sábado, 31 de julho de 2021


31 DE JULHO DE 2021
MARCELO RECH

O Houdini do Planalto

Sou um apreciador das entrevistas com o ministro da Saúde, o cardiologista Marcelo Queiroga, mas não exatamente pela objetividade das respostas. Acompanho as falas do ministro para admirar a refinada arte do contorcionismo para preservar suas convicções e reputação, enquanto se esforça para não arranhar as obsessões de seu chefe no combate ao coronavírus.

Em geral, as entrevistas exploram contradições entre as posturas de Queiroga e Bolsonaro, como o desdém presidencial a ser vacinado, usar máscara e manter distanciamento. Nas respostas, sempre em tom educado e cordial, outra abissal diferença em relação ao presidente, o ministro se mostra um Houdini - o mestre da escapologia - diante das armadilhas à frente. À frequente pergunta sobre a determinação do presidente para que o ministério estude a desobrigação de máscaras para quem já tenha sido vacinado ou contaminado, o ministro se desvencilha: "Estamos estudando". Já se vão lá quase dois meses da orientação presidencial e, diante da provável nova onda de contágios pela variante Delta, o ministério, felizmente, segue estudando, estudando, estudando.

Xiitas à esquerda e à direita não gostam do ministro. Entre os que têm repulsa por qualquer um que sirva a Bolsonaro a menos de 1,5 metro de distância, Queiroga é visto como colaboracionista de um governo perverso. Entre os radicais de direita, o ministro apanha pela moderação e pela forma diplomática com que dribla as doidices negacionistas. Na realidade, goste-se ou não do ministro, ao se manter fiel à ciência e ao esforço de obter o máximo de vacinas no mínimo de tempo, Queiroga tem sido decisivo para salvar vidas de brasileiros e para repor alguma racionalidade aos estoques rarefeitos do Planalto.

Em um dos lances mais humilhantes da crise, por exemplo, ouviu-se o agora ex-chefe da Casa Civil, o general da reserva Luís Eduardo Ramos, confessar que tomou vacina escondido - naturalmente para não ferir as suscetibilidades de um chefe de Estado que até hoje não pôs os pés na Fiocruz, uma exemplar instituição federal que já produziu quase 80 milhões de doses contra a covid. Enquanto isso, Queiroga valorizou o popular e simpático Zé Gotinha, amaldiçoado por bolsonaristas que o associavam a governos do PT, e faz questão de, sempre que possível, vacinar ele mesmo colegas de ministério em cerimônias públicas.

A favor do ministro, conta também o contraste com seu antecessor, um neófito que fazia previsões mirabolantes e se orgulhava de cumprir ordens desconexas de Bolsonaro. Aos poucos, Queiroga vem desativando as bombas-relógio deixadas no ministério, demitindo dirigentes suspeitos e, com discrição, recuperando parte do esforço desperdiçado pelo governo para a vacinação em massa. Nas atuais circunstâncias, já é uma mágica e tanto.

MARCELO RECH

31 DE JULHO DE 2021
J.R.GUZZO

O retrato acabado da CPI da Covid

Se o Brasil tivesse instituições que valessem uma nota de 2 reais e políticos com a qualidade profissional de um flanelinha, não teria acontecido uma aberração tão miserável como essa CPI da Covid. Tendo acontecido, não poderia ter nomeado um presidente investigado por corrupção alguns anos atrás pela Polícia Federal - sua própria mulher e três irmãos foram para a cadeia sob a acusação de meterem a mão em verbas da saúde. 

Também não teria um relator como esse que está aí, com nove processos penais no lombo e a fama pública de ser um dos políticos mais enrolados do Brasil diante das leis criminais. Não poderia, igualmente, ter como vice-presidente um indivíduo que não entendeu até agora o que é uma investigação parlamentar séria, que já deu provas repetidas de histeria e trata como criminosos e inimigos da pátria todos os depoentes que fazem parte da sua listinha negra pessoal.

A CPI do Senado não investiga nada - existe unicamente para a mídia e a oposição conduzirem, há três meses, um show contra o governo. Centenas de depoimentos, diligências, perícias e tudo o mais foram se amontoando uns sobre os outros sem deixar claro, com um mínimo de competência no trabalho investigatório, o que houve realmente de errado, quem errou, quando, onde, no que e como. Não há um único inquérito penal que possa levar à condenação de alguém, mesmo porque não há nenhuma prova decente a respeito de nada ou de alguém até agora. Milhões de reais de dinheiro público são queimados em troca de literalmente coisa nenhuma.

O vice-presidente da CPI, que desde o começo do espetáculo quis disputar a boca de cena com os outros dois, parece ter encontrado de algum tempo para cá o papel que mais lhe satisfaz; talvez, sem saber, esteja tendo a grande oportunidade de colocar para fora, à vista de todos, o que realmente sempre quis ser e até agora esteve escondido nas dobras da sua estrutura psicológica. Está se revelando, talvez mais do que os outros, um policialzinho frustrado e subitamente portador de uma farda desses - que sempre sonhou com um revólver na cinta e uma carteirinha escrita "Polícia", para intimidar as pessoas e se comportar como o pequeno ditador de quarteirão que tanta gente conhece e lamenta.

Nada deixa o senador mais feliz do que chamar os jornalistas para ameaçar alguém de prisão - como no caso de um empresário acusado por ele de "evadir-se", para não comparecer a um interrogatório na delegacia de polícia que está armada no Senado Federal. É o seu jeito de ser "autoridade" - através da repressão, como sonha boa parte da esquerda neste país. É o seu jeito de aparecer no noticiário. É um retrato acabado dessa CPI.

Conteúdo distribuído por Gazeta do Povo Vozes

J.R. GUZZO

sexta-feira, 30 de julho de 2021


30 DE JULHO DE 2021
DAVID COIMBRA

Caiu a ficha

Tem uma pergunta que useira e vezeiramente é feita pelos repórteres de TV aos vencedores de alguma competição e que vem sendo bastante repetida na Olimpíada de Tóquio. Gosto dessa pergunta:

"A ficha já caiu?"

A resposta é sempre a mesma: a ficha ainda não caiu. Quer dizer: o conquistador está perplexo com sua própria conquista, e pouco do frêmito do povo embevecido e agradecido chegou a ele.

Trata-se de uma resposta modesta, como bem cabe a um vencedor. Quer dizer: ele venceu, mas continua sendo a pessoa que sempre foi. A vitória não teve tempo de modificá-lo, ele nem sequer compreendeu o tamanho da sua conquista.

Queria um dia responder a essa pergunta. É um desejo que acalento. Eu cercado de repórteres entre sorridentes e ansiosos, os microfones apontados para mim, aí um deles, de preferência da Globo, faz a pergunta que sempre quis ouvir:

- David: a ficha já caiu? 

Eu fingiria pensar na resposta, mas na verdade já a tenho pronta e ensaiada:

- Sabe que não? A ficha realmente não caiu. Hoje de manhã, seis horas, acordei e fiz o que faço todos os dias: tomei meu desjejum com frutas da estação e saí para distribuir alimentos para os meninos pobres da minha rua. Tenho uma relação muito bonita com eles, sabe? Eu os trato como se fossem meus filhos. Acho que temos obrigação de ser solidários. Ver a gratidão nos rostinhos deles quando lhes dou um simples sanduíche é a minha maior recompensa. Bem. 

