sábado, 27 de janeiro de 2024


27 DE JANEIRO DE 2024
MARCELO RECH

Na encruzilhada

Toda crise repentina - um terremoto, por exemplo - tem quatro fases distintas. Quando o problema eclode, não se tem ideia clara da dimensão do desastre. Depois, a crise vai escalando uma curva até alcançar o auge. Neste momento, surgem sentimentos de exasperação, desamparo ou revolta. Em seguida, começa o declínio, caracterizado pelo controle da crise e pela administração das consequências imediatas. Por fim, há um longo epílogo, que pode ter dois caminhos: a prevenção dos efeitos de nova tragédia ou o esquecimento.

Quase duas semanas após o grande temporal de 16 de janeiro, quando 1,3 milhão de pontos se viram sem energia no Estado, estamos naquela encruzilhada. Pela nossa cultura do improviso, tende-se a acreditar que cortes de energia, com toda a sua funesta cadeia de prejuízos, fazem parte de nossas rotinas ou que medidas paliativas são a solução do problema.

Não são. Podar galhos ajuda, e, por segurança dos cidadãos, deve ser feito mesmo sem fios suspensos, mas uma nova tempestade como a de 16 de janeiro provavelmente terá repercussão similar. Investir em geradores é uma saída para poucos, além de terceirização de responsabilidades. Para que as próximas gerações não sejam atormentadas a cada tempestade, é preciso enterrar a fiação, começando pelos novos empreendimentos e pelas áreas de maior densidade comercial e de moradias.

Em Porto Alegre, há uma lei em vigor desde o ano passado. Até 2038, o emaranhado de fios que enfeia a cidade e desaba a cada ventania deve ir para baixo da terra. Os contrários sustentam que o custo é alto e que a conta será pendurada no consumidor. Mas se fôssemos aplicar para toda a infraestrutura o argumento do custo, ainda viajaríamos para o Litoral em estradas de chão, buscaríamos água de balde na fonte mais próxima e não teríamos substituído o lampião pela luz elétrica.

Além disso, em bom executivês, este é um caso clássico em que o Capex (o investimento) é amortecido a longo prazo pela redução do Opex (as despesas de operação). Nesta equação, as distribuidoras devem levar em consideração as perdas com a venda de energia a cada corte, os custos de manter enormes equipes de manutenção e lidar com a constante substituição de fios, postes e transformadores, furtos, multas, acidentes, indenizações e custas judiciais. E ainda há o intangível: a dramática crise de reputação que as atinge e que afeta o apetite de investidores e o valor das ações. A Light, a concessionária do Rio que está virtualmente quebrada, que o diga. Já para a sociedade, enterrar a fiação significará bilhões a menos em prejuízos com a economia parada, vidas em suspense e oportunidades perdidas.

É hora, portanto, de se tomar o caminho daquela encruzilhada que leva a uma solução definitiva para todos.

MARCELO RECH

27 DE JANEIRO DE 2024
INFORME ESPECIAL

"Caminho do alvorecer"

Zora, nas línguas eslavas, quer dizer algo como aurora, amanhecer. Via, no eslovaco e no latim, é estrada. Passagem. O nome dela, único e incomum, significa "caminho do alvorecer". Esta é Zoravia Bettiol (nas fotos), uma das artistas mais importantes nascidas neste solo que aprendemos a chamar de nosso.

No último final de semana, tive o privilégio de ser recebida por ela em sua casa-ateliê-instituto (assim mesmo, tudo junto), na zona sul de Porto Alegre. Na manhã de um sábado chuvoso, vi, pelas grades do portão de ferro, aquela mulher de olhar doce vindo em minha direção, com a sombrinha e a bengala em punho e um sorriso estampado no rosto.

Zoravia tem 88 anos. Nasceu na Rua Santa Cecília, na Capital, em 17 de dezembro de 1935. Ela vem de uma família multicultural: austríaca, sueca, italiana. Brasileira. Vive da arte há quase sete décadas.

Expôs suas criações em países como França, Suíça, Japão e Estados Unidos. Tem obras em alguns dos principais museus do mundo. Contabiliza mais de uma centena de mostras, distinções e homenagens.

Eu poderia contar muito mais, mas ela nada tem de soberba ou ostentação. É uma mulher simples, como são "os grandes" - quem é bom no que faz, afinal, precisa mesmo dizer isso?

Não, não era uma entrevista. Zoravia queria me presentear com um de seus trabalhos, por gostar do que escrevo - para minha surpresa e felicidade. Recebeu-me como uma amiga. Mostrou-me suas telas, falou sobre suas lutas, dores e amores, ofereceu-me um copo d?água e permitiu que eu entrasse no seu lugar mais sagrado: o estúdio onde cria.

Ali, no segundo andar da casa, diante de uma mesa cheia de pincéis, perguntei a ela o que é a arte. Aprendi bem mais do que isso.

- É uma razão forte para viver. Quando as pessoas dizem assim: "Ah, tu estás com quase 200 anos e ainda trabalha! E mora sozinha! E anda sozinha!" Parece que, com a idade, a pessoa fica um traste. Não fica nada. É importante criar projetos que incluam o outro, porque vivemos em um país muito difícil. Quem recebeu mais, como é o meu caso e o de muita gente, tem a obrigação prazerosa de ajudar os outros - disse ela.

A arte é a forma que Zoravia encontrou de fazer a parte dela. Que façamos, também nós, a parte que nos cabe nessa aventura chamada vida, a cada zora. A cada nova alvorada.

INFORME ESPECIAL

27 DE JANEIRO DE 2024
CARTA DA EDITORA

CARTA DA EDITORA Dicas para todos os gostos

A colunista de ZH e GZH Juliana Bublitz é incansável na busca por conteúdos diferenciados e, principalmente, que sejam úteis, que possam ser colocados facilmente em prática pelos leitores. A exemplo do que havia feito no verão anterior, quando criou a seção "Livro para ler nas férias", este ano a jornalista trouxe a série "Lugar para visitar no RS".

Desde o dia 8, Juliana tem publicado as sugestões de comunicadores dos veículos da RBS. A estreia foi com o apresentador do RBS Notícias Elói Zorzetto e a mais recente, publicada nesta sexta-feira, com a apresentadora do Timeline, da Rádio Gaúcha, Kelly Matos. Já foram 15 depoimentos até o momento.

Juliana destaca que são dicas para todos os gostos e bolsos, que provam que não precisamos ir longe para curtir férias especiais.

- É importante sempre trazer novidades para o público. Aí pensei: férias combinam com viagem. Por que não valorizar os destinos turísticos do RS? Tem tudo a ver com a minha coluna e com o meu jeito de fazer jornalismo. A partir daí, tive a ideia de convidar comunicadores do Grupo RBS, com toda a sua credibilidade, para que me ajudassem na missão. São colegas que admiro e que são muito queridos do público. Não tinha como dar errado. Comecei convidando Elói Zorzetto, que tem 45 anos de casa e 35 anos de RBS Notícias. Ele topou na hora. Dali em diante, a série deslanchou e foi muito bem recebida. É um luxo a gente trabalhar com pessoas assim, que, além de generosas, se destacam em suas áreas e são admiradas pelo profissionalismo - conta.

