domingo, 28 de abril de 2013



"Todos os dias Deus nos dá um momento
em que é possível mudar tudo que nos
deixa infelizes.O instante mágico é o
momento que um SIM ou um NÃO pode
mudar toda a nossa existência!"
(Paulo Coelho)



DANUZA LEÃO

Se a vida fosse fácil

Não se pode amar alguém aprovado pela família, pela igreja e pela sociedade; esses são para casar

Se você pudesse escolher, preferiria ter um marido fiel mas que fosse um mau marido --desses que bebem errado e falam o que não devem, e é, frequentemente, um tédio-- ou um marido infiel e ótimo marido? Difícil escolha, e saiba: um ótimo marido se percebe pelo brilho do olho da mulher.

Teoricamente, um bom marido é aquele que, em primeiro lugar, não trai, e são esses os que as mulheres mais abandonam. Para que uma paixão continue a existir, é preciso que não se tenha muitas certezas, e nenhuma mulher ama um marido fiel demais. Para tudo há limites, até para a fidelidade.

Quais são os homens mais inesquecíveis da vida de uma mulher? São sempre os que mais aprontam, mais desaparecem, mais traem --e não confessam nunca--, mas que a faz mais feliz do que todos os bons rapazes do mundo.

É mais ou menos simples: se um homem é aprovado por todos, nunca é aquele que faz um coração juvenil bater descompassadamente. Não se pode amar alguém aprovado pela família, pela igreja e pela sociedade. Esses são para casar, o que não tem nada a ver com o amor.

Nada pode incendiar mais um romance do que a oposição da família; ela costuma ter razão, quando é contra, e a família está sempre unida contra os "maus" rapazes. E o amor, então? Desde os Capuleto e os Montecchio (famílias de Romeu e Julieta, para quem esqueceu) tem sido assim, e não há modernidade que mude essa regra.

O que mudou foi que hoje não dá nem tempo de alguém ficar contra, porque aí já acabou. E vamos reconhecer, pais e mães estão certos: nessa hora eles estão pensando em seu próprio sossego e em sua própria tranquilidade, no que estão cobertos de razão. Aliás, quase todos têm sempre razão, e algum dia você viu pais e filhos estarem de acordo? Se estão, alguma coisa deve estar errada.

Eles querem, para marido de sua querida filha, estabilidade em todos os sentidos, começando pela financeira, e que os sentimentos do pretendente também sejam estáveis. É até melhor que ele não ame apaixonadamente; melhor que tenha um sentimento calmo, maduro, confiável.

Enquanto isso a filha, com seus hormônios à flor da pele, anseia por um homem que a enlouqueça e a faça perder o rumo de casa.

Esse às vezes até casa (quando ela é rica), mas que ninguém espere dele fidelidade; esquecendo esse pequeno detalhe, costumam ser ótimos maridos, capazes de levar a mulher para um motel numa tarde de segunda-feira, ou a um fim de semana em Nova York, a troco de nada --as crianças ficam com a babá, qual é o problema?

E se for flagrado às 2h da madrugada tomando um uísque na sala, lembrando de como era boa a vida de solteiro, quando a mulher chega devagarzinho e faz a pergunta, aquela --"em que você está pensando?"-- ele vai responder, com a maior sinceridade, "em você, amore". Ela não vai acreditar, mas fica na dúvida: e se for verdade? Esse é um bom marido, e esse casamento vai durar --sobretudo se o pai dela continuar rico.

Mas afinal, você quer saber o que preferem as mulheres, se um marido fiel ou infiel? Refleti sobre o assunto, e acredito que a solução deve ser um homem fiel fingir que é infiel, e o infiel fingir que é fiel. Simples a vida, não?

P.S.¹: Para mandar um Sedex (um envelope com UMA folha de papel), do Rio para São Paulo você paga R$ 30,00.

P.S.²: E Rose, hein? Ela é a cara do PT.

FERREIRA GULLAR

Cultura e terror

As diversas concepções religiosas e políticas podem levar os homens a divergências insuperáveis

Essa minha ideia de que o homem é, sobretudo, um ser cultural, não deve ser entendida como uma visão idealizada e otimista, pelos simples fato de que isso o distingue dos outros seres naturais.

Se somos seres culturais, se pensamos e com nosso pensamento inventamos os valores que constituem a nossa humanidade, diferimos dos outros animais, que se atêm a sua animalidade e agem conforme suas necessidades vitais imediatas.

Entendo que, ao contrário dos outros animais, o homem nasceu incompleto e, por essa razão, teve de inventar-se e inventar o mundo em que vive. Por exemplo, um bisão ou um tigre nasce com todos os recursos necessários à sua sobrevivência, mas o homem, para caçar o bisão, teve que inventar a lança.

Isso, no plano material. Mas nasceu incompleto também no plano intelectual, porque é o único animal que se pergunta por que nasceu, que sentido tem a existência. Para responder a essas e outras perguntas, inventou a religião, a filosofia, a ciência e a arte.

Assim, construiu, ao longo da história, uma realidade cultural, inventada, que alcança hoje uma complexidade extraordinária e fascinante. O homem deixou de viver na natureza para viver na cidade que foi criada por ele.

Mas, o fato mesmo de se inventar como ser cultural criou-lhe graves problemas, nascidos, em grande parte, daqueles valores culturais. É que, por serem inventados, variam de uma comunidade humana para outra, gerando muitas vezes conflitos insuperáveis. As diversas concepções filosóficas, religiosas, estéticas e políticas podem levar os homens a divergências insuperáveis e até mesmo a conflitos mortais.

