domingo, 5 de setembro de 2021

04 DE SETEMBRO DE 2021
COM A PALAVRA

AGRONEGÓCIO É UMA CONQUISTA DO POVO GAÚCHO

ENTREVISTA | GEDEÃO PEREIRA, PRESIDENTE DA FARSUL, 72 ANOS

Está no comando da Federação da Agricultura do Estado desde dezembro de 2017: após a morte de Carlos Sperotto, assumiu para fechar o mandato (era vice). Depois, foi eleito em 2018, e agora busca a reeleição

Cinco décadas separam a participação de Gedeão Pereira naquele que foi o primeiro evento no Parque Assis Brasil, em Esteio, da 44ª Expointer, que começa neste sábado. Na passagem do tempo, o estudante virou veterinário, assumiu a propriedade do pai, a Estância Santa Maria, em Bagé, e chegou ao comando de uma das principais entidades do agronegócio, a Federação da Agricultura do RS (Farsul).

O ponto de conexão entre as duas exposições é o desafio. Em 1970, o obstáculo a ser vencido era a mudança da Exposição de Animais do Menino Deus, na Capital, para uma área nova, distante e sem a estrutura atual. Em 2021, a dificuldade é colocar a feira de pé em um cenário de pandemia, que impõe restrições a um dos grandes patrimônios: o público. Nesse intervalo, transformou-se também a atividade produtiva: o Brasil que deixou de ser importador e virou fornecedor global se refletiu e foi refletido em Esteio. Em conversa com ZH, Gedeão, 72 anos, avalia as mudanças do setor dentro e fora do parque.

QUAL É A PRIMEIRA EXPOINTER QUE TEM GUARDADA NA MEMÓRIA?

Assisti a algumas exposições, duas ou três, quando ainda eram realizadas no Menino Deus, em Porto Alegre. Mas me recordo da primeira lá no local da Expointer. Porque não tinha esse nome. Eram apenas alguns galpões de madeira de eucalipto e zinco em cima. E chovia muito, para variar, e os animais se misturavam com caminhões sendo carregados com cascalho para as pessoas poderem se deslocar. Era estudante de Medicina Veterinária, e a gente acompanhava as exposições. Aquele ambiente era desastroso. Imagina, caminhão de cascalho, chuva e os animais podendo transitar para serem julgados. Também naquela época, a exposição de máquinas praticamente não existia. Veio depois e foi crescendo, até o formato que é hoje. As críticas ao então secretário da Agricultura, Luciano Machado, foram muitas. Mas passou o tempo, e ele foi homenageado, antes do seu falecimento, pela Farsul, pelo ato de coragem que teve de levar a exposição lá para aquela região.

HAVIA UMA DIVISÃO ENTRE OS QUE APOSTARAM NA IDEIA E OS QUE NÃO QUERIAM A MUDANÇA PARA ESTEIO?

Me recordo muito das críticas no primeiro ano. Mas, a partir de então, e com a chegada da Expointer, que passou a ser uma exposição internacional de animais, foi se consolidando no imaginário do produtor, porque foi uma coisa que realmente agradou ao setor. Surgiram os galpões, as pistas de julgamento, foi se tornando motivo de orgulho para o povo gaúcho.

QUAIS FORAM OS PRINCIPAIS GANHOS NA TRANSIÇÃO?

Nos primórdios da exposição em Esteio, não se tinha uma ligação muito forte entre o progresso tecnológico, a genética que se via na Expointer e a realidade do nosso campo. A sensação que eu tinha, como guri que era na época, formado nos anos 1970, era a de que tínhamos um campo bem mais atrasado do que aquele que espelhávamos na feira. Levava-se para lá uma genética espetacular, do mundo inteiro e com seus diversos modismos. Teve a época das britânicas (raças de gado de corte), depois a das continentais, que apareceram e dominaram com o gado charolês, e depois novamente com as britânicas. Havia um divórcio entre aquilo que tu via nas pistas de Esteio e a realidade do campo. Creio que a Expointer colaborou muito com a transformação tecnológica no campo. Começou a agricultura do Brasil grande, porque nos anos 1970 o país era importador de alimentos, e a agricultura no Rio Grande do Sul não era o que é hoje. Era infinitamente menor. Em 1970, 1971, subi os campos de Júlio de Castilhos e Cruz Alta para aprender a fazer diagnóstico de gestação em vaca charolesa. Aquela região só tinha pecuária. Hoje, quase não existe mais pecuária. É soja, milho e trigo. Ou seja, houve um avanço na agricultura e, quando isso aconteceu, coincidiu com a presença das máquinas em Esteio e com o melhoramento tecnológico da pecuária. A pecuária sempre teve genética no Estado, mas não tinha alimentação. Hoje, tu tens uma qualidade de carne, na gôndola do supermercado, similar à qualquer das melhores carnes do mundo. Come-se em Porto Alegre a mesma qualidade de carne que tu podes comer em Buenos Aires. Pelo avanço tecnológico, pela redução da idade de abate, aumento da eficiência reprodutiva das fêmeas. E isso tudo é um conjunto desse processo que a Expointer veio refletindo ao longo desses últimos anos.

CONSIDERANDO O PESO DAS MÁQUINAS AGRÍCOLAS NOS NEGÓCIOS, O QUE É POSSÍVEL PROJETAR EM FATURAMENTO PARA ESTA EDIÇÃO, QUE NÃO CONTARÁ COM TODAS AS GRANDES FABRICANTES?

Já encontrei na Expointer gente que veio de Roraima para comprar máquinas. É verdade, gaúchos em Roraima, mas vêm para comprar máquina aqui. Realmente, é uma feira que extrapolou os limites do Estado. Quanto a Expointer pode faturar neste ano é a pergunta que também me faço: R$ 500 milhões? R$ 1 bilhão? Não deverá ser muito diferente, porque empresas como Massey Ferguson e New Holland não estarão. Mas o Claudio Bier (presidente do Sindicato das Indústrias de Máquinas e Implementos Agrícolas do RS) fez um grande trabalho, virão 85 empresas (das grandes, John Deere confirmou presença). O sistema financeiro estará presente. Banco do Brasil, Sicredi, Bradesco, Banrisul, BRDE, Badesul. Acho que o principal motivo pelo qual empresas não vêm é porque não têm o que entregar. O que acontece também com a indústria automobilística nesse mundo pós-covid.

A EXPOINTER NASCEU RURAL, MAS, EM ESTEIO, GANHOU A CONEXÃO COM O PÚBLICO URBANO.

A Expointer é feita de animais, máquinas agrícolas, cavalo crioulo, o Freio de Ouro, que é público de Gre-Nal, agricultura familiar e, fundamentalmente, 400 mil a 500 mil pessoas que passam na semana, fora os pequenos vendedores ambulantes, que ficam fora do parque e vão lá para faturar também. A presença de público é fundamental. Expointer sem público não daria nem para conceber. É uma belíssima oportunidade que nós, homens do campo, temos de conviver com a massa da população, que vai lá para ter uma ideia do que é o campo. Mostramos que a comida não nasce na gôndola do supermercado. Alguém tem de estar lá no campo produzindo para que tenhamos oferta constante. E o setor fez um sucesso muito grande na pandemia, porque nunca houve uma gôndola desabastecida nesse período em qualquer lugar do Brasil. E ainda tocamos produtos para mais de 170 países mundo afora. Ou seja, o agronegócio hoje é um sucesso e uma conquista, também, do povo gaúcho e do brasileiro.

COMO AVALIA A IMAGEM DO SETOR NO MERCADO EXTERNO E A DEMANDA CADA VEZ MAIOR POR GARANTIAS DE QUE A PRODUÇÃO É SUSTENTÁVEL? COMO FAZER OS BONS EXEMPLOS CHEGAREM MAIS DO QUE OS PROBLEMAS?