Juliana tem o apoio das assistentes Isadora Terra e Maria Clara Centeno, que ajudam na produção de vídeos e galerias de fotos, e de Laura Pontin, que cria versões do material para o Instagram e o TikTok.

Para incrementar a série de dicas, ela também grava vídeos com resumos das sugestões de cada semana, com a participação dos convidados (acessar pelo link ao lado).

A série segue até o início de fevereiro, mas a intenção, segundo a colunista, é continuar, sempre que possível, destacando as belezas do nosso Rio Grande.

- É incrível como ainda conhecemos pouco do nosso próprio chão. Tem muita coisa legal para ver. Precisamos nos valorizar mais - afirma Juliana.

DIONE KUHN


Atualizada em 25/01/2024 - 12h18min
MONJA COEN

A razão de viver

O que faz você se levantar todas as manhãs? O que estimula você para a vida? Quem ou o que desperta sua alegria? Para quem ou para que se curva em reverência e respeito?

O portão de Shureimon, em Okinawa (Japão), onde a população é uma das mais longevas do mundo.

Há uma expressão japonesa, título inclusive de alguns livros e artigos em jornais e revistas, que significa dar vida à sua vida. Ikigai é essa expressão, composta de três caracteres japoneses ou kanjis, e pode ser traduzida como razão de viver, prazer na existência, força para sair da inércia.   

O que faz você se levantar todas as manhãs? O que faz você sair da cama, do sofá, da poltrona, da cadeira? O que anima, estimula você para a vida? Para quem ou para que você se levanta com alegria? Para quem ou para que você se curva em reverência e respeito?

Pesquisadores descobriram que a população de Okinawa, ao sul do Japão, é uma das mais longevas do mundo. Entre várias causas e condições, perceberam que em Okinawa as pessoas caminham bastante, ao invés de andar só de carros ou por transporte coletivo. Também se alimentam de produtos naturais, comem muitas verduras, arroz branco e peixes. Respeitam sua ancestralidade. 

Oram diariamente em seus altares familiares. Sentem gratidão e prazer na existência. Sentem vontade de viver, dar continuidade à vida que receberam de seus pais, e assim encontram razões para suas vidas nas coisas simples da rotina de trabalhar, cuidar da natureza, manter relações de amizade, encontrar tempo para o lazer e para os encontros familiares. 

Ikigai não significa ter posições sociais elevadas, reconhecimento público, comidas raras, lucro, fama, seguidores, lauréis. É estar presente no agora e apreciar o aqui.

Você já procurou alguma razão especial para a sua vida? Algum propósito? Algo estimulante? Você sente energia vital ao despertar? Vontade de descobrir o que poderá aprender hoje ou o que poderá fazer de benéfico este dia?  

Entre várias sugestões sobre desenvolver Ikigai, está a de ser útil ao mundo, escolher um trabalho, uma atividade para estar com outras pessoas, atender ao público, quer seja na saúde, na educação, na prestação de serviços, na segurança, no afeto, no cuidado. Auxiliar outras pessoas em sua busca por sentido, por propósito. Envolver-se com pessoas que criam ideias para melhorar o mundo e cuidar do planeta. Podem ser grupos pequenos, com ações locais e simples de hortas comunitárias e reciclagem, por exemplo.

No Zen Budismo, dizemos que quem desperta se torna um militante pelas causas da equidade social e respeito ambiental. Mestre Dogen Zenji Sama, fundador da ordem Zen Soto no Japão, nasceu no dia 26 de janeiro de 1200. Sua procura incessante pelo despertar da mente, pela iluminação, pela sabedoria, procurando mestres e filósofos em outros países, fez com que se empenhasse nas práticas severas do Zen. 

Já no século 13 ensinava seus discípulos a respeitar a natureza. Certa vez, à beira de um riacho límpido, retirou uma concha de água e bebeu a metade. A outra metade devolveu ao riacho como exemplo de respeito a água.

Construiu mosteiros, criou uma ordem religiosa no Japão que continua viva até hoje, com milhões de seguidores no mundo todo. Mestre Dogen considerava o Zazen, sentar-se em Zen, em meditação, como a forma mais eficaz de autoconhecimento. Como fazer com que todos pratiquem Zazen? Como fazer com que todos despertem e se tornem senhores e senhoras de si?

Ikigai não significa ter posições sociais elevadas, reconhecimento público, comidas raras, lucro, fama, seguidores, lauréis. É estar presente no agora e apreciar o aqui.

Uma grande pianista argentina, Martha Argerich, com mais de 80 anos, foi entrevistada por sua filha, recentemente: "Mãe, por que você nunca se importou em aceitar prêmios pelos seu trabalho?". Martha respondeu: "Prêmios se referem ao passado, ao que já foi e não sou mais. Vida é viver o presente".

Lembrei-me de um amigo que conheci em Los Angeles há mais de 40 anos. Quando perguntavam a ele qual a razão e sentido de viver, Walter Sheetz, de 86 anos, singelamente respondia: "O sentido da vida é viver".

Mãos em prece

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024


26 DE JANEIRO DE 2024
CARPINEJAR

O avanço da dengue

Já não é mais exclusividade das crianças portar a carteira nacional de vacinação. Os adultos precisam se preocupar em preencher os quadradinhos das suas vacinas. Além das protetivas da covid-19, necessitam manter no seu horizonte a prevenção de sarampo, de caxumba, de rubéola, de hepatite B, de febre amarela, de difteria e de tétano.

Cuidados antes infantis já não se restringem à idade para acontecer. Pode acrescentar agora a vacina da dengue para a lista. É questão de alguns meses para se tornar obrigatória. Logo será disponibilizada pelo SUS, a partir de produção japonesa do imunizante Qdenga.

Trata-se de uma vacina tetravalente, administrada em duas doses, com espaço de três meses entre elas. Protege contra os quatro sorotipos do vírus da dengue: DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4.

As mudanças climáticas vêm aumentando assustadoramente os casos de dengue no Rio Grande do Sul. Já não são mais exceções. O ciclo sucessivo de chuvas e o aumento da temperatura transformaram o nosso Estado em hábitat ideal para o mosquito Aedes aegypti.

A doença, que surgia como turista no verão, passou a ser frequente em todas as nossas estações, inclusive com reprodução do inseto nos mais diferentes períodos. Devemos redobrar os cuidados domésticos com vasos parados e entulhos, onde o ovo vira larva, pupa e, depois, transmissor.

A falta de abastecimento de água também contribui para a disseminação da enfermidade, já que os moradores recorrem ao armazenamento em temerários contêineres, reservatórios e cisternas. Quem dera que o aumento fosse de 100%, ainda seria um número otimista. Aqui, o aumento é de quase 1000% de vítimas. Para ser exato, 1.044% nas primeiras três semanas de 2024 em comparação ao início do ano passado.

Saltamos de 63 pacientes para 721 pessoas atingidas, despertando o sinal de alerta com a possível lotação sumária de hospitais. Estão no ar fortes indícios de epidemia, uma vez que a proliferação não tem como ser contida apenas com a visita de fiscais sanitários como nos anos anteriores.

Tampouco dá para contar com a loteria de sintomas leves. A multiplicação do vírus no sangue provoca inflamação nos vasos sanguíneos, o que retarda a circulação do sangue e o deixa mais espesso. Há riscos fatais de coagulação e trombose.