Depois, fui fazer meus exercícios matinais. Ioga. Precisamos cuidar do corpo. Em seguida, parei tudo e fui meditar. É muito bom sentir aquela paz e se afastar de toda a agitação do mundo. A vida não é só produzir e produzir e produzir. Só agora, quando vocês chegaram, é que pensei: eu venci! Eu sou o número 1! Que loucura isso. Chega a ser perturbador para quem tem um passado de dificuldades como eu. Mas é muito positiva toda essa energia que sinto das pessoas em relação a mim. Só posso dizer uma coisa a todos que estão me assistindo neste momento: jamais desistam dos seus sonhos. Jamais!

Considero o meu discurso perfeito: mostra como sou esforçado, acordando às seis da manhã, e, ao mesmo tempo, elevado, meditando e tudo mais. Mostra como me preocupo com os mais necessitados, como sou humilde e, por fim, dá às pessoas um conselho inútil, mas que demonstra a minha força de vontade: "Jamais desistam dos seus sonhos".

Há um outro trecho do meu discurso que me empolga: a parte da energia. É bom imaginar raios invisíveis saindo das pessoas, vindo em minha direção, me tornando mais forte. É um pensamento agradável. Se milhares de pessoas, se um país inteiro torcer por mim, vou me dar bem. O problema é se torcer contra mim. Bem, mas isso não acontece com um cara que tem de responder se a ficha já caiu. Ah, não.

Ser perguntado sobre isso, sobre a ficha cadente, é o que basta para uma pessoa se sentir realizada. Acredite em mim: não desisto dos meus sonhos. Graças a sua energia positiva, ainda vou responder se a ficha já caiu.

DAVID COIMBRA

30 DE JULHO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

CERCO A IRREGULARIDADES

Demonstra presteza a Polícia Federal (PF) ao começar a investigar como informações de beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), que são privadas e deveriam ser sigilosas e protegidas, são corriqueiramente vazadas. São dados que vêm sendo utilizados por interme- diários e financeiras que, com eles, forjam empréstimos consignados para aposentados. As vítimas desse tipo recorrente de golpe, em regra idosos, têm assinaturas muitas vezes falsificadas e são surpreendidas com operações de crédito sem autorização, que acabam se tornando uma dor de cabeça, quando não causam severos prejuízos financeiros.

Reportagem do Grupo de Investigação da RBS (GDI) publicada há uma semana em Zero Hora mostrou como a fraude, denunciada outras vezes, se tornou recorrente e, pior, vem crescendo. É preciso dar um basta nestes vazamentos que têm origem, ao que tudo indica, no próprio INSS. Não se espera outro desfecho que não a identificação dos autores desse crime no órgão do governo federal para que se evite esse tipo de irregularidade onde ele nasce. Mas também é indispensável ampliar as apurações para se chegar aos que operam essa falcatrua na fase da falsa contratação do crédito.

Procurado, o INSS informou que não abriu averiguação sobre o caso, mas disse sempre colaborar com as investigações da Polícia Federal e que já auxiliou a resolver situações parecidas. Assegurou ainda que toma providências quando recebe queixas de cidadãos. Esse tipo de postura apenas reativa, no entanto, é insuficiente. É dever da autarquia zelar pelos dados dos segurados do instituto. Seria necessário aperfeiçoar mecanismos e sistemas que impeçam vazamentos semelhantes. Ao mesmo tempo, deveria ser mais ativo nas apurações internas.

A reportagem do GDI mostrou que uma empresa, em um chat na internet, vendia esses dados, sem muito esforço para esconder as irregularidades. Não será tão difícil, portanto, chegar a participantes dessa fraude e puxar o fio da meada. Golpes desse gênero, para serem desestimulados, devem ser passíveis de uma investigação criteriosa, que produza provas robustas e leve a condenações pedagógicas. Ao mesmo tempo, é inequívoca a premência de o sistema financeiro implantar melhoria nos processos de checagem para identificar operações fraudulentas e não concluí-las. Assim evitará que milhares de brasileiros, em grande parte idosos, enfrentem uma maratona burocrática desgastante e o risco de perdas que muitas vezes significam o agravamento de dificuldades para quem já vive um dia a dia de aperto financeiro.


30 DE JULHO DE 2021
EDUARDO BUENO

Fingidor

"Ontem." Creio que já no meu primeiro dia no jornalismo - vivido, aliás, exatamente aqui, neste mesmo e prestigiado jornal e, por sinal, prestes a completar, oh céus, 45 anos -, fui alertado de que não era de bom tom abrir uma matéria com a palavra "ontem". Mas parece que as regras mudaram e, tanto aqui, neste prestigiado jornal, como noutros que por aí circulam, "ontem" hoje passa batido.

Talvez por isso, aqui estou eu me referindo a ontem. Mas não ontem, 29 de julho de 2021, mas ontem, 29 de julho de 1961, há exatos 60 anos (e um dia, hoje), quando Bob Dylan deu seu primeiro show pago. Creio que não devem ser mais do que cinco, dentre os 15 leitores que me acompanham, aqueles de fato interessados nas façanhas do Shakespeare do pop-folk-rock-country-blues. Mas a questão é que Bob Dylan não apenas é, disparado, a maior de minhas obsessões, como a efeméride se impõe.

"A" efeméride, não: as efemérides. Afinal, Dylan recém fez 80 anos (em 24 de maio), sua primeira apresentação paga foi "ontem" (há 60 anos e um dia) e no último dia 18 apresentou um inesquecível show "ao vivo" em streaming, Shadow Kingdom, um prodígio em conteúdo e forma que lançou novas sombras e luzes sobre uma carreira que sempre deixou fulgurantes imagens silhuetadas na mente dos que a acompanham.

Na enxurrada de livros lançados na esteira dos 80 anos de Dylan, o mais bombástico foi obra de Clinton Heylin, tido como o "maior, o mais sério e possivelmente o único dylanólogo de respeito". Ocorre que em março de 2016, Dylan vendeu seu arquivo pessoal - com mais de 6 mil itens - para a George Kaiser Foundation, que vai inaugurar o estonteante Bob Dylan Center, em Tulsa, Oklahoma. E Heylin foi o primeiro (e um dos raros) a ter acesso ao material inédito. E embora já tivesse escrito oito livros sobre o músico, ele concluiu que era preciso rever tudo à luz dos novos documentos. Por isso, acaba de lançar The Double Life of Bob Dylan, com mais de 500 páginas, e só a primeira parte de uma trilogia, pois esse primeiro volume cobre apenas de 1941 a 1966.

E tudo o que ocorreu a Clinton Heylin "denunciar", após escarafunchar nos rascunhos de Bob, foi que um dos mais profícuos e influentes compositores do século 20 é um "mitômano", o mentiroso patológico cuja própria autobiografia, Crônicas (ganhadora do prêmio Pulitzer e que ajudou Dylan a levar o Nobel de Literatura), é quase uma obra de ficção; ou seja, uma autobiografia não autorizada. Heylin é um intelectual que já escreveu sobre Orson Welles, Shakespeare e Marlowe. Mas, ao que tudo indica, nunca leu Fernando Pessoa. Se tivesse, saberia que "o poeta é um fingidor... chega a fingir que é dor a dor que deveras sente" e entenderia que as mentiras de Bob Dylan são mais reais do que as verdades que ele julga ter encontrado em seu arquivo morto.

