sexta-feira, 4 de setembro de 2020



HOTEL EVEREST

O adeus de um ícone no centro da Capital

Ícone do Centro Histórico e um dos hotéis mais tradicionais de Porto Alegre, o Hotel Everest, na Rua Duque de Caxias, encerrou suas atividades. O local, que tinha interrompido a operação em razão da pandemia de coronavírus, foi isolado com tapumes. A venda do prédio já desperta o interesse de investidores.

Segundo Ana Fett, neta do fundador e administradora do hotel, a decisão foi tomada no começo de julho. Depois de três meses inoperante e sem boas perspectivas para o retorno, a família decidiu demitir os 26 funcionários - outros 21 tinham sido dispensados em março - e fechar as portas de vez.

- É muito difícil, porque você faz mil contas, tenta de todas as maneiras buscar auxílio financeiro. Infelizmente, não veio. A família preferiu tomar a decisão radical e ter um prejuízo menor nesse momento - contou Ana, que assumiu a operação em 2017, depois da morte do irmão, Eduardo Fett.

Fundado em 1964 por Alberto Augusto Fett, o Everest tinha 156 quartos e vista privilegiada da Capital. Localizado no alto do Viaduto Otávio Rocha, tornou-se um dos marcos do Centro, e hospedou personalidades como Leonel Brizola, Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Renata Sorrah e José de Abreu. Nas últimas décadas, no entanto, amargava crise, e reduziu a operação para conseguir se manter.

Até março, quando recebeu os últimos hóspedes, o hotel trabalhava com apenas 70 dormitórios. A taxa de ocupação anual ficava em torno dos 40% (no auge do estabelecimento, na década de 1980, a média passava dos 80%).

Antes do encerramento da sede, uma unidade em Ipanema, no Rio de Janeiro, fechou as portas em julho. A mobília e outros objetos do hotel foram vendidos em leilão virtual. Mesmo destino devem ter os itens do prédio da Duque de Caxias.

Mudanças

Segundo o presidente do Sindicato dos Hotéis de Porto Alegre (SHPOA), Carlos Henrique Schmidt, o fechamento do hotel cinquentário faz parte de processo natural do setor, cujos estabelecimentos costumam encerrar atividades depois de algumas décadas.

- Há hotéis que passam de cem anos, mas não é o normal. O normal é que a cidade vá se modificando e (os prédios) percam o valor - diz Schmidt, que avalia que a pandemia acelerou a crise que já acometia parte desses empreendimentos na Capital.

Pelo menos dois grupos já manifestaram interesse no prédio do Everest, localizado numa das partes mais altas do Centro Histórico. CEO da Infinita Estrutura de Negócios, Diego Antunes diz que visitou o local no fim do ano passado para uma sondagem. Recentemente, a incorporadora adquiriu o prédio do Plazinha, que foi transformado em residencial.

- Foi uma conversa embrionária, porque tem outros interessados. Mas gostaria muito de fazer o Everest. Seria bem legal para a gente, até porque o Plazinha foi um sucesso - diz.

Antes de encerrar as atividades aos 56 anos, o hotel Everest passou por, no mínimo, quatro tentativas de venda. O valor estimado do imóvel é de cerca de R$ 50 milhões. A família proprietária informa que ainda não decidiu o que será feito do prédio.

BRUNA VARGAS

04 DE SETEMBRO DE 2020
EDUARDO BUENO

D de dinheiro


Por mais árduos e eventualmente tediosos que possam ser os livros de história econômica; por mais que a dita "história da vida privada" tenha adicionado mais cor e mais sabor à historiografia; por mais que jornalistas enxeridos tenham vindo meter o bedelho querendo deixar o assunto mais pop, o fato é que - virou, mexeu -, se você estudar a coisa a fundo, descobrirá o óbvio: o que move a roda da História é o dinheiro. Grana, money, tutu, plata, bufunfa, dindim. Sempre foi, continua sendo e por um bom tempo assim será. Claro que o poder importa. Mas - virou, mexeu -, de onde vem o poder? Pois é.

Assim, se você quiser saber como de fato foi e o que estava por trás da Independência do Brasil - que completa 198 anos neste feriadão da covid -, faça como os bons investigadores: follow the money... Vai acabar concluindo que a data-chave não foi a de um grito no meio do nada, em 7 de setembro de 1822; nem a de uma gritaria de dor e júbilo após ferozes batalhas na Bahia, em 2 de julho de 1823 e talvez nem 12 de outubro, quando o príncipe D. Pedro se tornou "imperador e defensor perpétuo do Brasil por vontade de Deus e dos povos". A data-chave foi 29 de agosto de 1826, quando Portugal enfim reconheceu a "separação" do Brasil e, com a mediação da Inglaterra, assinou o Tratado de Paz, Amizade e Aliança. Tratado que custou os olhos da cara.

Começando que, para ajustar as pontas e acertar as contas, entre pai (D. João VI) e filho (D. Pedro I), a Inglaterra cobrou. Caro. Dizem as más línguas que os conselhos saíram por cem mil libras - e a conta ficou por conta do Brasil. E contam ainda que teve gente que aumentou um ponto. Entre eles, o senhor de escravos e principal artífice do tratado por parte do Brasil, Felisberto Caldeira Brandt, que também teve que gastar muita lábia para que a Inglaterra reconhecesse a independência sem obrigar o Brasil a abolir a escravidão. 

Ele conseguiu. Para Portugal, o Brasil pagou mais de 2 milhões de libras - e a melhor parte: precisou assumir a dívida que Portugal tinha com... a Inglaterra. Assim, anote aí e não perca as contas: a Independência virou negócio fechado quando Caldeira Brandt fez um empréstimo de 3.686.200 libras junto aos bancos Barings e Rothschild, com juros de 5% ao ano. E quer saber a real? Em reais, patacas ou caraminguás, a dívida era impagável. Foi o preço da Independência.

Como você há de ter lido na minha, na sua, na nossa ZH, estou lançando Dicionário da Independência - 200 anos em 200 verbetes, já em pré-venda (com direito a brindes) no site da editora Piu. Corra lá, para não ficar mais em dúvida, mesmo que fique em dívida no banco. Isso pode ser sinal de independência.

EDUARDO BUENO

quinta-feira, 3 de setembro de 2020



03 DE SETEMBRO DE 2020
DAVID COIMBRA

O homem que se transformou no demônio

Você já viu um porco morrendo? Ou, antes, já "ouviu"? É uma experiência aterrorizante. O porco grita e guincha e se debate em tamanho desespero, que você sente vontade de correr para salvá-lo e cuspir na cara do humano assassino. Agora imagine o que deve ser um matadouro de suínos. Pois Chicago, no século 19, era conhecida por seus matadouros. Em nenhum lugar do planeta matavam-se mais porcos do que em Chicago. Leia essa descrição da visita de um grupo de pessoas ao mais famoso desses lugares, a Union Stock Yards:

"Eles observaram os porcos, numa procissão infindável, sendo suspensos pelos pés e logo levados, aos berros, pelo cabo para as câmeras de abate; lá, homens com facas encrostadas de sangue habilmente lhes cortavam a garganta. Os porcos, alguns ainda vivos, eram mergulhados num tanque de água fervendo e submetidos a uma raspagem dos pelos - pelos esses que eram guardados em recipientes debaixo das mesas de raspagem. Ainda exalando vapor, cada porco ia passando de uma posição para outra, onde homens empapados de sangue executavam com uma faca as mesmas incisões, vezes sem conta, até que, à medida que o porco avançava, postas de carne úmida começavam a desabar com uma pancada surda nas mesas".

Ao terminar esse parágrafo de O Demônio na Cidade Branca, do jornalista americano Erik Larson, por Deus, quase virei vegetariano. Mas o tema central do livro não são os métodos da indústria de processamento de carne suína no século 19. O tema central, na verdade, são dois. Um é a feira mundial realizada em Chicago em 1893, evento que transformou a cidade e onde, entre outras novidades, foi inventada a roda-gigante.