A dengue transforma qualquer atleta em fiapo humano, causando dores constantes nos músculos, olhos, costas, abdômen e ossos. As articulações rangem. O apetite desaparece. A fadiga e a febre, com o suor frio e o tremor, recebem a companhia de manchas avermelhadas.

O Ministério da Saúde divulgou ontem a lista de cidades que vão receber a vacina contra a dengue. Ao todo, foram incluídos cerca de 500 municípios em 16 Estados - com mais de 100 mil habitantes e alto volume de casos de dengue tipo 2 - para a imunização na faixa etária de 10 a 14 anos, a partir de fevereiro.

A má notícia é que não há nenhuma cidade gaúcha contemplada no primeiro lote. Cidades menores que apresentam alta taxa de incidência - como Tenente Portela, com um caso a cada 69 habitantes - ficaram de fora.

Mesmo o Brasil sendo o primeiro país no mundo a oferecer o imunizante na rede pública, existe uma limitação de quantidade de vacina, só disponível para 1,5% da população. Temos, até o momento, pouco mais de 6 milhões de doses - 5,2 milhões foram compradas do laboratório Takeda e 1,3 milhões, doadas.

Temo que o combate esteja começando tarde, temo que a reposição demore.

CARPINEJAR

26 DE JANEIRO DE 2024
OPINIÃO DA RBS

O FUTURO EM JOGO

Merece máxima atenção da sociedade o relatório "Pobreza infantil no RS entre 2012 e 2022", estudo produzido por pesquisadores do PUCRS Data Social: laboratório de desigualdades, pobreza e mercado de trabalho, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). O estudo mostra que, no ano passado, 30,2% das crianças gaúchas viviam em condições de pobreza. O desenvolvimento socioeconômico desejado pelo Estado virá apenas se essa taxa tiver uma redução substancial nos próximos anos e décadas.

O trabalho aponta que, em termos nacionais, o Rio Grande do Sul é a segunda unidade da federação com o menor índice neste quesito. Em situação melhor está apenas Santa Catarina (23,4%). A média nacional é de 49,9%. Ocorre que, observando-se o histórico recente dos números, há uma certa estagnação no Estado. Ou seja, mesmo que em alguns anos a taxa tenha chegado a picos de quase 37%, como em 2018, em regra nos últimos 11 anos os percentuais são semelhantes, na casa dos 30%. 

Conclui-se que, no período analisado, houve insucesso na busca por diminuir a realidade de uma vida de privação imposta a quase um terço das crianças gaúchas. De outro lado, não há como se conformar com o fato de o Rio Grande do Sul ter uma condição privilegiada na comparação com a média nacional. A situação do Brasil, uma das nações mais desiguais do mundo, é apenas ainda mais dramática.

É dever ressaltar que o quadro atual, com a cristalização da taxa de pobreza entre crianças, é um preditor de perpetuação da miséria, das iniquidades sociais, da criminalidade, do subemprego e de uma economia que cresce abaixo de suas potencialidades. As perdas são para toda a coletividade do Rio Grande do Sul, e não apenas para aqueles que estão nesta faixa de 30,2%. A linha de pobreza utilizada no relatório é uma renda mensal per capita no domicílio de até R$ 636,52.

Como apontam os autores do trabalho, a maior implicação é o comprometimento do futuro. Crianças em situação de pobreza estão mais expostas a doenças infecciosas, à violência e, por múltiplos fatores, a um aprendizado aquém de suas capacidades. Isso, na vida adulta, terá reflexo na renda, e a lógica aponta que essas pessoas tendem a ter filhos sujeitos às mesmas dificuldades. O círculo danoso se renova.

Outra vez deve ser mencionado que o Rio Grande do Sul é o Estado do país com ritmo de envelhecimento da população mais acelerado. O desafio demográfico vai exigir recursos humanos mais qualificados e produtivos. Ou seja, a geração de riqueza per capita terá de ser maior. 

Por óbvio, o caminho mais indicado para formar cidadãos conscientes de seus direitos e aptos aos novos desafios do mercado de trabalho é o da melhoria da qualidade da educação pública. Mas isso não basta. Os cuidados com a saúde na primeira infância, uma rede robusta de apoio social às famílias de baixa renda e mesmo a situação econômica do país fazem parte desta equação complexa.

Dar esperança de futuro melhor às crianças significa a possibilidade de o Rio Grande do Sul, à frente, ter mais indivíduos com maior capacidade de construir uma vida digna, que, ao mesmo tempo, sejam um trunfo para alavancar o progresso do Estado.

OPINIÃO DA RBS

26 DE JANEIRO DE 2024
APÓS TEMPESTADE

Hospital São Lucas teve prejuízo de R$ 13 milhões

Atingido pela tempestade, o Hospital São Lucas da PUCRS (HSL), em Porto Alegre, busca recursos para recuperar danos na parte de sua estrutura que atende pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). Enquanto faz tratativas junto aos governos, o estabelecimento também pede doações para a conclusão dos reparos. A estimativa é de que o prejuízo tenha sido de R$ 13,5 milhões.

Foram registrados estragos na unidade de internação, em alguns quartos, ambulatórios e em áreas de emergência. Dentre os prejuízos, também estão a perda de computadores, mobiliário e estruturas de gesso.

Ontem, foi realizada uma visita técnica ao local pelo engenheiro Rogério Lima, do Departamento de Atenção Hospitalar, Domiciliar e de Urgência do Ministério da Saúde, para averiguar os estragos. A pasta, contudo, informou em nota que "a gestão do Hospital São Lucas é municipal" e que é de competência do ministério "realizar o repasse ao Estado, que distribui às cidades conforme as necessidades".

A Secretaria Estadual de Saúde (SES), por sua vez, confirmou que recebeu um pedido da PUCRS de ajuda orçamentária para a recuperação dos prejuízos. Atualmente, a equipe técnica realiza uma análise da documentação apresentada no ofício, que demonstra os danos, para avaliar "como a SES pode contribuir para a recuperação do hospital". Não há, no entanto, um prazo estipulado para essa definição.

A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) relatou que uma reunião junto ao estabelecimento ocorreu na última terça-feira, na qual técnicos conferiram in loco os transtornos. Com exceção das oncológicas, todas as primeiras consultas (de pacientes que estão iniciando acompanhamento) marcadas pelo SUS até o dia 20 de fevereiro foram canceladas.

Doações

A prefeitura confirmou que esse tipo de doação pode acontecer, que a instituição destinou uma conta própria para esse fim e que, depois, prestará contas.

Conforme o médico e diretor técnico do hospital, Fabiano Ramos, embora o hospital ofereça atendimento particular e por meio de convênios, a necessidade de doações ocorre porque o espaço afetado é voltado ao SUS, ao contrário da área destinada aos consultórios privados, que não foi atingida.

O HSL está operando com 90 consultórios fora de uso. Conforme a direção, os atendimentos mantidos estão sendo realizados no Centro de Reabilitação do hospital. Para isso, divisórias precisaram ser instaladas para possibilitar os atendimentos clínicos. No bloco cirúrgico, os atendimentos estão ocorrendo dentro da normalidade. Para doações, está sendo disponibilizada a chave pix: doacao.hsl@pucrs.br.