 EDUARDO BUENO


30 DE JULHO DE 2021
INFORME ESPECIAL

Startup gaúcha lança teste para ajudar mulheres com câncer

Uma startup gaúcha formada por mulheres está lançando um produto inovador: o ChemoBiogram, um teste para definir o tratamento mais efetivo para o câncer de mama e de ovário. O nome da empresa é ZIEL. Uma das sócias, a bióloga Caroline Brunetto, explica que, embora exista uma gama de medicamentos e tratamentos disponíveis, apenas cerca de 40% dos pacientes respondem adequadamente. Por isso, o câncer ainda é a segunda causa de morte no mundo. A ausência de resposta pode ser atribuída a processos biológicos chamados de resistência. Descobrir quais os medicamentos podem provocar ou não essa resistência, antes de iniciar o tratamento, salvará vidas.

O ChemoBiogram será lançado em outubro, o mês rosa.

Extravirgem

Um mercado em expansão no RS e que já começa a chamar a atenção lá fora. A revista Oleo, da Espanha, publica reportagem sobre o azeite de oliva gaúcho. O destaque é para a inclusão do setor no Programa de Produtos Premium, liderado pela Secretaria de Inovação, Ciência e Tecnologia do Estado, e que tem como objetivo, entre outros, incentivar o empreendedorismo inovador e a competitividade nas empresas do RS. Presidente do Ibraoliva, que já conta com 104 produtores associados, o gaúcho Renato Fernandes adiantou à publicação espanhola que entre as prioridades da sua gestão estão a criação de um selo de certificação de origem controlada e de um laboratório sensorial de azeite de oliva.

TULIO MILMAN

quinta-feira, 29 de julho de 2021


29 DE JULHO DE 2021
DAVID COIMBRA

O imortal Catimba

Quando eu e o Nico Noronha terminamos de escrever a primeira edição de A História dos Grenais, no começo dos anos 1990...

Aliás, preciso pagar uma penitência: devia ter feito mais homenagens ao Nico Noronha quando ele morreu, no começo de 2018. Não as fiz talvez porque estivesse em férias, mas as farei oportunamente, prometo.

Por ora, tenho de contar que, quando eu e o Nico Noronha terminamos de escrever a primeira edição de A História dos Grenais, no começo dos anos 1990, passamos a decidir que fotos seriam publicadas na capa. A ideia era fazer algo diferente: o leitor gremista compraria o livro com uma capa com gol do Grêmio; o colorado com um gol do Inter. Para isso foram impressas duas versões: uma com a foto do gol do Grêmio na frente e o gol do Inter na contracapa, e a outra abria com a do gol do Inter e tinha a do gol do Grêmio atrás. Foi uma bossa que achamos que seria considerada genial, mas ninguém deu muita bola para a nossa invenção.

As fotos que escolheríamos tinham de ser simbólicas, deviam sintetizar a própria história do clube. Ficamos semanas discutindo qual seria a foto do Inter, porque a do Grêmio já estava decidida. Foi fácil: concordamos no primeiro minuto do primeiro tempo que seria a do gol de André Catimba no Gre-Nal decisivo do Gauchão de 1977. É uma imagem poderosa, captada no momento mais emocionante de um jogo histórico. O Inter era octacampeão gaúcho e o Grêmio havia montado um time para interromper aquela série de títulos. Em meio ao clássico, pênalti para o Grêmio. Tarciso, que estava no clube havia cinco anos, foi bater. Chutou o chão, e a bola saiu para fora. Foi tão dramático, que os jogadores do Inter correram para consolá-lo. Se o Grêmio perdesse, dificilmente a torcida perdoaria o Flecha Negra. O Grêmio não podia perder.

Não perdeu.

Aos 42 minutos do segundo tempo, Iúra, o Passarinho, deu um passe suave, de perna esquerda, por dentro da defesa do Inter, para André Catimba, que entrava na área em velocidade. A forma como André posicionou o corpo em relação à bola sugeria que ele chutaria de perna esquerda, rasteiro, no lado esquerdo do goleiro Benítez. Mas ele chutou de perna direita, alto, no lado direito. Gol. O gol do título.

Emocionado, André correu para comemorar como de costume: desde que era guri, em Salvador, ele festejava os gols nas peladas de praia dando saltos mortais que encantavam os turistas em visita à Bahia. Naquela tarde de setembro, no Olímpico, ao marcar o gol mais importante da sua carreira, ele tinha de fazer o mesmo. Fez. Só que deu errado. No meio do salto, André sentiu uma distensão na coxa e se esborrachou no chão. Foi esse momento que o fotógrafo de Zero Hora Armênio Abascal Meireles capturou e que nós reproduzimos na capa do livro: a bola está na rede e o meia Tadeu Ricci corre para dentro do gol, olhando para ela, pronto para abraçá-la. 

Ao lado da trave, de costas para o fotógrafo, o goleiro Benítez está ajoelhado na grama, devastado pelo revés. E, em primeiro plano, André Catimba voa. Voa mesmo, ele está à altura do travessão, na horizontal, feito um super-herói que decolou da superfície e partiu rumo à imortalidade. Bonito. E verdadeiro. Porque é isso que André Catimba é. Morreu nessa quarta-feira gelada, mas é imortal.

DAVID COIMBRA

29 DE JULHO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

FRIO E ACOLHIMENTO

Os gaúchos provam mais uma vez que, a despeito das disputas históricas que permeiam a trajetória do Estado, quando há um chamamento à solidariedade a sociedade se une. É o que ocorre novamente em todo o Rio Grande do Sul, com o esforço para acolher pessoas em situação de rua com a chegada de mais uma forte onda de frio, com temperaturas negativas em várias regiões e uma sensação de desconforto térmico acentuada pelo vento.

Invernos rigorosos não são novidade no extremo sul do país, mas neste momento vive-se uma situação social agravada pela pandemia. O aumento do número de moradores de rua na Capital, por exemplo, é perceptível. É um contingente que, sem um teto nem alimentação adequada, padece ainda mais principalmente com as noites congelantes da estação. A organização para receber o público em situação de vulnerabilidade no Ginásio Gigantinho, em Porto Alegre, ilustra esse esforço.

A estrutura oferecida mais uma vez pelo Internacional contou com um mutirão de organizações da sociedade civil, da iniciativa privada e do poder público. O acolhimento é coordenado pela Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc), que também faz uma busca ativa nas ruas da cidade. Camas foram cedidas pelo Exército, o Instituto Cultural Floresta doou kits de higiene, toalhas e roupas de cama foram fornecidas por redes de hotéis e voluntários preparam alimentação para os abrigados. Até domingo, a população acolhida poderá ter acesso a três refeições diárias, banho quente, testes para covid-19 e vacinas.

Mobilizações semelhantes ocorrem em albergue da prefeitura da Capital. As paróquias da Arquidiocese de Porto Alegre, inseridas na mesma aliança de solidariedade, servirão de amparo ao longo dos dias de frio intenso. Iniciativas parecidas são registradas em várias outras cidades do Rio Grande do Sul ao longo de mais esta semana gelada. 

As campanhas do agasalho, que neste ano começaram mais cedo do que o normal, certamente mostraram desta vez serem ainda mais necessárias, tanto pelo aumento da população em situação de rua quanto pela quantidade de dias de temperaturas baixas. Muitas vestimentas, cobertores e alimentos, ao longo deste período, foram arrecadados nos pontos de vacinação Estado afora. Espera-se que a crise sanitária e econômica em curso seja vencida o mais breve possível. Mas, quando é necessária, se comprova que a solidariedade é uma das principais características da sociedade gaúcha.

 


29 DE JULHO DE 2021
PERIMETRAL

E o livro que estava aqui?

