sexta-feira, 4 de junho de 2021


04 DE JUNHO DE 2021
+ ECONOMIA

Negócios de futuro Inglês, a dor que criou um negócio

Uma startup de ensino de línguas está desembarcando no Estado a bordo de uma história pessoal de superação. Criada pelo economista e empreendedor social Gustavo Fuga, a 4you2 Idiomas acaba de abrir sua primeira unidade em Porto Alegre, na Avenida Assis Brasil, 3.759, perto da casa onde Fuga morou com sua família.

Nascido no subúrbio do Rio de Janeiro, o empreendedor foi aprovado na graduação de Economia na Universidade de São Paulo (USP) sem nunca ter estudado um idioma estrangeiro. Seu negócio foi baseado na dificuldade de acesso ao ensino de línguas. À coluna, Fuga detalhou que planeja abrir, no mínimo, 20 unidades em Porto Alegre:

- Morei aqui na infância, conheço a região e fiz amigos.

Durante a graduação, Fuga sentiu a necessidade de aprender inglês para dar conta do material didático indicado. Também começou a hospedar estrangeiros, constatando que o convívio ajudava a aprender o idioma. A vivência inspirou a criação da startup em que estrangeiros ensinam inglês:

- Abri a primeira escola em São Paulo, no bairro Capão Redondo, região periférica e populosa. O início não foi fácil, tinha muita vontade mas ainda estava testando - relata.

A 4You2 (significa "para você também") tem 17 unidades em São Paulo, Minas Gerais, Maranhão, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Paraíba. A mensalidade mínima é de R$ 79. Segundo Fuga, para permitir preço menor do que outros cursos, investiu em mão de obra estrangeira e tecnologia:

- Temos bons professores no Brasil, mas cobram caro, por serem poucos. Criamos uma espécie de intercâmbio invertido, trazendo profissionais de fora. É um negócio de impacto social, ou seja, precisa gerar lucro, mas não é uma empresa tradicional.

Desde o início, a empresa já intermediou o intercâmbio de 600 estrangeiros. Atualmente, há lista de espera de interessados em vir para o Brasil, diz Fuga. A empresa também importou o modelo de franquia de impacto, na qual os franqueados se tornam empreendedores sociais:

- Nosso papel é dar ferramentas. O mundo dos negócios e o do impacto social não podem mais andar separados. O empreendedorismo social já foi alvo de comentários como ?que bonito, observem esses novos empreendedores, brincando com projetos sociais?. Nos últimos anos, começou a mudar. A cabeça de alguns empresários funciona assim: ?aqui é onde ganho meu dinheiro, ali é onde faço caridade?. Não tem problema pensar assim, mas o mundo está mudando.

A startup busca parceria com empresários para atender ao público que não tem renda nenhuma - o que já é feito no Rio Grande do Sul:

- É uma troca. A empresa dá o curso a seus funcionários e, a cada matrícula, a 4you2 oferece uma bolsa para quem não pode bancar.

MARTA SFREDO

04 DE JUNHO DE 2021
POLÍTICA +

Exército abre porteira à indisciplina

A disciplina e a hierarquia, dois pilares do Exército Brasileiro, foram abalroados, simbolicamente, pelas motocicletas do presidente Jair Bolsonaro e do general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde. Ao aceitar a explicação furada de Pazuello, de que o ato do qual participou ao lado de Bolsonaro no Rio de Janeiro no dia 23 de maio não era político, o alto comando do Exército abriu a porteira para a indisciplina.

Dizer que a passeata de motos e o comício de Bolsonaro, com discurso e tudo, não foi um ato político é o legítimo "me engana que eu gosto". Se aquele não foi um ato político, de general para baixo ficam todos os militares autorizados a participar de protestos ou manifestações de apoio? É essa a pergunta que se fazem generais e ciosos da importância da disciplina e do respeito à hierarquia na corporação.

Outras justificativas para embasar o argumento de que o ato não foi político, como o de que Bolsonaro não está filiado a partido no momento, soam risíveis à população em geral e ofensivos aos generais que honram a farda verde-oliva. Ora, Bolsonaro está em campanha antecipada pela reeleição e a todo momento ameaça colocar o Exército que chama de seu nas ruas para impedir que governadores e prefeitos adotem restrições à circulação de pessoas entre as medidas para conter a disseminação do coronavírus.

O Exército, a Marinha e a Aeronáutica são instituições do Estado brasileiro e não do presidente da ocasião. O fato de um dia ter pertencido às Forças Armadas não dá a Bolsonaro o direito de tratá-las como puxadinho do Palácio do Planalto.

A nota assinada pelo comandante do Centro de Comunicação Social do Exército, dizendo que "não restou caracterizada a prática de transgressão disciplinar por parte do general Pazuello" foi precedida pela nomeação do ex-ministro da Saúde para um cargo estratégico dentro do Palácio do Planalto. Era um recado nada sutil do presidente Bolsonaro, que não aceitava nem mesmo a punição mais branda, a advertência.

Na hora em que militares da ativa aceitaram ocupar cargos no governo - Pazuello entre eles -, estavam fazendo política, mas sem transgredir as regras internas. Os regulamentos militares proíbem "manifestações coletivas, tanto sobre atos de superiores quanto as de caráter reivindicatório ou político". Ao pé da letra, o que Pazuello, general da ativa, fez incontáveis vezes na condição de ministro foram atos políticos, mas estava no exercício de um cargo civil. Agora, a porteira está aberta: o capitão manda nos generais.

ROSANE DE OLIVEIRA

04 DE JUNHO DE 2021
EDUARDO BUENO

Motoqueiro fantasma

Da rebeldia icônica de Marlon Brando em O Selvagem (de 1953) ao discreto charme de O Selvagem da Motocicleta, de Coppola; da bravura indômita de Sem Destino (1969) à garupa de Che Guevara em Diários de Motocicleta; da iluminação desacelerada de Zen e a Arte da Manutenção das Motocicletas ao mergulho nas correntes do inferno com o Motoqueiro Fantasma, as motos sempre zuniram pelas telas do cinema e pelas páginas da literatura como símbolo de liberdade e contestação.

Nesses casos, porém, era a arte imitando a vida, pois as gangues de motoqueiros e os rebeldes com ou sem causa já vinham há uns anos galopando seus cavalos de aço pelas ruas e estradas dos Estados Unidos - e a seguir pelas do Ocidente inteiro. Sobre duas rodas, eles afrontavam a lei e a ordem, desafiando a sociedade, acordando a burguesia de seu torpor e anunciando uma ruidosa revolução de costumes que, se jamais se concretizou, ao menos abalou o status quo.

Embora a mais famosa gangue de motoqueiros do planeta, os infames Hell´s Angels, sempre tenha se revelado um bando de reacionários - responsáveis pelo fim da era hippie ao esfaquearem pelas costas um estudante negro num show dos Rolling Stones -, ainda assim sempre foram vistos como "outcasts", à margem da sociedade e em choque com ela.

