segunda-feira, 27 de março de 2017



27 de março de 2017 | N° 18803 
L.F. VERISSIMO

Ortodoxia


Epiphanius era o bispo de Salamis, no Chipre, e um dos principais debatedores no grande conflito que dividia o cristianismo no fim do século 4. Discutia-se a natureza de Deus e os princípios da fé cristã e procurava-se uma verdade única que definisse as doutrinas da Igreja, como a que acabou sendo sacramentada no Credo de Niceia, em 381, e repudiasse todas as heresias surgidas até então. E que eram exatamente 80, segundo Epiphanius.

O bispo, um ortodoxo ardoroso, não tinha dúvida sobre o número de heresias da sua lista e reforçava sua tese lembrando que eram 80 as concubinas citadas nos Cantares de Salomão, da Bíblia. Lá está, capítulo 6, versículo 8: “Sessenta são as rainhas e 80 as concubinas, e as virgens sem número”. Agostinho, que dizia serem 83 as heresias, não tinha um argumento parecido.

O Cântico dos Cânticos sempre foi um problema para os exegetas da Bíblia. O que faz um texto erótico no meio do livro sagrado, que tem muito sexo mas nada mais tão sensual (e tão bonito) quanto os seus versos? Uma solução foi interpretar sua linguagem amorosa como linguagem críptica e suas metáforas sexuais como metáforas religiosas. Existe até uma versão da edição do rei James com cabeçalhos explicando que o diálogo poético do texto trata do amor recíproco de Cristo e da sua igreja, sem explicar o que Cristo está fazendo no Velho Testamento.

Como tudo nos Cânticos era mensagem cifrada, Epiphanius podia interpretá-los como quisesse, e as 80 concubinas resistiram como prova da sua tese. Questões teológicas, ainda mais naqueles tempos em que a Igreja se definia, deviam ser um pouco como os debates sobre a economia, hoje: evidências valiam menos do que a fé. 

Hoje a ortodoxia monetarista e neoliberal é triunfante como a ortodoxia que Epiphanius representava no século 4, apesar dos seus fracassos, e das suas teses às vezes se parecerem muito com o aval das 80 concubinas. Quem discorda da ortodoxia dominante é tachado de herético. E o neoliberalismo sobrevive aos estragos causados pela austeridade que prega e a consequência da sua doutrinação em todo o mundo – como o crescimento do populismo – sem perder a fé.

sábado, 25 de março de 2017



25 de março de 2017 | N° 18802 
LYA LUFT

Ah... família

Quantas vezes se discute o tema “família” durante uma vida inteira! Em grupos de mesa de bar, entre amigas (sobretudo mulheres, porque homens comentam menos questões afetivas)! Quanto de queixas em salas de terapeutas e psicanalistas, quanto ressentimento secreto ou evidente contra pai, mãe, irmãos... Mas também: quanta segurança, conforto, alegria e emoção. Quanta descoberta através dos anos.

Lembro desde muito pequena de certa ansiedade em relação a isso. Às vezes, corria para a mãe perguntando: “Você gosta da vovó?”. E a resposta vinha sempre: “Claro, ela é a mãe do meu marido”. E perguntando à avó, a resposta era quase igual: “Claro, ela é a mulher do meu filho”. Aquilo não me tranquilizava muito, mas por algum tempo valia. 

Devo dizer que não havia brigas sérias em minha família, não éramos anjos, apenas pessoas: algum conflito sempre existia e existirá em qualquer desses grupos humanos meio estranhos chamados família, dos quais a gente não pediu para participar, e às vezes gostaria de escapar, raramente conseguindo... E onde tantas vezes se bebe a água fresca e vital de um aconchego que nada mais pode nos dar.

Não realizo com muita frequência o sonho de toda mãe galinha choca, como já me definiram: ter seus pintos perto, à sua volta ou ao alcance de um voo direto e breve. Parte de minha família mora longe, digo looonge mesmo: um filho com mulher na África remota e dois de meus netos, seus filhos, cursando faculdade na Nova Zelândia. Às vezes brinco que, na próxima mudança, quem sabe se transfiram para o Polo Norte e o Polo Sul. E apesar disso, graças aos milagres do cyberspace e do afeto, de alguma forma estamos sempre juntos, eles e nós, a família que por sorte minha ficou aqui.

Por isso mesmo, talvez, as reuniões são tão importantes, e fazem transbordar este coração: os que antes foram meus bebês, minhas crianças, meus adolescentes, agora são mãe e pais, um de barbas brancas, com suas famílias. Suas profissões. Perto ou longe, abrindo caminho neste vasto mundo onde há muito já não posso nem devo protegê-los como quando eram crianças, e eu talvez ainda sonhasse que eram “minhas”.

Isso de ser família tem alguns clarões gloriosos, como quando finalmente todos se reúnem, e muita risada, muita brincadeira, muito abraço, foto, carinho, memória de velhas aventuras: “Lembram de quando alguém nos deu um macaquinho de presente e ele queria morder todo mundo? Lembram daquele cachorrinho? Daquela pescaria na praia? 

Daquela vez em que torci o pé na escola? Daqueles jogos de vôlei na piscina? De quando o diretor te chamou, mãe, porque eu tinha tirado a peruca de um professor que implicava com a gente? De quando a gente se casou? De quando nossas crianças por sua vez nasceram?”. E assim se gastam noites, e dias, e churrascos, e almoços, e felicidades. Não é paraíso, mas é realidade, é chão, raiz, emoção tantas vezes mal disfarçada.

Ando tendo uma dessas dádivas da vida. E me faz acreditar que existe algo nos laços de família que é muito mais do que genes e sangue: é alma e afeto. E que, por mais louco ou chato que ande este grande mundo, talvez este país, uma família amorosa mostra que algumas coisas permanecem, belas e firmes. E que tudo valeu a pena.



25 de março de 2017 | N° 18802
PALAVRA DE MÉDICO | J.J. CAMARGO

O QUE A GENTE APOSENTA QUANDO SE APOSENTA?

Depois de muitos anos, nem sei exatamente quantos, encontrei-o na praia, em Vitória. Caminhava com aquela lerdeza de quem saiu de casa determinado a ir a lugar algum. Com mais cabelos do que a maioria dos contemporâneos e uma condição física macroscópica invejável, contou-me que, desde que se aposentara de sua função burocrática, há 20 anos, alternava residência na praia e na cidade conforme o clima e o humor. Pareceu surpreso quando lhe perguntei como ocupava o tempo e anunciou como se fosse um diferencial da qualidade: “Eu caminho muito!”. “Bom para as pernas”, foi o comentário mais inteligente que me ocorreu.

E então nos despedimos. Ele sem mais o que contar, e eu sem ânimo para argumentar o quanto me parece injusto que esses tantos que aprenderam o que podiam e ainda não começaram a esquecer têm saúde mas, na falta de vontade de fazer alguma coisa útil, contentam-se em esperar a morte, disfarçada de aposentadoria. Um atestado inequívoco de que enquanto faziam o que fizeram preferiam estar fazendo outra coisa.

Claro que as pessoas são diferentes e todas têm o direito de fazer o que quiserem de suas vidas, incluindo nada, e as coisas que energizam alguns enfaram outros. Aliás, são essas diferenças na busca da felicidade que tornam tão pouco produtivos os livros de autoajuda ao proporem modelos padronizados para perfis incomparáveis. 

Por essas discrepâncias, não se pode pretender afinidade entre tipos que consideram que felicidade é andar descalço na praia deserta e os que acham que ser feliz depende de se alcançar um ponto de equilíbrio no máximo de tensão. Sem dúvida, as pessoas que fizeram alguma diferença nesta vida estavam todas no segundo grupo, mas entender essas disparidades e vicissitudes e não tentar modificá-las, além de prática saudável de convívio social, é um exercício de sabedoria.