Um dos monumentos mais populares de Porto Alegre - as pessoas interagem com ele, abraçam, brincam, tiram fotos - está decepado há 14 anos. Cadê o livro que Carlos Drummond de Andrade, tão compenetrado, lia sob o olhar atento de Mario Quintana, na Praça da Alfândega?

A escultura de bronze foi inaugurada em outubro de 2001, em homenagem à Feira do Livro. São raras as obras públicas que se encaixam com tamanha singeleza na paisagem urbana: Drummond, em pé, e Quintana, sentado à vontade em um banco da praça, despertam simpatia enquanto levam a literatura para o meio do povo.

- Só que a literatura foi embora - observa Eloísa Tregnago, artista que produziu a obra com o lendário Xico Stockinger (falecido em 2009), a partir de uma encomenda da Câmara Rio-Grandense do Livro.

Seis anos após a instalação do monumento, segundo uma reportagem da Folha de S.Paulo publicada na época, o livro de três quilos que repousava nas mãos de Drummond foi furtado. O ladrão provavelmente serrou a escultura. Eloísa, anos depois, chegou a bancar os custos para repor a peça, mas não demorou para ela sumir outra vez.

A verdade é que a prefeitura, responsável pelos monumentos públicos, nunca se mexeu para resolver a questão. Mas o atual diretor de Patrimônio e Memória do município, Nelson Boeira, promete uma vistoria no local para encaminhar uma solução definitiva:

- Não queremos simplesmente recolocar o livro e, em seguida, ele ser furtado de novo. Mas isso precisa, sim, ser resolvido: é uma obra que faz parte da nossa vida social, da interação das pessoas com a cidade.

Eloísa se compromete, além de buscar um orçamento acessível, a repensar a forma como o livro era preso na escultura: a melhor alternativa, segundo ela, é garantir que a peça fique apoiada em uma superfície maior nas mãos de Drummond, o que dificultaria uma nova amputação. O desfecho, agora, está nas mãos da prefeitura.

PAULO GERMANO

29 DE JULHO DE 2021
O PRAZER DAS PALAVRAS

Corão ou Alcorão?

Sem exagerar, são dezenas os leitores que, ao longo desses vinte anos de O Prazer das Palavras, pedem que eu puxe as orelhas de algum jornalista por erros - ou pretenso erros - que ele costuma cometer. Sinto muito, mas me repugna exercer este cargo de fiscal da linguagem dos outros, para o qual não fui nomeado. Porém, bem ao contrário, é com todo o prazer que defendo de críticas alguém que foi injustamente acusado por um desses zoilos (sempre quis usar esta palavra!).

Dessa vez a vítima foi conhecida apresentadora de uma rede nacional de TV: ao comentar a drástica redução do número de participantes da peregrinação a Meca neste ano de pandemia (apenas 60 mil, comparados aos dois milhões de 2019), ela chamou de Alcorão o livro sagrado do Islã - o que deixou indignado alguém que escreve de Florianópolis mas se assina Professor Capixaba: "Tenho notado a baixa formação desse pessoal da imprensa atual. Uma moça como essa [a apresentadora] não aprendeu na escola de Jornalismo que o nome oficial da bíblia (sic) dos muçulmanos é Corão, como se pode ver no Árabe e nas línguas ocidentais mais importantes?". E conclui, taxativo: "Uma emissora deste porte não deveria ter em seus quadros uma colaboradora tão desqualificada. Acho que isso seria um bom assunto para sua coluna".

Pois é bom assunto, mesmo. Vou seguir sua sugestão, caro Professor Capixaba, e começo absolvendo a moça, porque o livro sagrado do islamismo ora é chamado de Corão, ora de Alcorão; não existe forma "oficial", mas já vou dizendo que Alcorão sempre foi a mais usada em Português. Assim vem nos dicionários mais respeitáveis do passado (Bluteau e Morais); assim escrevia Camões, em 1572, em Os Lusíadas (Canto III,50): "Uns caem meios mortos, outros vão/A ajuda convocando do Alcorão".

Nos sete séculos que durou a ocupação islâmica de Portugal e Espanha, centenas de vocábulos árabes entraram em nosso idioma, muitos deles iniciados por "A": almôndega, alfândega, almofada, açafrão, açúcar, açude, adaga, aldeia, alface, algema, algodão, arroba, arroz, azeite, entre muitos outros. Essa curiosa coincidência nasceu de uma interpretação errônea que os ocupantes da Península fizeram do artigo "al", que acompanha todos os substantivos da língua árabe e que se modifica conforme a consoante que inicia o vocábulo seguinte (ar-ruzz, arroz; az-zayt, azeite), ampliando, para quem ouve, a sensação de ele faz parte da palavra.

Esse fenômeno, presente no Português e no Espanhol, fica bem evidente quando comparamos nosso açúcar, nosso algodão e nosso açafrão com o sugar, o cotton e o saffron do Inglês, com o sucre, o coton e o saffron do Francês, e com o zucchero, o cotone e o zafferano do Italiano, línguas que nunca estiveram em contato direto com o árabe.

Foi por esse motivo, aliás, que veio da França, já na idade moderna, a tendência a usar apenas Coran, alegando que assim se evitaria juntar um artigo francês com o artigo árabe. É claro que existem muitos de nós que usam simplesmente Corão, por se assemelhar mais ao aportuguesamento do termo árabe (al-Qurán); respeito a opção, mas não vejo razão para contrariar o que nossa tradição já fixou tão bem - assim como fez com almôndega, alface ou álcool, acrescentando aquele "al" que nenhum boi-corneta vai propor que se elimine.

CLÁUDIO MORENO

29 DE JULHO DE 2021
ENSINO SUPERIOR

Conselhos da UFSM definem lista tríplice para cargo de reitor

Terminou ontem com atraso a votação dos conselheiros da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) para a escolha do novo reitor. Luciano Schuch, um dos candidatos que representa a atual gestão de Paulo Burmann, foi o mais votado, com 42 votos. Ele é o vice de Burmann. Em segundo lugar, ficou Martha Bohrer Adaime, atual chefe de gabinete da UFSM. Ela recebeu 32 votos. Em terceiro, a professora Cristina Nogueira, com 29 votos.

Em último lugar, ficou o candidato considerado o mais distante da atual reitoria, professor Rogério Ferrer Koff. Com 17 votos, ele fica de fora da lista tríplice. Houve ainda um voto nulo.

A votação para definição da lista tríplice atrasou por conta de problemas técnicos de uma das conselheiras. A votação foi feita de forma virtual, durante reunião online entre os conselhos de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE), universitário (Consu) e de conselheiros curadores.

Os mesmos eleitos para reitor também se candidataram para vice. Para esse cargo, a lista tríplice ficou nessa ordem: Martha (49 votos), Schuch (33 votos) e Cristina (23 votos). O professor Genesio Mario da Rosa recebeu 13 votos e fica fora. A votação para vice teve um voto em branco e dois nulos.

Ainda no período de eleições, Koff entrou na Justiça, na sexta- feira da semana passada, para tentar impugnar a campanha dos demais candidatos sob justificativa de que Schuch, Martha e Cristina candidataram-se para ambos os cargos. A judicialização poderia resultar em processo de intervenção na UFSM. O pedido, no entanto, foi negado pelo juiz Rafael Tadeu Rocha da Silva, da 3ª Vara Federal de Santa Maria, alegando que a UFSM tem autonomia e não cabe intervenção da Justiça.