Mas, faz já três décadas, o Brasil viu brotar feito cogumelos, a veloz e barulhenta figura do motoboy, esse estafeta motorizado. Com a pandemia e o advento do tal iFood, eles se tornaram onipresentes, zumbindo pela cidade feito enxame de abelhas. Na minha rua, abriu, há pouco, um hamburgueria fedida que trabalha com telentrega. A frente da loja virou sucursal dos Demônios do Asfalto. Eles andam na contramão e sobem na calçada, eles têm a cara fechada e a descarga aberta, eles ignoram as leis do trânsito e as regras de civilidade.

E por que não o fariam? Além de ganharem pouco (essa espécie de Uber que monopoliza a telentrega lhes garante ocupação, mas não emprego nem direitos), o povo tem fome e pressa - e o dono da carne moída também. A fiscalização está de quarentena e os boys e suas motos sabem que rodam no país onde as leis de trânsito não valem nada. E não ignoram que, caso se metam em brigas de trânsito, terão uma legião de colegas para defendê-los.

Isso posto, que outro meio de transporte seria mais apropriado para o presidente mais retrógrado e desrespeitoso de todos os tempos do que uma moto? Depois do Rio, o capitão reformado agora ameaça fazer sua próxima "motociata" em Porto Alegre. Se tivesse um pingo de coerência, esse motoqueiro fantasma a faria sem máscara, sem capacete, sem carteira e na contramão. E, depois de trocar apertos de mãos e perdigotos com os Anjos do Inferno, bem ali no Parcão, entregaria a comida fria no endereço errado. Vruuummm....

EDUARDO BUENO

quinta-feira, 3 de junho de 2021


Corpus Christi

NÃO EXISTE NADA MAIS SUBLIME: JESUS DÁ-SE A SI MESMO SACRAMENTALMENTE

 3.jun.2021 às 8h00
Edson Luiz Sampel 

Teólogo e professor da Faculdade de Direito Canônico São Paulo Apóstolo, da Arquidiocese de São Paulo; autor, entre outros livros, de 'Católico até debaixo d’água' (LTR editora) 

"Age quod agis", diz o brocardo latino: preste atenção no que você faz! É verdade, vêm e vão os feriados e apenas nos preocupamos em gozá-los. Nada mais. Esta regra vale não só para os feriados religiosos, mas também para os civis.

 Se quisermos agir de modo consentâneo com nossa dignidade de seres humanos, pessoas inteligentes, é mister que nos informemos acerca do significado dos feriados, como Corpus Christi, por exemplo. Para começar, chama nossa atenção o fato de este evento religioso ser feriado. Concluímos que deve ser algo muito importante para os católicos —ainda, a maioria dos brasileiros. 

A locução em latim Corpus Christi significa, em português, "corpo de Cristo". Esta festividade foi oficializada na Idade Média, em 1264, pelo papa Urbano 4º, a partir de uma revelação particular de Jesus a santa Juliana de Cornillon. 

Corpus Christi é celebrado sem procissões e tapetes coloridos em meio à pandemia 

O Corpus Christi é o sacramento da eucaristia, também conhecido por "santíssimo sacramento", por ser o mais sublime dos sete sacramentos instituídos por Jesus. O católico recebe o corpo de Cristo ou a eucaristia quase sempre na missa de domingo. Para comungar a hóstia santa, que é exatamente o corpo de Cristo, faz-se necessário o estado de graça, ou seja, a ausência de pecado mortal. Daí a importância da confissão, outro sacramento instituído por nosso Senhor. 

De fato, na última ceia, antes de sua paixão, Jesus, tomando um pão, disse aos apóstolos: "Tomai e comei, isto é o meu corpo" (Mt 26, 26). Depois, com um cálice de vinho, afirmou aos apóstolos: "Bebei dele todo, pois isto é o meu sangue" (Mt 26, 27-28). Observe-se que Jesus não disse "isto representa" meu corpo ou meu sangue, mas disse claramente "isto é". Empregou a força viril do verbo ser. O Corpus Christi consiste, então, no corpo e também no sangue de nosso Senhor. 

Corpus Christi pelo mundo

 Toda vez que um sacerdote, na celebração da missa, profere as palavras de Jesus acima transcritas, verifica-se o maravilhoso milagre da transubstanciação, ou seja, a conversão da substância do pão na substância do corpo de Jesus, bem como a conversão da substância do vinho na substância do sangue de nosso Senhor. Embora as espécies (hóstia e vinho) continuem aparentemente intactas, transubstanciam-se no corpo, sangue, alma e divindade de Jesus. Não existe nada mais sublime na face da Terra! Jesus dá-se a si mesmo sacramentalmente. 

Nossos amantíssimos irmãos separados, os protestantes, costumam celebrar a "santa ceia"; contudo, por faltar-lhes o sacramento da ordem (não há padres entre eles) e a sucessão apostólica (ascendência canônica dos 12 homens escolhidos por Jesus), não há que se falar em transubstanciação do pão e do vinho. Trata-se apenas de ritual simbólico, posto que respeitabilíssimo. O mesmo culto praticam os anglicanos. Situação diferente ocorre, por exemplo, com os ortodoxos. Malgrado afastados desde 1054 (cisma do Oriente) do sucessor de são Pedro, isto é, do papa, preservam, ainda, a sucessão apostólica e, destarte, administram a totalidade dos sacramentos, incluindo a eucaristia ou Corpus Christi. 

Se Deus mesmo está substancialmente presente na hóstia consagrada, em corpo, sangue, alma e divindade, é óbvio ululante que, no mínimo, devemos honrá-lo com um feriado.


03 DE JUNHO DE 2021
DAVID COIMBRA

Duas doses de vacina não protegem contra o trauma

Eu ia me exibir, contando que tomei a segunda dose da Pfizer, mas depois decidi ser humilde. Sou um homem discreto, afinal. Além do mais, podem ficar me julgando: "Ah, tomou vacina americana... Só podia. Americanófilo!". Sabe como é o povo: vê maldade em tudo.

Mas a verdade é que, ainda assim, não me sinto seguro. Isso é muito estranho. Li que a vacina garante 95% de proteção, e fico pensando nos 5%. Porque estou há um ano e meio ouvindo falar de casos horripilantes. Um sujeito tomou as duas doses, mas foi hospitalizado e entubado. Outro, morreu miseravelmente. Tem uma senhora que se curou, mas faz seis meses que não sente o gosto de nada.

Essas coisas assustam a gente. Entenda, leitor: durante todo esse tempo, tenho conferido a média de mortes do dia. Sabe lá o que é isso? Todos os dias vendo quantos morreram? Não quero mais saber da média de mortes de pessoas.

