sexta-feira, 27 de maio de 2016


27 de maio de 2016 | N° 18536 
NÍLSON SOUZA

O LOBISOMEM DE SÃO SEPÉ


Uma das minhas frustrações é nunca ter visto nada de sobrenatural ou extraterrestre. Tenho um companheiro de trabalho, lúcido, sério e recatado, que garante ter visto um disco voador. Conheço uma jovem que afirma ter flutuado acima do próprio corpo – fenômeno que a ciência explica como catalepsia projetiva, uma ação cerebral que se dá entre o sono e o estado de vigília. Nunca saí da cama antes do meu corpo. Nem jamais vi alma de outro mundo, lobisomem ou mesmo o fantasma da ópera.

E admito que não sou dos mais corajosos: uma vez estava sozinho no cemitério num final de tarde, olhando para um desses monumentos de arte tumular, quando tocou a sirene de encerramento das visitas. Foi o mais perto que me ocorreu de sair do próprio corpo, pois as pernas ficaram paralisadas e o coração disparou. Mas passou logo.

Mesmo sendo cético de carteirinha, gosto de histórias de assombração e de realismo fantástico. Outro dia reli os Doze Contos Peregrinos, de García Márquez, e voltei a me encantar com a história do castelo de Ludovico, que coincidentemente se chama Assombrações de Agosto. Logo o meu mês de nascimento, sobre o qual já escrevi vários desagravos, contrariado com o rótulo de mau agouro que lhe atribuem alguns nativos de outras partes do calendário. Pois a crônica da passagem do escritor colombiano pela fortaleza italiana tem um desfecho arrepiante, que me reservo o direito de não contar aqui.

O que conto, depois desse preâmbulo todo, é a minha dificuldade para atender o pedido de uma colega de ofício que trabalha para a TV japonesa. Ela me escreveu solicitando informações sobre o lobisomem de São Sepé, que teria atacado uma jovem da cidade em 2009. A moça disse que foi agarrada e arranhada por um ser peludo, de quase dois metros de altura, que fugiu em quatro patas quando uma vizinha acendeu a luz. Teve ocorrência policial e tudo. O delegado chegou a suspeitar de que alguém estava usando uma fantasia para assustar a população. Mas a investigação, pelo que se sabe, deu em nada.

Agora, os japoneses querem ressuscitar a história. Se alguém souber de algo a respeito – mesmo que seja o próprio lobão –, por favor me escreva que repasso à coleguinha. Leia outras colunas em zhora.co/nilson_souza

quinta-feira, 26 de maio de 2016

pasquale cipro neto

26/05/2016  02h00

O sempre intemporal Padre Vieira

Dia desses, uma manchete ruim (mais uma) de um site me trouxe à mente uma velha questão da Fuvest baseada num trecho de um sermão de Vieira. A manchete era esta: "Corinthians e Grêmio lideram possíveis baixas que a Copa América trarão".

Há um erro de concordância nesse título. Flexionada no plural, a forma "trarão" deve ser trocada por "trará". É a Copa América que trará as baixas: "...lideram possíveis baixas que a Copa América trará".

Esse título me trouxe à mente uma questão da Fuvest baseada neste fragmento do intemporal "Sermão de Santo Antônio aos Peixes", de Vieira, pregado em São Luís em 1654: "A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande".

O candidato deveria reescrever o segundo período do trecho substituindo "escândalo" por "escândalos" e fazendo as adaptações necessárias. Foi esta a resposta dada por boa parte dos que erraram: "Grandes escândalos são estes, mas a circunstância os fazem ainda maiores".

De novo, apareceu um plural indevido. A forma verbal "fazem" deve ser trocada por "faz", já que o seu sujeito é "a circunstância"; é ela, circunstância, que faz ainda maiores os escândalos. Vamos lá: "Grandes escândalos são estes, mas a circunstância os faz ainda maiores".

O erro provavelmente decorre da influência que o termo mais próximo do verbo (o pronome "os") exerce sobre o redator ou falante.

Vale a pena aproveitar esse maravilhoso sermão para destacar um fato linguístico interessante. Releia: "Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos". O caro leitor notou o valor das formas verbais "fora", "era", "comeram" e "bastara"?

Como se sabe, os tempos verbais não podem ser tomados só pelo seu valor específico. É pobre, por exemplo, limitar a definição do presente a algo como "tempo que indica o fato que ocorre no momento da fala". Esse é o valor específico do presente, o que não anula o seu emprego em construções como "Volto amanhã", "Todo homem é mortal" etc.

O mesmo ocorre com o pretérito mais-que-perfeito, que, como vimos recentemente, indica fato passado perfeito, ou seja, totalmente concluído, anterior a outro, também perfeito. Vieira emprega o mais-que-perfeito com valores diferentes do específico: "fora" está por "fosse"; "comeram", por "comessem"; "bastara", por "bastaria". E "era", do pretérito imperfeito do indicativo, está por "seria", do futuro do pretérito do indicativo. Tudo dentro dos cânones da língua literária (de ontem e de hoje, é bom que se diga).

"E eu? Menos a conhecera mais a amara?" Isso não tem três ou quatro séculos, não. Está na canção "O Estrangeiro", de Caetano Veloso. Vamos à "tradução": "E eu? Se a conhecesse menos, mais a amaria?".

Não resisto à tentação de exaltar a atualidade de Vieira ("Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos."). Qualquer semelhança com o que anda acontecendo no Brasil... É isso. 



Cliente e empresa trocam poemas sobre reclamação em conta de água
MARINA ESTARQUE
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
26/05/2016  02h00 - Alan Marques/Folhapress

Como dizia o poeta Castro Alves, livro caindo na alma é chuva que faz o mar. Na alma da funcionária Aline Santos, o poema do cliente Luiz Carlos Garcia, 64, também fez desaguar: as lágrimas.

A carta de Garcia, com 160 versos rimados, era uma reclamação por cobranças indevidas à Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal, a Caesb.

BRASÍLIA, DF, BRASIL, 25.05.2016. Luiz Carlos Garcia mora sozinho e passou a receber contas de água de mais de mil reais. Trocou os canos de casa, para evitar vazamentos, mas a conta continuou alta. Decidiu escrever um poema, direcionado ao presidente da Caesb (empresa de saneamento), descrevendo o problema. A empresa resolveu a falha e uma funcionária respondeu ao cliente também com uma poesia. 

Luiz Carlos Garcia, que recebeu contas de água abusivas e fez reclamação em forma de poema
Apesar de morar sozinho em uma casa em Brasília, o valor da conta mensal de água de Garcia atingiu R$ 1.150. Em vez de um telefonema raivoso ou de um e-mail malcriado, Garcia, que é consultor de projetos, escreveu: "O hidrômetro que marca e conta/a água que aqui consumo/é como fumaça que espalha/de um cigarro que não fumo."

Inspirado nos versos de Castro Alves, um dos seus escritores preferidos, e também na Terceira Lei de Newton (da ação e reação), Garcia quis fazer a queixa da forma mais "gentil e delicada" que podia. "Se você trata o outro com respeito e dignidade, é isso que você recebe de volta. É uma questão de posicionamento na vida", justifica.

CONSUMO MODESTO

Ao longo do texto, Garcia conta que mora sozinho, faz um consumo modesto do serviço e, mesmo assim, a cobrança teria sido muito alta. "Nem para beber uso água/que da rede aqui deságua/das minerais me abasteço/e disso não guardo mágoa."

