoemos, destilamos, superamos traumas e passagens de nossa existência. Na leitura, fazemos o mesmo a partir do poder narrativo, da grandeza poética da pena de outra pessoa. Machado, Lispector, Pessoa, Kafka, Cervantes, Shakespeare, Austen e tantos outros nos formam, nos estruturam, nos fazem sair de nós mesmos para voltarmos diferentes, como em qualquer história de herói clássica: o retorno a nossa Ítaca nunca trará o mesmo Ulisses que partiu.

Quer pensar uma experiência desafiadora para 2019? Comece um grupo de leitura. Escolha pessoas interessantes. Talvez existam três delas entre todos os seus conhecidos. Adotem um clássico. Leia de forma pausada. Usem os métodos de Dante ou de Fernanda como guias, se desejarem. É preciso querer muito porque o entusiasmo inicial vai esbarrar nas agendas em breve. Se você tiver um bom clássico e possuir algumas pessoas interessantes capazes de repetir uma reunião semanal ou quinzenal, exulte! Você é uma pessoa privilegiada. O resultado da experiência é transformador e mais barato do que muitas soluções contemporâneas em busca de paz e de conhecimento.

Sugestões? O Livro de Jó na Bíblia, Macbeth de Shakespeare, Dom Quixote de Cervantes, Lavoura Arcaica de Raduan Nassar, A Paixão Segundo GH de Clarice Lispector ou Memórias de Adriano de M. Yourcenar. Papel ou virtual? Irrelevante. Quantas páginas por semana? Subjetivo de acordo com o grupo, mas não mais de 50, para que se possa realmente aproveitar o debate. Digerir bem o texto é fundamental. Creia-me: tudo mudará no seu cérebro depois da experiência. Pensar é uma escolha metódica, é erguer uma cabeça acima do pântano e resistir ao frio externo. Pensar é sair das fogueirinhas acesas pelas bolhas sociais. É preciso ter esperança.

LEANDRO KARNAL

02 DE MARÇO DE 2019
PAULO GLEICH

EXCESSO DE PRESENTE


No dia em que saí em viagem de férias, fui uma das vítimas do drone que algum engraçadinho fez sobrevoar o aeroporto de Porto Alegre: meu voo atrasou, perdi a conexão e só consegui chegar no dia seguinte ao meu destino. Foi um começo torto para meus dias de descanso, rapidamente curado graças às águas límpidas e mornas do litoral baiano e à doçura de sua gente.

A reação dos passageiros ao anúncio do atraso e de sua causa oscilou entre a incredulidade e a raiva, por ser um motivo tão patético. Alguém mais exaltado bradava que se devia abater a tiros não apenas a geringonça como seu proprietário, com o ódio despudorado que em nossos dias tornou-se banal e até aceitável. Afortunadamente, não encontrou eco entre os demais, que apenas esperaram pacientemente até a normalização da situação.

Por graça do destino, que às vezes parece ter prazer em nos testar, o voo para o qual fui realocado também foi alvo de um atraso de mais de duas horas. Novamente, manifestações de indignação e raiva pipocaram entre os passageiros, mas antes que a onda avançasse começou o embarque e todos se acalmaram.

Na mesma semana, viralizou no Twitter uma história sobre um casal que distribuiu, no avião em que viajava, saquinhos com bombons entre os passageiros sentados próximo a seus assentos. Com os bombons, um bilhete pedia desculpas de antemão pelo possível incômodo causado pelo choro de seu bebê durante o voo. Muitos elogiaram o gesto dos pais, até que começou a circular a pergunta: por que é preciso se desculpar por algo tão natural como o choro de um bebê?

Ambas cenas colocam em jogo a intolerância com a frustração, que em algumas situações atinge ápices que beiram o ridículo. Sim, não é nada agradável ter seu voo atrasado por um motivo banal como um drone, mas imprevistos dessa e de outras naturezas são sempre uma possibilidade não só em voos como na vida. Quanto ao choro de um bebê, bem, não é nem um imprevisto: apenas um golpe do azar caso toque sentar perto do pequeno. Paciência.

Diz o senso comum da nossa época que vivemos demais no passado e no futuro, e que pouco estamos no presente. Discordo: tamanha intolerância à frustração revela um excesso de fixação no presente, sem possibilidade de ampliação da perspectiva. A exaltação com um atraso diz da impossibilidade de se descolar da situação atual, e a reação indignada reflete a necessidade de uma reação, mesmo que seus efeitos sejam estéreis - o voo não vai decolar mais rápido com os brados. No caso do bebê, ainda mais flagrante, ignora-se o óbvio: que todos nós já causamos incômodo com nosso choro, assim como o fazem ou farão nossos filhos.

Intolerantes às frustrações, somos insidiosamente invadidos por uma lógica que busca eliminá-las a qualquer preço: proibindo, censurando, excluindo e, em seu extremo, matando. Não se quer saber de causas, contextos, complexidades: apenas que a paz seja restaurada, e da forma mais simples e imediata. Acabe-se já com o que incomoda para restabelecer a paz - até que venha o próximo incômodo.

Os reflexos disso se veem em situações banais com as dos voos, mas também em outras mais sérias e graves, como os rumos da política e das questões sociais. Soluções imediatas são tentadoras para silenciar a frustração, mas não dão conta do principal: essa lógica nos faz reféns de nossas sensações imediatas - a mesma lógica, aliás, que rege a vida dos bebês e das crianças pequenas.

paulogleich@yahoo.com - PAULO GLEICH

02 DE MARÇO DE 2019
PESQUISA

UM TRUQUE PARA SALVAR VIDAS


CIENTISTAS AMERICANOS ESTÃO TREINANDO O SISTEMA IMUNOLÓGICO PARA ACEITAR NOVOS ÓRGÃOS

Não parecia um problema grave de saúde, apenas um sangramento no nariz que não queria parar. Por isso, em fevereiro de 2017, Michael Schaffer, que tem 60 anos e mora próximo de Pittsburgh, nos EUA, foi primeiro a um serviço de emergência local e depois a um hospital, onde um médico finalmente conseguiu cauterizar um pequeno corte que havia em sua narina. Então, o médico disse a Schaffer algo que ele nunca esperava escutar:

- Você precisa de um transplante de fígado.