Sempre tive a curiosidade de imaginar em que momento da vida uma escolha infeliz desembocou neste desânimo, agora irrecuperável. Teria sido vítima daquela apatia que deixa muitos adolescentes com olhar marasmático e que, de tanto ter dúvida do que fazer, acabam se convencendo que não gostam muito de nada e assumem a primeira função que o acaso lhes oferece, e seja o que tiver de ser?

Ou teriam idealizado algum projeto e desistido quando perceberam que era mais difícil do que imaginaram? A principal marca das pessoas de sucesso é a obstinação, e sabe-se que a maioria das desistências ocorre no primeiro mês do investimento, o que mostra o alto grau de resignação e abandono diante das adversidades.

Quando se observa o comportamento atual da juventude, com a marca da informação instantânea e da privacidade pulverizada pelo compartilhamento total, saltam aos olhos dois erros conceituais graves: não há possibilidade de relacionamentos afetivos sólidos na superficialidade do Facebook, nem a mínima chance de realização profissional sem trabalho árduo. Esta geração marcada pela ansiedade, diante da primeira dificuldade, descobre que os amigos verdadeiros se contam nos dedos, e são os mesmos de antes das redes sociais, e que as conquistas profissionais demandam um tempo às vezes exasperante. 

Como os milagres são raros, estes jovens se inspiram em exceções de sucesso e ficam presos à fantasia que, quando percebida como tal, instala um doloroso ciclo de depressão, que é o estopim para a maioria das vítimas de drogadição. Só o encanto da descoberta de algo que lhes acelere o coração dará à vida essa energia que enternece a alma, dilui o cansaço, espanta a monotonia e explica por que, para esses felizardos, o ócio da aposentadoria é insuportável.



25 de março de 2017 | N° 18802 
MARTHA MEDEIROS

Às escuras

Difícil comemorar esses 245 anos de Porto Alegre em pleno blecaute, não apenas literal, mas metafórico

Neste domingo, Porto Alegre está de aniversário. Acenda uma vela. Duas. Três. 245 velas. Talvez elas bastem para iluminar a sua rua, ao menos a sua rua. Aqui perto de casa, teríamos que acender 3 milhões de velas. Um breu.

Porto Alegre, depois que o dia cai, é mais que noturna: é soturna. Eu, intrépida, ainda tenho coragem de sair à noite, mas, nos poucos bairros em que circulo, deparo com um cenário melancólico: um poste de luz aqui, outro acolá, e no espaço entre eles, não sei, não dá pra ver.

Difícil comemorar esses 245 anos em pleno blecaute, não apenas literal, mas metafórico. Feito cabras-cegas, estendemos os braços à procura da nossa ex-alegre cidade, mas tropeçamos em calçadas esburacadas, entramos em ruas sem sinalização e temos medo de quem cruza por nós. Um antigo estádio está prestes a cair de podre, a Fundação Iberê está com a fachada suja e portas semiabertas, o Multipalco ainda não conseguiu verba para sua conclusão, obras se arrastam feito lesmas, e o metrô entrou para o folclore gaúcho como o Negrinho do Pastoreio ou a Salamanca do Jarau. Aí retiramos a venda sobre os olhos e tudo continua escuro, não era uma brincadeira, estaremos mesmo nas... trevas?

Corta. Essa é a parte em que interrompo o relato macabro para lembrar que Porto Alegre tem as canchas de beach tênis ao ar livre, tem o Barranco aberto de segunda a segunda, tem dois estádios de futebol bem aproveitados, tem o incansável Luciano Alabarse batalhando pela cultura – e não só ele. Tem o Brique da Redenção, tem o Araújo Vianna, tem o Teatro do Bourbon Country, tem o Theatro São Pedro, tem a L&PM, tem o Hospital Moinhos de Vento, tem o Zaffari, tem o Instituto Ling, tem a Bolsa de Arte, tem a Casa de Cinema, tem a Casa de Teatro, tem a Casa Destemperados, tem o Sarau Elétrico, tem o Vila Flores, tem a Bamboletras, tem o Fronteiras do Pensamento, tem o Porto Verão Alegre, tem a Fundação Thiago de Moraes Gonzaga e vou parando por aqui porque estou vendo pela janela um sujeito mal-encarado que está bufando por eu ainda não tê-lo citado, e basta de violência, meu lugar é aqui dentro da Revista Donna, não no obituário – não ainda.

Incluo algo mais acessível para quem não pode usufruir de nada que citei acima: temos também um pôr do sol magnífico que não depende de governo nenhum nem da boa vontade de ninguém, mas, ainda que ele seja democrático e nunca falhe, tem sido insuficiente para vermos alguma luz no fim do túnel. Parabéns, Porto Alegre, mas te queremos mais radiante.


25 de março de 2017 | N° 18802 
CARPINEJAR

Por favor, não atrapalhe o amor dos outros

Peço um favor aos hotéis, restaurantes, floriculturas e lojas: renovem o seu cadastro. Não queira conhecer os clientes sem atualizar os dados e demonstrar intimidade.

Relações serão sempre quebradas por uma apressada falha. São floriculturas lembrando que em determinada data você mandou flores para alguém.

Será que acreditam no amor eterno?

Este alguém é um ex. Já está há dois anos num relacionamento e precisa apagar o SMS como se fosse de um amante, antes que se estabeleça uma crise irreversível de desconfiança.

São lojas antecipando para quem está dando um presente. Sempre de um finado. Melhor seria trocar o vestido por uma coroa de flores.

São resorts enviando e-mails para pombinhos que hoje se bicam como corvos. São hotéis procurando antever uma fidelização e destruindo a sua fidelidade. Você faz check-in, e o atendente inventa de nomear o casal pelos antigos registros.

E aquele casal não vigora mais. Como explicar o erro em cinco minutos?

Terá incessantes horas de luta e acareação de madrugada para consertar a ocorrência e provar que não tem culpa nenhuma.

O passeio e o lazer transformam-se numa tortura. Pagará uma fortuna para passear e não sairá do quarto. E não surte efeito chamar à razão para a conversa.

Todos somos infantis ao sofrer por amor, perde-se o discernimento na hora. Você não errou. Não trocou o nome. Quem trocou foram os malditos estabelecimentos.

Nem os 10% e a comissão cobrem os danos emocionais. Custoso explicar que não há virgindade em pessoas adultas e de vida feita.

Loucura acreditar que ecos, atos falhos e ruídos não aparecerão de repente. Existe o passado, mas é somente passado.

Será penalizado por levar a sua nova companhia a ambientes que frequentou com parceiras anteriores, só que não existem tantas opções assim para não repetir os lugares.

Quem conta com muito dinheiro pode variar, porém aqueles que se encaixam numa determinada classe e faixa salarial apresentam nítida limitação de opções e jogam com as mesmas peças.

A força do imponderável estraga a harmonia dos pares. Não tem como controlar o azar. As referências passadas ora voltam trazendo vergonha e medo.

O que não dá para esquecer é que a separação é uma longa desintoxicação, deve-se aguardar que o nome do ex naturalmente prescreva com o tempo. Que o comércio nos ajude e não nos atrapalhe!



25 de março de 2017 | N° 18802 
L.F. VERISSIMO

Idades

Não sou religioso. Devo ter deixado minha fé no bolso da fatiota azul, de calças curtas, com que fiz minha primeira comunhão. E a única coisa de que me lembro do evento, além da fatiota (e da gravata prateada!) não é a emoção de receber a hóstia no rito eucarístico, são os doces que tinha em casa, depois. Acho que foi ali que fiz a minha opção preferencial pela perdição. 