De ontem para hoje, fica aberto o período de recurso. Depois disso, ainda hoje, será divulgado o resultado final da lista tríplice para o cargo de reitor, que então será encaminhado para o governo federal. A partir daí, o presidente Jair Bolsonaro deve fazer a nomeação do novo gestor, o que deve acontecer até 28 de dezembro, já que o mandato de Burmann acaba no dia 27 daquele mês.

Como tradição, Bolsonaro terá que escolher entre os três nomes indicados na lista. Decisão do ano passado do Supremo Tribunal Federal (STF) impede que o presidente escolha algum nome fora da lista tríplice. A lista para reitor é a única que vai para o governo federal. Quando Bolsonaro decidir quem ocupará o novo cargo, o eleito deverá escolher o vice. A tendência é de que o novo reitor preze pelo nome mais votado.

AMANDA BOEIRA E KARINE DALLA VALLE

29 DE JULHO DE 2021
L.F. VERISSIMO

Abstrações

"Deus não joga dados com o Universo", disse Einstein, para nos assegurar que existe um plano por trás de, literalmente, tudo, e que o comportamento da matéria é lógico, mesmo que sua lógica custe a aparecer. A física quântica depois revelou que a matéria é mais maluca do que Einstein pensava e que o acaso rege o Universo mais do que gostaríamos de imaginar, mas fiquemos com a palavra do velho. 

Deus não é um jogador, o Universo não está aí para Ele jogar contra a sorte e contra Ele mesmo. Já os semideuses que controlam o capital especulativo do planeta Terra jogam com economias inteiras e podem destruir países com um lance dos seus dados, ou um impulso dos seus computadores, em segundos. Todos têm 28 anos e um poder sobre as nossas vidas que o Deus de Einstein invejaria.

Todas as religiões conhecidas têm metafísicas antigas e hierarquizadas. Seus deuses podem tudo, mas dentro das expectativas e das tradições das suas respectivas fés. Afinal, até a onipotência tem limites. A metafísica dos semideuses é inédita. Não tem passado nem convenções. É a destilação final de uma abstração, a do capital desassociado de qualquer coisa palpável, até do próprio dinheiro.

Como o dinheiro já é a representação da representação da representação de um valor aleatório, o capital transformado em impulso eletrônico é uma abstração nos limites do nada - e é ela que rege as nossas economias e, portanto, as nossas vidas. E quem pensava ser possível construir sociedades humanas regidas por outras abstrações, como igualdade e solidariedade, se vê prisioneiro de um sopro invisível que ninguém controla, da maior abstração de todas. A única lógica dos semideuses é a da comissão necessária para um novo Porsche.

O poder do dinheiro corrompe, como nos mostra o que estamos lendo nos nossos jornais, onde pipoca um escândalo financeiro por dia, e o poder do capital sem nenhuma vinculação moral com o que quer que seja corrompe absolutamente, pessoas, partidos e países.

 L.F. VERISSIMO

quarta-feira, 28 de julho de 2021


28 DE JULHO DE 2021
DAVID COIMBRA

Um lugar em que tudo é bom

Queria viver no mundo do Instagram. Lá tudo é tão belo, tão ameno, tão bom. As pessoas estão sempre sorrindo, no Instagram, e as mulheres usam pouca roupa. Elas fazem ginástica. Elas adoram mostrar suas barrigas pétreas. Elas comem vegetais.

No Instagram, as mulheres acordam de bom humor. Elas pegam uma grande caneca de café ou chá ou algum líquido mais saudável e vão para frente do computador. Ficam paradas, sorrindo. De repente dizem:

- Bom diaaaaaa...E é um bom-dia animado e feliz.

Nunca fui adiante desse bom-dia, não sei o que elas fazem depois, mas o bom-dia me satisfaz.

Outra coisa legal sobre as mulheres no Instagram: lá elas estalam os dedos, ou dão um pulinho, e mudam de roupa instantaneamente. Você não precisa ficar dizendo:

- Vamos! Tá na hora! Estamos atrasados!

No Instagram, a água do mar é cristalina. Estava olhando para as águas do Japão, nas provas de surfe da Olimpíada. São parecidas com as de Tramandaí: escuras, ameaçadoras, quase barrentas. No Instagram, nunca é assim. Lá, o mar é uma piscina imensa e amorosa.

Mas o melhor do Instagram é que aquele é o lugar da concordância. As pessoas olham o lado bom da vida e se elogiam. As pessoas dizem, umas para as outras: "Eu te amo". Sério, elas dizem isso. Uma moça publica uma foto dela própria e a amiga comenta: "Deusa! Eu te amo!" Nos dias dos pais ou das mães, os filhos postam fotos com os respectivos e se declaram: "Te amo, pai". "Te amo, mãe".

É muito amor. Quando eu era guri, a gente não dizia tanto eu te amo, a não ser que tivéssemos sérias intenções românticas. Ocorre-me agora que eu nunca disse "eu te amo" para a minha mãe. Bom, nem precisa.

Fora do Instagram, o planeta é inóspito. Outro dia, caiu-me nas mãos um antigo texto meu. Não sou de me reler, mas, neste dia, o fiz. Reli meu próprio texto. E, olha, até gostei. Achei bem-escrito, se você quer saber. Ali estavam encadeadas opiniões fortes, algumas que poderiam ser consideradas polêmicas. Isso me surpreendeu. Porque hoje não teria paciência de defender aquelas opiniões. Não porque eram aquelas especificamente. Concordei com tudo o que escrevi (em geral, concordo comigo). O fato é que defender certas opiniões tornou-se cansativo. As pessoas ficam dizendo "tu é isso", "tu é aquilo", e você tem de dar explicação. É aborrecido.

Foi então que entendi que, na época em que escrevi aquele texto, eu vivia no mundo do Twitter, um lugar cheio de pessoas espertas e sarcásticas, pessoas superiores moral e intelectualmente. No Twitter, todos lutam por suas opiniões e para desmoralizar os inimigos. É um terreno conflagrado, sombrio e perigoso, frequentado por um punhado de Bolsonaros e o Jean Wyllys e a Gleisi e outros tipos esquisitos. É melhor não ir lá.

Como aguentava visitar o Twitter, no tempo em que escrevi aquele texto? Isso não sei. Sei que, agora, meu objetivo é levar uma vida de Instagram. Em breve você me verá com a minha caneca de café, sorrindo molemente para a câmera e saudando, animado:

- Bom diaaaaaaaa!

DAVID COIMBRA

28 DE JULHO DE 2021
ARTIGOS

ESTATAIS, COMPROMISSOS E GESTÃO

Quando o assunto são empresas estatais, é sempre importante lembrar que elas decorrem de recursos de impostos direcionados e visando atender a interesse público específico. A partir do aporte de capitais nessas empresas, se inicia a busca de seus objetivos e que são dependentes da qualidade de suas gestões, simples assim. O que talvez tenha faltado ao país, a partir do grande número de estatais em todos os níveis da federação, tenha sido não disciplinar as reais responsabilidades de seus gestores, bem como a necessidade de um aparato de supervisão que verifique o atingimento de metas e de desempenho.

Se o Estado decidiu empreender, ato contínuo, deveriam ser negociados contratos de gestão e desempenho, como os que existem em empresas privadas. Empresas privadas possuem acionistas, conselho de administração e diretoria. Definidas pelos acionistas, pessoas passam a ocupar os conselhos e as diretorias. Quando ocorrem resultados insatisfatórios, o normal é que os acionistas substituam os administradores, visando à correção dos rumos da empresa.