Schaffer não tinha ideia de que seu fígado estava falhando. Até então, nunca tinha ouvido falar do diagnóstico: EHNA, ou esteato-hepatite não alcoólica, uma doença hepática gordurosa não relacionada a alcoolismo ou infecções. A doença pode não apresentar sintomas óbvios, mesmo se estiver danificando o órgão. O sangramento nasal era sinal de que o fígado de Schaffer não estava produzindo as proteínas necessárias para o sangue coagular.

A notícia foi acompanhada de outro susto: os médicos pediram a Schaffer que se tornasse o primeiro paciente a participar de um teste clínico que tentaria alcançar algo que os cirurgiões de transplantes vinham sonhando há mais de 65 anos. Se desse certo, ele receberia um fígado de um doador sem precisar tomar remédios agressivos que impedem o sistema imunológico de rejeitá-lo.

Antes de serem descobertos os remédios contra rejeição, os transplantes de órgãos eram simplesmente impossíveis. A única maneira de fazer com que o corpo aceite um órgão doado é suprimindo sua resposta imunológica. Mas as drogas em si aumentam os riscos de infecção, câncer, altos níveis de colesterol, doenças cardíacas avançadas, diabetes e falência dos rins. Em média, 25% dos pacientes morrem após cinco anos do transplante de fígado. Após 10 anos, esse número sobe para 35% a 40%.

- Mesmo que o fígado esteja funcionando, os pacientes morrem de ataque cardíaco ou falência dos rins. As mortes podem não ser causadas apenas pelos remédios contra rejeição, mas eles contribuem - diz Abhinav Humar, cirurgião de transplante do Centro Médico da Universidade de Pittsburgh, que coordena o estudo de que Schaffer está participando.

Os rins, especialmente, são prejudicados.

- Não raro, precisamos fazer um transplante de rim em pacientes que já tinham transplantado o pulmão, o fígado ou o coração - informa Humar.

Normalmente, os pacientes sabem dos riscos oferecidos pelas drogas, mas a alternativa é pior: a morte, para aqueles que precisam de um novo fígado, coração ou pulmão; ou, para os pacientes renais, uma vida em diálise, que diminui ainda mais a expectativa e a qualidade de vida.

Uma luz no fim do túnel

Em 1953, o médico Peter Medawar e seus colegas realizaram um experimento na Grã-Bretanha que rendeu um Prêmio Nobel. Ele mostrou ser possível "treinar" o sistema imunológico de ratos para que eles não rejeitassem tecidos transplantados. O método utilizado não era exatamente prático. Envolvia injetar em ratos recém-nascidos, ou ainda fetais, células brancas do sangue de ratos sem parentesco. Quando os animais atingiam a idade adulta, os pesquisadores faziam um enxerto de pele dos ratos sem parentesco nas costas daqueles que receberam as células sanguíneas.

Os ratos aceitaram os enxertos como se fossem sua própria pele, sugerindo que o sistema imunológico pode ser modificado. O estudo levou a uma caça científica para encontrar uma maneira de treinar o sistema imunológico de adultos que precisem de novos órgãos. Essa se mostrou uma árdua tarefa. O sistema imunológico dos adultos já está desenvolvido, enquanto que o dos ratos bebês está ainda "aprendendo" o que é estranho e o que não é.

- Estamos tentando enganar o sistema imunológico do corpo, o que não é fácil - compara Humar.

Segundo James Markmann, chefe da divisão de cirurgia de transplante do Massachusetts General Hospital, a maioria dos estudos científicos até agora se concentrou em pacientes de transplante de fígado ou rim por diversas razões. Esses órgãos podem ser transplantados de doadores vivos, ou seja, as células do doador estão disponíveis para serem utilizadas na tentativa de treinar o sistema imunológico do paciente.

O rim lidera a lista dos órgãos de que as pessoas mais precisam. E esses rins transplantados raramente sobrevivem a uma vida inteira, sendo agredidos pelos remédios imunossupressores.

- Se você tem 30 ou 40 anos e recebe um transplante de rim, esse não será o único rim de que vai precisar - afirma Joseph Leventhal, que dirige os programas de transplante de rim e pâncreas na Universidade Northwestern.

Outra razão para dar preferência aos rins é que, "se algo der errado, não é o fim do mundo", ameniza Markmann. Se a experiência de libertar os pacientes dos imunossupressores falhar, a diálise é capaz de limpar o sangue. Já para outros órgãos transplantados, a rejeição pode significar a morte.

O fígado intriga os pesquisadores por diferentes razões. Ele tem menos chance de ser rejeitado pelo sistema imunológico do corpo e, se a rejeição realmente ocorrer, há menos perigos imediatos para o órgão. E, às vezes, após as pessoas terem vivido com um fígado transplantado por anos, o corpo delas simplesmente o aceita. Alguns pacientes descobriram isso sem querer, quando decidiram parar de tomar os imunossupressores por conta própria, normalmente devido aos altos custos e efeitos colaterais. Entre 15% e 20% dos pacientes que tiveram fígados transplantados e tentaram essa arriscada estratégia obtiveram sucesso, mas apenas após anos tomando as drogas.

Em um dos testes, Alberto Sanchez-Fueyo, especialista em fígado da King?s College London, relatou que 80% poderiam parar de tomar os remédios contra rejeição. Em geral, os pacientes eram mais velhos (o sistema imunológico fica mais fraco com a idade) e fazia tempo que estavam sob terapia de imunossupressão; a biópsia do fígado deles deu normal. Por outro lado, o dano causado pelas drogas imunossupressoras é cumulativo e irreversível, e prolongar seu uso por uma década ou mais pode causar prejuízos significativos. Mesmo assim, não há como prever quem vai conseguir ter êxito ao suspender a medicação.

O plano dos linfócitos T

Quanto mais os pesquisadores aprendiam sobre a sinfonia das células brancas do sangue que controlam as respostas a infecções e tipos de câncer - e órgãos transplantados -, mais esperançosos ficavam quanto à possibilidade de modificar o sistema imunológico.