Invejo quem tem fé, mas não posso deixar de pensar que a minha religião particular, uma espécie de panteísmo urbano (devoção por pastéis e boas livrarias e a crença de que há um deus, sim: o deus do oboé, que além de ser um instrumento divino é o que afina todos os outros), é a única sensata, em meio à crise mundial do monoteísmo.

Bons tempos em que, em vez de não ter mais idade, nós ainda não tínhamos idade. E sonhávamos com tudo o que viria, quando tivéssemos. Entrar em filme proibido até 14 anos. Beber e fumar. (O importante não eram a bebida e o cigarro, era a pose que se fazia bebendo e fumando. Ficar adulto era adquirir a pose). Beijar como beijavam nos filmes – principalmente os proibidos até 14, já que nos proibidos até 18, que não nos deixavam ver, ninguém sabia o que acontecia. Ficar acordado até mais tarde. Ganhar a chave de casa. Dirigir carro. Deixar crescer um bigode. Ou um projeto de bigode.

Ainda não ter idade era ficar pinoteando no partidor, indócil, como um cavalo esperando a largada. E não ter mais idade é ficar com esta impressão de que até um ato de revolta por tudo o que não fizemos quando tínhamos idade e agora não podemos mais não seria, assim, apropriado para a nossa idade.

PINTINHA

Sempre acreditei que jogar papel impresso fora é pecado. Já fui um fundamentalista, daqueles de guardar até volante de dedetizadora, mas minha mulher conseguiu, aos poucos, me trazer para a razão. Hoje já aceito que doar livro não é o mesmo que jogar no lixo e que o limite da existência de uma revista é exatamente o limite entre o papel e o farelo. Mas ainda sofro para me desfazer de suplementos guardados para ler depois que não leria nunca, pois não se distingue mais o texto do mofo. 

E, por estes dias, tentando arrumar meus papéis e livros num daqueles periódicos surtos de virtude que nos acometem, e dos quais nos arrependemos em seguida, dei com algumas cadernetinhas quase em decomposição e a revelação de que eu era muito mais organizado na adolescência. Uma das cadernetas, por exemplo, é de telefones e endereços caprichosamente anotados e com lembretes crípticos, como “Ana Maria (a da pintinha)”. Não tenho a menor ideia de quem era a Ana Maria, mas acho que me lembro da pintinha. 

E em outra caderneta tentei manter um registro detalhado dos meus gastos em Nova York, quando morávamos em Washington e as minhas aventuras solitárias na cidade grande eram com orçamento apertadíssimo. Há alguns espantos. Passagem para NY (de ônibus): 5 dólares. Almoço em NY: 90 centavos. Cinema: 70 centavos. Revista (provavelmente de sacanagem): 35 centavos. Subway: 15 centavos. Entrada para ouvir jazz no Birdland: um dólar e 25!

O ano era 1954. E o mais espantoso: eu tinha 18 anos!


25 de março de 2017 | N° 18802 
PIANGERS

Estou passando por mudanças


Há 10 anos, recebi a proposta de vir trabalhar em Porto Alegre. Morávamos em Florianópolis, nossa primeira filha tinha acabado de nascer e faltava dinheiro todo final de mês. Comíamos pizza congelada quase todos os dias, a cerveja custava R$ 1,29, pagávamos R$ 1 (R$ 1!) pelos filmes da locadora de vídeo e ainda assim faltava dinheiro todo final de mês. Eu ganhava cerca de R$ 700 trabalhando como locutor na rádio e mais R$ 1 mil apresentando um programa de televisão. Os gastos com fraldas e o parto inesperado impactavam nossas finanças. Com a proposta de mudança pra Porto Alegre, meu salário iria para cerca de R$ 3 mil.

Me sentia milionário, mas nunca me deslumbrei com a abundância. Sempre respeitei a escassez. Demorei anos pra trocar de carro (era piada entre os amigos), comprei muita roupa em brechó, aceitei de presente os berços e uniformes escolares. Vivi 10 anos em uma cidade incrível: andávamos de bicicleta pelo Marinha, íamos com as meninas no Iberê, tomávamos os deliciosos sucos do Tropical Banana do Barra Shopping. Tive sorte no trabalho, nossa vida melhorou. Com o tempo fomos sendo reconhecidos na rua, sempre com carinho e respeito. Éramos como que da família de todos os gaúchos. Isso sempre foi muito tocante, e somos gratos.

Então, 10 anos depois, minha esposa pressentiu que era hora de mudar. Acho justo que não seja sempre o homem puxando a mulher. Acho justo e benéfico, já que todas as vezes que ela me puxou pra qualquer lado me tornei melhor. Era hora da gente tentar ser ainda mais feliz. Deixamos pra trás algumas canecas, CDs, umas caixas de tralha. Quando você se muda, percebe o quanto tem coisas demais. Você consegue viver com muito menos. Sobra só o que importa. Uma mudança dá um frio na barriga. Gelado e, ao mesmo tempo, refrescante.

Na cidade nova, temos avó, irmãos, primos. As meninas estão felizes e seguras, toda hora tem gente lá em casa. Me sinto de férias o tempo todo. Nosso apartamento é mais antigo do que o de Porto Alegre, não tem elevador ou áreas de lazer modernas. Não tem parquinho ou espaço gourmet. 

Temos que subir quatro lances de escada com compras, mochilas, às vezes, com crianças no colo. Nosso fogão de três bocas (umas está entupida) está bamba, colocamos um papelão dobrado pra estabilizar. Pendurei o varal de teto, troquei as tomadas para três pinos. Temos wi-fi e luz do sol pela manhã. Ontem dormimos abraçados. A gente precisa de pouco pra viver.


25 de março de 2017 | N° 18802 
DAVID COIMBRA

A franja do galã


Já tive franja. Meu cabelo era liso e claro, me sentia meio que um galã. Natural. Galãs, obviamente, têm franja. Ou topete, que é uma franja empinada. James Dean usava um topete vistoso, Elvis também. Marlon Brando? Topete, topete.

No Brasil, tivemos dois reis de verdade, e não me refiro aos Pedros, refiro-me a Edson e Roberto. Pois Edson, em seus tempos de soberano, mesmo com o cabelo que chamavam pixaim, cabeceava a bola com um topete. E Roberto, quando cantava Detalhes, fazia-o sob suave franja.

Detalhes, aliás, você perceberá que é uma maldição, se prestar atenção à letra. Não adianta nem tentar me esquecer, diz ele à ex-amada. O que pode ser pior do que não esquecer? Desgraçado de quem não esquece.

Mas, antes que me esqueça do assunto, voltemos à franja. Ocorre que, depois dos 14 anos de idade, por algum motivo desconhecido, comecei a encrespar. Minha avó, um dia, advertiu:

– David: teu cabelo está ficando ruim. Naquele momento, declarei guerra à natureza. Tentava domar meu cabelo com pentes e escovas e muito creme rinse (ainda existe creme rinse?). Ficava pior, espetado, “uma palha seca”, como dizia minha mãe. Já a minha irmã ria:

– Parece Bombril.

E minha avó, cada vez que me via, voltava a observar: – Teu cabelo está ficando ruim. Bullying caseiro. O pior tipo de bullying.

Até que chegou o momento em que minha avó, sempre ela, sentenciou:

– David, tu TEM cabelo ruim.

Foi como uma senha. Desisti. Saí do armário e me assumi como crespo. “Dane-se a família, dane-se a sociedade, danem-se todos, não me penteio mais!”, gritei ao mundo, debaixo dos caracóis dos meus cabelos.

