A glória e a desgraça
O que realmente encanta e comove no esporte mais popular da Terra são os heróis e vilões improváveis. Nessa condição, pelo lado positivo, despontou o goleiro Vozinha, de Cabo Verde, que ajudou a seleção de seu país a alcançar o feito histórico de, na condição de estreante, alcançar a fase eliminatória do Mundial. Aos 40 anos, o cabo-verdiano Josimar José Évora Dias consagra-se como herói nacional ao mesmo tempo em que se torna símbolo de resistência ao etarismo e de superação a adversidades, por seu passado de menino pobre criado pela avó.
Do lado ruim da moeda do destino ficou seu colega de posição, o uruguaio Fernando Muslera, também de 40 anos, que cometeu falhas em jogos importantes e acabou sendo apontado por torcedores e cronistas esportivos como principal responsável pela eliminação da seleção do seu país.
Muslera, que nasceu na Argentina, mas iniciou sua carreira exitosa em clubes uruguaios, entrou na sua quinta Copa como ídolo de três continentes (foi campeão também pela Lázio da Itália e pelo Galatasaray da Turquia) e saiu amaldiçoado por seus patrícios. Foi substituído no intervalo do jogo decisivo sem estar lesionado, quase uma condenação sumária.
Seu drama me fez lembrar outro Fernando, o Pessoa, que sentenciou num de seus poemas mais célebres: "Os deuses vendem quando dão,/ compra-se a glória com desgraça." Penso que os deuses do futebol foram demasiado cruéis com Muslera, mas acredito que ele conseguirá superar esse momento de desamparo porque, no futebol, só os mais corajosos escolhem jogar numa posição que não tolera erros.

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