Há muitos tipos de células brancas sanguíneas que trabalham juntas para criar e controlar as respostas imunológicas. Alguns pesquisadores, incluindo Markmann, optaram por concentrar esforços nas células chamadas de linfócitos T regulatórios. Essas raras células brancas do sangue ajudam o corpo a perceber as próprias células como não estranhas. Se há escassez dessas células regulatórias ou caso elas sejam deficientes, as pessoas podem desenvolver doenças em que o próprio sistema imune começa a atacar tecidos e órgãos.

A ideia é isolar as células T regulatórias de um paciente prestes a receber um transplante de fígado ou rim. Portanto, os cientistas vão tentar produzi-las em laboratório junto com as células do doador para, em seguida, inseri-las novamente no paciente. Os cientistas esperam que o processo ensine o sistema imunológico a aceitar o órgão doado como parte do corpo do paciente.

- As novas células T sinalizam para o resto do sistema imunológico que deixe o órgão em paz - explica Angus Thomson, diretor de imunologia de transplantes no Centro Médico da Universidade de Pittsburgh.

"viver até os 100 e morrer COM UM TIRO NA CAMA

Quando Schaffer, o paciente de Pittsburgh, descobriu que precisava de um fígado e que possivelmente seria o primeiro paciente do grupo de teste clínico, ele hesitou. "Alguém tem de ser o primeiro", desabafou. Ele começou a busca por um doador vivo, um parente próximo disposto a se submeter a uma cirurgia de grande porte para remover um lobo do fígado - ou um estranho disposto a doar e cujas células fossem compatíveis.

Os cientistas de Pittsburgh o orientaram sobre como proceder. Primeiro, perguntar à família imediata, depois a parentes, amigos e então colegas. Se não desse resultado, ele teria de começar uma campanha com flyers e posts no Facebook. Schaffer tem sete irmãos. Quatro tinham mais de 55 anos, muito velhos para enfrentar a remoção de parte do fígado de forma segura. Os três mais novos estavam com a saúde frágil. Ele passou a indagar sobrinhos. Três concordaram em doar, e uma, Deidre Cannon, 34 anos, que era compatível, submeteu-se à operação, que se realizou no dia 28 de setembro de 2017.

Após o procedimento, Schaffer estava tomando 40 comprimidos por dia para prevenir infecções e conter o sistema imunológico, enquanto o corpo aprendia a aceitar o novo órgão. Agora, só precisa de um, uma dose baixa de apenas um dos três medicamentos contra rejeição que tomava a princípio. E os médicos pretendem ainda suspendê-lo.

Esse caso pode parecer intrigante, mas Schaffer é apenas um paciente. Os cientistas pretendem testar o procedimento em outros 12 e, se tiverem sucesso, expandir o estudo.

Para Schaffer, tudo valeu a pena. Está ativo, trabalhando com o neto adolescente na troca dos azulejos do piso da cozinha. Tira neve e apara a grama para vizinhos e ajuda a cuidar dos netos depois da escola. Ele brinca:

- Meu objetivo é viver até os 100 anos e morrer com um tiro na cama disparado por um marido ciumento.

The New York Times - GINA KOLATA

02 DE MARÇO DE 2019
JJ CAMARGO

TER EM QUEM CONFIAR

Por que quase todos os sem-teto buscam o afeto de um cão e rua e fazem dele um parceiro de desdita e abandono

Que ninguém seja ingênuo de supor que se possa encontrar um poço de virtudes em um morador de rua. Por mais que tenha sido injustiçado, é frequente que este protótipo de solidão tenha sido construído com grande participação da vítima. Mas esse não é o ponto. O que interessa é que esse solitário padrão precisa de alguma maneira sobreviver, e isso significa encontrar algum objeto de solidariedade que seja confiável, apesar da completa ausência de atrativos. E então entendemos porque quase todos os sem-teto buscam o afeto, sempre confiável, de um cão de rua, e fazem dele um parceiro de desdita e abandono.

Como sempre, as amizades construídas na desgraça são mais resistentes, e, como combinam conformismo com reciprocidade, são mais calorosas e definitivas. Os responsáveis pelo resgate dos sem-teto, ameaçados de enregelamento nas noites implacáveis de inverno, referem a permanente resistência dos infelizes que se negam a abandonar os parceiros fiéis. Esses moradores de rua não se sentem nem um pouco seduzidos pela promessa de cobertor e comida quente se essas maravilhas não puderem ser compartilhadas com quem enfrentou tanto frio e fome sem latir em protesto.

De tanto enfrentarem essa resistência diante da oferta de albergue parcial, centros comunitários de algumas capitais passaram a oferecer o acolhimento duplo, e então, os dois amigos inseparáveis festejam a generosidade como modelos de um bloco único de pobreza e solidão.

É tão antiga esta relação entre o homem e o seu melhor amigo no reino animal, que a internet está cheia de vídeos, sempre emocionantes, como um recente que mostra um jovem oriental se preparando para viajar e explicando ao seu golden retriever da sua intenção, o que fez com que o bichinho primeiro se alojasse dentro da mala e depois, desesperado porque ficara pra trás, jogasse numa sacola todas as suas coisas, incluindo a bandeja de alumínio da comida, e saísse em disparada pela rua até alcançar seu dono que arrastava a mala pela calçada. A ternura do olhar no reencontro é de derrubar.

Aqui, na Avenida Getúlio Vargas, ao lado do Pão da Fé, a melhor padaria da cidade, há uma grande marquise, onde, nos dias frios, se acomodam os miseráveis famintos. Um dia desses, ao sair da padaria, fui chamado por um mendigo que pediu um dinheirinho porque estava "sem comer desde ontem". Como fome, feito frio, sempre mexe comigo, decidi voltar e comprar um sanduiche para garantir o melhor destino ao pedido. Quando fiz a volta para entrar no carro, percebi que depois de uma mordida generosa que consumiu metade do presente, ele ofereceu a outra metade a um vira-latas de olhos fundos que a devorou num instante, e em seguida lhe lambeu as mãos, de um jeito que os humanos civilizados não sabem agradecer.