Outra aflição são essas variantes. A cada semana surge uma variante nova e mais agressiva. Será que a vacina funciona contra as variantes? Ninguém sabe, ninguém viu.

Não bastasse tudo isso, agora apareceu um troço de nome assustador: "fungo negro". Metade das pessoas que pegaram esse Fungo Negro, lá na Índia, morreu, e algumas tiveram de se submeter a operações mutilantes, como extração dos olhos.

Meu Deus!

Reconheço: estou traumatizado. Devia estar feliz com a vacina, mas fico pensando: "E as novas cepas? E a terceira onda?"

É que essa pandemia conseguiu abalar a minha crença na ciência moderna. Eu lia sobre a peste negra, sobre a gripe espanhola, sobre a lepra, e pensava: "Como eles sofriam naquele tempo".

Esse "tempo" era tudo que veio antes do desenvolvimento da medicina, antes dos antibióticos, das vacinas, da anestesia. A partir do século 20, o homem parecia ter controlado os grandes males que o atormentavam e a vida tinha tudo para se tornar mais fácil e leve.

Isso era o que se pensava, só que o coronavírus mostrou que não é bem assim. Um organismo frágil, que se desmancha com água e sabão, submeteu a Terra inteira, prendeu as pessoas em suas casas, fechou comércio e indústria, trouxe crise, fome e medo ao planeta.

Como é que isso foi acontecer?

Minha confiança na capacidade do Homo sapiens está definitivamente trincada. Derrotamos os neandertais e os tigres-de-dentes-de-sabre, mas perdemos para um organismo sem nenhuma sofisticação, invisível a olho nu, que alguns cientistas acham que nem vivo está.

Francamente, estou decepcionado com a Humanidade. E não é a primeira vez.

DAVID COIMBRA

03 DE JUNHO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

PERSPECTIVAS ANIMADORAS

A grande aflição hoje dos brasileiros e dos gaúchos é quanto à aceleração do processo de vacinação, em ritmo ainda aquém do desejável no país. A chegada de junho, no entanto, renova as expectativas de que finalmente o trabalho possa ganhar maior tração, contribuindo na luta para controlar a pandemia, ao lado da indispensável manutenção dos cuidados individuais. No caso do Rio Grande do Sul, um dos ponteiros na aplicação, causa especial esperança a projeção da chegada, neste mês, de cerca de 2,6 milhões de doses.

O volume previsto para junho, junto a remessas futuras, tende a permitir que se dê mais celeridade à imunização. No caso particular de Porto Alegre, há a perspectiva animadora de que será possível vacinar, até setembro, 70% da população, de acordo com o diretor da Vigilância em Saúde do município, Fernando Ritter. O cronograma da prefeitura prevê que, amanhã, começará a chegar a vez de pessoas a partir dos 59 anos, fora dos grupos prioritários. 

A promessa é, ainda para junho, garantir o benefício para todos os trabalhadores do ensino, das redes pública e privada, e ainda assegurar a primeira dose para os porto-alegrenses a partir dos 50 anos. A expectativa do governo gaúcho, de maneira semelhante, é possibilitar a aplicação inicial para o conjunto completo dos trabalhadores da educação em instituições públicas e privadas da Educação Infantil e dos Ensinos Fundamental e Médio.

É animador o horizonte de maior abrangência da vacinação na população em geral e dos trabalhadores da educação em especial. É um avanço que significa menor número de contágios, internações e mortes, assim como a possibilidade de se começar a recuperar de forma mais acelerada os prejuízos à aprendizagem de crianças e adolescentes. Um maior controle da pandemia, sabe-se, é possível quando se chega a cerca de 70% do público-alvo vacinado. 

Como as faixas etárias médias concentram um contingente maior, é positivo ainda a informação de que a prefeitura de Porto Alegre deve disponibilizar um aplicativo para que os cidadãos possam se cadastrar e agendar dia e hora para irem até o ponto de vacinação, evitando tumultos e filas que, em outras oportunidades, deixam centenas de pessoas horas a fio em uma espera que, muitas vezes, mostrou-se frustrada.

Em meio a um cenário já grave e na iminência de uma terceira onda de covid-19, a possibilidade de agilizar a vacinação é um alento para os gaúchos. Esse avanço, no entanto, não deve levar ao relaxamento em cuidados como o distanciamento social e o uso correto de máscaras. Mesmo os vacinados com as duas doses, sempre é preciso ressaltar, podem se contaminar e transmitir o vírus, uma vez que nenhum dos fármacos aprovados e em uso tem 100% de eficácia. Vencer o novo coronavírus, portanto, depende da defesa dos dois flancos.


Se o real sobe, por que o preço não cai?

Faltou pouco, ontem, para o dólar quebrar a barreira dos R$ 5 . Com nova queda de 1,2%, fechou cotado a R$ 5,084.

- O dólar já caiu 12% (entre a cotação mais alta do ano e a atual), mas os alimentos e o petróleo não tiveram baixa equivalente - diz Sidnei Nehme, diretor da NGO Corretora de Câmbio.

A coluna perguntou a André Braz, coordenador de índices de preços da Fundação Getulio Vargas (FGV), por que os preços não cedem com esse alívio:

- Além do câmbio, o que tem sustentado a inflação alta é o aumento do preço das commodities (matérias-primas básicas) em dólar. Então, não adianta o real se valorizar se o preço de dólar de grãos e do minério de ferro continua subindo. A valorização do real foi menor do que o aumento do preço em dólares. Então, o saldo é de aumento. Para baixar, precisa que o preço em dólares fique estável, e o dólar ceda.

Não há estabilidade à vista.

129.601

pontos foi o novo recorde da bolsa de valores atingido ontem, o quarto consecutivo. Em maio, entraram R$ 12,2 bilhões em recursos estrangeiros, mas saíram R$ 4,95 bilhões de pessoas físicas. Analistas dizem que investidores querem "viver o presente", a despeito de risco de apagão e piora na pandemia.

MARTA SFREDO 

03 DE JUNHO DE 2021
+ ECONOMIA

Mercado especula futuro do Banrisul

A sessão de terça-feira da Assembleia que aprovou a dispensa de plebiscito para privatizar Corsan, Banrisul e Procergs nem tinha terminado e começaram a piscar mensagens de analistas do mercado financeiro à coluna.Em todas a pergunta era a mesma: agora o Banrisul será privatizado?

A resposta foi a única disponível, a que o governador Eduardo Leite tem repetido em público: é uma possibilidade, diante das mudanças no sistema bancário, mas não será em seu governo. Os interlocutores, porém, fizeram suas ponderações.

Um dos analistas lembrou que Leite trouxe, para presidir o Banrisul, "uma pessoa do mercado financeiro do Rio de Janeiro" - referência a Claudio Coutinho, que tem passagens pelo BNDES e pelo sistema financeiro privado. A questão levantada é que ele teria perfil para "dar andamento" à venda do banco estadual gaúcho. A coluna repetiu a pergunta a Coutinho, que preferiu não comentar.