É uma questão difícil e controversa. Na minha opinião, existem algumas coincidências nefastas que levaram essa imagem negativa para o Exterior do agronegócio brasileiro. Uma delas, uma mudança de postura ideológica do governo brasileiro. Antes, havia muita guarida às ONGs, que tinham um assento e um financiamento muito forte no governo brasileiro, através do Ministério do Meio Ambiente. São as informações que nos chegam. Essas próprias ONGs começaram a difamar a imagem lá fora. Outra coincidência é que isso recrudesceu com o acordo da União Europeia com o Mercosul. Como tem a salvaguarda das questões ambientais, e a agricultura europeia não compete com a brasileira, a do Mercosul, o presidente Macron (Emmanuel Macron, presidente da França) disse que estávamos queimando o planeta por alguns incêndios na Amazônia. Que não é diferente dos incêndios na Bolívia, nos EUA, não me recordo se não teve na Europa, em que morreu gente. Por uma questão de seca, clima, enfim. Desafortunadamente, para nós, tentaram vender uma imagem negativa da agricultura brasileira, o que não é realidade. É bem diferente. Temos de separar um pouco a Amazônia da realidade brasileira. E não é a Amazônia legal, que é maior do que o próprio bioma. Via de regra, o desrespeito de que se tem notícia, porque não vivemos lá, está muito pelo problema de não ter um CPF que seja responsável por dita gleba que possa estar sendo incendiada. E as devastações da floresta parecem que são realmente ilegais, e madeira da floresta é tirada ilegalmente com fins de mercado. Por que esse viés político demagógico não afetou o nosso mercado? Porque incêndios há em outros lugares do mundo e ninguém dá o peso que dá aos incêndios da Amazônia. Acho que a Amazônia tenha de ser cuidada, preservada, sim. Ainda que exista tecnologia no mundo inteiro para um crescimento vertical (da produção) para consumo da humanidade que se prevê chegará a 9 bilhões de pessoas em 2050, depois de amanhã. Mas estamos atravessando uma experiência absolutamente nova que se chama "poder econômico da Ásia", basicamente da China. Um país com 1,4 bilhão de pessoas que disse que estaria colocando 110 mil pessoas na classe média por dia. Então, aparentemente, não há o que chegue. Tanto é que as commodities, nesse processo, tiveram uma valorização impensável por nós há um ano e meio.

ESTRATÉGIAS COMERCIAIS E POLÍTICAS À PARTE, NÃO É MAIS FÁCIL MOSTRAR BONS EXEMPLOS DO QUE INVESTIR ENERGIA NESSA DISPUTA?

Em todas as oportunidades lá fora, e acompanhei algumas, na China, no Japão, na Índia, a ministra da Agricultura tem colocado o que é a agricultura brasileira, as qualidades em termos de preservacionismo e de cuidados com o ambiente. Temos um código florestal que talvez seja o mais restritivo. E se pegarmos os números em todos os fóruns internacionais, 60% do território nacional é floresta amazônica. Como cuidar de toda a Amazônia em um país de tamanho continental? Acho que nem todo o Exército consegue, não é tarefa fácil. Usamos 40% do nosso território, e, assim mesmo, cheio de restrições ambientais. Se colocarmos em emissões do CO2, muito menos do que Europa, EUA, China e até o próprio Japão. Bom, temos 60% do território preservado, cuidamos das matas ciliares, das nossas águas - vou botar entre parênteses o setor urbano. Ninguém olha a sua parte.

VOLTANDO À QUESTÃO DA IMAGEM. A MINISTRA TEREZA CRISTINA TEM UM PAPEL IMPORTANTE, MAS QUE POR VEZES SE DISSOLVE EM DECLARAÇÕES POLÊMICAS DO GOVERNO. QUANDO SE CRITICA UMA COBRANÇA, PORQUE PODE ESTAR CONTAMINADA POR INTERESSES, PARECE QUE SE ESTÁ TENTANDO DESQUALIFICÁ-LA. SERÁ QUE A POSTURA NÃO TEM DE SER DO TIPO: PODE COBRAR, O SETOR ESTÁ FAZENDO O TEMA DE CASA?

Nós, da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, CNA, temos um programa, o Agro Mais, que é justamente para tentar desmitificar todos esses processos. Sabemos o que 98% - tem de deixar uma parcela para os irresponsáveis, não existe nada perfeito - dos produtores rurais fazem e a qualidade do que estão fazendo. Temos uma preocupação de levar a seguinte imagem ao produtor: nós dependemos visceralmente do mercado internacional, porque produzimos uma montanha de grãos e carnes. O que é o item número 1? Qualidade. O Brasil tem qualidade crescente de produto: física, química, em todos os processos que levam aquele grão final ou aquela carne ao porto, dentro das normas e regulamentações internacionais. E uma preocupação crescente de levar essa mensagem porque olha bem o que aconteceu com a Carne Fraca (Operação Carne Fraca, em 2017). Quanto nos custou? É um exemplo bem recente. O Blairo Maggi era ministro da Agricultura quando teve de desfazer todo aquele imbróglio. Essa é uma imagem, entre nós produtores, de que temos de seguir produzindo cada vez com mais qualidade. As normas são mais restritivas e segurança alimentar é fundamental. Temos de ter muito cuidado, utilizar os químicos com as normas de bula, ter qualidade no armazenamento, no transporte. Estar preocupados com as normas e trazer um produto de qualidade, porque quando fazemos isso, estamos cumprindo com o consumidor interno e externo. E não é sobrepor um ao outro. Estamos habilitados a estar sempre em qualquer mercado. A qualidade que se encontra nos mercados daqui se encontra em Paris, Roma, Moscou, em Xangai ou Pequim.

DEPOIS DE UMA COLHEITA RECORDE NA PRODUÇÃO DE SOJA, O QUE É POSSÍVEL PROJETAR PARA A PRÓXIMA SAFRA DE VERÃO DO RS?

Dentro de uma normalidade, podemos até superar a safra anterior. Porque apesar do aumento de custos, subiu fertilizante, trator, químico, tudo, o produtor está muito estimulado também pelos preços que está vendendo. O arroz há um ano, um ano e meio era R$ 38, R$ 40, hoje está na volta dos R$ 80, R$ 82. A soja que era R$ 90 veio para R$ 165, R$ 170, chegou a R$ 185. O boi também subiu, talvez não na mesma proporção, mas de R$ 8, R$ 9 para R$ 12. O milho na casa dos R$ 100. Então, o principal estímulo do produtor é preço. Mas temos uma grande preocupação. Há dois pilares da nossa economia, que são muito importantes, suinocultura e avicultura, que bateram no teto, por falta de milho. E nos últimos 10 anos tanto Santa Catarina quanto Rio Grande do Sul pararam de crescer. O Paraná continuou crescendo porque a logística permite que traga do Paraguai e do Mato Grosso e tem milho safrinha. No Estado, não temos essa possibilidade por questões climáticas. Estamos antevendo a vontade de grandes empresas fazerem investimentos no RS, para seguirem aumentando tanto a avicultura quanto a suinocultura, porque estão sendo demandados pelos mercados asiáticos. E, nos Estados do Sul, há uma condição que não tem em Goiás, Mato Grosso, que é o material humano. Mas falta milho. Nos aliamos à Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) e à Embrapa e estamos trabalhando com o projeto Duas Safras. Queremos levar ao produtor a ideia de grãos alternativos no inverno. O RS pode fazer duas safras. Porque faz uma grande safra de 6 milhões de hectares no verão e depois faz 1 milhão, 1,2 milhão de hectares de trigo (no inverno), o resto é cobertura vegetal. Estamos levando a ideia de centeio, triticale, trigo ração para que as pessoas se entusiasmem mais a investirem em culturas de inverno. Estamos juntando a ABPA, que trata com a indústria, a Embrapa, que trata da tecnologia, e a Farsul que tem a permeabilidade em todo o Estado. Alicerçado em tecnologia e mercado. Uma vez implementado, pode mexer com 7% do PIB do RS. Estamos coletando as diversidades regionais para, na hora de implantarmos o programa, sairmos direcionados, com pacotes tecnológicos de acordo com as necessidades.

ESTA SERÁ A PRIMEIRA EXPOINTER COM O ESTADO LIVRE DE AFTOSA SEM VACINAÇÃO. MAS COMO LIDAR COM A AMEAÇA DA PESTE SUÍNA AFRICANA?

A questão da aftosa hoje preocupa menos do que a peste suína africana, que já chegou à América. É algo que nos deixa de cabelo em pé. Andou na Europa, na China e chegou na República Dominicana. Sobre a aftosa, tiramos a vacina e, em um curto prazo, não tem diferença para a pecuária de corte, mas é decisiva principalmente à suinocultora. Poderíamos chegar com carne com ossos à China, que é um grande mercado. A ministra Tereza Cristina já estaria trabalhando no mercado do Japão para a carne bovina. É um progresso que vai se desenrolar ao longo do tempo, porque essas questões não acontecem da noite para o dia. As posições internacionais são algo que se conquista.

QUAL O PRINCIPAL DESAFIO DO SETOR ATUALMENTE? O FATO DO SETOR SER ALINHADO AO ATUAL GOVERNO AJUDA NO ANDAMENTO DE REIVINDICAÇÕES?