JJ CAMARGO


02 DE MARÇO DE 2019
MÁRIO CORSO

Duro de morrer

Aos sete anos, nosso cachorro Bilbo, um buldogue francês robusto, teve uma convulsão e caiu duro no chão. Não se movia, não respondia a nada. Minhas filhas se desmancharam a chorar sua morte. Quando o desespero ganhou seu apogeu, ele bruscamente ficou em pé e saiu latindo para os cães que passavam em frente da casa, como se nada tivesse acontecido.

Dois veterinários, sem saber um do outro, olhando as radiografias do tórax, proferiram a mesma sentença: os dias estavam contados, talvez semanas de vida. Um coração agigantado oprimia os outros órgãos. Prescreveram uma dieta livre de sal, de gordura e de tudo mais que é bom. Compramos uma ração com gosto de gelatina de chuchu a preço de caviar russo. Bilbo a odiou e fez greve de fome por dias.

O conselho familiar reunido concluiu que, já que a morte era certa, que morresse feliz comendo o que gostava. Assim foi feito e ele viveu por mais oito longos anos comendo uma ração fuleira e gordurosa. Os veterinários não acreditavam no que viam, mas assim foi.

As síncopes seguiam. Várias por ano, mas na terceira ou quarta "morte" já nos habituamos ao Highlander. Em um dia infausto, no Carnaval de 2014, Bilbo morreu para sempre.

Minhas filhas, que aprenderam a andar sozinhas pelas ruas de Porto Alegre na sua companhia, sentiram-se órfãs. O porte dele lhes dava a segurança para o desafio da autonomia. Eu até hoje acordo com a ideia de sair para levar o Bilbo à rua.

Nas primeiras férias sem ele, estávamos na nossa casa no Uruguai na virada do ano. Meia-noite, fomos à praia apreciar os fogos. Um cão grande, de pelo lustroso e escuro, estranhamente insensível ao barulho dos foguetes, grudou no nosso grupo e nos acompanhou todo o tempo. As meninas o batizaram El Negro.

Na volta, nos seguiu até em casa e entrou antes de todos. Deitou onde o Bilbo deitava. Portou-se como se fosse seu lugar desde sempre. Quando as meninas foram dar mais um giro, ele as escoltou no passeio e retornou com elas. No outro dia, desapareceu como surgiu. Os vizinhos não sabiam dele. Ninguém nunca o tinha visto.

Sua aparição, tão empática como fugaz, deixou um rastro de fantasia. Nos enamoramos da ideia de que o Bilbo teria vindo nos fazer uma última visita antes de partir definitivamente para o céu dos cães. Era uma brincadeira, uma história para contar para os amigos. Afinal, cães de rua são dados a se fazer adotar preenchendo nossas carências com seus encantos.

Porém, um detalhe me inquieta. Quando entramos em casa, El Negro foi antes de mim ao lugar secreto no pátio onde escondemos as chaves. É um caminho não usual, um desvio do acesso natural. Como ele antecipou meu movimento?

Será que a experiência de morrer tantas vezes não teria ensinado ao Bilbo um truque extra, de driblar momentaneamente a morte para ver mais uma vez seus amados?

MÁRIO CORSO

02 DE MARÇO DE 2019
OPINIÃO DA RBS

CARNAVAL NA PAZ

O clamor por mudanças não pode estar circunscrito à classe política, mas deve ser inspiração para o cotidiano de todos nós

A maior festa popular brasileira merece ser marcada apenas pela alegria e pela criatividade. Para tanto, não basta torcer pela redução das notícias sobre violência e sobre acidentes nas estradas. Mais do que uma questão de fiscalização, a segurança no feriado é uma responsabilidade de cada um dos brasileiros. Nossas estradas mal sinalizadas e com engenharia deficiente são um desafio extra no momento em que milhões de pessoas iniciam um merecido período de celebração ou de descanso. Se a combinação de álcool e direção for reprimida e evitada, certamente teremos manchetes mais leves e construtivas na Quarta-Feira de Cinzas.

Vale o mesmo para a venda de bebidas alcoólicas para menores de idade e para atitudes que possam configurar assédio contra qualquer indivíduo. Além de ilegais, tais práticas são incompatíveis com a expectativa de elevação ética revelada pelas urnas nas eleições passadas. O clamor por mudanças não pode estar circunscrito à classe política, mas deve ser inspiração para o cotidiano de todos nós.

O Carnaval não é um evento exclusivo de uma minoria social ou étnica, porque se confunde com a própria definição da identidade brasileira. Por isso, merece ser preservado e respeitado, assim como é feito com outras datas do calendário de festas e eventos nacionais. A redução drástica do investimento público nos desfiles e nas escolas de samba, em um contexto de cofres raspados, é um obstáculo extra, mas nem por isso intransponível.

Também é fundamental que o direito à diversão de muitos não atropele as normas básicas de conduta em espaços urbanos compartilhados. O Carnaval de rua, tradição que se renovou nos últimos anos em várias cidades gaúchas, é um teste para a civilidade de todos os envolvidos. Há necessidade de regras e de respeito aos horários de silêncio em regiões densamente habitadas. Cabe às autoridades uma presença ostensiva em regiões de grande concentração, dando segurança à maioria que deseja se divertir em paz. Tolerância e empatia são palavras-chave nesse contexto.

Até quarta-feira, quase tudo para. Reforma da Previdência, privatizações, projetos polêmicos. Vale também o reconhecimento aos que estarão trabalhando: policiais, salva-vidas, médicos, garçons, garis, jornalistas, motoristas e todos os profissionais necessários em uma sociedade estruturada. Neste Carnaval, devemos todos empenhar esforços para que, na quarta-feira, o Brasil acorde com apenas boas lembranças da festa e com ânimo renovado para encarar um ano de grandes desafios.

sexta-feira, 1 de março de 2019


01 DE MARÇO DE 2019
EDUARDO BUENO

O entrudo


Foi a vitória da máscara contra a bisnaga, do salão contra a rua, da elite contra o povaréu prosaico e mal ensinado. Foi, por fim, "o triunfo da razão contra o limão de cheiro", como já houve quem tenha dito. Mas o fato é que, quando o Carnaval substituiu o entrudo, o que se deu foi a vitória de uma festa afrancesada contra uma genuína explosão das ruas - explosão que, de alegria, foi se tornando progressivamente violenta. 

Até que a sociedade houve por bem acabar com o folguedo popular de origens lusitanas que tão bem havia se aclimatado ao Brasil. E foi então, por volta de 1850, depois de mais de 200 anos de farras e banhos e discórdias e pequenas vinganças, que o "entrudo" virou "Carnaval". E instalou-se primeiro nos salões, a seguir nos corsos de automóveis e depois nas elegantes "batalhas de flores", das quais só os donos de veículos "adornados" tomavam parte, enquanto o povo, bestializado, olhava a banda passar.

Entrudo provém da palavra latina introitus, que significa entrada. Referia-se, é claro, à entrada da quaresma, que começava no dia seguinte ao entrudo, ou seja, na Quarta-Feira de Cinzas. Era uma festa pré-cristã que fora mantida pela Igreja, e que noutras paragens europeias já era chamada de Carnaval, do latim "adeus à carne", pois anunciava a entrada na abstinência quaresmal. De Debret a Machado de Assis, inúmeros cronistas descreveram o entrudo e seus excessos, focando-se no papel desempenhado na festa pelos limões de cheiro.

Limões (ou laranjas) de cheiro eram bolas de cera (pouco maiores que uma bola de tênis) cheias de água perfumada que os foliões arremessavam uns nos outros. À medida em que escravos libertos, mulatos e brancos desvalidos passaram a participar da festa, os limões de cheiro viraram quase granadas de sua insatisfação - e seu líquido interior mudou de odor. A "burguesia" trancou-se em casa, e ficou tramando o fim da festa, enfim proibida em 1854.

Machado urdiu um conto, Um Dia de Entrudo, que se passava "no tempo em que ao Carnaval se chamava entrudo, o tempo em que em vez das máscaras brilhavam os limões de cheiro, as caçarolas d?água, os banhos, as bisnagas e várias graças que foram substituídas por outras, não sei se melhores se piores".

Nas últimas décadas, os blocos voltaram a tomar conta das ruas, furiosamente - quase black blocs. Nunca tive samba no pé, mas aproveitei o embalo para, ao longo de 15 anos, vestir meu nariz de palhaço e desfilar por aí em homenagem à quadrilha que se manteve tanto tempo no poder. Neste ano, estava sem saber o que fazer: se saía de verde-oliva, de rosa-goiaba ou de azul calcinha. Então, lembrei-me do entrudo e do limão de cheiro, e matei a charada: sairei de laranja! Só não sei se de Coronel Suco cantando o Hino ou se de Fênix Laranzoni. Mas com certeza desfilarei sem ordem unida no Bloco do Suco de Laranja (o BSL), com minha bisnaga repleta de líquido amarelado. Cuidado comigo!

EDUARDO BUENO


01 DE MARÇO DE 2019
+ ECONOMIA

COLOCAR GUIZO EM BODES NÃO É PAPEL DO PLANALTO

Identificar os pontos incluídos na proposta de reforma da Previdência para serem derrubados no Congresso os chamados bodes pode ser útil para separar a legítima defesa dos interesses dos cidadãos de eventuais chantagens parlamentares. A coluna defende essa ideia. Mas a tarefa, definitivamente, não cabe ao Palácio do Planalto. A admissão do presidente Jair Bolsonaro de que a idade mínima para aposentadoria das mulheres pode cair de 62 anos, como está proposto, para 60 anos, provocou celeuma nos mais entusiasmados defensores da reforma.

Primeiro porque mexe em um pilar das mudanças, a idade mínima, e pode causar impacto considerável nas projeções da economia obtida em 10 anos. Essas estimativas são importantes não só para dar sustentabilidade à Previdência, mas às contas públicas brasileiras. Despesas com aposentadorias e benefícios representam o segundo maior gasto da União, atrás apenas do pagamento do serviço da dívida pública. Sinalizar que serão reduzidas substancialmente ao longo do tempo tem impacto na avaliação do Brasil com bom pagador.

Segundo, porque essa questão sequer havia sido citada entre os bodes preferidos do Congresso até agora. Estavam escalados como protagonistas a redução de R$ 998 para R$ 400 no pagamento do Benefício de Prestação Continuada (BPC) para brasileiros entre 65 a 70 anos sem outra renda - também citado por Bolsonaro - e as idades mínimas iguais para homens e mulheres no campo.

A declaração do presidente elevou a tensão no mercado financeiro, com queda de 1,77% na bolsa de valores e alta de 0,6% no dólar. O resultado do PIB de 2018, especialmente no quarto trimestre (leia mais ao lado) também contribuiu para o mau humor nacional. Pesou ainda o encerramento sem acordo da conversa entre os presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da Coreia do Norte, Kim Jong-un. Mas a fala de Bolsonaro ressou mais.

PERDEU EMBALO

Apesar de o resultado do crescimento da economia em 2018 ter vindo dentro do esperado, provocou uma onda de reduções de expectativa para este ano. O principal motivo foi a virtual estagnação da economia entre outubro e dezembro do ano passado, com variação positiva quase invisível, de 0,1%. Completam o quadro os primeiros indicadores de 2019, que registraram avanços igualmente tímidos. Cristiano Oliveira, economista-chefe do banco Fibra, que costuma ser otimista, foi um dos que reduziram a estimativa para este ano. No seu caso, de 2,5% para 1,7%.

Oliveira explica que a travada do último trimestre de 2018 faz com que o crescimento perca o embalo em 2019. É o que os economistas chamam de "carry over" (carregamento é a palavra em português, mas não ajuda muito). Mas fica fácil de entender quando aplicada ao trânsito: é como se o carro desacelerasse antes de subir uma lomba. O resultado é a perda de velocidade na subida.

Outro sinal inquietante foi a queda de 2,5%, também no último trimestre, no indicador chamado Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), principal sinalizador de futuro no cálculo de PIB. Entram nessa conta o desempenho da construção civil e a compra de máquinas e equipamentos para a indústria.

Esse mau desempenho é relativizado pela alta acumulada no ano, de 4,1%. Acentua, porém, o fato de que as engrenagens do crescimento ainda estão desconectadas. Falta transformar expectativa e confiança em mudança de cenário, com a reforma da Previdência.