Outra réplica fez referência à suposta intenção de Leite disputar a eleição presidencial em 2022. O argumento, nesse caso, foi "vai querer mostrar certas vitrines de seu governo, e as privatizações e o saneamento das contas do Estado são grandes marcas para mostrar". Analistas locais lembraram da mudança de posição do governador sobre a privatização da Corsan, ponderando que o mesmo poderia ocorrer com o Banrisul. Em recente entrevista ao Jornal do Comércio, Leite foi peremptório:

- Eu não farei a venda do Banrisul. Não houve mudança de contexto. Sempre disse que cada governo enfrenta os desafios do seu tempo. Os meus envolvem as mudanças nas carreiras dos servidores e privatização de companhias que operam sob regime de concessão. Parece que o cenário do mercado financeiro vai impor essa discussão para o Estado no futuro.

Se no passado a venda do Banrisul foi condição para adesão ao Regime de Recuperação Fiscal (RRF), o novo secretário de Tesouro Nacional, o gaúcho Jeferson Bittencourt, disse à coluna que as novas regras permitem a adesão rápida do Estado pelo "dever de casa" já realizado.

As ações preferenciais do Banrisul, que têm maior liquidez, chegaram ao máximo de R$ 22,58 em fevereiro de 2019, no auge das especulações sobre a privatização do banco. Em março de 2020, caíram para R$ 11,45 sob temores de impacto da pandemia no sistema financeiro. Ontem, subiram 5,04%, para R$ 14,60 - sinal do "assanhamento" do mercado.

MARTA SFREDO

quarta-feira, 2 de junho de 2021


02 DE JUNHO DE 2021
DAVID COIMBRA

Essa nossa tendência a contagiar

Como somos contagiosos. Um ano e meio de padecimentos pandêmicos deixou isso evidente e demonstrado, mas já havia notado essa nossa faculdade graças aos mendigos. Eles são admiráveis. Um começa a fazer algo no Rio ou em São Paulo e logo todos aqui estão fazendo igual. Certo dia, alguém pintou o corpo de prateado em Copacabana. Duas semanas depois, dezenas de mendigos estavam cobertos de tinta pelo Brasil.

A mesma coisa é a sacola de balinhas - sacolas de balinhas são penduradas nos espelhos retrovisores de todas as grandes cidades entre Porto Alegre e Manaus. Como essa técnica foi espalhada? E, agora, os cartazes estão na moda. Os pedintes se posicionam diante dos carros e abrem um cartaz em que dizem por que estão precisando de ajuda. Um método inteligente - ele, assim, não tem necessidade de explicar sua situação para cada motorista.

Como é que eles se comunicam? Como é que mendigos do país inteiro, ou até do mundo, partilham sistemas de atuação? Há mendigos que viajam para adquirir novos know-hows? Eles fazem congressos? Meetings pela internet?

É que, como já disse, somos contagiosos. Um chinês, um único chinês, comeu morcego lá na China, em Wuhan. Ele se infectou com coronavírus. Três meses depois, o planeta estava coberto por essa praga, inclusive Porto Alegre. Você sabe qual é a distância entre Porto Alegre e Wuhan? Consultei o Google: 18.600 quilômetros. Como foi possível haver comunicação entre dois locais tão afastados?

Assim acontece também com certas frases ou expressões idiomáticas. Alguém diz algo inteligente ou engraçado e, em semanas, todos estão dizendo o mesmo. Acredite, houve um dia em que falar "rápido como um raio", "fazer vista grossa" ou "deixar a ver navios" era novo e original. Algum bidu disse isso pela primeira vez e as pessoas acharam muito bem-dito e saíram por aí repetindo.

As pessoas gostam de fazer o que os outros fazem, dizer o que os outros dizem, pensar o que os outros pensam. Dá uma sensação de segurança. Além do mais, é cômodo: se você reproduz ações e ideias dos outros, não precisa ficar pensando no que é certo ou errado. O certo e o errado já estão postos. Você vai lá e pega um "certo" enlatado e prontinho para o uso.

Esse é o fenômeno de sustentação das fake news e das grandes massas de admiradores de políticos. Nossos dois líderes populistas de hoje, Bolsonaro e Lula, são amados com amor de mãe, incondicional. Seus seguidores sempre têm justificativas para os atos deles, por duvidosos que sejam. Por quê? Porque formam uma coletividade. Eles têm a sensação de pertencimento a um grande rebanho. Estão infectados com o bolsonarismo ou o lulismo. Se muitas pessoas estão fazendo algo, os outros pensam: "Vou fazer também, deve ser bom".

Minha mãe dizia, quando eu era guri: "Cuida com o que tu falas, porque os anjos podem estar dizendo amém lá no Céu e aí o que é falado se cumpre". Ela tinha razão. É preciso ter cuidado com o que se diz. Vá que contagie outras pessoas, vá que se espalhe, vá que "pegue". Então, meu amigo, se você for viralizar, que seja com um vírus do Bem.

DAVID COIMBRA

02 DE JUNHO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

A BUSCA PELO DESENVOLVIMENTO

O caminho para o desenvolvimento econômico sustentável e perene e para a geração de empregos é tortuoso, cheio de percalços e, por isso, requer passos firmes e constantes. O progresso não se faz por surtos de crescimento, popularmente conhecidos como voos de galinha, mas pela persistência na construção de bases racionais que tornem a jornada da prosperidade possível. O Rio Grande do Sul, o Brasil e o mundo vivem, nestes dias, um período repleto de incertezas causadas pela crise sanitária, mas isso não significa que se deva relegar a um segundo plano a elaboração de estratégias que possam mirar o pós-pandemia.

É o que faz agora o Estado, por meio de uma série de projetos aprovados na Assembleia Legislativa e sancionados nesta semana pelo Palácio Piratini, que pretende preparar o terreno para atrair novos investimentos, criar um ambiente mais amigável para os negócios e incentivar a inovação em setores emergentes e tradicionais. Não se trata de tentar medir o impacto nos próximos anos no PIB ou na geração de vagas de trabalho, mas de apenas reconhecer que são iniciativas como estas, ao longo do tempo, que possibilitam aos gaúchos ter a perspectiva de um futuro melhor.

Fazem parte deste conjunto de medidas a busca por desburocratizar o Fundopem, o incentivo à instalação de empreendimentos nos diversos distritos industriais espalhados pelo Rio Grande do Sul, benefícios fiscais a determinados setores, incentivo ao segmento de etanol e uma participação mais robusta do Banco Regional de Desenvolvimento Econômico do Extremo Sul (BRDE) no financiamento a projetos. Assim, o pacote consegue conciliar o estímulo à inovação e o apoio a setores que há décadas compõem a base econômica do Estado, com atenção especial à sustentabilidade, um atributo cada vez mais levado em consideração tanto por investidores quanto por consumidores em todo o mundo.

Um dos pontos que merecem especial crédito é a Lei Gaúcha de Inovação, que simplifica trâmites de iniciativas e de parcerias apoiadas em tecnologia. Mais do que fiscalização e normatização de processos, a iniciativa foca nos resultados, eliminando entraves e estimulando as cooperações necessárias para o fomento do desenvolvimento dos ecossistemas de inovação. Neste contexto, a adoção de mecanismos legais que dão maior agilidade à pesquisa, por exemplo, é um passo basilar e significativo, dado pelo governo estadual e pela sua Secretaria de Inovação, liderada pelo professor e pesquisador Luis Lamb. Mesmo diante da emergência da saúde e em um Estado ainda pressionado por deficiências estruturais e dificuldades fiscais, deve ser saudado o fato de o Rio Grande do Sul ganhar uma série de medidas que, unidas, se somam para produzir uma visão coerente de busca pelo desenvolvimento.

 


02 DE JUNHO DE 2021
CORSAN BANRISUL E PROCERGS

Venda de estatais pode ocorrer sem plebiscito

Em votação histórica concluída ontem, a Assembleia Legislativa acabou com a necessidade de plebiscito para a privatização de estatais no Rio Grande do Sul. Por 35 votos a 18, os deputados aprovaram em segundo turno a proposta de emenda à Constituição (PEC) que dispensa a consulta popular para a alienação do Banrisul, da Corsan e da Procergs - últimas empresas que dependiam dessa cláusula para serem vendidas.

O resultado representa vitória do governo Eduardo Leite, que precisava da aprovação para concretizar a intenção de repassar o controle acionário da Corsan à iniciativa privada. A PEC foi apresentada em 2019 pelo deputado Sérgio Turra (PP) e ganhou apoio oficial do Piratini em março, quando a decisão de privatizar a estatal foi divulgada. Com a vitória, o governo poderá pedir apenas autorização aos deputados para vender a companhia de saneamento. São necessários 28 votos a favor.

Segundo o secretário-chefe da Casa Civil, Artur Lemos Júnior, o governo vai encaminhar ao parlamento o projeto que autoriza o Estado a desestatizar a Corsan. Questionada sobre o futuro de contratos vigentes de parceria público-privada (PPP) assinados pela companhia de saneamento com nove municípios da Região Metropolitana (ver texto ao lado), a Corsan afirma que a ideia é que todos os acordos sejam mantidos.

Na votação de ontem, além dos 13 deputados de PT, PSOL e PDT, cinco aliados do governo foram contra o fim do plebiscito: Thiago Duarte (DEM), Capitão Macedo (PSL), Patrícia Alba (MDB), Elton Weber (PSB) e Airton Lima (PL). Tiago Simon (MDB) e Gabriel Souza (MDB) não votaram - o último, por ser o presidente da Assembleia.

Durante a sessão, deputados da oposição se revezaram em pronunciamentos criticando a iniciativa, levantando questionamentos sobre a necessidade de privatizar a companhia e distribuindo críticas ao governador. Todos lembraram que, na campanha eleitoral de 2018, Leite prometeu manter a companhia sob controle estatal.

Líder do PT, Pepe Vargas afirmou que os municípios pequenos serão prejudicados com a privatização. O petista ainda insinuou que, com a derrubada do plebiscito, o governo poderá propor a alienação do Banrisul, o que Leite também prometeu que não faria.

- Quem mente uma vez, mente duas, mente três, mente quatro, vira um compulsivo mentiroso. É muito grave. Um governador faltar com a palavra é ruim para a democracia - disse Pepe.

Deputados governistas foram orientados a não usar a tribuna para evitar o prolongamento da sessão. Coube a Fábio Ostermann (Novo), que é independente mas costuma votar com o Piratini em pautas liberais, fazer o contraponto mais firme:

- Quando dizem que o povo não está sendo ouvido, desmerecem nossa própria democracia representativa. O povo foi ouvido no dia 7 de outubro de 2018, quando elegeu o governador do Estado com plataforma reformista e maioria de deputados favoráveis às privatizações.

Antes de votar a PEC, os deputados rejeitaram, por 38 votos a 16, um requerimento apresentado pela oposição para anular a votação em primeiro turno, realizada em 27 de abril, em que o texto foi aprovado pela margem mínima de 33 votos a 19. O requerimento surgiu após correções no placar da votação.

Questionamentos

Horas antes do início da sessão, a oposição também sofreu derrota na Justiça. O desembargador Voltaire de Lima Moraes, presidente do Tribunal de Justiça, negou liminar que pretendia suspender a votação, calcada nas mesmas razões do requerimento rejeitado pelos deputados.

O magistrado considerou que se trata de questão interna da Assembleia. Posteriormente, a decisão foi mantida pelo relator do caso, desembargador Marcelo Bandeira Pereira.

O Rio Grande do Sul era o único Estado que ainda previa a realização de plebiscito para a privatização de empresas públicas. Em 2019, no início do governo Leite, os deputados já haviam dispensado a consulta popular para privatizar a CEEE, a Sulgás e a CRM. Em Santa Catarina e Minas Gerais, por exemplo, há previsão de que a venda de algumas empresas seja submetida a referendo, após a aprovação da proposta pelo Legislativo.

 PAULO EGÍDIO


02 DE JUNHO DE 2021
POLÍTICA +

Concursos válidos por mais tempo

Antes da sessão plenária de ontem na Assembleia, o líder do governo, deputado Frederico Antunes (PP), e o chefe da Casa Civil, Artur Lemos, protocolaram um projeto de lei que amplia o prazo de validade dos concursos públicos do Estado, por causa da pandemia.

O texto prevê que todos os concursos públicos estaduais tenham a contagem do prazo de validade suspensa a partir de 19 de março de 2020, data em que o Estado declarou calamidade pública em razão da pandemia, até 31 de dezembro. O prazo voltaria a correr a partir de janeiro de 2021.

"Sem lei específica estadual os prazos dos concursos vigentes continuam fluindo, o que certamente acarretaria a caducidade de inúmeros certames, prejudicando não só a administração, mas também diversos candidatos aprovados", diz a justificativa do projeto.

Nomeações realizadas em 2020 não são afetadas.

A proposta tramitará em regime de urgência, o que indica que passará a trancar a pauta de votações em 30 dias, mas não deve encontrar resistência entre os parlamentares.

O projeto é resultado da negociação entre o governo e os deputados Luiz Fernando Mainardi (PT) e Neri, O Carteiro (SD). Ambos haviam protocolado propostas de teor semelhante no ano passado. Ontem, no ato de entrega do projeto (foto), Neri (de gravata vermelha) participou presencialmente e Mainardi, por videochamada, direto de Bagé.