Desde então, nunca mais usei pente ou escova. Apregoava minha crespice, batia no peito, passei a sentir orgulho de ser crespo. Olhava para um liso e dizia, com desdém:

– Escorrido...Com o tempo, o mundo foi me dando razão. Franjas perderam o prestígio, sobretudo devido à ânsia dos carecas, que mandavam fazer perucas com franjas redondas e vistosas. Lembra de Ivon Curi? Se não lembra, pense em Eike Batista. Carecas de franja.

Por causa deles e tantos outros, franjas foram associadas a falsidade. Ninguém mais queria usar franja. Eu venci!

Só que agora, talvez devido ao clima seco e frio do norte do mundo, meu cabelo foi alisando, alisando, até que alisou. Um dia, a Marcinha olhou e disse:

– Tu não és mais crespo. Aquilo me deu uma angústia. Porque eu estava contente como crespo, enfim. Além do mais, minha avó já morreu, não posso chegar para ela e mostrar:

– Olha, vó: bom cabelo! Até porque nem se diz mais bom cabelo ou cabelo ruim. É preconceito.

É triste, mas já me convenci: vou ter que comprar um pente. E isso, ao invés de me alegrar, como me alegraria aos 14 anos, me assola. Olho para o espelho, vejo aquela franja e não me sinto um galã. Sinto-me como se estivesse de peruca. Oh, Deus, como é injusto o passar do tempo.



25 de março de 2017 | N° 18802 
ANTONIO PRATA

A TIGELA DA TATI


O diâmetro da tigela de salada era um centímetro maior do que a largura do magipack. Um centímetro – e esse centímetro que faltava para eu ou a minha mulher conseguirmos selar a tigela nos obrigava, diariamente, a esticar o plástico de um lado, a esticar o plástico do outro (com-muito-esmero-e-fé-em-Deus-porque-se-você-esticasse-de-menos-não-chegava-aqui-e-se-esticasse-demais-soltava-acolá); esse vazio que, após anos de prática, com concentração monástica, conseguíamos preencher, essa confirmação da superioridade do esforço sobre o desespero, essa luta que vencíamos todo dia, por pontos, perdíamos toda noite, por nocaute: 

bastava um de nós se servir de salada, profanando o delicadíssimo milagre de celuloide, e o centímetro virava seis centímetros, três centímetros de cada lado, o magipack enrugava todo, grudava em si mesmo, pousava sobre a salada como a vela frouxa de um navio fantasma cujo mastro houvesse tombado sobre o convés.

Por anos, ao abrir a geladeira, a cada manhã, minha primeira visão era o navio fantasma: o plástico troncho com uns fiapos de cenoura grudados e umas babas de beterraba escorrendo pelas ranhuras me lembrava, antes do café, que todo esforço é vão, que a vida é feita de fracassos, o tempo é vento que leva o viço, Sísifo arrasta a pedra morro acima, o destino a rola morro abaixo, Cronos devora seus filhos e essa barriga, ai, essa barriga, não vou perder nunca? Não, nunca, me devolvia o magipack, diuturnamente, do fundo de sua lassa pança.

Por que não comprávamos uma tigela menor? Por que não comprávamos uma tigela com tampa? Por que não reaproveitávamos uma mísera caixa de sorvete Kibon? Seria tão simples, comenta o Excel(entíssimo) leitor. Amigo, se as coisas simples fossem tão simples, as calotas polares não estavam derretendo, deputado corrupto não se reelegia e ninguém roía unha. Eu via a tigela e me resignava, como nos resignamos com tudo.

Hoje, porém, ao abrir a geladeira pela manhã, em vez do navio fantasma, vejo um iate: uma tigela com uma futurística tampa de silicone, vermelha. Penso, num átimo: era infeliz e não sabia e não sou mais. Penso: acabou o UFC com o magipack. Penso: adeus baba de beterraba. O fiapo da cenoura jamais voltará a me lembrar do fiapo que sou na ordem geral das coisas. A tigela me trará a certeza de que os problemas têm solução, cada tigela tem sua tampa, cada coisa tem seu lugar – até mesmo a esteira elétrica que comprarei para combater a barriga, o colesterol, a ansiedade e outros males da civilização.

Abraço minha mulher, eufórico. Estamos livres. Agradeço. Minha mulher, contudo, diz que não tem nada a ver com isso. Nos debruçamos alguns minutos sobre o mistério, então lembramos do almoço, no penúltimo domingo. A Tati Bernardi foi a encarregada de trazer a salada. Uma tigela com tampa vermelha de silicone é a cara da Tati Bernardi. Imagino que nunca houve uma tigela sem tampa na cozinha da Tati Bernardi. A Tati Bernardi sequer deve saber o que é ser escravo de um rolo de magipack. Fico triste em descobrir que a tigela é da minha amiga. Não é fácil perder uma amiga.

sexta-feira, 24 de março de 2017


Jaime Cimenti

Feliz Porto Alegre! 

Porto Alegre é demais, está de aniversário e acaba de ganhar um presente gigante: a reforma e ampliação do aeroporto Salgado Filho. Que venham os alemães, aumentem a pista e facilitem os voos para as oktoberfests e para o resto do planeta. Wunderbar! Parabéns! Zum geburtstag viel glück - Portinho cervejeira e alemãzinha! 

Uns porto-alegrenses aí, bem, tipo assim, porto-alegrenses, gostam de dizer que Porto Alegre é um bom lugar para voltar. Verdade. Viajar, andar pelo mundo com planos ou sem destino, com malas e sem malas, é quase sempre ótimo. Mudar a paisagem da solidão, como disse o Quintana, e sentir-se outros, reinventar-se. Bom, normal. Voltar para a casinha, para o velho travesseiro, para os parentes do bem e os amigos, idem. Isso é mais velho que andar a pé ou que a Sé de Braga. 

É do tempo que se amarrava cachorro com linguiça. Porto-alegrenses viajam, se divertem, protagonizam - internacionalmente - feitos relevantes em plagas distantes, gastam bastante em restaurantes e hotéis no exterior ou em outros estados brasileiros sem reclamar muito e trovam, cantam e dançam por este mundo de Deus. 

No amargo ou no doce regresso, quando o avião vai sobrevoando o belíssimo Delta do Jacuí (a oitava maravilha do mundo, segundo alguns bairristas) e a gauchada enxerga a ponte do Guaíba, aí a coisa muda. Muitos fecham a cara, ficam carrancudos e voltam para o clima de Portinho, a açoriana ainda meio tímida, séria, meio bicuda, mas também meio simpática e malandra. 

Se a volta não for em abril ou outubro, os únicos meses de clima realmente bom por aqui, e lá fora a chuva forte guasqueada estiver embolada com os ventos que parecem chicotes de feitor de escravos, a cerração e o frio, aquele de renguear pinguim, bom, aí o bicho pega. Aí até temos motivos para fazer aquele carão de caranguejo bravo, pronto para as peleias variadas que enfrentamos há séculos com os estranjas e entre nós. Não faz muito, as finanças da cidade eram superavitárias; agora, a capital está endividada até o pescoço da girafa. Tomara que a gente saia limpo do atoleiro, como disse o outro. 

De preferência, sem ter que pagar, para variar, mais e mais impostos. Pagar imposto e morrer, as únicas certezas futuras...Os governos sabem bem disso. Precisamos todos, juntos, dar um jeito de fazer Porto Alegre sorrir de novo. Caso contrário, muitos vão embora, e aí a capital não será mais o lugar bom de voltar. Precisamos de união, de diálogo pacífico e produtivo. Não é fácil, mas vamos acreditar que não seja impossível, vai. 