Pode ser que me engane, mas a impressão que tenho é de que o homem, por ser essencialmente os seus valores, tem que afirmá-los perante o outro e obter dele sua aceitação. Se o outro não os aceita, sente-se negado em sua própria existência. Daí por que, a tendência, em certos casos, é levá-lo a aceitá-los por bem ou por mal. Chega-se à agressão, à guerra.

Certamente, nem sempre é assim, depende dos indivíduos e das comunidades humanas; depende sobretudo de quais valores os fundamentam.

De modo geral, é no campo da religião e da política que a intolerância se manifesta com maior frequência e radicalismo. A história humana está marcada por esses conflitos, que resultaram muitas vezes em guerras religiosas, com o sacrifício de centenas de milhares de vidas.

Com o desenvolvimento econômico e ampliação do conhecimento científico, a questão religiosa caiu para segundo plano, enquanto o problema ideológico ganhou o centro das atenções.

A questão da riqueza, da desigualdade social e consequentemente da justiça social tornou-se o núcleo dos conflitos entre as classes e o poder político. Esse fenômeno, que se formou em meados do século 19, ocuparia todo o século 20, com o surgimento dos Estados socialistas. O ápice desse conflito foi a Guerra Fria, resultante do antagonismo entre os Estados Unidos e a União Soviética.

Surpreendente, porém, é que, em pleno século do desenvolvimento científico e tecnológico, tenha eclodido uma das expressões mais irracionais da intolerância religiosa: o terrorismo islâmico, surgido de uma interpretação fanatizada daquela doutrina.

O terrorismo não nasceu agora mas, a partir do conflito entre judeus e palestinos, lideranças fundamentalistas islâmicas o adotaram como arma de uma guerra santa contra a civilização ocidental, que não segue as palavras sagradas do Corão.

Em consequência disso, homens e mulheres jovens, transformados em bombas humanas, não hesitam em suicidar-se inutilmente, convencidos de que cumprem a vontade de Alá e serão recompensados com o paraíso.

Parece loucura e, de fato, o é, mas diferente da doença psíquica propriamente dita. É uma loucura decorrente do fanatismo político ou religioso, que muda o amor a Deus em ódio aos infiéis.

Embora o Corão condene o assassinato de inocentes, na opinião dos promotores de tais atentados --que matam sobretudo inocentes-- só é proibido matar os "nossos" inocentes, como afirmou Bin Laden, não os inocentes "deles".

Tudo isso mostra que o homem é mesmo um ser cultural, mas que a cultura tanto pode nos transformar em santos como em demônios.

HÉLIO SCHWARTSMAN

A ética da fila

SÃO PAULO - Escritórios da avenida Faria Lima, em São Paulo, estão contratando flanelinhas para estacionar os carros de seus profissionais nas ruas das imediações. O custo mensal fica bem abaixo do de um estacionamento regular. Imaginando que os guardadores não violem nenhuma lei nem regra de trânsito, utilizar seus serviços seria o equivalente de pagar alguém para ficar na fila em seu lugar. Isso é ético?

Como não resisto aos apelos do utilitarismo, não vejo grandes problemas nesse tipo de acerto. Ele não prejudica ninguém e deixa pelo menos duas pessoas mais felizes (quem evitou a espera e o sujeito que recebeu para ficar parado). Mas é claro que nem todo o mundo pensa assim.

Michael Sandel, em "O que o Dinheiro Não Compra", levanta bons argumentos contra a prática. Para o professor de Harvard, dublês de fila, ao forçar que o critério de distribuição de vagas deixe de ser a ordem de chegada para tornar-se monetário, acabam corrompendo as instituições.

Diferentes bens são repartidos segundo diferentes regras. Num leilão, o que vale é o maior lance, mas no cinema prepondera a fila. Universidades tendem a oferecer vagas com base no mérito, já prontos-socorros ordenam tudo pela gravidade. O problema com o dinheiro é que ele é eficiente demais. Sempre que entra por alguma fresta, logo se sobrepõe a critérios alternativos e o resultado final é uma sociedade na qual as diferenças entre ricos e pobres se tornam cada vez mais acentuadas.

Não discordo do diagnóstico, mas vejo dificuldades. Para começar, os argumentos de Sandel também recomendam a proibição da prostituição e da barriga de aluguel, por exemplo, que me parecem atividades legítimas. Mais importante, para opor-se à destruição de valores ocasionada pela monetização, em muitos casos é preciso eleger um padrão universal a ser preservado, o que exige a criação de uma espécie de moral oficial --e isso é para lá de problemático.

helio@uol.com.br

ELIANE CANTANHÊDE

Tiro de canhão, tiro no pé

BRASÍLIA - A semana passada foi de crise e esta será de sorrisos e salamaleques, mas a crise continua.

O grande problema não é de forma e de retórica apenas, mas sim de conteúdo. Logo, a crise só acaba com o fim de seus dois pivôs.

São eles um projeto que visa aniquilar uma candidatura e enfraquecer a oposição em favor da reeleição da presidente e outro que dá ao Congresso poder de veto em decisões tomadas pelo Supremo Tribunal Federal (Supremo Tribunal Federal!). Seria cômico, não fosse trágico.

Até casuísmos têm limite, e o Congresso aprovar a lei pró-Dilma e anti Marina a um ano e pouco da eleição tem um ranço "bolivariano" incompatível com o Brasil. As regras não favorecem o rei (ou a rainha)? Mudem-se as regras!

E o projeto de emenda constitucional aprovado em minutos pela CCJ da Câmara para atacar e retaliar o Supremo é de uma violência e de uma irresponsabilidade poucas vezes vistas na democracia deste país.

Uma ousadia sem tamanho, iniciada por um parlamentar do partido do governo e encaminhada alegremente (ou seria o oposto, raivosamente?) pelos que não se conformam com a independência e a lisura do Supremo no julgamento do mensalão. A corte suprema não se rendeu ao poder? Puna-se a corte!