Garcia descreve também que fizera uma obra para trocar o encanamento da casa e corrigir eventuais vazamentos. Entretanto, depois da reforma, a conta continuava muito superior à dos vizinhos.

Ele aponta então o responsável pelas falhas, "mui" respeitosamente: "A Caesb é empresa séria/não há dúvidas que eu levante então nessa minha história/o hidrômetro é o meliante". A carta, endereçada ao presidente da companhia, foi protocolada em março. Um dia depois, o cliente recebeu uma ligação do vice-presidente, que prometeu investigar o caso.

Passado cerca de um mês, a carta chegou às mãos de Aline Santos, 46, encarregada de redigir uma resposta à altura. A empresa havia identificado um vazamento na rede e pretendia devolver, por meio de descontos, o valor já pago pelo "consultor poeta".

Assim que leu o poema, na frente dos outros funcionários, Aline começou a chorar. "Todo mundo riu, eu sou frouxa mesmo", diz. Além de supervisora do escritório de atendimento ao cliente, ela é formada em letras e apaixonada por poesia. É conhecida na empresa por cobrar da equipe o uso correto da língua portuguesa.

ATÍPICO


"O poema foi algo totalmente atípico. Me tocou porque me senti respeitada como empregada e como pessoa. Geralmente o que a gente encontra aqui é o extremo oposto. As pessoas quando vêm reclamar já chegam com pedras nas mãos", conta.

Aline levou o texto de Garcia para casa e elaborou outro poema, como réplica oficial da empresa. "Vimos pelo presente documento/Apresentar os resultados apurados/Na esperança de que com esse intento/Encerremos seus desagrados."

A funcionária da companhia diz que costuma escrever prosa –contos que ainda não saíram da gaveta–, e não poemas, mas que se esforçou para manter o estilo de Garcia. "E eis que ficou constatado/A ocorrência de um vazamento/Comprovadamente sanado/No mais curto espaço de tempo", prosseguiu.

"Quis fazer uma homenagem. Ele humanizou uma relação comercial, e isso é fantástico", diz a supervisora. Garcia ficou surpreso com a resposta –"Uma gentileza maravilhosa"– e com as contas dos meses seguintes. Os valores caíram drasticamente até atingir R$ 127.

Ele aconselha: "Quando você tem um problema e a solução depende dos dois, é melhor tratar o outro como fonte de ajuda, e não como um obstáculo". Com a conta de água em seu preço justo e o desperdício interrompido, o consumidor poeta se permite um trocadilho: "A história desaguou em um final feliz".

Confira abaixo a troca de poemas.

Poema do cliente para a empresa


Senhor Presidente

Venho mui respeitosamente à presença de vossa senhoria para apresentar e requerer o que se segue:

Venho à vossa senhoria
externar o que me aborrece
se não pode perseverar
aquilo que me entristece

O hidrômetro que marca e conta
a água que aqui consumo
é como fumaça que espalha
de um cigarro que não fumo

Desde que foi instalado
o novo tecnológico instrumento
a cada leitura nele feito
perco até os movimentos

Preocupado com a conta
que sempre me mostra aumento
até contratei uma empresa
que se diz caça-vazamento

Na verdade o que queria
na lucidez do momento
era encontrar uma forma
para estancar o tormento

E um trabalho dedicado
puseram-se os homens a fazer
na busca de saber se o indicado
eles poderiam resolver

Depois de muito procurar
em canos, válvulas e torneiras
disseram-me algo encontrar
que explicasse d'água a peneira

Puseram-se então a falar
na rede, este trecho é o problema
se os canos daqui, for trocar
resolvemos o seu dilema

Cem metros de cano comprei
cola, lixa e conexões
depressa do comércio voltei
atendendo as orientações

Fizeram toda tarefa
da rede modificar
depois foram-se embora
p'ra outras casas visitar

Grande foi a minha surpresa
que nem sei como contar
fui consultar o hidrômetro
e ver o que ele estava a marcar

Quando o olhei atentamente
com tudo na casa fechado
lá estava o renitente
a se mover, desesperado

Acreditar? já não podia
naquilo que ali, eu via
restou-me naquela agonia
me apegar n'alguma magia

Aqui moro sozinho
sem filhos, mulher, empregado
não lavo roupas, nem cozinho
só no banho, o líquido é usado

Nem para beber uso água
que da rede aqui deságua
das minerais me abasteço
e disso não guardo mágoa

Também não recebo visitas
que a água pudessem consumir
por isso procurar respostas
é no que preciso insistir

Minha casa é bem pequena
apenas cem metros quadrados
nela só faço dormir
e preservar meus guardados

Não levo os jardins a regar
nem carros eu deixo lavar
calçadas com a água esfregar
por onde esta água escoar?

Faxino a casa com balde
e um pano p'ra no chão passar
diz minha consciência em alarde
a água é p'ra se economizar

Uma coisa é verdade
que aqui preciso indagar
como pode uma só pessoa
tanta água no mês gastar?

Um mistério se formou
se esta água aqui entrou
se dela pouco se usou
a maior parte evaporou?

A vários vizinhos perguntei
e a pessoas que conheço:
da água que consomem por mês
na conta vem qual o preço?

Quando minha conta os mostrei
consternação demonstraram
_ao sentir o quanto assuste,_
procure a Caesb, falaram

Até mesmo em casas grandes
de famílias numerosas
os valores lançados nas contas
não são de montas onerosas

Em outros tempos diria
quando a rede era antiga
mesmo achando água cara
a conta era bem mais amiga

Depois dessa rede mudada
p'ra outra que diferença não vi
me chega a conta inusitada
a cobrar o que não consumi

Recibos passados eu junto
para sustentar o que escrevo
pois como um bom cidadão
sempre pago o que devo

A Caesb é empresa séria
não há dúvidas que eu levante
então nesta minha história
o hidrômetro é o meliante

Sei que não posso acusar
se provas me estão a faltar
mais se a suspeição está no ar
é preciso investigar

Peço a vossa senhoria
que mande me socorrer
pois se a conta assim ficar
de infarto posso morrer

Com licença, peço aos peritos
dessa Companhia honrada
para o indivíduo estudar
e esta situação aclarar

Com suas técnicas e instrumentos
sobre o dito cujo, aplicados
saberemos se seu trabalho
é correto ou é viciado

Se inocente estiver
desculpas já devo pedir
mais recolhido deverá ser
se nele a culpa recair

Se comprovado, o erro for
de quem o consumo media
devolva-me com prontidão
o que paguei e não devia

Ou se preferir modo outro
proponho a vossa senhoria
descontar o tal valor
quando faturar a Companhia

Pois se assim não for feito
outro caminho não há
se não o de ir a justiça
o meu direito reclamar

Rogo vossa senhoria
uma providência tomar
pois não é justo essa conta
eu ter que continuar a pagar

Assim, deixo o meu pedido
em forma de poesia
se escrever é uma arte
que me enche de alegria

E, antes que se faça tarde
neste tempo, o que pronuncia
antecipo meus agradecimentos
junto a vossa senhoria

Como nos ensina a lição
que nos vem d'antigamente
despeço-me no último verso
com um gentil, cordialmente.

Poema da funcionária da empresa para o cliente

Sr. Luiz Carlos

Em resposta à sua manifestação
Sob o n.º 1.723/2016 protocolada
Na qual nos chamou atenção
O brilhante uso da nossa língua falada
Vimos pelo presente documento
Apresentar os resultados apurados
Na esperança de que com esse intento
Encerremos os seus desagrados

A fim de verificar
A situação apresentada
Pusemo-nos a vistoriar
As instalações internas afetadas
E eis que ficou constatado
A ocorrência de um vazamento
Comprovadamente sanado
No mais curto espaço de tempo

Para assegurar um fornecimento
Contínuo, lhano e escorreito
Fora instalado um equipamento
De precisão, em seu conceito
E ao fim de 58h constantes
Registrou o importante instrumento
Não haver na rede pressões variantes
Que provocassem um derramamento

Desta forma, concluímos que o vazamento
Ocorrido em sua residência
Tratou-se de um fortuito acontecimento
Lamentável em sua essência
E, atendendo a Resolução da Adasa
Que norteia os procedimentos desta Casa
Foram concedidos os descontos possíveis
Aos casos de vazamentos imperceptíveis

Estão creditados para os próximos faturamentos
Valores resultantes das revisões das contas
Limitadas a dois consecutivos eventos
Com prazo de 12 meses para nova remonta
Mas sabendo dos hábitos conscientes
Por V. Sª praticados
Certamente não será recorrente
O evento outrora cessado

Pessoalmente quero aqui registrar
Minha admiração e meu mais profundo respeito
Posto que, lamentavelmente, não é comum encontrar
Quem faz do uso da palavra um belo feito
Compartilhando da mesma paixão
Me despeço com leniência
E digo com admiração
Receba minha reverência


26 de maio de 2016 | N° 18535
EDITORIAIS

SABOTADORES DE MANIFESTAÇÕES


Multiplicam-se pelo país os protestos contra a mudança de governo e contra os novos ocupantes do poder. Tais manifestações são legítimas e democráticas, pois a Constituição garante aos brasileiros o direito de se expressar livremente e de participar de atos públicos, desde que pacíficos e sem privar outras pessoas de seus direitos. 

Porém, como ocorreu em 2013, quando os chamados black blocs desmoralizaram os protestos com atos violentos, fazendo com que a população rejeitasse o movimento, também agora alguns desequilibrados infiltrados entre os manifestantes já começam a despertar repulsa. É o caso das pessoas que depredam, sujam e agridem, valendo-se do anonimato e da proteção da multidão.

Trata-se de uma minoria, todos sabem disso. Tanto que as forças de segurança, com raras exceções, têm feito o possível para não entrar em choque com manifestantes. Em Porto Alegre, alguns policiais chegaram a ser atingidos por pedradas na última terça-feira, mas evitaram utilizar a força – o que merece aplauso e reconhecimento.

Só que o controle policial também tem limite. Por isso, antes que ocorram confrontos indesejáveis, é imprescindível que as lideranças dos movimentos que articulam os protestos identifiquem os sabotadores e os enquadrem no comportamento civilizado da maioria. Quem lidera multidões sabe muito bem que os covardes que atiram pedras não são aliados – são inimigos que acabam desmerecendo a causa defendida, por mais justa que seja.


26 de maio de 2016 | N° 18535 
DAVID COIMBRA

Uma delícia de seminário

Dia desses, tive de responder a uma espécie de questionário pela internet. Não queria fazer aquilo, mas tinha de. Fiquei uma hora clicando no mouse, sentindo a pastosa monotonia me entorpecer os músculos e o cérebro. Uma hora inteira. Sessenta minutos.

Fiquei pensando em todas as coisas sem sentido que já fiz na vida. É um pensamento antigo que tenho. Quando fiz minha primeira carteira de identidade, pensei muito nisso. Lembro bem daquele dia d’antanho, época da juventude e da apóstrofe. Gastei horas sentado lá num lugar em que se faziam carteiras de identidade. Devia ter levado algum livro, mas não. Apenas continuei lá, parado, olhando para uma sujeirinha na parede.

Assim foram todos os seminários a que me obrigaram a ir. Aí está uma palavra terrível, seminário. Uma vez, um grupo neofeminista tentou mudar essa palavra porque, segundo elas, é machista, já que seminário vem de sêmen. Elas relacionaram o sêmen com o esperma, que é um produto exclusivamente masculino, digamos assim. Trata-se de um equívoco, tanto quanto o caso da horrenda palavra presidenta. O “sêmen” do “esperma”, como o do “seminário”, vem de “semente”, não do que elas imaginam. Aliás, esperma se origina do grego sperma, e também quer dizer semente. Ou seja: nem que fosse esperminário seria algo machista.

O sêmen do seminário é exatamente isso: semente de conhecimento etc. Você vai a um seminário e aprende coisas. Ou devia. Eu nunca aprendi. Eu sempre me aborreci em seminários. Odeio seminários.

O problema é que, volta e meia, as pessoas querem que você vá a seminários ou preencha formulários ou reconheça assinaturas ou ouça a opinião abalizada delas sobre o Brasil ou, o horror!, elas chegam de manhã e começam:

– Nessa noite eu tive um sonho estranho. Eu estava num lugar, mas não estava ao mesmo tempo, era eu e não era, entende?

E você fica fazendo de conta que está prestando atenção.

Agora reflita: nosso período de validade debaixo do sol é parco. Segundo o Gênesis, o homem que viveu mais foi Matusalém: 969 anos. Porém, aquele era um mundo de pecados, totalmente diferente do de hoje. Aí Deus se arrependeu de ter criado o homem, mandou o dilúvio se derramar sobre a Terra e só permitiu que sobrevivessem o neto de Matusalém, Noé, e sua família. Por fim, para não arriscar, Deus resolveu limitar o tempo de vida humana em 120 anos.

Certo.

Só que é difícil chegar a essa marca. Na semana passada, morreu a pessoa mais velha do mundo, uma senhorinha aqui de Nova York que tinha 116 anos. O que de forma alguma pode ser considerado regra. Vamos colocar a média em 75 anos. Desses, um terço nós dormimos. Sobram 50. Quanto dessa breve temporada nos tomam, obrigando-nos a preencher formulários e a assistir a seminários? O tempo que perdi nessas chatices, quem vai me devolver?

Não adianta ficar em busca do tempo perdido. Ele não será encontrado.

Aliás, sobre Em Busca do Tempo Perdido, vou contar algo que escandalizaria o Tatata, se ele estivesse vivo: não li os sete volumes. Larguei no meio. Toda aquela vagarosa divagação do Proust começou a me inquietar e achei que estava... perdendo tempo.

Não é o único clássico que me falta. E aí está outra palavra que pode despertar preconceitos politicamente corretos. Clássico era o que os antigos romanos diziam do que pertencia à classe alta, aos patrícios, que eram os “pais da pátria”. Não tinha conotação pejorativa, nos primeiros tempos – os plebeus admiravam os patrícios. Mas depois quiseram emulá-los, passaram a exigir equiparação e... bem, é história comprida, vou deixar para outras colunas. Agora, não tenho tempo a perder. Vou abrir ali uma Blue Moon geladinha.


26 de maio de 2016 | N° 18535 
CARLOS GERBASE

NÃO É GOLPE. É INVASÃO!


Batman, Superman, Capitão América e os X-Men invadiram o Brasil. Eles ocuparam nosso território. Eles acabaram com nossa soberania. Esses pretensos heróis planejaram sordidamente lançar três ondas de ataque, numa sequência infernal e irresistível. A invasão começou com a anexação de 1.331 salas de cinema pelo fortão que veio de Krypton e pelo Homem-Morcego. A tática foi genial: simularam uma briga terrível entre eles, quando na verdade trabalhavam juntos para ocupar quase metade do nosso território.