É o que temos para hoje. Temos de entender que, se a gente não se entender, os outros, os de fora, vão tomando conta cada vez mais, e a gente sabe que não é fácil ter que comer pelas mãos deles. Nada de bairrismo estéril e anacrônico num mundo globalizado, mas tudo a favor de melhores conversas entre nós, tantas vezes caranguejos dentro do mesmo balde. Vamos costurar e erguer uma bandeira azul e vermelha, e aí seguiremos com nossos feitos relevantes, em plagas distantes... a propósito... Torço para que sejam desarmados os criminosos, para que a população não precise andar armada. 

Torço para menos baganas de cigarro e lixo de vários tipos jogados nas ruas e nos arroios, entupindo nossos bueiros. Torço para cercamento em alguns locais, em alguns parques, como já temos em alguns casos, com bom resultado. Torço para que a gente limpe o Guaíba, pare de aterrá-lo tanto, e torço para que nosso cais finalmente deixe de ser encalhado e possa ser local de negócios, lazer e caminhadas de amigos, pais e filhos. 

Torço pelo Inter, mas não quero mal ao Grêmio, que tantas vezes valoriza, com garbo e competência, nossas vitórias nos Grenais. Coirmãos sim, inimigos não. Falei coirmão e não corrimão, como dizem uns metidos a engraçadinhos que andam por aí. Eu pego eles! ( - Jornal do Comércio 

(http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/03/colunas/livros/553067-o-imperio-romano.html)

Jaime Cimenti

O Império Romano 

Os primeiros mil anos de Roma seguem importantes e nos influenciam até hoje para tentar entender o mundo e nós mesmos. Da alta cultura à comédia barata, passando pela economia e pela política, os romanos cresceram de uma insignificante vila na Itália Central à primeira potência mundial. SPQR - Uma história da Roma Antiga (Planeta, 576 páginas, R$ 79,90) da inglesa Mary Beard, professora de clássicos em Cambridge, é obra monumental sobre o Império Romano, fruto de mais de 40 anos de estudos e pesquisas da autora e que, merecidamente, esteve por mais de ano em listas de best-sellers nos Estados Unidos e na Europa.

Com base em mais de 100 ilustrações e inúmeros mapas, e com décadas de trabalho, leituras e pesquisas, a autora mostra o Império de maneira clara e precisa, com muita paixão e sem jargões técnicos. Sobre o livro, registrou o The Economist: "Magistral. Um caso exemplar de história popularizada, de leitura envolvente, mas sem simplificação excessiva, que oferece uma visão abrangente e também detalhes íntimos que dão vida ao passado distante".

O lendário The New York Times, por sua vez, disse: "Beard revela os segredos do sucesso de Roma com uma clareza resoluta e impiedosa que não vi igualada em nenhum outro lugar". SPQR é a abreviatura que os próprios romanos criaram para seu Estado e significa Senatus Populus Que Romanus - ou O Senado e o Povo de Roma. Nessa história cruel, mas instigante, a autora faz uma análise eloquente da História de Roma e mostra como se formaram a identidade e a cidadania romanas.

Acima de tudo, revela porque essa cultura influencia o mundo no século XXI. Em entrevista, disse a autora: "De certa forma, explorar a Roma antiga a partir do século XXI é um pouco como andar em uma corda bamba, um ato de equilíbrio muito cuidadoso. Se você olhar para baixo, de um lado, tudo parece bastante familiar: você ouve conversas em que poderia se juntar, sobre a natureza da liberdade ou os problemas do sexo; você vê edifícios e monumentos que reconhece e a vida familiar vivida de forma que conseguimos entender, com todos os seus adolescentes problemáticos; e ouvimos piadas que entendemos.

Por outro lado, temos a impressão de que é um lugar completamente estranho. Isso não significa apenas a escravidão, a sujeira (não havia praticamente nada como coleta de lixo na Roma antiga), o abate humano na arena e a morte oriunda de doenças cuja cura, que, hoje em dia, não damos o devido valor; mas também os recém-nascidos abandonados em montes de lixo, as noivas-crianças e os extravagantes sacerdotes eunucos".
É isso.

PQR é obra altamente diferenciada, referencial e fundamental.

lançamentos 


Press - Advertising Ano 20 (Edição 175), revista dirigida por Julio Ribeiro, tem matéria de capa sobre automação e transformação no jornalismo e publicidade, entrevistas com David Coimbra e Susana Kakuta, mais detalhes da palestra de Flávio Presser no Clube de Opinião do RS, sobre PPP na Corsan e outras contribuições interessantes.

Pequena madrugada antes da meia-noite (Modelo de Nuvem, 104 páginas), do poeta uruguaianense Marco de Menezes, apresenta poemas com versos bem elaborados, que tratam de pessoas, de coisas, de passado e muito mais, numa permuta intensa entre o local e o universal.

Morte lenta (Faro Editorial, 320 páginas), do professor de literatura e escritor norte-americano Matthew Fitzsimmons, thriller poderoso movido a adrenalina, tem profundidade emocional, trama complexa e política, assassinato e suspense, na história sobre Suzanne, 14 anos, filha de senador, que sumiu sem deixar vestígios. - Jornal do Comércio

(http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/03/colunas/livros/553067-o-imperio-romano.html)


24 de março de 2017 | N° 18801
CLÁUDIA LAITANO

Patrícios


Na cidade de colonização alemã onde passei parte da infância, muitas das minhas colegas falavam alemão em casa – o que dava a elas uma entonação que me divertia e fascinava ao mesmo tempo. Nascida e criada no centro de Porto Alegre, descendente de pais e avós porto-alegrenses, qualquer traço cultural mais pronunciado da nossa origem italiana parecia diluído em relação à notável presença cotidiana da cultura alemã nos hábitos e na linguagem das minhas amigas de Novo Hamburgo. Não demorou muito para eu adotar o “ach du lieber Gott!” como se tivesse nascido comigo.

A melhor festa da cidade naquela época, levando-se em conta o que eu entendia sobre festas aos oito anos de idade, não era um kerb, mas o magnífico, aos meus olhos, São João promovido na escola por professoras com sobrenomes como Schneider, Weissheimer, Snel. A festa de São João, como o Carnaval, não nasceu no Brasil, mas se aquerenciou de forma tão natural por aqui, que hoje é um dos símbolos mais reconhecidos da nossa brasilidade. (No Rio Grande do Sul, prosperou uma curiosa versão sincrética que acolhe caipiras de bombachas e gauchinhos de chapéu de palha.)

Culturas se misturam. Ainda assim, cresce nas redes sociais a discussão sobre a chamada “apropriação cultural”. Pode mulher branca usar turbante sem ofender a cultura afro? Pode negra usar colete de franjas sem desrespeitar a cultura indígena? Cheio de boas intenções (promover o respeito a culturas subjugadas por grupos sociais dominantes), esse debate sempre me pareceu ir contra o fluxo naturalmente caótico (e rico) do encontro de culturas e tradições diferentes. 

Porque tudo que reconhecemos como “nosso” é resultado de misturas, adaptações, imitações. Como o São João, que nasceu pagão, virou cristão, saiu da Península Ibérica, chegou ao Brasil e acabou no pátio da minha escola em Novo Hamburgo – fazendo a alegria da alemoada que dançava quadrilha (inspiração francesa) com bombachas e vestido de prenda.

Porto Alegre começou, há alguns anos, a comemorar a festa de Saint Patrick – um santo irlandês que caiu no gosto de devotos de todos os cantos do mundo onde se apreciam bebedeiras pesadas e conversas leves. O que será dessa festa daqui a 20 ou 30 anos? Impossível prever. Como outras manifestações culturais importadas (ou inventadas), vai crescer e se reproduzir – ou murchar e desaparecer. 

Tenham origem religiosa ou pagã, comercial ou histórica, tradições culturais cumprem seu ciclo de vida adaptando-se às condições mais ou menos favoráveis do ambiente. Ou seja: tudo é possível. Inclusive um porto-alegrense da gema como eu, daqui a cem anos, achar que a festa de São Patrício é a mais gaúcha que há.