Ao se reunirem amanhã, distribuindo sorrisos e amabilidades diante das câmeras, o ministro Gilmar Mendes e os presidentes da Câmara e do Senado, Henrique Alves e Renan Calheiros, darão mostras de civilidade e responsabilidade. Mas o problema transcende a eles.

O que Lula, Dilma, o PT e parte do PMDB não percebem é que, radicalizando, fortalecem o outro lado e a ideia de um bloco alternativo ao projeto Lula-Dilma.

Os dois projetos e a crise criaram o ambiente perfeito para um acordo de cavalheiros (e de damas) entre Aécio, Eduardo Campos, Marina e seus seguidores. Seriam tiros de canhão, viraram um tiro no pé do PT.

sábado, 27 de abril de 2013


Andante From The Piano Concerto - André Rieu

Spring Symphony - ANDRE RIEU - Relaxing instrumental music

Moonlight Sonata – Andre Rieu

Song Of The Lorelei and Once A Boy A Rose Espied - Andre Rieu


28 de abril de 2013 | N° 17416
MARTHA MEDEIROS

O sabor da vida

Dois anos atrás tive o prazer de ser entrevistada pelo chef Claude Troisgros, e lembro de que o encontro foi divertido e ao mesmo tempo inusitado pra mim, já que minha relação com as caçarolas sempre foi de intimidade zero.

Pois agora recebi o convite da incrível Neka Menna Barreto para uma entrevista para a tevê que também ocorreria durante o preparativo de alguns quitutes. Minha intimidade com as caçarolas segue a mesma, porém sou amiga da família da Neka há muitos anos, todos gaúchos. Só que meu contato com ela, por ser moradora de São Paulo, era mais restrito. Finalmente, equalizamos essa distância da melhor forma possível: com um bom papo na cozinha.

Quanto mais me aproximo desse universo que desconheço, mais me dou conta do quanto perco por não saber cozinhar. Conversando com a Neka, percebi a filosofia envolvida no processo – ao menos no processo dela, que usa sua colher de pau como uma espécie de varinha de condão, transformando em mágica cada receita aparentemente prosaica.

Neka é uma chef que escolheu a vida como principal ingrediente – não a industrializada, mas a vida em sua origem, em sua raiz. Seu talento está não apenas na criteriosa escolha dos ingredientes, mas na maneira de pensar sobre o que está fazendo e de explorar todas as sensações envolvidas.

Ela perfuma a cozinha com infusões de hortelã, “acorda” as sementes, encontra conexões entre rusticidade e sabor – de tudo Neka extrai um conceito. Cada alimento traz em si um benefício para a memória, para o humor, para a concentração. Ralar uma noz moscada nos ensina a reconhecer limites.

Triturar um bastão de canela fortalece o bíceps. Dissecar uma vagem seca de baunilha (eu nem sabia que a baunilha vinha de uma orquídea) desperta a sensualidade – se você tem acesso à Neka, peça para ela contar os efeitos de esconder um galhinho de baunilha dentro do sutiã. Segundo ela, a mulher para instantaneamente de falar sobre si mesma e, silenciosa, passa a ser quem é. Viajandona? Pode ser, mas descobri com ela que o tempero que faz viajar é outro.

Para quem só se interessa pelo concreto da vida, nada disso faz o menor sentido, porém é justamente sobre sentidos que está se falando aqui. Do amor que há em manusear tâmaras e nozes picadas, da energia que as ervas emanam, da estupidez de se consumir velozmente um prato ultracalórico e depois passar uma tarde inteira digerindo-o. “Gastamos muito tempo com digestão, quando poderíamos estar caminhando mais, dançando, flanando, vivendo até os cem anos com leveza”.

Neka é uma alquimista de personalidade única. Tudo nela é inspirador, desde seus turbantes coloridos até seus pontos de vista. “Estamos nos acostumando com soluções instantâneas, enviando e-mails que chegam a Tóquio em um segundo, comprando comida pronta. Ninguém mais prepara, ninguém mais espera. Se vejo alguém muito agitado, correndo atrás do relógio, recomendo: cozinhe e recupere a noção do tempo real”.

Não bastasse a delícia de suas criações gastronômicas, a querida Nekinha também é craque em dar receitas para nossas almas desnutridas.



28 de abril de 2013 | N° 17416
ARTIGOS - Diana Lichtenstein Corso*

Laerte

Tenho várias tiras do Laerte Coutinho coladas numa parede em meu consultório, são como enigmas que seguem me interrogando. Mais do que um cartunista, ele escreve poesia e filosofia com imagens. Suas tiras são abismos de múltiplos significados nos quais me perco. Todas as recomendações são poucas para que o leitor conheça sua obra. Ele é certamente um dos artistas mais importantes do Brasil.

Quando já o admirava, ele passou a dedicar sua vida a um tema nada prosaico: a identidade sexual. Começou a vestir-se de mulher, frequentava o Brazilian Cross-dresser Club, discretamente, sob o nome de Sônia. Aos poucos, o prazer de usar a indumentária do sexo oposto deixou a clandestinidade.

A revista Piauí de abril (nº 79) dedica-lhe várias páginas, numa reportagem na qual é tratado por vezes com pronomes femininos, por outras masculinos. Sua coragem desnuda a todos, quer usemos cuecas ou calcinhas. Na vida, como na arte, ele produz uma imagem intrigante.

A formação da identidade sexual é pura incerteza. Apesar disso, ao crescer cruzamos com duas perguntas: o queremos e o que seremos, ou seja, a quem desejamos e como nos pareceremos. Além da questão de gênero, o desejo aponta muitas variações, preferiremos velhos ou moços, miúdos ou graúdos, humildes ou opulentos, pessoas vistosas ou alguém cuja beleza brilha somente aos nossos olhos, e assim por diante. Porém, uma definição bifurca os tipos de objetos de desejo: do nosso sexo ou do oposto.