Paulo Afonso Ferreira será presidente interino da Confederação Nacional da Indústria (CNI) enquanto o titular, Robson Andrade, estiver impedido por ser investigado em suspeita de fraudes no Sistema S. A eleição foi ontem, por unanimidade, no Conselho de Representantes. Goiano, Ferreira é vice-presidente executivo da CNI para a região Centro-Oeste.

Dados de CNDL e SPC mostram que, em janeiro, subiu 11,5% o número de inadimplentes pessoa física que saíram do cadastro de devedores.

CARLOS ZARLENGA, ATUAL PRESIDENTE DA GM MERCOSUL (BRASIL E ARGENTINA) ASSUMIRÁ O COMANDO DA NA AMÉRICA DO SUL. MOSTRA APROVAÇÃO DA GM À ATUAÇÃO DE ZARLENGA, QUE INCLUI O EPISÓDIO DA AMEAÇA DE SAIR DO BRASIL.

MARTA SFREDO


01 DE MARÇO DE 2019
TICIANO OSÓRIO

O último gibi do Tex

Circula de vez em quando entre os fãs de quadrinhos uma foto que mostra um homem de boné, em um trem lotado, lendo uma revistinha do Tex. Dependendo de quem a compartilha, a imagem simboliza uma coisa. Uns a veem como prova da resistência da mídia física na era digital, em que os celulares prevalecem - e, de fato, na cena, pelo menos três passageiros estão lidando com seus telefones. 

Outros valorizam a portabilidade da arte: podemos ir a qualquer lugar com um gibi, e um gibi pode nos levar a qualquer lugar - por alguns instantes, nos afastamos do estresse urbano e adentramos um território mágico. Há quem diga que ela atesta a popularidade do personagem, um herói de faroeste criado há mais de 70 anos pelos italianos Bonelli e Galleppini, e do formato (de uma simplicidade franciscana diante de um mercado cada vez mais de luxo). Para mim, é uma metáfora visual dos colecionadores de gibis: vivemos em uma espécie de mundo subterrâneo, rodeados por gente que não sabe nem nunca saberá quem são Felipe Parucci e Jéssica Groke.

Nosso contingente é menor do que o nosso fanatismo sugere. Achamos que somos muitos porque o cinema de super-herói arrasta multidões, mas é bom lembrar que, segundo pesquisa do Ibope de 2016, 44% dos brasileiros não leem. Como usuário de transporte público, raras vezes deparei com a cena da foto, mas gosto de imaginar que, por trás dos uniformes cotidianos, escondem-se outros leitores de gibi. Temos essa necessidade de encontrar semelhantes, para nos mostrarem que não estamos sós na loucura. Evidentemente, não saio por aí perguntando às pessoas se elas leram o último Batman ou o novo Demolidor. Recorro ao refúgio dos tímidos e paraíso dos exibicionistas: o Facebook.

Participo de dois grupos que congregam colecionadores, o dos Pampas (cujo nome é autoexplicativo) e o 2quadrinhos (nascido do canal homônimo de um youtuber gaúcho). Este último já reúne mais de 15 mil integrantes, espalhados pelo país. Trata-se de um microcosmo para quem deseja nos conhecer e entender.

Os pecados nos guiam. A vaidade move aqueles que regularmente fotografam suas coleções ou suas novas aquisições (não falamos "compras", isso é para o supermercado: adquirimos gibis, incorporamos ao patrimônio). Isso desperta a inveja de outros, mesmo que tenham uma pilha de leituras atrasadas. 

A luxúria faz alguns gastarem fortunas em HQs lacradas que passarão o resto de suas vidas emolduradas, apenas para voyeurismo. Por gula, abrimos a carteira para qualquer edição luxuosa com capa dura e papel cuchê que aparecer. Por preguiça, fechamos os olhos àquele personagem ou autor do qual nunca ouvimos falar. A avareza nos impede de emprestar os quadrinhos e nos impele a protegê-los do sol, do pó e das mãos perigosas de sobrinhos. E a ira costuma reger as discussões: quem é melhor, DC ou Marvel? Alan Moore ou Grant Morrison?

Mas também praticamos a generosidade e exercemos a solidariedade. Eu mesmo já fui abençoado. Certa vez, um pernambucano me enviou mensagem. Sabendo do meu desejo de ter todos os gibis do Alan Moore e da minha dificuldade de encontrar os três volumes de Lost Girls por um preço que não fosse o de um Fusca, ele doou seus exemplares para mim: "Para pagar, faça algo semelhante, quando puder, por outro. Assim, espalhamos gestos de boa vontade, que é o melhor que podemos fazer. Estou bastante feliz por poder contribuir com seu objetivo".

O gesto mais lindo foi o do paranaense Eder. Seu relato serve como resumo das vicissitudes, da paixão e da camaradagem do mundo dos colecionadores. Em um mercado pequeno - a cidade onde mora, Colorado, tem 23,9 mil habitantes -, chegam às bancas poucos gibis, mesmo no caso de campeões de popularidade. Apenas dois exemplares de Tex Gold eram distribuídos na livraria que frequenta. Tinham donos certos: ele e um rapaz que não conhecia. "Como a atendente sabe que só nós dois compramos, ela já deixa separados no balcão, nem vão para a prateleira", contou Eder. Mas, em uma sexta-feira, havia um Tex Gold disponível na estante. O outro cliente morrera em um acidente de trânsito.

"A sensação de estar ali segurando em minhas mãos a revista que o cara viria buscar me fez refletir sobre a brevidade da vida, a fragilidade dos nossos projetos e o quanto as coisas que amamos e cuidamos podem, do dia para a noite, de um segundo para o outro, não ser mais nossas", escreveu Eder, que resolveu homenagear o desconhecido amigo colecionador. No dia seguinte, retornou à livraria, adquiriu a revista que seria do rapaz e descobriu seu endereço. A mãe, o pai e uma irmã receberam-no. Eder contou a história, chorou junto à família e pediu que guardassem com carinho na coleção do filho morto aquele último gibi do Tex.