As grandes questões do agro hoje no Rio Grande do Sul são as ambientais. Na federação, gastamos quase metade da nossa energia na solução dos problemas ambientais. Não estamos conseguindo desenvolver a irrigação, porque precisamos fazer a preservação de água. Não existe irrigação sem água. E água nós captamos da chuva. No RS chove, normalmente, 1,7 mil mm, 1,8 mil mm por ano. No entanto, não se consegue transformar essa água em um bem econômico, em razão de questões ambientais, discussões jurídicas inócuas, ineficientes, que levam ao atraso. Na Metade Norte, tranca porque tem de ter intervenção em Área de Preservação Permanente (APP). Nossa proposta é fazer um barramento na APP e multiplicá-la por duas, uma em cada volta do açude, mantém o corredor ecológico. Na Metade Sul, a discussão é outra. Para fazer um reservatório, é necessário um licenciamento ambiental e, para isso, 20% de reserva legal, em razão de liminar. Vinte por cento de reserva legal em um Estado como o nosso, que está antropizado (teve alterações a partir da ação do homem) há 300 anos, o ambiente que está aí não é o original. É diferente de outras regiões do país, onde a agricultura chegou depois. Que produtor pode abrir mão de 20% da propriedade a título de nada? Se tivesse ainda pagamento por questões ambientais... E o Código Florestal previu isso. É uma questão de interpretação jurídica.


GISELE LOEBLEIN


04 DE SETEMBRO DE 2021
REFLEXÃO

LEVEZA COM A IMPERMANÊNCIA

AINDA CHEIA DE LUCIDEZ E SAÚDE, MINHA VIZINHA DE 77 ANOS, A SILVINHA, ENCARA A FINITUDE COM TANTA NATURALIDADE, QUE SURPREENDE

Uma vizinha fora do comum, que se tornou amiga há alguns anos, chega ao meu apartamento muito indignada. Revisando os papéis da própria cremação, que ela pagou há anos, Silvinha descobriu que o corpo é levado para outra cidade. Estava decidida a partir pra briga com a empresa, entendendo que o velório todo seria longe das pessoas queridas que ela quer "ver" no funeral. Expliquei que a cerimônia de despedida deve ser mesmo em Porto Alegre, e a cremação em si pode acontecer em outro local. Assim, consegui tranquilizá-la.

Esta mulher de 77 anos, cheia de lucidez e saúde, ainda pode viver muito tempo, mas encara a finitude com tanta naturalidade que surpreende. Não foi ao acaso encontrá-la, eu que simplesmente caía no desespero só de falar em morte. Nossas conversas me ajudaram muito a internalizar o conceito de que a vida é um ciclo, é pura impermanência. Mas ela conta que nem sempre foi assim, foram anos de investimento emocional e espiritual.

Gosto de dizer que minha vizinha é um culto ecumênico onde cabem várias crenças, todas praticadas com a mesma fé. Católica, costuma ir à missa aos domingos sempre que pode, não com o peso de um compromisso inadiável. Diariamente, faz parte de um grupo de oração, e, aos sábados, frequenta um grupo de budismo. Já fez peregrinações, pratica meditação e o oriental Tai Chi Chuan e é voluntária numa instituição que cuida de crianças.

No testamento, determinou o que quer que façam dos seus bens. Não quer é dar incômodo pra ninguém e, para isso, a documentação está em dia. Os telefones do gerente, do advogado, de parentes próximos e da funerária estão à vista. Por enquanto, vai desfrutando um dia de cada vez, quase sempre com o astral lá em cima. Se a tristeza bate, se recolhe um tempo e, depois, volta faceira.

Não é sobre as milhares de mortes que a maior parte de nós tem acumulado e chorado. Mas, nestes tempos de perdas dolorosas, soa como um alento esta serenidade. Quando terminamos o papo, Silvinha saiu corredor afora cantando o clássico do Hermes Aquino, aliás, uma letra que ela usou na juventude para terminar um namoro. "Eu sou nuvem passageira, que com o vento se vai... Você não vê que a vida corre contra o tempo? Sou um castelo de areia na beira do mar". Somos, Silvinha, somos! E é esta consciência que nos torna melhores, e bem mais leves. 

DANIELA SALLET (*) 

04 DE SETEMBRO DE 2021
J.J. CAMARGO
QUE A CIÊNCIA NOS PERDOE

"Se a aparência e a essência das coisas coincidissem, a ciência seria desnecessária." (Karl Marx)

Claro que tendo sido sacudidos por comportamentos bizarros, com tamanha intensidade, era previsível que adotássemos uma atitude reativa que somasse o espanto do inusitado com a reconhecida capacidade de indignação do ser humano, principalmente quando amedrontado. O que a retrospectiva desses 18 meses de desvario ressaltará para a posteridade como mais chocante será o sentimento de que alguém, se sentindo dono de uma determinada opinião, se sentisse livre para usá-la com o descompromisso de não precisar sustentá-la e sem medir as consequências.

E então, servindo-se da desorientação generalizada e beneficiados pela liberdade de expressão (um direito convenientemente mal definido), pareceu natural que a lata do lixo da internet fosse transformada em reservatório técnico capaz de abastecer de informações pretensamente confiáveis desde o palpiteiro inofensivo até o radical paranoico e perigoso.

E o dano foi maior porque a falta de cultura geral induz a acreditar que tudo o que está escrito em algum lugar deve ter, ao menos, um fundo de verdade.

Então, inundados de caos, nos sentimos cercados de absurdos teóricos ungidos da aparência de verdade absoluta, funcionando como azeite e vinagre para temperar a salada de argumentos ridículos a serviço de pretensões delirantes.

Quando tudo já parecia complicado demais, ainda tivemos que filtrar o viés do interesse econômico, reconhecido como mais eficiente triturador da imparcialidade.

E então a espiral de loucura extrapolou, quando um pessoal com pálido verniz acadêmico se sentiu liberado para emitir pareceres científicos e, empolgados com a convocação da mídia e deslumbrados com a identidade reluzindo no rodapé do monitor, foram transformados agudamente em oráculos do conhecimento e soltaram o verbo, confiando, com justiça, que a imensidão dos ouvintes, do outro lado da telinha, sabia ainda menos.

A primeira e triste percepção foi de uma formação universitária deficiente, a ponto de, na segunda frase, deixar evidente que a curiosidade é importante, mas não suficiente para "ler" um artigo científico.

A crise sanitária, com a mortandade andando a galope, soprou as brasas da afoiteza, um dos obstáculos fatais para ciência mais elementar. A principal imposição da pandemia foi submeter a ciência à urgência, sendo essa a antítese da metodologia básica que exige coleta de dados, critérios de elegibilidade, pareamento de grupos, duplo cego, comparação de resultados, repetição em outro ambiente, espírito científico como sinônimo de isenção, além de um atributo que não se sabia tão raro: honestidade intelectual.

Como explicar a alguém que nunca trilhou esses caminhos que o principal objetivo da ciência é fugir da insegurança da probabilidade e da insensatez da paixão?

Se você não tinha noção desses fundamentos, não se puna exageradamente, apenas trate de proteger a sua autoestima e, em nome dela, cale-se.

Nem tudo é culpa sua. Mas nada justifica a sua adesão gratuita a um de dois grupelhos lamentáveis: o dos incautos, que por desinformação se associa ao clube dos inocentes úteis, ou o dos canalhas, que defendem o que não creem por interesses escusos.

J.J. CAMARGO

04 DE SETEMBRO DE 2021
DAVID COIMBRA

Tudo que é muito doce é perigoso

Sei exatamente o ano em que andava aficionado por Martini Bianco: 1983. Foi o ano em que o Grêmio ganhou a Libertadores e, em dezembro, o Mundial Interclubes. Ocorre que, no dia da batalha de La Plata, contra o Estudiantes, eu, o Sérgio Lüdtke e o Rocha fomos de carro para Santa Cruz.

Agora, pesquisando, descobri que dia foi aquele: 8 de julho, uma sexta-feira. Ao chegarmos a Santa Cruz, fomos assistir ao jogo em um bar que ficava em um posto de gasolina. Não sei por que fomos a Santa Cruz, lembro de poucas coisas daquele final de semana. Minha recordação mais sólida é de uma garrafa de Martini Bianco que, por algum motivo, foi posta entre as minhas mãos, no banco detrás do carro. Fui bebendo aquele Martini no gargalo mesmo e, quando cheguei a Santa Cruz, estava mareado.

Mas o exagero não foi suficiente para me fazer sentir repugnância por Martini Bianco, como aconteceu momentaneamente com os vinhos e os licores em episódios que já narrei. Apenas passei a ter mais cuidados com bebidas docinhas. Tudo que é muito doce é perigoso, essa é a verdade da vida.

Constate você, com essas histórias que venho contando nos últimos dias, que posso me tornar um homem de excessos. Ou podia, agora tento ser mais contido. Foram-se a juventude e a ousadia.

Quanto aos martínis, passei a preferir os secos. O dry martíni. É que gosto de filmes e livros de detetive, e os detetives americanos adoram dry martíni. Com azeitonas, evidentemente, o dry martíni, sem azeitona, perde sua alma. Então, sorvendo um dry martíni com um ar reflexivo, sinto-me Phillip Marlowe, e é bom se sentir Phillip Marlowe.

Marlowe também gostava de uísque de centeio, o rye whiskey. Ou de bourbon, como o Jack Daniel?s. Uma vez, estava na Escócia, visitando uma fábrica de uísque. O cicerone perguntou se eu tinha algum uísque em casa e respondi que sim.

- Qual? - ele quis saber. Eu: - Jack Daniel's. Ele deu um tapa na própria testa:

- Não! Não! Não! Jack Daniel?s não é uísque!

A seguir, passou 10 minutos me explicando a diferença entre bourbon e uísque. Ouvi com toda a atenção e hoje já não sei mais nada. Em todo caso, aprecio bourbons. Como Marlowe. Se você não conhece Marlowe, vou reproduzir aqui um texto de A Dama do Lago, em que ele se apresenta assim:

"Sou um detetive particular e já tirei minha licença há um certo tempo. Sou um lobo solitário, solteiro, chegando à meia-idade, e não sou rico. Já fui mais de uma vez para a cadeia e não atuo em casos de divórcio. Gosto de bebida, de mulheres, de xadrez e de poucas coisas mais."

Philip Marlowe é o cara, como diria Obama.

Mas estamos falando de drinques. Para acompanhar uma refeição, haverá de ser cerveja ou vinho, é claro. Tenho amigos que sabem muito de vinho. Eu os invejo. Gostaria de sorver um gole de tinto e, em seguida, fazer uma avaliação usando palavras como: encorpado, herbáceo, frutado, aveludado, amadeirado...

Mas não cheguei a esse nível. Sou um bebedor vulgar. Cometo infrações como fazer caipirinha com vodca, por exemplo. Aliás, é o que vou fazer agora mesmo. Vou preparar uma caipira e reler algum clássico do Philip Marlowe. Bom fim de semana.

DAVID COIMBRA 


04 DE SETEMBRO DE 2021~
FLÁVIO TAVARES

PINTANDO O 7

Neste 2021, se depender da vontade e da ação do presidente da República, a data da Independência será, literalmente, um dia de pintar o sete. A velha expressão "pintando o sete", significando criar confusão e alvoroço (ou "aprontar" na gíria atual), se materializa agora na concentração que Jair Bolsonaro comandará em São Paulo, dia 7, não muito distante do Riacho Ipiranga.

Ali, às margens do arroio, ouviu-se o grito que passou à História como "Independência ou Morte", mas que deve ter sido "Independência ou Sorte". Sim, pois só com sorte sobrevivemos ao desmando e reboliço dos governantes.

O presidente sairá de Brasília para comandar na Pauliceia uma concentração popular no estilo daquelas que a Alemanha nazista alardeava nos anos 1930-40 ou que o ditador da Coreia do Norte exibe no século 21. O único fim é a propaganda, o "culto à personalidade" do rei absolutista com poder total e único. Dias atrás, Porto Alegre assistiu à exibição de força em que o presidente puxou milhares de motociclistas pela zona sul, como se o estrondo dos motores substituísse as inexistentes ações concretas de governo.

Por isto, nada tendo a festejar neste 7 de Setembro, prefiro esquecer o dia Da Independência e recordar uma data alheia - o início do ano novo na tradição judaica.

No Rosh Hashaná ("Dia do Julgamento" em hebraico) termina o ano de 5781 e começa 5782. É o início de um período de meditação de 10 dias sobre a doçura do viver, simbolizado no rito de alimentar-se com mel.

Há muito o Brasil se arrasta sem doçura, substituindo o debate pelo preconceito e fantasiando violência como "salvação". O que dizer quando o presidente proclama ser mais importante "comprar um fuzil do que feijão" ou quando insiste em que "a guerra leva à paz", como frisou na homenagem aos atletas militares na Olimpíada?

Não falo sequer do "gabinete do ódio" instalado no próprio Palácio do Planalto em Brasília. Nenhum apelo à violência soluciona problemas nem faz chover para aumentar as represas das hidrelétricas e evitar futuros apagões.

Tampouco impede o avanço do fantasma da inflação, que gateia como criança nas compras do dia a dia.

A responsabilidade de governar obriga (mais do que tudo) a ações concretas na crise climática, obra humana que ameaça a vida no planeta. Seguimos inertes, porém, desafiando o futuro ao incentivar a exploração de carvão mineral e petróleo.

Hoje, pintar o sete é colorir o futuro, jamais lambuzar-se de óleo ou carvão.

FLÁVIO TAVARES

A INSPIRAÇÃO DO PACTO ALEGRE

O futuro de Porto Alegre não diz respeito apenas aos que vivem na cidade. Como núcleo administrativo e principal centro urbano, simboliza em boa parte o que é o Rio Grande do Sul. Com seus encantos, mazelas e multiplicidade étnica, molda e sintetiza a percepção do restante do país e do mundo em relação ao Estado. Fazer da Capital um lugar melhor para se viver, trabalhar e empreender, portanto, é um propósito que, se alcançado no nível planejado, será benéfico para toda a sociedade gaúcha.

A tarefa de alavancar Porto Alegre para um novo patamar de cidade capaz de proporcionar mais bem-estar, progresso e oportunidades esteve no âmago das discussões promovidas pelo Pacto Alegre durante a semana que passou e que culminaram na aprovação de sete projetos destinados a nortear os passos para transformar a Capital nos próximos anos. Aposta na educação, revitalização do Centro Histórico, incentivo à inovação, fomento a startups, ampliação da cultura digital e facilitação do empreendedorismo são algumas das frentes que serão prioridade daqui em diante. O Pacto Alegre é uma iniciativa que une instituições de ensino, poder público, entidades privadas e sociedade civil, com o propósito de impulsionar a qualidade de vida na cidade, em suas mais diversas dimensões. Do econômico ao social.

A escolha dos projetos é mais um passo nessa união de esforços em busca de um objetivo comum. Enquanto o país vive dias tensos e de discórdia, o Pacto Alegre se torna um exemplo inspirador de como é possível construir consensos e alinhamentos, com a convergência de atores de diferentes áreas. Trata-se de um fórum com o propósito e o potencial de mudar mentalidades, introjetando a certeza de que é possível forjar uma Porto Alegre mais acolhedora e onde sonhos profissionais possam ser realizados, contribuindo para o desenvolvimento de todo o Rio Grande do Sul. E, por que não, servir de modelo para que outros municípios gaúchos procurem, de acordo com suas características, prospectar novas formas de prosperar abertas pela era do conhecimento e da tecnologia.

A reinvenção de Porto Alegre, sintonizando a cidade à economia do futuro e tornando-a mais agradável para viver e inclusiva, tem ainda o condão de ajudar a estancar o êxodo de cérebros para centros maiores. Em meio a tantas dores, um dos legados da pandemia foi mostrar que o trabalho, em certas atividades, poderá ser cada vez mais exercido a distância. Reter talentos e tornar a Capital o epicentro fervilhante de novas oportunidades, por meio do surgimento de um ambiente mais convidativo para o empreendedorismo e a inovação, não só será salutar para a economia como fará bem à autoestima de todos os gaúchos.


04 DE SETEMBRO DE 2021
RECH

Os patos do Parcão

Pois a prefeitura de Porto Alegre decidiu retirar os patos e gansos do Parque Moinhos de Vento, que por gerações fizeram a alegria de crianças que viraram adultos. Não que a decisão da prefeitura esteja errada. Ela é só uma contingência da deseducação e do fermento corrosivo que destrói, pouco a pouco, a sociedade brasileira. "Patos não deveriam estar em parques abertos, sujeitos a ações de vândalos e outros animais", explicou um funcionário da prefeitura.

Em Porto Alegre e no Brasil, faz sentido. Mas no mundo onde se respeitam bens públicos, o que inclui patos e cisnes alegrando parques praças, a justificativa seria recebida com espanto. Onde mais se tolera que donos de cachorros soltem seus animais para atacar aves ou que patos sejam surrupiados? Sim, no Brasil furtam-se até patos de parques em áreas nobres, sem contar tampas de bueiros e fios da iluminação pública.