Não falta quem lembre ingenuamente que a anatomia nos condena à complementaridade fecunda do macho e da fêmea. Quanto ao que nos parecemos, há roupas para deixar isso bem claro, convém que as usemos conforme o corpo com que chegamos ao mundo. Os militantes dessas certezas fecham a questão.

Os jovens contemporâneos a abrem e têm praticado a ambiguidade com uma liberdade inédita. A androginia das roupas e adereços, assim como a bissexualidade das escolhas amorosas, inquieta as gerações anteriores e as almas frágeis. Mas eles não fazem mais do que externar incertezas que todos guardamos no armário.

Nunca seremos suficientemente convincentes como homens ou como mulheres aos nossos próprios olhos, da mesma forma, tampouco somos imunes à atração por pessoas de ambos os sexos. Forjamos em nós certezas, as gritamos para acalmar as dúvidas que nos sussurram aos ouvidos. Criamos mitos religiosos e até científicos para dizer que existe uma definição clara dessa fronteira.

Antigamente, quando que-ríamos dirigir uma mensagem a homens e mulheres dizíamos assim: “prezado (a)”, ou seja, se você for mulher, também será contemplada, em segunda opção. A luta feminista está tirando as mulheres desse segundo plano, hoje diríamos assim: “prezad@”.

Com o fim da divisão dos mundos que acompanhava a separação dos sexos, a identidade sexual entrou em questão. Estamos banindo mais do que a opressão das mulheres, trata-se agora da derrocada dos clichês sobre as características definidas de cada gênero. Laerte diz ser “uma mulher em caráter experimental”, eu te compreendo querida, eu também sou.

*PSICANALISTA


28 de abril de 2013 | N° 17416
VERISSIMO

Terror noturno

Seja o que for que respira na escuridão, não conhece o seu quarto tão bem quanto você

Você acorda no meio da noite com o som de alguém respirando. Você mora sozinho. Não tem cachorro, ou qualquer outro animal. Mas não duvida: alguém, ou algo, está respirando na escuridão do seu quarto, além de você.

Você estende a mão para acender a lâmpada de cabeceira. Hesita. Talvez seja melhor ficar no escuro. Assim você não vê quem ou o que respira na escuridão, mas também não é visto. Seja o que for que respira, também não está enxergando nada. Se for um ladrão, é um ladrão sem lanterna. Se for um bicho, a não ser que tenha visão noturna, também não está enxergando.

Mas aí você pensa: se não vê onde anda, o outro, a coisa arfante, deve esta tateando no escuro. Você tem a terrível premonição de uma mão fria ou uma garra pegajosa agarrando o seu braço. Melhor acender a luz. Mas aí você perde sua vantagem. É visto. Se expõe. E outra coisa: você não tem certeza que quer ver o que está respirando na escuridão. E se for um monstro, um grande réptil escamado? E se for a morte que veio buscar você? E se for a retribuição esperada para todos os seus pecados, na forma de um arcanjo arquejante?

A escuridão lhe protegerá. Seja o que for que respira na escuridão, não conhece o seu quarto tão bem quanto você. Você pode deslizar para fora da cama e ir, pé ante cauteloso pé, até o banheiro, se trancar no banheiro e... E o quê? O celular. Levar o celular para o banheiro e pedir ajuda.

O celular está sobre a sua mesa de cabeceira. Você pode pegar o celular, se deslocar em silêncio até o banheiro, fechar a porta e chamar a polícia. Mas se encontrar o monstro no meio do caminho? O som da respiração está vindo da sua direita, logo a sua esquerda está, em tese, desimpedida. Mas se você esbarrar num corpo quente a caminho do banheiro, aí sim gritará de terror e provavelmente desmaiará.

Calma, pensa você. Muita calma. Está bem, você está pagando pelos seus pecados. Merece uma alucinação como esta, para aprender. Na noite anterior bebeu demais, nem sabe como chegou em casa. A única coisa a fazer agora é voltar a dormir. De manhã, tudo se esclarecerá. Foi um pesadelo, um delírio de culpa, um revide da consciência. Nada disso está realmente acontecendo.

E então você se lembra. Na noite anterior, trouxe alguém para dormir com você. Quem está respirando ao seu lado é... Quem mesmo? Só há uma maneira de descobrir quem você, bêbado, trouxe para a sua cama: acender a lâmpada de cabeceira. Mas de novo você hesita. Não tem certeza que quer ver quem dormiu ao seu lado. O que a luz acesa revelará a seu respeito? Você prefere não saber. Pelo menos até o amanhecer, a escuridão lhe protegerá.


28 de abril de 2013 | N° 17416
O CÓDIGO DAVID | DAVID COIMBRA

Nesta data querida, a história de DONA ALICE

Hoje é o dia de falar de Alice. Dona Alice. A sogra do meu amigo, o... Digamos que ele se chame Luís Carlos.

É que 28 de abril é o lampeiro Dia da Sogra, data da qual jamais esqueço e que a cada ano comemoro com fervor, como se fosse um dia santo. Quanto a Dona Alice, asseguro que não se tratava de uma sogra comum. Não mesmo.

Dona Alice já não era mais uma jovenzinha, que nenhuma sogra o é. Mas se tratava de bela unidade de mulher. O tempo havia sido bondoso com ela. Mais até: ao arredondar docemente as formas, tornara-a mais atraente do que jamais fora – tornara-a abundante, sem ser excessiva.

Luís Carlos não era indiferente aos predicados de Dona Alice. Ao contrário, olhava para sua namorada, a Aninha, tão magrinha, tão diáfana, e a imaginava na glória do futuro, opulenta como a mãe.