Nas estatais, os acionistas públicos indicam membros para a administração superior e nem sempre os resguardos de qualificação exigidos para os cargos são respeitados. Grande avanço nesse aspecto foi a edição da Lei 13.303, que impôs diversas exigências para a ocupação de cargos, porém, o caráter subjetivo de muitos de seus dispositivos acaba reduzindo sua eficácia, ao permitir apreciações subjetivas. Também, o governo federal vem implantando em diversas estatais as recomendações da OCDE sobre governança, o que representa um avanço importante.

Como qualquer empresa, estatais necessitariam ter metas claras de objetivos e performances, refletidas em contratos de gestão e periodicamente avaliadas pelo controlador. Más performances das empresas e a destruição de valor deveriam levar aos mesmos destinos das administrações sem sucesso na iniciativa privada, que é sua substituição. A inexistência desses compromissos propicia aos administradores das estatais o conforto de que qualquer resultado apresentado serve e não é passível de avaliações objetivas por parte de seu controlador. Isso também gera conforto para o controlador.

Na prática, quando o controlador estatal não firma contratos de gestão com os executivos de suas empresas, em nome de uma governança transparente, relega responsabilidades e favorece a manutenção da ineficiência, prejudicando suas finalidades e depreciando o patrimônio público.

 RICARDO HINGEL


28 DE JULHO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

INTOLERÂNCIA VIGIADA

Embora ainda insuficiente, vem em boa hora a iniciativa, que inclui gigantes do setor de tecnologia como Facebook, Twitter, YouTube e Microsoft, no sentido de ampliar a variedade de conteúdos que passarão a ter maior atenção, para que sua disseminação seja contida. O chamado Fórum Global da Internet para o Combate ao Terrorismo (GIFCT, na sigla em língua inglesa), se dedicava basicamente até agora a monitorar material de organizações como Estado Islâmico, Talibã e Al Qaeda, mas também passará a rastrear mensagens de grupos como os supremacistas brancos Proud Boys e os neonazistas Three Percenters. Um conteúdo identificado como extremista ou de pregação à intolerância e à violência em uma destas plataformas será compartilhado com os demais, que assim também poderão removê-lo.

Não há dúvida de que o surgimento das redes sociais trouxe o benefício de democratizar a circulação de opiniões. Mas liberdade de expressão, é preciso ressaltar, não deve significar omissão e aceitação de discursos de ódio, racismo, xenofobia e desinformação em temas sensíveis, como a atual pandemia. O movimento de averiguação conjunta, portanto, está longe de significar censura. O ambiente virtual tem se tornado esconderijo e trincheira de grupos defensores de ideias antidemocráticas e que atentam contra valores humanos. Todo cuidado para combater a disseminação de teses obtusas, portanto, é saudável e bem-vindo.

Apesar de ser um passo inicial, deve ser saudada a iniciativa das gigantes da tecnologia em ampliar os seus filtros. Mas nas redes sociais, que ainda precisam de maior moderação, seguem grassando, mesmo que de maneira individual e não organizada, manifestações discriminatórias e ataques dirigidos a grupos, minorias ou pessoas. Todos os tipos de hostilidade demandam maior controle. É preciso que iniciativas como essa avancem e se aperfeiçoem, como um indicativo de que ganha corpo, nas sociedades democráticas, a convicção de que as maiores empresas do mundo da área têm de assumir responsabilidades em relação ao conteúdo que circula em suas plataformas, ou enfrentarão também cada vez mais a rejeição de seus públicos usuários.

Sabe-se que a preocupação com o chamado terrorismo doméstico ganhou nova dimensão nos Estados Unidos após a invasão do Capitólio, no início de janeiro. O episódio aumentou a pressão para que as principais empresas que operam redes sociais fiscalizassem mais o conteúdo extremista. Questões semelhantes também inquietam aliados próximos dos norte-americanos, tanto no próprio continente quanto na Europa e na Oceania. Mas se espera que as plataformas tenham uma atenção semelhante ao que ocorre em outros cantos do mundo, incluindo o Brasil. 


28 DE JULHO DE 2021
MÁRIO CORSO

Medalhas no skate

O esporte é um universo que me é alheio. Por extensão, nas olimpíadas sigo nessa batida: olho desinteressado, sem genuína conexão. O esforço e a disciplina férrea do atleta não me comovem. Não me orgulho disso. Sou um míope desastrado, sem desenvoltura para práticas desportivas. Meu desdém é uma mal disfarçada inveja, não escondo. Em minha defesa, tenho razões para crer que a bola não gosta de mim, ainda vou provar isso.

Mas a emoção pelas nossas medalhas no skate é genuína. Nunca imaginei ele como um esporte olímpico, é uma boa surpresa. O skate é um esporte conectado com a minha geração, testemunhei sua chegada ao Brasil. Nem havia skates para vender, meu primeiro skate foi feito em casa. Na verdade foi uma empreitada coletiva. A ideia foi do meu amigo Nilson. Ele não tinha destreza com ferramentas. Eu tinha, por isso, a sociedade.

Nilson pensou que partindo de patins pregados a uma tábua poderíamos chegar a um skate. Fomos tentar. Enquanto desmontava e cortava os patins, adverti meu amigo de que a operação era irreversível. Não conseguiria montar de volta, se desse errado, ficaríamos sem skate e sem patins. Ele era bom patinador e apegado ao seu instrumento. Temia ver meu amigo frustrado.

Subestimei o Nilson, ele estava atento ao possível fracasso. Quando terminei de cortar, ele me revelou que os patins eram da irmã. Os dele estavam a salvo no quarto. Eu gostava da Neice, jamais toparia fazer isso sabendo da mutreta. Mas o crime estava feito. Esforcei-me ainda mais para transformar aquela maçaroca de peças em algo que deslizasse. Muitas tentativas e nasceu algo viável.

Depois de vários tombos, domamos o bicho e corríamos a cidade em busca de lugares para andar. Então entendi que o skate é filho da urbanização, primo do concreto, das calçadas lisas, dos pisos de garagens coletivas em edifícios. Ele nasceu da necessidade dos jovens de inventar algo para gastar energia no meio que eles dispunham. Acabaram os gramados e as árvores, restava o asfalto para conquistar. O skate é o triunfo da criatividade juvenil frente a um espaço hostil ao ato de brincar.

As pistas próprias para o skate vieram muito tempo depois. Na época eram como dois esportes: andar propriamente dito e percorrer a cidade em busca de pistas improvisadas. Sinceramente, eu gostava mais da aventura urbana. Conhecer lugares, encontrar parceiros, trocar experiência sobre a mecânica da prancha.

Na minha época, as meninas não se arriscavam no skate. Anos depois, é um prazer vê-las inventando um jeito próprio de andar, mais leve, mais dançado. Fiquei comovido com a Rayssa Leal, já conhecia os vídeos dela como a fadinha do skate. Agora ela faz história sendo a mais jovem atleta brasileira a conquistar uma medalha olímpica. Parabéns, Rayssa! Parabéns, Kelvin Hoefler!

MÁRIO CORSO

28 DE JULHO DE 2021
CHAMOU ATENÇÃO

Muro de areia de cem metros

Um impressionante "muro" de areia de cem metros de altura envolveu uma cidade à beira do Deserto de Gobi, no noroeste da China - as imagens pareciam tiradas de um filme-catástrofe.