24 de março de 2017 | N° 18801
DAVID COIMBRA

Abuso de poder


Há muita gente preocupada com o que chamam de “abuso de poder”, no Brasil. Gente como Renan Calheiros, Sarney, Lula, Dilma, Cunha, Jucá, entre outros. Todos eles, curiosamente, poderosos.

Eu aqui não tenho poder algum, mas também me preocupo com o abuso de poder.

Por exemplo:

O poder de nomear apaniguados para diretorias de grandes empresas estatais e órgãos de fiscalização.

O poder de beneficiar empreiteiras em obras do Estado.

O poder de afastar do caminho fiscais que estejam fazendo o seu serviço corretamente.

O poder de comprar e vender medidas provisórias.

O poder de usar dinheiro do contribuinte para financiar blogs de propaganda política.

O poder de governantes se associarem a empresários para que ambos se locupletem com recursos do Estado.

Isso, de fato, é abuso de poder.

Sempre se abusou do poder no Brasil. Sempre se disse que esses poderosos jamais seriam alcançados pela lei, que eles podiam fazer o que quisessem, que no Brasil valia tudo para quem tinha dinheiro e... poder.

Mas agora é diferente. Agora, os poderosos também estão respondendo pelos seus atos. É a isso, a essa responsabilização, que esses poderosos chamam de “abuso de poder”.

Outros, nem tão poderosos, fazem coro. Também acham que a Polícia Federal, o Ministério Público e a Justiça praticam abuso de poder. Compreensível. A ideia de que todos são iguais diante da lei ainda é chocante no Brasil, um país em que os maiores valores são, precisamente, dinheiro e poder.

Observe como o país reagiu à Operação Carne Fraca. Só o que se fala é nas exportações, nas vendas da carne brasileira. Ou seja: no dinheiro que a carne gera.

E a saúde das milhares, talvez milhões de pessoas que se alimentaram com carne estragada durante tanto tempo?

Nós entrevistamos, no Timeline, o fiscal que fez a denúncia desencadeadora da operação. Entre outras revelações, ele contou que esse escândalo ocorre há mais de 10 anos, que os antigos ministros da Agricultura sabiam do que acontecia e que, em muitos casos, a carne podre ficava mergulhada em produtos químicos por 30 horas para ganhar aparência saudável no supermercado.

Você comeu essa carne. Os seus filhos comeram.

O que pode ter ocorrido com sua saúde e a de seus filhos, com a saúde de multidões de brasileiros que se alimentaram com esse veneno por mais de 10 anos?

Por que ninguém nem sequer especula sobre isso?

Por que só se fala nas exportações e no que as empresas vão perder com as denúncias?

Porque, no Brasil, o dinheiro é mais importante. O poder é mais importante.

Eles têm dinheiro. Eles têm poder. Eles abusaram do poder. E só o que querem é continuar abusando.



24 de março de 2017 | N° 18801
NÍLSON SOUZA

    PORTO DE TODOS

    Minha aldeia, cidade adotiva de Erico Verissimo, tem uma orquestra sinfônica (que não tem sede própria, mas, pelo menos, já ganhou um espaço para ensaiar).

    Minha aldeia, que também adotou Paixão Côrtes, tem um colosso de bronze a guarnecê-la com o seu laço de 12 braças (encurtado para não pesar muito, pois o dono anda meio estropiado pelo tempo, mas já está recebendo curativos).

    Minha aldeia tem um jardim botânico com todos os tons de verde que te quero verde (ainda que constantemente ameaçado pelo cinza da crise, da insensibilidade e da ganância).

    Minha aldeia tem um rio (que é o rio mais belo que corre pela minha aldeia porque é o rio da minha aldeia e, como Fernando Pessoa travestido de Alberto Caeiro, eu sei para onde ele vai e de onde ele vem).

    Minha aldeia tem uma ponte sobre o seu belo rio (que sobe para passar o navio e desce para os motoristas de automóveis e caminhões escaparem dos arrastões).

    Minha aldeia tem uma usina de cultura com uma chaminé que alcança as nuvens, quase o céu de Mario Quintana (Ó céus de Porto Alegre, como farei para levar-vos para o céu?).

    Minha aldeia tem um mercado de cheiros, especiarias e histórias (que resiste bravamente a incêndios, pichações e restaurações).

    Minha aldeia tem um charmoso chalé europeu (cenário encantado de velhos namorados e assombrado pelos fantasmas dos lambe-lambes que ainda habitam o seu redor).

    Minha aldeia tem uma Redenção no seu coração (além do Marinha, do Parcão e de muitos outros espaços para o bate-papo e o chimarrão).

    Minha aldeia tem um teatro com th, galerias e um lustre de cristal (abençoado pelo padroeiro do Estado e muito bem cuidado pela dona do espetáculo).

    Minha aldeia tem um brique dominical e uma feira só de livros (onde se encontram com o distinto público artistas, artesãos, editores e escritores).

    Minha aldeia tem dois templos de luxo para a bola (que rola em vermelho e azul nesta capital do eterno Gre-Nal que divide e une o povo gaúcho).

    Feliz aniversário, cidade do meu andar, de todos os andares, de todos os nativos e visitantes que te fazem tão humana e aconchegante.

quinta-feira, 23 de março de 2017



23 de março de 2017 | N° 18800
ECONOMIA

Deputados aprovam terceirização ampla

COM 231 VOTOS a favor e 188 contra, texto aceito pela Câmara passa a incluir todas as atividades e vai à sanção de Temer, defensor da proposta

O plenário da Câmara dos Deputados aprovou ontem projeto de 1998 que regulamenta a terceirização no país, liberando-a para ser usada em qualquer ramo de atividade das empresas privadas e de parte do setor público. A proposta também amplia a permissão para contratação de trabalhadores temporários, dos atuais três meses para até nove meses – seis meses, renováveis por mais três.

Atualmente, há o entendimento de que jurisprudência da Justiça do Trabalho veda a prática na chamada atividade-fim. Ou seja, uma fábrica de sapatos não pode terceirizar qualquer etapa de sua linha de produção, mas sim atividades não diretamente relacionadas ao produto final, como serviço de copa e cozinha, segurança e limpeza.

O painel eletrônico mostrou 231 votos a favor da medida, contra 188 votos e oito abstenções. Todos os destaques (emendas que poderiam alterar o projeto) foram rejeitados. Com isso, o texto vai à sanção do presidente Michel Temer, que é defensor da proposta.

O empresariado e parte da base governista dizem que isso irá estimular a criação de empregos e tirar travas à competitividade das empresas. Os críticos dizem que o objetivo é reduzir o gasto com pessoal, com prejuízo claro aos trabalhadores.

A aprovação foi polêmica não só pelas críticas da oposição, para quem a medida representa um salvo-conduto para a precarização da mão de obra no país, mas também porque não houve o aval da maior parte dos atuais senadores. No sistema legislativo brasileiro, as leis são feitas mediante a aprovação das duas casas que formam o Congresso, a Câmara e o Senado.

Sob a batuta do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ), hoje preso sob a acusação de envolvimento na Operação Lava-Jato, a Câmara aprovou a regulamentação da terceirização em 2015. Mas o texto tramitou lentamente no Senado, já que o ex-presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL), dizia ver riscos ao trabalhador.

TENTATIVA DE BARRAR NO STF A MANOBRA

Com isso, o atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM- RJ), recorreu a uma manobra, com o apoio da base de Michel Temer: desengavetou uma proposta similar de 1998, apresentada pelo governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Esse projeto havia sido aprovado no Senado em 2002, com relatório de Romero Jucá (PMDB-RR), atualmente líder do governo no Senado. Só 12 dos atuais 81 senadores estavam no exercício do mandato na época. A oposição diz que recorreu ao Supremo Tribunal Federal contra a manobra.