A segunda onda, que atingiu o número recorde de 1,4 mil salas, foi capitaneada pelo Capitão América. Desculpe a redundância, caro leitor, mas em tempos de guerra a mente deste colunista fica fora de foco e tremida, como as fotos de Robert Capa no desembarque da Normandia. O golpe final, que era para ser de misericórdia, mas essa palavra não consta do dicionário mutante, foi desferido pelos X-Men, que entraram atirando em 1,2 mil salas. Mystique, é claro, não atirou. Só tirou a roupa.

Total de salas ocupadas sequencialmente pelos invasores: 3.931. O total de salas no Brasil é de 2.870. Isso significa que eles não ocuparam apenas todo o território brasileiro. Eles anexaram o Uruguai e o Paraguai, além de construir um shopping com 10 salas na praia da Cacimba do Padre, em Fernando de Noronha. São bons esses invasores! São competentes! São encantadores! Tanto que a população brasileira jogou beijos e flores sobre eles, repetindo a cena da entrada das tropas nazistas na Tchecoslováquia.

O governo brasileiro tentou reagir. Chamou o Capitão Nascimento, mas este declarou que estava aposentado. Nosso herói sugeriu que a última encarnação do RoboCop poderia ajudar, já que eles têm o mesmo pai, mas o Tio Sam não gostou da ideia. Então, num momento de desespero, foram convocados todos os personagens das comédias nacionais de sucesso. 

A ideia era matar os invasores de tanto rir. Funcionou por algum tempo. Eles ficaram de pernas pro ar, e Superman disse para Batman: “Se eu fosse você, não usava essa máscara horrorosa”. Mas logo os invasores perceberam que as piadas eram todas iguais, pulverizaram os comediantes e estão planejando trocar o nome de Brasília para Vichy. Quem será nosso Pétain?

26 de maio de 2016 | N° 18535 
L. F. VERISSIMO

Mouro


Compraram um cachorro para cuidar da casa. Depois de tantos roubos e arrombamentos, depois de tantos ataques ao seu patrimônio, a família decidiu que só um cachorro resolveria. Mas um cachorro de verdade, treinado para pegar ladrões, não apenas espantá-los. Nada parecido com um cachorrinho antigo da família, chamado Frufru, um inútill que morrera de susto ao ver um gato.

Mouro – deram-lhe o nome de Mouro por causa da sua assustadora cor preta – era um cachorro especial. Quando entrava alguém na casa, ele corria para cheirar o recém-chegado. Isto causou o primeiro problema com Mouro na casa. Um dia, a filha chegou com um namorado, e o cachorro, depois de cheirá-lo, derrubou-o no chão e sentou em cima do seu peito, como se esperasse a chegada de reforços para dominá-lo. Descobriram depois que o namorado carregava maconha no bolso. O namorado foi aconselhado a nunca mais aparecer na casa e foi corrido para a rua pelo Mouro, sob protestos da filha.

Mouro não dormia. Passava a noite rondando pelo jardim da casa ou dentro da própria casa. Mais de uma vez, quando levantava no meio da noite para fazer xixi, o dono da casa quase tropeçara no cachorro, cuja cor preta o tornava invisível no escuro. E a dona da casa se queixava dos sustos que levava, cada vez que o cachorro entrava, silenciosamente.

– Esse cachorro está começando a atrapalhar a nossa vida – disse a mulher.

– Você está maluca? – disse o marido. – O Mouro é formidável. Apareceu algum ladrão por aqui depois que ele chegou? Nenhum.

– E o que o Mouro fez com o meu primo Artur, expulsando-o da nossa casa e correndo atrás dele pela rua?

– É. Mas depois se soube que o Artur está envolvido num negócio de propina. Ele deve ter farejado alguma coisa.

– Mas ele é que está mandando na nossa casa?

– Não exagera.

– Qualquer dia, ele cheira você e descobre aquele seu rolo com a Receita...

– Você acha?

quarta-feira, 25 de maio de 2016


25 de maio de 2016 | N° 18534 
MARTHA MEDEIROS

Amor não retribuído

Basta uma mulher manifestar certa amargura e logo surge alguém para chamá-la, ofensivamente, de mal-amada. Pois então. É o que somos todas, mal-amadas. E todos os homens são também. De Norte a Sul, formamos uma população de mal-amados: o país não quer nada com a gente.

Desde que comecei a ter alguma noção de política (no meu caso, quando entrei na faculdade), mantenho uma relação de desconfiança com o Brasil. Sabia que ele havia feito sofrer muita gente antes de mim, um repressor sádico, que torturava entre quatro paredes. Eu o amei quando criança porque não o conhecia direito, até que cresci e ele pareceu crescer também, democratizando-se e passando a fazer promessas que eram tudo o que alguém apaixonado gostaria de ouvir.

O Brasil é um sedutor. No discurso, acena com reciprocidade. Necessidades básicas atendidas. Direito de ir e vir, liberdade de expressão, troca de ideias. Uma relação adulta, prazerosa, possibilitando que todos evoluam juntos. O amor ideal.

Mas o Brasil fala muito e faz pouco. O Brasil promete e às vezes chega perto de realizar nossos sonhos, mas logo reincide na cafajestada. Não sai da adolescência. Vive se deixando levar pela lei do menor esforço, querendo obter vantagens, sobrevivendo de conquistas rápidas e inconsistentes, deslumbrado pelo próprio poder e esquecido de suas obrigações. Um gargantão que às vezes dá a impressão de que virou gente grande, mas virou nada, é o mesmo moleque de sempre.

Diante desse descompromisso explícito por parte dele, nasceu nossa mágoa. O povo brasileiro, em sua maioria, hoje se comporta como quem levou um fora. Como quem teve seu amor recusado. E daí para ficar rancoroso é um passo.

A gente acreditou que iria dar certo. Acreditou que haveria futuro, uma relação sólida e para sempre. Que o visual exuberante, esse país tão belo, tinha também conteúdo, honestidade, ética, inteligência. Mas ficou só no desejo, não rolou. Todas as brasileiras são mulheres de bandido. Todos os brasileiros se envolveram com uma nação biscate. O Brasil não quer saber de relacionamento sério. É crau e fim. Não telefona nem manda flores no dia seguinte.

Cada um de nós ainda procura se apegar a algo que nos pareceu bom no início da relação com o país – o que pareceu bom pra você? Os militares? Sarney? Collor? Fernando Henrique? Lula? Deu em nada ou quase nada. Hoje estamos todos nos xingando mutuamente, numa ânsia desesperada de apontar culpados pela própria desilusão, sem perceber que temos algo profundo em comum: o ressentimento. Uma tremenda dor de cotovelo. Somos todos vítimas de um amor cívico que o país nunca retribuiu.


25 de maio de 2016 | N° 18534
ARTIGOS -  CEZAR ROBERTO BITENCOURT*

O MINISTÉRIO PÚBLICO NÃO TEM PODER ABSOLUTO


A afirmação do novo ministro da Justiça, Alexandre Moraes, causou grande desconforto ao novo poder central e revoltou os poderosos denunciados – os vários Ministérios Públicos do país. O ministro, referindo-se à respeitável e poderosa instituição do Ministério Público, afirmou que “o poder de um Ministério Público é muito grande, mas nenhum poder pode ser absoluto”.