Dunhuang, lugar turístico com interessante história como entreposto da Rota da Seda, desapareceu momentaneamente, "devorada" por uma nuvem de poeira e areia na esteira de uma tempestade, no último domingo.

Um morador identificado como Zhang disse ao veículo local Jimu News que a tempestade de areia chegou de repente e atravessou a cidade em cinco ou seis minutos.

- Não conseguia ver o sol - disse ele, acrescentando que a cidade, situada na província de Gansu, não sofria uma tempestade de areia tão forte há vários anos.

- No início, fui envolvido pela poeira amarela da tempestade, depois ficou vermelha e finalmente preta - completou o morador.

Dunhuang tem várias atrações turísticas, incluindo as Cavernas de Mogao. Este conjunto de templos budistas é decorado com pinturas murais e tem várias esculturas, declaradas Patrimônio Mundial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em 1987.

Tempestades de areia são comuns na região do Deserto de Gobi, situada no Hemisfério Norte, na primavera, mas é raro acontecerem no verão, de acordo com a agência de notícias estatal China News Service.

terça-feira, 27 de julho de 2021


27 DE JULHO DE 2021
CAPA

A magia de crescer escrevendo

Por meio da ficção ou de relatos autobiográficos, crianças e adolescentes exploram o mundo dos livros em meio à era digital

Autores mirins comprovam: o céu é o limite. Na cena literária da Capital, adolescentes e até crianças arriscam tornar seus escritos públicos, desbravando um cenário ainda pouco explorado, mas cheio de possibilidades.

Contando com muita imaginação, Melissa Mellvee, 13 anos, estreou nesse mundo recentemente com a publicação da ficção Meu Padrasto é a Maior Viagem.

A inspiração veio ao estilo H. P. Lovecraft: por meio de sonho (sem as cenas de terror, porém). Não partiu da mente da menina, mas de sua mãe, Fernanda, ao atender um dos pedidos da filha para contar sobre suas viagens oníricas. Depois de ouvir a narrativa de uma noite regada a imagens de um passeio de conversível com um famoso em Estocolmo, Melissa estava pronta para trazer à luz Ingrid, adolescente brasileira que vê sua vida virar de ponta-cabeça ao mudar-se para a Suécia. Em tom divertido, as 260 páginas do livro discorrem sobre as aventuras da protagonista, que logo se vê diante de uma série de situações embaraçosas pelo choque cultural e uma coincidência inusitada: o até então desconhecido namorado de sua mãe é, na verdade, o ídolo sueco da adolescente.

Apesar de dividir seu tempo entre as aulas do nono ano do Ensino Fundamental, colunas para o site Artrianon e a administração do perfil Domínio do Dragão - para fãs de literatura fantástica e de Como Treinar o Seu Dragão - há espaço para mais projetos. Um deles é o romance Nós e os Dragões, sobre uma princesa que contraria as ordens de seu clã para tornar-se uma guerreira, com previsão de publicação para este ano.

- E também estou planejando o Meu Padrasto É A Maior Viagem 2. A Ingrid ainda vai ser muito zoada, acho que essa aventura não pode parar por aí - adianta Melissa.

Os jovens não estão limitados à ficção. Roberta Menda, conhecida também como Beta, enveredou para o lado da autobiografia e, em um processo para transformar comentários maldosos em algo bom, publicou O Diário das Minhas Mãozinhas quando tinha sete anos de idade. Nele, a autora compartilha a história de sua vida para conscientizar sobre a brida amniótica e ensinar empatia. A síndrome, que acometeu suas mãos, desenvolve-se ainda no útero.

Na época, pessoas a sua volta não a levaram muito a sério - afinal, Beta ainda estava aprendendo a escrever. Sem desanimar, a garota pediu ajuda aos parentes. Hoje, aos 10 anos, atua como palestrante e está com o segundo volume do livro pronto. Por enquanto, ela aguarda a situação da pandemia no Brasil melhorar para lançar uma edição única com ambos os títulos.

- A gente estava com medo de que as pessoas comprassem só o segundo livro. O primeiro é muito importante também, são os meus dois lados. Eu não sou apenas minha mão - afirma Beta.

Família

Independentemente do gênero literário, as autoras frisam o papel central do incentivo da família em sua formação. Engrossando a constatação, o autor e ilustrador Carlos Augusto de Brum, o Cadu dos Livros, relembra como seu gosto pela leitura e desenho existe desde criança, mas também como seus pais eram leitores e se dispunham a ler para ele. O ano de 2021 marca o meio-a-meio de sua vida: 17 anos é a idade que tinha quando escreveu seu primeiro livro, Tentações, Dardos & Fardos, e também é quanto tempo se passou de lá para cá. Dirigido ao público adulto, seu título de estreia está esgotado. Mas sua marca registrada é a literatura infantil, interesse cultivado ao perceber a identificação dos pequenos com suas ilustrações. Aos 34 anos, Cadu acumula um total de 62 obras.

- Hoje em dia, visitando escolas, vejo o trabalho excelente desenvolvido pelos bibliotecários e professores das escolas privadas e das redes públicas, mas é importante lembrar que não basta a escola. Na formação de um leitor, é essencial a participação da família, e a leitura é algo igualmente essencial na formação de um ser humano - aponta Cadu.

Nem Melissa nem Beta têm contato com um autor da mesma idade. Cadu, por sua vez, admite que parte desse isolamento se dá muito pela natureza do ofício, bastante solitário e normalmente envolvendo uma sala fechada e concentração. O encontro entre escritores se dá mais em eventos literários presenciais, conta ele. Apesar disso, reflete que a internet abriu portas, e deixa como conselho para a nova geração ter perfis ativos em redes sociais. Afinal, como gosta de dizer, "todo bom trabalho eventualmente encontra seu público".

PAULA CHIDIAC


27 DE JULHO DE 2021
DAVID COIMBRA

Um lugar proibido para brasileiros

Durante a cobertura da Copa do Mundo do Japão, em 2002, deparei com um curioso cartaz colado no muro de uma rua de... que cidade era mesmo?

Hamamatsu. Acho que foi Hamamatsu.

O cartaz avisava: "Proibido andar de skate". Detalhe: a advertência estava escrita em português. Quer dizer: era para ser lida por brasileiros.

Embora não tenha total certeza de que o cartaz estava em Hamamatsu, faz todo sentido que estivesse lá, porque aquela cidade é a que abriga a maior colônia de brasileiros no Japão. A conclusão é óbvia: os brasileiros, ao contrário dos japoneses, andavam de skate nas áreas públicas da cidade, irritando as autoridades locais.

Quem diria que, duas décadas depois, os brasileiros se consagrariam no Japão exatamente pela prática do skate? E quem diria que os grandes rivais dos brasileiros no skate fossem, exatamente, os japoneses?

Pode-se dizer que ambos, brasileiros e japoneses, tenham alcançado o mesmo resultado (a excelência no skate) empregando métodos diferentes: os japoneses com sua disciplina, praticando o esporte apenas em áreas permitidas; os brasileiros anárquicos, invadindo ruas, rompendo com normas de trânsito, atropelando transeuntes.

Vi outros cartazes escritos em português no Japão. Em alguns bares, eles alertavam, simplesmente: "Proibida a entrada de brasileiros".

Pô! Escrevi colunas sobre isso, na época, e, quando voltei da Copa, recebi um amável convite para jantar com o cônsul do Japão em Porto Alegre. Aceitei o convite. O cônsul foi gentil, disse que havia gostado muito das colunas que eu escrevera sobre o Japão e fez questão de explicar acerca daqueles cartazes.