ISABELLA SANDER

26 DE JANEIRO DE 2024
DANIEL SCOLA

Mudança do clima

Um relatório divulgado recentemente pela rede de notícias britânica BBC, sediada em Londres, mostrou aquilo que sentimos na pele: 2023 foi o ano mais quente da história. A autoria do relatório, reverberado por toda a imprensa mundial, é da agência climática da Organização das Nações Unidas (ONU). A temperatura dos oceanos também está subindo. Os motivos são as mudanças climáticas pela interferência do homem na natureza.

Se ignorarmos esses e outros dados sobre o clima no planeta, quem vai sofrer mais são nossos filhos, nossos netos, nossos descendentes. No ano passado houve um aumento de 1,48ºC na temperatura da Terra. Cem anos atrás não era assim. Os gráficos mostram a curva subindo. Não é apenas uma opinião. É uma chamada de atenção para os dados reais.

Os verões e as primaveras em todos os continentes têm ficado mais quentes. Os invernos, menos frios. O calor é nosso inimigo, mas só vamos combatê-lo com um melhor comportamento de todos. Não podemos estigmatizar, mas também é verdade que não existem inocentes. Todos nós temos responsabilidade.

Não se trata de alarmismo, é apenas uma constatação que os números estão escancarando. O Acordo de Paris foi assinado em 2015 e previa a redução da emissão de gases que provocam o efeito estufa em mais de 40% até 2030. Outra promessa feita pelos 195 países que assinaram o acordo era aumentar a produção de bioenergia. Na época, faltavam 15 anos, agora faltam seis.

Ainda estamos sofrendo a incidência do fenômeno climático El Niño, que provoca o aquecimento do Oceano Pacífico e faz com que aconteçam mais tempestades. O fenômeno contribui para o aquecimento da Terra. Com o El Niño, a temperatura aumenta 0,2ºC por ano.

Poluímos mais, queimamos mais, desprezamos mais. Até as geleiras do Ártico estão derretendo mais depressa. Os polos são monitorados desde 1979 e nunca houve um degelo igual. O derretimento provoca a elevação do nível dos oceanos. O que fazer diante deste quadro alarmante?

Comecemos por uma mudança de comportamento. Vamos fazer a nossa parte. A responsabilidade é de todos.

DANIEL SCOLA


26 DE JANEIRO DE 2024
INFORME ESPECIAL

Bateu recorde, mas ainda falta muito

É assunto "chato", de finanças públicas, mas diz respeito a todos nós, pagadores de impostos: 2023 fechou com recorde na quitação de precatórios no Rio Grande do Sul. Foram pagos cerca de 15 mil títulos do tipo (dívidas do poder público com pessoas e empresas), no valor de R$ 2,7 bilhões.

Apesar do resultado positivo, é bom que se diga: ainda é pouco diante do tamanho do passivo do Estado, de R$ 16,8 bilhões (nada menos do que o triplo do orçamento anual da saúde).

A maior parte dos repasses, segundo dados da Central de Conciliação e Pagamento de Precatórios do Tribunal de Justiça, chefiada pelo juiz José Pedro de Oliveira Eckert, envolveu acordos diretos. Só aí, o Estado injetou R$ 1,77 bilhão, quitando 6,8 mil precatórios.

Cada acordo implica deságio de 40%. Ou seja: os precatoristas aceitam receber menos para ter o problema resolvido. Para o Estado, é um ótimo negócio. Para o credor, nem tanto, mas, do contrário, a espera na fila seria ainda maior. E já tem gente aguardando há tempo demais.

Por lei, o passivo precisa ser zerado até 2029. É um baita desafio, porque é muito dinheiro. Se a lei for descumprida, o governo estadual poderá ter as contas bloqueadas, o que afetaria a prestação de serviços e, por tabela, a vida de todos nós.

Para acelerar o ritmo dos pagamentos, o Palácio Piratini aposta em um empréstimo de US$ 500 milhões (R$ 2,5 bi)junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O recurso sai em 2024 e vai ajudar a cumprir a meta, mas não será suficiente. A solução da encrenca passa por mais recursos. A questão é: tirar o dinheiro de onde?

Cem anos

Amanhã é o aniversário de 100 anos de um leitor especial: o seu Alcandor Conill (foto). Morador de Cachoeirinha, ele assina ZH há três décadas e, segundo uma de suas netas, a jornalista Marília Conill Marasciulo, "faz questão de ler o jornal todos os dias". Mais do que isso: seleciona as reportagens favoritas para compartilhar com os familiares. Ele é o mais informado da turma.

- Lê a ZH de cabo a rabo - brinca Marília, orgulhosa.

As comemorações começam hoje, em Capão da Canoa, onde ele veraneia. Parabéns, seu Alcanor!

JULIANA BUBLITZ

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

 

OPINIÃO DA RBS

SERVIÇO RUIM, CONTA MAIS CARA

Brasileiros de vários pontos do país, sejam consumidores residenciais ou empreendedores, enfrentam nos últimos meses dissabores com o fornecimento de energia elétrica. O principal deles, como sabem bem os gaúchos, é a demora injustificada e reincidente para restabelecer o serviço após temporais. Se soma a esse aborrecimento a extrema dificuldade para entrar em contato com as concessionárias e obter qualquer informação.

Em meio à insatisfação com a qualidade do serviço, a população tomou conhecimento nesta semana de que as contas de luz devem subir, em média, 5,6% em 2024, conforme projeção da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). É uma alta superior à inflação esperada para este ano, de 3,86%, de acordo com o mais recente Boletim Focus, do Banco Central. Ou seja, ao mesmo tempo que há a percepção de piora na prestação de uma utilidade pública, surge a notícia de que esse serviço ficará mais caro. E sequer existe no horizonte prognóstico de risco de escassez de geração. O país segue com a bandeira tarifária verde, reflexo do quadro confortável na produção de energia.

Mesmo que, no caso atual, o aumento da fatura de luz não tenha relação direta com as distribuidoras, é uma combinação que faz o consumidor estrilar. Para o cidadão comum, que não conhece os meandros do setor, é um contrassenso ver a fatura subir em tempos de atendimento precário. Sente-se duplamente penalizado.

A principal razão para o encarecimento é o aumento dos subsídios embutidos na fatura via conta de desenvolvimento energético (CDE). Estes subsídios, que eram de R$ 18,8 bilhões em 2018, chegarão a R$ 37 bilhões em 2024. Em termos nominais, é um aumento de aproximadamente 100% em apenas seis anos. Representará 15% do total da tarifa.

Com uma matriz predominantemente hidráulica, o país tem uma geração de energia em regra barata, mas uma conta de luz cara, em boa medida por penduricalhos criados e enxertados na conta paga pelos consumidores.

O Executivo e, principalmente, o Congresso têm responsabilidade por este quadro, a toda hora cedendo a interesses específicos e criando benefícios setoriais que acabam onerando toda a sociedade. Um exemplo é o subsídio para a compra de óleo diesel para gerar energia em termelétricas localizadas em zonas isoladas. A privatização da Eletrobras, da mesma forma, foi contaminada com "jabutis" que preveem térmicas a gás em regiões onde não há o insumo. Isso obriga a construção de gasodutos bilionários, o que, ao fim, também impactará as tarifas de luz. 