Nesse sentido, o ministro Alexandre Moraes, a rigor, não disse nada de novo, apenas repetiu algo que o próprio Supremo Tribunal Federal tem reiterado nos últimos tempos, qual seja, que sob a égide da Constituição Federal de 1988 não existe direitos nem poderes absolutos! Não fosse a hipertrofia que o Ministério Público vem, na prática, ostentando nos últimos tempos, não passaria de um “lugar-comum” expressado pela referida autoridade.

Ninguém desconhece o perfil institucional do Ministério Público desenhado no texto constitucional e, embora não o tenha classificado como um dos poderes da República (Executivo, Legislativo e Judiciário), atribuiu-lhe a elevada função de “instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis” (art. 127), na Seção I do Capítulo IV, que trata “Das funções essenciais à Justiça”.

Na realidade, o constituinte de 1988 não criou um quarto poder e tampouco atribuiu ao Ministério Público o status de tal poder, embora muitos se achem e portem-se como tal. Atribuiu-lhe tão somente a condição de uma das instituições exercentes de “função essencial à Justiça” (vide Seção I, do Capítulo IV do Título IV da CF).

Por outro lado, os brasileiros percebem a hipertrofia que ganhou o Parquet no cenário nacional, conquistando paulatinamente status semelhante, ao que gostam de afirmar, de uma espécie de quarto poder, arranhando com isso os limites constitucionais de sua atuação, indo além, portanto, das atribuições que lhe são asseguradas no Capítulo IV, Seção I, da CF, que trata “Das funções essenciais à justiça”.

A importância que o Ministério Público desfruta no âmbito constitucional brasileiro, aliás, é invejada por seus pares da comunidade europeia. Mas toda essa gama de privilégios, poderes institucionais e prerrogativas equiparadas à magistratura nacional não o autoriza a invocar o status de um quarto poder, e, muito menos, imaginar-se dotado de poder absoluto, que nenhum poder da República tem.

Doutor em Direito Penal, professor universitário e advogado criminalista*

25 de maio de 2016 | N° 18534 
PEDRO GONZAGA

20 DE MAIO


Era madrugada quando cheguei em casa, ainda morava com minha mãe. Sentei à mesa da cozinha, o corpo vagamente preso ao recente encontro amoroso, mais bem estaria na cama a recordar os deleites daquela noite. Mas ali estava eu, à mesa, com um súbito desconforto que a memória teria apagado – que de presságio eu não poderia chamar –, não fosse o telefone que logo tocou.

Durante muitos anos relutei em escrever sobre isso. Em alguns poemas apenas toquei no assunto. Naquela ligação que minha mãe atendeu, congestionada pelo sono, avisavam que meu primo havia se acidentado. Corremos à casa de meus tios, moravam perto de nós, a tempo de vê-los chegar com a notícia. Não precisaram dizer nada. 

Diriam e fariam muito ao longo dos anos seguintes, conscientizando e salvando jovens com a Fundação Thiago de Morais Gonzaga e a Vida Urgente. Lá, pouco depois, incapaz de lidar com a cena, percorri sozinho o caminho de volta para casa. Eu tinha então dezenove, meu primo mal completara dezoito.

Relutei em escrever sobre isso porque me lembro também da dor do meu irmão, da dor de minha avó Domenica, tão maiores, e há uma cortesia tácita que agora descumpro, que reza que a dor menor se cala.

Mas percebo que tentar falar desta dor é de algum modo falsificá-la, distorcê-la, qualquer coisa diferente do que guardo dela. Porque nossas memórias têm a potência de registrar com peculiar intensidade tudo o que sentimos diante do choque, num lugar em que não há comparações, nós, os únicos espectadores de um filme cuja nitidez sequer a realidade pode alcançar. As cores são mais vívidas, podemos nos deslocar pelo cenário como um cinegrafista que captasse a cena de vários ângulos. 

Vejo todos os rostos no enterro, todos os gestos, o azul do céu que brilhava metalicamente. E, ao redor disso, a outra descoberta que a grande dor nos traz: ela, como um planeta denso, atrai satélites para sua órbita, feitos de imagens da pessoa viva, meu primo sempre jovem enquanto eu envelheço, antes meu contemporâneo, já meu irmão caçula, hoje quase meu filho.

Se há consolo, me parece, ao menos neste mundo, é esta imortalidade dos outros precisamente dentro de nós. Assim, a mesma dor que grava é a mesma dor mitigada ao assistirmos à gravação.

25 de maio de 2016 | N° 18534 
DAVID COIMBRA

Injustiça não é golpe


Gustavo é de São Leopoldo. Foi petista, hoje é filiado ao PSOL. Conheço-o superficialmente. O suficiente, porém, para saber que é dono de bom caráter. Pessoas de esquerda em geral são movidas por boas intenções, sobretudo pela ideia de que o Estado deva resolver os problemas dos indivíduos. Pode não ser funcional, mas é generoso.

Outro dia, Gustavo me enviou um e-mail ressentido devido aos meus textos sobre a situação política brasileira. O tom era o mesmo de todos os que fazem a análise a partir da esquerda: de que a crítica ao PT seria produto de algum interesse meu. Em outras palavras: de desonestidade intelectual.

Terçamos argumentos. Disse a Gustavo que posso estar errado honestamente. Que o fato de não concordarmos não significa má intenção minha ou dele.

Ele, de certa forma, concordou, e nossa conversa virtual se tornou mais amena.

Gostei de “falar” com Gustavo, porque percebi a angústia genuína das pessoas bem-intencionadas que acreditavam no governo do PT.

Essas pessoas gritam que houve golpe no Brasil por uma razão sincera: elas acham que a causa da queda de Dilma foi a conspiração do PMDB.

Não foi. Temer, Cunha e o PMDB em geral conspiraram pela queda de Dilma, é verdade. Mas não foram eles que a derrubaram. Eles nem teriam força para tal.

Quem derrubou Dilma foi Dilma. Foram os erros e os delitos que ela cometeu, expostos pela Operação Lava-Jato. Não fosse a Lava-Jato, Dilma continuaria mandando nas empreiteiras pelo Brasil afora.

Dilma jura que é honesta, e os petistas decentes querem acreditar. Só que a honestidade não se limita ao sétimo mandamento. O roubo não é a única desonestidade possível.

Dilma mentiu durante a campanha eleitoral, fato admitido inclusive por Lula. Mentiu também sobre o tamanho do rombo fiscal. A mentira é grossa desonestidade.

Há outras.

A campanha de Dilma foi financiada com dinheiro de propina, segundo vários delatores, o que provavelmente a levará a sua cassação pelo TSE.

Dilma tentou obstruir a Justiça ao nomear Lula ministro. O mesmo crime arrastou Delcídio para a cadeia e lhe tirou o mandato, e deve levar às condenações de Lula, Mercadante e Romero Jucá.

Dilma participou, concordou ou, no mínimo, permitiu corrupção na Petrobras, na Eletrobras, no BNDES, nos Correios, no Incra, na Caixa e nas obras do PAC, da Copa e da Olimpíada.

Em que área do governo NÃO HOUVE corrupção? Dilma cometeu crimes, sim. O impeachment é justo.

Mas digamos que não fosse. Digamos que Dilma seja inocente como uma bandeirante. Que ela nem sequer suspeitasse do que ocorria a palmo e meio da sua testa.

Mais: digamos que o tribunal que julgou Dilma, o Congresso, não tenha apenas parte de seus integrantes suspeitos de cometimento de ilícitos. Digamos que TODOS os deputados e senadores do Brasil sejam suspeitos e investigados.

Ainda assim, o impeachment não seria golpe. Dilma poderia se considerar injustiçada, mas nunca poderia dizer que é vítima de golpe.