- É que a cultura de brasileiros e japoneses é muito diferente - observou. - Por exemplo: no Japão, nós temos cinco tipos de lixo, mas os brasileiros não estão acostumados com essa separação, e acabam misturando os materiais na mesma lata.

O exemplo que ele forneceu foi bastante ilustrativo, até porque, naquele tempo, mal e mal estávamos começando a dividir o lixo entre seco e orgânico.

Entendi perfeitamente o que o cônsul quis dizer. O que nos separa do Japão é mais do que meio mundo. São formas de pensar e de ver a vida quase que opostas. Os japoneses têm um senso de coletividade que nós dificilmente atingiremos no Brasil. A começar pela geografia. Lá há pouco espaço. O Japão é uma península. São ilhas rochosas e inférteis habitadas por mais de 125 milhões de pessoas. Há muitos japoneses por toda parte, eles estão sempre próximo uns dos outros. Então, é preciso se respeitar. O japonês não fala alto em público, o japonês evita tocar em outras pessoas, o japonês sempre usou máscara ao ficar gripado, o japonês não anda de skate em áreas proibidas.

O brasileiro espera que o Estado ou as instituições ou algo vago como "a sociedade" resolvam os problemas por ele. Ele, brasileiro, é cioso dos seus direitos. O japonês entende que tem de fazer sua parte na solução dos problemas. Ele, japonês, é consciente dos seus deveres. São quase antagônicos. Mas os dois são bons no skate.

DAVID COIMBRA

27 DE JULHO DE 2021
INESQUECÍVEL

RAYSSA, IMPERATRIZ DO BRASIL

Aos 13 anos, skatista maranhense torna-se a mais jovem medalhista olímpica do país ao conquistar a prata no street

Cheguei à pista de skate de Ariake no final da manhã de ontem no Japão com a esperança de cobrir um inédito pódio triplo brasileiro. Como um jornalista ávido por contar grandes histórias, essa era a minha maior expectativa, devido à presença de três atletas brasileiras top de linha nas finais da modalidade street feminino. Por isso, quando foram divulgadas as notas da fase classificatória, que confirmaram a eliminação das favoritas Pâmela Rosa, líder do ranking mundial, e Letícia Bufoni, a quarta, fiquei um pouco frustrado (Pâmela, que competiu com uma lesão no tornozelo, terminou na 10ª colocação, e Letícia, em nono).

Ledo engano. Acabei testemunhando um dos mais importantes e emocionantes capítulos da história do esporte olímpico brasileiro.

Quem me conhece sabe que uma das minhas características como repórter é não me envolver emocionalmente com os acontecimentos. Acredito que a frieza e a objetividade são fundamentais para o jornalista cumprir o seu dever de relatar os fatos que são de interesse público. Bom, se isso for um requisito para uma boa cobertura jornalística, reconheço que eu falhei miseravelmente.

Arrepiei

Quando as notas da final confirmaram a medalha de prata para a jovem maranhense Rayssa Leal, vice-líder do ranking mundial, de apenas 13 anos, me emocionei. Enquanto eu gritava "Rayssa Leal é prata! É prata!" ao vivo no microfone da Rádio Gaúcha (irritando um pouco os jornalistas estrangeiros ao meu lado, que queriam escrever suas matérias em silêncio), me arrepiei. Ali, o jornalista frio e objetivo dava lugar a um brasileiro emocionado.

Esquecendo um pouco a pauta jornalística, lembrei da minha timidez e dos dramas típicos da pré-adolescência que vivia quando eu tinha 13 anos. Invejei a tranquilidade e a leveza com que a Rayssa superava os obstáculos da pista naquilo que deveria ser o momento de maior ansiedade e tensão para ela. Mas não era. Ela competia na primeira final olímpica da história do skate como se estivesse brincando no Marinha.

Depois, na zona mista, Rayssa respondia às perguntas com a naturalidade de quem bate um papo com os amigos no recreio do colégio. Ouvindo suas respostas, assistindo a suas manobras e observando o seu semblante, tive a convicção de que ela não tem nenhuma noção da dimensão do que ela fez. Só a terá daqui alguns anos.

Para ela, naquele momento, parecia só mais uma brincadeira de skate. Uma brincadeira que divertiu milhões de brasileiros de uma forma que ela sequer imagina.

Legado

Relembrar os dilemas dos meus 13 anos é fácil. Mas há uma situação em que, como homem, não tenho como me colocar no lugar. Só tenho como imaginar.

Refiro-me ao drama das milhares de garotas que sonham em andar de skate e não o fazem por conta do preconceito. Essas meninas agora terão uma grande inspiração para ir em busca dos seus sonhos. Só as mulheres sentem de verdade o que é o machismo. E só as garotas que sonham em andar de skate sem os rótulos de uma sociedade preconceituosa e conservadora desfrutarão por completo do legado proporcionado em Tóquio por Rayssa Leal.

Esta foi, sem dúvida, uma das maiores conquistas brasileiras na história dos Jogos Olímpicos. Mais importante e mais emocionante até mesmo do que um inédito pódio triplo.

A pátria de rodinhas

• Após duas medalhas em duas disputas – Kelvin Hoefler também foi prata no street masculino –, o skate brasileiro em Tóquio ganhou mais moral. O esporte volta a cartaz nos  dias 4 e 5 de agosto, quando ocorrem as competições da categoria park – outra esperança de pódio para o país

• Nessa modalidade, os skatistas praticam suas manobras nos bowls, grandes bacias de concreto que incluem elementos como halfpipe, corrimãos e rampas

• No feminino, o Brasil tem Dora Varela, 19 anos, 9ª no ranking mundial, Isadora Pacheco, 16, 11ª, e Yndiara Asp, 23, 14ª

• No masculino, Luiz Francisco, 21, vice no Mundial de 2019 e 3º no ranking, Pedro Barros, 26, hexa nos X Games e 4º, e Pedro Quintas, 19, 10º

Um lugar na História

• Com 13 anos e 203 dias (sem contar hoje), Rayssa Leal já havia chegado a Tóquio batendo recorde, como a atleta olímpica mais jovem da história do Brasil. A marca anterior era de Talita Rodrigues, nadadora que foi finalista no 4x100m livre em 1948, nos Jogos de Londres. Na ocasião, tinha 13 anos e 347 dias

• A Fadinha (leia sobre o apelido na página ao lado) tornou-se também a medalhista olímpica mais jovem do país, superando Rosângela Santos, bronze em Pequim 2008, com 17 anos, no 4x100m do atletismo

• Foi um pódio adolescente: Rayssa, que teve como pontuação final 14.64, ficou entre as japonesas Momiji Nishiya, 13 anos, ouro com 15.26, e Funa Nakayama, 16, bronze com 14.49

• No histórico geral dos Jogos, Rayssa é a terceira mais nova a medalhar. O mais jovem foi Dimitrios Loundras, com 10 anos e 218 dias: bronze na ginástica em 1896. A mulher mais nova a ir ao pódio é a ginasta italiana Luigina Giavotti, com 11 anos e 301 dias: prata por equipes nas Olimpíadas de 1928. Em modalidade individual, a mais jovem é a nadadora dinamarquesa Inge Sorensen, que tinha 12 anos e 24 dias quando conquistou o bronze nos 200m peito em Berlim 1936 

RODRIGO OLIVEIRA - DIRETO DE TÓQUIO