Na recente discussão sobre eólicas no mar, no final do ano passado, a Câmara embutiu no projeto de lei a exigência da prorrogação da contratação de energia de usinas a carvão, mais caras e poluidoras. A própria geração distribuída, que tem como face mais conhecida os painéis solares nos telhados de residências e estabelecimentos, já recebeu incentivos suficientes nos últimos anos. Passou a ser naturalmente competitiva e, assim, chega o momento de continuar a se desenvolver sem os benefícios que já tiveram sua importância no passado. O custo de privilégios localizados, cumpre lembrar, é dividido pelos demais consumidores.

Passou da hora de um pente-fino nesses subsídios para que a sociedade os conheça no detalhe e seja feito um debate transparente sobre quais não se justificam e devem ser cortados. Enquanto isso, o ideal é evitar a criação de novos favorecimentos.

OPINIÃO DA RBS

CARPINEJAR

Os quatro filhos de Maria

Minha mãe, se fala publicamente de um filho, tem que falar dos quatro. Nunca fala de um isoladamente. Se comenta como eu me encontro para uma amiga dela, logo manda relatórios da Carla, do Rodrigo e do Miguel.

Às vezes, parece que somos gêmeos da informação. Surgindo por uma diferença de minutos do verbo materno.Talvez seja esta a maior proeza dos pais: não tomar partido, não favorecer nenhum dos seus rebentos. É uma moderação que exige alto poder de concentração.

Você passará a educação inteira na corda bamba, mantendo-se na linha reta de um fio tenso, sobre o abismo da implicância.Os filhos não facilitarão o trabalho, fazendo intrigas, provocando para que se adote um lado enquanto se engalfinham, reclamando que o presente de aniversário de um deles foi muito melhor ou mais caro.

Os elogios devem ser igualitários, as críticas devem ser padronizadas. Carinhos e farpas são porções diárias distribuídas harmonicamente. Se você abraça um, tem que abraçar o outro. Se beija um, tem que beijar o outro.

É viver abafando contradições, engolindo desaforos, controlando arrebatamentos, democratizando confidências.Você exercita a plenitude do amor com cada uma de suas crias, cuidando para não ostentar um favorito.

Maternidade e paternidade não são para amadores. Pratica-se uma invisibilidade do coração, quase uma missão secreta da sensibilidade, jamais dando a entender algum tratamento especial.

Filhos têm fases, períodos efusivos, em que se mostram mais próximos, e momentos distintos e refratários, em que se encasulam na distância. Não há recepção constante da parte deles, o que prejudica a performance. Filhos brigam, discutem, ficam de mal. E, mesmo nessa hora, você, como responsável, necessita se manter disponível e continuar com a atenção de antes, impedindo que os aborrecimentos alterem o seu julgamento ou agravem os impasses episódicos.

Há evidentes respingos de injustiça, efeitos colaterais de uma busca incansável por simetria.Um filho inocente é castigado por estar junto de quem realmente cometeu a traquinagem. Não existe como definir o verdadeiro culpado, portanto a turma inteira acaba trancada no quarto. Sem delação, condena-se o grupo.

Já paguei pecado pelos meus manos, meus manos já pagaram pecados por mim.Nas viagens, ou vão todos ou nenhum vai. Na hora da sobremesa, ou comem todos ou nenhum come.

Você somente pode oferecer o monopólio provisório na preocupação quando um filho enfrenta alguma crise, ou desespero, ou dificuldade pessoal ou profissional. É a única exceção para privilegiar alguém e exagerar na repetição de um nome nos telefonemas e nas conversas. É aquela ressalva da reza:

- Estou rezando pelo meu filho?

Minha mãe tem medo de destacar sua predileção. Ela até que dissimulou com talento ao longo dos anos, escondeu sua eleição afetiva com competência.Só que Rodrigo, Carla e eu já sabemos que ela mima o Miguel. Não é ciúme, e sim um fato incontestável por amostragem de citações no WhatsApp.

Ela compartilha mais vídeos dele, conta mais piadas dele e sempre confessa o seu orgulho pelo mais novo do quarteto.Mas perdoamos: o caçula realmente precisa de uma compensação por ter sido o último a receber o seu próprio quarto, a obter o seu espaço e a sua independência, a sair de casa.

É usucapião: permaneceu debaixo da saia materna para merecer a primazia.

CARPINEJAR

+ ECONOMIA

"Doce oficial" em Paris será gaúcho

Maior exportadora de doces do país, a Docile fez parceria com o Comitê Olímpico do Brasil (COB). A marca será o "doce oficial" do Time Brasil nos Jogos Olímpicos de Paris, de 26 de julho a 11 de agosto. A fabricante com sede em Lajeado poderá usar a marca oficial do COB em seus produtos, e o comitê poderá usar a marca da empresa.

A parceria foi formalizada na sede do COB, no Rio de Janeiro, na segunda-feira. Participaram Ricardo Heineck, sócio-diretor da Docile, representantes do COB e atletas parceiros, como a ginasta Rebeca Andrade. Por questões contratuais, o valor do acordo não foi informado.

- Foi o investimento mais ousado que já fizemos. Os valores dos atletas olímpicos têm tudo a ver com os da Docile, que são dedicação, superação, gentileza. É importante para a marca se tornar mais conhecida no meio esportivo - diz Heineck.

Desde 2022, a Docile tem como embaixadora a skatista Rayssa Leal, o que "abriu portas", segundo Heineck.

Problema será amanhã

A primeira greve geral no governo de Javier Milei, convocada apenas 45 dias depois da posse, teve origem política. O apoio de vários opositores, entre os quais o governador da província de Buenos Aires, o kirchnerista Axel Kicillof, confirmou. Essa origem não tira nem acrescenta mérito à mobilização, mas precisa ser reconhecida porque a combinação entre o azedume da crise em que a Argentina já estava mergulhada e o amargor das medidas de Milei pode mudar a gênese dos protestos.

O objetivo foi pressionar os congressistas a não aprovar a "Lei Ómnibus" de Milei. Entre as propostas polêmicas que sobreviveram aos recuos, estão as que minam a própria existência dos sindicatos. Líderes sindicais como Pablo Moyano e Héctor Daer acusaram Milei de querer "destruir o Estado" e propuseram "luta até que se rejeite o DNU (o decreto, que também precisa da chancela do Congresso para produzir efeitos) e a Lei Ônibus".

Como a coluna já relatou, mas sempre é bom lembrar, o movimento sindical na Argentina tem muito mais força do que no Brasil. Não só por questões socioculturais, mas porque movimentam grandes quantias como intermediários na assistência médica aos trabalhadores. Por isso, têm musculatura financeira e logística para produzir grandes mobilizações como a de ontem.

Esse poder enfrentou desgaste popular nos últimos anos. Ao longo do governo de Alberto Fernández, marcado pelo aprofundamento da crise, quase não houve protestos. Como a vida não estava fácil, os sindicatos foram cobrados por não reclamar de nada. Uma das mudanças anunciadas às vésperas dos protestos foi a correção das aposentadorias - até março, subirão 35% ante inflação trimestral de 76%. Quando passar a ser mensal, será com dois meses de atraso. Esse é o risco que Milei corre: se os protestos deixarem de ser políticos e refletirem o desespero do empobrecimento, aí será problema.


TULIO MILMAN

Em construção

Vem aí uma mudança inevitável: na hora de construir ou comprar imóveis, a resistência a chuva forte e ventanias passará a ser um fator cada vez mais fundamental de decisão. O Brasil bateu recorde de desastres naturais em 2023. A recente tempestade que passou pelo Rio Grande do Sul foi um deles. Ao que tudo indica, outros virão.

Como sempre, as pessoas mais pobres, as que menos contribuem para a destruição do planeta e para as mudanças climáticas, são as que pagam a maior parte da conta. É humanamente injusto e economicamente equivocado, entre outros motivos, pela pressão, cada vez maior, dos efeitos desses eventos nos caixas das famílias de menor renda, das prefeituras e dos governos. Dignidade econômica é o caminho inevitável do capitalismo. Quanto mais gente com educação, saúde e poder de consumo, em uma nova realidade sustentável, melhor para todos.

A partir de agora, porém, não serão apenas os casebres de madeira que enfrentarão as consequências de um modelo de sociedade que precisa evoluir, em nome da liberdade e do desenvolvimento.

Boa parte dos amigos que moram em coberturas teve prejuízos na mais recente tempestade. Destelhamentos, inundações, vidros quebrados. Alguns já pensam em se mudar para andares mais baixos. As coberturas são as primeiras a serem repensadas, das esquadrias ao volume de escoamento de água nos espaços abertos.

Um amigo que veio do Interior para Porto Alegre me revelou um dos principais critérios usados para comprar o imóvel onde mora: fica perto de um hospital. Logo pensei que ele tinha alguma doença, ou que algum familiar tivesse. Nada disso. Ele leu em algum lugar que as regiões onde existem unidades de saúde são as primeiras atendidas quando falta luz e, por isso, são também as primeiras a terem a energia restabelecida.

O próprio conceito de "área de risco" será revisto, ampliando as suas fronteiras, ou mesmo acabando com elas.

Penso nos esforços que as construtoras, os corretores e as agências de marketing terão de fazer para incluir nas suas peças de venda atributos que deixem os compradores seguros.

Hoje, tenho certeza, quem procura uma casa ou apartamento presta atenção nos acabamentos, na orientação solar e na vizinhança. Mas também olha com atenção redobrada para tudo o que tem relação com resistência a vento e chuva.

É o novo normal. Temo que nos adaptemos.

TULIO MILMAN

INFORME ESPECIAL

Ouça o som que vem de Pelotas

Até amanhã, Pelotas, no sul do Estado, recebe um dos maiores eventos de música de concerto da América Latina. É como se a Capital do Doce se transformasse, de repente, na Cidade dos Sons: do violino, do trombone, da harpa, da percussão, por todos lados, em todos os cantos. Todos mesmo: no teatro, na igreja, no caminhão, em lojas e até na praia e no hospital.

Desde o último dia 15, 63 apresentações públicas e gratuitas dão vida ao Festival Internacional Sesc de Música (veja as fotos). É algo para ser valorizado.

Além dos shows, há cursos de instrumentos, de canto, de choro, música de câmara, prática de orquestra e banda sinfônica, com bolsas integrais e parciais. O evento recebe 400 alunos de 22 Estados e cinco países, ávidos por aprender com 46 professores - entre eles, Liviu Prunaru, spalla (primeiro violino) da Concertgebouw Orchestra, de Amsterdã.

Este talvez seja um dos mais bem acabados exemplos, no Rio Grande do Sul, de como é possível multiplicar os benefícios da cultura. Isso significa, por tabela, desenvolver o comércio local, estimular o turismo e gerar receita para o município.

Desde a abertura, o público está sempre presente. Em algumas apresentações, há filas. É a arte ao alcance de qualquer pessoa.

- A comunidade nos abraçou. Absolutamente todos os espetáculos lotam. Nas apresentações na Praia do Laranjal, chegamos a ter 8 mil espectadores - conta o diretor artístico do festival, Evandro Matté, maestro da Orquestra Sinfônica da Capital (Ospa).

A ideia nasceu em 2011 e, desde então, é levada a cabo pelo Sistema Fecomércio, por meio do trabalho incrível do Sesc e do Senac, em parceria com o Ministério da Cultura. Há, também, uma série de parceiros e apoiadores, entre eles a prefeitura. E sabe por que funciona? Porque muita gente acreditou - e acredita - que é possível fazer.

Chaves Barcellos

Estão em andamento obras de conservação da Pia Instituição Pedro Chaves Barcellos, o tradicional casarão erguido em 1923 nos altos do bairro Rio Branco, na Capital. O prédio, que sediou a mostra CasaCor em 2022, vai virar uma escola. A pintura das áreas externas e internas foi garantida com uma doação das Tintas Renner by PPG. O edifício é um patrimônio e merece ser preservado.

JULIANA BUBLITZ

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024


24 DE JANEIRO DE 2024
cARPINEJAR

Pilhar crianças?

Fraudar livros didáticos é uma daquelas incompreensões até para o sindicato dos ladrões: pilhar escolas públicas? Saquear crianças? GZH, a partir de seu grupo investigativo, descobriu galpões com material didático da Secretaria Municipal de Educação (Smed) apodrecendo, sem ter sido repassado para a rede de ensino.

O escândalo de desperdício de dinheiro público desencadeou a renúncia da secretária Sônia da Rosa, em junho do ano passado. Agora, a denúncia está nas mãos da Polícia Civil, que investiga possíveis fraudes entre empresas suspeitas e a Smed. Vêm sendo examinadas 11 licitações.

Na manhã de ontem, iniciou-se a Operação Capa Dura, que prendeu quatro pessoas, entre elas a própria ex-secretária de Educação da Capital.

A pasta adquiriu 544 mil livros em 2022 com irregularidades comprovadas pela polícia. O gasto se mostra na ordem de R$ 34 milhões. Tudo é muito estranho mesmo. O valor de cada livro, na faixa unitária de R$ 62,50, está acima do preço praticado quando se trata de compra governamental em grandes quantidades.

Usando como referência o governo federal, o livro que é adotado pelo Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) costuma apresentar uma redução pela editora de 80% a 90% do preço de capa.

Ou seja, parece que o preço dos livros adquiridos pela Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre não seguiu as porcentagens de desconto de lotes e tiragens exclusivas. Não foi rigorosamente adaptado para os moldes licitatórios.

De acordo com pesquisa realizada pela Nielsen Bookscan e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), o preço médio do livro em 2023 era de R$ 46,39 - permanece muito distante de R$ 62,50 por unidade.

Tampouco é praxe fazer aquisições volumosas de títulos desconhecidos. Não se arrebatam centenas de milhares de livros de conteúdo pedagógico (meio milhão!) sem consagração devida entre os pesquisadores ou leitores.

Os livros investigados são desconhecidos do grande público: - Coleção Aprender Mais, reforço de português e matemática, preparatório para o Saeb

- Educação Ambiental e Sustentabilidade

- Empreendedorismo e Projetos de Vida

- Educação Financeira e Consumo

- Projeto Aventura na Leitura

O que chama atenção é que não há autor mencionado na capa em nenhum deles. Não é um procedimento-padrão no mercado editorial. Sempre existe um organizador ou um professor responsável pelo material apresentado, capaz de conferir credibilidade e assumir a legitimidade das reflexões, das formulações, dos exercícios e do embasamento teórico, com o compromisso de mencionar e detalhar as suas fontes.

Trata-se de uma exigência de qualidade, um pré-requisito de proteção do copyright, ainda mais em tempos de manipulações por inteligência artificial.

São questionamentos que causam estupor.

As justificativas para a aquisição são igualmente estrambólicas. Aplicou-se um tipo de licitação conhecido como "carona", aproveitando-se licitação realizada por outro ente público. Nesse caso, uma compra realizada pelo governo de Sergipe. Não foi esclarecida ainda a ligação do ensino de Porto Alegre com o de Sergipe.

Houve seleção criteriosa? Ou as coleções foram produzidas às pressas para atender a uma demanda de cartas marcadas? Cabe à Polícia Civil responder o quanto antes. Só sei que os livros-alvo da polêmica não são clássicos, estão longe de ostentar capa dura.

CARPINEJAR

24 DE JANEIRO DE 2024
OPINIÃO DA RBS

O INTERESSE DA SOCIEDADE

Devem ir a fundo as apurações da Polícia Civil para esclarecer por completo as suspeitas de fraude licitatória e associação criminosa que cercam a aquisição de material didático e de literatura pela Secretaria Municipal de Educação (Smed) da Capital. O caso, revelado em junho do ano passado pelo Grupo de Investigação (GDI) da RBS, teve um importante capítulo ontem, com a deflagração da Operação Capa Dura. 

Diversos mandados de busca e apreensão foram cumpridos e quatro prisões temporárias, efetuadas. Aguarda-se, da mesma forma, que todas as condutas individuais sejam esclarecidas e que as pessoas que, eventualmente, tiverem suas culpas comprovadas na Justiça sejam responsabilizadas pelos seus atos, após terem exercido amplo direito de defesa.

Precisa ser ressaltado que esse é mais um episódio a demonstrar a relevância do jornalismo investigativo e da imprensa profissional para a sociedade. Cumpre lembrar que foram os repórteres Adriana Irion e Carlos Rollsing os responsáveis por puxar o fio da meada desse caso rumoroso e que terá novos desdobramentos. 

As primeiras revelações indicavam um possível desperdício de verba pública com a aquisição, pela Smed, de chromebooks, materiais didáticos, de recreação e esportivos, mantidos armazenados em depósitos da prefeitura, sem serem distribuídos para as escolas. Ou seja, não estavam cumprindo os objetivos para os quais foram comprados com o dinheiro dos contribuintes.

Após a divulgação da informação, a prefeitura se apressou para corrigir a distribuição e fazer com que os materiais chegassem aos alunos. Se toda a história se limitasse a esse ponto, já teria sido um serviço importante prestado pelo jornalismo, ao ajudar a corrigir uma falha do poder público. Mas foi sendo constatado ao longo das semanas e meses seguintes que não se tratava apenas de um problema de inépcia e "de logística", como chegaram a defender membros da administração municipal.

Ao longo do tempo, os indícios de irregularidades e direcionamento das aquisições para um determinado grupo econômico foram se fortalecendo. Ministério Público (MP), Polícia Civil e Tribunal de Contas do Estado (TCE) também se debruçaram sobre os pontos de sombra do caso. Duas CPIs foram abertas na Câmara de Vereadores da Capital, mas a articulação governista trabalhou para minimizar as conclusões e as repercussões.

A população paga impostos esperando que os recursos recolhidos sejam bem aplicados, com ganhos para a coletividade.

Uma das principais tarefas da imprensa é estar atenta aos atos do poder público, em nome dos interesses da sociedade. Há pautas com maior grau de complexidade, intrincadas. Requerem um trabalho ainda mais acurado e persistente. Aí entra o valor do jornalismo investigativo, que exige dose extra de tenacidade e preparo dos profissionais. Demanda ainda convicção das empresas de comunicação em relação à necessidade de investir recursos e tempo para a apuração ser bem conduzida, com correção e técnica, gerando consequências.

Publicar uma denúncia, portanto, não é o objetivo em si de uma investigação jornalística. O propósito, ao final, é corrigir distorções e trazer benefícios à sociedade. É algo ainda mais relevante quando estão em jogo verbas usadas em serviços essenciais, como a educação, uma área desafiada a ter seu desempenho melhorado em todo o país. A Capital não é exceção.

OPINIÃO DA RBS


24 DE JANEIRO DE 2024
pOLÍTICA +

Cai diretor-geral do Detran-RS

Saiu no Diário Oficial do Estado a exoneração do diretor-geral do Detran, Mauro Caobelli, a contar de 22 de janeiro (segunda-feira).

Caobelli pediu exoneração do cargo. Os motivos não foram informados à equipe nem divulgados pelo Piratini. Até a indicação do substituto de Caobelli, o Detran-RS ficará sob comando do diretor-geral adjunto, Rafael Mennet.

Servidor efetivo da autarquia desde 2013, Mennet é advogado e tornou-se chefe da Divisão de Contratos em 2015, função que exerceu até 2019, quando passou a ser assessor da Diretoria-Geral.

Ele é graduado em Direito pela UniRitter (1998), com especialização em Direito de Trânsito (PUC, 2005).

A Operação Capa Dura é uma vitória maiúscula do jornalismo em geral e dos repórteres Adriana Irion e Carlos Rollsing, que não se conformaram com explicações vazias e mergulharam na investigação, porque sabem que está em jogo o dinheiro público.

Da teoria à prática na educação

Comprometido com a pauta da educação desde o começo de sua gestão, o deputado Vilmar Zanchin (MDB) apresentou ontem um balanço das ações da Assembleia nos últimos 12 meses, período em que comandou a Casa.

A principal realização de Zanchin é a aprovação do Marco Legal da Educação, iniciativa que nasceu no Parlamento e ganhou corpo com o apoio do Piratini.

No balanço, o deputado relembrou o longo caminho de audiências públicas, debates regionais e conversas com especialistas que permitiram formular a legislação. Agora, se inicia a parte mais difícil: tirar do papel e implementar as diretrizes e metas para elevar a qualidade do ensino público.

Ciente disso, Zanchin irá propor a instalação da Frente Parlamentar da Educação, que terá como objetivo acompanhar as ações previstas no Marco Legal. Para isso, a ideia é criar e estruturar um Observatório da Educação.

- Nós temos pela frente um desafio enorme para melhorar os indicadores educacionais no Rio Grande do Sul, recuperar o tempo perdido e preparar o nosso capital humano -discursou Zanchin.

A atual gestão deixa uma lista de reformas físicas na Assembleia. A começar pelo plenário 20 de Setembro, que recebeu obras de melhoria e modernização. Antes de sair, Zanchin encaminhou a licitação para a reforma do Teatro Dante Barone.

ROSANE DE OLIVEIRA

24 DE JANEIRO DE 2024
MÁRIO CORSO

Crítica literária ao manual de instruções

Um leitor onívoro, que aprecia a leitura de um modo mais amplo, tende a aborrecer-se com os manuais de instruções. São demasiado toscos, de uma objetividade canhestra. A prosa é um deserto lírico, o grau zero da metáfora. Os fabricantes reclamam que o consumidor não lê manuais, mas é de se perguntar: quem quereria ler tal garrancho de sentido?

A essência de um manual é perpassada pela mesma lógica com que as pessoas apresentam suas casas. Exemplo: - Aqui temos a cozinha! Uma informação deveras útil, pois sem ela, o visitante pode pensar que o dono é um tonto que coloca fogão e geladeira em uma sala. Enfim, o manual entrega o que o leitor já sabe e não esclarece suas ânsias.

É impossível obter uma informação útil, sem passar por platitudes: retire o aparelho da caixa, parafuse os parafusos com uma chave de fenda, verifique se está ligado à tomada? Tudo chega mastigadinho até que, no pulo do gato, entra o sadismo. Exemplo: para encaixar a peça, gire o pino à esquerda segurando a lingueta, pressione o anel superior na direção contrária da mola na fenda do suporte e solte-a alinhada ao rolamento. Simples!

A bula de remédios é um subconjunto dos manuais, mas com um espírito próprio. O medo do uso incorreto de medicamentos e as normativas a respeito tornaram as bulas todas iguais e igualmente confusas. É científico e está tudo ali. Porém, dentro daquela barafunda de informações e advertências, onde diz se são duas ou três pílulas ao dia?

A primeira etapa da bula é desembrulhar o origami. É usado o princípio do mapa de papel, uma vez aberto, jamais será fechado da mesma forma. O resultado da tentativa leiga em recolher aquela "toalha", terá em média o dobro do tamanho original, não cabendo de volta na caixa. Quando a bula abrir em tamanho razoável, busque a lupa.

Comparada aos anteriores - e só a eles -, a receita culinária é o lado solar dos manuais. A receita é contagiada pelo encanto dos ingredientes, o aroma dos temperos, a vontade de provar o resultado. O tema agradável minimiza o estilo tedioso e insípido de como é descrita a sucessão dos passos da preparação da comida.

Embora momentaneamente úteis, os manuais são um fracasso como literatura. Exceção à bula, que desperta angústia hipocondríaca, eles não emocionam nem suscitam reflexão. É desanimador, falta humor, falta paixão, o leitor sai espiritualmente vazio após a leitura.

MÁRIO CORSO

24 DE JANEIRO DE 2024
INFORME ESPECIAL

Respeita elas

Carnaval é época de folia e de diversão, mas os casos de assédio sexual são frequentes. Pensando nisso, a ONG Themis - Gênero, Justiça e Direitos Humanos lança, nesta sexta-feira, a segunda edição da campanha Respeita as Gurias na Folia, com distribuição de leques contendo a advertência. Com foco no público jovem, a ação será na tradicional Descida da Borges, que marca o início da festa em Porto Alegre.

Produção Maria C. Centeno

Quem acompanha o trabalho da Giane Guerra (no detalhe) no Grupo RBS, destrinchando temas econômicos com a seriedade que o assunto exige, não imagina o coração mole que existe ali. Giane é uma mulher simples, apaixonada pelo marido, Jocimar Farina, e pelos filhos Atena e Gael. E sabe qual é o programa preferido dela? Os "passeios da mamãe".

Isso mesmo. É assim que a família chama as "aventuras" que Giane inventa aos finais de semana, com atividades ao ar livre e estradas de chão.

Foi por isso que não resisti: pedi a ela uma indicação "da mamãe". A sugestão não poderia ser melhor: "um rincão de natureza rústica", nas palavras dela, com o carimbo de um dos nossos maiores ecologistas.

- Um dos melhores passeios que já fiz com a família foi um domingo no Rincão Gaia, na divisa entre Pantano Grande e Rio Pardo. A área era uma antiga jazida de basalto, que teve a vegetação exterminada. O plano era transformá-la em aterro, mas o ambientalista José Lutzenberger abraçou o local para recuperá-lo. Hoje, está lindo e tornou-se uma reserva linda, rica para passar o dia e ter uma imersão em educação ambiental - diz ela.

Na visita que fez ao local, a família teve o privilégio de ser guiada por Lara, filha de Lutz e atual presidente da Fundação Gaia.

- Lara é cheia de conhecimento e paixão. Desperta curiosidade, ao mesmo tempo em que é curiosa pela troca de conhecimento com os visitantes - conta Giane.

No local, "a natureza permanece lindamente rústica, sem grandes intervenções".

- Visite o Rincão Gaia. Ele precisa desse apoio. Pensando bem, nós precisamos muito mais do Rincão Gaia do que ele de nós - arremata Giane.

JULIANA BUBLITZ

terça-feira, 23 de janeiro de 2024


23 DE JANEIRO DE 2024
LUÍS AUGUSTO FISCHER

A capital

Me sinto meio boçal ao contar coisas pessoais aqui. Mas talvez tenha algum sentido para além de conter memórias minhas o que vou relatar. Espero.

Estou encerrando daqui a uma semana uma estada de um semestre aqui nos Estados Unidos, na sensacional universidade de Princeton. Não conhecia a terra do tio Sam - isto é, conhecia como alguém do nosso tempo, que por simplesmente respirar no Ocidente conhece muita coisa do país sem precisar estar aqui. Muito bang-bang eu vi, num processo de educação sentimental fortíssimo e invisível.

Preciso explicar que esse termo designava um volume infinito de filmes e séries que tematizavam, como o nome sugere, a conquista do Oeste a poder de tiros. Quem conquistava o Oeste? Os brancos do Leste, os pioneiros e o exército, num processo que se consolidou no último terço do século 19 e veio firme até a Primeira Guerra Mundial.

O ponto é: a quem era conquistado o Oeste? Quem perdeu? Os nativos, os indígenas. Quem é da minha geração ouviu milhares de vezes os nomes Comanche, Cherokee, Sioux. Eram os inimigos, a não ser que aceitassem a chegada dos brancos. Eu mesmo, criança, dei tiros imaginários em muitos nativos. Sim, também tive um brinquedo chamado Forte Apache (outro nome indígena frequente).

Na derradeira viagem interna que fizemos, neste fim de semana, fomos a Washington DC, a capital Imperial, com avenidas e prédios que lembram a monumentalidade da antiga Berlim oriental ou de Brasília.

Lá visitamos, com certa minúcia, dois museus. O nome completo de um é, traduzido, Museu Nacional de Cultura e História Afro-Americana, muito impressionante, com um viés pedagógico forte, com uma visão contemporânea dos aspectos históricos do processo. (A parte de cultura eu achei meio frustrante, dado o imenso, infinito poder da cultura produzida por afro-americanos, em todos os campos possíveis.)

O outro se chama, cito em inglês porque tem uma disputa de nomes, National Museum of the American Indian - hoje a preferência vai, como no Brasil, para "indígenas" e não "índios", ou então, aqui, para "native nations", nações nativas. Impressionante, com toda uma paisagem envolvida, que começa nos canteiros externos, já trazendo plantas e estratégias nativas.

Também pedagógico, este museu oferece, ao lado de um sentido de reparação histórica, um traço comparativo, sempre: menciona um evento, um tratado, um massacre, e os painéis de texto oferecem a visão branca ao lado da indígena, evidenciando o que precisa ser evidenciado - da pura hipocrisia à disputa política complexa. Uma lição, que o Brasil deveria aprender.

LUÍS AUGUSTO FISCHER