Qualquer um pode ser injustiçado por um tribunal. Mas, se houve legalidade no julgamento, o sistema funcionou. O julgamento de Dilma foi legal, os processos se deram estritamente dentro dos ritos e das regras. Não houve golpe.

Quando Dilma, preocupada em salvar sua imagem, fala em golpe, fere as instituições brasileiras e ataca o próprio país.

É compreensível a indignação de Gustavo e de todos os petistas decentes: o PMDB traiu Dilma e lhe tomou o poder. Mas essa traição só pôde ser consumada porque Dilma cometeu ilegalidades passíveis de punição. O governo Temer, portanto, é legítimo, mas, se fizer parecido, cairá também. Em meio a tantas notícias ruins, esta é a ótima: hoje, no Brasil, nem a legitimidade salva da ilegalidade.

terça-feira, 24 de maio de 2016


24 de maio de 2016 | N° 18533 
CARPINEJAR

Aniversário da amizade


Comemoramos aniversários de namoro e de casamento e jamais lembramos os marcos das amizades.

A amizade repousa num tempo indefinido e vago, sem festa, sem torta e sem parabéns. É uma omissão injusta. Favorecemos as amarras do romance e descuramos dos laços da fraternidade.

Ninguém festeja a data do primeiro encontro com um amigo muito especial. Eu percebi a lacuna quando Eduardo Nasi, meu comparsa gaúcho radicado em São Paulo, lembrou-me de que em 15 de agosto completávamos 20 anos de amizade. Eu ri e logo suspirei:

– Já foram duas décadas, hein? Meu Deus, como passou rápido!

– Pois é, a gente se conheceu porque gostávamos de poesia e nunca deixamos de nos falar mesmo quando morávamos em cidades diferentes – ele respondeu.

Combinamos de jantar neste dia para vibrar com as bodas de porcelana da amizade. Um encontro bem bagual: beber até passar mal, quem cair pagará a conta. Um preço justo para a cara partilha de confidências, pois atravessamos lado a lado as crises dos 20, dos 30 e dos 40.

Amigo é algo tão sério, que deveríamos pedir o ombro do sujeito para os seus pais. Se pedimos a mão da mulher em casamento, o ideal é solicitar o encosto leal e fiel de nosso amigo com a mesma solenidade e tensão, olhando nos olhos dos progenitores e prometendo sinceridade e cuidado pela vida afora. Afinal, o ombro dele será nossa fortaleza nas tristezas e nas separações, nos tropeços e nas fraquezas, na saúde e na doença, até que a morte nos separe. 

Ele não é uma casualidade ou um golpe de sorte ou um resultado das circunstâncias. Amigo é destino, amigo é vocação, amigo é amor de anjo, amigo é inocência de intenção. Longe de um amigo, não há casamento que resista e profissão que se sustente.

Antes de ver quem é a mãe do outro, somos apenas conhecidos. Temos que frequentar a casa e a família, percorrer enterros e nascimentos, suportar a intimidade das contradições e oferecer conselhos com uma visão privilegiada de conjunto, antevendo de onde veio e quais são os seus problemas e lapsos de infância.

Pelo jeito, eu e Eduardo chegaremos às bodas de ouro. Faltam ainda 30 anos, mas não tivemos nenhuma discussão de relacionamento ao longo de nossa cumplicidade.


24 de maio de 2016 | N° 18533
EDUCAÇÃO

Bate-boca em ocupações expõe conflitos nas escolas


NA CAPITAL e em Caxias do Sul, impasses entre ocupantes e não grevistas exigiram intervenção da BM

Professores querendo lecionar e alunos que desejavam ter aulas encontraram portões e semblantes fechados ontem em escolas que foram ocupadas em Porto Alegre e em Caxias do Sul. Na Capital, estudantes de uma escola técnica foram impedidos de chegar às salas por colegas do Ensino Médio. Já na Serra, professores que não participam da greve da categoria tiveram seu ingresso impedido em dois colégios.

Houve princípio de confusão em ambas as cidades, e a Brigada Militar (BM) acabou sendo acionada para evitar conflitos. Os casos expõem a insatisfação de parte de alunos e professores contrários à paralisação do magistério e à ocupação das escolas que encontram entradas bloqueadas por seus colegas, os quais reivindicam melhorias na estrutura das instituições e reposição salarial, entre outras pautas.

Na Escola Técnica Parobé, na região central da Capital, a confusão ocorreu pouco antes das 10h, quando alunos que teriam aulas foram impedidos por colegas de pegar chaves das salas de aula. Houve bate-boca, e estudantes encerraram a ocupação, hostilizados por outros alunos. A BM foi chamada ao local para acompanhar a saída do grupo.

Na Escola Estadual Presidente Roosevelt, no Menino Deus, o tumulto ocorreu pela manhã, quando pais e professores não grevistas teriam discutido com alunos que ocupam o prédio principal da escola. De acordo com Gabriel Fernandes, 17 anos, do 3º ano e presidente do grêmio estudantil, havia um acordo com a direção da escola, que teria sido descumprido.

– Ficou acertado que iríamos ocupar todo este prédio e de que não entraria ninguém. Os alunos com aula ficariam no prédio dos fundos. Mas a diretora não cumpriu, abriu os portões, e fomos ameaçados e agredidos, fisicamente, inclusive, por professores não grevistas.

ZH esteve na instituição e abordou a diretora, a professora Maricy Bonorino, que respondeu não ter “nada a ver com isso” e se retirou.

Para Vitor Vieira, representante do grupo informal de pais de alunos da Roosevelt (criado devido à ocupação), a confusão se deu devido à revolta de pais que não têm onde deixar os filhos no horário letivo e de professores impedidos de dar aula.

– Após a confusão, no entanto, fizemos uma ata em que ficou acordado que o colégio ficará com o portão principal aberto para a entrada de todos. Os alunos ocupantes poderão continuar no prédio principal, e os que têm aula terão acesso ao pavilhão de trás.

O grêmio estudantil da escola nega que professores tenham sido impedidos de dar aula. Segundo eles, o pavilhão dos fundos esteve disponível todo o tempo.

PAIS E MESTRES SE POSICIONAM PELA CONTINUAÇÃO DAS AULAS

A Federação das Associações e Círculos de Pais e Mestres do Estado declarou posição contrária à ocupação das escolas, defendendo o direito de professores e alunos terem aulas.

– Os alunos que querem ter aula não conseguem. Não pode uma minoria ocupar o espaço de uma maioria – afirma Berenice da Costa, presidente da federação.

Conforme o subprocurador-geral de Justiça do Estado Fabiano Dallazen, o Ministério Público (MP) tem feito um levantamento sobre as escolas ocupadas e as pautas de reivindicação na tentativa de contribuir para uma solução. Por enquanto, o MP não planeja pedir a reintegração de posse desses colégios ou sugerir a remoção de alunos por parte da BM.

– Não queremos atropelar o tempo do Estado, mas contribuir com o diagnóstico. Optar pela desocupação ou o uso da força é uma atribuição da Secretaria da Educação. O MP não vai ingressar com ações neste momento. Mas, se a situação persistir, podemos, ali na frente, reavaliar – garantiu Dallazen.

Conforme a página do movimento Ocupa Tudo RS, há 128 escolas ocupadas em mais de 50 cidades no Estado. Em levantamento feito por ZH, 32 confirmaram a ocupação.

bruna.scirea@zerohora.com.br guilherme.justino@zerohora.com.br

24 de maio de 2016 | N° 18533
MUNDO

Por 31 mil votos, ecologista vence eleição presidencial na Áustria

AOS 72 ANOS, Van der Bellen derrotou candidato do FPÖ, de extrema-direita


O ecologista Alexander Van der Bellen venceu as eleições presidenciais da Áustria contra o candidato de ultradireita Norbert Hofer, do Partido da Liberdade (FPÖ), após um disputado segundo turno onde quase um em cada dois eleitores escolheu o FPÖ.

Depois da apuração dos votos por correio ontem, Van der Bellen, ex-professor universitário de 72 anos, conquistou 50,3% dos votos, totalizando 31.026 votos a mais que seu concorrente Norbert Hofer, que reuniu 49,7% dos eleitores e admitiu sua derrota no Facebook pouco antes do anúncio oficial.

“Queridos amigos! Agradeço o apoio de vocês. Claro, hoje estou triste”, escreveu Hofer em uma mensagem em sua conta do Facebook, pouco depois das 16h no horário de Viena (11h de Brasília). “Os esforços mobilizados para esta campanha não foram perdidos, mas serão investidos no futuro”, acrescentou.

No primeiro turno, ocorrido em 24 de abril, o FPÖ liderou com 35% dos votos, o melhor resultado do partido em uma eleição nacional, contra 21,3% dos votos para o partido de Van der Bellen.

Tradicionalmente desfavorável ao FPÖ, o voto por correspondência fez a balança pender em favor do ecologista, de perfil liberal e centrista, ao final de um verdadeiro thriller eleitoral. Quase 900 mil pessoas, ou 14% do eleitorado, solicitaram o voto por correspondência nesta votação, que foi acompanhada por toda a Europa em um contexto de aumento do populismo.

HOFER EXPLOROU EFEITOS DE CRISE MIGRATÓRIA

O candidato de extrema-direita foi favorecido pela crise migratória, que resultou na chegada ao país de 90 mil solicitantes de asilo em 2015, ou seja, mais de 1% da população. Durante a campanha, Hofer, militante desde a juventude do FPÖ e vice-presidente do parlamento desde 2013, centrou seu discurso no emprego e no nível de vida dos austríacos e assegurou que não gostaria de tirar seu país da UE, a menos que a Turquia entre no bloco.

O presidente em fim de mandato, o social-democrata Heinz Fischer, felicitou o vencedor e anunciou que o “convidou” para visitá-lo na terça-feira no Hofburg, o palácio presidencial, para “preparar a passagem de poderes”, prevista para 8 de julho. Van der Bellen tornou-se o primeiro candidato ecologista a ser eleito chefe de Estado austríaco, e o único na Europa atualmente.

Creditado com apenas 21,3% dos votos no primeiro turno, atrás de Hofer, Van der Bellen se beneficiou de uma participação eleitoral em alta e de importantes apoios, incluindo de partidos tradicionais.


24 de maio de 2016 | N° 18533 
DAVID COIMBRA

O fim de Dilma, o fim de Temer, o fim do Grêmio, o fim de tudo

Ogoverno Dilma acabou quando ganhou a reeleição, e o governo Temer acabou quando nomeou Jucá para o ministério. Ou seja: acabou antes de começar. Não é natimorto, porque nem nascer, nasceu.

O PT já acabou faz tempo e o PMDB nunca existiu. O PMDB jamais foi um partido, é uma frente disforme, uma geleca, sem direção, sem ideias e, principalmente, sem escrúpulos.

A música brasileira acabou, embora a Cláudia Laitano ache que não. O que existe de bom não amarra a botina esquerda de um Paulinho da Viola, de um Belchior, de um Caetano, de um Noel, de um Chico.

Aliás, o Chico, de quem tanto gosto, parece acabado. Não porque cometeu o desatino de apoiar um desgoverno, mas porque mandou um CD autografado para Maduro, o exótico presidente da Venezuela que conversa com seu antecessor morto, Chávez. Maduro diz que consegue tal façanha porque Chávez reencarnou num passarinho.

É sério isso: o presidente da Venezuela conversa com passarinhos e aconselha-se com eles. Donde, a Venezuela acabou.

A Argentina, da mesma forma, acabou. Macri fez do Boca campeão do mundo, mas não terá como fazer algo pela Argentina. Imagine: 50% da população da Argentina ganha algum tipo de subsídio do governo. Lá é como no Brasil: ninguém quer perder nada, ninguém cederá nada em nome de coisa alguma. Logo, o governo Macri será inviabilizado. A Argentina acabou.

E o Brasil também, pelos mesmos motivos. Também no Brasil ninguém cede, ninguém aceita ficar sem seus privilégios, todos têm suas razões, suas desculpas e seus direitos, todos se julgam injustiçados, todos estão revoltados contra os outros todos.

Talvez a maior prova de que o Brasil acabou seja, exatamente, o fim do que o Brasil tinha de melhor: a música e o futebol.

Porque, sim, como a música, o futebol brasileiro acabou. Mas nada, no futebol brasileiro, acabou mais do que o Grêmio.

Assisti ao jogo do Grêmio contra o Flamengo. Foi uma vitória assustadora. Um amigo meu, que estava na Arena, definiu a experiência desta maneira:

“Meia dúzia de gatos pingados, amortecidos pela pachorra do domingo, em dúvida se não era melhor ter ficado na Globo, mesmo com a chata da mulher incomodando. Nenhuma luz, nenhuma luz. O horror, o horror”.

Compreensível. Roger montou um time sem meio-campo. Teria de fechá-lo, tirar o centroavante inoperante e colocar um Ramiro, um Pedro Rocha, até um Edinho. Assim como está é que não pode jogar.

Só que jogará. Está visto que jogará. Roger tem a teimosia dos técnicos e não tem o apoio de uma direção experiente. Agora, a direção fechou a contratação do zagueiro Wallace, do Flamengo.

Vou reproduzir uma história que ontem me contou um amigo carioca sobre esse zagueiro. O filho do meu amigo se chama Rodrigo Rangel, tem 15 anos e é flamenguista com toda a devoção que pode ter um garoto de 15 anos por um clube de futebol.

Palavras do meu amigo:

“O Rodrigo achou que o cara ia jogar neste domingo pelo Grêmio. Fez a gente sair da praia do Arpoador, que estava paradisíaca, e me obrigou a pegar um táxi para andar cinco quadras. No táxi, ele botou a camisa do Fla. O taxista sintonizou o rádio no jogo e tinha mesmo um Wallace em campo. Teve até comemoração no carro. Depois, a decepção”.

Wallace está sem muito prestígio com a torcida do Flamengo, como se vê. Em compensação, é jogador lido. Fiquei sabendo que ele ia fazer um blog com resenhas de cem livros que leu. Deve ser por isso que o Grêmio vai gastar R$ 3,2 milhões na sua contratação. Pela cultura.

Ou por ele ser bom marido. Wallace se orgulha de só ter beijado uma mulher na vida: a própria esposa. Bonito.

São esses os bonitos critérios de contratação do Grêmio. O Grêmio acabou. O futebol brasileiro acabou. A política brasileira acabou. Tudo acabou.

segunda-feira, 23 de maio de 2016



23 de maio de 2016 | N° 18532
CAPA

O encontro foi no museu

NOITE DOS MUSEUS atraiu, em sua estreia, um grande público que formou filas e lotou oito espaços culturais de Porto Alegre

A noite do último sábado em Porto Alegre tem tudo para entrar para a história da vida cultural da cidade. Um grande público gerou um movimento fora do normal ao lotar e formar longas filas em espaços artísticos que habitualmente estão de portas fechadas nesse período do dia. O motivo foi a Noite dos Museus, evento que em sua estreia convidou a comunidade a ver exposições e também uma programação especial com música e outras atividades, das 19h à meia-noite, em oito tradicionais endereços artísticos da Capital.