*O colunista David Coimbra está em férias. - TICIANO OSÓRIO


01 DE MARÇO DE 2019
CAPA

Um gaúcho honorário

Ator Marcos Palmeira, além de ser um dos artistas mais ocupados do cinema e da televisão brasileiros, também é produtor de alimentos orgânicos e vê possibilidades no interior gaúcho
Nascido no Rio, Marcos Palmeira é um híbrido de carioca com gaúcho. Em sua trajetória, estrelou Histórias Gaúchas: Farrapos, série educativa sobre a história da Revolução Farroupilha produzida pela RBS, e atuou em filmes rodados no Rio Grande do Sul como Anahy de las Misiones (1998) e Quase Um Tango (2009), o que contribuiu para solidificar seu vínculo com a província de São Pedro.

- É um Estado importantíssimo para a minha carreira e para a minha vida pessoal, pois tenho grandes amigos aqui e fui casado com uma gaúcha. Fiz aqui filmes importantíssimos da minha carreira, e Anahy é um deles. Ou a série da RBS sobre a Revolução Farroupilha, que eram pílulas de um minuto em horário nobre - conta o ator, à beira da piscina do hotel de São Gabriel onde está hospedado.

Marcos atendeu a reportagem entre um banho de sol e outro. Estava de sunga e tomava um mate.

- Me sinto em casa aqui, as pessoas são muito carinhosas. Retomei o costume de tomar chimarrão. Adoro usar bombacha, já é um hábito. Foram coisas que fui adquirindo com essas passagens. Adoro cavalo criolo. Tenho afinidade total com o Sul - garante.

Aos 55 anos, Marcos é também fazendeiro e empresário de produtos orgânicos - como hortaliças, frutas, leite e queijos -, e também aplica seu olhar empreendedor para os municípios que se hospedou durante as gravações de A Dona do Pedaço.

- Não canso de enxergar o potencial que a gente tem de um turismo ecológico e sustentável. Jaguari, Jaguarão e São Gabriel poderiam ser grandes locações de cinemas e séries. Você pode criar esse hábito cultural da cidade, dos hotéis, das comidas típicas, da tradição, tudo isso é muito rico para mim. É um casamento do trabalho com minha vida pessoal - avalia.

LADO EMPRESÁRIO CONVIVE COM ATIVIDADE ARTÍSTICA

Entre as causas que defende ou enfrenta, Marcos costuma chamar a atenção para a importância da alimentação orgânica, além de criticar a corrupção no país:

- O Brasil ainda precisa enxergar o país que há dentro dele. O que eu vejo no Sul é uma sensação de potencial rico. É um Estado bastante organizado e limpo. Mas não sei quanto isso é real no dia a dia. O Brasil como um todo deu uma caída. Agora a gente precisa encontrar força para emergir. Acho que através da cultura é um caminho maravilhoso, além do turismo e da educação.

O lado empresário prossegue:

- Nessa minha volta ao Sul estou bem mais maduro, como ator e homem. Como produtor orgânico também, podendo enxergar todo o potencial que a gente tem de ser um celeiro de alimentos, não de commodities. O Brasil ainda tem essa chance de ser o maior produtor de alimentos do mundo.

O lado ator é incansável. Ele participou de Minha Vida em Marte, que estreou em 2018. No ano passado, também rodou quatro filmes que estão para ser lançados: Boca de Ouro, de Daniel Filho; A Divisão, de Vicente Amorim; Cidade do Medo, que aborda as Unidades Pacificadores do Rio e tem direção de Caio Cobra; e Barulho da Noite, de Eva Pereira, o qual descreve como um filme de arte. Como concilia o lado ator e o empresário?

- Estou o tempo todo falando com a fazenda. Eu adoro estar preocupado com as vaquinhas, as galinhas, o queijo, a comida. O segredo é o prazer de fazer. Minha avó sempre falava que a vida é movimento. Então, acho que o movimento faz parte - reflete.

Uma cidade em polvorosa

Há uma semana, a "terra dos marechais" virou a "terra dos globais". Localizado na Campanha do Estado, a 320 quilômetros de Porto Alegre, o município de São Gabriel recebeu parte do elenco de A Dona do Pedaço. A presença de nomes como Marcos Palmeira, Genézio de Barros, Nívea Maria e, principalmente, Juliana Paes tem animado os 60 mil habitantes da cidade.

Na frente do Hotel São Luiz, onde o elenco está instalado, dezenas de fãs se aglomeram com celulares nas mãos, esperando por uma selfie com os atores. O principal objetivo dos gabrielenses de vigília é um só: Juliana Paes.

Quem teve a sorte de ver a atriz foi a atendente da padaria Cristo Rei, Selvina Pinto Gomes (foto). A atriz esteve no local, a poucos metros do hotel, no último dia 22, para comprar salgadinhos e quitutes.

- Juliana foi bem simpática e querida. Pedi para tirar foto, e ela atendeu - contou Selvina.

WILLIAM MANSQUE


Edição impressa de 01/03/2019. Alterada em 01/03 às 01h00min 

Entre o amor e a liberdade 

Nas montanhas do Marrocos (Novo Conceito, 564 páginas) é um alentado romance que marca a estreia literária de Luisa Bérard, autora nascida em Maceió em 1975, formada em Direito e advogada, que vive atualmente em Recife. 

Em síntese, a caudalosa narrativa parte dos cenários da Inglaterra vitoriana e vai até as míticas areias do Saara, com as paisagens fascinantes do Marrocos. A história se inicia nos idos de 1847, na Inglaterra, com a bela e impetuosa Katherine Harrington, a filha mais nova do conde de Northwick. 

As relações familiares e a suntuosidade da época são o pano de fundo e o estilo de vida da aristocracia e os obstáculos impostos às mulheres estão bem descritos. Naqueles tempos, as moças deveriam aspirar apenas a um casamento promissor e seguir os caminhos tradicionais. A poderosa duquesa de Melbourne não se amolda aos figurinos sociais e transmite à sobrinha Katherine seus conhecimentos sobre o instigante mundo dos negócios e intensifica seu desejo de liberdade. 