ROSANE DE OLIVEIRA

02 DE JUNHO DE 2021
MÁRIO CORSO

Cansaço com a pandemia

Olho para as aglomerações com dois sentimentos distintos, repreender por ser um risco desnecessário, mas entendendo que é um protesto vital, uma pulsão de vida. Somos seres sociais, nossa felicidade, nossa razão de existir passa por circular, por buscar afeto e reconhecimento. Nossa essência é aglomerar.

As crianças são as que mais sofrem. Ficar sem escola produz atrasos na socialização e também cognitivos. As crianças crescem no atrito com seus pares, imitando-os, sendo desafiadas pela diferença. As crianças aprendem muito mais com a transmissão lateral geracional do que se acredita. Essa geração vai ficar marcada pela pandemia mais do que os adultos.

O que dizer dos mais velhos, que não contam com a fartura de tempo pela frente, encerrados em casa longe do afago da família e do barulho dos netos.

Os pedidos de ficar em casa, de não circular, soam antinaturais até porque de fato são. Por isso, uma parte nossa começa a arriscar, a pensar que já não há mais perigo, a mentir para nós mesmos que não há tanto problema em ver a família e os amigos. O fato é que ninguém aguenta mais a privação social e ela, infelizmente, ainda se faz necessária.

O drama é que não domamos a situação. A vacinação está lenta, comparada a outros países, e uma terceira onda, ainda mais mortífera, está anunciada. Vale lembrar, os epidemiologistas que nos alertaram para as ondas anteriores acertaram. Por que estariam errados agora?

Eu entendo o drama do cansaço, da angústia e depressão que a reclusão social traz, mas vamos ter que nos segurar por mais tempo. Os riscos são enormes. Eu mesmo passei maus bocados: sem nenhuma comorbidade, médico para mim era oculista, por pouco não conheci o que existe do outro lado.

As novas cepas rebaixaram a idade média dos óbitos. A covid-19 deixou de ser uma doença de velhos, doentes ou imunodeprimidos, ela pode levar qualquer um. É uma loteria macabra, ninguém pode prever como cada corpo vai reagir ao vírus. Eu estava hospitalizado em fevereiro quando, para surpresa do corpo clínico, começaram a chegar e morrer jovens, até então, saudáveis.

Nós temos três caminhos para sair disso: vacina, vacina ou vacina. Use sua indignação para reclamar por elas. Só assim evitaremos esse efeito sanfona desafinada que abre e fecha sem ritmo. Países que apostaram tudo nelas estão tirando as máscaras e recuperando suas economias. Nosso governo caiu e insistiu no erro de pensar esse vírus como similar à epidemia da H1N1, de uma década atrás. Quem admitiu a natureza particular da covid-19 já está saindo dessa.

Em poucos dias contaremos meio milhão de brasileiros mortos. Não seja um desses. Falta pouco, nós vamos sair disso, não vamos esmorecer e morrer na praia. Tenho certeza de que inventaremos uma maneira de recuperar o tempo perdido.

 

terça-feira, 1 de junho de 2021


01 DE JUNHO DE 2021
DAVID COIMBRA

Anos Dourados

Nos anos 80, a Rede Globo encomendou a uma dupla de luxo, Chico Buarque e Tom Jobim, a música de abertura de uma minissérie histórica, Anos Dourados. Tom Jobim aprontou a melodia, entregou para a emissora e o Chico... nada da letra... A série estava pronta para estrear, o pessoal da emissora ligava para o Chico e... zero...

Tom já sabia que o Chico é assim mesmo: gosta de trabalhar sob encomenda, mas tem seu próprio tempo. Uma vez, ele, Tom, compôs a melodia de Wave e pediu para Chico botar a letra em cima. Chico ficou entusiasmado e logo bolou a primeira frase: "Vou te contar..." E não escreveu mais. As semanas e os meses iam passando, e ele não fazia a letra. Até que Tom se irritou e decidiu ele mesmo completar a canção: "Os olhos já não podem ver, coisas que só o coração pode entender". E assim por diante.

Os atrasos do Chico eram normais, portanto. Mas a Globo não podia esperar. A série estreou apenas com a melodia de abertura e só depois, bem depois, Chico aprontou a letra. Que é pura poesia, diga-se. Talvez seja a minha música preferida do Chico Buarque.

O que Anos Dourados consegue nos fazer sentir é uma nostalgia dos dezembros dourados do Brasil. Eu pensava muito nisso, quando morava nos Estados Unidos. Porque, se o Natal na neve e no frio é mais bonito, o resto do mês de dezembro é bem mais animado nos trópicos. Por aqui, existe uma sensação de encerramento de um ciclo e começo de outro, algo que, nos Estados Unidos, se dá mais no meio do ano, quando se inicia o verão.

Então, ao ouvir Anos Dourados sinto uma doce melancolia de um tempo em que a vida era mais fácil e leve. E que tempo é esse? Para qualquer pessoa, obviamente, são os anos da juventude, em que a rigidez dos músculos e a flexibilidade das articulações combinam com a deliciosa possibilidade de ser irresponsável.

No caso de um porto-alegrense, como sou, seriam os anos em que comíamos xis de pé, em frente aos antigos trailers que serviam lanches madrugada afora. Porque Porto Alegre, nessa época, era também mais fácil e leve. Estou falando dos anos 80 até meados dos 90. A cidade crescia e se sofisticava, até que, em algum momento, começou a se deteriorar. Claro, esse é um processo lento, não ocorre de um ano para outro, vai acontecendo no gerúndio, aos poucos, mas inexoravelmente.

Sinto tristeza ao andar pelas ruas da Capital e ver as paredes pichadas, prédios abandonados, comércio fechado, placas de aluga-se ou vende-se em toda parte, gente debaixo das sinaleiras ostentando cartazes em que pedem esmolas, gente dormindo ao relento, barracas de lona armadas em calçadas ou praças públicas.

Nos tempos dos trailers de xis e cachorro-quente não era assim. Era tudo mais ameno, tudo menos sério. Anos dourados. Será que um dia voltarão?

DAVID COIMBRA

01 DE JUNHO DE 2021
LUÍS AUGUSTO FISCHER

Luft, 100

Aqui mesmo na Zero, em novembro de 1995 - bá, já um quarto de século atrás -, escrevi um necrológio para Celso Pedro Luft, cujo nascimento completou cem anos sexta-feira passada. Fui reler agora o que então escrevi, texto que depois recolhi num livrinho que estimo muito, Contra o Esquecimento. É disso que se trata: sou contra o esquecimento de figuras como ele.

Fui aluno dele na graduação em Letras, na UFRGS, ele um professor maduro e com obra incontornável, manso como a misericórdia (epa, saiu uma comparação meio nelsonrodrigueana), profundo, gentil, delicado, inteligente, sagaz. Era tudo isso e, coisa então mais ou menos rara, dava trela para aluno. Queria saber, indagava, com genuíno interesse, o que os alunos percebiam em determinada frase, num giro semântico ou sintático inesperado. Ouvia, arguia, pensava ao vivo, oferecia caminhos de interpretação. Tudo isso sobre uma base clássica de primeiro nível.

Não era raro ele entrar na aula, nós já no fim do curso, e dizer: "Ouvi essa frase agora no ônibus (ele não dirigia, sua esposa Lya Luft o levava muitas vezes de carona) e fiquei pensando; queria ver o que vocês acham". E escrevia no quadro, com aquela letra invejável. Era uma esquisitice, algo talvez fora do alcance dos manuais de gramática, e por isso mesmo ele queria entender: a língua para ele era coisa viva.

Depois, eu já professor no mesmo Instituto de Letras, tive a honra de conviver com ele na qualidade de colega. Contei a ele, na altura de 1990, da minha ideia de escrever um dicionário de palavras e expressões características da cidade - e ele se entusiasmou, me apoiou, colocou-se à disposição para qualquer coisa. (Bem ao contrário, dois ou três outros colegas meus, da geração dele ou menos, botavam areia: "Mas quem é ele para isso? E ele lá sabe fazer dicionário? Que petulância!" Não me diziam às claras, mas mandavam recado por alunos. Bá.)

Quando saiu finalmente meu Dicionário de Porto-alegrês, em 1999, Luft não estava mais por aqui, respirando o mesmo ar. Eu o teria procurado para pedir uma palavra de apoio - que ele daria, tenho certeza.

LUÍS AUGUSTO FISCHER

01 DE JUNHO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

BONS SINAIS NA CONSTRUÇÃO CIVIL

A construção civil é, sem dúvida, um dos setores mais importantes da economia. Tanto por sua participação relevante no PIB, incluindo a capacidade de irradiar reflexos na cadeia de insumos e serviços, quanto pelo fato de ser um segmento intensivo de mão de obra. Se vai bem, o que se espera é uma geração considerável de postos de trabalho. Por todas estas razões, é extremamente positivo que a atividade venha demonstrando sinais robustos de recuperação, que surgiram ainda a partir de meados do ano passado.

Reportagem publicada ontem em Zero Hora mostra que o momento positivo observado no país se repete no Estado e na Capital. Em um período de taxas altas de desocupação, o setor acumula no Rio Grande do Sul saldo positivo de 2.597 postos com carteira assinada de janeiro a abril, de acordo com os dados do Cadastro Geral de Empregados de Desempregados (Caged). No ano passado, no mesmo intervalo de quatro meses, foram 3.399 vagas destruídas. Em Porto Alegre, de acordo com o Sindicato da Indústria da Construção Civil no Rio Grande do Sul (Sinduscon-RS), a velocidade de vendas de abril foi a melhor do ano, e outros indicadores observados, vendas e lançamentos, estão em alta no primeiro quadrimestre, enquanto há redução de estoques.

Há, notadamente, duas explicações principais para este quadro. Por um lado, existe o efeito da taxa Selic em patamar historicamente baixo, o que vem estimulando investimentos que necessitem de um comprometimento de mais longo prazo por quem pretende adquirir um imóvel. Significa, de forma mais clara, um financiamento mais barato. De outro, observa-se desde o ano passado um grande número de reformas em residências. Com a necessidade de ficar mais em casa, aumentou a busca por melhorar as condições do lar. Peculiaridades da atividade e os protocolos de segurança adotados pelo setor para minimizar o risco de contaminação pela covid-19, da mesma forma, contribuem para que o segmento não tenha sofrido tantas interrupções, como comércio e serviços.

Há preocupações no horizonte, como a alta dos insumos, que impacta os custos da construção, com repasse inevitável aos preços dos imóveis. Mas, para o setor, um dos principais pontos de atenção é a taxa Selic, que tende a ser moderadamente elevada nos próximos meses. Mesmo assim, permanecerá em patamares baixos, se observado o histórico do juro básico da economia. Para que permaneça assim, ajudando também na confiança de quem tem planos de fazer um investimento considerável e que vai consumir boa parte da renda por muitos meses, é necessário que o governo federal mantenha a situação fiscal sob controle e avance em reformas estruturais que deem a firme percepção de uma trajetória saudável das contas do país.

 


01 DE JUNHO DE 2021
JUDICIÁRIO

TJ do RS anuncia retomada dos prazos dos processos físicos

O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ-RS) anunciou ontem a retomada da fluência dos prazos dos processos físicos a partir de 15 de junho. A pandemia e o ataque hacker provocaram a suspensão desses prazos por meses ao longo de 2020 e 2021. Por último, estavam suspensos desde fevereiro. No caso dos processos eletrônicos, voltaram a contar a partir do dia 17 de maio. Em relação às comarcas autorizadas a realizar atendimento ao público externo, os dados são atualizados constantemente no site do TJ-RS.

- Essas medidas foram adotadas após cuidadosas ações para garantir a segurança dos trabalhos após a retomada, a fim de evitar um vaivém de medidas suspendendo prazos e também na garantia da saúde das pessoas - disse o presidente do Conselho de Comunicação do TJ-RS, desembargador Antonio Vinicius Amaro da Silveira, em entrevista ao Gaúcha Atualidade.

Em 28 de abril, os sistemas da corte sofreram ataque hacker. Segundo o magistrado, essa retomada dos prazos e, consequentemente, a reabertura dos foros para atender aos operadores do Direito e partes, só está sendo possível após recuperação segura da informática.

Arquivos de processos que chegaram a ficar corrompidos foram recuperados, segundo Amaro da Silveira. O magistrado garante que nenhum documento foi perdido.

- Não houve evasão de dados. Isso significa que os dados processuais estão todos preservados, assim como os dados sigilosos, por consequência. Temos um sistema de garantia de segurança com nossos backups. E esse sistema garantiu a imunidade dos nossos dados. Portanto, estão preservados processos e informações neles contidas - explicou o desembargador.

Amaro da Silveira disse que não há como garantir, no entanto, que dados pessoais de servidores não tenham sido vazados. O que já se sabe é que documentos salvos em computadores de trabalho foram perdidos, já que foi preciso resetar as máquinas para voltar ao trabalho com segurança.

Digitalização

A Ordem dos Advogados do Brasil no Rio Grande do Sul (OAB- RS) chegou a ir ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em busca da reabertura dos foros e do TJ- RS para atendimento ao público. O presidente da entidade, Ricardo Breier, comemorou a retomada dos prazos dos processos físicos.

- Desde o ano passado, tivemos várias interrupções devido à pandemia. Este ano, também. Então, a vida das pessoas está paralisada nesses dois milhões de processos - avalia Breier.

Outro anúncio feito pelo TJ-RS foi a retomada da digitalização dos processos físicos. Além de uma força-tarefa própria, a Corte está concluindo a contratação de novas empresas para realizar o serviço. Dos 3,1 milhões de processos que tramitam em 1º e 2º graus, 64% são físicos e 36%, eletrônicos.

 EDUARDO MATOS


01 DE JUNHO DE 2021
NÍLSON SOUZA

Imorrível

Toda vez que o saudoso amigo Moacyr Scliar entrava na nossa sala de trabalho, na Redação de Zero Hora, um de nós alertava em voz alta:

- Chegou o imortal!

Ele, invariavelmente, respondia: - Sou imortal, mas não imorrível.

Em seguida, esclarecia que o neologismo não era de sua lavra, mas sim uma criação do pernambucano Evanildo Bechara logo depois de sua eleição para a Academia Brasileira de Letras, no ano 2000. Bechara inspirou-se no ex-ministro Antônio Rogério Magri, que anos antes provocara um debate nacional digno de redes sociais, se elas existissem naqueles tempos colloridos, ao dizer que "o Fundo de Garantia para o trabalhador sempre foi imexível".

Na ocasião, a palavra estranha suscitou debates acalorados entre os intelectuais, pois não estava dicionarizada. Mas acabou entrando para o vocabulário político nacional. E Bechara, filólogo respeitado, até saiu em defesa do ministro, lembrando que "a língua é o que os falantes fazem dela".

Pois agora o termo imorrível também volta à pauta da política nacional, juntamente com outros neologismos de péssimo gosto que dizem muito sobre quem os veste. Tanto um quanto os outros, pela evidente inconsistência, indicam exatamente o contrário do que apregoam. Como ensinou Baden Powell, o homem que diz sou não é. A língua também revela a capacidade mental do falante.

Bravatas à parte, seria horrível ser imorrível, como bem demonstra o emblemático romance do escritor José Saramago, As Intermitências da Morte. Em determinado país fictício, a Inominável resolve fazer greve. Ninguém mais morre. No princípio, euforia geral. Em pouco tempo, porém, as pessoas começam a perceber que os enfermos não melhoram nem seus sofrimentos e dores diminuem. Só não cessam. Vira uma agonia insuportável. Vale a leitura.

Por enquanto, por mais que a ciência tenha avançado, nenhum de nós está livre da extinção física. Somos todos morríveis, essa é que é a verdade. Até por isso, deveríamos aproveitar a nossa breve passagem pelo planeta para sermos mais humanitários, compreensivos e solidários uns com os outros. Quem se exalta como imorrível, principalmente no contexto de uma calamidade como a atual pandemia, é no mínimo insensível.

NÍLSON SOUZA

segunda-feira, 31 de maio de 2021


31 DE MAIO DE 2021
DAVID COIMBRA

Os leitores protestam

Ninguém jamais pôde me acusar de covardia gastronômica. Enfrento com denodo as novidades que me são apresentadas à mesa. Entranhas de animais, vegetais de aparência viscosa, podem vir. Não sinto medo. Quando no Exterior, não rejeito pratos típicos, por excêntricos que sejam. Uma vez, na Coreia do Sul, fomos a um restaurante que servia moluscos ainda vivos. O garçom lhes decepava um membro, mergulhava-o em um molho especial e nos dava para comer. Comi e até gostei, mas um dos nossos, um repórter carioca, levantou-se em revolta e, antes de sair marchando do lugar, protestou:

- Vocês queriam que um gigante arrancasse uma perna de vocês e desse para outros comerem?

Considerei a manifestação sensível, mas exagerada, e fui em frente no jantar. Hoje, confesso, daria razão ao repórter carioca. Não gosto de ver seres vivos sofrendo, com exceção de alguns políticos brasileiros. Também evito pratos exóticos em demasia, porque não foram apenas minhas articulações que envelheceram comigo, meu sistema digestivo tem a mesma idade. Assim, procuro respeitar certos limites.

Quer dizer: minha declaração de coragem gastronômica talvez tenha de se restringir aos tempos dourados da juventude, quando até sopa de barbatana de tubarão experimentei e só fraquejei duas vezes: uma, na Itália, provei um bife que me apresentaram num evento e achei o gosto pronunciado demais.

- O que é? - perguntei. - Carne de cavalo - respondeu o italiano.

Gaúcho que sou, fiquei em estado de choque. - Bárbaros! - gemi.

O outro vacilo deu-se precisamente em 1990, enquanto cobria a campanha eleitoral ao governo do Estado, como repórter de política. Estávamos em São Lourenço e o candidato Marchezan, pai do ex-prefeito, foi almoçar em um grande ginásio com os apoiadores. Lá, descobri que eles serviriam uma iguaria da culinária local, o "Caldo Lourenciano". Fui ver o que era e deparei com alguns homens mexendo, com um cabo de vassoura, um creme verde que borbulhava dentro de um tonel. Escrevi uma crônica a respeito, brincando com a aparência do caldo, classificando-o como temerário, e descrevi a valentia de Marchezan, que comeu, com grande empenho, pelo menos três pratos.

A intenção da crônica era ser apenas divertida, mas parte da população de São Lourenço se enfureceu comigo - eles amam aquele caldo. Hoje, sinto vontade de provar o Caldo Lourenciano, sobretudo nos dias de inverno, mas não sei se fui perdoado pelos lourencianos - os humanos, digo, não os caldos.

Ah, houve ainda a célebre manifestação que as vegetarianas fizeram no lançamento do meu livro Jogo de Damas. Na época, eu às vezes gozava das vegetarianas nas minhas crônicas. Na sessão de autógrafos, elas saltaram detrás de pilares e estantes de livros e estenderam faixas e cartazes protestando contra mim. Foi inesperado e engraçado. Quando estava se tornando cansativo para as pessoas que aguardavam dedicatórias na fila, o Zé Antônio Pinheiro Machado cuidou de levar as vegetarianas para outro local.

Relembro disso tudo porque leitores à mancheia reclamaram da minha crônica do fim de semana, em que falo do hambúrguer e do xis. Escrevi que o hambúrguer leva carne moída e os leitores, às dezenas, insistiram: "O xis também!" Até mesmo um especialista, o Zé Pedro Goulart, que escreveu livro a respeito do tema, reclamou com veemência.

Pois reconheço: errei. O xis pode levar carne moída. Mas essa não é sua essência. Sua essência é o pão redondo prensado, o queijo, a maionese e a capacidade de tolerar qualquer recheio, inclusive camarão, o que me parece um disparate.

E, na verdade, há algo ainda mais importante sobre o xis, ou sobre os comedores de xis, como se define o Zé Pedro Goulart. Acerca do que falarei na próxima crônica. Espere um pouquinho.

DAVID COIMBRA