– Vale o investimento – dizia aos amigos.

Não esperava, porém, o que ocorreu numa das tradicionais galinhadas de domingo: depois de algumas taças de bom tinto da Serra, quando haviam passado a fronteira do licor de ovos e até a do arroz de leite, Dona Alice lhe enviou olhares à sorrelfa. Alguém pode dizer que olhares à sorrelfa são subjetivos, mas aqueles, os de Dona Alice, não foram. Além disso, Luís Carlos orgulhava-se de saber bem identificar os olhares à sorrelfa e a malícia de uma mulher, quando se transformava em alvo deles. E, naquele dia, ele estava sendo alvo. Ah, estava.

O sogrão já meio que dormitava atrás do bigode, Aninha andava ocupada com o cachorro no pátio e Dona Alice lhe pespegou um par de olhares que lhe amoleceu os ossos, lhe formigou a virilha e lhe latejou as têmporas. Não era possível. Dona Alice! Era sorte demais. Afinal, que homem não sonha em se repoltrear com mãe e filha, sendo ambas lindas como eram Dona Alice e Aninha?

Logo Aninha voltou do pátio, mas Luís Carlos permaneceu atento feito um perdigueiro. E, realmente, durante todo o dia, passando pelo jogo do Gauchão, pelo Faustão e pelo Domingo Maior, durante todo o dia Dona Alice lambeu-o com o olhar de promessas, feito uma gata no cio. Luís Carlos não dormiu naquela noite, pensando na sogra. Dona Alice. Ele não acreditava. Dona Alice!

No meio da semana havia um feriado: 1° de maio. Ele sabia que veria a sogra de novo. De fato, a viu. Quando chegou ao pátio, encontrou-a de biquíni, tomando sol à beira da piscina de plástico da família.

– O-oi – cumprimentou, olhando aquele corpo, que corpo!, dourando-se lentamente, reluzindo como uma lontra.

– Oi, Lu – era a primeira vez que ela o chamava de Lu. Que delícia!

O feriado inteiro foi Lu à esquerda, Lu à direita, Lu em cima, Lu embaixo, e a cada Lu um sorriso, a cada Lu um olhar à sorrelfa. Luís Carlos queria morrer. Ele sabia, sim, reconhecer olhares à sorrelfa e malícia de mulher.

O feriado terminou, a sexta chegou e depois dela, como sói acontecer, veio o sábado. Luís Carlos tinha sido convidado para jantar na casa dos sogros. Dona Alice o recebeu dentro de um vestido leve, que subia acima dos seus joelhos redondos. Joelhos de Scarlett Johansson. Em meio ao jantar (arroz de bacalhau que ela fez com suas próprias mãos, divino, tudo nela era divino!) os olhares continuaram. Luís Carlos já não aguentava mais. Até que ela o chamou da porta da cozinha:

– Lu, deixa o pessoal aí vendo Supercine e vem me ajudar com a louça.

Ele foi, o coração batendo feito o bumbo da banda do Colégio São João. Ao chegar, ela se debruçou na pia e miou:

– Vem. Vem, Lu, vem...

Ele compreendeu o código: pulou em cima da sogra com sofreguidão, agarrando-a pelas carnes fartas das ilhargas, fazendo biquinho para beijá-la e gemendo:

– Dona Alice! Dona Alice!

Ato contínuo, introduziu sua língua por entre os dentes fortes dela e sentindo-lhe o céu da boca e as gengivas róseas sentiu também o gosto do bacalhau recente e da saliva perfumada, e gemeu de novo:

– Ddddona Alice!

Ela parecia ceder, parecia entregar-se, mas, então se deu: emitindo um grito de horror, TARADO!, Dona Alice o empurrou com força com as duas mãos e, enquanto ele batia com as costas na borda da mesa, ela repetiu:

– TARADO!!!

Acudiram o sogro, Aninha e o cachorro. Viram Dona Alice amarfanhada e Luís Carlos descomposto, vermelho, arfante, a culpa chispando no olhar.

– Ele me agarrou – acusou Dona Alice. – Me agarrou!

– Lu! – uivou Aninha, já começando a chorar.

– Desgraçado! – xingou o sogro, já se armando com uma faca de cozinha, que, minutos antes, partira uma posta de bacalhau ao meio.

Foi o fim do namoro de Luís Carlos. O fim do futuro com Aninha e do sonho com Dona Alice. E até hoje meu amigo não sabe se, afinal, ele sabe ou não identificar olhares à sorrelfa e a malícia das mulheres.

A pior profissão

Lá nos Estados Unidos, que é uma terra de estatísticas e rankings, eles montaram um ranking das melhores e piores profissões do mundo. Listaram 200 profissões. Pois sabe qual é a pior? A última? A ducentésima?

A minha. Repórter de jornal.

Sim, porque, na essência, eu sou um repórter de jornal, com muito orguuuulho, com muito amoooor.

Acima de repórter de jornal, a número 199, está a de lenhador. Aquele cara que fica dando machadadas num tronco, de camisa xadrez, aquele cara vive melhor que repórter de jornal.

Também acima estão o leiteiro (195), o leitor de água e luz (194) e o carteiro (193). Essas três profissões são parecidas: o sujeito passa o dia de casa em casa, podendo ser mal recebido, ter que enfrentar cães brabos, essas coisas desagradáveis. A propósito, lembro de um grande livro do Bukowski, “Cartas na Rua”, em que ele se vale do seu alterego para contar seu tempo como carteiro. Leia. É ótimo.

Mas, voltando às profissões, surpreendeu-me que o agente penitenciário está bem acima do repórter (189), o que atesta em favor dos presídios americanos, e também o lavador de pratos (187), o que é muito bom para os emigrantes brasileiros, bem como o faxineiro (153), e isso que eles não dispõem das leis protetivas que temos por aqui.

Lá em cima, em primeiro lugar, está o atuário, e confesso que não sei o que faz um atuário americano. Compreensível: sou um repórter de jornal, estou no fundo, no rés do chão, distante das alturas dos felizes atuários. Como sofremos, nós, repórteres de jornal.


28 de abril de 2013 | N° 17416
CAPA

MERGULHO DA GRAVATA

Quando recebeu o convite de Donna para fotografar de camisa e gravata dentro da piscina, o empresário Eduardo Bier Corrêa ficou apreensivo. Com razão, afinal, era algo inusitado. Mas sua paixão pela água e pelos exercícios físicos é tanta que o temor logo passou. E ele juntou, em uma pose, duas realidades muito presentes em seu cotidiano: o traje formal, com o qual ele participa de reuniões e compromissos profissionais, e a piscina, onde pratica natação desde garoto.

– Trato essa questão de atividades físicas de maneira bem pragmática. Nada é mais importante do que a nossa saúde, certo? Então preciso encontrar tempo para me exercitar. Uma semana tem 168 horas. Não posso aceitar a desculpa de não poder dedicar 5% desse tempo, ou oito horas, para cuidar da saúde fazendo exercícios. Não é verdade? – questiona.

Dado começou a praticar surfe com seis anos. Para manter-se condicionado quando estava em Porto Alegre e seguro quando estivesse no mar, começou a fazer natação, esporte que pratica até hoje, pelo menos uma vez por semana. Há 15 anos percebeu a necessidade de tonificar os músculos e passou a frequentar a academia.

Com a orientação de um profissional, ele faz musculação, caminhadas e corrida na esteira. Para não perder o embalo, também caminha e corre na rua com alguma frequência. Com menos intensidade, arrisca umas manobras nos boardsports: wakeboard, snowboard e skate.

Listar as atividades de Dado quase sugere que ele não faz mais nada além de se exercitar. Que nada. Aos 47 anos, tem energia de sobra para trabalhar nos três turnos, enfrentando uma rotina de reuniões, decisões, planejamento e visita diária aos restaurantes da rede.

– Estabeleci o exercício como mais um compromisso, tão importante quanto o trabalho. E tenho que cumpri-lo, da mesma forma que cumpro minha agenda profissional. Requer organização e disciplina, mas é possível. E é muito bom!

Para ter o corpo verdadeiramente saudável, Dado alia a rotina de malhação com uma alimentação balanceada e saudável – o que, segundo ele, é um dos segredos para manter a energia que o ajuda a enfrentar a pesada rotina. Um café da manhã reforçado com frutas e cereais e um almoço com muita salada e proteína (carne, peixe ou frango, ele come de tudo) são o hábito alimentar do empresário. Segredinho: barra de cereais à tarde e pouca comida à noite o ajudam a manter o peso e a forma.

E o melhor é que nada disso parece ser penoso para Dado. Ele fala da alimentação e do condicionamento físico com satisfação e prazer. Consegue se divertir no dia a dia, como se divertiu na sessão de fotos para a capa de Donna. Tudo isso por que, para ele, manter o corpo em movimento é um dos principais segredos para uma vida saudável, alegre e cheia de equilíbrio. Tudo na medida certa.

Andre Rieu - Qué Será, Será 2011

Andre Rieu - Conquest of Paradise

Andre Rieu - frank playing the bells

Andre Rieu - The Merry Widow Waltz 2003










 

Bom Fim de Semana!!
Que sempre haja flores em sua
vida seja Primavera ou não.
Que o sol sempre brilhe pra você

Que seu fim de Semana
seja de muita paz e
abençoado por Deus.
bjs no.. ♥




RUTH DE AQUINO -
26/04/2013 21h28

Vote limpo

É muita cara de pau exigir do eleitor brasileiro que “vote limpo”. Como se a lisura de nossa democracia dependesse de mim e de você. Durante dois meses, a televisão transmitiu 20 vídeos por dia para convencer o cidadão “infrator”, que não votou nas três últimas eleições, a pagar multa e regularizar sua situação. A campanha custou R$ 184 mil – de verba pública. E ameaçava punir pesado. O prazo terminou na última quinta-feira, 25 de abril.

Havia mais de 1,5 milhão de eleitores em falta com a Justiça Eleitoral. Desses, 129 mil ficaram “quites” nos últimos dias. O resto, pau neles. São maus cidadãos. O título de eleitor será cancelado, serão impedidos de tirar documento de identidade e passaporte, não poderão obter alguns empréstimos nem se matricular em qualquer escola ou universidade pública.

Não está certo. Um país que se gaba de ser uma democracia consolidada não pode transformar um exercício de cidadania num dever draconiano. Se não votarmos por impedimento geográfico ou inapetência pelo jogo sujo dos políticos, somos obrigados a nos justificar? Entre as dez primeiras economias do mundo, o Brasil, em sétimo lugar, é o único país a manter o voto obrigatório. Quem defende essa excrescência fala “em nome da representatividade”, mesmo forçada.

Os intelectuais adeptos do voto compulsório dizem que, se o voto for facultativo, menos pobres e mais ricos votarão – e o resultado da eleição será distorcido em favor da elite. É uma bobagem. Reforça a tese discriminatória de que “pobre não sabe votar”. Tantos países ricos têm lamentado a alta abstenção nas eleições. É cansativa, preconceituosa e ilusória essa tentativa de dividir as opiniões, as ideologias e a consciência da sociedade entre ricos e pobres. Como se a vontade de votar dependesse do contracheque. E como se os ricos tivessem mais motivo para votar.

Uma democracia consolidada não pode transformar um exercício de cidadania em dever draconiano

O voto obrigatório mascara o real interesse da população na eleição. Faz muita gente (de todas as classes sociais) eleger “rostos conhecidos” ou “amigos de amigos”. Falta maior consciência do eleitor, falta educação política? Falta. O voto facultativo levaria às urnas quem acha que sua escolha pode mudar o atual estado de coisas.

Falta vergonha na cara dos políticos, falta transparência nos gastos públicos? Falta. O voto facultativo obrigaria o Estado a fazer campanhas sobre a importância de participar do processo democrático. Obrigaria os políticos a se preocupar mais com sua ficha corrida e a prestar contas de seus atos. O voto seria dado com consciência e por convicção, não por medo de pagar multa. Hoje, no Brasil, o cidadão que não está em dia com a Justiça Eleitoral “não está em pleno gozo de seus direitos civis”.

Ora, diante de um Renan Calheiros presidindo o Senado... Diante do pastor Feliciano cuidando dos Direitos Humanos... Diante da presença dos mensaleiros José Genoino e João Paulo Cunha e do deputado Paulo Maluf na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara...

Diante do senador cassado Demóstenes Torres como promotor vitalício no Ministério Público em Goiás... Diante da manobra casuísta do governo Dilma para boicotar futuros potenciais adversários em 2014, como a ex-senadora Marina da Silva... Diante da lentidão da Justiça, que pode devolver à vida pública o ex-governador condenado do Distrito Federal José Roberto Arruda... Diante da censura do PT nacional a qualquer crítica aos Sarneys na TV do Maranhão, por pedido de Roseana a José Dirceu...

Diante do salário de R$ 15 mil para garçom que serve cafezinho no Senado, nomeado por ato secreto... Bem, diante de tudo isso, qual eleitor e cidadão está “em pleno gozo” de alguma coisa? Eles é que estão gozando com a gente. E ainda exigem que eu vote limpo.

Na briga entre Congresso e Supremo, com quem fica a palavra final? É uma briga chata de doer. Não há santos nem no Judiciário nem no Legislativo. Mas o momento favorece o Supremo. É no Congresso que condenados e cassados se locupletam. O deputado Nazareno Fonteles (PT-PI), autor da emenda contra o STF, se queixa de que “o Judiciário vem interferindo em decisões do Legislativo; há uma invasão de competência”. Ou seria “de incompetência”?

Ao ver na semana passada as imensas filas diante de cartórios para justificar a “infração eleitoral”, fiquei constrangida. O voto obrigatório ofende a democracia, desonra a expressão “direito de voto”. Se posso anular meu voto ou votar em branco, por que sou obrigada a comparecer às urnas?

Voto porque quero, mas respeito quem não quer. O Brasil se livrou da ditadura. Numa democracia formal, o eleitor vota se quiser, se algum candidato o representar e se achar que sua opinião conta. Um dia essa obrigação cairá, por bom-senso. Por enquanto, se os políticos querem um voto limpo, façam sua parte. Comportem-se.



27 de abril de 2013 | N° 17415OLHAR GLOBAL |
Luiz Antônio Araujo

Cheiro de crime de guerra

Não é necessário esperar pela comprovação do uso de armas químicas pelo regime sírio para se concluir que o país se tornou palco de uma das mais horrendas guerras civis deste século. As Nações Unidas estimam que mais de 70 mil pessoas tenham morrido em 25 meses de conflito. Não existe a menor dúvida sobre de quem é a responsabilidade pela matança.

Tudo começou quando pequenos grupos de ativistas de oposição, inspirados pelo que ocorria em toda a região, resolveram sair pacificamente às praças de Damasco, Aleppo, Homs e outras cidades para exigir democracia. O ditador Bashar al-Assad respondeu a sua moda: prisões ilegais em massa, sequestros, toque de recolher, bombardeios de bairros e cidades inteiras.

Com a transformação da rebelião popular em guerra civil, abriram-se as portas para o ingresso de homens e armas ligados a grupos fundamentalistas via Arábia Saudita, Iraque e Catar. Os rebeldes chegaram a tomar cidades, mas, sem o poderio militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) colocado à disposição de seus congêneres líbios, não conseguiram encurralar o regime.

É possível e, inclusive, provável que Al-Assad, um dos maiores detentores de armas químicas do mundo, tenha usado parte de seu estoque de forma discreta e limitada contra a oposição, mas não menos mortífera.

O correspondente britânico Robert Fisk recorda-se do dia em que, viajando num trem militar iraniano durante a guerra Irã-Iraque, percebeu que muitos soldados apresentavam tosse persistente. Era o indício do uso de gás venenoso pelas forças de Saddam Hussein. A guerra na Síria levou muitos dos que poderiam fazer o papel de Fisk: somente no ano passado, 28 repórteres morreram ao cobrir o conflito no interior do país.

É de grande importância que sejam apuradas de forma independente as suspeitas sobre uso de armas químicas na guerra civil síria e a extensão de danos causados à população. Mas não é isso o determinante para a decisão dos Estados Unidos de intervir no conflito de forma direta ou por intermédio de organismos como Otan e Nações Unidas.

Os EUA tergiversam porque o apoio de Irã, China e Rússia a Al-Assad segue inabalado, à parte demonstrações esporádicas de impaciência com a duração do conflito. Isolar o regime de Damasco de seus três principais aliados é a preocupação número um da diplomacia americana. Esse é o sentido da nova rodada de declarações circunspectas a respeito do perigo químico por parte do presidente Barack Obama.


27 de abril de 2013 | N° 17415
NILSON SOUZA

Oração pelo livro

Antes que o parêntese de Gutenberg se feche totalmente, como parece ser inexorável, deixo aqui registrada mais uma reverência ao livro – este pacote mágico de palavras que durante pelo menos cinco séculos vem iluminando o espírito humano.

O grande Borges, papa argentino da literatura, dizia que sua maior ambição era se tornar um bom leitor, mas ironicamente responsabilizava a invenção da imprensa pelo “emburrecimento” da humanidade. Na sua visão (sem qualquer intenção de ironia da minha parte), o trabalho manual dos monges copistas era uma espécie de controle de qualidade da literatura.

Depois que o inventor alemão criou os tipos móveis, a impressão de livros popularizou-se e possibilitou a publicação de qualquer coisa que se escrevesse. Daí o sarcasmo de Borges em relação aos maus textos. Isso que ele não conheceu as redes sociais: agora, sim, tudo que vem à cabeça das pessoas acaba sendo publicado, pois os indivíduos ganharam o poder de divulgar para o mundo até mesmo seus mais sombrios pensamentos.

Apesar dos leitores eletrônicos que carregam bibliotecas inteiras, os livros impressos resistem bravamente. Esta semana mesmo, tivemos várias manifestações de apreço a essa relíquia de papel que ainda tem um contingente de defensores.

Em Porto Alegre, escritores, intelectuais e leitores em geral promoveram o chamado “livraço”, com um abraço simbólico na Biblioteca Pública, para reivindicar exatamente uma casa nova para o acervo lá existente. Com livros nas mãos, nossos representantes fizeram o cerco planejado e leram trechos em voz alta, numa espécie de oração coletiva pela sobrevivência da espécie.

Rezar é o que nos resta. Os jovens não leem mais nada que exceda 140 caracteres. Os adultos leem cada vez menos. A tecnologia tomou conta do nosso tempo e dos nossos cérebros. Exagero, claro. Ainda tem muita gente que lê à moda antiga, inclusive alguns adolescentes que mantêm acesa a chama da leitura.

Na minha família mesmo, tem uma menina de 14 anos que já deve ter lido mais livros do que eu. Mas essas criaturas são exceções, não nos enganemos. A regra geral entre os jovens é passar o dia inteiro no computador, no tablet e no smartphone, com atenção total nos jogos e na interatividade. Já nem sei se isso é bom ou ruim, pois a garotada parece feliz assim. E tenho sérias dúvidas de que, com o acesso fácil a qualquer informação, eles ainda precisem buscar conhecimento nas mesmas fontes que serviram à minha e a muitas outras gerações.

Ainda assim, também rezo em silêncio pela sobrevida do livro de papel, com textura, cheiro e a magia que as páginas revelam. Se depender de mim, não fechamos nunca este parêntese.


27 de abril de 2013 | N° 17415
PAULO SANT’ANA

Contraponto indispensável

Na terça-feira, escrevi sobre uma tendência invencível da Justiça do Trabalho de dar ganho de causa aos empregados em desfavor dos patrões. Por sinal, isto é um conceito corrente nas ruas, não observei nada de novo. É que por óbvio o órgão de classe dos juízes do Trabalho respondeu àquela minha coluna e eu sou obrigado a publicar a resposta.

Ei-la: “Antes de mais nada, quero dizer que sou teu fã. Passei a minha infância te ouvindo no Sala de Redação, junto com o meu pai, quando aprendi a te admirar. Mais tarde, quando comecei a ler diariamente a tua coluna em Zero Hora, essa admiração somente aumentou. Tu és uma lenda viva da imprensa gaúcha.

Mas te escrevo para defender a magistratura trabalhista, que foi dura e injustamente atacada na tua coluna da última terça-feira, quando trataste sobre a nova legislação dos trabalhadores domésticos.

O dito teu amigo, que te fez um relato sobre a sua experiência na Justiça do Trabalho, pisou na bola, e pisou feio, de maneira leviana e irresponsável.

Erros são praticados e cometidos por todos nós. No entanto, em um Estado democrático de direito, em que cabe ao Judiciário zelar pelo cumprimento das leis e da Constituição Federal, esses erros porventura cometidos em decisões judiciais podem ser corrigidos mediante a interposição de recursos.

Portanto, utilizando a mesma expressão usada por ti na coluna mencionada, é absurdo dizer que a parte não teve a oportunidade de provar o seu direito à Justiça do Trabalho. Vai muito além do absurdo referir, como referiste, que a Justiça do Trabalho não teria lhe dado oportunidade de provar o alegado.

Uma das grandes críticas que se faz ao Judiciário, inclusive pela imprensa, é a demora na tramitação dos processos. E por que eles demoram? Porque é conferida ao cidadão uma gama enorme de recursos, justamente para que tenha a oportunidade de buscar a reforma ou até mesmo a correção de eventuais equívocos ou excessos. Num único processo poderemos ter a interposição de mais de 10 recursos, todos eles visando ao reexame da matéria por outros juízes, inclusive por um colegiado de desembargadores.

Portanto, é no mínimo injusta e desleal a opinião trazida pelo teu amigo, pois não podemos esquecer que o Judiciário é, muitas vezes, a última porta a ser batida, na busca do direito negado e ferido. A propósito, será que o ex-empregado do teu amigo tem a mesma opinião dele a respeito do relatado? Seria bom ouvi-lo, para mantermos o equilíbrio necessário no debate.

Em outro momento, para não tomar mais o teu precioso espaço, poderemos debater um pouco a nova legislação dos trabalhadores domésticos, quando terei o prazer de tecer as críticas e os elogios necessários a esse novo regramento constitucional.

Por conhecer a tua conduta profissional, tenho certeza de que irás publicar esta resposta, que é o contraponto indispensável ao que foi dito.

Um abraço daquele que respeita, e muito, as tuas reflexões. (ass.) Rubens Clamer dos Santos Júnior, vice-presidente no exercício da Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho da 4ª Região”.