O projeto que está no Senado também pode ser votado nos próximos dias. Com isso, Temer pode combinar a sanção e veto de trechos dos dois textos.

O projeto que agora vai à apreciação do presidente traz bem menos salvaguardas para o trabalhador do que o debatido em 2015. Desaparece, por exemplo, a obrigação de que a empresa que encomende trabalho terceirizado fiscalize regularmente se a firma que contratou está cumprindo obrigações trabalhistas e previdenciárias. Somem também restrições à chamada “pejotização”, que é a mudança da contratação direta, com carteira assinada, pela contratação de um empregado nos moldes da contratação de uma empresa (pessoa jurídica) prestadora de serviços.

Ao defender o projeto de 1998, Maia afirmou que “muitas salvaguardas que foram criadas por bem têm gerado mais desemprego no Brasil e mais emprego no Exterior”. Havia no atual projeto uma anistia a multas e penalidades aplicadas até agora pela Justiça Eleitoral, mas esse artigo foi retirado pelo relator, Laércio Oliveira (SD-SE).


23 de março de 2017 | N° 18800
O PRAZER DAS PALAVRAS | Cláudio Moreno

Saber de cor

VOCÊ SABE QUAL é o significado da expressão formada pela preposição de e pelo substantivo cor?

Um leitor gentilíssimo, cujo nome deixarei em segredo, manda uma mensagem que me deixa assaz embaraçado: “Antes de expor minha dúvida, caríssimo professor, não posso deixar de louvar sua generosidade cristã ao disponibilizar na internet, gratuitamente, o seu Guia Prático do Português Correto. Já baixei os quatro volumes no computador e estou bebendo aos poucos o conhecimento que transborda em cada página! 

Agora, a minha pergunta: numa circular que estou mandando aos membros do clube que presido, quero recomendar que todos memorizem a letra do nosso hino. A forma correta seria “Vamos saber decor nosso hino”? Ou seria décor, como já vi escrito por aí? Adianto ao mestre que já procurei nos bons dicionários e não encontrei a palavra”.

Caro amigo, agradeço muito o tom elogioso com que você se refere ao meu trabalho. Contudo, antes de passarmos à resolução de sua dúvida, sinto-me obrigado a desfazer um pequeno equívoco: como minha formação me impede de colher os louros que pertencem a outrem, preciso informar que foi outro cristão, certamente um verdadeiro patife, que colocou o Guia Prático na internet. Você há de convir que eu estaria fora do meu juízo se praticasse um ato de pura pirataria contra mim mesmo...

Agora, vamos à sua pergunta: o amigo nada encontrou nos dicionários porque estava à procura de um vocábulo só, sem perceber que estamos aqui diante de duas palavras autônomas – a preposição de e o substantivo cor (com O aberto, como a primeira sílaba de porta), forma herdada do Latim cor, cordis (“coração”). Saber de cor é, no fundo, saber do fundo do coração – ideia que fica muito mais evidente no Inglês e no Francês, que dizem by heart e par coeur, respectivamente.

Para que a expressão tenha sentido, é importante lembrar que o coração foi, por muito tempo, considerado a sede da coragem (olhe aí uma palavra da mesma família!), dos sentimentos e da inteligência. A Ciência moderna, é claro, passou a coroa e o cetro para o cérebro, mas mesmo assim, no nosso imaginário, o coração continua soberano. 

Quando anunciaram o primeiro transplante de coração, feito pelo Dr. Barnard, em 1967, não foram poucas as vozes na imprensa que perguntaram como o transplantado iria conviver com os sentimentos do doador... A tanto eu não chego, mas confesso que ainda acho natural, por exemplo, que seja para ele, e não para o cérebro, que Cupido continue dirigindo suas flechas traiçoeiras.

Em decorar e recordar, não por acaso, o mesmo radical de cor está presente, a sugerir, portanto, a existência de uma ligação subterrânea entre memória e sentimento. Num século intelectualmente tão miserável quanto este, em que os pedagogos tratam o ato de decorar como Maomé tratava o toucinho, devíamos dar mais ouvidos à sábia voz de George Steiner, grande defensor da memorização: saber de cor um texto clássico permite travar com ele um diálogo interminável e cada vez mais rico, pois o prazer estético e o ensinamento que dele podemos extrair vão crescer à medida que cresce nossa própria experiência.



23 de março de 2017 | N° 18800 
DAVID COIMBRA

O frio civilizatório

“É o frio!”, dizia aquele velho anúncio das Casas Pernambucanas à entrada de cada inverno, e é o que diz também a tese do Zé Pedro Goulart acerca da principal razão de as coisas não darem certo no Brasil.

É o frio! Ou a ausência de. Segundo o Zé, fosse o Brasil um país de frios extremos, tudo funcionaria a contento.

É plausível e lógico. Em países de temperaturas muito baixas, o trem haverá de chegar na hora certa, o aquecimento não poderá quebrar, a neve terá de ser removida das ruas, caso contrário as pessoas correrão risco de, simples e definitivamente, morrer.

A necessidade, portanto, leva à eficiência. Por que o baiano há de abandonar o embalo da rede, vivendo ele em meio ao mormaço aplastante e úmido do trópico, ouvindo o sonolento ronronar das ondas de Itapuã, sabendo que, perto dele, o coqueiro dá coco e do mar se colhe o peixe?

O calor se presta ao usufruto dos dias. O frio, à frenética produção. Donde, tudo há de ser preciso onde faz muito frio.

Certo. Bem pensado. Mas e a Rússia?

Na Rússia faz tanto frio, que torna o interior da sua geladeira mais aconchegante do que a rua. No inverno, Moscou registra, sem sobressaltos, 45 graus abaixo de zero. Os exércitos de Hitler e Napoleão foram derrotados pelo General Inverno quando ousaram invadir aquelas terras geladas.

Na Rússia, portanto, faz muito frio. E a Rússia é um Brasil.

Conheço russos, e um deles, certo dia, disse-me que na Rússia muitas coisas também são resolvidas com jeitinho. Na Rússia, os serviços públicos são precários. Na Rússia, o sistema capitalista adotado não é capitalista de verdade, é o capitalismo patrimonialista, de compadrio, no qual o capitalista não assume riscos.

Na Rússia, as mulheres são belas.

Tudo isso temos em comum com os russos. A vantagem deles, certamente, é a literatura. A nossa, a música. E a democracia. Os russos jamais experimentaram um regime democrático legítimo. Ou foram oprimidos pelos czares, ou pela Nomenklatura comunista, ou por Putin, o envenenador.

Assim, a tese do Zé Pedro de que o frio extremo produz civilização cai pelas estepes congeladas e rola Sibéria abaixo.

Alguém poderá achar que se trata de um desalento para o Brasil. Ou seja: nem o frio nos salvaria.

Ao contrário, é um alento. Porque significa que podemos vencer a geografia. Se a Rússia é exceção climático-político-administrativa, por que nós não poderíamos ser também, só que pelo lado positivo? Um país quente que funciona.

Acredito nisso. Acredito que o Brasil possa evoluir, e já estamos caminhando nessa direção. No Brasil de hoje, os poderosos também são punidos. Gente com muito dinheiro e muito poder, tendo errado, está indo para a cadeia. Outros irão. É uma base sólida de nação, sim. Por demonstrar, na prática, que ninguém é diferente diante da lei. Estamos nos distanciando da Rússia. E o melhor: com temperaturas amenas e mulheres lindas.