Larson relata com minúcias o trabalho dos arquitetos que montaram a feira, é muito interessante. Um dos personagens é o genial Olmsted, urbanista que morava na mesma cidade em que morei, Brookline, e que foi o responsável pelo planejamento do Central Park, de Nova York. Essa parte do livro deveria ser lida nas faculdades de arquitetura.

A outra parte é mais sombria. É a história do primeiro serial killer americano, H.H. Holmes, que estava no grupo em visita ao matadouro - ele e duas de suas vítimas. Esse homem nasceu em meados do século 19 em New Hampshire, Estado do Nordeste extremo, a região mais civilizada do país. Como acontece com muitos psicopatas, Holmes era filho de um pai violento e abusivo. Apesar disso, ele era brilhante na escola. Os outros alunos, invejosos de seu desempenho, perseguiam-no. Faziam bullying. Um dia, para assustá-lo, pegaram-no à força e o levaram para o consultório de um médico, onde havia um esqueleto humano. Eles o trancaram na sala e o deixaram ali. Mas Holmes, em vez de se amedrontar, ficou fascinado. A visão do esqueleto acionou algum botão sinistro dentro dele.

Adulto, Holmes tornou-se médico e começou sua carreira de crimes. Até então, o único serial killer conhecido era Jack, o Estripador, muito famoso, mas uma bandeirante, se for comparado a Holmes: Jack matou seis mulheres em Londres; Holmes foi condenado por 27 assassinatos, mas suspeita-se de que tenha sido o autor de cerca de 200. Ele próprio, depois de preso, dizia estar se transformando no demônio. E Erik Larson, apesar do seu materialismo jornalístico, relacionou fatos que mostraram que isso podia ser verdade. Holmes não apenas tinha prazer em matar, ele se comprazia ao admirar o sofrimento e a impotência de suas vítimas, algumas delas crianças pequenas.

Não vou me aprofundar, para não dar spoiler. Leia o livro. Depois me conte que tal. Acho que você vai gostar.

DAVID COIMBRA

03 DE SETEMBRO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

Freio às facções



A envergadura da megaoperação desencadeada pela Polícia Federal (PF) no início da semana contra a principal facção criminosa do país tem o mérito de dar um golpe certeiro para enfraquecê-la, ao mesmo tempo que escancarou a alarmante dimensão do grupo, nascido na década de 1990 em São Paulo e hoje com tentáculos espalhados por todo o país. Cerca de 1,1 mil agentes foram empregados na ação que buscou cumprir mais de 600 ordens judiciais de prisão e busca e apreensão em 19 Estados e no Distrito Federal e, principalmente, bloqueou R$ 252 milhões das lideranças da organização, oriundos especialmente do tráfico de drogas e da lavagem de dinheiro.

Dar um freio ao crime organizado, interrompendo a ascensão das facções e a sensação de que operam com certa normalidade mesmo com seus líderes presos, é uma exigência da sociedade que a PF, com a segunda fase da Operação Caixa-Forte, continuou a colocar em prática com uma resposta à altura. O caminho escolhido, de seguir a trilha do dinheiro e bloqueá-lo, é cirúrgico e, pelos montantes apreendidos, é possível ter noção das vultosas quantias movimentadas pela organização e pagas como uma espécie de remuneração às lideranças pelos postos que ocupam na hierarquia ou por serviços prestados, muitas vezes o assassinato de policiais e autoridades.

Cortar o fluxo de dinheiro sujo para membros do alto escalão de grupos criminosos, impedindo que amealhem ganhos financeiros por suas atrocidades e delitos, é o modo mais eficaz de combater organizações do gênero. O mesmo vale para a apreensão de bens de toda ordem. Sabe-se que prender líderes ou membros subalternos tem eficiência limitada. Chefes ou peões detidos ou mortos são rapidamente substituídos, sem que se consiga estancar a atividade criminosa. O estrangulamento econômico, ao contrário, torna-se a estratégia mais efetiva para combater essas complexas quadrilhas por cortar o oxigênio que as move e as mantém atuantes e ousadas.

A ação policial contra faces conhecidas desse submundo, como fez a PF, é sempre bem-vinda, mas não basta. O crime organizado também encontra meios para se infiltrar em braços do poder público e encontra terreno fértil para se desenvolver nas estranhas da sociedade porque, voluntariamente ou não, cidadãos acabam alimentando a cadeia delituosa ao comprar e usar drogas e adquirir objetos e bens furtados ou roubados. Assim como o emprego da inteligência e da repressão pelas instâncias competentes, a conscientização individual é de grande importância para dar um fim a esta chaga que ameaça famílias e instituições no Brasil.

OPINIÃO DA RBS

03 DE SETEMBRO DE 2020
ATIVIDADE ECONÔMICA

Construção civil dá sinais de retomada em Porto Alegre



Pouco menos de um mês após a prefeitura de Porto Alegre permitir a operação da construção civil privada, o setor passa por plena retomada na Capital, segundo o Sindicato da Indústria da Construção Civil do Rio Grande do Sul (Sinduscon-RS). O presidente da entidade, Aquiles Dal Molin Júnior, afirma que esse movimento é puxado pelas obras que estavam paralisadas em razão de medidas mais restritivas e tiveram reinício no dia 10 de agosto com o aval do Executivo municipal.

Dal Molin Júnior diz que o município conta com cerca de 200 obras em andamento e que a expectativa é de que esse número quase dobre em futuro próximo, com a estimativa de mais 174 empreendimentos em modalidade de licenciamento aberta pela prefeitura.

- A grande maioria é continuidade das obras. Temos poucos lançamentos novos, mas eles virão. A gente tem a expectativa de que, a partir dos meses de novembro e dezembro, haverá vários lançamentos. São as obras que já vamos ver repensadas pela demanda pós-covid - disse o presidente.

Trabalhadores e máquinas voltaram a habitar os canteiros de obras da Capital logo nos primeiros dias após a liberação. Os locais contam com mecanismos de segurança, como uso de máscaras, disponibilização de álcool em gel e medição de temperatura, de acordo com o Sinduscon-RS.

Finalização

Um dos empreendimentos que estava paralisado e retomou os trabalhos fica na Rua Santo Inácio, bairro Moinhos de Vento. Operários trabalham na fase de finalização do projeto Paço Santo Inácio, que compreende um prédio residencial com 36 apartamentos, localizado ao lado de uma casa histórica, que passa por restauração. A obra é da Incorporadora Uma.

Outro empreendimento da Uma, em parceria com o Grupo Zaffari, também foi retomado na Avenida Carlos Gomes. O projeto prevê um complexo comercial, que deverá ser finalizado em 36 meses. Atualmente, os trabalhos no terreno estão na fase de fundação do solo. Diretor e sócio da Uma, Antonio Ulrich afirma que a volta da operação da construção civil privada é importante, porque representa parte significativa da economia do município.

- É importantíssimo para a cidade. Somos geradores de empregos - salienta Ulrich.

ANDERSON AIRES

03 DE SETEMBRO DE 2020
VERISSIMO

Coroa de espinhos

Agradeço a Deus por ser ateu. Se eu fosse religioso, seria obrigado a, antes de mais nada, escolher um deus para cultuar, tamanha é a quantidade de deidades que existem, incluindo as afrodescendentes e as de seitas esotéricas menos conhecidas.

Escolhida a religião, eu teria que me familiarizar com suas doutrinas e aceitar mesmo as que desafiam o bom senso ou as leis da física. História pessoal: minha mãe, católica, ia à missa todos os domingos, meu pai era agnóstico, eu fui católico praticante até os 14 anos - praticante mesmo, de fazer a primeira comunhão vestindo a primeira fatiota, tendo cuidado para não morder o corpo de Cristo na hóstia e pensando nos doces que nos esperavam em casa depois da cerimônia - mas aí perdi a fé, acho que num bolso da fatiota. Me rebelei no meio do caminho. Mas me lembro dos doces, que eram ótimos.

Vendo o vídeo do Bolsonaro sendo batizado nas águas do Rio Jordão, anos atrás, me lembrei da vez em que estive no mesmo lugar, numa rápida passagem por Israel. Não, não entrei na água, mas muitos fiéis faziam fila para entrar e serem submergidos no mesmo bálsamo sagrado com que João Batista um dia ungira Jesus, no que não deixava de ser uma cena emocionante. 

Entrei na loja de souvenirs que tem ao lado do local dos batismos no rio ainda enlevado pelo espetáculo de devoção coletiva que acabara de presenciar, talvez até a meio caminho de uma conversão como a epifania do apóstolo Paulo na estrada para Damasco, quando vi, logo na entrada da loja, uma pilha de objetos que não demorei em identificar. Eram reproduções da coroa de espinhos que martirizara Jesus no caminho da cruz - feitas de plástico!

As coroas estavam tendo uma boa saída. Decidi que não encontraria nada que me interessasse na loja de souvenirs, muito menos uma epifania. Um jogo que você pode fazer é cotejar tudo de bonito que devemos à Igreja, de catedrais barrocas a missas do Bach, e tudo de horroroso, da Inquisição a coroas de espinhos feitas de plástico.

L.F. VERISSIMO

03 DE SETEMBRO DE 2020
INFORME ESPECIAL

O ponto que Eduardo Leite não deixou claro

O governador Eduardo Leite apresentou argumentos consistentes para justificar a escolha da educação infantil como a primeira a retornar às aulas presenciais. Foi no programa Atualidade, na Rádio Gaúcha: os pais precisam ter com quem deixar os filhos para irem trabalhar e, nessa faixa etária, a educação online funciona pouco.

Mas o governador não deu ênfase ao motivo principal: as escolas privadas que atendem a esse público estão quebrando, basicamente porque os pais não são obrigados a levar os filhos entre 0 e 3 anos ao colégio ou à creche. Então, simplesmente suspendem os pagamentos e arrumam outras soluções, que vão de cuidadores particulares à ajuda de familiares mais disponíveis. 

Nesse sentido, entidades representativas desse segmento vêm exercendo uma forte e legítima pressão sobre o Piratini e sobre a opinião pública. A quebradeira já é grande e tende a aumentar. Então, talvez por esquecimento, Eduardo Leite não vem dando a ênfase necessária a este aspecto: a saúde de empresas que geram empregos e impostos. Porque a necessidade de deixar os filhos protegidos para ir trabalhar e os limites das aulas online também se aplicam a crianças mais velhas, tanto no ensino público quanto no privado.

Agora, a bola está com os prefeitos, que podem seguir essa linha ou optar por posturas mais restritivas. E sempre caberá aos pais decidir onde os riscos são maiores nessa hora. Ao que tudo indica, o ensino privado está se preparando corretamente para o retorno. É importante que ele seja gradual e lento, para que eventuais reflexos possam ser detectados e enfrentados enquanto a escala do problema, caso exista, seja pequena.

TULIO MILMAN

quarta-feira, 2 de setembro de 2020



02 DE SETEMBRO DE 2020
DAVID COIMBRA

A roda-gigante de Porto Alegre

Leio que Porto Alegre gostaria de construir uma roda-gigante à beira do rio. Seria algo grandioso, estilo London Eye, coisa para se ver lá do Sarandi - fundos. Gosto da ideia. Melhor do que a anterior, a da supercuia, do tamanho de um prédio de 20 andares. Ficaria estranho. Já temos aquela escultura esquisita das cuias, que parece uma homenagem ao corona. É o suficiente em questão de mau gosto.

Sei bem que agora pisei em areia movediça. Quero dizer, isso de "gosto". O professor Gombrich, autor do melhor livro de história da arte de todos os tempos, escreveu, inclusive, que não existem razões erradas para se gostar de uma obra de arte, mas existem razões erradas para NÃO SE GOSTAR de uma obra de arte. Acredito nessa ideia. Mas fico pensando no que o professor Gombrich diria, se estivesse vivo, viesse a Porto Alegre e desse uma olhada nas obras de arte contemporânea que foram espalhadas pela cidade. Talvez ele modificasse um pouco essa tese das razões erradas.

De qualquer forma, voltemos à roda-gigante. Sabe como é que se diz roda-gigante em inglês? Ferris wheel. A roda de Ferris. É que esse homem, George Washington Ferris, foi quem inventou a roda-gigante, no final do século 19.

Foi um processo curioso, uma espécie de desafio, uma amostra do espírito competitivo dos americanos. Em 1889, Paris sediou uma feira chamada Exposição Universal, com a intenção de comemorar o centenário da Revolução Francesa. Para adorná-la, a cidade levantou a Torre Eiffel, que hoje é um símbolo da França, mas na época devia ser provisória - o plano era desmontar a torre ao final da exposição.

Muitos parisienses, aliás, achavam a torre horrorosa, como acho que são as obras de arte contemporânea de Porto Alegre. Entre eles, o escritor Guy de Maupassant, autor de um dos melhores contos da literatura universal, Bola de Sebo (leia!). Maupassant dizia que a torre era medonha. Mesmo assim, ia todos os dias almoçar no restaurante que ficava DENTRO dela. Um dia alguém perguntou:

"Se o senhor considera a Torre Eiffel tão feia, por que vai todos os dias almoçar em seu restaurante?".

E Maupassant: "Porque lá é o único lugar de Paris de onde não posso vê-la".

Apesar de todo o sarcasmo de Maupassant, os parisienses gostaram da torre e a tornaram permanente, mais ou menos como está acontecendo com o auxílio emergencial do governo brasileiro. E, de fato, a torre foi um sucesso internacional, todos admiravam sua imponência elegante, e admiram ainda.

Bem. Quatro anos depois, os Estados Unidos decidiram promover uma feira mundial semelhante à da França. Várias cidades concorreram para se tornar sede do evento e quem ganhou foi a capital do liberalismo econômico, Chicago.

O objetivo dos americanos era fazer uma feira ainda melhor do que a francesa. Para isso, seria indispensável erguer um monumento tão impactante quanto a Torre Eiffel. Assim, os organizadores da feira fizeram uma provocação aos engenheiros do país: quem conseguiria apresentar um projeto de monumento mais belo e mais original do que a Torre Eiffel?

Foi aí que surgiu Ferris com sua roda, que, segundo ele, seria "mais Eiffel que Eiffel". A princípio, os organizadores temeram que aquela geringonça não desse certo, que caísse e matasse todos os que se arriscassem a subir nela, mas depois, Ferris os convenceu, montou sua roda e se consagrou.

Li essa história num ótimo livro que quero indicar para você se divertir nesses tempos pandêmicos. Mas acabou o espaço, vou falar sobre o livro na próxima crônica. Não se apresse nem se aflija, que, como diria Renato Russo, temos todo o tempo do mundo.

DAVID COIMBRA


02 DE SETEMBRO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

NO FUNDODO POÇO

No dia em que foi anunciada a péssima - mas esperada - notícia da queda recorde do PIB brasileiro, de 9,7% no segundo trimestre frente aos três meses imediatamente anteriores, o governo confirmou a extensão do auxílio emergencial por mais quatro meses e, finalmente, o envio da proposta de reforma administrativa para o Congresso. O tombo de proporções inéditas na economia nacional entre abril e junho, período de maior restrição às atividades por conta da pandemia, também arrastou a arrecadação de impostos para o fundo do poço, o que torna extraordinário o esforço para a manutenção da ajuda aos mais necessitados, mesmo com um valor de R$ 300, metade do original.

A manutenção do auxílio a trabalhadores informais, microempreendedores, autônomos e desempregados faz com que o governo tenha de redobrar, em outras frentes, o compromisso com a responsabilidade fiscal e o rigor com o trato das contas públicas, sem embarcar em aventuras que ampliem gastos indevidos e inoportunos. É fundamental a manutenção do teto de gastos, como forma de preservar a confiança dos agentes da economia, assegurando a continuidade de juros baixos e da inflação controlada.

De forma oportunista, o que faz parte do jogo, o governo Bolsonaro aproveitou o dia em que os brasileiros tomariam conhecimento da retração histórica do PIB e da oficialização da entrada do país em uma nova recessão técnica para fazer dois anúncios de impacto. Além do auxílio emergencial, o Planalto se comprometeu em mandar ao parlamento, com quase um ano de atraso, um projeto de revisão da política de recursos humanos, que, apesar de modesto e só valer para futuros servidores, deve perseguir maior racionalidade dos gastos com pessoal e melhor produtividade da máquina pública. A estratégia refletiu-se na forte queda do dólar e na alta do Índice Ibovespa, indicando a esperança dos investidores em dias melhores. 

O pior momento da economia real, apontam os indicadores mais recentes, vai ficando para trás e agora a tendência é de recuperação da atividade, só não se sabe a qual ritmo. O fim da indecisão quanto à reforma administrativa, entretanto, é um fator que deve influenciar as expectativas de forma positiva e mostra um novo fortalecimento das opiniões do ministro Paulo Guedes nas tomadas de decisões importantes do Executivo. Lamenta-se que tenha faltado ousadia à proposta, além de disposição para enfrentar as corporações que capturam grande parte dos impostos recolhidos da sociedade, recursos melhor empregados se destinados a áreas como saúde, educação e segurança.

Em meio à queda generalizada da indústria, serviços, investimentos e consumo das famílias no PIB do segundo trimestre, salvou-se outra vez a agropecuária, também decisiva para a alta das exportações. O Rio Grande do Sul, como um dos expoentes nacionais do agronegócio, tem mais razões para certo otimismo do que a maioria dos Estados, embora também ainda vislumbre uma dolorosa jornada à frente para começar a resolver a sua precária situação fiscal.

 
02 DE SETEMBRO DE 2020

ARTIGOS

Veranistas estão tornando-se moradores


Membro da diretoria da Associação das Empresas Imobiliárias e dos Corretores de Imóveis de Xangri-Lá. "Agosto, mês do desgosto." Esse ditado popular que transcende gerações sempre acompanhou o mercado imobiliário no litoral norte do Rio Grande do Sul nos meses de inverno. Casas e prédios vazios, condomínios e ruas desertas, esse era o cenário de um período gelado de baixa temporada.

A chegada da pandemia da covid-19 trouxe uma tensão ainda maior para imobiliárias e corretores. Afinal, com que intensidade seríamos atingidos neste novo e incerto cenário? Por incrível que pareça, positivamente.

Ao contrário de anos anteriores, agosto foi um mês próspero e de muitos negócios para o mercado imobiliário no litoral do Estado. Casas, prédios e condomínios lotados, finais de semana que muito se assemelham aos de verão.

Só na imobiliária Casaqui, as vendas aumentaram 200% em comparação ao ano passado e a busca por novos imóveis cresceu 300%. Escolas privadas estão sendo construídas, novos supermercados, um novo hospital, isto é, a comunidade local percebeu esse movimento e se prepara para uma nova realidade: os veranistas estão tornando-se moradores.

Alguns estímulos podem explicar o crescimento inesperado para o período, como a migração para o formato home office, a busca por espaços amplos, contato com a natureza e principalmente a perspectiva de investimento financeiro. Nenhum CDB (certificado de depósito bancário) ou poupança irá pagar o rendimento, nem mesmo a valorização do imóvel. A estimativa é de um retorno financeiro por volta de 4,63% com aluguel e 10,03% na valorização do imóvel, enquanto a Selic atual é de 2%.

Muitas oportunidades e negócios estão surgindo e sendo concretizados agora, antes mesmo de o verão chegar. O novo normal terá praias mais populosas 12 meses por ano e, principalmente, promoverá a tão almejada qualidade de vida de seus novos moradores.

ERON VALIM


02 DE SETEMBRO DE 2020
CAPA

A longa espera pelo auxílio à cultura

Estado e prefeituras se organizam para cumprir prazos dos ritos burocráticos e não perder verbas federais da Lei Aldir Blanc 

Festejada pela classe artística, a Lei Aldir Blanc chegou com a promessa de injetar R$ 3 bilhões em ações emergenciais para trabalhadores da área cultural. Após meses de euforia, Estados, municípios e artistas tentam alinhar esforços para superar entraves que uma ação inédita dessa magnitude é capaz de gerar. Enquanto isso, trabalhadores e instituições culturais aguardam com ansiedade a chegada de recursos que podem minimizar a crise gerada no setor.

É o caso do técnico em iluminação Patrick Benites, que mora em Viamão e cria sozinho dois filhos:

- Trabalho como autônomo, prestando serviço para quatro empresas do Brasil. Antes da pandemia, trabalhava com 28 datas por mês, em média. Busquei o auxílio para me manter neste momento em que os eventos estão parados. Não recebo qualquer benefício do governo. Mas meu pedido de auxílio emergencial foi negado pelo governo federal. Argumentaram que uma pessoa da minha família já está recebendo, mas é a minha filha que não mora comigo.

Presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos e Diversões do RS (Sated-RS), Fábio Cunha demonstra frustração diante da espera pelo repasse:

- Há uma demora muito grande. Paramos tudo em março. Embora não seja o recomendável, as cidades estão voltando ao normal. Porém, os teatros não podem abrir, não se pode realizar shows e eventos. Vamos para o sexto mês de pandemia e essa medida, que seria emergencial, não se concretizou.

Entre os desafios previstos pelo setor em relação à Lei Aldir Blanc, estava a sanção pelo Palácio do Planalto, o que ocorreu em 29 de junho. A morosidade começou na regulamentação, que se completou apenas em 18 de agosto. Apesar do tempo dispensado, o texto da regulamentação deixou insatisfeitos alguns dos principais atores desse processo: os gestores municipais e estaduais que executarão a lei.

- A regulamentação não trouxe esclarecimentos para a adequada aplicação dos recursos. Por conta dessa insegurança jurídica, os entes federados precisaram buscar orientação. Estamos trabalhando nas regulamentações estaduais e municipais, enquanto aguardamos uma instrução normativa que esclareça nossas principais dúvidas - explica Evandro Soares, secretário de Cultura de Bento Gonçalves e presidente do Conselho dos Dirigentes Municipais de Cultura (Codic-RS).

Para Rafael Balle, diretor de fomento da Secretaria Estadual de Cultura (Sedac), instruções mais objetivas são necessárias, pois, além de garantir acesso aos recursos, é preciso ter controle.

- É um gasto público, que precisa ser observado com responsabilidade - pondera Balle.

Prazo

O Rio Grande de Sul deverá receber R$ 155 milhões por meio da Lei - R$ 72,1 milhões para o Estado e R$ 82,9 milhões para os municípios. A verba será dividida em três eixos: renda mensal ao trabalhador autônomo da cultura, em três parcelas de R$ 600; subsídio para espaços culturais, micro e pequenas empresas e cooperativas culturais, com valores entre R$ 3 mil e R$ 10 mil; e editais, chamamentos públicos e prêmios. O Estado fica responsável pelo primeiro e terceiro, e os municípios pelo segundo e também terceiro.

Segundo Balle, o repasse mais célere será da renda mensal. O cadastro de candidatos está aberto até 15 de setembro:

- Vamos depender do agente financeiro, mas seria ideal realizar os primeiros pagamentos em outubro.

A renda mensal, no entanto, deverá representar uma proporção bastante reduzida da verba. Até a semana passada, apenas 938 pessoas haviam se candidatado ao benefício - o cadastro pode ser realizado gratuitamente no site da Sedac. É provável que o baixo número de inscritos tenha relação com fato de que muitos dos que se encaixam nos requisitos já estão recebendo os R$ 600 do auxílio emergencial, e é vedada a possibilidade de receber os dois auxílios.

Só depois que o cadastro for finalizado e os dados dos candidatos forem analisados será possível determinar qual o valor a ser gasto na renda mensal e, por consequência, quanto restará para investir no eixo de fomento. E o Estado ainda precisará lidar com mais uma nova parcela de repasse: os municípios que não oferecerem destinação aos recursos até 60 dias depois de recebê-los terão o valor automaticamente revertido para o Fundo de Apoio à Cultura estadual, que poderá aplicá-lo também nas ações de fomento.

Apesar do esforço do Codic-RS e de outras instituições em instrumentalizar as prefeituras para não perderem os recursos, muitas não estão capacitadas para realizar a operação. Isso porque algumas vezes as pastas de cultura são tratadas de modo secundário, sem corpo técnico numeroso e qualificado, e a operação da Lei Aldir Blanc é relativamente complexa para os municípios, exigindo análise de contrapartidas e comprovação de uso de recursos para o repasse a instituições culturais e empresas.

Caso o Estado não execute a Lei em até 120 dias a partir do repasse do governo federal, a verba voltará para a União.

- Estamos em uma maratona para que não seja desperdiçada a oportunidade de um aporte como esse - diz Balle.

Para não perder recursos e destiná-los da melhor forma, a Conferência Estadual de Cultura, que vem sendo realizada anualmente, dedicou toda a sua programação para debater a Lei Aldir Blanc. O primeiro ciclo de debates foi encerrado na sexta-feira. O próximo ocorrerá em setembro com nove webconferências regionais.

 ALEXANDRE LUCCHESE

02 DE SETEMBRO DE 2020
FÁBIO PRIKLADNICKI

Vou embora para a Noruega



Que Pasárgada que nada, eu vou embora é para a Noruega. Lá tem até rei. Já mandei um whats para a família: quem quiser faça as malas também. Como prega a racionalidade, minha decisão foi baseada em dados. Puxei do Google o ranking de países com maior Índice de Desenvolvimento Humano e percorri o dedo indicador, sôfrego de excitação, até o primeiro lugar: Norway. Tenho convicção de que este momento estava predestinado, quem sabe obra de algum deus viking. Afinal, meu disco favorito da Vanessa Longoni se chama A Mulher de Oslo. Coincidência?

Não vejo a hora de me tornar um cidadão nórdico, sobrenome complicado eu já tenho - espero que eles não sejam preconceituosos contra pessoas de origem polonesa. Com um pouco mais de familiaridade com a língua norueguesa do que tenho hoje (que é nenhuma), poderei ler Ibsen no original, o que deve ser um privilégio e tanto. E depois ir para algum contemporâneo, como Jon Fosse. Minha dúvida é Knut Hamsun, o Machado de Assis deles. Ganhou até o Nobel de literatura, mas era um notório nazista. Bem, nada é perfeito. O que importa é que hoje a Noruega é um país tão pacato que eles têm que escrever romances policiais para movimentar um pouco as coisas.

Falta apenas decidir a cidade. A cosmopolita Oslo, a charmosa Bergen ou a reservada Tromso, de onde se avista a aurora boreal? O mais próximo que estive da Noruega foi na Dinamarca, onde entrei em um banheiro público subterrâneo no meio da rua, extremamente limpo e bonito, com água quente. Achei chique. Não espero nada menos da terra do rei Harald. Amigos me alertam sobre certa visão idealizada, talvez estereotipada, daquele país, mas eu suspeito que estejam é com inveja.

Agora, veja: e se o país com maior IDH do mundo não for perfeito? E se alguém jogar chiclete no chão? E se um político fizer algo condenável? Não pode ser. Em algum lugar o ser humano tem que dar certo. O Brasil tem essa vantagem: nenhuma decepção abala a expectativa irremediável de que vai melhorar. Isso alimenta nossa alma em desenvolvimento. Sem contar que temos nossas belezas, Machado de Assis, Villa-Lobos, feijoada completa. E aqui é nosso lugar. Pensando bem, acho que é a hora de desfazer as malas. Vou mandar outro whats para a família.

FÁBIO PRIKLADNICKI


02 DE SETEMBRO DE 2020
EDUCAÇÃO

Particulares preparam retomada

Governador Eduardo Leite se reuniu, ontem, com comitê científico do Estado e prefeitos para apresentar novo calendário 

Aos poucos, as escolas particulares do Rio Grande do Sul estão se preparando para quando puderem voltar a receber crianças e adolescentes. A expectativa da retomada ampliou-se depois da apresentação, ontem, de um novo cronograma criado pelo governo do Estado. A definição do calendário de volta às aulas presenciais na Educação Básica foi postergada diversas vezes diante da preocupação com a saúde dos estudantes, familiares e educadores em um período ainda intenso da pandemia.

Pelo novo cronograma, a ideia é retomar os encontros presenciais neste mês, de forma escalonada, concluindo o processo em novembro. As etapas começariam pela Educação Infantil, no próximo dia 8, passando pelo Ensino Médio e Ensino Superior, em 21 de setembro, e o Ensino Fundamental, entre 28 de outubro (anos finais) e 12 de novembro (anos iniciais). Na rede estadual, as aulas presenciais reiniciariam a partir de 13 de outubro. A decisão caberá aos municípios.

Protocolo

Representando as escolas particulares do Estado, o Sindicato do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinepe-RS) defende que, se a rede pública não tem condições de abrir as portas, essa opção seja dada às escolas privadas que desejarem e estiverem prontas para retomar as aulas presenciais e acolher seus alunos.

Mas há muito mais em jogo do que a definição e adequação de protocolos para receber os estudantes. Avalia-se, por exemplo, o risco de que o retorno às aulas presenciais represente um aumento ainda mais expressivo no número de casos de coronavírus no Estado. Espécie de "laboratório" da volta às aulas, o Amazonas, pouco mais de três meses após o pico da pandemia e o colapso do sistema de saúde, viu ao menos 10% dos professores da rede pública estadual testarem positivo para covid-19 na segunda semana da reabertura das escolas, no final de agosto.

As instituições da rede privada gaúcha têm promovido adaptações passo a passo: primeiro, com protocolos de segurança e planejamento, para depois buscar a readequação dos espaços e a disponibilização de materiais como dispensadores de álcool gel.

Para criar um protocolo de segurança que garanta o retorno presencial às aulas após a liberação das autoridades sanitárias, a Rede La Salle firmou uma parceria com a Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. O hospital apoiará os colégios lassalistas do Brasil no planejamento e nas orientações técnicas por meio do Serviço de Controle de Infecção e Infectologia Pediátrica da Santa Casa.

A partir dessa parceria, foi criado um Protocolo de Proteção e Prevenção à Covid-19 da Rede La Salle, e os colaboradores receberão capacitação de como estar preparado para a pandemia na retomada das aulas. O primeiro encontro de orientação foi de forma virtual e destinado às equipes diretivas das unidades lassalistas.

Segundo o diretor de Missão da Rede La Salle, Irmão Jorge Alexandre Bieluczyk, o protocolo de retomada das atividades presenciais que fará parte de toda a rede chancela as medidas de segurança, bem-estar e proteção em operação nas três unidades do Brasil que retomaram as aulas presenciais, nas cidades de Manaus (AM), Rio Verde (MT) e Zé Doca (MA).

GUILHERME JUSTINO E ALINE CUSTÓDIO

terça-feira, 1 de setembro de 2020



01 DE SETEMBRO DE 2020
DAVID COIMBRA

O grande erro de Moro

Que erro histórico cometeu Sérgio Moro ao aceitar o cargo de ministro de Bolsonaro. Que erro! Na época, lembro de ter dito: "Ótimo para o governo, péssimo para Moro". Na verdade, não foi péssimo apenas para Moro; foi péssimo para o Brasil.