Olhando em retrospecto, não adianta tentar responsabilizar ideologias ou um governante ou outro pelo descalabro. Na China ou na Holanda ultraliberal, quem quer que se adone de um busto em praça pública para derretê-lo e vender ou comprar o metal vira um pária. No Brasil, não. Somos condescendentes com os atentados às coisas públicas desde sempre. Há cinco anos, o Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado lançou-se a um meritório programa de restauração de monumentos na Redenção. Boa parte havia sido depredada, pichada ou furtada meses depois.

O símbolo máximo dessa desfaçatez talvez tenha sido o furto da taça Jules Rimet. Maior conquista do esporte nacional, a taça veio em definitivo para o Brasil com o tricampeonato mundial de futebol, em 1970. Podia ser hoje objeto de culto por brasileiros e turistas estrangeiros. Com a conivência de um funcionário da CBF, a taça foi furtada e seus 3,8 quilos de ouro, derretidos. Nunca mais pôde ser admirada, como o tesouro da humanidade incinerado pelo descaso do incêndio no Museu Nacional.

Não há como se construir uma nação sem consciência social, que começa pela educação e pela responsabilização individual, não importa de quem seja. Governantes podem e devem dar o exemplo. É verdade que a roubalheira da Lava-Jato, graças a uma eficiente estratégia de marketing e à competência de advogados, virou uma injustiça malvada contra pobres políticos perseguidos. Também é verdade que, para muitos, rachadinha não é crime, desvios na saúde são questão de oportunidade e a promiscuidade de políticos com milicianos não é tão grave assim.

Então que, ao invés de copiar os maus exemplos, a maioria honesta e decente ponha as coisas nos seus devidos lugares, como o fez nesta semana o porteiro de um prédio que estava sendo pichado em Porto Alegre. É só uma pichação, tentou protestar ao vigilante a dupla ao ser flagrada. O porteiro anônimo que chamou a polícia é o Brasil que pode dar certo.

MARCELO RECH

sexta-feira, 3 de setembro de 2021


03 DE SETEMBRO DE 2021
DAVID COIMBRA

Uma questão de sofisticação

Fui alvo de críticas acerbas por ter confessado minha súbita preferência por licores. Que não é bebida de homem, que é coisa de velho, blá-blá-blá. Pois bem. Para enfurecer ainda mais os detratores, conto agora que essa súbita preferência nem é súbita. Já tive outras fases licorosas na longa e tortuosa estrada da vida.

Uma época, minha mãe produzia, com suas próprias mãos santas, um licor de ovos delicioso. Ela colocava em garrafinhas de refrigerante, arrolhava e me dava semanalmente. Por algum tempo, me repimpei de licor de ovos. Depois, enjoei. Era muita doçura na minha vida.

Está certo, o licor é uma pós-bebida, você não vai passar a noite bebendo Amarula, pelo amor de Deus.

Mas acidentes acontecem e o licor pode acabar se tornando protagonista em vez do coadjuvante de luxo que ele é.

Certa feita, quando trabalhava em Novo Hamburgo, saí com a turma do jornal para um bar muito agradável que lá havia. Não lembro o nome do lugar, mas tinha mesas na rua e luzinhas alegres sobre nossas cabeças, além de cerveja geladíssima. Ocorre que Novo Hamburgo é uma cidade de origem germânica, trabalhadora, que acorda cedo. Assim, os bares cedo fecham. O nosso fechou, só que nós continuamos com vontade de confraternizar. A saída foi continuar a noite na casa de um dos editores, que não estava preparado para convescotes, as cervejas que ele guardava na geladeira logo foram consumidas e o que sobrou foi um licor chamado "Pingo de Ouro". Olhei para aquela garrafa e bradei:

- Pingo de Ouro! É disso que preciso!

E comecei a ingerir copos e mais copos de Pingo de Ouro, tudo muito animado na hora, mas, na manhã seguinte... Lembro que agarrava minha cabeça com as duas mãos, sentia o cérebro pulsando dentro da caixa craniana e gemia:

- Por que fiz isso comigo mesmo? Não sou recalcado nem nada...

Licores podem ser perigosos, portanto.

Na Suíça, descobri outro dia, eles atentam para a periculosidade das bebidas - depois dos 16 anos os jovens podem consumir fermentados, mas os destilados só são permitidos após os 18. Esse interdito aos destilados faz sentido. A geração mais brilhante da música brasileira foi devastada pelo uísque. Era o que bebiam Chico Buarque, Tom Jobim, Vinícius de Moraes e outros gigantes daquela turma de Ipanema dos anos 70 e 80. Mais tarde, Chico Buarque anunciou que havia se tornado um bebedor de cervejas e vinhos, muito menos agressivos do que o uísque. Questão de sobrevivência.

Por todas essas razões, continuarei fiel aos chopes cremosos, mas é bem possível que você me veja sorvendo uma tacinha mínima de Cointreau depois do jantar. Pode me criticar. Não me importo. Finesse, meu amigo, você não encontrará nas gôndolas do súper.

DAVID COIMBRA

03 DE SETEMBRO DE 2021
CAPA

O início do fim

Primeiro volume da última parte de "La Casa de Papel" estreia hoje no streaming

O final do atraco começou. A Netflix lança hoje a primeira leva de episódios da quinta e última parte de La Casa de Papel, série espanhola que se tornou um fenômeno cultural mundo afora - popularizando a máscara de Salvador Dalí, o macacão vermelho, as incontáveis frases de efeito proferidas pelos personagens e a clássica música italiana antifascista Bella Ciao - e que até ajudou com geografia, dando nomes de cidades aos personagens.

Boa parte do mérito deste sucesso é de Álex Pina, a mente por trás da produção que conseguiu inserir elementos que acabaram tornando-a memorável, independentemente da sua qualidade narrativa. Porém, a sua popularização mundial se deve, principalmente, à força do streaming de levar a todos os cantos do planeta um programa que dificilmente deixaria a sua terra natal por meios convencionais.

Produzida originalmente para o canal espanhol Antena 3 como uma minissérie de 15 episódios, a atração teve os seus direitos adquiridos pela Netflix, que editou os capítulos e transformou-os em 22. O sucesso foi instantâneo. A partir disso, a plataforma passou a produzir as demais fases do seriado, aumentando significativamente o seu orçamento e transformando-o em um produto altamente rentável fora das telas, com os mais diversos licenciamentos, de camisetas a material escolar.

Para render novas histórias, o assalto à Casa da Moeda da Espanha, que deixou os seus participantes milionários, virou outro: ao Banco Central da Espanha. Aumentou, assim, a escala e, com isso, os planos do Professor precisaram ficar ainda mais mirabolantes. Consequentemente, os dramas e conflitos dos personagens envolvidos também se intensificaram, principalmente após o final da quarta parte, quando tudo parecia perdido. Os novos episódios partem daí.

Explosões

O encerramento da Parte 4 de La Casa de Papel, em abril do ano passado, mostrou que o assalto ao Banco Central não estava nada bem, uma vez que os planos do Professor estavam enfrentando dificuldades. Para completar, bem no finalzinho, o mentor de tudo ainda é capturado pela implacável inspetora Alicia Sierra (Najwa Nimri), que, afastada da polícia, quer limpar o seu nome.

ZH teve acesso a dois dos cinco episódios que compõem o Volume 1 - serão dois volumes - da Parte 5 de La Casa de Papel. Neles, é possível ver que, ao contrário de como o Professor lidou com Raquel Murillo (Itziar Ituño), puxando-a para o lado dos "atracadores" e transformando-a em Lisboa, Sierra não pretende - pelo menos não por enquanto - facilitar as coisas para os assaltantes.

A partir disso, a série entrega, provavelmente, o seu momento mais delicado em relação aos protagonistas, mostrando que a arquitetura de todo o plano está desabando e que ninguém está a salvo. Quando a inteligência acaba, resta apelar para a bala. Com isso, as cenas de ação ganham destaque nos primeiros capítulos. Fica nítido aí o investimento pesado para gerar momentos de altíssima qualidade na série, trazendo tensão e um ritmo frenético para o programa.

As sequências de tiroteio não devem nada para blockbusters de Hollywood. Mas a série não para por aí, entregando ainda explosões bem realizadas e colocando em cena armas curiosas, como um lança-chamas e até mesmo uma empilhadeira equipada com escudos e uma metralhadora. Nos poucos conflitos físicos nos dois primeiros episódios, a coreografia dos atores e dublês também está bem satisfatória e ajuda na imersão. Tudo bem filmado e visualmente impecável.

Charme

Porém, mesmo investindo pesado nos momentos de ação, a trama de La Casa de Papel gira em torno dos dramas dos personagens. Desde sua primeira temporada, a série se utiliza dos rocambolescos planos do Professor como pano de fundo para colocar em evidência os sentimentos e relações entre cada uma das pessoas envolvidas nos assaltos.