Mas não foi somente por promover a aproximação com a arte em um horário alternativo que o evento ganhou um caráter histórico. A Noite dos Museus também mostrou que o público cultural de Porto Alegre quer atrações diferenciadas e condições que permitam apreciá-las saindo às ruas à noite com tranquilidade na companhia da família e dos amigos. Pelo menos foi o que se viu nesse sábado, quando os museus receberam os visitantes em clima de encontro e celebração.

– Foi a glória, uma festa dos museus produzindo um clímax na cidade – diz o curador do projeto, o historiador, antropólogo e professor da UFRGS Francisco Marshall. – É uma coisa maravilhosa os museus repletos de gente, as praças tomadas, as pessoas num grau extremo de felicidade, vendo arte, ouvindo música e se encontrando.

Chamou atenção o grande número de famílias que saíram de casa para percorrer o roteiro da Noite dos Museus. Foi o caso da empresária Luciana Kalil, 33 anos, que visitou com os filhos – um deles Inácio, oito meses – três museus, entre eles a Fundação Iberê Camargo.

– Desde que soube da Noite dos Museus, pensei em trazer os meus filhos para compartilhar, estar junto, pensar a cidade à noite. Já havia levado o Ernesto (de quatro anos) a outras exposições, mas, desta vez, é diferente, tem música e muita gente. Percebi nos dois um encantamento, uma curiosidade diferente.

Além da Fundação Iberê Camargo, integraram a Noite dos Museus o Planetário, o Museu Joaquim Felizardo, o Museu da UFRGS, a Pinacoteca Ruben Berta, o Memorial do RS, o Museu de Arte do RS (Margs) e o Museu de Arte Contemporânea do RS (MACRS, na Casa de Cultura Mario Quintana). Com o burburinho do público quebrando o habitual clima silencioso dos museus, o passeio também foi brindado por uma noite de frio agradável e uma bela lua cheia.

– É interessante a proposta porque a gente consegue ver o museu de uma forma diferente – disse o professor de Física André Klock, 23 anos, que visitou a Fundação Iberê Camargo acompanhado da namorada Pâmela Nunes, 23.

Avaliada como bem-sucedida pela organização, a Noite dos Museus já tem garantia de sequência no próximo ano e expectativa de uma nova versão ainda em 2016.

– O público surpreendeu mais do que qualquer previsão – comenta Marshall. – Fomos acolhidos pelas pessoas em quantidade e qualidade. Haverá uma segunda edição no ano que vem e vamos tentar realizar em breve a Primavera dos Museus. Não sei se vamos conseguir, mas queremos muito.

Hique Gomez, um dos artistas que participou da programação musical da Noite dos Museus, aprovou a iniciativa:

– É um evento maravilhoso, a cidade está efervescente nesta noite.


23 de maio de 2016 | N° 18532
ARTES CÊNICAS

O contador de histórias


DRAMATURGO E ESCRITOR Ivo Bender completa 80 anos hoje com um novo livro de contos praticamente pronto

Sentado ao lado da cachorra Artemísia no apartamento do bairro Auxiliadora onde mora há 38 anos, Ivo Bender é a personificação dos elementos que caracterizam suas peças teatrais e seus contos: sarcástico, trágico e sempre sujeito à irrupção do fantástico, no sentido literário. Como nesta declaração que surgiu durante a conversa com a reportagem:

– Se eu soubesse que a velhice é uma coisa tão terrível, teria me matado aos 50 anos. Mas ninguém me disse isso.

Bender também gosta de drama, mas tem motivos para comemorar os 80 anos, que completa hoje. Apesar do problema de visão que o impede de distinguir os rostos das pessoas e que o força a escrever no computador com fonte tamanho 48, segue produzindo como sempre. É considerado o mais importante dramaturgo gaúcho em atividade, embora não escreva mais peças teatrais. 

A última, intitulada Diálogos Espectrais (2004), já foi motivo de leituras dramáticas, mas permanece inédita no palco. Trata da relação de um tradutor com a poeta Emily Dickinson, a quem Bender venera e cujos versos ele mesmo verteu ao português. Desde 2010, quando publicou o livro Contos (L&PM), tem se dedicado à narrativa breve em prosa. Em 2015, ganhou o Prêmio Açorianos de Literatura na categoria conto com uma segunda coletânea, Quebrantos e Sortilégios (Terceiro Selo). 

E está pronto para lançar um terceiro livro do gênero – ele considera a escrita do conto “mais fácil” do que a dramaturgia. Pretende ir amanhã à editora para dar notícias sobre o mais recente trabalho. Segundo a Dublinense, ainda não há título, nem previsão de publicação da coletânea.

Durante o encontro com a reportagem, Bender narrou demoradamente e com evidente prazer alguns dos novos contos, muitos deles inspirados – como é seu costume – nas próprias lembranças familiares, transfiguradas em um registro fantástico.

– Na verdade, não sou contista, mas um contador de histórias. Às vezes, não tenho para quem contar, então narro para esta aqui – declara, acariciando a cachorra que chama de Mísia.

Bender, que deplora o teatro engajado e ficou insatisfeito com suas próprias incursões no teatro político durante a ditadura militar (“Era preciso fazer”, diz ele), é um agudo observador dos descaminhos da nação hoje:

– Chegar aos 80 anos em um país selvagem, arcaico e injusto como o Brasil é um ato heroico. Chegar a esta idade, quando tudo conspira contra a pessoa, contra o envelhecimento, o amadurecimento... Olha o que está acontecendo, estamos parados. Hoje (quinta-feira passada), estão julgando um cafajeste no Congresso (referência a Eduardo Cunha). Sobreviver dentro dessa coisa insuportável é um tour de force.

No último dia 14, Bender foi homenageado pela Escola de Espectadores de Porto Alegre com leituras dramáticas dirigidas por Camila Bauer e debates com a presença dele e de interlocutores como o ator Marcelo Ádams e o dramaturgo Diones Camargo. Em 2012, foi o homenageado da 5ª FestiPoa Literária. Um ano antes, em seus 75 anos, ganhou uma semana de atividades no 6º Festival Palco Giratório. Mas suas peças têm sido raramente encenadas nos palcos do Estado.

– Ou o texto teatral está sendo desacreditado ou serve de pretexto para um diretor qualquer cometer suas loucuras – especula Bender. – No momento, o teatro que interessa (aos artistas) é aquele que é improvisado sobre um romance ou conto. Ou, então, aquele que é criado por meio de exercícios durante os ensaios.

Por causa da dificuldade de visão, o autor não frequenta mais salas de espetáculos. Considera frustrante a experiência de não poder ver a expressão no rosto dos atores. Mas o impedimento não arrefeceu sua convicção na força de um teatro que dispensa o excesso de recursos e soluções extravagantes:

– O teatro é um espaço vasto, no qual cabe de tudo, do teatro engajado ao teatro do absurdo. Só que tem que ser bem feito. Você pega os gregos, por exemplo. É texto descarnado de qualquer decoração. Você pode fazer em frente a uma cortina preta com os atores vestidos de preto e de pés descalços. E deu.

fabio.pri@zerohora.com.br