Com sua assunção no ministério, Moro colocou em risco a Lava-Jato, que é nada menos do que a operação anticorrupção mais importante da história brasileira, talvez mundial. A Lava-Jato teve seus defeitos, seria impossível que uma movimentação de tal porte não os tivesse, mas seus predicados foram bem maiores. Bilhões de dólares retornaram ao erário, devolvidos por corruptos confessos. Esquemas promíscuos entre políticos e empresários de toda a América Latina acabaram desmontados. A administração pública brasileira passou por um processo de desinfecção.

Mas era certo que haveria reação. Porque a Lava-Jato apenas abalou o sistema, não o derrotou. O sistema é abrangente e flexível. O sistema é líquido, ele adota a forma do recipiente que o contém. Ele se tornou outro, para continuar sendo o mesmo.

Essa resposta do sistema aconteceu quando os políticos foram tocados. Sempre se pensou que o dinheiro mandava no Brasil. Errado. Quem manda é o poder. São os políticos. A prisão de grandes empresários corruptores chocou, mas não provocou a verdadeira resistência. Com os políticos, a conversa foi outra.

No momento em que teve seu mandato cassado pela Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha fez uma profecia: "Hoje sou eu; vocês, amanhã".

Ele estava certo. Políticos de quase todos os partidos foram afetados pelas investigações da Lava-Jato, porque as alianças dos governos do PT eram amplas - grande parte das legendas participava da administração. Ou seja: a Lava-Jato se tornou inimiga dos políticos, de seus apoiadores em diversos estamentos da sociedade e de seus eventuais sabujos nas mídias. É muita gente.

Moro era o principal personagem da Lava-Jato. Ou seja: era o principal inimigo dos políticos. E Moro, ao aceitar o ministério, virou um deles. Virou político! Como esperava ser recebido nesse meio?

Moro talvez acreditasse no que acreditaram os eleitores de Bolsonaro: que ele, Bolsonaro, era diferente. Que não tinha nada a ver com o tradicional mecanismo da política brasileira. Ora, Bolsonaro foi deputado por 28 anos, três dos seus filhos são políticos, ele e sua família estão completamente integrados no sistema. Mais: são parte do sistema.

Bolsonaro pode ser tacanho em inúmeras questões, mas conhece as minudências da política. Por mais que às vezes teça considerações toscas ou pareça afrontar os outros poderes, Bolsonaro sabe que as engrenagens têm de estar encaixadas para que a máquina funcione. Um precisa do outro. Assim, Bolsonaro não iria afrontar os políticos, valorizando a Lava-Jato. Ao contrário: ele permitiu que os políticos aos poucos se remobilizassem e se fortalecessem para o contra-ataque.

Pois o contragolpe veio, e veio de frentes variadas. A Lava-Jato, na prática, acabou. Duvido de que suas decisões sejam revertidas, mas, com seu prestígio corroído, os políticos ganham certa segurança de que um evento semelhante não volte a ocorrer, pelo menos não em breve.

Essa reação era esperada, mas ganhou mais vigor devido à entrada de Moro no governo. Com a saída, ele tinha chance de se redimir, se apresentasse provas sólidas de irregularidades perpetradas por Bolsonaro. Não apresentou. A prova que surgiu, o famoso vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, demonstrou tão somente como os integrantes do governo são rasteiros, como são mal-educados, como são grosseiros, mas disso todo mundo já sabia, e disso alguns até se regozijam.

Então, ficou assim: Moro provavelmente será candidato a presidente da República, mas não terá a seu favor a boa imagem que possuía quando era juiz e contra si terá o establishment restaurado e sedento de vingança. Bolsonaro, empregando métodos parecidos com os que o PT empregou, como as alianças com o centrão e o Bolsa Família, terá grande chance de se reeleger. E o sistema continuará intacto. Com algumas cicatrizes, é verdade. Mas forte e de pé. Pelo seu próprio bem.

DAVID COIMBRA

01 DE SETEMBRO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

Finalizar as obras


Muito pior do que um governo sem obras iniciadas é uma gestão que simplesmente relega as em andamento ao abandono e à inevitável deterioração. Projetos iniciados mas em seguida paralisados são, além de um transtorno e uma frustração para as populações, monumentos ao desperdício do escasso dinheiro público. Não é segredo ou novidade que, nos últimos anos, o país se transformou em um cemitério de obras anunciadas com pompa, que aos poucos foram sendo deixadas de lado, decompostas pela ação do tempo, pela falta de recursos e planejamento deficiente.

Por isso, apesar do caráter nitidamente eleitoral das inaugurações programadas, acerta o presidente Jair Bolsonaro ao anunciar que o governo federal vai concentrar os minguados recursos existentes na finalização de obras iniciadas por seus antecessores. Nem poderia ser diferente. Afinal, a construção da infraestrutura com investimento público deveria sempre ser vista como uma política de Estado, e não algo que pertence ou pode render dividendos nas urnas para qualquer grupo político específico.

No Brasil, infelizmente, é prática corriqueira governos anunciarem projetos portentosos e grandes obras que são abandonadas ou demoram um tempo muito acima do cronograma original para serem entregues. A população pretensamente beneficiada imagina que o governo de plantão está realizando um grande empreendimento e devolvendo seus tributos na forma de benefícios ansiados pela coletividade, quando muitas vezes está somente levantando uma cortina de fumaça para criar a ilusão de ser uma gestão realizadora. Mesmo quando são, no fim, entregues, construções paralisadas e depois reiniciadas também significam custos muito acima dos inicialmente calculados.

A melhor obra é aquela inaugurada e é neste momento que os governos devem ser saudados, e não quando fazem anúncios impactantes, em geral com nomes pomposos e com promessas e estimativas de término que quase invariavelmente são esquecidas ou ficam para as calendas. O Brasil parece padecer de um problema atávico para tocar e concluir obras. O que outros países fazem em poucos anos, aqui leva décadas. Então, antes de se lançar a novos empreendimentos, até pelo respeito aos contribuintes, é dever dos governos terminar o que foi iniciado - no caso do Rio Grande do Sul, a duplicação da BR-116 e a nova ponte sobre o Guaíba são exemplos. Mas, olhando para o futuro, a prioridade deve ser deixar para as parcerias público-privadas (PPPs), com os ônus e os bônus, a responsabilidade de levar adiante os novos grandes projetos. Nesse caso, o grande papel do Estado deve ser o de proporcionar segurança jurídica.

OPINIÃO DA RBS


01 DE SETEMBRO DE 2020
ENTREVISTA

"Os jornais não estão no ramo do erro; estão no ramo da confiança"

ENTREVISTA: MARCELO RECH, Presidente reeleito da ANJ
O jornalista Marcelo Rech, vice-presidente Editorial e Institucional do Grupo RBS, foi reeleito na quinta-feira para o terceiro mandato como presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ) pelos próximos dois anos. A nomeação ocorreu durante reunião virtual do Conselho de Administração na Assembleia Geral de Associados da entidade. O início do novo mandato coincide com um movimento que reúne 27 entidades brasileiras da área de comunicação, incluindo a ANJ, em torno de objetivos comuns do setor. A primeira iniciativa dessa coalizão foi protocolar, na Câmara dos Deputados, uma carta ao presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), pedindo apoio a uma série de aspectos do Projeto de Lei das Fake News e em defesa do jornalismo profissional. A seguir, Rech trata deste e de outros desafios da atividade.

Algumas pessoas dizem que os jornais vão desaparecer. Isso é verdade?

Em alguns segmentos, ainda há uma visão antiga e desatualizada de que jornais são veículos impressos apenas. Mas, pelo fato de terem sido uma das primeiras atividades a enfrentar a disrupção digital, os jornais estão também entre os primeiros a identificar novos horizontes e a se reinventar. Hoje, são plataformas de produção que apuram, processam e distribuem informação de credibilidade 24 horas por dia, sete dias por semana, por inúmeros canais, inclusive o impresso. Há 20 anos, se imaginava que os jornais seriam uma usina informativa. Essa visão se materializou, e com um alcance muito mais amplo do que quando estávamos limitados ao impresso e a um território de circulação de exemplares físicos.

Os novos modelos de comunicação, como as grandes plataformas digitais, não acabarão substituindo os jornais?

Em um primeiro momento, algumas pessoas cogitaram que isso poderia ocorrer, mas a tendência é de valorização da atividade básica dos jornais. A busca da verdade - apurada com técnica profissional e equilíbrio - se transformou em um bem de primeira necessidade, assim como a pluralidade de visões. Verdade e pluralismo são bem escassos em ambientes digitais nos quais sobressaem as fake news e as bolhas de opinião. Diferentemente dos difusores de desinformação, os jornais não estão no ramo do erro. Pelo dinamismo e subjetividade do jornalismo, não somos imunes a equívocos, seja na precisão das descrições de fatos ou nos julgamentos sobre a relevância de alguns assuntos. Mas os jornais e o jornalismo vivem de acertos - e esse é um ativo cada vez mais em alta, e pelo qual mais pessoas estão dispostas a pagar. Na prática, os jornais estão no ramo da confiança.

O futuro é o jornalismo pago?

Diferentes modelos convivem em diferentes cenários, de acordo com a estratégia de cada veículo. De uma forma geral, pode-se dizer que conteúdos generalistas que visam atrair enormes audiências seguirão abertos e buscarão se financiar apenas com publicidade. Mas conteúdos exclusivos e diferenciados, o que inclui opiniões abalizadas e visões de fontes muito especializadas, serão crescentemente remunerados por quem se dispõe a ter acesso a informações que não estão disponíveis para todos. Também se verá cada vez mais o modelo híbrido. Jornalismo de qualidade e independente não é barato e, mesmo a valores muito modestos diante de seus benefícios, precisa ser bancado pela publicidade ou por usuários.

Por que parece que o jornalismo criou tantos inimigos?

Uma imprensa livre inclui, necessariamente, visões críticas, opiniões e abordagens que porventura desagradam a governantes e seus apoiadores, adeptos de partidos, empresas, ativistas e um vasto rol que vai até torcedores de um clube de futebol. É um fenômeno normal e até previsível quando se produz conteúdo. A diferença de agora é que eventuais descontentamentos descambam até as raias de ataques à integridade física de jornalistas e aos linchamentos virtuais.

Por que isso acontece?

O objetivo de quem está por trás dessa instrumentalização não é estabelecer a verdade ou contrapor argumentos. É a destruição do mensageiro por meio de difamações e desinformações disseminadas pelas redes e por grupos de mensagem. Esse submundo digital, que se movimenta nas sombras do anonimato, sobrevive às margens da lei. É um problema universal, muito comum na guerra política do mais baixo nível, e que corrói as relações pessoais e sociais.

O que fazer para combater?

No Brasil, 27 entidades da comunicação, jornalísticas e publicitárias, estão se unindo em uma coalizão chamada Liberdade com Responsabilidade para chamar a atenção sobre aspectos do Projeto de Lei 2.630, conhecido como Lei das Fake News, que estavam passando por baixo do radar no debate público e no Congresso. Muito por influência de quem, por razões comerciais ou ideológicas, não quer obstáculos à difusão de desinformações, o debate parecia se resumir a ameaças à liberdade de expressão e privacidade, que são como água e oxigênio. Sua preservação é essencial e, dentro da Constituição, delas também não abrimos mão.

Como conter as fake news?

A coalizão propõe duas grandes linhas: a extensão da legislação brasileira sobre publicidade para as plataformas digitais e a remuneração do conteúdo jornalístico usado pelas plataformas em seus modelos de negócios. Plataformas se comportam cada vez mais como veículos de comunicação. Chegam a comprar direitos de transmissão de futebol e vendem anúncios baseados em audiências como qualquer meio de comunicação, mas não querem assumir o ônus de serem veículos. Se cumprissem a regulamentação da publicidade, as plataformas teriam de ser mais transparentes sobre quem financia os conteúdos impulsionados, por exemplo. E, com o pagamento pela atividade jornalística, se faria justiça pelo empréstimo da relevância conferida pelo jornalismo e se evitaria o avanço dos chamados desertos de notícias.

O que são esses desertos?

Em vastas regiões do Brasil e do mundo já não há mais produção profissional de jornalismo - definida como aquela que cumpre as leis e adota princípios éticos universais, como a busca da verdade e a pluralidade. Ou então o ecossistema de comunicação está tão enfraquecido que pistoleiros da internet a serviço de quem lhes paga mais produzem e difundem fake news sem que haja órgãos de comunicação fortes o suficiente para repor a verdade. As vítimas são desde os políticos locais até a boa-fé das comunidades. As grandes plataformas digitais sugaram fontes de financiamento dos veículos de comunicação e agora se valem de seus conteúdos e prestígio para monetizar seu negócio. Para vender publicidade, elas precisam de engajamento. E, infelizmente, desinformação, teorias da conspiração e discursos de ódio geram compartilhamento.

No resto do mundo, como o problema está sendo tratado?

A União Europeia aprovou em abril do ano passado uma diretriz que determina aos países membros a criação de leis para remunerar a atividade intelectual e informativa pelas plataformas. A França foi o primeiro país a começar a colocar em prática a diretriz. E agora, na Austrália, a autoridade que fiscaliza práticas anticompetitivas determinou negociação para que as plataformas recompensem adequadamente os veículos pelo uso de seus conteúdos. Se não houver acordo, indicará um árbitro para apresentar solução.

O que motiva as legislações?

No fundo, é a defesa da democracia. As mentiras em escala industrial, com a manipulação grotesca de fatos e emoções de eleitores, embaçam um princípio elementar das democracias: o direito de escolha baseado em fatos e na rea- lidade. Nas eleições das Filipinas, no Brexit, nos EUA, no Brasil, na Índia, em toda parte, estrategistas de campanha passaram a dominar a lógica - ou a falta dela - dos algoritmos e aplainaram o terreno para a mensagem radical de seus candidatos cair em solo fertilizado. O crescimento dos extremos resulta nesta combinação que preocupa a quem acredita que as divergências de visão devem ser resolvidas pelo diálogo e pelo bom senso em um ambiente democrático de respeito e convivência pacífica.

Como lidar com os ataques do presidente Jair Bolsonaro à imprensa e a jornalistas?

O presidente emula sua inspiração norte-americana e despreza notícias e opiniões em contrário. Em vez de rebatê-las, agride o mensageiro, como no caso recente do repórter que perguntou sobre os depósitos de Fabrício Queiroz na conta de sua esposa. Bolsonaro pode até animar uma torcida fanatizada, mas num plano mais amplo implode cada vez mais sua imagem, e a do Brasil, no Exterior, além de afastar possíveis apoiadores moderados. Também já usou a caneta para tentar retirar oxigênio financeiro de veículos no ano passado, quando editou duas MPs para impedir a publicação de balanços e editais dos jornais. Congresso e STF, que não têm sido poupados de críticas pela imprensa, reverteram as medidas porque enxergaram nelas uma retaliação e compreendem o papel fiscalizador da atividade jornalística.

Essa fase paz e amor do presidente não pode ser um ponto de inflexão nos ataques?

Esperamos que sim e que os casos da ameaça ao repórter de O Globo e outros se transformem em passado. O presidente não precisa gostar da imprensa - nenhum governante morre de paixão por quem divulga críticas a ele. Mas um chefe da nação precisaria entender melhor a missão do jornalismo e que a atividade sempre seguirá em frente, enquanto chefes de governo vêm e vão. Na América Latina, muitos governos de esquerda também perseguiram abertamente a imprensa, como Cristina Kirchner, na Argentina; Rafael Correa, no Equador; e Hugo Chávez, na Venezuela. Lula também tem posição ameaçadora contra alguns veículos brasileiros. É na companhia deles que o presidente Jair Bolsonaro quer passar para a História?

01 DE SETEMBRO DE 2020
+ ECONOMIA

Um "milagre" de R$ 1 bi na Renner



O que teria sido um prejuízo de R$ 228 milhões no segundo trimestre da Lojas Renner virou lucro de R$ 818,8 milhões, 254,6% acima de igual período do ano passado. O "milagre" foi o reconhecimento de um crédito tributário de R$ 1 bilhão, resultado do julgamento favorável, sem possibilidade de recurso, à não incidência de PIS-Cofins sobre o ICMS.

- O pior já passou. Foi um trimestre desafiador, que puxou a maior parte dos segmentos para baixo. Mas já vemos reversão de cenário e um futuro mais promissor - disse à coluna Fabio Faccio, CEO da Renner.

O efeito do R$ 1 bilhão, por enquanto, é contábil, ou seja, não entra dinheiro. A expectativa, segundo o diretor administrativo-financeiro e de relações com investidores da Renner, Laurence Gomes, é usar o crédito no próximo ano, quando o lucro recorrente voltar, para ter efeito no caixa.

A empresa acelerou projetos previstos paras 2021, como a venda por WhatsApp, e a receita digital subiu cerca de 200%.

- A venda por WhatsApp era um projeto para 2021. Testamos em uma unidade de Porto Alegre e explodiu de tal forma que tivemos de aumentar o número de pessoas e estender para cerca de 70 lojas nas principais capitais. As vendas quadruplicaram em relação ao início.

Segundo Faccio, os dois primeiros meses do terceiro trimestre já tiveram resultado que se aproxima do pré-pandemia. E, na avaliação do CEO da Lojas Renner, não é gerado por artificialismos:

- No nosso segmento, é uma reação mais sustentável. O consumo de moda e de produtos de beleza teve queda forte em um primeiro momento, mas historicamente é um segmento que volta forte depois de períodos de pós-crise, pós-guerra, pós-calamidade.

A Renner mantém o plano de expansão dos próximos cinco anos. Neste ano, devem ser abertos cerca de 10 pontos de venda no país. A partir de 2012, projeta Faccio, serão entre 20 a 30 por ano. Só vai dar uma freada na experiência internacional.

MARTA SFREDO

01 DE SETEMBRO DE 2020
NÍLSON SOUZA

Acordos de leniência

Decidi poupar-me um ano de vida. Sei que é uma atitude digna do Chapeleiro Maluco, mas tive que adotá-la meio de supetão quando um amigo querido me mandou mensagem desculpando-se por não vir me abraçar no dia do meu aniversário, pelas razões que todos conhecemos.

- Sem estresse! - respondi, acrescentando à resposta a ideia recém formada.

Neste ano estranho, não apenas deixei de celebrar a data como também decidi apagá-la do calendário da existência. Em consequência, este ano deixa de constar na minha biografia. Assim como muitos estudantes brasileiros perderão o ano letivo por falta de aulas presenciais e pelas dificuldades de acesso à tecnologia, também estou adiando a minha efeméride (argh) para depois da pandemia, talvez lá pela segunda metade de 2021.

Reconheço que se trata de uma decisão monocrática, a exemplo do que fazem alguns juízes, embriagados com o próprio poder de mudar o destino das outras pessoas. Pouco importa se, depois, a medida será revisada por uma corte superior - no meu caso específico de desacato à contagem convencional do tempo, possivelmente pelo STJF, Supremo Tribunal do Juízo Final.

- Por que você sonegou 2020 na sua declaração de vida? - perguntarão os inquisidores.

E eu, com o meu melhor sorriso amarelo, direi: - Reconheço o delito e estou pronto a repará-lo. Podem me mandar de volta que cumpro mais um ano.

Fantasia à parte, jamais nos esqueceremos deste ano que escancara todas as nossas fragilidades como seres humanos ao mesmo tempo em que nos oferece as condições para um acordo de leniência com o futuro: cuidados com a saúde, preservação efetiva do meio ambiente, abertura à diversidade, combate sem tréguas aos preconceitos, rejeição inequívoca ao autoritarismo e ao negacionismo, maior apreço pela educação, pela ciência e pela cultura, menos ganância e mais solidariedade.

As infrações a essas regras básicas de humanidade - já sabemos - nem chegam ao referido STJF. São julgadas em rito sumário na primeira instância de nossas breves e frágeis vidas.

NÍLSON SOUZA

segunda-feira, 31 de agosto de 2020



31 DE AGOSTO DE 2020
DAVID COIMBRA

Como é bom se ofender!

Certa vez, um grupo de vegetarianas fez uma manifestação durante a sessão de autógrafos de um livro que eu estava lançando. Verdade! Já contei esse episódio, mas sempre que lembro parece tão irreal que quase duvido de que aconteceu.

Mas aconteceu. É que, em algumas crônicas, eu gozava da devoção das vegetarianas ao, digamos, "movimento". Um dia, citei um trecho de um texto de Alexandre Dumas Pai, que escreveu o seguinte:

"Não posso deixar de dizer que a salada não é absolutamente uma alimentação natural para o homem, por mais onívoro que seja este. Só os ruminantes nasceram para pastar folhas. A prova é que nosso estômago não digere a salada, uma vez que secreta apenas ácidos e que as folhas só se diluem por meio de alcalinos?".

Dumas Pai era um gourmet, escreveu um livro sobre gastronomia, por isso discorria com tanta ênfase sobre a salada. Eu, pessoalmente, nada tenho contra quem se entrega à dieta vegana, ou qualquer outra semelhante. Pouco se me dá o que as pessoas comem. Mas me divertia brincando com as vegetarianas.

Algumas reclamavam das crônicas, outras entendiam que era brincadeira e achavam engraçado. Tudo bem, nunca dei muita importância a esse "debate". Era só gozação mesmo.

Aí, nessa noite, eu estava autografando os livros no mezanino de uma livraria e, de repente, elas saltaram detrás de pilares e estantes, abriram faixas e cartazes e começaram a gritar palavras de protesto. Primeiro, levei um susto, não entendia bem o que estava se passando. Depois, achei curioso e até gostei, encarei com bom humor. Mas elas não paravam, então começou a ficar chato. A certa altura, o editor, o Ivan Pinheiro Machado, pediu que elas se acalmassem, e aos poucos elas foram se aquietando, e a noite seguiu seu curso.

Não fiquei chateado ou brabo, considerei a manifestação delas espirituosa, mas, nos dias seguintes, observando a repercussão do caso, vi que havia pessoas levando aquilo a sério e que algumas estavam realmente irritadas comigo. O que me deixou perplexo. Como alguém poderia se ofender com uma piada acerca de seus hábitos alimentares?

Hoje, olhando aquela noite em retrospectiva, vejo-a como um prenúncio do que vinha acontecendo na sociedade brasileira. As pessoas estavam se tornando mais suscetíveis. Elas aprenderam, rapidamente, a se ofender.

Porque isso, esse sentimento de ofensa, se ensina e se aprende. Tem sempre um fundo egoico, óbvio. Quanto maior o ego, maior a possibilidade do sujeito se sentir ofendido, sobretudo se o ego for grande, e a autoestima, pequena. Neste caso, a pessoa vive se sentindo diminuída pelos outros.

Mas os MOTIVOS da ofensa são culturais. São ensinados. No passado recente, brincar com a masculinidade de um homem ou com a castidade de uma mulher era razão para briga com consequências graves. Nos anos 70, se você queria insultar um jovem, chamava-o de maconheiro. Mas eram ofensas de fundo pessoal. Agora, as pessoas podem se sentir ofendidas em grupo, elas têm meios para se mobilizar e para atacar o suposto ofensor. Isso dá poder ao ofendido. Encontrar algo para se ofender acaba se tornando recompensador, o ofendido tem uma sensação de grandeza e de pertencimento que não teria, se não houvesse o presumido ato de agressão. É preciso encontrar uma agressão, portanto, para crescer sobre os ombros do agressor.

São muitas as suscetibilidades que nos cercam, no século 21. É necessário ter cuidado ao caminhar, para não pisar numa. E despertar a ira dessa geração de ofendidos.

DAVID COIMBRA