Assim, no meio dos maiores roubos da história, Tóquio (Úrsula Corberó) e seus colegas deixam o profissionalismo de lado constantemente para discutir, ter ciúmes, trair, brigar por motivos supérfluos e, até mesmo, namorar. E não apenas entre eles, mas também com os reféns. Não importa se o relógio está contra eles, sempre sobra tempo para um bom e velho conflito (ou amasso) que poderia ser facilmente resolvido depois do trabalho ser concluído. Apesar de exigir muita suspensão da descrença, esse é o charme da série. É uma novela que se passa no meio de um assalto elaboradíssimo.

Obviamente, esses elementos estão de volta na quinta parte do programa. E, como se não bastassem todos os conflitos entre os ladrões que estão no Banco Central e também entre os personagens que estão do lado de fora, a série ainda inclui novos rostos que, apesar de ainda não terem tido muito espaço, no decorrer dos episódios, também devem ter o propósito de aumentar o drama: um antigo namorado de Tóquio vivido por Miguel Ángel Silvestre e o filho de Berlim (Pedro Alonso), que os produtores nitidamente se arrependeram de matar e, por isso, insistem em trazê-lo sempre em flashbacks, dando a ele mais tempo de tela do que para diversos dos vivos - e é compreensível, o personagem é ótimo.

La Casa de Papel, então, volta para o seu ano derradeiro intensificando os elementos que fizeram com que ela fosse um sucesso, apostando em ação de qualidade, mas sem deixar de lado o drama de novela mexicana de que os fãs tanto gostam - e tem também Arturito (Enrique Arce), de quem certamente ninguém gosta, mas segue lá testando a paciência dos personagens e da audiência.

O último volume da atração, também com cinco episódios, estreia em 3 de dezembro.

CARLOS REDEL


03 DE SETEMBRO DE 2021
RUMO AO CATAR

A SÉTIMA CONSECUTIVA

Em partida sem brilho, Seleção derrota o Chile por 1 a 0 fora de casa, mantém 100% e bate recorde histórico

A atuação ficou longe do ideal, mas Tite escreveu seu nome na história da Seleção Brasileira. Ao bater o Chile por 1 a 0, em Santiago, ontem à noite, o treinador alcançou a melhor arrancada do Brasil em Eliminatórias para a Copa do Mundo: superou o também gaúcho João Saldanha que, em 1969, havia vencido as seis primeiras rodadas. 

A sétima e histórica vitória foi conquistada com gol de Everton Ribeiro no segundo tempo e deixa a equipe na liderança da tabela, com 100% de aproveitamento e seis pontos de vantagem para a segunda colocada, Argentina, que bateu a Venezuela fora de casa e será a adversária deste domingo, em São Paulo. O confronto, aliás, servirá como revanche pela final da Copa América, disputada em julho.

Para encarar os chilenos, o técnico da Seleção teve de lidar com a ausência de nove jogadores que atuam no futebol inglês e não foram liberados por seus clubes, por conta da covid-19, além de Malcom e Claudinho, requisitados de volta pelo Zenit, da Rússia. Desta forma, as maiores novidades estiveram no ataque, em que Vinícius Júnior e Gabigol foram promovidos à titularidade.

A dupla, aliás, foi responsável pelo primeiro lance de perigo assim que a bola rolou, mas a defesa chilena cortou o passe do flamenguista antes que ele encontrasse o ponta do Real Madrid na pequena área. Em seguida, foi a vez de Bruno Guimarães se projetar e, acionado por Neymar, sair na cara do goleiro Bravo. Antes do chute, porém, foi travado.

Os donos da casa também não deixaram por menos. Empurrados pelos mais de 8 mil torcedores que compareceram ao Estádio Monumental David Arellano, tomaram conta da partida. Com dificuldade para encaixar a marcação, o Brasil se fechava, esperando por um contra-ataque. Quando ele surgiu, Neymar desperdiçou: pegou embaixo da bola, mandando muito acima do travessão de Bravo.

A pressão dos chilenos continuou. Em cobrança de falta de Vidal, Weverton espalmou para frente e, quando Eduardo Vargas mergulhou de peixinho, o palmeirense impediu que o placar fosse aberto. Minutos depois, o goleiro seria batido por Morales, mas o árbitro anulou o gol por impedimento de Mena no momento do passe. Antes do intervalo, ele ainda trabalharia uma última vez, em nova tentativa de Vidal, de longa distância. Em resumo: o empate saiu barato para a Seleção.

Mortal

Disposto a alterar o cenário, Tite voltou do intervalo com Everton Ribeiro e Gerson. As mudanças, contudo, não inibiram o Chile, que seguiu em cima. Não fosse um carrinho providencial de Alex Sandro na área, Aránguiz poderia ter aberto o placar logo na largada.

A facilidade era tamanha para o Chile que os anfitriões foram baixando o ritmo. Até que, aos 18min, Danilo avançou praticamente sem marcação e passou para Everton Ribeiro, que achou Neymar. O camisa 10 perdeu o gol na cara de Bravo, mas Everton Ribeiro não perdoou no rebote: 1 a 0. O gol animou a equipe brasileira, que quase ampliou em seguida, quando Marquinhos apareceu na área e foi avançando às divididas, batendo fraco contra o goleiro.

Os chilenos se tornaram ainda mais ofensivos a partir da entrada do meia-atacante Carlos Palacios. Foi em uma jogada do colorado, inclusive, que Marquinhos recebeu cartão amarelo e fica fora do jogo contra a Argentina por suspensão. Até mesmo por isso, o Brasil já não estava mais disposto a correr riscos. Assim, sempre que pegava a bola, trocava passes lentos, fazendo o cronômetro correr, para a irritação dos rivais. Foi a vitória da experiência, de quem lidera as Eliminatórias com folga.

FILIPE DUARTE

quinta-feira, 2 de setembro de 2021


02 DE SETEMBRO DE 2021
DAVID COIMBRA

Confissões de um bebedor

Me deu vontade de tomar licor. E, quando falo que "deu vontade", falo de uma vontade sistemática, não de uma que será satisfeita com um copinho ou dois de Amaretto del Orso. Isso significa que passarei semanas bebendo licor, até enjoar.

Com bebidas sou assim, de fases. Uma época, era bebedor de vodca - a juventude, você sabe como é. Estávamos nos anos 80, e eu morava em Criciúma. Minha amiga Lenir Gomes, repórter do jornal O Estado, fez aniversário e me convidou. Quando cheguei ao seu apartamento, ela me conduziu ao freezer e de lá tirou uma garrafa de Absolut, anunciando:

- Essa é só tua.

Em seguida, dirigiu-se aos demais convidados, em voz alta:

- Pessoal, ninguém tome dessa garrafa! Ela é exclusiva do David.

Aquela deferência me emocionou. Enquanto a festa corria, volta e meia ia ao freezer, pescava a minha amada garrafa e me servia de vodca geladinha. O bom bebedor de vodca a consome assim: pura e geladíssima, a garrafa deve estar branquinha de frio. Bem. Confesso, neste momento, um pouco envergonhado, que ingeri todo o conteúdo da garrafa naquela noite. Na manhã seguinte, porém, acordei me sentindo íntegro e feliz. A vodca era de boa qualidade, e eu, como já disse, era jovem.

Há algo sobre as vodcas: dizem que elas perfumam o hálito. Você pode beber uma garrafa inteira, como fiz no aniversário da Lenir, que não afugentará os ouvintes ao falar palavras com efe. Isso é um estímulo para quem planeja terminar a noite com um romance, como algumas vezes foi meu caso, em priscas eras.

Mas essa minha fase russa durou pouco. Por algum motivo, me fartei das vodcas e passei a beber vinhos. Até que, certo sábado, nós, os jornalistas da cidade, fomos em álacre excursão para a propriedade de um produtor de vinhos de Urussanga, a 20 quilômetros de distância. Ele queria apresentar seus novos vinhos para a imprensa da região. Foi um encontro animado. O problema é que chegamos lá por volta das nove da manhã. Ele nos guiava por entre os parreirais, mostrava-nos as uvas e tal e, de tempos em tempos, parava e nos oferecia pequenos cálices de vinho. Eu não ia fazer desfeita: aceitava todos e a todos bebia. No momento em que foi servido o almoço, por volta da uma da tarde, já me encontrava em estado lamentável. Passamos o dia todo bebendo vinho. Voltamos para casa ao anoitecer. Dessa feita, meu corpo não reagiu com o denodo que demonstrou com a vodca da Lenir. Ao contrário: os três dias posteriores foram de intenso sofrimento. Achei que nunca mais ia ficar bom. Quando finalmente sarei, peguei aversão a vinho. Podiam me servir um Petrus Pomerol, que não beberia. Só de ver a garrafa o meu estômago já fazia blorp. Fiquei sem beber vinho por dois anos.

As cervejas nunca me trouxeram esses dissabores, sobretudo os chopes dourados e cremosos e gelados. Assim, sou um fiel bebedor de chope, mas há períodos em que preciso fazer algo diferente, entende? Quebrar a monotonia. Esse é um tema vasto e rico, tenho de escrever mais a respeito e o farei, mas, por ora, antecipo que ando salivando por Cointreaus e Frangélicos. Não me julgue, seguirei com o assunto. Agora vou parar um pouco, porque me deu sede.

DAVID COIMBRA 


02 DE SETEMBRO DE 2021
+ ECONOMIA

Corsan passa a correr contra o relógio

Com a aprovação da privatização da Corsan pela Assembleia Legislativa, na terça-feira, começa a corrida de um cronograma desafiador para o governo do Estado, que pretende concluir a venda na primeira quinzena de fevereiro de 2022.

É um prazo apertado para uma operação do tamanho e da complexidade da abertura de capital de uma empresa que depende do poder concedente municipal. A expectativa é de que a oferta de ações envolva valor próximo a R$ 3 bilhões.

A meta de 15 de fevereiro foi apontada pelo presidente da Corsan, Roberto Barbuti, durante a apresentação dos resultados do semestre. A Corsan terá, portanto, quatro meses e meio para acelerar três frentes: equacionar com os municípios o formato mais adequado de regionalização do serviço, cumprir as obrigações regulatórias do Marco Legal do Saneamento, que também têm prazo apertado, e ainda montar a operação de oferta de ações.

A intenção é fazer uma oferta de novas ações, chamada de "primária", e de papéis já existentes, chamada de "secundária". A meta do Piratini não é buscar um sócio estratégico nem novo controlador, mas pulverizar as ações e manter cerca de 30% do capital. Assim, seria possível que o governo gaúcho se mantivesse como principal acionista, sem as amarras burocráticas de estatais.

MARTA SFREDO

02 DE SETEMBRO DE 2021
L.F. VERISSIMO

O imperador do Brasil

Na famosa história do Kafka, um dia Gregor Samsa acorda de um sono inquietante e se vê transformado num monstruoso... o que, exatamente?

Convencionou-se que o desafortunado Gregor acordou transformado numa barata. Vladimir Nabokov concluiu que o inseto era um grande besouro, e estranhou que Kafka ignorasse que os besouros têm asas. Se o inseto do Kafka pudesse sair voando, a história teria outro sentido. Ou mais um sentido, além de todas as outras interpretações dadas à obscura alegoria.

Nabokov dedica a sua conjetura sobre as asas (está na coleção de palestras sobre literatura que fez antes de ficar famoso com a publicação de Lolita) a todas as pessoas que têm asas mas não sabem.

Entre as muitas interpretações de A Metamorfose, a que Nabokov rejeita com mais desdém é a freudiana, segundo a qual a origem da história é a relação difícil do Kafka com seu pai, e seu sentimento de culpa. Freud era uma das principais antipatias de Nabokov. E elas não eram poucas.

Nabokov não propõe nenhuma interpretação, pelo menos nenhuma com uma inegável marca pessoal. Nota certas reincidências no texto - como o número três (as três portas do quarto de Gregor, os três membros da família mais três empregados, os três hóspedes com três barbas) -, mas recomenda que não se dê muita importância à coincidência, que é mais técnica do que simbólica.

A fantasia de Kafka tinha sua lógica, e o que pode ser mais lógico do que o velho trio tese, antítese e síntese? Acima de tudo, se deveria evitar qualquer mito proposto por seguidores do "feiticeiro de Viena", que era como ele chamava Freud.

Para Nabokov, interpretações além da realidade do texto eram desnecessárias. Afinal, nós todos já tivemos a sensação de acordar estranhamente, como Gregor Samsa. "Acordar como um inseto não é muito diferente do que acordar como Napoleão ou George Washington", diz Nabokov. E conta: "Conheci um homem que acordou como o imperador do Brasil".

Especulação fascinante: e se Nabokov tivesse aproveitado a história do homem que acordou como imperador do Brasil e seguisse seus passos depois da metamorfose? Pode-se imaginá-lo chegando aqui para reclamar o trono, num país decididamente kafkiano.

Da série "Só no Brasil". O Japonês da Federal, também conhecido como o Japonês Bonzinho, está desempenhando normalmente suas funções, inclusive a escolta de presos na Lava-Jato, com uma tornozeleira. Ele também está indiciado, e em prisão domiciliar, de onde só sai para prender os outros. Kafkiano, decididamente kafkiano.

L.F. VERISSIMO

quarta-feira, 1 de setembro de 2021


01 DE SETEMBRO DE 2021
DAVID COIMBRA

A favor de Marina Ruy Barbosa

Fiquei sabendo que querem cancelar Marina Ruy Barbosa. Isso porque ela reproduziu, em suas redes sociais, uma foto em que uma menina ruiva admira um cartaz com sua foto. Sua, que digo, é dela, Marininha. Pois Marininha, como você bem sabe, também é ruiva, o que dava sentido à legenda que acompanhava a imagem: "Depois dizem que representatividade não é importante".

O uso da palavra representatividade irritou os militantes, que passaram a criticar Marininha. Negros e gays é que têm de lutar pela representatividade, não uma ruiva, de pele branca e provavelmente macia e agradável ao toque, como Marininha.

Eu poderia lançar um anátema contra essa gente que se leva a sério, mas aí eu estaria levando a sério essa gente que se leva a sério. Então, não o farei. Apenas gostaria de discorrer sobre a problemática das ruivas brasileiras. Porque durante muito tempo disseram que elas não existiam. O Brasil tinha de tudo, loiras, morenas, negras, nisseis, mulatas, índias, cafuzas e mamelucas, mas não ruivas. Já ouvi, inclusive, que nenhuma mulher seria naturalmente ruiva - seus cabelos haveriam sido adredemente pintados de vermelho. Trata-se uma sórdida mentira. Uma infâmia! Há, sim, ruivas autênticas, inclusive com a diáfana penugem dos braços avermelhada. Vi muitas dessa qualidade nos Estados Unidos. Reconheço, porém, que no Brasil elas são raras, donde o preconceito dos nossos compatriotas.

No entanto, Marininha é ruiva da gema, provam-no fotos dela quando criança, sorridente e inocente, debaixo de seus bastos cabelos vermelhos. Isso me faz cogitar se o tetravô dela, o senador Ruy Barbosa, "A Águia de Haia", não possuía os cabelos ruivos antes de perdê-los completamente, que Ruy Barbosa era careca. Não sei. Algum historiador haverá de pesquisar a respeito.

Mas o que queria dizer aqui é que os brasileiros olham com desconfiança para Marininha porque muitos jamais viram uma ruiva em pessoa. Mesmo no cinema atual são raras as ruivas, foi-se o tempo das belíssimas Rita Hayworth e Ann-Margret, que pintava o cabelo de loiro ou de moreno, mas era ruiva de nascença, segundo me asseguraram fontes confiabilíssimas. Ann-Margret, aliás, fazia aniversário no mesmo dia que o degas aqui: 28 de abril. Quando guri, eu era meio apaixonado por ela. Não por essa coincidência, mas pela forma como Ann-Margret dançava, que considerava bastante provocante e me despertava delírios juvenis.

De qualquer maneira, nada disso tem relevância agora. Agora, o que realmente importa é apoiar Marina Ruy Barbosa. Anuncio, portanto, de público, que estarei ao lado dela sem vacilar, contra todos os inimigos. Sou a favor de Marina Ruy Barbosa. Seremos eu e ela contra o mundo. É bom ter uma causa pela qual lutar, e essa é a minha. Podem vir, malditos detratores. Não passarão!

DAVID COIMBRA

01 DE SETEMBRO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

EXPOINTER DA RETOMADA

Espinha dorsal da economia gaúcha, tanto pela participação no PIB quanto pela imensa capilaridade, o agronegócio celebra a volta da Expointer presencial. Ainda não a pleno, é verdade, mas o regresso do público e o número de animais inscritos retornando a níveis considerados normais são uma nova injeção de ânimo para um setor que, a despeito da pandemia, se manteve incansável em jornadas de sol a sol para levar alimentos à mesa dos brasileiros e mais uma vez ser decisivo para os superávits comerciais do país. Marcada para os dias 4 a 12 deste mês, a tradicional exposição agropecuária de Esteio, no Parque de Exposições Assis Brasil, ressurge em sua 44ª edição com vigor renovado para ser uma vez mais a grande vitrine da melhor genética, da inovação, da tecnologia das máquinas e centro nervoso de discussões e debates em torno de temas centrais para o campo.

Devido à crise sanitária, no ano passado a Expointer foi essencialmente virtual, mas não deixou de ser realizada, graças ao esforço da Secretaria da Agricultura, de entidades e expositores. Assim, a despeito de todos os contratempos, não foi deixado um vazio no calendário de um dos mais tradicionais eventos do gênero na América Latina. Agora, com o avanço da vacinação contra a covid-19, a quantidade de visitantes será limitada a 15 mil pessoas por dia, sem contar as demais que estão envolvidas profissionalmente na mostra. Decidiu-se, corretamente, fazer as vendas de ingressos apenas pela internet, sem bilheterias físicas. Há uma série de protocolos que serão observados, como testes negativos para quem estiver trabalhando, uso obrigatório de máscaras, lavatórios e totens com álcool gel espalhados pelo parque, planejamento que certamente deve servir de modelo para a temporada de feiras de primavera que se aproxima no Estado.

Ainda não é desta vez que será revivido por inteiro o caráter festivo e de maior integração entre o público urbano e o mundo do campo, mas o saldo tende a ser positivo exatamente por esse sentimento de retomada, à espera de que, a partir de 2022, seja possível reeditar o clima que marca a história da mostra. A final do Freio de Ouro, por exemplo, uma consolidada atração no primeiro fim de semana da exposição de Esteio, desta vez não será realizada durante a Expointer. Mas o pavilhão da agricultura familiar, outro sucesso de visitação, está de volta.

O agronegócio é um segmento acostumado a enfrentar obstáculos e superar adversidades de toda ordem, do clima incerto a oscilações bruscas de mercado. Neste ano, ao contrário de 2020, quando o Estado foi castigado por uma seca severa, a safra de verão, especialmente de soja, foi abundante. Os preços, o que inclui o setor de proteína animal, estão remuneradores, a despeito da alta de custos. E o Rio Grande do Sul celebra o novo status internacional de livre de febre aftosa sem vacinação. Muito mais importante do que qualquer número de negociação, portanto, é a mensagem de resiliência que brota do campo.

 

01 DE SETEMBRO DE 2021
POLÍTICA +

Pedro Westphalen volta ao trabalho

Com 28 quilos a menos do que tinha quando foi internado com covid-19, em julho, o deputado federal gaúcho Pedro Westphalen (PP) retorna ao trabalho hoje, ainda em modo remoto. Foram 56 dias de afastamento, com 30 dias de UTI, sendo uma semana entubado.

- Faço parte do grupo dos 20% que resistem à entubação. Tenho certeza de que devo isso à vacina - diz o deputado, que se contaminou mesmo tendo tomado as duas doses da AstraZeneca.

Médico, Westphalen saiu em em defesa da CoronaVac:

- Todas as vacinas funcionam. Minha mulher tomou a CoronaVac, ficou comigo na UTI e não se contaminou.

O pedido de tempo dos prefeitos foi substituído por uma emenda que garantiu a aprovação da privatização da Corsan pelo placar folgado de 33 votos a favor e 19 contrários na Assembleia Legislativa. Para aprovação eram necessários 28 votos, mas o governo conseguiu quórum de emenda constitucional, graças à reorganização da base política, no início do ano, e à mudança cultural da população e da Assembleia em relação às privatizações.

Quando os deputados acabaram com a exigência de plebiscito para vender Corsan, Procergs e Banrisul, estava aberto o caminho para a desestatização. A Corsan será vendida depois da CEEE e com o governo autorizado a passar adiante a Sulgás e a Companhia Riograndense de Mineração (CRM). Restará o Banrisul, que o atual governo não privatizará por falta de tempo, mas dificilmente escapará no próximo, a menos que seja eleito um projeto radicalmente contrário à venda de estatais.

Para vender a Corsan, descumprindo uma promessa de campanha, o governador Eduardo Leite apresentou como fundamento o novo marco regulatório do saneamento, aprovado pelo Congresso na metade do seu mandato, e que estabelece a obrigatoriedade de levar água tratada a 99% da população e esgoto a 90% até 2033. O argumento é que a Corsan pública não teria como investir R$ 10 bilhões necessários em 12 anos.

- A população não quer ter uma empresa de saneamento. Ela quer saneamento - disse Leite, na entrevista em que agradeceu à coragem dos 33 deputados que ousaram desafiar "interesses corporativos legítimos".

O grande temor de prefeitos e de consumidores é que a tarifa de água se torne impagável, que a meta não seja cumprida ou que os pequenos municípios, onde o serviço é deficitário, sejam prejudicados. Leite e o chefe da Casa Civil, Artur Lemos, garantiram que não há risco de explosão da tarifa, por se tratar de atividade regulada.

Os novos donos da Corsan não poderão, simplesmente, adiar o cumprimento das metas ou decidir que a conta vai aumentar x%. Em relação aos pequenos municípios, a equação que vai garantir os serviços estará na formação dos blocos de saneamento, objeto de dois projetos que devem ser votados assim que se chegar a um mínimo de consenso sobre a forma como serão agrupados.

Para além do cumprimento das metas, o governo mira em dois pontos: a transformação do Estado em um canteiro de obras, com geração de empregos, e o dinheiro que entrará nos cofres públicos e que permitirá investimentos em outras áreas no último ano de mandato.

ALIÁS

Para o projeto político de Eduardo Leite, que disputa a indicação do PSDB para ser candidato a presidente da República, a autorização para a venda da Corsan é um sinal positivo ao mercado e aos setores que defendem um Estado mais enxuto, focado em áreas essenciais.

ROSANE DE OLIVEIRA

01 DE SETEMBRO DE 2021
MÁRIO CORSO

Smartphones

Difícil dizer quando acabará a pandemia, ou ao menos as restrições sociais, mas a tarefa mais urgente depois deste período me parece óbvia: usar menos as telas. Vai ser difícil, pois graças a elas nossa vida na pandemia não foi pior.

O problema é que elas não nos fazem bem e o preço de seu uso é caro demais. Antes da pandemia, os indicadores dos norte-americanos para problemas dos seus adolescentes já não eram bons. Foi notada uma alta de sujeitos que nessa fase se mutilam, se suicidam, estão deprimidos ou queixam-se de solidão. Isso vinha crescendo desde 2012. Esse período bate com a expansão do uso dos smartphones. Mais ou menos quando também as mídias sociais se tornaram onipresentes, ou seja, você não existe se não está usando uma. O que era estressante piorou quando as mesmas mídias adotaram o botão de like e quando os algoritmos usados para selecionar material passaram a escolher o que gera mais emoção.

Eu sou o primeiro a desconfiar da demonização das mídias. Lembra a conversa de que os gibis acabariam com a leitura séria, que a TV destruiria o cérebro dos nossos filhos, que os videogames tornariam os jovens mais violentos. Nada disso se confirmou com estudos e pesquisas a longo prazo. Por que desta vez seria diferente?

Porque agora temos um dado alarmante: pela primeira vez, desde que se começou a medir, o QI dos pais é maior do que o QI dos filhos. Tenho minhas restrições com testes de QI, mas, embora sejam apenas testes aproximativos, eles dizem algo. Um livro que está sendo traduzido, do pesquisador em neurociência Michel Desmurget, A Fábrica de Cretinos Digitais, é muito claro sobre esse ponto. Se antes a preocupação era sobre piorar o comportamento, nesse autor a inquietação é sobre a aquisição cognitiva.

Não terminei de ler o livro e já estou preocupado, a argumentação e os dados são sólidos. De fato, crescer em um ambiente digital pode emburrecer. Se você está preocupado com o desenvolvimento sadio do cérebro do seu filho, melhor se preparar para a difícil tarefa de convencê-lo a usar menos telas. Hoje talvez seja mais importante desenvolver com os filhos hábitos que prescindam delas do que encontrar boas escolas.

Será uma empreitada difícil tirar os celulares da vida dos pequenos e dos adolescentes. Primeiro, porque os adultos dão mau exemplo: estão sempre grudados neles. Segundo, porque é confortável, pois pais exaustos os usam de babá. Terceiro, porque é uma briga contra uma indústria poderosa. Se o lobby do cigarro conseguiu comprar médicos para dizer que cigarro não faz mal, o que dizer agora sobre o acesso às telas? Veremos profusa contrainformação afirmando que o uso excessivo de telas não dá nada.

Smartphones podem ser traduzidos por espertofones. O que não sabíamos é que os espertos eram eles e os idiotas éramos nós.

MÁRIO CORSO