Muita coisa, todavia, vai acontecer. Um revés do destino faz Katherine aportar em Tânger em um contexto completamente inesperado. De uma hora para outra se vê obrigada a viver no Marrocos e conhece sua apaixonante cultura e suas paisagens montanhosas e desérticas. Lá ela vai se deparar com o mais importante, o amor. Em meio a tentativas de retornar à Inglaterra e às belezas das cordilheiras marroquinas, a jovem vai sentindo um envolvimento ardente que a seduz para ficar. 

Com criatividade e originalidade, Luisa Bérard construiu personagens memoráveis, com seus conflitos, paixões, seduções e intrigas. A autora utilizou com habilidade pesquisa histórica criteriosa para tratar dos grandes e eternos dilemas que envolvem o amor e a liberdade. Katherine jamais imaginara que um dia enfrentaria situações e caminhos tão exóticos e imprevistos, e que o futuro ainda lhe reservaria muitas guinadas e vivências. 

Lançamentos 

O pequeno príncipe (Geração Editorial, 156 páginas, tradução de Frei Betto), clássico de Antoine de Saint Exupéry em edição completa, tem nova tradução, caderno com fotos e estudo sobre vida e obra do autor, falecido aos 44 anos. Depois da Bíblia e do Alcorão, é o livro mais traduzido da história, com sua mágica, sensibilidade e foi chamado por Heidegger de a maior obra existencialista do século XX. 

A escola do futuro (Penso, 132 páginas), de Marcos Piangers, autor do best-seller O papai é pop e especialista em tecnologias, criatividade e inovação, e Gustavo Borba, professor, engenheiro e especialista em design, reflete sobre escolas, pais, professores e alunos do futuro e abre interessante diálogo com sociedade em geral, sobre formas e conteúdos. 

O museu das coisas intangíveis (Novo Conceito, 256 páginas), romance da norte-americana Wendy Wunder, autora de A menina que não acreditava em milagres (Novo Conceito), fala de Zoe, complexa, bipolar, leal, inteligente e divertida, que sai com a amiga Hannah de carro pelo país. Hannah nota a piora da doença de Zoe e mostra como é uma verdadeira amizade. - 

Jornal do Comércio (https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/colunas/livros/2019/02/672073-entre-o-amor-e-a-liberdade.html)


Dinheiro 

Desde os tempos em que não havia dinheiro e as pessoas apenas trocavam mercadorias entre si, até chegarmos às moedas virtuais e bitcoins da atualidade, o caminho foi longo e o surgimento dos primeiros bancos foi determinante. O dinheiro, em conjunto com o amor, o sexo e o poder, sempre simbolizou o que mais interessa aos humanos. A espiritualidade e as religiões igualmente figuram nos interesses essenciais. 

Os autores de best-sellers e filmes de sucesso sabem disso melhor do que ninguém e trabalham com enredos e situações que envolvem relações amorosas e familiares, enriquecimentos e perdas de fortunas e o sobe e desce próprio das arenas políticas, onde os poderes e os poderosos se repetem e nos mostram que ao fim e ao cabo os gregos e romanos já sabiam de tudo. Dá para dizer que, hoje, o dinheiro manda mais no mundo do que antes. Numa época com poucas referências de pessoas, ideologias e esperanças, e num momento em que a gurizada adora uma distopia, o vil metal ficou ainda mais determinante e muitas vezes é tudo "dinheiro pelo dinheiro". 

Os poemas de Carlos Drummond de Andrade sobre Itabira e seus metais dão muito menos Ibope do que a fome de lucros das empresas mineradoras, que por vezes provoca desastres. "Poderoso caballero es Don Dinero", disse Francisco de Quevedo. "O dinheiro compra até amor verdadeiro", escreveu nosso gênio Nelson Rodrigues. Hoje, no mundo, o dinheiro está ainda mais concentrado em pouquíssimas mãos e um dos desafios da humanidade é justamente dividir melhor o bolo e ter um planeta com mais igualdade. 

O ser humano segue em busca de ter dinheiro e esperar que isso o torne feliz. "O dinheiro é um bom empregado, mas um mau patrão", ou "o dinheiro é um bom escravo mas um terrível senhor" são frases que mostram que, há séculos, os humanos tentam mandar no dinheiro e não deixar que a grana mande neles. Não é fácil, nunca foi e provavelmente não será, mas a busca de equilíbrio entre o "ter" e o "ser" precisa continuar. 

Bom lembrar que ninguém é eterno, que estamos na terra e não somos a terra e que caixão não tem gaveta. Se você pedir para botarem tua fortuna no caixão, algum gaiato vai deixar um cheque ou um cartão de crédito no bolso da última roupa, bem como na velha e boa piada. A felicidade, a serenidade e a paz na maior parte do tempo estão em pessoas, momentos e situações que muitas vezes não necessitam de grandes verbas e produções. Para se sentir feliz no domingo à noite, a família, os amigos, uma música, cerveja, refri e pizza bastam. 

O consumo desenfreado, a angústia pela próxima compra e os desejos intermináveis por tantas coisas e por tanta e ilimitada sapiência decididamente mostram que a pessoa pode não se sentir bem mesmo depois de comprar aquele relógio suíço que custa R$ 3,5 milhões - tipo assim, três Ferraris. As pessoas e os governos ainda vão encontrar formas de distribuir melhor as riquezas. Alguns ganhadores de Prêmio Nobel pensam nisso.   

A propósito... 

É Carnaval. Se alguém pedir um dinheirinho, dá, senão o cara vai beber até cair. Se ele pedir um dinheirinho para "beber com moderação", dá, que é Carnaval. Esse ano, o Brasil já começou bem antes do Carnaval. Bom tomar umas para comemorar as esperanças, segurar as notícias ruins e para esquecer, ao menos por um tempo, esses lances complicados de dinheiro.

 "Quem tem dinheiro se incomoda por que tem, quem não tem, se incomoda porque não tem", ensinou a Dona Célia, no auge dos 93 anos. Dinheiro na mão é vendaval, como na canção, mas pode ser vida, liberdade e coisas boas. Não esqueça do lema da caderneta de poupança de um certo país da Europa - "nunca gaste tudo!" Outra hora falo de poupança interna. 

Agora melhor poupança externa na avenida. - 

Jornal do Comércio (https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/colunas/livros/2019/02/672073-entre-o-amor-e-a-liberdade.html)