quinta-feira, 28 de setembro de 2023


Quadro assustador

Até recentemente, o quadro fixo mais suave dos jornais televisivos era o da previsão do tempo. Apresentadoras eficientes e elegantes, movimentando-se com desenvoltura em frente a mapas digitais bem elaborados, eram invariavelmente vistas pelos telespectadores como um lenitivo em meio ao noticiário árduo de desastres, crimes e falcatruas políticas.

Não mais.

Virou um quadro de horrores. As moças do tempo estão transformadas em porta-vozes do desequilíbrio climático. Cada vez que uma delas entra em cena para falar de cavados, zonas de convergência ou outras estranhezas da terminologia meteorológica, o pobre telespectador ergue as sobrancelhas e exclama para si mesmo:

- Lá vem tragédia!

E tem vindo mesmo: seca e inundação neste Rio Grande de São Pedro e calorão interminável no país vizinho chamado Brasil. Os mapas mostrados pelas meninas do tempo realizam graficamente o polêmico separatismo farrapo: um Estado azul-esverdeado com raios e trovões, e os demais transformados em brasa.

Não é culpa delas, evidentemente. É nossa, dizem ambientalistas, cientistas e palpiteiros de todos os calibres. A gente assiste apavorado ao cataclismo diário e ainda fica com a sensação de culpa. Talvez tenhamos mesmo ajudado a enfurecer o tal El Niño, mas será que a culpa é só nossa? No tempo de Noé, pelo que se sabe, não havia carros poluindo o planeta, nem desmatamentos. 

Ainda assim, segundo os relatos bíblicos, choveu durante 40 dias e 40 noites. Quase não houve sobreviventes. Trazendo para a realidade e para mais perto: nossa leal e valorosa cidade ficou inundada em 1941, quando tinha menos de 300 mil habitantes e a coleta de lixo devia ser bem mais eficiente do que a atual. Naquela ocasião, vale lembrar, o Estado inteiro também foi afetado pelas cheias, como agora.

Não sou negacionista. Aceito a tese de que as catástrofes climáticas estão se tornando mais frequentes por conta de desequilíbrios que devem ter mesmo as nossas impressões digitais. Nunca se viu tanto ciclone. A cada semana, tem um. Até por isso, os meteorologistas se tornaram mais cautelosos: é só aparecer uma nuvenzinha mais grossa e eles já avisam que o céu pode cair sobre nossas cabeças. 

E talvez tenha mesmo que ser assim: melhor alertar e não acontecer nada do que deixar a população ser surpreendida por tempestades destruidoras e mortais. É tanta intempérie que o quadro do tempo dos jornais televisivos virou um oráculo de maus presságios.

NÍLSON SOUZA

28 DE SETEMBRO DE 2023
CARPINEJAR

Abandonada numa caixinha de sapatos

Eu não tenho como saber o que virá das perguntas do público em minhas palestras. Devo estar preparado para enfrentar as mais profundas questões existenciais. Vejo que não condiz com a realidade a crença de que as pessoas temem abrir os seus tormentos pessoais em público.

Recentemente, em palestra no interior de Minas Gerais a respeito do meu novo livro, Manual do Luto, que aborda a despedida e a saudade, uma senhora de cerca de 60 anos pediu a palavra.

Ela enfrentava dificuldades para terminar o raciocínio, entrecortado por soluços de um verdadeiro desabafo. Havia uma sinceridade represada que transpunha os diques de proteção e assumia a força inabalável de uma explosão das águas do choro. 

- Eu vivo uma rejeição profunda. Ao nascer, fui abandonada pelos pais numa caixinha de sapatos. Envolvida numa manta, como se fosse um cachorrinho. Eles me largaram de volta no hospital em que eu nasci. Nunca me recuperei de ter sido negada, posta de lado, à sombra, por quem me deu à luz.

Talvez esperasse de mim uma reação de desamparo, de concordância espantada, de comiseração. Mas eu não senti pena, emergiu uma clareza determinada da minha intuição. Aproximei-me dela no meio da plateia e falei, com as minhas mãos encostadas em seus ombros:

- Está enganada. Você foi salva da rejeição em vida, que é muito pior do que a rejeição do nascimento. Seus pais a amaram o suficiente para que não quisessem que você fosse infeliz com eles e como eles. Tanto que tiveram o cuidado de deixá-la no hospital, onde poderia ser cuidada. Careciam de recursos emocionais mais do que de recursos financeiros para sustentá-la. 

Desfrutavam da difícil e rara consciência de que não serviam para você, de que merecia uma chance melhor. Não havia amor e acolhimento naquele lar, nada que pudesse suprir o que você buscava. Escapou de um ambiente tóxico e opressivo, de ouvir brigas e discussões a todo instante, de ser recriminada e censurada, de perder qualquer liberdade sobre seu futuro. Não se veria indesejada uma vez, mas se veria indesejada diariamente.

Ela suspendeu as suas lágrimas. Entendeu que não precisava de outra vida - escoltada no momento pela ternura cúmplice do marido, dos filhos e da sua família adotiva -, que apenas devia mudar o seu ponto de vista.

Assim, o seu sofrimento acenou para nós e virou as costas. Ocupando o seu lugar, surgiu um sorriso lindo, que se esboçou primeiramente no brilho dos olhos, para depois se espalhar pela boca.

Ela me abraçou e sussurrou: - Eu nasci de novo hoje. Eu também ri, e concordei:

- Agora você vai nascer sempre, já que você se escolheu para sempre.

CARPINEJAR

28 DE SETEMBRO DE 2023
OPINIÃO DA RBS

PIB E CLIMA

Vistos isoladamente, sem contexto, parecem números expressivos. O PIB do Rio Grande do Sul cresceu 2,3% no segundo trimestre frente aos três meses iniciais do ano. No primeiro semestre, o avanço foi de 4,5% na comparação com igual período de 2022, de acordo com os cálculos do Departamento de Economia e Estatística (DEE), vinculado à Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão do governo gaúcho.

O desempenho, no entanto, tem de ser relativizado, em função da base baixa de comparação. O Estado, afinal, viu a soma de suas riquezas encolher 5,1% no ano passado devido à severa estiagem que devastou as lavouras de verão, em especial as de soja, de maior peso nas contas. Este ano, a agropecuária gaúcha também sofreu com a falta de chuva, mas o impacto foi menor do que no ciclo anterior, o que ajuda a fazer parecer que o PIB do Rio Grande do Sul teve uma boa performance na metade inicial de 2023.

Não bastasse o déficit hídrico em três dos últimos quatro anos, o quadro se reverteu drasticamente para o outro extremo, com o excesso de chuvas. As enxurradas impuseram perdas significativas à economia do Vale do Taquari, uma das regiões mais dinâmicas do Estado, e tendem a causar prejuízos às lavouras de inverno, em especial o trigo, com impacto na economia na segunda metade do ano. 

A grande capilaridade do agronegócio do Rio Grande Sul torna inevitável que ocorram reflexos em outros setores, como indústria, comércio e serviços. O aguaceiro e as inundações também causam estragos à infraestrutura, notadamente a rodoviária, atrapalhando a logística. De acordo com a Confederação Nacional dos Municípios (CNM), secas e chuvaradas levaram a perdas de R$ 83 bilhões no Rio Grande do Sul de 2013 a 2023.

Os vários desastres naturais que afetaram a atividade nos últimos anos reforçam a importância de a resiliência climática não ser mais um fator negligenciado daqui para a frente. Os principais setores da economia, com a colaboração da academia e do poder público, que exercem importante papel, em especial quanto ao planejamento, terão de se adaptar à chegada de novos eventos extremos. Não se trata mais de apenas ser previdente em relação a secas, com investimentos em irrigação, tema recorrente entre os gaúchos nos últimos tempos, mas de mitigar os perigos relacionados a inundações. 

Se no futuro chuvas torrenciais tendem a ser mais repetidas e intensas, há necessidade de maiores cuidados com áreas de risco, não apenas em relação a moradias, mas às atividades econômicas desenvolvidas nestes locais. São imprescindíveis também intervenções voltadas a evitar ou diminuir o impacto de enchentes, evitando prejuízos e perdas de vidas. Vale o mesmo para estradas ou pontes, que terão de ser mais resistentes à fúria das águas.

As mudanças climáticas, ao que parece, eram na prática uma preocupação distante, imaginada para as próximas décadas. Um exemplo dessa postura é o estudo financiado pelo Banco Mundial, concluído em 2017, para nortear a política de gestão de risco de desastres para o Rio Grande do Sul. O trabalho, como revelou em Zero Hora ontem o repórter Vinicius Coimbra, foi contratado para embasar um projeto de lei, o que não ocorreu. 

O governo sustenta que implementou as sugestões do estudo ao longo dos últimos anos, mas é fato que a consolidação da legislação não avançou. Os gaúchos constatam da pior forma que é um tema urgente. Aguarda-se que seja retomado e, em breve, transforme-se em uma ferramenta para o Estado enfrentar um problema que não está mais no futuro. É do presente.


28 DE SETEMBRO DE 2023
CONEXÃO BRASÍLIA

Discreta, Rosa Weber venceu desconfianças

Quando levantar da cadeira que ocupou por 12 anos no Supremo Tribunal Federal (STF), a presidente da Corte, ministra Rosa Weber, deixará um importante legado de equilíbrio e eficiência. Dona de uma postura que passou a ser exceção entre os pares, ela evitou os holofotes, buscou apaziguar divergências internas, realizou reforma importante no regimento do tribunal, enfrentou temas polêmicos em plenário e agiu com o rigor necessário diante dos ataques de 8 de janeiro.

À frente do colegiado, a gaúcha de Porto Alegre buscou não chamar atenção, a não ser pelo sotaque que manteve intacto. A discrição facilitou o trânsito em gabinetes cercados de ego, permitindo a construção, junto aos demais ministros, de soluções importantes para temas que geravam conflito institucional, como a morosidade de pedidos de vista e eventuais abusos de decisões individuais.

Antes sem prazo definido, agora os pedidos de vista dos processos precisam ser liberados para julgamento em até 90 dias. Sob a presidência de Rosa, também foi implementada a análise de liminares em sessão extraordinária no plenário virtual, em 24 horas, pondo fim à prevalência de decisões monocráticas.

Lembrada por colegas como uma pessoa afável, a ministra não deixou de enfrentar temas espinhosos, que dividem o país e colocam o STF como protagonista também no campo político. Pautou recentemente em plenário a tese do marco temporal para terras indígenas e a descriminalização do porte de drogas.

Ao ver que não teria tempo para discutir a revisão de regras sobre o aborto, alinhou com os demais ministros que daria início à discussão no plenário virtual para apresentar o seu voto. Se posicionou favoravelmente à descriminalização até a 12ª semana de gestação. Sem prazo para ser retomada, a discussão sobre a matéria permanecerá com o voto computado, mesmo com a sua aposentadoria.

Também sob seu comando, o STF analisou outros temas de repercussão, como a "revisão da vida toda" do INSS e o debate sobre o juiz das garantias - interrompido por pedido de vista.

Ao mesmo tempo em que conseguiu deixar marca positiva à frente do tribunal, Rosa enfrentou críticas por ter aceitado a condução do ministro Alexandre de Moraes contra investigados pelos atos de vandalismo de 8 de janeiro. O fato de o STF ter marcado o julgamento da maioria dos réus no plenário virtual é visto por especialistas como afronta a garantias individuais por reduzir o direito de defesa dos acusados de vandalizar as sedes dos três poderes e intentar contra o sistema democrático.

Sem conceder entrevistas ou se manifestar em redes sociais, a ministra se limitou sempre a expor seus argumentos nos autos. Afora os temas pautados nas sessões do plenário, fez poucas declarações no microfone. Mas na abertura do ano judiciário, no salão que semanas antes havia sido destruído, expôs sua repulsa aos atos golpistas e reforçou seu compromisso com a democracia:

- Que os inimigos da liberdade saibam que, no solo sagrado deste tribunal, o regime democrático, permanentemente cultuado, permanece inabalável.

No ano passado, quando assumiu a presidência da Corte a menos de um mês das eleições presidenciais mais acirradas do país, com uma crise institucional em curso e reiterados ataques ao STF, o aparente perfil introvertido deixava dúvidas sobre o futuro de sua gestão. Quem já a conhecia, no entanto, estava seguro de sua capacidade.

Um dos responsáveis por levar o nome da magistrada de carreira à presidente Dilma Rousseff em 2011, o então ministro da Advocacia-Geral da União, Luís Inácio Adams, relata que ela foi escolhida em uma lista de 33 mulheres. Além da trajetória profissional, que somava experiências como juíza do Trabalho e ministra do Tribunal Superior do Trabalho (TST), ele relata que Dilma comentou de pronto ao ouvir seu nome: "Esta eu conheço, é uma pessoa digna".

- É algo da característica pessoal dela a discrição. É uma distinção da dignidade. Sei que é comum os ministros participarem ativamente do debate político, mas acho que isso tem de ser com algum grau de contenção porque expõe a Corte a polêmicas sobre as quais ela não deveria se posicionar - avalia Adams.

À frente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), cuja presidência é exercida concomitantemente ao STF, Rosa aprovou dois dias antes de se aposentar uma alteração nas regras para a promoção por merecimento de juízes à segunda instância do Judiciário. O modelo será adotado até que os tribunais atinjam pelo menos 40% de magistradas mulheres.

A medida era defendida com vigor pela ministra, que em breve deverá ver sua cadeira ser ocupada por um homem. O presidente Lula já disse que não irá considerar critérios de raça e gênero para a escolha. Dentre os mais cotados, estão o ministro da Justiça, Flávio Dino, o advogado-geral da União, Jorge Messias, e o presidente do Tribunal de Contas da União, Bruno Dantas.

Aos 75 anos, Rosa Weber deixa o STF de forma compulsória, com uma passagem curta pela presidência, mas com um rosário de lições aos seus sucessores - inclusive ao ministro Luís Roberto Barroso, que assume a cadeira de presidente hoje.

Com a humildade de quem ouviu seus pares e buscou consensos, a ministra mostrou que a atuação coletiva costuma ser mais assertiva. Evidenciou que o respeito é conquistado pelo exemplo. E que, às vezes, o silêncio é mais poderoso do que as palavras.

MATHEUS SCHUCH

28 DE SETEMBRO DE 2023
TULIO MILMAN

ESG: o gol contra

Na parte superior direita do site da CBF existe um link chamado "Canal de Ética". Oito dias atrás, encaminhei por lá uma denúncia. Transcrevo, a seguir, o trecho final: "O que aconteceu ontem em São Paulo não pode ser considerado um erro. O árbitro e o VAR precisam responder pelo que fizeram. A CBF precisa dar uma resposta urgente e enérgica, sob pena de desvalorizar o campeonato por ela organizado. É uma questão de justiça e de bom senso. 

Obrigado pela atenção". Antes que os ânimos se acirrem, aviso: esse não é um texto sobre futebol. Desnecessário relembrar o escândalo que teve o Grêmio como vítima. E, no caso, não importa para qual time eu torço. Há questões mais importantes em jogo. Aliás, escrevo antes de a bola rolar no Maracanã. Para efeitos na minha argumentação, tanto faz o resultado.

Enquanto eu redigia a minha denúncia no site da CBF, já pensava em escrever essa coluna, torcendo para que minha expectativa não se confirmasse. Foi em vão. Mais de uma semana depois, nada aconteceu, além de uma etiqueta automática, na qual consta a palavra "recebida". Tenho uma senha composta por 21 números, sinais e letras, fornecida pelo sistema, para acompanhar o andamento - ou, no caso, o não andamento - do processo. Consulto todos os dias. Até o momento em que escrevo esse texto, são 691.200 minutos de silêncio.

De uns tempos para cá, as letras ESG viraram moda no mundo das empresas e entidades. A sigla representa a necessidade de levar a sério as questões ambientais (environmental), sociais (social) e de governança (governance). Os manuais indicam que abrir um canal de ética pega bem. Então, milhares de organizações mundo afora incluíram links como o da CBF em seus sites. Algumas foram além, criando estruturas de suporte ágeis e transparentes. Outras, ficaram no blá-blá-blá do modismo. Nada mais frustrante do que falar e não ser ouvido. Sou um consumidor ativo de futebol. Pago a mensalidade do meu clube, tenho assinatura do Brasileirão na TV, além de, eventualmente, adquirir produtos vinculados ao esporte mais popular do país.

É compreensível que empresas menores tenham dificuldade em implementar todos esses mecanismos. Mas a CBF?

Se eu pudesse, chamaria o VAR, na esperança de que ele fosse indicar alguma irregularidade na conduta da entidade mais importante do futebol brasileiro em relação à minha denúncia. No contexto atual, porém, não me surpreenderia se a resposta à consulta fosse: "É um movimento natural. Segue o jogo".

TULIO MILMAN

28 DE SETEMBRO DE 2023
INFORME ESPECIAL

A bofetada que vem do Guaíba

Em 26 anos vivendo na Capital, nunca tinha testemunhado a ira do "rio-lago" da forma como vi ontem, na Orla. O Guaíba virou um mar barrento e revolto, feito de ondas, correnteza e repuxo. Estive lá. Foi uma "bofetada" na cara.

A água parda que desabrigou famílias e provocou estragos também cobriu os brinquedos infantis, os bancos, as lixeiras e parte do passeio público em uma das mais populares áreas de lazer da cidade. Quando estive lá, o Guaíba já estava prestes a superar a cota de inundação no cais, o que se confirmaria pouco depois.

Havia entulhos por todos os lados, carregados pelo vento e a corrente. É nessas horas que o descarte irregular de resíduos fica ainda mais visível.

Pensei no drama das pessoas cujas casas foram atingidas, na sujeira, nos estragos que a enchente deixará e na nossa incapacidade crônica de perceber algo tão claro: o quanto nossas próprias ações têm contribuído, direta ou indiretamente, para esse estado de coisas.

Será que teremos o azar de reviver o que a geração de 1941 viveu, quando o centro de Porto Alegre ficou literalmente abaixo d?água? Não sei.

O que sei é que as inundações deste setembro de 2023, turbinadas pelo impiedoso El Niño, precisam nos levar a repensar algumas atitudes. Esta não é uma pauta de esquerda ou de direita. É, ou deveria ser, uma preocupação de todos nós. Falo de estilo de vida, do culto ao consumismo, do modelo de desenvolvimento que buscamos e do que de fato queremos para as nossas cidades. Mais concreto? Ou mais árvores e superfícies absorventes? Mais arranha-céus? Mais asfalto? Mais "progresso"? A que custo?

Meu desafio, como jornalista, é tentar traduzir a emergência climática para a linguagem das pessoas comuns, sem palavras difíceis, sem moralismo, sem preconceitos, para, de alguma forma, despertá-las para a consciência ambiental. Ainda não sei como fazer isso, mas acredito que mostrar o que está acontecendo no nosso quintal, talvez, seja o primeiro passo.

JULIANA BUBLITZ

27 DE SETEMBRO DE 2023
CARPINEJAR

Nunca choveu tanto

Meus avós paternos viveram a enchente de 1941 em Porto Alegre, após 22 dias de chuva. Eles contavam que metade do Mercado Público foi coberto pelo Guaíba, quase atingindo o seu segundo andar. A Rua da Praia acabou sendo varrida pelas águas e os funcionários andavam de botes para recolher os destroços dos escritórios. Podia-se apenas enxergar os jacarandás desfolhados na Praça da Alfândega. A região industrial, então constituída pelos bairros Floresta, Navegantes e São João, formava uma única mancha marrom. A correnteza avançou pela Cidade Baixa, pelo Menino Deus e pelo Cristal.

Eu não acreditava quando escutava seus relatos antes de dormir, durante as visitas ao casal de avós na casa amarela de esquina na Corte Real. Nem os contos de terror sobre vampiros e múmias provocariam mais calafrios. Aquele 8 de maio passou a ser conhecido como "quinta cinzenta".

Na época, cerca de 70 mil pessoas ficaram desabrigadas e os prejuízos foram calculados em US$ 50 milhões. 9% do território gaúcho estava submerso. Jamais pensei que seria possível sentir o mesmo pânico de alagamento na Capital. A enchente era tão improvável quanto a neve.

Só que o prefeito Sebastião Melo já determinou o fechamento das comportas entre as avenidas Mauá e Castello Branco. Os riscos são reais. Estamos com um volume do Guaíba de 2m77cm, quase três vezes a média normal. Na enchente histórica, a marca atingiu 4m76cm.

O acumulado de chuvas deste mês encontra-se em 413,8 milímetros, o maior volume desde 1916. Setembro de 2023 é recordista de todos os índices anteriores: abril de 1941 (386,6mm), junho de 1944 (403,6mm) e maio de 1941 (405,5mm). Ou seja, está chovendo mais do que em 1941. E mais do que choveu em todo o século.

Somando-se à constância das tempestades, a passagem do ciclone extratropical é capaz de arrastar o que tem pela rua com seus ventos de até 100 km/h.

Para agravar nossa fragilidade, o superpovoamento, o desmatamento e a poluição mineral recrudesceram nossas resistências de áreas verdes. Antes, as matas que cercavam Porto Alegre absorviam o excedente e escoavam a água parceladamente para outro ponto, alguns quilômetros adiante, a partir dos lençóis freáticos, como nos ensinava o saudoso professor e ambientalista José Lutzenberger.

Não tem como não experimentar sensações apocalípticas, de Juízo Final. Não tem como não acordar no meio da noite, com a bateção das janelas. Não tem como não telefonar à esposa que está no trabalho ou aos filhos na escola para perguntar se está tudo bem. Não tem como não rezar por uma trégua de sol.

Meus avós nem mais estão vivos para me ensinar a ter tranquilidade.

CARPINEJAR

27 DE SETEMBRO DE 2023
OPINIÃO DA RBS

À ALTURA DAS RESPONSABILIDADES

A gaúcha Rosa Maria Pires Weber se despede amanhã do Supremo Tribunal Federal (STF), onde esteve por quase 12 anos. Presidiu a Corte nos últimos 12 meses, período em que o exercício do cargo exigiu, como poucas vezes na história da República, mescla de temperança e firmeza. É seguro afirmar que esteve à altura das responsabilidades da posição ocupada, não apenas pelos posicionamentos nos julgamentos em que participou, mas pela postura enquanto membro da mais alta instância da Justiça do país.

Rosa Weber, que se aposenta compulsoriamente por se aproximar dos 75 anos de idade, tem um conhecido perfil discreto. Avessa a entrevistas, palestras e eventos sociais, manifestou-se essencialmente em votos ou de forma institucional. É um comportamento que, se fosse seguido por outros colegas mais afeitos a verborragias e articulações políticas de bastidores, faria melhor à imagem da Corte.

Terceira mulher a presidir o STF, Rosa Weber comandou a Casa em um tempo tormentoso da democracia brasileira. Além da tarefa de conduzir os trabalhos habituais do Supremo em matérias constitucionais, tinha a complexa missão de defender o Judiciário de ataques de toda ordem, mas atuando de maneira equilibrada para não acirrar ainda mais os ânimos. Coragem e equilíbrio foram necessários em episódios como os sem precedentes ataques às sedes dos três poderes, no 8 de janeiro, quando o STF, junto ao Congresso e ao Palácio do Planalto, foi invadido e depredado.

Rosa Weber mostrou ainda determinação ao tratar de assuntos espinhosos, que dividem a sociedade e há tempo esperavam ser enfrentados pelo Judiciário, após ser provocado. No STF, por exemplo, pautou o juiz de garantias, o porte de maconha para uso pessoal e o marco temporal de terras indígenas. Para marcar posição antes da aposentadoria, votou pela descriminalização do aborto nas gestações de até 12 semanas. Era a relatora da ação que tramitava desde 2017. O julgamento foi interrompido por um pedido de destaque do ministro Luís Roberto Barroso. Não é preciso concordar ou discordar do mérito para reconhecer o destemor de optar por não se omitir.

Ao assumir o STF, a magistrada gaúcha também passou a comandar, em paralelo, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ). À frente da instituição dedicada ao aperfeiçoamento do Judiciário do país, conseguiu ontem a aprovação de regra que incentiva a equidade de gênero nas promoções da magistratura. Não obteve sucesso, no entanto, na tentativa de disciplinar a participação de juízes em eventos promovidos por entidades privadas e dar mais transparência quanto à presença nessas atividades, iniciativa voltada a minimizar o risco de conflitos de interesse. Tentou, ao menos.

Rosa Weber vai passar o bastão do STF para o ministro Luís Roberto Barroso, que há pouco tempo pecou pela falta de compostura ao dar declarações de cunho político. É preciso esperar que o novo presidente do Supremo siga o exemplo da antecessora e adote um comportamento mais comedido, reforçando o papel institucional da Corte guardiã da Constituição.

OPINIÃO DA RBS

27 DE SETEMBRO DE 2023
POLÍTICA +

Enchente escancara crise na habitação

As enchentes de setembro - assim, no plural - deram visibilidade a um problema histórico do Rio Grande do Sul em geral e de Porto Alegre em particular, que é o das famílias que vivem em áreas de risco alto ou muito alto. A falta de moradia e a promessa de solução, temas recorrentes nas campanhas eleitorais, viram esquecimento nos anos seguintes porque a sua maneira as famílias se adaptam às construções que não oferecem nem conforto nem segurança, mas são o único teto disponível.

O secretário de Habitação, André Machado, que desde o início da gestão de Sebastião Melo corre atrás de dinheiro para tirar projetos habitacionais do papel, já não se espanta com a dificuldade em convencer as pessoas a saírem das áreas de risco. Nas conversas com as comunidades, passou a entender os motivos pelos quais as pessoas insistem em ficar, mesmo quando é oferecida a possibilidade de aluguel social ou de compra de uma casinha em outros bairros:

- Não podemos forçar as pessoas a saírem, nem transferir para o outro lado da cidade. Elas formam vínculos, trabalham perto de onde moram, e não querem sair dali, mesmo sabendo que volta e meia terão de se abrigar por causa de uma enchente.

A preocupação do secretário é menor com os moradores das ilhas do que com os que vivem nas encostas dos morros ou à beira de arroios. Porque o Guaíba sobe lentamente, dificilmente alguém vai morrer afogado. O problema é o desmoronamento de casas, como ocorreu na Vila Mato Grosso, região da Cruzeiro do Sul e Cristal.

- A enxurrada e o desmoronamento podem provocar mortes. Por isso, estamos tentando convencer as pessoas a saírem das áreas de risco alto ou muito alto - diz o secretário, lembrando que são 14 mil pessoas vivendo nessa condição.

Se considerar todas as áreas de risco, o número sobe para 80 mil. André não tem o que oferecer de imediato. Os projetos que a prefeitura tem aguardam financiamentos ou decisão federal ou estadual. Foram oferecidas 15 áreas à União para projetos do Minha Casa, Minha Vida, mas o resultado da seleção só deve sair nos próximos dias. Seis anos sem um programa federal de construção de moradias pioraram uma situação que já era crítica.

Que outra solução se poderia ter? O Centro de Porto Alegre tem milhares de imóveis vazios, públicos e privados. Por que não reformar, em vez de começar do zero, e transformar em moradia para famílias de baixa renda? O prefeito Sebastião Melo quer reformar prédios como o da Smed e transformá-los em habitação de interesse social.

A situação das famílias desabrigadas deveria unir os vereadores de Porto Alegre para apressar a aprovação do projeto que autoriza o uso de parte dos recursos da futura venda do prédio da antiga Smov em um projeto habitacional no bairro Humaitá. Quem se omitir ficará sem moral para criticar a falta de políticas de habitação.

ROSANE DE OLIVEIRA

27 DE SETEMBRO DE 2023
MÁRIO CORSO

Astros e genes

A astrologia liga o cosmos com a vida. Quando nascemos, o momento preciso do complexo relógio da posição dos astros cristalizaria, de alguma forma, algumas das nossas características. Portanto, sobredeterminados pelos astros, ela explica ao mesmo tempo quão singulares podemos ser, apesar de traços de personalidade que se repetem.

Os humanos são tão diversos como imprevisíveis. As associações que esta mitologia fornece nos dão uma sensação de domínio dentro do caos das nossas relações. Como diria Lévi-Strauss, qualquer sistema classificatório é melhor do que nenhum. Logo, a astrologia cumpre uma função de imaginar sentidos, dizer como somos, prever contingências, organizar e colorir o baralho da nossa vida.

Ninguém estranha quando a astrologia cola o nascimento a marcas perenes na nossa personalidade. Alguns acreditam, outros nem ligam. Mas se alguém falar que a herança genética nos deixa marcas perenes, a briga está feita.

O embate começa equivalendo a genética à eugenia. Acusação aparentemente justa. No passado, alguns políticos torceram a genética para justificar seus preconceitos e bestialidades. Porém, os discursos eram empulhação genética, e não a ciência mesmo.

Aliás, há certa contradição quanto à eugenia - a escolha dos melhores genes. Hoje, a maioria das pessoas que têm conhecimento e condição econômica faz exame genético do feto investigando síndromes e exame de imagem buscando más-formações. Não deixa de ser uma seleção genética.

Uma peculiaridade da genética é que basta mencioná-la, e o sujeito é visto como defensor dessa ciência. Não alguém que pensa seus efeitos, mas sim aquele que desejaria que a genética fosse a resposta final.

Algo que mostra ignorância no assunto, pois a genética fala de possibilidades, que podem ser ativadas ou não, dependendo do meio. Afinal, é sempre o meio, os genes são uma biblioteca de respostas ao meio no qual nossos antepassados viveram. Já a epigenética mostra a influência do passado recente.

Por que a sobredeterminação dos astros é digerida, enquanto uma teoria que resolveu enigmas e pensa as sobredeterminações herdadas é rejeitada a priori?

A genética é mais uma ferida narcísica. Resistimos a que exista uma loteria de genes - mais imaginária do que real - que nos define. Talvez a condescendência à astrologia seja a intuição desta sobredeterminação, mas é mais fácil pisar os astros distraídos.

MÁRIO CORSO

terça-feira, 26 de setembro de 2023

26 DE SETEMBRO DE 2023
CARPINEJAR

Viagem perdida


Quando saí de uma palestra, a coordenação do evento solicitou veículo. Recebi a placa e o itinerário do condutor chegando. Calculei que era ele estacionado em frente à Fiergs. A pressa é inimiga do destino.

Entrei pela porta de trás do carro. Em vez de anunciar o nome do motorista, falei meu nome.

- Fabrício? - Fabrício!

A gente partiu para minha casa em Petrópolis. Estranhei o caminho, muito diferente dos itinerários tradicionais pelas avenidas principais. Não opinei, devia ser uma rota mais rápida e alternativa do Waze.

De repente, o sistema do Uber caiu. Como se a viagem tivesse sido cancelada pelo usuário. Como se eu não tivesse embarcado. Acreditei que fosse um bug. Não havia como conferir e tirar a teima porque não contava com o mapa do trajeto em tempo real. Para mim, era uma andança no escuro desprovida de controle, de monitoramento, encaminhada e paga por um terceiro.

Ele desligou e ligou o celular, e não existia mais nenhuma corrida em andamento. Nossos dados desapareceram, o aplicativo sequer apresentava algum registro de sua ocorrência.

Ele explicou a situação embaraçosa, sua incapacidade de seguir adiante. Retruquei que não havia como descer à 1h da matina, em bairro distante, que não se mostrava residencial, naquele deserto. Além do perigo e da insegurança, encontraria sérias dificuldades para localizar um novo veículo. Faltavam-me, inclusive, referências geográficas para dizer onde estava.

Sugeri de imediato uma solução: pagar com Pix. O motorista não tinha Pix.

Não sou de me entregar sem luta. Pensei, pensei e, no desespero da carência, ofereci o único pertence de que desfrutava no momento: o meu livro. - Aceita meu livro autografado como pagamento? Se ele recusasse, eu me sentiria o mais rejeitado dos escritores. Meu coração seria despejado num sebo. Corri um risco desnecessário para o amor-próprio.

Mas não é que ele aceitou? Ufa!

Talvez tenha sido para se livrar do problema, encerrar o nosso capítulo de constrangimento. Eu nem quis questionar o mérito da sua concordância. Logo perguntei seu nome para fazer a dedicatória e resolver o assunto (vá que ele mudasse de ideia).

Ele disse:

- Escreva para mim: Fabrício!

Era evidente que se tratava de um carro errado. Na minha entrada, o motorista pensou que o estava chamando quando eu só me apresentava. O equívoco partiu dos nomes iguais. Conheci um imprevisível xará. Essa história de pedir viagem por aplicativo em nome de alguém jamais dará certo. É princípio de confusão. É oferecer carona para o acaso.

Ainda não tenho certeza se ganhei um leitor, permaneço em dúvida. Desconfio que ele pode espalhar que aquele Carpinejar é mão de vaca, não tem dinheiro para nada.

CARPINEJAR

26 DE SETEMBRO DE 2023
OPINIÃO DA RBS

OS CUIDADOS COM O NOVO JÚRI DA KISS

O Judiciário gaúcho confirmou na semana passada que o novo júri dos quatro réus pelo incêndio da boate Kiss será realizado em 26 de fevereiro de 2024. É desolador constatar que passaram-se mais de 10 anos da tragédia de Santa Maria e ainda não há um desfecho do caso nos tribunais. Foram 242 vítimas fatais e 636 feridos. O crime, no entanto, permanece impune.

O esperado agora é que a organização redobre as atenções para evitar qualquer margem de contestação sobre o julgamento. Como se sabe, o júri realizado em dezembro de 2021, que decidiu pela culpa dos réus, acabou anulado em agosto do ano passado pela 1ª Câmara Criminal do Tribunal do Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS), posição referendada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) no início do mês. A invalidação se deveu a alegações da defesa de irregularidades, como o fato de ter havido três sorteios de jurados, enquanto o usual é apenas um, e uma reunião reservada do juiz que conduziu o julgamento com os membros do júri sem a presença dos advogados dos réus.

Apenas familiares e amigos dos que perderam a vida devido à irresponsabilidade e à ganância que geraram o trágico episódio da noite de 27 de janeiro de 2013 conhecem a dor da injustificável demora por justiça. Mas o clamor por uma conclusão definitiva é de toda a sociedade, na expectativa de que sejam feitas as devidas responsabilizações e punições, de acordo com a lei - o que inclui amplo direito à defesa.

No dia 10 de dezembro de 2021, foram condenados por homicídio com dolo eventual Elissandro Spohr, Mauro Hof- fmann, Marcelo dos Santos e Luciano Bonilha Leão. As penas variaram de 18 a 22 anos de prisão, mas após alguns meses, com a anulação do júri, os quatro passaram a aguardar o novo julgamento em liberdade. Não se contesta a existência de justificativas técnicas para a invalidação do mais longo e rumoroso júri da história do Rio Grande do Sul. O sistema processual brasileiro também é conhecido pelo excesso de recursos e pela profusão de manobras protelatórias. Mas ao mesmo tempo, é preciso se colocar no lugar dos que há mais de uma década acumulam frustrações à espera do fim da dolorosa espera pelo veredito.

Cresce, portanto, a responsabilidade do Judiciário gaúcho e do novo magistrado que conduzirá o júri daqui a cinco meses. Em entrevista na semana passada à Rádio Gaúcha, o desembargador Antonio Vinicius Amaro da Silveira, 2º vice-presidente do TJRS e presidente do Conselho de Comunicação Social do tribunal, ressaltou a preocupação e os cuidados tomados para evitar o risco de nova anulação. As cautelas não se resumem a formalidades jurídicas, mas à própria logística necessária para um andamento sem sobressaltos.

Não são apenas questões legais que estão em jogo. Uma possível nova condenação não vai eliminar a saudade ou o padecimento de quem perdeu um ente querido. Mas a manifestação da Justiça é uma fase essencial para amenizar o sentimento de impunidade e permitir aos familiares dos jovens vitimados pelo incêndio da Kiss que consigam enfrentar sem ao menos esse peso os dias pela frente.

OPINIÃO DA RBS

26 DE SETEMBRO DE 2023
NÍLSON SOUZA

Manifesto revolucionário

Participei na semana passada da 17ª Feira Literária de Viamão, na condição de representante da Associação Rio-grandense de Imprensa. Não foi apenas um evento lindo, uma extraordinária festa multicultural, com a participação de autoridades, escritores, artistas, jornalistas, tradicionalistas e de um público vibrante. Foi, também, uma convocação para nova Revolução Farroupilha, com potencial para acirrar os ânimos da gauchada. Explico no final.

Em torno da histórica Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição - o segundo templo católico mais antigo do Estado, cuja construção se iniciou em 1766 -, reuniram-se durante cinco dias viamonenses e visitantes, com destaque para a presença de milhares de estudantes. Crianças e adolescentes deram o toque de encanto à festa, desfilando pilchados no 20 de Setembro, dançando e cantando nos palcos instalados na praça e participando ativamente de corais, bandas escolares e peças teatrais. Viamão, com uma rede de 77 escolas municipais e mais de 30 mil alunos, destaca-se pela atenção à educação.

O evento festivo, inclusive, começou com uma grande aula de solidariedade. A prefeitura local, com o apoio de empresas da comunidade, decidiu doar livros e kits de material escolar para as crianças de Roca Sales que tiveram suas residências e escolas atingidas pela enchente no Vale do Taquari. Para legitimar a doação, escolares viamonenses escreveram cartinhas para seus colegas de Roca Sales e convidaram a apresentadora Cristina Ranzolin, da RBS TV, para ser a embaixadora da campanha. Presente no ato simbólico, Cristina relatou o episódio comovente de uma menina roca-salense que deixou os brinquedos de lado enquanto a água subia e tentou salvar unicamente sua mochila com livros e cadernos, colocando-os entre o forro e o telhado da casa - que também acabaram sendo inundados.

- Com esta doação, vocês estão fazendo algo grandioso! - concluiu a jornalista, dirigindo-se às crianças.

Mas o que começou com nobreza terminou com a já mencionada provocação. Na homenagem prestada a profissionais de imprensa pelo jornalista José Barrionuevo, patrono da feira, dois dos agraciados com o diploma Luigi Rossetti encarnaram o carbonário italiano e bradaram pela transferência do Acampamento Farroupilha de Porto Alegre (cidade que permaneceu fiel ao Império) para Viamão (a verdadeira capital revolucionária). A sugestão foi recebida com tantos aplausos e gritos entusiasmados dos viamonenses que só restou a este porto-alegrense infiltrado sussurrar:

- Fechem a ponte da Azenha!

NÍLSON SOUZA

segunda-feira, 25 de setembro de 2023


25 DE SETEMBRO DE 2023
CARPINEJAR

Setembro Amarelo. Precisamos falar sobre suicídio, sobre o Setembro Amarelo. Há vários erros de interpretação do comportamento de quem se mata que enganam a prevenção.

Em primeiro lugar, você procura um motivo. Raramente há. Um motivo é como um objetivo, exige esperança. E o suicida não tem vontade mais de esclarecer coisa alguma. É uma desistência de ser ouvido, é uma neutralidade oriunda do cansaço mental. Acha que ninguém vai compreender o que está passando, já que ele não sabe explicar. Os dias se parecem nos altos e baixos, os dias são paredes moucas de interlocutores.

Quando o intento não é político, ou passional, ou devido a uma doença, ele não encontra ânimo sequer para a reciprocidade de um bilhete. Existe um analfabetismo emocional: não consegue mais ler, escrever e falar, numa condição iletrada e ilhada do desespero.

Redigir uma carta já o salvaria, porque colocaria a culpa represada para fora, recuperaria a consciência do seu corpo, a possibilidade de comunicação. O segundo ponto é que o suicida tampouco detesta a vida, pelo contrário, ama loucamente a vida. Esse é o principal equívoco que não nos permite enxergar aquele que está carecendo de ajuda.

Ele usufrui a vida com tamanha intensidade que se perde na medida e no controle. Entrega-se a cada instante com imensa fragilidade, não guardando energia para o recolhimento ou a solidão. Simplesmente não se protege dos relacionamentos, esperando que possam corresponder às suas expectativas ou apresentar o mesmo padrão de doação.

É mais suscetível a disparates e faíscas que possam subtrair a sua existência por um momento irrefletido. Não conta com a retaguarda das incertezas, com o escudo das dúvidas, com as censuras alertas.

Assim como se dedica, do nada, a gestos de extrema generosidade, também é impulsivo para se destruir gratuitamente. Sua impulsividade é para o bem e para o mal.

Num repente, explode. Ele sente muito mais do que pensa. Seu desaparecimento é um entre tantos atos impensados que adotou antes em sua trajetória. Nunca chamaram atenção por não representar algum risco letal. É alguém que jamais planeja a volta, só se dedica a ir, a testar os seus limites.

O terceiro ponto, o mais controvertido de todos, vem da dificuldade de desconfiar da ação intempestiva. Ele se mostra cheio de planos e projetos, segue a sua agenda como se fosse viver até a velhice, é capaz de participar festivamente de um encontro na véspera, de passar a sua roupa para a manhã seguinte, de fazer o check-in de uma viagem para o próximo final de semana. Não demonstra as suas sombras e trevas, pois nem sempre está se sentindo insignificante.

A faceta mais perigosa para o fim prematuro não é a tristeza - quem está triste chora -, mas a euforia, indicando que ele está exageradamente fora de si, com promessas exigentes de interação.

Pagará um preço alto no retorno à normalidade. Trata-se de experimentar uma potência absurda que não admite depois o tédio. É como ter sucesso fenomenal num dia e fracasso retumbante no outro.

É comum que ninguém entenda o que aconteceu, já que a vítima tinha tudo para ser feliz. A brutal ressaca existencial faz com que ela acredite que não é ninguém importante, que não fará diferença no mundo. Ela mesma mudaria de ideia se sobrevivesse.

CARPINEJAR

25 DE SETEMBRO DE 2023
E AINDA ESTAMOS NO DIA 25

O mês mais chuvoso em um século

Segundo o Inmet, que mede esse índice na Capital desde 1916, nunca houve um setembro com tanto volume de precipitações

Porto Alegre teve, em 2023, o mês de setembro mais chuvoso desde 1916, quando foi iniciada a série histórica de medições, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). A medição aponta que choveu 380,6 milímetros até ontem. A máxima anterior foi registrada em 1926, quando havia chovido 362,7 milímetros.

De todos os meses da série histórica, setembro já é o quarto mês com maior volume de chuva, atrás apenas de abril de 1941, quando choveu 386,6 milímetros; junho de 1944, com 403,6 milímetros; e maio de 1941, com 405,5 milímetros.

No Rio Grande do Sul, outros municípios também apresentaram volume expressivo de chuva em setembro. Em Caçapava do Sul, na região central, choveu 583,6 milímetros em setembro, segundo a Inmet. Em Serafina Corrêa, na Serra, choveu 499,8 milímetros. Já em Passo Fundo, no norte do Estado, foram registrados 478,2 milímetros de precipitação.

O fenômeno se deve ao elevado volume de chuva que vem atingindo o Rio Grande do Sul neste mês e que deve prosseguir nesta última semana de setembro.

Após um fim de semana de instabilidade, o dia hoje deve ser chuvoso, em especial na Região Metropolitana e no Litoral Norte, com risco de temporais.

Amanhã, a instabilidade deve se intensificar na Região Central, no Sudeste, no Litoral Norte e na Região Metropolitana. Os volumes podem passar dos 100 milímetros nessas áreas. Segundo o Inmet, de forma localizada, no sul gaúcho os totais de chuva podem superar os 150 milímetros nestes próximos dias.

Histórico

A primeira estação meteorológica oficial da Capital surgiu em 1908, no Instituto Astronômico e Meteorológico (IAM), da Escola de Engenharia de Porto Alegre, localizado em uma área que, atualmente, abriga o observatório astronômico, no campus central da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Em 1909, o IAM iniciou a produção e a divulgação de boletins diários. Em 1959, a estação foi transferida para um gramado no Parque Farroupilha, a Redenção, nas proximidades do Instituto de Educação Flores da Cunha. Em 1974, a estação foi novamente transferida para uma área próxima ao Jardim Botânico.

A estação meteorológica automática do Inmet foi instalada em 22 de setembro 2000 no mesmo local da anterior. Em dezembro do ano passado, a Capital ganhou sua segunda estação meteorológica automática, instalada no aeroclube, na Zona Sul.

JEAN PEIXOTO


25 DE SETEMBRO DE 2023
REGIÃO METROPOLITANA

Águas avançam na área das ilhas, deixando moradores desabrigados

Com medo de roubos, famílias resistem à enchente sem sair de casa; outras buscam ajuda com amigos e o poder público

A continuidade do tempo instável manteve as comunidades das ilhas de Porto Alegre em estado de alerta durante todo o fim de semana. Segundo a mais recente atualização de dados sobre o nível do Guaíba, divulgada pela Defesa Civil da Capital, a régua automática do Cais Mauá indicava 2m65cm, 10cm acima da cota de atenção. Na Ilha da Pintada, a régua manual apontava 2m36cm, 16cm acima da cota de inundação. E em comportamento de elevação.

Há famílias de moradores fora de casa e em abrigos da prefeitura. Na Ilha Grande dos Marinheiros, habitantes tentavam adaptar-se ao desafio imposto pela progressão na cheia do Guaíba, buscando abrigo nos ambientes mais altos das casas enquanto vão amontoando os pertences para afastá-los das águas.

É o encargo enfrentado na moradia dos aposentados Manoel da Silva, 75 anos, e Tânia, 72. Com uma filha de 51 anos com necessidades especiais na residência na Rua Nossa Senhora Aparecida, eles pretendem ficar e resistir aos efeitos da intempérie o quanto for possível.

- Não podemos sair. Temos receio porque entram nas casas (para roubar). Recebemos rancho, estamos firmes - sinaliza a dona da casa pela janela lateral no cômodo onde se protegem.

Trabalho

Decisão diferente teve de tomar a recicladora Maria Lúcia Pedroso, 44 anos, que optou por sair da casa localizada na mesma rua para não correr o risco de perder dias de trabalho.

- Uma prima arrumou uma pecinha para a gente ficar. Se eu ficar ilhada, não ganho o meu dinheiro, e a coisa piora pra nós - diz a moradora, que estava acompanhada pela filha Mirtes, 12 anos, e carregava a cachorrinha de estimação Mila numa mochila presa ao peito.

Por segurança, os homens da família decidiram ficar na moradia, embora a inundação esteja bem próxima de atingir o imóvel. Na Ilha das Flores e na Ilha da Pintada, cenários como esses se reproduzem.

LUIZ DIBE


25 DE SETEMBRO DE 2023
CLÁUDIA LAITANO

Roma na cabeça

Ninguém me perguntou, mas andei, sim, pensando no Império Romano quase todos os dias nos últimos tempos. Aparentemente, eu e boa parte da população masculina do planeta.

A brincadeira começou em agosto na conta @gaiusflavius, do Instagram, e em seguida se espalhou por outras redes sociais. Mulheres deveriam perguntar aos homens da sua vida com que frequência eles pensavam em temas relacionados ao Império Romano. Nunca? De vez em quando? Todos os dias? Os vídeos com as respostas viralizaram. Para surpresa de filhas, amigas e namoradas (e rebuliço da internet), uma quantidade considerável dos homens parecia confirmar a tese maluca de que a Roma Antiga ocupa um insuspeitado latifúndio no setor de assuntos aleatórios do imaginário masculino. Não é exatamente o meu caso. Andei pensando no Império Romano mais do que o normal por um motivo bem específico: acabei de ler O Reino, de Emmanuel Carrère.

Para contar a história dos primeiros anos da minúscula dissidência do judaísmo que se tornaria religião oficial de Roma no final do século 4, o escritor francês acompanha as andanças de Paulo e Lucas por diferentes territórios do império. E como Carrère não escreve sobre qualquer assunto sem falar também sobre si mesmo, umas boas 80 páginas do livro são dedicadas ao breve período em que o escritor, em meio a uma crise pessoal, trocou seu habitual agnosticismo pelas crenças e rituais da igreja católica.

Não é fácil reconstituir as décadas iniciais do cristianismo sem se valer de uma boa dose de imaginação. Carrère recorre aos historiadores, mas, às vezes, só a invenção salva. O que se perde em rigor histórico ganha-se em colorido literário. Paulo, Lucas e outros personagens do livro ganham contornos mais nítidos na descrição de um autor que é mezzo pesquisador, mezzo ficcionista. O mesmo vale, claro, para o ambiente em que a ação transcorre. Carrère não inventa uma Roma que não existiu, mas consegue aproximá-la da sensibilidade dos seus contemporâneos - mágica que artistas e historiadores de todas as épocas vêm reencenando há pelo menos 2 mil anos.

Autor de outro livro sobre o mesmo tema, Domínio: O cristianismo e a criação da mentalidade ocidental, lançado no Brasil no ano passado, o historiador britânico Tom Holland foi convidado a dar seu pitaco sobre a renovada popularidade do Império Romano nas redes sociais. Para Holland, quando as pessoas do século 21 pensam em Roma, estão pensando em uma civilização que é ao mesmo tempo estranha e familiar, aterrorizante e glamourosa, extinta, porém ainda muito viva no cotidiano: no direito, na filosofia, na ciência política, na literatura, no cinema, na arquitetura, claro, mas também em todos os sonhos excêntricos de dominação e poder que sobressaltam o planeta de tempos em tempos.

CLÁUDIA LAITANO

sábado, 23 de setembro de 2023

22/09/2023 - 09h00min
Martha Medeiros

Cavalgar nunca será o mesmo que andar de bicicleta ou moto; é um ser vivo carregando outro

Há uma desconcertante troca de energia; de respeito; comunhão; ancestralidade. Cavalgar nunca será o mesmo que andar de bicicleta ou moto; é um ser vivo carregando outro

Gilmar Fraga / Agencia RBS

Poucos anos atrás, descobri, através de um ritual xamânico, que meu animal de poder é o cavalo. Segundo a crença, cada um de nós possui um animal espiritual que serve como guia e aliado, nos orientando em situações difíceis. Gostei de saber que o meu é o cavalo, símbolo da liberdade e da força, apesar de não fazer ideia de como invocá-lo (não sou boa em pedir ajuda). Como tudo que envolve espiritualidade, imagino que ele esteja dentro de mim e não fora. Me socorre instintivamente.  

Minha primeira tentativa de galopar, quando criança, foi um desastre, quase caí. Desde então, alimentei meu fascínio por cavalos olhando-os à distância, sem nunca mais chegar perto. Só depois dos 40 é que fiz a segunda tentativa, que foi mais bem-sucedida. Hoje, quando surge a oportunidade, domino o medo (que ainda sinto) e monto. E, a cada vez, é um acontecimento triunfal. Cavalgar nunca será o mesmo que andar de bicicleta ou moto. É um ser vivo carregando outro. Há uma desconcertante troca de energia. De respeito. Comunhão. Ancestralidade.  

Mas quem comanda quem?  

Pode parecer que elegi este assunto inspirada pela Semana Farroupilha, tão cara aos gaúchos, mas a gaúcha que me trouxe até aqui foi a cineasta Flavia Moraes e seu belíssimo documentário Visions in the Dark, em que ela aprofunda a relação entre o cavalo, o homem e a natureza. Mesmo quem não se interessa pelo assunto lembrará que bons filmes são sobre o que a gente sente, não sobre o que a gente vê (e se fosse o caso, compensaria: Flavia é uma artista, cada cena é uma pintura).      

Nos ambientes em que cavalos e homens são parceiros de lida, a masculinidade predomina através de virtudes como coragem e determinação. Mas, até neste reduto, a mulher vem conquistando espaço e propõe reflexões que, já funcionando em tantas outras áreas, começam a funcionar no campo também. Força é um substantivo feminino. A nossa não se manifesta através da agressividade e da disputa pelo controle. Saímos das cozinhas e das salas de costuras para, ao lado dos homens, domar este mundo selvagem, mas o processo pode ser feito de forma menos violenta. Cavalos são animais majestosos e livres. Não são de ninguém, apenas deles mesmos. Assim como você, assim como eu. Tanto eles quanto nós podemos ser “amansados” através da escuta, da confiança, do amor e da integração com o entorno. 

Tradições não precisam morrer, basta que sejam atualizadas. Em tempo de crises relacionais, em que cada um tenta subjugar para não ser subjugado, o filme transcende e nos desperta para o óbvio: estamos todos aqui para proteger-nos mutuamente, não para nos prevalecer. Ninguém comanda ninguém. Menos poder, mais instinto, e chegará o dia em que cada um socorrerá o outro.


23/09/2023 - 09h00min
Claudia Tajes

Tire o seu pinto do meu caminho

Aviso: só apareçam se forem chamados. Algum desconhecido já te mostrou o pinto em um lugar público – o ônibus, a rua, um bar?

Pode perguntar para qualquer mulher, e desde já meus parabéns para as que responderem que não. Algum desconhecido já te mostrou o pinto em um lugar público – o ônibus, a rua, um bar? Fiz esse Datapinto com amigas de diferentes idades. Só uma disse que mostrar, o sujeito não mostrou. Em compensação, pegou a mão dela à força e botou lá, na zona da desgraça.

Homens que não se imaginam fazendo uma bandalheira dessas, isso acontece. E não existe um tipo físico ou uma idade específica para se sofrer um abuso assim – ainda que, obviamente, mulheres jovens sejam sempre mais assediadas. Assim como o tarado não escolhe hora e nem local para mostrar o pinto, ele também não escolhe a vítima. É mais uma questão de oportunidade.

Esses dias escrevi sobre o beijo que o ex-presidente da Federação Espanhola de Futebol tascou na jogadora Jenni Hermoso e fui chamada de mimizenta em vários comentários e e-mails. Todos de homens. Não sei se reagiriam do mesmo jeito se o beijo forçado fosse em alguém da família deles. Mas espero que mesmo eles tenham achado absurda a cena dos estudantes de Medicina de duas universidades particulares, Santo Amaro e São Camilo, com os pintos de fora durante um campeonato de vôlei feminino no interior de São Paulo.

A imagem é deplorável. Do nada, um bando de otários com as calças arriadas entra na quadra e dá uma volta olímpica. Um que outro ainda conserva a cueca durante a presepada, mas a maioria sai abanando o troço e achando muita graça naquilo.

Parece que a coisa é um hábito local entre torcidas rivais: uns mostram o pinto, outros respondem mostrando a bunda – meninas inclusive. Se é uma tradição do interior paulista, credo. Prefiro mil vezes o nosso Interior, com as feiras do livro e as festas das frutas.

Uma parte dos sem calça ainda teria simulado uma masturbação coletiva na arquibancada. Existem vídeos, mas os acusados negam, dizem que era apenas uma coreografia. Uma estranha coreografia em que a mão se mexe o tempo todo, mas OK. Observemos o devido processo legal, não se condena ninguém sem provas. 

Todo mundo mostrando a mão para ver se nasceu pelo.

A volta olímpica dos pintos foi em abril, mas as imagens vazaram só agora. Embora o barulho nas redes, a Santo Amaro e a São Camilo não deram muita importância ao caso, pelo menos até a entrega desta coluna. Acho que deviam. A ética que a gente espera de um médico não tem que começar na universidade?

Felizmente, a cultura de achar que o pinto pode tudo está mudando. 

Já passou do tempo. Uma prova são as denúncias que têm revelado tantos abusadores, alguns que a gente olha e diz: mas o seu Fulano, tão distinto, quem diria? Quando eu era guria, cansei de descer do ônibus porque algum sujeito tinha encostado ou mostrado o pinto – não sei o que era pior. Hoje em dia, quem sai do ônibus é o tarado, e direto para a delegacia.

Uns chamam de mimimi. Para as mulheres, é respeito.

Recadinhos. As bibliotecas do Interior precisam de livros para repor o que foi perdido nas enchentes. Livros de literatura em bom estado podem – devem! - ser doados na nossa linda Biblioteca Pública da Rua Riachuelo e nas demais bibliotecas municipais e estaduais. 

E para não perder: de 28 a 30 de setembro, o Esquenta Porto Verão Alegre apresenta atrações como Anelis Assumpção, Maitê Proença, Alice Caymmi, Marcos Breda e Winnie Bueno. Informações no instagram.com/portoveraoalegre.



23 DE SETEMBRO DE 2023
CARPINEJAR

Troca de gerência

O homem perdeu a vez. Teve séculos e séculos para aprender a pedir a mulher em casamento, e jamais alcançou a alta performance. Pelo contrário, colecionou fiascos e vexames.

Quais são os relatos das noivas? "Ele estava nervoso, estava sem jeito, estava incompreensível, estava maluco, estava confuso, estava com meias de pares trocados?"

Não há um feedback positivo. Está na hora de transferir o rito para quem tem mais experiência e traquejo para a felicidade. O homem deve aceitar a sua incompetência.

Falta determinação de sua parte. Cria suspense sem necessidade. Engasga-se com o discurso. Vaza a surpresa para os amigos. Compra o anel na joalheria com o número errado mesmo levando cola. Não sabe diferenciar uma bijuteria de um brilhante. É capaz de extraviar a aliança em algum dos seus bolsos do casaco, ou esquecê-la como um Sonrisal dentro de um cálice de espumante. Quando vai se ajoelhar, acaba rezando ou sentindo câimbras.

Se não fossem os garçons, nada aconteceria, tudo ficaria oculto na covardia. Metade dos pedidos de casamento foi salva pelos garçons, que tentam melhorar um pouco o planejamento amador do evento colocando velas na mesa, administrando o tempo das refeições, incentivando ao fundo com aplausos.

Se o ato deu certo, significa que alguém organizou pelo noivo.  É o momento de demitir o homem por justa causa desse papel. Não nasceu para isso. É um fracasso tanto para casar como para se divorciar. Ainda é muito filhinho da mamãe, cheio de culpas, projeções, ato falhos.

Tampouco desfruta de timing do relacionamento. Só pede a mão tarde demais, quando já cansou o seu par, como um último esforço para reconquistá-lo, como derradeira cartada para não restar sozinho. Ou porque pisou na bola e busca pagar a dívida com uma nova dívida, ou porque já se mostrou um chato e anseia pela redenção a partir de uma maior responsabilidade.

Ele confunde casamento com reconciliação, um modo de abafar as desconfianças e as crises. Sempre faz a declaração quando o namoro não está bom, ou quando morar junto já é um tédio, ou quando a química não funciona mais.

O romance encontra-se por um fio, e ele quer banhar os problemas com o ouro.

Pede quando a relação parte para o finzinho do segundo tempo, com time desorganizado diante da derrota iminente, à base do chuveirinho desesperado na pequena área. Pede apenas quando não tem nenhuma outra opção, não tem nada melhor para oferecer.

Cria constrangimentos com plateia ao redor, tirando a liberdade de escolha, impedindo qualquer chance de que ela diga não. ua parceira vem pensando em se separar e ele aparece com uma proposta na contramão da verdade, absolutamente fora da realidade da convivência.

Para o bem da reputação do amor, deixe o noivado para a batuta da mulher. Não irá enrolar, não agirá de forma infantil. Será mais decidida, mais criativa, mais sensível para perceber o momento ideal. Pedirá o namorado em casamento na época certa, quando os laços estão fortes e seguros, quando ainda existe o brilho nos olhos.

CARPINEJAR