23 de março de 2017 | N° 18800 
L.F. VERISSIMO

A carne

Temos, ai de nós, uma Polícia Federal satírica. Não sei se existe alguém na PF encarregado de dar codinomes aos seus investigados e nomes às suas operações. Se tiver, é um novo Jonathan Swift, um Voltaire redivivo. Deveria se identificar, para receber nossos aplausos. Essa de chamar de Carne Fraca a operação contra a corrupção nos frigoríficos e o escândalo dos fiscais da indústria de alimentos que recebiam propina para não fiscalizar nada é genial. 

A ação poderia se chamar Carne Podre, ou Nome aos Bois, mas aí não teria o mesmo valor literário e irônico. Carne Fraca é perfeito. Serviria mesmo para todo o conjunto das ações policiais e jurídicas a partir do começo da Lava-Jato.

A corrupção existe, afinal, porque a carne é fraca. Como disse o Oscar Wilde – outro que teria emprego garantido como frasista na Polícia Federal –, “eu resisto a tudo menos à tentação”. A tentação é demais. Somos pobres almas inocentes reféns da nossa própria carne e das suas fraquezas. De certa maneira, Carne Fraca é quase uma absolvição da corrupção epidêmica que assola o país. Rouba-se tanto porque a carne não se satisfaz com pouco, é incapaz de se contentar com o que já tem. Porque a carne é insaciável.

Nenhum corrupto racionaliza a sua fome de ter mais, sempre mais. Nenhum decide: quero tanto e chega. Tenho um Lamborghini e dois Porsches, um para cada pé, piscina aquecida em forma de trevo, uma mulher com menos dedos e orelhas do que o necessário para usar todas as joias que lhe dou, contas na Suíça e em Lichtenstein, apartamento em Palm Beach – e pronto. Não preciso de nem um centavo a mais.

O centavo a mais é a perdição dos nossos corruptos. O centavo a mais é a tentação irresistível de Wilde resumida numa frase. O centavo a mais é uma metáfora para o excesso, para não saber quando parar. É difícil identificar o momento em que a ganância transborda e o centavo a mais bate na porta do corrupto e o leva coercitivamente para a cadeia, o corte zero do seu cabelo, as manchetes dos jornais e a execração pública. 

É um pouco como o paradoxo do balão: só se descobre a capacidade máxima de um balão, o ponto em que um sopro a mais o estouraria, quando o sopro a mais é dado e ele estoura. Só se descobre quando era o momento de parar de roubar quando o momento já passou.

“Carne Fraca” tem algo até de carinhoso, na sua ironia. A Polícia Federal, ou o autor do nome da operação, reconhece que não é fácil deixar de roubar, com tanto dinheiro voando por aí, com tantas oportunidades que o Brasil oferece para a maracutaia e o molha a mão. O que “Carne Fraca” diz é que a Polícia Federal não perdoa, mas entende.

quarta-feira, 22 de março de 2017



22 de março de 2017 | N° 18799 
MARTHA MEDEIROS

Cachê vexame


Uma ideia criativa alavanca as vendas. Slogans como “o primeiro sutiã a gente nunca esquece”, “não é nenhuma brastemp” e “bonita camisa, Fernandinho” ficaram no imaginário coletivo e são alguns dos cases que orgulham a propaganda brasileira. Porém, na ausência de uma sacada genial, o recurso é buscar o depoimento de pessoas famosas, já que elas encurtam o caminho até a aceitação do consumidor.

Esta eficiência, claro, tem um preço. Já vi atriz que mora na Barra da Tijuca anunciar um condomínio em Porto Alegre dizendo que era o lugar onde sempre sonhou morar. Por que uma atriz global iria querer morar aqui no Sul? Por nenhum motivo. Ela jamais cogitou essa hipótese. Queria apenas embolsar os 50 mil do cachê para terminar de pagar seu apartamento de frente para o mar. Pareceu-lhe um preço justo pelo vexame de ter que aparecer em horário nobre dizendo uma inverdade.

Por um dinheiro extra – não qualquer dinheiro, mas um extra de muitos dígitos –, há quem deixe o ego de lado. Quem não se lembra de Gloria Pires dizendo que iria nos contar um segredinho? “O Orlando tem caspa”. Pois é, o Brasil inteiro descobriu que o marido de uma de suas mais talentosas atrizes tinha caspa e havia resolvido o problema com determinado xampu. Beleza. Logo o comercial saiu do ar e o casal recebeu sua grana honesta. 

Se o Orlando tinha caspa mesmo, ou ainda tem, será sempre uma incógnita que roubará nosso sono. O que importa é que nenhum crime foi cometido – o consumidor sabe que propaganda testemunhal não é feita por filantropia.

Os cachês são altos porque os riscos também são. Maitê Proença vendeu sua credibilidade para anunciar uma marca de anticoncepcionais que se revelou fraudulenta: algumas mulheres engravidaram por ingerirem pílulas de farinha. A empresa foi autuada e ainda teve que pagar indenização para a atriz, que fez muito bem em buscar seus direitos.

Por essas e outras, é bom pensar direitinho antes de usar a própria imagem para vender detergentes, remédios, sabonetes, cervejas. Vá que o dono da empresa esteja usando uma tornozeleira eletrônica, vá que baratas estejam perambulando perto demais dos estoques, vá que esqueceram de comentar esses detalhes no contrato.

A repercussão da Operação Carne Fraca pode ser exagerada, mas o estrago está feito: Tony Ramos se queimou por enaltecer as virtudes de uma empresa sob suspeita. Diante de uma oferta milionária, não titubeou– alguém iria?

O Brasil não é um bom distribuidor de renda, mas o vexame está ao alcance de todos.


22 de março de 2017 | N° 18799
ARTIGO

COMO VAMOS TRANSPORTAR?

A colheita dos grãos cultivados no Rio Grande do Sul, cerais e, especialmente, oleaginosas, registra números exponenciais. O transporte desta safra 2016/2017, nos números em que ela vai se consolidando, com destino ao porto de Rio Grande exigirá uma eficiente mobilização de transportes. As empresas transportadoras e os caminhoneiros autônomos, como sempre aconteceu, darão conta de levar a carga até Rio Grande. Basta que tenham estradas adequadas, bem sinalizadas e fiscalizadas para que o fluxo não sofra solução de continuidade.

Transitando com frequência pela BR-116 até Rio Grande, o que sentimos é um panorama desalentador. Deveríamos ter uma rodovia duplicada. Com pistas com as dimensões recomendadas pelos manuais de trânsito para, em primeiro lugar, evitar acidentes com os trabalhadores. Antevemos uma crise. Mas o Estado do Rio Grande do Sul está mobilizado e trabalhando para garantir condições de escoamento. E o governo tem bem presente o que precisa ser feito. 

Inclusive projeta licitar balanças para as rodovias. Caminhões com excesso de carga ajudam a deteriorar a qualidade da malha viária. Mas isso não é impedimento para que governo obtenha os recursos federais indispensáveis para duplicar a BR-116 no trecho Porto Alegre- Pelotas-Rio Grande. O porto está aparelhado para armazenar os grãos, receber os navios e, em tempo ágil, escoar os produtos.

Nós do sul do Estado, e especialmente de Rio Grande, estamos mobilizados com relação a esta importante obra. Dados consolidados pela administração do porto de Rio Grande apontam que 80% de todas as cargas movimentadas no complexo portuário tem sua chegada/saída pelo modal rodoviário. Milhões de toneladas passam pelo porto. 

Números que, em termos de economia, evidenciam a importância da rodovia. Os recursos para a continuidade das obras estão contingenciados. A mobilização é geral, governo, setor empresarial, imprensa e sociedade que estão apoiando a duplicação e a conclusão da obra.

*Secretário do Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul